Televisão Digital: informação e conhecimento

Maria Cristina Gobbi · Capítulo 1 de 17

Páginas do PDF

Televisão Digital: informação e conhecimento

Prefácio - Rumo a um novo presente, desafiados pelo futuro

Prefácio

 

Rumo a um novo presente,

desafiados pelo futuro

 

Juliano Maurício de Carvalho1

Estamos a seis anos do alardeado "apagão digital", momento que demarca o fim do período transitório no processo de implantação da televisão digital terrestre no Brasil. 2016 parece distante, porém nesse ínterim muito deve ser feito para que a mudança seja bem-sucedida e as centenas de milhares de lares brasileiros estejam equipados a receberem as transmissões apenas em sinal digital. Desde o início da transmissões digitais na Grande São Paulo, em dezembro de 2007, a implantação segue num ritmo constante, adentrando outras capitais e regiões metropolitanas do país, porém a adesão ainda é tímida. Os set-top boxes ainda são dispositivos de alto custo e baixo benefício, uma vez que dentre os diversos recursos potenciais disponibilizam até o momento apenas um, a alta definição de som e imagem.

Para uma melhor compreensão do cenário atual e dos desafios que aguardam gestores, profissionais, pesquisadores e telespectadores é importante recordar a projeção feita pelo Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD), primeiro encarregado de investigar as possibilidades dos diversos padrões de transmissão existentes e apresentar as prováveis trilhas percorridas pelo sistema brasileiro, cujo documento apresenta três eixos de desenvolvimento: a concepção de televisão digital como mero incremento do sistema televisivo analógico – apresentando som e imagem de alta qualidade, além de trabalhar com proporções widescreen (16:9), mas operando de acordo com a mesma lógica do modelo anterior –, a busca pela diferenciação de serviços por meio da exploração de recursos digitais – especialmente a multiprogramação e a interatividade local – e a convergência da televisão com outras plataformas e dispositivos – o que permitiria maior mobilidade/portabilidade, integrando celulares, mp3 players, tablets e outros em uma mesma grande rede, e ofereceria um viável canal de retorno para uma interatividade permanente e efetiva (Menezes et al., 2005).

O diagnóstico atual é o de uma aproximação entre a projeção incremental e a de diferenciação. A interatividade, discutida em diversos capítulos deste livro, permanece o mais irresoluto dos pontos-chave dessa trama, uma vez que diversos graus de interação do público – da compra de produtos anunciados durante o intervalo comercial até o nível em que o telespectador ganha autonomia para comentar o programa a que está assistindo, acessar vídeos complementares, ou mesmo disponibilizar seu próprio conteúdo audiovisual – exigem soluções tecnológicas distintas, como um sistema que permita às redes receber dados gerados pelo receptor, fazendo as radiotransmissões retomarem o paradigma de via dupla proposto por Guglielmo Marconi para o rádio no final do século XIX; da mesma forma, o paradigma da multiprogramação traz novo desafios às redes, demandando maior produção de conteúdo, a reprise de programas já transmitidos ou mesmo a compra de produções de terceiros –`; a convergência, por sua vez, exige um canal por meio do qual os sistemas envolvidos dialoguem e troquem informação – um dos meios possíveis é a internet (discada ou banda larga) e a transmissão de dados pelo ar via telefonia celular (GSM, 3G ou mesmo 4G), o que provocaria nova celeuma no meio, com a entrada das empresas de telecomunicação no fluxo de dados. custo dos aparelhos também é algo preocupante no que diz respeito à adesão popular: o acréscimo de funcionalidades diversas, como câmera e memória física (tanto na forma de disco rígido quanto na de flash drive) nos receptores – o que permitiria arquivar os programas transmitidos, como antes se fazia em fitas VHS – elevaria os preços e inviabilizaria a compra pela população de baixa renda; porém, políticas públicas de subsídio e incentivo à transição poderiam ser uma via para que o problema seja sanado.

Todos esses desafios, no entanto, podem ser resolvidos por meio da ação de profissionais preparados para pensar, gerir e agir sobre o novo cenário. A implantação da televisão digital terrestre no Brasil demanda uma conjugação ímpar de condições materiais, políticas, econômicas e cognitivas para que a transição seja concreta e eficaz. Cabe à academia, enquanto espaço de reflexão e instrumento de inovação para a sociedade, investigar e propor soluções para entraves como os listados, ao mesmo tempo em que trabalha possibilidades sobre o que há de concreto, pesquisando políticas públicas, economia política, modelos de negócio, produção e gestão de conteúdos, cadeias produtivas, educação, televisão pública, repercussão midiática. Temos ainda um novo papel: o de formar justamente esses profissionais qualificados para atuar nesse mercado ainda fluido, em novos setores da cadeia produtiva ou naqueles que tiverem seus papéis redefinidos, que compreendam globalmente o contexto de modo a atuar de maneira estratégica, precisa, inovadora, papel que, acreditamos, está sendo satisfatoriamente desempenhado no ainda infante curso de mestrado profissional do Programa de Pós-Graduação em Televisão Digital: Informação e Conhecimento, no âmbito do qual este livro foi gestado, num momento inédito de interdisciplinariedade, uma vez que atinge e conjuga áreas díspares como Comunicação Social, Ciência Política, Educação, Administração, Economia, Engenharia, Ciência da Computação etc.

Constituem a obra que está em suas mãos capítulos derivados de diferentes perspectivas acerca desse tema central, a televisão digital terrestre, compondo um panorama prismático de diversos aspectos integrantes da inovação a partir das plataformas já existentes e da problemática da implantação, abarcando tópicos distintos componentes da implantação e manutenção do novo sistema – autores na sociedade tecnológica, diversidade cultural e política de informação, educação e participação por meio da interatividade, produção de conteúdos audiovisuais, regulação e políticas de educação, mobilidade e democracia, modelos de negócio, a viabilidade da interatividade, cenários e desafios para as emissoras públicas, a implantação no Brasil e na Espanha, a convergência com instituições educacionais, gestão de conteúdos narrativos, democracia digital, a implantação no Pará e a atuação de emissoras em cada estado, a transição do sinal analógico para o digital, a repercussão midiática sobre a implantação e as controvérsias e desinformações sobre o "apagão digital". É como um mapa, quase estado-da-arte da pesquisa e desenvolvimento sobre o tema, que tem crescido nos últimos anos, especialmente a partir da assinatura do decreto que determina o padrão do sinal digital brasileiro pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva, em 2006, momento definidor que deu início efetivo à contagem regressiva.

Cumprimento a Pró-Reitoria de Pós-Graduação da Unesp e também a Fundação Editora da Unesp pela realização do Programa de Publicações Digitais (Propg), por meio do qual este livro é disponibilizado à sociedade, já fazendo uso de um suporte promissor e de crescente adesão, o e-book.

Este livro é o testemunho de uma busca de respostas e soluções não só para que a transição se dê de forma isonômica e democrática, mas também para que tenhamos acesso, ao fim do processo, a uma nova plataforma comunicacional que permita um uso inédito da televisão a um custo razoável e uma redefinição dos papéis dos agentes envolvidos em sua cadeia produtiva. Com discussões que variam do desenvolvimento de ambientes educativos a particularidades regionais na implantação do sistema, a pesquisa em televisão digital dá um significativo passo rumo não a um apagão, à assombração futura que exclui a população não-digitalizado, que elimina do jogo as peças indesejadas pelos coronéis eletrônicos, mas ao presente de uma nova configuração da comunicação midiática, adequada às sucessivas revoluções paradigmáticas que a sociedade da informação vem promovendo desde a última década.

 

Referência bibliográfica MENEZES, Esther et al. Projeto sistema brasileiro de televisão digital – Modelo de implantação. Brasília: CPqD, 2005.

1 Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Televisão Digital: Informação e Conhecimento na Faac/Unesp.