Televisão Digital: informação e conhecimento
6 TV Digital: mobilidade democrática ou impositiva?
6 TV Digital: mobilidade democrática
ou impositiva?
Jane A. Marques1 2 ; Edson Leite
Introdução
Operações que antes exigiam contato face a face, por telefone, fax ou telex, hoje podem ser feitas virtualmente via Internet e, dentro em breve, pela tela da TV. A convergência possibilitada pelos avanços tecnológicos tem contribuído para que diferentes mídias "conversem", ou seja, é possível assistir a emissora preferida de televisão pelo computador pessoal ou pelo celular, e com a televisão digital serão possíveis muitas outras transações como trocar e-mails, comprar produtos on-line etc. Existem ainda outros fatores importantes a considerar como: a interatividade – que possibilita maior aproximação com os objetos de interesse; a atemporalidade – que permite a não restrição aos horários comerciais e fusos horários (que precisam ser observados nas transações comerciais); a portabilidade – componente de hardware ou software que os tornam capazes de ser utilizados em diferentes tipos de computadores, e eventualmente mediante pequenas modificações, possibilita carregar, acessar e se comunicar em diferentes plataformas, como ocorre com os games eletrônicos e aparelhos que funcionam com tecnologia wireless ou mesmo com a TV aberta, com sinal digital; e a mobilidade – que permite que a informação possa ser acessada ou a programação assistida pelo celular ou no ônibus, em qualquer lugar, enquanto as pessoas estão em deslocamento, no trânsito.
Vivemos a era do conhecimento (Castells, 1999), tendo a Tecnologia da Informação como cenário, ou a Infoera, como define Zuffo (1997, 2003). Há possibilidade de acesso direto a um número crescente de informações, produtos e serviços que eliminam vários intermediários, reduzindo tempo e custos no produto ou serviço final: são novos paradigmas de tempo (possibilitando inclusive a conexão durante as 24 horas do dia que impede a desatualização); os negócios cada vez mais complexos (com toda a cadeia interligada, o produto fica disponível para o usuário final que pode escolher com maior facilidade); maior velocidade na divulgação (a informação disponível já está desatualizada); convergência de mídias (sistemas diferentes convergem e se complementam); e há necessidade de aperfeiçoamento contínuo (para acompanhar o desenvolvimento tecnológico).
O sinal (digital) de TV aberta foi disponibilizado inicialmente, em dezembro de 2007, em São Paulo, com a proposta de permitir aos telespectadores o acesso ao que julgassem conveniente pelo laptop, celular ou palmtop, podendo usufruir desse recurso (transmissão digital) também no trânsito caótico da metrópole paulistana. No entanto, desde sua instalação, há discussões sobre a condição de produção e veiculação das atuais emissoras e produtoras de TV e sobre a garantia da maior interatividade prometida aos espectadores.
A previsão de demanda inicial para adoção da TV digital no Brasil era de apenas 8% da população, considerando a exigência da aquisição de um aparelho conversor, o set-top box, e não a compra de um novo aparelho de televisão. É preciso ressaltar que o custo de implantação da TV digital é alto e o tempo para difusão é lento mesmo em países desenvolvidos (Castañeda, 2007; Christophers, 2008). Há uma data prometida, no Brasil, para extinção da televisão analógica e completa adoção da TV digital (dezembro de 2016), o que parece inviável em razão dos atrasos constantes na disponibilização do sinal digital às demais capitais do país e depois para todo o território nacional.
A televisão aberta é atualmente uma mídia de grande repercussão mundial. Tem a maior penetração nos lares brasileiros dentre todos os meios de comunicação de massa, até maior que a do rádio. Nas últimas décadas, a televisão serve como companheira, substitui a presença de um familiar na atribulada vida da sociedade pós-industrial, garante a diversão, a informação e a educação (Marques, 2008).
Este estudo tem por finalidade analisar os aspectos positivos e negativos decorrentes da transmissão da programação televisiva
pela empresa Bus Mídia, que fechou contrato com a TV Globo3 para transmissão de conteúdo "recortado" em cerca de 250 ônibus que possuem monitores de LCD instalados, na metrópole paulistana. Isso significa que não é o conteúdo integral veiculado pela emissora que está sendo divulgado, mas apenas partes ou resumos dos principais programas globais (legendados), pois criaram uma "revista televisiva" e mesclam a isso alguns anunciantes ou patrocinadores. Para avaliar os primeiros momentos, desde a implantação dessas transmissões de conteúdo, desenvolveu-se uma pesquisa exploratória com os principais agentes envolvidos (os usuários dessas linhas de ônibus).
A partir da adoção desse recurso tecnológico, há quem questione se está sendo respeitado o direito à liberdade dos indivíduos, que não podem escolher o que assistir, e se é democrático impor a transmissão de uma única emissora televisiva, considerando que as produções televisivas fazem parte do tempo destinado ao entretenimento e lazer de grande parte dos telespectadores. É necessário considerar o quanto este tempo de deslocamento poderia ser excluído do cômputo das tarefas e/ou atividades impostas pelas obrigações diárias e pode ser transformado em um tempo de lazer, em razão dessa nova possibilidade de acesso. Pretende-se, pois, avaliar se os passageiros do transporte urbano aprovam essa adoção tecnológica, considerando o princípio da liberdade de escolha nas atividades de lazer (Dumazedier, 1980) o que, segundo as normas que regem as diferentes sociedades, inclui o tempo livre em sua relação com as práticas culturais (Puig; Trilla, 2004).
Impactos do entretenimento na sociedade da
informação
A palavra entretenimento tem origem latina: inter (entre) e tenere (ter). Trigo (2003, p.32) reforça o significado de sua etimologia, "o entretenimento nos leva cada vez mais para dentro dele e de nós mesmos". Segundo o autor, o entretenimento aborda as platéias como massa, diferente da arte que trata cada espectador como único.
O termo "entretenimento" possui significados ligados ao divertimento, à distração e ao passatempo. Por muito tempo, esses significados estiveram atrelados ao conceito de pecado ou ao que era permitido apenas à elite da sociedade. É preciso considerar a amplitude que o termo entretenimento adquire na sociedade pósindustrial, principalmente nos Estados Unidos, a partir de meados no século XIX, quando passa a ser associado ao popular (de forma pejorativa é associado a algo menor e desprezível), distante, portanto, da cultura elitista, da nobreza, da intelectualidade e do artístico, tal como entendido anteriormente.
Atualmente, não há como separar o entretenimento do popular, nem mesmo dos veículos de comunicação de massa, principalmente no Brasil, onde a maioria da população sofre sérias restrições ao divertimento, à distração e/ou passatempo, devido às condições socioeconômico-culturais em que vive.
O papel econômico do entretenimento é fator preponderante para entender as orientações políticas e sociais, basta verificar o montante de recursos que os produtos de entretenimento movimentam em todo o mundo. Conforme reportagem de Secco e Pimenta (2005), mensurar o poder desse setor não é tarefa simples, pois é necessário levar em conta que ele se caracteriza como "um grande guarda-chuva", abrigando "shows, cinema, teatro, rádio e televisão". E são estas duas últimas mídias que garantem, em grande parte, o espetáculo, a diversão e o entreter necessário para a vida na sociedade pós-moderna.
A sociedade informacional ou pós-industrial, possibilitada pelos avanços tecnológicos de grande complexidade, provocou uma revolução nos negócios de diferentes setores de atuação. Além das mudanças nas máquinas e nos conhecimentos sobre a vida, Castells (1999, p.80) observa que "(...) está havendo uma transformação mais profunda: a das categorias segundo as quais pensamos os processos". O fato é que o advento das máquinas impôs ao homem contemporâneo um ritmo diferente de seu ritmo natural que, na sociedade pré-industrial, dirigia e controlava o tempo social e as tarefas a serem cumpridas.
Castells (1999) destaca que o uso das novas tecnologias da informação é capaz de integrar o mundo em redes globais, gerando através da comunicação mediada por computadores, comunidades virtuais, sem perder os significados e as identidades, ou seja, preservando os sujeitos participantes dessas relações, que compõem a sociedade da informação.
As palavras de ordem são: convergência, portabilidade, velocidade e informação, principalmente no que diz respeito à migração dos sistemas centrados nas transações para os sistemas centrados no cliente, que possam ser acessados em qualquer lugar e a qualquer momento. O fato é que a tecnologia (antes pela Internet e agora também com o sinal digital) tem gerado mais domínio por parte dos que controlam e oferecem conteúdos, há maior possibilidade de identificação dos indivíduos, que podem ser acompanhados e monitorados em cada ação, como destaca Loss (2008, p.78): "identificando o usuário, interceptando mensagens ou inserindo marcadores para rastreamento 24 horas por dia nos fluxos de comunicação".
A pretensa individualidade e liberdade para agir e decidir está fazendo com que as pessoas possam ser mais observadas, o que pode ser entendido como uma forma de controle, ou como define Castells (1999), uma "Tecnologia de Vigilância". Afinal, é possível considerar lazer as inúmeras ofertas de entretenimento e diversão que hoje são oferecidas?
O entendimento de lazer e as relações de tempo
livre
As atividades de lazer envolvem uma escolha pessoal com certo grau de liberdade. Não se pode afirmar que alguma ação humana é executada totalmente por livre escolha do indivíduo. Nas escolhas das atividades de lazer o grau de liberdade é certamente maior que nas escolhas feitas no trabalho, no ritual familiar, na vida sociorreligiosa e sociopolítica.
A palavra lazer surge no século XII na França e tem sua raiz no latim licere que significa "ser permitido". Assim, o sentido de lazer indica uma ausência ou afrouxamento de regras, obrigações, repressão ou censura. A repulsa ao lazer, segundo Dumazedier (1980), vem da difusão do pensamento católico que confunde o lazer com a ociosidade, vista como a mãe de todos os vícios, algo que deveria, portanto, ser evitado.
Segundo Dumazedier (2000, p.34), o lazer pode ser conceituado como tudo o que o indivíduo faz de livre vontade: "seja para repousar, seja para divertir-se, recrear-se e entreter-se ou, ainda para desenvolver sua informação ou formação desinteressada", portanto, tudo que esteja fora das obrigações profissionais ou sociais.
As funções principais do lazer são, portanto, o descanso, o divertimento juntamente com a recreação, o entretenimento e o desenvolvimento. Tanto o descanso, quanto o divertimento envolvem a necessidade da recuperação física e psíquica do indivíduo e são necessidades provocadas pelas obrigações cotidianas. Portanto, não estão associadas às práticas de lazer, as atividades relativas às necessidades básicas de alimentação, cuidados com higiene, sono, trabalho suplementar, trabalho doméstico, estudos interessados e as obrigações familiares, sociais e espirituais.
Para que o indivíduo aproveite bem o tempo destinado ao lazer, é necessário considerar o quanto ele se dedica às tarefas e/ou atividades impostas pelas obrigações diárias. Esse tempo e a forma como ele é vivido são determinados segundo as normas que regem as diferentes sociedades, portanto, está preso às práticas culturais (Puig; Trilla, 2004).
Dumazedier (1980) elaborou uma lista de interesses do lazer, incluindo os interesses físicos, manuais, intelectuais, artísticos e sociais. Camargo (1986) acrescentou a esses interesses, os turísticos. Pode-se distinguir o tempo livre para desfrutar do lazer em três modalidades: tempo livre após o trabalho, tempo livre de fim de semana e tempo livre de férias.
A possibilidade de realizar diferentes ações (muitas vezes, simultâneas) e de se comunicar por mediações tecnológicas também não pode ser desconsiderada, haja vista as necessidades e os interesses humanos que podem ser utilizados para se informar e comunicar nos dias atuais. Daí o foco deste trabalho ser o acesso aos conteúdos televisivos que estão sendo transmitidos nos coletivos urbanos. Assistir a programas televisivos, em geral, é uma ação de livre e espontânea vontade, mas recentemente isso passa a ser oferecido sem que as pessoas sejam consultadas ou tenham direito de escolher, aspectos que são discutidos a seguir.
Televisão ou sinal digital: oportunidade ou
ameaça de comunicação?
A televisão aberta, atualmente, é, sem dúvida, a mídia de grande repercussão mundial. Tem a maior penetração nos lares brasileiros entre todos os meios de comunicação de massa – atinge 94,8% dos domicílios no Brasil, sendo que na Região Sudeste esse valor sobe para 96,7% e, mais especificamente, na cidade de São Paulo atinge 97,3% dos domicílios, segundo dados do IBGE (2007).
Há muitas décadas, a televisão serve como companheira, substitui a presença de um familiar na atribulada vida da sociedade pósindustrial, garante a diversão, a informação e a educação. Persona-gens, ídolos e histórias são criados a todo instante e não precisam ser reais, possíveis ou verossímeis, pois na tela tudo é permitido. Essa fantasia acaba por mesclar-se e/ou confundir-se com a realidade espelhada pela ficção (Motter, 2003).
A TV digital tende a mudar um pouco essa realidade. Já instituída em países de primeiro mundo, também nesses casos não possui grande adesão e, no Brasil, também tem baixa penetração nas capitais onde está implantada, pois quase dois anos após sua introdução no país – 02 de dezembro de 2007, na cidade de São Paulo, marca o início das transmissões – a TV digital ainda não conseguiu atingir todas as capitais brasileiras.
No Brasil, foi adotado o modelo japonês, também defendido pelas empresas de radiodifusão, por não cobrar royalties, oferecer como contrapartida a instalação de uma fábrica de semicondutores no país, eliminando a importação de peças e aparelhos e por permitir maior interatividade aos espectadores. Esse modelo apresentava algumas restrições à transmissão de imagens pelos aparelhos celulares, motivo pelo qual as operadoras de telefonia móvel contraargumentavam pela adoção do sistema europeu. Isso já foi resolvido com a adoção dos sinais ISDB-T (padrão japonês), incorporando inovações tecnológicas definidas pelo Comitê de Desenvolvimento, que resultou no Sistema Brasileiro de Televisão Digital Terrestre (SBTDT-T). Esse padrão brasileiro visa "transmitir
sinal digital em alta definição e em definição padrão4, ou seja, transmissão digital simultânea para recepção fixa, móvel e portátil e interatividade" (Scorsim, 2008, p.63).
Como mencionado, inicialmente previam-se poucos usuários, estimava-se que 8% da população brasileira adotariam essa tecnologia, mas segundo Gomes (2009), a penetração dos usuários de TV Digital no Brasil ainda está longe desse parâmetro: "Com uma média de 3,5 usuários por aparelho, o Brasil tem 40 milhões usuários de TV, destes, apenas 250 mil, 0,3% do total, recebem o sinal digital implantado em 2007."
No momento, a única vantagem oferecida pela TV digital é a melhor qualidade da imagem, como destaca Gustavo Gindre, representante da sociedade civil no Comitê Gestor da Internet no Brasil e integrante do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social: "A TV digital aberta no Brasil é a velha TV aberta analógica, apenas com uma imagem melhor – e, mesmo assim, somente onde não há áreas de sombras" (Gomes, 2009).
Percebe-se que isso não se constitui um diferencial para atrair outros telespectadores, além do que é preciso um investimento financeiro inicial. Em relação a este aspecto, vale recuperar parte do discurso do Presidente Lula, quando do lançamento do sinal digital, em dezembro de 2007: "Logo será possível assistir televisão caminhando na rua, indo ao trabalho (...). A televisão não pode se tornar cara ou inacessível". No entanto, o preço médio dos conversores (os set-top-boxes) – atualmente avaliado entre R$ 700,00 e R$ 800,00 – ainda pode ser considerado um impedimento para a popularização da TV digital no Brasil.
Portanto, os diferenciais em relação à qualidade de imagem e som, primeiros aspectos a serem percebidos pelos usuários, de acordo com Carpanez e Bueno (2007), ainda não são atrativos para uma adoção massiva. Somente com outras funcionalidades pode haver maior adesão dos usuários, como "a ‘mobilidade’ e a ‘portabilidade’ (possibilidade de ver TV em carros, notebooks e celulares, por exemplo), a ‘multiprogramação’ (recepção de mais de um programa no mesmo canal) e a ‘interatividade’ (possibilidade de participar dos programas e fazer compras diretamente pela TV)."
Neste estudo, que visa analisar a recente implantação da transmissão televisiva nos ônibus na capital metropolitana (embora o conteúdo seja apenas veiculado como uma "revista televisiva", ou seja, cenas recortadas com legendas), pretende-se ter uma avaliação em relação à percepção dos usuários desses transportes urbanos sobre o conteúdo que está sendo transmitido como resultado da parceria da Bus Mídia e TV Globo.
O modelo atual da Bus Mídia Televisão Coletiva consiste em veicular, em uma frota de aproximadamente 250 ônibus na cidade de São Paulo, um conteúdo televisivo composto por 40% de material cedido pela TV Globo, 30% de propagandas e 30% de material educativo. A Bus Mídia tem duas empresas concorrentes: Bus TV que tem uma programação com conteúdo próprio e a TVO, parceira da TV Bandeirantes.
Há algumas diferenças entre os produtos oferecidos por essas empresas, por exemplo, o conteúdo exclusivo de uma ou outra emissora, tamanho e localização do monitor nos ônibus; mas o que interessa é que além do grande número de pessoas atingidas (muitos utilizam esse tipo de transporte público), está o fato de oferecerem entretenimento e informação, eliminando o efeito de zapping, hábito comum aos telespectadores quando estão em suas residências. Busca-se, com este estudo, verificar se isso pode ser considerado como mais uma atividade de lazer ou de imposição para os passageiros.
Procedimentos metodológicos
A partir da revisão bibliográfica sobre o tema central, traçouse um quadro teórico de referência que norteou a análise da parte empírica deste estudo, que consistiu no planejamento e execução de uma pesquisa de campo com usuários de transportes urbanos da Grande São Paulo. De acordo com Marconi e Lakatos (2003, p.62), o levantamento de dados de diferentes fontes é essencial "[...] não só por trazer conhecimentos que servem de background ao campo de interesse, como também para evitar possíveis duplicações e/ou esforços desnecessários".
Face aos objetivos estabelecidos, o método de pesquisa mais apropriado foi o de survey, com a utilização de questionário semi estruturado (composto por perguntas abertas e fechadas), aplicado através de entrevistas pessoais face to face (Malhotra, 2001). Os dados foram coletados em áreas públicas da cidade de São Paulo, no mês de outubro de 2009.
Adotou-se um método de amostragem não probabilístico por cotas (Malhotra, 2001), definindo um número de pessoas que indicasse proporcionalmente o universo da população pesquisada – no caso, os usuários de transporte coletivo urbano da Grande São Paulo. Procurou-se, assim, obter uma amostra segmentada por cotas de respondentes de ambos os sexos e de diferentes faixas etárias, a saber: de 14 a 21 anos (20%), de 22 a 30 anos (35%), de 31 a 40 anos (25%) e mais de 40 anos (20%), conforme indicam as pesquisas de perfil de usuários dessa modalidade de transporte, feitas pela Secretaria dos Transportes Metropolitanos (SPTrans), totalizando 296 entrevistas.
Adotaram-se análises bivariadas (por gênero e faixa etária), aspectos considerados na definição das cotas, mas por limitação de espaço serão apresentados apenas os principais resultados sem as tabelas.
Análise dos resultados
Considerando que os passageiros de transporte urbano podem utilizar mais de um ônibus em cada percurso, a pesquisa não restringiu as pessoas a serem entrevistadas aos usuários dos ônibus que veiculam conteúdos elaborados pela Bus Mídia, visando inclusive avaliar se estes percebem as diferenças entre as empresas que oferecem esse tipo de serviço.
No que se refere ao perfil dos respondentes, a amostra constituiu-se de 51,4% de homens e 48,6% de mulheres. Dos entrevistados, 20,3% têm de 14 a 21 anos; 33,8%, de 22 a 30 anos; 26,4%, de 31 a 40 anos; e 19,6% estão acima de 40 anos. Apesar de ter sido adotada uma técnica de amostragem não probabilística (por cotas), procurou-se entrevistar pessoas que tivessem o perfil aproximado com os usuários de ônibus, conforme dados da SPTrans.
A maior parte dos entrevistados possui ensino médio ou superior completo (77,0%), e praticamente metade da amostra (55,7%) pertence à classe C, na classificação socioeconômica Pode-se afirmar que os entrevistados são usuários contumazes de transporte público urbano, ou seja, 69,5% utilizam ônibus todos os dias e, quando a frequência é de, pelo menos, uma vez por semana, esse número sobe para 87,1%. Esses resultados garantem segurança, em relação às respostas obtidas, especialmente porque se pretendia avaliar os passageiros habituais desse tipo de transporte. A maioria dos pesquisados utiliza os ônibus para transporte de casa para o trabalho (74,3%) e vice-versa (71,6%), o que pode ser justificado pelo fato de 82,2% dos respondentes trabalharem fora de casa, mesmo que não registrados em carteira.
O tráfego intenso é muito comum nas metrópoles mundiais e o tempo gasto em deslocamentos costuma ser muito grande: 15,5% dos respondentes afirmaram gastar mais de 2 horas nos ônibus; 35,5% consomem de 1 a 2 horas nos ônibus, 32,1% despende de 31 minutos a 1 hora; e 16,9% até 30 minutos. É um tempo "perdido" para muitos que não têm outras opções ou condições de aproveitar esse tempo para descansar ou relaxar (muitos não conseguem sentar durante o percurso).
Dos entrevistados, 38,7% afirmaram utilizar esse tempo de percurso de ônibus para descansar ou dormir, 29,8% para ler ou estudar, e 25,3% disseram só apreciar as ruas e as pessoas. Os valores menos citados foram conversar com as pessoas (14,2%) ou para fazer nada (11,1%). Considerando os que não faziam nada e os que aproveitavam para dormir já se tem metade da amostra, significativo número de pessoas que pode agora aproveitar do conteúdo televisivo, considerando que a maioria (79%) dos entrevistados manifestou a adoção dessa tecnologia como muito boa ou boa; e, 87,8% revelam assistir, ao menos, um pouco.
Desses respondentes que assistem aos conteúdos transmitidos nos ônibus, a maioria (68,1%) afirmou adorar ou gostar da adoção dessa tecnologia. Há um número significativo de pessoas (21,9%) que se mostra indiferente, mas mesmo os poucos que disseram não gostar (10%), ainda assim manifestaram algum aspecto positivo em relação ao conteúdo que está sendo transmitido. Os itens positivos mais citados foram: distração, ajuda a passar o tempo (23,1%); informações, notícias (15,1%); assuntos importantes, do momento (9,3%); serve como entretenimento (8,9%); e tem assuntos interessantes e diversificados (8,0%). Os aspectos negativos são menos frequentes, mas indicam pontos que podem ser melhorados: não passa nada de interessante, não chama a atenção ou não é atrativo (8,4%); e programação muito repetitiva, sem variedade (6,2%).
Embora essa tecnologia, em São Paulo, esteja restrita a duas emissoras televisivas (TV Globo e TV Bandeirantes), ainda assim, alguns entrevistados citaram outras empresas – isso demonstra que há desconhecimento por parte de alguns usuários ou pouca lembrança dos conteúdos que estão sendo veiculados. A TV Globo é a mais citada e foi mencionada por praticamente metade dos pesquisados (49,6%), seguida pelas programações independentes (30,0%) e pela TV Bandeirantes (4,2%). Esta última perde para a TV Record (7,3%) e para o SBT (6,5%), que nem utilizam essa tecnologia.
Aos entrevistados que mencionaram assistir ao menos um pouco da programação, foi solicitado que dissessem quais gêneros de programas preferem assistir no ônibus. Os mais citados foram: jornalismo/ telejornais (54,6%), informativos (sobre ecologia, saúde etc., com 51,2%), esportivos (46,2%) e os educativos (40,8%). Os programas de auditório (6,5%), de moda (11,2%), e as telenovelas (20,0%) foram os que receberam menores citações, possivelmente por oferecerem conteúdos menos importantes socialmente ou se-rem considerados banais. No entanto, isso não reflete a audiência desses programas quando são avaliados os usuários residenciais, o que pode sugerir que os entrevistados têm restrições em expor suas preferências publicamente.
A maioria dos entrevistados (62,3%) disse que a programação e/ ou conteúdos veiculados poderiam mudar. Sugerem mais programas de conteúdo "socialmente aceitável", ou seja, que contribuam para o conhecimento e tragam esclarecimentos gerais, como: jornalismo/ noticiários (14,7%), informações gerais (tecnologia, saúde, trânsito, campanhas de conscientização, com 14,1%), mais tempo de programação para não ficar muito repetitivo (11,0%) e ter som/ áudio, recurso ainda não utilizado (11,0%).
A partir desses resultados, percebe-se que há boa aceitação em relação aos conteúdos televisivos transmitidos nos ônibus e as sugestões de melhoria são passíveis de serem adotadas, considerando que implicam somente a revisão dos conteúdos que estão sendo veiculados e não a implementação de aspectos técnicos ou tecnológicos. O único aspecto que foi destacado em várias questões foi a possibilidade de ter som/áudio, o que facilitaria o acompanhamento pelos usuários que não têm facilidade para a leitura ou que não querem dedicar tanta atenção.
Considerações finais
A estreita relação que une tempo livre a atividades de livre escolha, a progressiva valorização do lazer na sociedade contemporânea e a associação de diferentes tecnologias associadas ao lazer, além do crescimento do interesse acadêmico e científico por esses temas, vêm instigando pesquisadores e instituições a se dedicarem ao assunto e a sistematizá-lo enquanto conhecimento.
Para Dumazedier (1979), o que parece mais acertado é procurar uma forma de equilíbrio e homogeneização de ambos os tipos de tempo (trabalho e lazer). Esse autor entende que o lazer é um con-junto de ocupações a que o indivíduo pode se dedicar voluntariamente, seja para descansar, divertir-se, desenvolver sua informação ou sua formação desinteressada, depois de liberado de suas obrigações profissionais, familiares e sociais. Tal alteração de significado tem fundamental explicação a partir das concepções econômicas em evolução, especialmente porque houve, há muitas décadas, a transformação de uma sociedade de produção manufatureira para uma sociedade de consumo industrial.
É preciso ressaltar que o custo de implantação do sinal digital é alto e o tempo para difusão é lento mesmo em países desenvolvidos, conforme apontam diferentes autores. O conteúdo que está sendo transmitido nos ônibus, mesmo não sendo o que a mobilidade já possibilitada pelo sinal digital permite, mudou o comportamento dos usuários, que demonstraram em sua maioria boa aceitação e aproveitamento.
Mesmo considerando que assistir à televisão, no Brasil, pode ser entendido, para muitos, como uma atividade de lazer e como tal deveria ser de escolha pessoal, sabe-se que muitas dessas atividades não são executadas totalmente por livre escolha do indivíduo. No caso das transmissões de conteúdo televisivo nos ônibus urbanos, isso também poderia ser considerado como mais uma imposição aos passageiros desse transporte público.
Embora a Rede Globo tenha sido a última TV a adotar o procedimento em questão, pode-se afirmar que seus conteúdos são percebidos como distintos e de qualidade, quando comparados às demais emissoras.
Pôde-se verificar que a programação televisiva que está sendo transmitida em alguns ônibus é bem avaliada e tem feito com que os usuários usufruam melhor desse transporte público, no caótico trânsito da cidade paulistana – aspecto percebido por todos que circulam nessa metrópole. Alguns entrevistados sugerem que a programação deve ser ampliada (mais tempo), para que possam aproveitar melhor a viagem sem ter que assistir a conteúdos repetidos; e chegam mesmo a exigir maior diversidade, mais programas informativos (notícias e de utilidade pública) e educativos, em detrimento aos mais associados ao lazer, como esportes, ficção e humor. Talvez por não ser uma atividade de livre escolha, os programas ligados ao entretenimento são secundários no trânsito da metrópole.
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1 Jane A. Marques é doutora em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo; professora do curso de Pós-Graduação Interunidades em Estética e História da Arte da Universidade de São Paulo e do curso de Graduação em Marketing da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo.
2 Edson Leite é livre-docente pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo; professor do curso de Pós-Graduação Interunidades em Estética e História da Arte da Universidade de São Paulo e do curso de Lazer e Turismo da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo.
3 Embora tenha lançado esse produto em julho de 2009, a Bus Mídia passou a veicular continuamente o conteúdo da TV Globo somente no final de agosto desse ano, porque teve que recorrer judicialmente para garantir que essas transmissões pudessem ser feitas.
4 De acordo com Scorsim (2008), "O Decreto nº 5.820, de 29 de junho de 2006, prevê a transmissão digital em alta definição (HDTV) e em definição padrão (SDTV)." A principal diferença entre essas modalidades está na qualidade de som e imagem e alta definição, porque a transmissão SDTV oferece melhor recepção do sinal de televisão em relação à transmissão analógica (sem interferências ou chuviscos), e a transmissão digital (HDTV) equipara-se à qualidade do cinema, em termos de áudio e vídeo.