Superdotação, transtorno de déficit de atenção/hiperatividade e dupla excepcionalidade: um estudo de indicadores e habilidades sociais
Fundamentação teórica
Panorama das publicações que
relacionam a superdotação ao TDAH,
no período de 2009 a 2018
Com o objetivo de explorar o conhecimento científico sobre a associação da Superdotação com o TDAH, o trabalho de revisão e sistematização da literatura se torna imperioso. “A revisão sistemática é um método que permite maximizar o potencial de uma busca, encontrando o maior número possível de resultados de uma maneira organizada.” (COSTA; ZOLTOWSKI, 2014, p. 56).
A fim de proceder a essa revisão, seguimos os pressupostos de Costa e Zoltowski (2014), fundamentados em Akobeng (2005), os quais consistem na delimitação da questão a ser pesquisada; escolha das fontes de dados; eleição dos descritores; busca e armazenamento dos resultados; seleção de artigos pelo resumo, de acordo com critérios de inclusão e exclusão (quando possível e necessário, acessávamos o texto na íntegra); extração dos dados dos artigos selecionados e sua avaliação; e, após essas etapas, concretização da síntese e interpretação (AKOBENG, 2005).
Para efetuar essa revisão bibliográfica, foram realizados levantamentos em seis bases de dados: Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Portal de Periódicos do Scientific Eletronic Library Online (SciELO), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Education Resources Information Center (ERIC) e PubMed. Essas bases de dados foram selecionadas por reunirem um grande número de publicações, o que facilita as buscas em âmbito nacional e internacional.
Foram usados os descritores gifted e adhd, hyperactivity e attention deficit hyperactivity disorder, em inglês, além de adotados “Altas Habilidades”, “Superdotação”, “talento”, “dotação” e
“precocidade”3, juntamente com o descritor “TDAH”, “transtorno de déficit de atenção/hiperatividade” e “hiperatividade”. Entre eles, foi utilizado o operador booleano “AND” e, assim, foram formadas dezoito strings (conjuntos de descritores com operadores booleanos): gifted AND adhd, gifted AND hyperactivity, gifted AND attention deficit hyperactivity disorder, “Altas Habilidades” AND “TDAH”, “Altas Habilidades” AND “transtorno de déficit de atenção/hiperatividade”, “Altas Habilidades” AND “hiperatividade”, “Superdotação” AND “TDAH”, “Superdotação” AND “transtorno de déficit de atenção/hiperatividade”, “Superdotação” AND “hiperatividade”, “talento” AND “TDAH”, “talento” AND “transtorno de déficit de atenção/hiperatividade”, “talento” AND “hiperatividade”, “dotação” AND “TDAH”, “dotação” AND “transtorno de déficit de atenção/hiperatividade”, “dotação” AND “hiperatividade”, “precocidade” AND “TDAH”, “precocidade” AND “transtorno de déficit de atenção/hiperatividade” e, finalmente, “precocidade” AND “hiperatividade”.
Como critérios de inclusão dessa revisão, elencamos:
1. Ter sido publicado no intervalo temporal de 2009 a 2018.
2. Possuir no assunto, título, resumo ou palavras-chave os
descritores citados.
3. O objeto de análise ter sido a dupla excepcionalidade
(Superdotação e TDAH) ou a relação entre a Superdotação e o TDAH.
4. Ser caracterizado como relato de pesquisa (foram
desconsiderados livros, resenhas e ensaios teóricos).
O primeiro levantamento em bases de dados ocorreu no banco de teses e dissertações da CAPES. Dessa maneira, foram levantadas 102 produções. Destas, 85 foram consideradas falsos positivos e 14 estavam repetidas, de modo que somente três contemplavam os critérios de inclusão e foram analisadas. Estas estão alocadas no
Quadro 1.
Quadro 1 - Publicações levantadas na BDTD da CAPES
NÍVEL BASE
TÍTULO ANO AUTOR DE DE UNIVE
ENSINO DADOS
Habilidades sociais de 2011 FREITAS, Dortorado BDTD-UFSCA crianças com L. C. CAPES diferentes
necessidades
educacionais
especiais:
comparações
múltiplas.
Transtorno de déficit 2013 SILVA, D. Mestrado BDTD-UFSCA de atenção e M. A. CAPES hiperatividade em
superdotados: um
estudo de frequência
de sintomas e
alterações físicas
menores.
Indicadores de 2016 MASSUDA, Mestrado BDTD-UFSCA dotação em educandos M. B. CAPES diagnosticados com
transtorno de déficit de
atenção/hiperatividade.
Fonte: Elaboração própria.
Nas buscas realizadas no Portal de Periódicos da CAPES, no Portal de Periódicos SciELO, na base de dados ERIC, na LILACS e PubMed foram encontrados 256 resultados, sendo 123 falsos positivos. Muitas das produções se repetiam nas diversas strings (102); assim, somente 31 foram consideradas para análise.
Como muitas produções coincidem nas quatro bases de dados supracitadas, o levantamento foi alocado em um único quadro, o
Quadro 2.
Quadro 2- Publicações levantadas na base de dados ERIC, LILACS
SciELO, CAPES e PubMed.
B
TIPO DE
TÍTULO ANO AUTOR
PUBLICAÇÃO
D
The relationship between 2009 ORENDORF, Dissertação de ER ADHD and giftedness. K.A. Mestrado
Preservice teachers 2009 RINN A N; Artigo de ER perceptions of behaviors NELSON J. Periodico. characteristic of ADHD and M giftedness. **
Le trouble déficitaire de 2009 SIMOES Artigo de CA lattention chez lenfant à haut LOUREIRO, Periodico. potentiel: étude exploratoire. I. et al.
Identifying twice-exceptional 2010 SUMIDA, M. Artigo de ER
children and three gifted Periodico. styles in the japanese
primary science classroom.
**
Signes dappel et troubles 2010 ROBERT, G. Artigo de Pu associés chez les enfants à et al. Periodico haut potentiel. **
Self-esteem and self concept 2012 FOLEY- Artigo de ER examination among gifted NICPON M Periodico CA students with ADHD. ** et al.
Overexcitabilities and ADHD 2012 RINN, A N.; Artigo de ER
in the gifted: an examination REYNOLDS Periodico CA ** MJ
Produções não disponíveis na íntegra gratuitamente. Fonte: Elaboração própria.
B
TÍTULO ANO AUTOR PUBLICAÇÃO TIPO DE
D
Examining parent and 2012 WOOD, S.C. Artigo de ER teacher perceptions of Periódico. CA behaviors exhibited by gifted
students referred for ADHD
diagnosis using the Conners
3.
An investigation of cognitive 2012 ALLOWAY, T. Artigo de ER
skills and behavior in high P ELSWORT Periodico ability students. H, M.
Efficacy of Methylphenidate 2012 GRIZENKO, Artigo de CA
in ADHD children across the N. et al Periodico LI normal and the gifted e
intellectual spectrum. Pu
Prevalence of Attention 2012 NIUSHA, B.: Artigo de CA Deficit / Hyperactivity GANJI, K.; Periodico. Disorder (ADHD) Symptoms SOTODEH. in Middle School Gifted M. Students of Kohgiluyeh &
Boyer-Ahmad Province in
2010 2011.
Capacidades Intelectuales 2012 IRUESTE, Tese de LI Diferenciales en ninos P.G. Doutorado designados por sus
docentes como dispersos e
hiperactivos.
Produções não disponíveis na íntegra gratuitamente. Fonte: Elaboração própria.
B
TÍTULO ANO AUTOR PUBLICAÇÃO TIPO DE
D
Attention deficit 2013 SHIVE, L. Artigo de ER hyperactivity disorder, Periodico. sensory processing disorder,
and overexcitabilities: similar
behaviors, different
diagnoses. **
Creativity and working 2013 FUGATE, C. Artigo de ER memory in gifted students M.; Periodico with and without ZENTALL, characteristics of attention S.S.: deficit hyperactive disorder: GENTRY, M. lifting the Mask.
Habilidades sociais de 2013 FREITAS, L. Artigo de Sc crianças com diferentes C.; DEL periodico necessidades educacionais PRETTE, especiais: avaliação e Z.A. P. implicações para
intervenção.
Anxiety and Social Skills in 2013 REED, W.S. Dissertação de CA
Children with High Mestrado Intellectual Ability and
AttentionDeficit/Hyperactivity
Disorder
Inquiry-based instruction 2014 HUA, O.; Artigo de ER within a community of SHORE, B. Periodico. practice for gifted-ADHD M.; MAKARO college students. ** VA, E.
Produções não disponíveis na íntegra gratuitamente. Fonte: Elaboração própria.
B
TÍTULO ANO AUTOR PUBLICAÇÃO TIPO DE
D
Expert-recommended 2014 MOODY, C. Dissertação de ER strategies for teaching the J. Mestrado. twice-exceptional student in
the general education
classroom. **
An operational definition of 2014 REIS, S.M.; Artigo de ER twice-exceptional learners: BAUM. S.M. Periodico CA implications and BURKE, E. applications.
Categorias de necessidades 2014 FREITAS, L Artigo de Sc
educacionais especiais C. DEL Periodico LI enquanto preditoras de PRETTE, Z déficits em habilidades A P. sociais na infância.
Individuals with a 2015 LEE, K Y M.; Artigo de ER gifted/attention OLENCHA Periodico.
K.F.R.
Giftedness and ADHD: 2015 MULLET, D. Artigo de ER identification, misdiagnosis, R.; RINN, A Periodico and dual diagnosis. ** N.
Neurodevelopmental 2015 WHITAKER Artigo de CA approach to understanding A. M. et al. Periodico. LI memory processes among e
intellectually gifted youth Pu
with attention-deficit
hyperactivity disorder. **
Produções não disponíveis na íntegra gratuitamente. Fonte: Elaboração própria.
B
TÍTULO ANO AUTOR PUBLICAÇÃO TIPO DE
D
Transtorno de déficit de 2015 SILVA D.M. Artigo de Sc atenção e hiperatividade e ROHDE, L.A. Periodico. LI Superdotação intelectual: um e
estudo de frequência de Pu
sintomas e anomalias físicas
menores
Gifted students with a 2015 PFEIFFER, Artigo de LI coexisting disability: the S.I. Periodico. twice exceptional
A dupla-excepcionalidade: 2015 ALVES, R.; Artigo de LI relações entre Altas NAKANO T. Periodico Habilidades/Superdotação C. com a sindrome de Asperger,
transtorno de déficit de
atenção e hiperatividade e
transtornos de aprendizagem
Understanding adolescent 2016 FUGATE, C. Artigo de ER gifted girls with ADHD: M.; GENTRY, Periodico. CA motivated and achieving. ** M.
Take a byte: technology for 2016 COLLINS, L. Artigo de ER 2e students ** E. Periodico
An evidenced-based 2016 ROMMELSE, Artigo de CA perspective on the validity of N. Periodico. LI attention-deficit/hyperactivity e
disorder in the context of Pu
high intelligence.
Doble excepcionalidad: 2016 GOMEZ- Artigo de Sc análisis exploratorio de ARIZAGA M Periodico experiencias y autoimagen P. et al. en estudiantes chilenos.
Produções não disponíveis na íntegra gratuitamente. Fonte: Elaboração própria.
B
TÍTULO ANO AUTOR PUBLICAÇÃO TIPO DE
D
Altas capacidades 2017 LUQUE- Artigo de CA intelectuales y Transtorno de PARRA, D.J. Periódico Déficit de Atencion con L.: LUQUE-Hiperactividad: a proposito ROJAS, de un caso. DIAZ, R.H.
Produções não disponíveis na íntegra gratuitamente. Fonte: Elaboração própria.
Tendo em vista todas as bases de dados selecionadas para esta revisão, 34 produções foram levantadas, dezoito das quais estão disponíveis gratuitamente na internet. Quanto ao idioma de publicação, a maioria delas está em inglês (21), sete em português, três em espanhol, duas em francês e uma em persa (resumo disponível em inglês).
Com relação ao ano de publicação, os dados estão expostos na
Figura 1.
Figura 1 - Distribuição das produções por ano de publicação.
Fonte: Elaboração própria.
É possível constatar que não foi encontrada nenhuma publicação referente ao ano de 2018, sendo 2012 o ano com maior número de publicações. Vale ressaltar a necessidade de tempo para indexação dessas produções nas bases de dados, possível motivo de não ter sido encontrada nenhuma produção de 2018.
Quanto ao tipo de publicação, foram levantados 27 artigos de periódicos científicos, cinco dissertações de Mestrado e duas teses
de Doutorado 4.
Verificou-se que a revista que mais publica na área é a Roeper Review, veículo de quatro artigos. Os periódicos Parenting for High Potential, Gifted Child Quarterly e Gifted Education International são responsáveis por duas publicações cada. Os outros periódicos foram local de publicação de uma única produção.
A autora de maior recorrência nas produções foi Anne Rinn, professora do Departamento de Psicologia Educacional da Universidade do Norte do Texas, nos Estados Unidos.
Das cinco dissertações de Mestrado, três têm origem em universidades estrangeiras (Universidade da Califórnia, Universidade de La Verne e University of Calgary) e duas na mesma universidade brasileira (Universidade Federal de São Carlos-UFSCar). Quanto às teses de Doutorado, uma foi defendida no Brasil, na mesma universidade das dissertações nacionais, mostrando que esse é um local que focaliza os estudos sobre a temática, em âmbito nacional. Destaca-se aqui a importância das universidades públicas brasileiras, na produção do conhecimento científico. Uma tese foi defendida internacionalmente, na Universidade Nacional de Córdoba.
Após o levantamento, procedemos a uma exploração mais aprofundada do material e interpretação dos resultados. As produções passaram a integrar seis categorias temáticas, a saber: “Identificação”, “Avaliação”, “Atendimento”, “Revisão da Literatura”, “Habilidades Sociais” e “Características”. O número de produções
em cada categoria está exposto na 5 Figura 2.
Figura 2 - Distribuição das produções por categoria
Fonte: Elaboração própria.
A categoria “Identificação” acomoda nove produções. Nesta, foram alocadas as pesquisas que realizam estudos empíricos de identificação, os quais versam sobre estratégias para identificar esse público-alvo e também sobre equívocos recorrentes no processo.
Rinn e Nelson (2009) investigaram o potencial para erro diagnóstico de Superdotação e TDAH. Os participantes foram 132 professores universitários e, em uma análise estatística, evidenciaram que a sugestão de Superdotação é capaz de influenciar o diagnóstico de comportamentos que podem ser típicos dessa dupla excepcionalidade. As conclusões e implicações são discutidas no artigo.
Concordando com esses achados, Rinn e Reynolds (2012) admitem igualmente a possibilidade de erro diagnóstico e advertem sobre a escassez de dados empíricos para apoiar o relacionamento entre o TDAH e a sobre-excitabilidade (SE), comumente presente nos superdotados. Foram sujeitos 116 participantes de um programa de verão para superdotados de 12 a 16 anos e, utilizando um questionário de avaliação específico para SE e também a escala Conners para identificação de indicadores de TDAH, discutem as relações entre os tipos de SE identificados e os padrões de TDAH (hiperativo/impulsivo, desatento ou misto). Os resultados indicaram uma relação significativa entre sobre-excitabilidade psicomotora e a subescala hiperativo/impulsivo do DSM-IV, entre a sobre-excitabilidade sensorial e o escore geral de TDAH e entre a sobre-excitabilidade imaginativa e os escores de desatenção. As autoras finalizam, enfatizando que falta ainda consciência e predisposição para avaliar comportamentos de Superdotação, principalmente as manifestações de SE em sujeitos com indicativos de TDAH. Sugerem que outras pesquisas sejam realizadas com diferentes grupos socioeconômicos, em distintos níveis de desempenho e em outras configurações que não programas de verão.
Niusha, Ganji e Sotodeh (2012) investigaram a prevalência de indicadores de TDAH em estudantes com comportamento superdotado, em uma província no Irã. Foram participantes da pesquisa 220 estudantes de diversas idades, tanto de escolas particulares quanto públicas, e com um QI de 127 ou mais. Por meio de um questionário de indicadores, entrevistas e o teste Matrizes Progressivas de Raven, constataram que, em média, 8% dos estudantes com comportamento superdotado apresentaram indicativos de TDAH. Concluem que esses comportamentos podem afetar o rendimento dos estudantes, necessitando de um diagnóstico precoce.
Irueste (2012) buscou identificar se estudantes designados como dispersos e hiperativos pelos professores exibem capacidades intelectuais diferenciadas. Foram participantes da pesquisa 37 docentes e 40 estudantes. Como resultados, observaram pontuações superiores em inteligência, criatividade e motivação em 10% deles. Os professores reconhecem as dificuldades e falta de formação na temática e os resultados revelam limitações no diagnóstico do TDAH.
Shive (2013) também concebe a possibilidade da dupla excepcionalidade e afirma que, embora o TDAH possa ser superdiagnosticado em estudantes com comportamento superdotado, este e outros transtornos podem ser igualmente negligenciados nessa população. A autora ressalta que muitos estudantes podem ter um desempenho suficientemente bom para mascarar suas dificuldades, mas isso os impede de atingir efetivamente seu potencial. Descreve diagnósticos alternativos, estratégias para localizar um profissional adequado para identificação e opções de atendimento para esse alunato.
Silva (2013) avaliou a frequência e o padrão de indicadores de TDAH em indivíduos superdotados e sua relação com anomalias físicas menores. Os sujeitos da pesquisa foram 77 membros da
Mensa6 Brasil. Foi identificada uma frequência de 37,8% de sujeitos com indicadores de TDAH, e o número de anomalias físicas menores foi significativamente associado ao TDAH. Nesse fato o autor apoia a tese de que o TDAH é um transtorno de neurodesenvolvimento. Silva e Rohde (2015), em um artigo baseado na Dissertação de Mestrado de Silva (2013), apresentam os mesmos objetivos e resultados.
Reis, Baum e Burke (2014) afirmam que, nas últimas três décadas, o número de estudantes duplamente diagnosticados em populações superdotadas dobrou. Destacam que esses estudantes estão em um grupo de risco para dificuldades sociais, emocionais e insucesso escolar, e propõem uma definição, a fim de que os profissionais identifiquem esses estudantes e desenvolvam programas para atender às suas necessidades. Apoiam a mudança de foco para os pontos fortes e desenvolvimento dos potenciais dos estudantes.
Massuda (2016) verificou a presença de indicadores de Superdotação em determinados estudantes diagnosticados com TDAH. Os participantes foram cinco profissionais do Centro de Atenção Psicossocial Infantil (CAPSi), três professoras do Ensino Fundamental I, com pelo menos um estudante com TDAH e indicado pelo CAPSi, três diagnosticados com TDAH e 63 sem diagnóstico. Foram identificados indicadores de Superdotação em dois estudantes com TDAH. A autora também avaliou e discutiu as atitudes sociais de professores em relação à identificação e ao desenvolvimento desses estudantes; com isso, constatou que a presença de atitudes sociais carregadas de mitos e crenças influencia a identificação e a forma como o processo de desenvolvimento da Superdotação é engendrado.
Ao analisar as produções, é possível perceber que quatro delas (NIUSHA; GANJI; SOTODEH, 2012; RINN; REYNOLDS, 2012; SILVA, 2013; SILVA; ROHDE, 2015) têm como foco a identificação de indicadores de TDAH em estudantes com comportamento superdotado; em contraponto, Massuda (2016) e Irueste (2012) focalizam a identificação da Superdotação em estudantes com TDAH. Quatro investigações relacionam esses indicadores com outro tópico de estudo, no caso de Rinn e Reynolds (2012), as sobre-excitabilidades; em Silva (2013) e Silva e Rohde (2015), anomalias físicas menores, e, em Massuda (2016), atitudes sociais dos professores.
Rinn e Nelson (2009) realizaram um estudo empírico sobre os erros no diagnóstico – temática que vem gerando réplicas e tréplicas na literatura –, os quais são muito comuns, quando dissertamos sobre o objeto de estudo desta pesquisa.
A respeito desse assunto, Ourofino e Fleith (2005) assinalam que desconhecer a Superdotação e suas especificidades leva ao diagnóstico de TDAH.
As pesquisas de Reis, Baum e Burke (2014) e Shive (2013) são produções que contemplam, além de estratégias para a identificação, estratégias para atendimento, portanto, foram contabilizadas em ambas as categorias (“Identificação” e “Atendimento”).
Na categoria “Avaliação”, foram alocadas sete pesquisas, as quais versam sobre avaliação de aspectos cognitivos e socioemocionais.
Simões Loureiro et al. (2009) efetuaram um estudo com 45 estudantes com alto potencial, divididos em dois grupos, de acordo com o perfil intelectual. Por meio de testes padronizados, avaliaram a atenção, funções executivas, memória de trabalho e as capacidades psicomotoras. Verificaram que há maior preponderância do TDAH, quando se apresenta um perfil intelectual desarmônico, ao passo que os estudantes com alto potencial e TDAH revelam um perfil neuropsicológico diferenciado, quando comparados aos estudantes com alto potencial sem o TDAH.
Alloway e Elsworth (2012) compararam o desempenho em medidas de memória de trabalho verbal, visuoespacial e habilidade geral (vocabulário e bloco design) de grupos de estudantes de alta, média e baixa capacidade intelectual. O perfil de estudantes de alta capacidade também foi cotejado com aqueles com diagnóstico clínico de TDAH. Os quatro grupos de estudantes totalizaram 211 participantes. Os pesquisadores notaram que o desempenho de memória de trabalho foi superior nos estudantes de alta capacidade, quando comparados com os grupos de capacidade baixa e média, embora a relação entre memória de trabalho e QI enfraqueça, em função do aumento da capacidade. Os autores ressaltam que o perfil comportamental desse grupo indica características semelhantes, em alguns aspectos, àqueles com diagnóstico clínico de TDAH, no entanto, explicações subjacentes podem ser diferentes, devendo ser levadas em conta em pesquisas futuras sobre a dupla excepcionalidade Superdotação e TDAH.
Foley-Nicpon et al. (2012) examinaram a autoestima e o autoconceito de estudantes com comportamento superdotado com e sem o diagnóstico de TDAH. Foram participantes da pesquisa 112 estudantes de seis a 18 anos. Os autores concluem que, apesar do QI semelhante, os estudantes com comportamento superdotado e TDAH tiveram escores mais baixos em medidas de autoestima, autoconceito comportamental e felicidade geral do que os estudantes sem a dupla excepcionalidade.
Wood (2012) analisou as percepções de pais e professores sobre comportamentos exibidos por 21 estudantes com comportamento superdotado e sugestão de dupla excepcionalidade Superdotação e TDAH. A escala de avaliação de comportamento Conners 3 demonstrou pontuações médias nas avaliações de pais e professores, nas áreas de desatenção, hiperatividade/impulsividade, funcionamento executivo e problemas de aprendizagem. Destaca a necessidade de uma análise mais aprofundada das propriedades psicométricas e uso adequado do Conners 3, no diagnóstico de estudantes com dupla excepcionalidade.
Fugate, Zentall e Gentry (2013) avaliaram a memória de trabalho e a criatividade de dois grupos de estudantes com comportamento superdotado: com e sem indicadores de TDAH. Participaram da pesquisa 37 estudantes. Os autores justificam a importância do estudo da memória de trabalho associado à criatividade com o fato de que uma memória de trabalho deficitária pode interferir na capacidade de manter as informações na mente, o que poderia reduzir a capacidade de fazer novas combinações de informações, ou seja, a criatividade. Como resultados, contrariando achados anteriores, os estudantes com dupla excepcionalidade apresentaram pior memória de trabalho, mas, significativamente, maior criatividade do que estudantes com comportamento superdotado que não atendiam aos critérios iniciais de diagnóstico de TDAH. Discutem os resultados em termos de potencial criativo e enfatizam que este pode servir tanto como um aspecto identificador quanto como um caminho para a instrução.
Whitaker et al. (2015) exploraram os processos de memória verbal estratégica de jovens intelectualmente superiores com e sem TDAH. Foram participantes da pesquisa 125 estudantes que responderam à Escala de Inteligência Wechsler para crianças e à versão teste infantil de aprendizagem verbal da Califórnia. Os resultados apontaram diferenças significativas entre os grupos, como a melhoria do efeito principal estudantes com comportamento superdotado com TDAH em memória verbal estratégica, quando fornecidas “dicas” organizacionais. Também os intelectualmente superiores com TDAH obtiveram escores estatisticamente menores de memória verbal estratégica, quando comparados aos intelectualmente superiores sem TDAH. Estudantes intelectualmente superiores com TDAH atingiram maiores escores que jovens com habilidades comuns com TDAH. Os achados demonstram novas evidências sobre o papel dessa dupla excepcionalidade, na memória verbal estratégica, e sugerem que, embora um diagnóstico de TDAH tenha uma implicação negativa nesse tipo de memória, habilidades intelectuais superdotadas podem atuar como um fator de proteção.
Gomez-Arizaga et al. (2016) examinaram a autoimagem e as experiências vividas por estudantes com dupla excepcionalidade, com relação aos colegas e professores. A amostra foi composta por quatro estudantes com idades de oito a 15 anos, com comportamento superdotado e TDAH. Por meio da coleta de entrevistas, os resultados mostraram que os estudantes tinham noção de suas discrepâncias e sabiam que eram motivados para a aprendizagem, todavia, sentiam-se entediados e tinham dificuldade de evoluir, quando as tarefas não eram desafiadoras. Eles também relataram ter um bom relacionamento com seus professores e colegas.
Com a análise das produções alocadas na categoria “Avaliação”, constata-se que maior atenção é dada à avaliação de aspectos cognitivos da inteligência, em detrimento dos aspectos socioemocionais, sendo que cinco das sete produções se debruçam sobre esses aspectos, com destaque para as investigações sobre a memória de trabalho. A avaliação desse construto está presente em três das sete produções levantadas (ALLOWAY; ELSWORTH, 2012; FUGATE; ZENTALL; GENTRY, 2013; SIMÕES LOUREIRO et al., 2009).
As pesquisas que se diferenciam por investigar aspectos socioemocionais são a de Gomez-Arizaga et al. (2016), sobre o autoconceito desses estudantes, e a de Foley-Nicpon et al. (2012), que estuda, além do autoconceito, a autoestima.
Com relação a isso, Alves e Nakano (2015) alertam que a literatura tem apontado que grandes dificuldades socioemocionais e comportamentais podem aparecer em comorbidade com essa dupla excepcionalidade, mas que frequentemente apenas aspectos cognitivos são levados em conta, nos processos de avaliação e intervenção.
Compõem a categoria “Atendimento” as sete pesquisas que versam sobre estratégias no atendimento do estudante com dupla excepcionalidade aqui investigada.
Grizenko et al. (2012) avaliaram se os estudantes com TDAH com diferentes níveis de QI (limítrofe, normal ou alto) respondem de diferentes maneiras ao tratamento psicoestimulante com metilfenidato (MPH). Participaram do estudo 502 estudantes de seis a 12 anos, divididos em dois grupos: o primeiro, em que foi administrado o MPH, e outro, no qual se adotou um placebo controlado. Além de diferenças no contexto socioeconômico e na educação dos pais, os estudantes com QI mais alto apresentaram indicadores menos graves, todavia, não foram encontradas diferenças significativas em relação à resposta ao tratamento, enquanto os estudantes com TDAH, dentro dos níveis normais e altos de funcionamento intelectual, responderam igualmente ao tratamento com psicoestimulantes. Os autores finalizam, asseverando que o manejo apropriado da medicação é necessário para todos os estudantes com o transtorno, independentemente do nível intelectual.
Moody (2014) investigou as estratégias de melhores práticas para o estudante com dupla excepcionalidade, apontadas por especialistas. Analisou também a viabilidade das práticas identificadas para o contexto de sala de aula. Esses especialistas foram divididos em dois grupos: os acadêmicos e os práticos. Constatou-se que os dois grupos julgam que fazer a avaliação desses estudantes, acomodar e modificar a instrução, valendo-se dos pontos fortes e fracos, foram as estratégias de melhores práticas, consideradas mais eficazes e viáveis. O grupo de especialistas práticos classificou a estratégia de diferenciar para instrução e agrupamento como a prática mais viável. O grupo acadêmico apontou a estratégia de permitir que os estudantes com dupla excepcionalidade ajudassem outros como a menos eficaz. Dessa forma, o autor avalia que, apesar de os dois grupos não terem concordado na maioria dos rankings, avaliar e fazer adaptações/modificações para o estudante com dupla excepcionalidade, oferecer instrução diferenciada e o agrupamento são fortes estratégias de melhores práticas. Conclui que fazer adaptações, utilizando seu ponto forte, é algo facilmente implementado na sala de aula. Também julga como facilmente implementável a diferenciação de instruções, o agrupamento, o ensino de habilidades organizacionais e o feedback imediato. Colocar os estudantes em contratos de estudos independentes foi tomado como um procedimento difícil de implementar e pouco eficaz.
Hua, Shore e Makarova (2014) alertam para o fato de que, em caso de estudantes com dupla excepcionalidade, a literatura aborda, em grande parte, como remediar os déficits percebidos, contudo, menos tem sido investigado sobre como desenvolver os potenciais desses estudantes. Fazem uma crítica a esse tipo de abordagem, assinalando que tende a recorrer a princípios comportamentalistas e de processamento de informações, a fim de auxiliar os estudantes na compensação de seus déficits em funções executivas, memória, organização e gerenciamento de tempo. Acreditam que apenas esse tipo de remediação é insuficiente, pois não promove proativamente o desenvolvimento do potencial. Por meio de uma narrativa semiautobiográfica, propõem que a instrução baseada em investigação seria a mais adequada e com potencial para desempenhar um papel integral, no desenvolvimento desses estudantes.
Collins (2016) descreve as características de estudantes com dupla excepcionalidade, sublinhando que esses podem lutar contra a organização de tarefas cognitivas, devido às funções executivas deficitárias, além de poderem apresentar dificuldades com “dicas” sociais, problemas sensoriais, dificuldades de aprendizagem, ansiedade e depressão. O autor ressalta a importância do uso de tecnologias em sala de aula, enumera e descreve diversas ferramentas on-line que podem auxiliar o processo de ensino-aprendizagem.
Luque-Parra, Luque-Rojas e Diaz (2017) objetivaram refletir sobre as necessidades educacionais específicas de estudantes com a dupla excepcionalidade Superdotação e TDAH. Por meio de um estudo de caso interventivo, verificaram melhora na atenção e redução de seu comportamento hiperativo, sendo que o estudante observado apresentou desempenho superior nas tarefas da sala de aula, em atividades na área da linguagem (corporal, verbal, artística, abordagem à linguagem escrita), bem como no autoconhecimento, autonomia e conhecimento do meio ambiente. No entanto, apresentou dificuldades associadas às relações sociais com pares, expressão de emoções e no controle de seu comportamento. São discutidas estratégias para pais e professores, no manejo dos comportamentos indesejáveis e do processo de ensinoaprendizagem do estudante. Ressaltam a necessidade de um ambiente acolhedor, uma metodologia flexível, a qual inclua pesquisa e cooperação, de sorte a aprimorar o pensamento divergente, por meio da criação de múltiplas soluções e ideias originais, e desenvolver o pensamento crítico. Salientam, também, a necessidade de um programa para desenvolvimento de habilidades sociais e emocionais, com vistas ao desenvolvimento integral do estudante.
Ao se examinar as produções sobre a temática, nota-se que cinco das sete produções versam sobre estratégias pedagógicas para estudantes com dupla excepcionalidade, sendo destacadas: a eficiência do uso da tecnologia (COLLINS, 2016), a utilização de pontos fortes e fracos (MOODY, 2014; REIS; BAUM; BURKE, 2014), a avaliação diferencial, a realização de adaptações/ modificações, o oferecimento de instruções diferenciadas e o agrupamento (MOODY, 2014) e a instrução baseada em investigação (HUA; SHORE; MAKAROVA, 2014; LUQUE-PARRA; LUQUE-ROJAS; DIAZ, 2017).
A pesquisa de Grizenko et al. (2012) se diferencia das outras, por investigar aspectos ligados ao atendimento farmacológico (e não pedagógico) do TDAH, em diferentes níveis de QI.
As produções alocadas em “Revisão da literatura” discutem as contribuições até o momento para a área. Somam-se sete.
Orendorf (2009) efetuou uma ampla revisão de literatura, a fim de esclarecer informações sobre a dupla excepcionalidade Superdotação e TDAH, afirmando que esses estudantes têm necessidades específicas e precisam ser identificados e atendidos. A autora aponta técnicas que podem auxiliar nesse processo, de acordo com cada área da inteligência.
Partindo de suas experiências clínicas no primeiro Centro Nacional de Recursos para Crianças e Adolescentes com Alto Potencial e dificuldades, Robert et al. (2010) ressaltam que ainda são muitas as dúvidas relacionadas aos estudantes com comportamento superdotado. Para dar luz a esses estudantes, esclarecem alguns conceitos e termos utilizados e versam sobre distúrbios, frequentemente associados, como o TDAH. Os autores destacam a dissincronía, comum nos estudantes com comportamento superdotado, a importância de um diagnóstico precoce, bem como a necessidade de utilizar os pontos positivos como apoio do processo, realizando uma avaliação intelectual, comportamental e emocional. Destacam também a necessidade de envolver uma equipe multidisciplinar, bem como os estudantes e suas famílias, com vistas a propor um atendimento escolar, familiar e social abrangente, adaptados ao estudante e seu ambiente.
Mullet e Rinn (2015), uma década após o diagnóstico errado da Superdotação como TDAH ter sido investigado pela primeira vez, em Hartnett, Nelson e Rinn (2004), analisaram estudos empíricos sobre o diagnóstico errado, identificação e diagnóstico duplo de Superdotação e TDAH, publicados em periódicos acadêmicos nacionais e internacionais revisados por pares, entre 2000 e 2014. Destacam que a identificação da dupla excepcionalidade deve ser realizada, levando-se em conta um conjunto de características e sua interação, que, juntos, formam a base para o diagnóstico, pois existe um mascaramento de mão dupla, quando nas duas condições.
Lee e Olenchak (2015) estudaram a literatura atual sobre a dupla excepcionalidade Superdotação e TDAH. Notaram que esses sujeitos são investigados em termos de diagnósticos individuais e duais, desempenho do estudante com dupla excepcionalidade (incluindo insucesso, criatividade e desfechos psicossociais) e intervenções para os mesmos. Concluíram que indivíduos superdotados com TDAH correm o risco de um diagnóstico incorreto, desempenho e resultados psicossociais ruins. Alertam para o fato de que, até então, várias áreas não foram examinadas no campo da pesquisa científica, como estudantes criativos com TDAH, os subtipos de TDAH e o trabalho longitudinal com indivíduos que apresentam essa dupla excepcionalidade.
Pfeiffer (2015) dá ênfase aos estudantes com comportamento superdotado com TDAH e os problemas de aprendizagem. Sobressaem a falta de estudos empíricos e a complexidade na identificação, realçando a circunstância de que, na avaliação, é necessário considerar o tipo de Superdotação e de comprometimento, sendo que, nas intervenções, deve-se levar em conta questões sociais, interpessoais, emocionais, culturais e de família, bem como acomodar os pontos fortes e interesses e planejar a superação das suas fraquezas. A autora adverte ainda para o cuidado no mascaramento dos indicadores de Superdotação, em um caso de dupla excepcionalidade.
Alves e Nakano (2015) discutiram a presença da Superdotação, na Síndrome de Asperger, TDAH e nos Transtornos de aprendizagem. Para os autores, os comportamentos sociais e a criatividade são características fundamentais para a diferenciação da dupla excepcionalidade, e os comportamentos característicos do TDAH podem ser observados nos estudantes com comportamento superdotado.
Rommelse (2016) versa sobre o mascaramento simultâneo dos indicadores dos dois fenômenos e desenvolvimento de estratégias pelo próprio estudante, abordando um conjunto específico de critérios para a validação do TDAH, no contexto de alta inteligência. Os resultados sugerem que o TDAH é um diagnóstico válido, apresentando características clínicas, curso, resultado e uma resposta específica ao tratamento. Alerta para o fato de que as pesquisas demonstram que o TDAH e o QI estão correlacionados negativamente, sublinhando a necessidade de se considerar o QI como moderador potencial nos estudos de TDAH e estudar mais sistematicamente o transtorno, na população superdotada.
As pesquisas dessa categoria enfatizam a necessidade de mais estudos empíricos sobre a temática (ROBERT et al., 2010; RINN; REYNOLDS, 2012; ALVES; NAKANO, 2015; PFEIFFER; 2015) e também de estudos longitudinais (MOON et al., 2001).
Constata-se que três produções concordam em que há, na literatura, evidências sobre o mascaramento de mão dupla dos indicadores (PFEIFFER, 2015; MULLET; RINN, 2015; ROMMELSE, 2016).
A categoria “Habilidades sociais” acomoda quatro produções. Três delas versam sobre as habilidades sociais de estudantes de diversas categorias de Necessidades Educacionais Especiais (NEE), incluídos o TDAH e a Superdotação, a saber:
Freitas e Del Prette (2013; 2014) escreveram dois artigos, fruto da Dissertação de Mestrado de Freitas (2011), portanto, com os mesmos participantes e comparando as mesmas categorias. Em Freitas e Del Prette (2013), são comparadas as habilidades sociais e, em Freitas e Del Prette (2014), é feita a análise de regressão, com a finalidade de verificar quais são as categorias preditoras de déficits, nessa área.
Os autores cotejaram, com base na avaliação do professor, o repertório de habilidades sociais de estudantes de 12 diferentes categorias de NEE: autismo, deficiência auditiva, deficiência intelectual leve, deficiência intelectual moderada, deficiência visual, desvio fonológico, dificuldades de aprendizagem, Superdotação, problemas de comportamento externalizantes, problemas de comportamento internalizantes, problemas de comportamento internalizantes e externalizantes e TDAH. Essas foram comparadas entre si e com a amostra normativa do inventário de habilidades sociais, problemas de comportamento e competência acadêmica para crianças (SSRS). Identificaram também recursos e déficits em habilidades sociais e verificaram o grau de predição das diferentes categorias sobre o repertório dessas habilidades. Participaram da pesquisa professores de 120 estudantes de escolas regulares ou especiais, com idades entre seis e 14 anos. Os resultados revelam que as categorias com menor frequência de habilidades sociais, quando comparadas às outras, foram também as maiores preditoras de déficits nessa área: TDAH, autismo, problemas de comportamento internalizantes e externalizantes e problemas de comportamento externalizantes. Em contraponto, o grupo com maior frequência dessas habilidades foram os de estudantes com comportamento superdotado, com deficiência visual e deficiência intelectual leve.
Desse modo, observa-se que o grupo de estudantes com TDAH e de estudantes com comportamento superdotado se situaram em limiares opostos, quando o foco da avaliação foram as habilidades sociais.
A outra investigação alocada na categoria “Habilidades sociais” é a de Reed (2013), que investigou a relação entre ansiedade e habilidades sociais em estudantes com dupla excepcionalidade Superdotação e TDAH, de oito a 11 anos, pareadas com estudantes com TDAH de inteligência mediana e também de desenvolvimento típico. Com base nos resultados, a autora afirma que a ansiedade foi um preditor significativo de déficits nas habilidades sociais em estudantes com dupla excepcionalidade e sugere que mais pesquisas sejam realizadas, dando enfoque à alta inteligência como fator de risco para o desenvolvimento de ansiedade e déficits em habilidades sociais em estudantes com TDAH.
Na categoria “Características”, foram alocadas duas produções, que tratam das peculiaridades de estudantes com dupla excepcionalidade.
Sumida (2010) desenvolveu uma lista de verificação a fim de identificar características de Superdotação específicas para o aprendizado de Ciências. Tal lista consistiu em 60 itens, relacionados a atitudes, raciocínio, habilidades e conhecimento/compreensão. Participaram do estudo 86 estudantes de oito escolas primárias no Japão. Metade deles tinha alguma dificuldade de aprendizagem, TDAH ou autismo de alto funcionamento. A análise identificou três estilos de aprendizagem, em Ciências: estilo espontâneo, estilo expert e estilo sólido. Os estudantes com dupla excepcionalidade exibiram um estilo espontâneo, enquanto os que não se inserem nesse diagnóstico foram caracterizados pelo estilo sólido. Em ambos os grupos, o número de participantes do estilo expert foi o menor. Assim, discutem-se os benefícios de uma educação científica para estudantes com e sem distúrbios leves do desenvolvimento.
Fugate e Gentry (2016) examinaram as experiências vividas por cinco meninas de 12 e 13 anos, com comportamento superdotado e TDAH, a fim de compreender os mecanismos utilizados por elas, para enfrentamento das pressões, no ambiente acadêmico. As meninas relataram problemas como desatenção e tédio com tarefas, a exemplo da lição de casa, enquanto desafios que afetam sua motivação. Os autores observaram que os indicadores internalizantes podem igualmente influir na motivação dessas meninas, e as saídas criativas são estratégias usadas para a autorregulação. Por fim, as meninas entendem que apenas habilidade é insuficiente para o sucesso acadêmico, realçando que esforço e resiliência foram fatores muito importantes, assim como o apoio acadêmico e motivacional dos professores e pais, e suas expectativas. Com base nos resultados, propõem um novo termo: “meninas com Atenção Divergente Hiperativa Superdotada (ADHG)” – uma mudança de paradigma que alteraria o foco, destacando pontos fortes, motivação, perseverança e resiliência.
Por fim, ao analisar as produções dessa categoria, constata-se ainda que Sumida (2010) realiza um levantamento de características específicas para o ensino de Ciências, enquanto Fugate e Gentry (2016), uma associação com o gênero, pois investigam um grupo de estudantes com comportamento superdotado e TDAH composto exclusivamente por meninas.
Com o levantamento efetuado, foi possível perceber que há uma diferença nos padrões de comportamento dos estudantes com comportamento superdotado, quando associados ao transtorno, envolvendo dificuldades com respeito tanto a aspectos educacionais quanto socioemocionais. Conclui-se, ademais, que esses padrões de comportamento se assemelham mais aos comportamentos do TDAH do que aos da Superdotação, uma das razões pelas quais é verificada na literatura maior propensão da identificação do transtorno (WINNER, 1998; MOON, 2002; NEIHART, 2003; PÉREZ; RODRIGUES, 2013; MASSUDA; MANI, 2014; MASSUDA, 2016; MULLET; RINN, 2016).
Diante desses dados, esta investigação contribuirá com as discussões sobre a temática, pois foi comprovada a necessidade de maior exploração, devido à incipiência de pesquisas nacionais nesse sentido.