Televisão Digital: informação e conhecimento

Maria Cristina Gobbi · Capítulo 6 de 17

Páginas do PDF

Televisão Digital: informação e conhecimento

4 A produção de conteúdos audiovisuais na era tecnológica

4 A produção de conteúdos

audiovisuais na era tecnológica

 

Cosette Castro 1

Introdução

Refletir sobre a comunicação digital em mundo em transformação não é tarefa fácil. Desde 2005, tenho debatido em conjunto com outros colegas sobre as mídias digitais e o uso de diferentes plataformas tecnológicas, principalmente pelas mudanças que vêm ocorrendo no âmbito da vida social. Essas transformações incluem questões econômicas, políticas, culturais, educativas tecnológicas e comportamentais e mostram como as formas de pensar, estar e perceber o mundo vêm sendo alteradas. Tais mudanças geraram as reflexões sobre a nova ordem tecnológica, da qual André Barbosa Filho e eu temos escrito e debatido em artigos, livros e conferências. Na proposta, recordamos a Heidegger quando diz que a essência do tecnológico não é algo técnico, mas a maneira que o homem produz a si mesmo e a relação com a tecnologia.

A nova ordem tecnológica aponta que o conjunto de transformações que estamos passando não conseguem ser explicadas por um único paradigma, pois em separado uma o outra teoria já não dá conta de explicar algo tão radical como a passagem do mundo analógico para o digital. Essas transformações, embora sejam atravessadas pelas tecnologias, exigem um olhar abrangente e transdisciplinar, assim como exigem da vida acadêmica a reformulação e atualização de seus programas curriculares tanto em nível de graduação, quanto de pós-graduação e de incentivo à pesquisa. E esse não é um processo rápido ou fácil.

Entre a reformulação necessária da vida universitária para refletir (sobre) e desenvolver projetos de conteúdos audiovisuais voltados para as mídias digitais está a necessária percepção de que os conteúdos podem ser usados em várias plataformas tecnológicas e também para a convergência das mídias, tema que voltarei a tratar no decorrer do texto. Tais plataformas – tenho repetido – vão muito além do uso dos computadores mediados por internet, embora seja importante reconhecer que foram eles que abriram as portas para as mudanças que hoje estamos vivenciando no âmbito da Comunicação. Elas (as plataformas) incluem os videojogos em rede, os celulares, a TV, o rádio e o cinema digital e, acima de tudo, a possibilidade de desenvolver conteúdos audiovisuais digitais que possam ser usados em vários aparelhos tecnológicos ao mesmo tempo, sempre e quando sejam respeitadas as características de cada mídia digital. Neste contexto, os videojogos em rede e os celulares, que permitem a elaboração, divulgação e distribuição de conteúdos audiovisuais digitais já são considerados mídias digitais, ainda que alguns pesquisadores relutem em admitir essa realidade.

Um dos primeiros passos da mudança para o mundo digital é a "formação dos formadores". Isto é, dentro da academia urge atualizar professores e pesquisadores para as novas habilidades, linguagens, formatos e conteúdos audiovisuais que as mídias

digitais exigem e/ou permitem, entre eles o uso da interatividade2, da interoperabilidade, de produtos audiovisuais com usabilidade,

com acessibilidade, uso da multiprogramação 3 ou de várias telas ao mesmo tempo, no caso da TV digital. Quando me refiro aos professores e pesquisadores não estou tratando unicamente do campo de Comunicação, pois acredito que cada vez mais as Ciências da Informação, as Tecnologias da Informação, o Design e as Engenharias estão, direta ou indiretamente, relacionadas ao tema da produção de conteúdos audiovisuais digitais.

Esse processo de mudança do mundo analógico ao digital não pode ficar restrito ao nível intelectual, racional, pois perpassa também a subjetividade dos sujeitos sociais. Por isso, é preciso rever o aprendizado e a mentalidade analógica em que todos nós – com mais de 30 anos – fomos educados e elaboramos nossas teses e/ ou práticas cotidianas. Somente assim será possível adequar-se às transformações inerentes ao mundo digital, compreendê-las e refletir sobre seus aspectos positivos e negativos. Depois disso, os sujeitos sociais estarão prontos para repensar cursos de curta, média ou de longa duração voltados para a formação e/ou atualização de novos técnicos e profissionais de Comunicação, das Tecnologias da Informação, do Design, de Telecomunicações ou das Ciências da Informação, entre outros.

O mesmo vale para os avaliadores de projetos de pesquisa, de novos (ou atuais) cursos de graduação e pós-graduação nas instituições de fomento. Não é mais possível pensar apenas na disciplinaridade, em ciências rígidas que não se falam (quando muito trabalham multidisciplinarmente), porque em um mundo em transformação, também as ciências necessitam estar cada vez mais unidas para poder observar e analisar esses fenômenos, sejam eles socioeconômicos, políticos, culturais, tecnológicos, educativos ou comportamentais, de forma caleidoscópica e não parcialmente, compartimentada.

No que diz respeito aos projetos de pesquisa na área de inovação e desenvolvimento, está na hora de definir a produção de conteúdos audiovisuais digitais como área estratégica para o país. Isto porque se trata de uma indústria em desenvolvimento que, nos EUA, por exemplo, representa 10% do PIB somente na indústria do entretenimento, sem incluir aí as possibilidades de negócios na área de educação à distância, cultura, saúde, cidadania ou serviços. Além disso, é uma área estratégica no Reino Unido. Desde o final do século XX (1998), o governo britânico passou a priorizar a inovação, a criatividade e o mundo digital como temas de alta prioridade.

 

As origens da separação dos saberes

Antes de tratar das características do mundo digital propriamente dito, gostaria de dar continuidade a esta reflexão abrindo espaço para um outro tema (ainda que rapidamente) que está transversalmente relacionado à temática central deste artigo. Trata-

se da compartimentalização das ciências 4 e, em contraposição a isso, a necessidade do diálogo entre os saberes que ainda é uma temática pouco discutida no âmbito da Comunicação, particularmente pelos pesquisadores em Comunicação Digital.

Em geral, o debate em torno da separação dos saberes objetiva garantir a legitimidade de cada ciência no mundo científico e, por conseqüência, na vida social. Essa compartimentalização – que hoje é um processo "naturalizado" entre pesquisadores, professores e profissionais – se tornou realidade e ganhou corpo na metade do século XX. Mas é uma discussão antiga, que remonta a filosofia grega, nas diferentes formas de pensar de Platão e Aristóteles. A Idade Média, por sua vez – considerada a Idade das Trevas pela violência e perseguição religiosa – defendia os ideais platônicos, enquanto o Iluminismo – considerado a Idade da Razão, tinha como modelo as propostas de Aristóteles.

Vale a pena buscar na história o desenrolar desse debate para compreender o contexto em que nos encontramos, em plena primeira década do século XXI. No século XIII, o racionalismo aristotélico encontrou espaço nas universidades até então dominadas pela religiosidade e pelas autoridades eclesiásticas. A divisão se estabeleceu entre os seguidores de Platão que defendiam uma hermenêutica mística (esotérica) e os defensores de uma hermenêutica racional, de cunho aristotélico, (exotérica). Segundo Sommerman (2006:11), no século XV, "as faculdades cognitivas do homem que dariam espaço para a intuição, a inteligência, a imaginação verdadeira, a contemplação e o êxtase, foram banidas e a razão foi elevada à condição de faculdade cognitiva suprema". Ainda assim, vale ressaltar que a razão aristotélica defendia uma epistemologia bidimensional, onde havia espaço para a matéria e o espírito.

Duzentos anos depois, no século XVII, o racionalismo moderno, do qual Descartes (1596-1650) é considerado o pai (ligado às ciências exatas, como Matemática e Física) ao lado das teorias empíricas, dos pensadores ingleses Locke (1632-1704) e Hume (17111776), ligados às ciências naturais reduzem ainda mais o debate. Os pensadores do século XVII elegeram uma hegemonia unidimensional, valorizando apenas a matéria. Além disso, separaram ciências exatas das ciências humanas. Se o iluminismo no século XVIII separa os saberes conforme os objetos de conhecimento (mas reconhece a necessidade de diálogo entre as ciências), a chegada do século XIX gerou posições teóricas mais radicais, como o materialismo, o mecanicismo e o reducionismo.

Mas nem sempre foi assim. Até o século XVIII, os pensadores e cientistas tinham uma formação universal, escrevendo sobre matemática e geometria, mas também sobre teologia e metafísica. Aliás, até Kant (1724-1804) era impossível pensar um filósofo que não fosse físico Como recorda Sommermann, as posições reducionistas colaboraram para o desenvolvimento tecnológico do século XX, mas colaboraram para a crescente fragmentação da realidade e das disciplinas, assim como para a redução do sentido da vida humana.

O Jornalismo e mais tarde o campo da Comunicação sofreu a influência do positivismo do francês August Comte (1798-1857), que afirmava: "devemos nos limitar aos fatos imediatos da experiência, fugindo de toda a especulação metafísica". Ou seja, determinando que todo o conhecimento provém dos fatos. O mesmo Comte que, em pleno desenvolvimento da sociedade industrial, estabeleceu uma nova estrutura hierárquica para as ciências.

De lá para cá, o racionalismo e a delimitação do escopo de cada ciência garantiu a legitimidade de cada uma delas no mundo acadêmico e também na vida social. Como disse D’ Ambrosio (1993ª), a fragmentação dos enfoques para analisar a realidade ampara-se em esquemas racionais e científicos especializados. Isso ocorre em detrimento de uma visão global da realidade, onde os pesquisadores e profissionais que defendem a fragmentação muitas vezes olham com desprezo uma visão mais abrangente.

Ainda segundo D’Ambrosio, o aparecimento das disciplinas – que por muitos estudiosos foi considerada como a invenção mais importante da ciência moderna – originou a análise parcial da realidade. O homem foi se tornando cada vez mais especializado, o que levou ao abandono do conhecimento como um todo, da visão crítica mais ampla dos fenômenos globais e da criatividade. Mas a realidade complexa exige um olhar sistêmico, abrangente e transdisciplinar. Transdisciplinar, como bem lembra Jesus Martín-Barbero (2002), aqui visto como a construção de articulações, de diferentes pontos de vista sobre o mundo em uma rede discursiva que se aproxima, dialoga e se transforma.

No mundo acadêmico há uma constante preocupação em legitimar o discurso das Ciências da Comunicação (perante outras ciências) através da delimitação de suas fronteiras. No entanto, o que é visto por alguns estudiosos como uma das fragilidades da Comunicação, é também uma de suas características mais importantes por incentivar o constante diálogo com outras ciências, aproveitando categorias e metodologias já existentes e criando novas. E em mundo com cada vez menos fronteiras – sejam elas físicas ou virtuais – a delimitação do objeto de estudo é uma necessidade, mas sua análise abrangente, acolhendo diferentes olhares, respeitando-os e dialogando com eles, é uma obrigação do pesquisador que deseje estudar as mídias digitais e sua relação com a realidade social.

 

A passagem do mundo analógico para o digital

A passagem do mundo analógico para o digital começou no final do século XX com o medo e também deslumbramento dos cientistas, intelectuais e pesquisadores perante as possibilidades tecnológicas dos computadores. Mas na primeira década do século XXI é preciso ir muito mais além dos estudos dos computadores mediados por internet, refletindo também sobre as novas plataformas tecnológicas disponíveis, assim como sobre a convergência de mídias. Como já comentei anteriormente, essas plataformas – que dentro em breve deixarão de ser chamadas de novas para incorporar-se ao nosso cotidiano – são a televisão, o rádio e o cinema digital, os celulares e os videojogos em rede. No que diz respeito à TV digital em países da América Latina e Caribe estou me referindo especificamente a TV analógica que a maior parte da população tem casa utilizada com uma caixa de conversão para o sistema digital e com canal de retorno para interatividade, de caráter aberto e gratuito. O uso de IPTV ainda é restrito a pequenos círculos da população que, no caso brasileiro, não ultrapassam a 24%.

Quadro 1 – Convergência de meios.

 

Em segundo lugar, essa passagem é marcada pela possibilidade de convergência das mídias que, no mundo analógico, eram usadas separadamente ou quando muito, juntas como dispositivo publicitário. No entanto, mais do que simplesmente utilizar o mesmo conteúdo em diferentes mídias, é preciso adaptar esses conteúdos de áudio, vídeo, texto e dados às características de cada plataforma tecnológica. A disponibilidade de um conteúdo ou formato para celulares, não pode ser igual – em termos de estética, linguagem, temporalidade, uso das imagens e tamanho de telas – que os videojogos em rede ou a televisão digital interativa. Mas esse é um tema que vou retomar mais adiante.

Por outro lado, é possível utilizar as chamadas mídias digitais transversais – aquelas que circulam e convivem com as mídias digitais mais usadas e que podem ser úteis em determinadas campanhas, como as de saúde pública voltadas para jovens. Neste caso específico, poderiam ser usadas as mídias digitais mais conhecidas como a TV digital, os computadores mediados por internet, os videojogos em rede e os celulares, assim como mídias transversais, como os e-books interativos (como o Kindle) e os quadrinhos digitais interativos.

Quadro 2 – Mídias transversais

Uma das características mais marcantes desse processo de mudança é a passagem da comunicação unidirecional (produção – mensagem – recepção) para a comunicação bidirecional, dialógica e interativa. No mundo digital, o campo da produção envia a mensagem, que é recebida pelas audiências e estas têm a possibilidade de responder e interagir com o campo da produção, muitas vezes em tempo real, transformando radicalmente a relação entre as duas esferas. A partir desse momento, passa a existir uma comunicação bidirecional também no broadcasting (algo que antes estava restrito ao mundo do rádio), desde que haja canal de retorno. Para alguns autores, como Marshall (2004), esta é a principal característica da passagem do mundo analógico para o digital.

Embora a interatividade seja importante e marque de forma mais forte o diálogo entre os campos da produção e da recepção, acredito (e defendo) que as audiências, os públicos sempre foram ativos na sua relação com as diferentes mídias, mesmo que o nível dessa interação possa ser considerada fraca, se avaliada desde as possibilidades do mundo digital. A digitalização é um processo que ampliou e tornou pública a participação dos diferentes públicos a partir dos anos 90 do século XX, retirando as audiências do estereótipo de serem passivas e frágeis frente às tecnologias da

informação e comunicação (TICs)5. O que ocorria, em tempos de mídias analógicas, é que as possibilidades de participação eram restritas as cartas, aos fax, aos telefonemas, ao uso do controle remoto e a mudança de canal, estando estas duas últimas alternativas reduzidas ao mundo privado. O público era previsível, porque, dada a falta de opções, inclusive tecnológicas, aceitava a programação imposta pelas empresas de comunicação.

Hoje, com a diversidade das mídias, com a maior oferta de informação e as possibilidades interativas, as audiências se tornaram migratórias. Não apenas utilizam várias plataformas ao mesmo tempo (televisão, computador mediado por internet e celulares, por exemplo), como migram de uma plataforma tecnológica a outra, caso não gostem ou concordem com o conteúdo ofertado. Além disso, em tempos de mídias digitais, os públicos – independentes de gênero ou idade – podem explicitar seu desejo de participar, interagir com os conteúdos ofertados e mesmo divulgar sua produção de conteúdos audiovisuais digitais.

Quadro 3 – Novos atores sociais.

 

Outros fatores apontam as diferenças do mundo analógico para o digital, como pode ser observado a seguir:

1. A passagem para a sociedade do conhecimento. Mais do que a

sociedade da informação, vivemos a sociedade do conhecimento, onde todos somos aprendizes, onde as certezas já não estão dadas e onde o conhecimento está em constante transformação. Pela primeira vez na história, os jovens detém conhecimentos (tecnológicos), saberes que antes eram restritos aos mais velhos.

2. A ampliação das informações circulantes. A quantidade de

informação que existe hoje talvez possa ser comparada a invenção da imprensa de Gutenberg, quando o conhecimento e as informações passaram a circular em livros e jornais. No entanto, a velocidade com que essa informação circula e se modifica não tem parâmetros de comparação na história.

3. A imediatez das mensagens. A informação era física e antes

tardava dias em chegar pelo correio tradicional. Hoje chega rapidamente através de internet, de forma virtual, independente da plataforma a ser utilizada para o envio;

4. A redução da intermediação das informações. Atualmente as

comunidades, audiências ou atores sociais produzem informação, contestam notícias, enviam vídeos, fotos, áudios, dados e textos colaborando para a construção das informações e notícias que circulam na internet. Ou seja, as empresas de comunicação já não são mais a única fonte da informação;

5. A ampliação dos espaços virtuais. Hoje temos a educação a

distância, os bancos e serviços virtuais, como declaração de imposto de renda; as bibliotecas e museus virtuais, sem contar as livrarias ou lojas virtuais onde os serviços são oferecidos on line a qualquer hora do dia, independente de fuso horário;

6. A ampliação das plataformas tecnológicas. Foi-se o tempo que

ver e usar internet estava restrito ao uso do computador. Hoje se usa internet através da TV digital com canal de retorno, do rádio digital, dos celulares e dos videojogos em rede, que se transformaram nas novas mídias digitais;

7. As novas redes sociais e a construção de saberes coletivos.

Embora a sociedade digital incentive de um lado, o individualismo e o mundo virtual; de outro lado, como ponto de equilíbrio, estão as relações solidárias, a construção coletiva de saberes, em comunidades como Wikipédia ou através do jornalismo colaborativo.

Essa realidade complexa e cada dia mais digitalizada gerou novos atores sociais, que acessam e se apropriam das novas mídias de maneira formal (por meio de cursos) ou informal. Neste último caso, é possível citar o crescente interesse dos jovens e adolescentes que criam comunidades virtuais e intercambiam experiências e/ou novidades para desenvolver aplicativos de software para conteúdos audiovisuais digitais ou conteúdos para diferentes temáticas ou plataformas.

Outras categorias, para além da apropriação formal e informal, caracterizam os novos atores sociais, cidadãos digitais em um mundo em fase de transformação:

- tipo de tecnologia utilizada: única ou múltiplataformas (várias

plataformas ao mesmo tempo;

- quantidade de uso de multiplataformas ou multidispositivos:

duas (computador e celular); três (televisão, celular e

videojogos/computador) etc.;

- local de acesso: casa, trabalho, escola, telecentro ou

cibercafé;

- tipo de acesso: de forma solitária ou coletiva

- tipo de produção: para o mercado ou para uso coletivo e

gratuito

- tipos de telas: de diferentes tamanhos, proporções, fixas e

móveis.

Em países periféricos como o Brasil, o uso das tecnologias digitais têm uma razão fundamental de serem desenvolvidas como políticas públicas: ajudar na inclusão digital e social, melhorando a qualidade de vida da população. Isso não ocorre por acaso. Existe um número elevado de analfabetos digitais, mais conhecidos como excluídos digitais, convivendo ao lado de diferentes tipos de atores sociais que usam plataformas digitais no seu dia-a-dia. No meio termo entre os extremos, existem outros tipos de incluídos, como é possível

observar no Quadro 04. Também existem excluídos entre os chamados incluídos digitais, como é o caso de pessoas na terceira idade e das mulheres acima de 45 anos de classe média e alta que, muitas vezes, têm medo das TICs ou vergonha da falta de conhecimento sobre o mundo digital.

Quadro 4 – Tipos de atores sociais.

 

Entre aqueles que já se apropriaram das TICs, é possível citar:

– atores do tipo 3: aqueles que acessam somente algumas

plataformas ou alguns conteúdos específicos – é o caso das

pessoas que usam celulares pós-pagos (85% dos brasileiros);

dos que usam computadores em telecentros ou cibercafés; ou

daqueles que não têm acesso a banda larga, por exemplo.

Existe também as pessoas que somente se interessam por

música, seriados, esportes ou notícias;

– aatores do tipo 4: aqueles que acessam várias plataformas ao

mesmo tempo ou de forma separada, assim como se

interessam por diferentes tipos de conteúdos de áudio, vídeo,

texto e/ou dados. Em geral, são atores sociais que também

participam de comunidades virtuais, como My Space, Facebook

e Orkut, ou possuem blogs, foto e/ou vídeoblogs;

– aatores do tipo 5: são caracterizados pelos fãs de obras

temáticas apresentadas em formato de filmes para o cinema,

series para TV, histórias em quadrinhos, livros, radionovelas ou

videojogos. Com a convergência digital, essas obras temáticas,

como Harry Potter, Crepúsculo ou Matrix, que encantam

crianças, jovens e adultos de diferentes culturas podem ser

desenvolvidas em diferentes mídias, de forma transmidiática,

passando de uma mídia a outra (Henry Jensen, 2007). Muitas

vezes, os fãs se tornam produtores de conteúdos de áudio,

vídeo, texto ou dados ofertados gratuitamente a determinada

comunidade temática ou na internet.

– aatores do tipo 6: são aqueles que já desenvolvem aplicativos

de software para conteúdos audiovisuais (que permitem

usabilidade, acessibilidade, interatividade ou multiprogramação,

por exemplo) ou aqueles que produzem conteúdos audiovisuais

digitais, voltados para diferentes temáticas, como saúde,

serviços públicos, esportes, cultura, turismo, tele-medicina,

educação a distância e informativos, entre outros.

– aatores do tipo 7: qualquer pessoa interessada em produzir

conteúdos audiovisuais digitais para uma, várias plataformas ou

para a convergência de mídias, de forma amadora ou

profissional.

Antes de dar continuidade a próxima etapa desta reflexão, gostaria de voltar ao tema relativo ao papel das audiências no mundo digital, porque não concordo quando pesquisadores renomados como Scolari ou Jensky – que tratam das mídias e da convergência digital – reduzem os públicos a usuários (Scolari) ou consumidores (Jensky). Os públicos são muito mais do que isso, embora em alguns momentos possam escolher desempenhar um ou outro pa-pel; ou seja, o de consumidores de conteúdos ou de usuários das tecnologias. Eles se apropriam das tecnologias e dos conteúdos,

produzindo diferentes sentidos 6 sobre esses materiais, algo que foge ao domínio do campo da produção desde o começo das mídias analógicas. Além disso, multiplicam sua opinião sobre os conteúdos de áudio, texto, vídeo ou dados seja em conversas no âmbito privado, ou em conversas públicas, através da divulgação em comunidades virtuais ou em blogs, fotoblogs ou páginas web que podem ser visto desde diferentes plataformas tecnológicas.

Reduzir os públicos a consumidores ou usuários é tirar deles a possibilidade de protagonismo, de criação, de produção de conteúdos audiovisuais interativos, ou mesmo a possibilidade de dizer que não se interessam em participar, mas apenas em receber e assistir esses conteúdos. Reduzir os diversos públicos a mero consumidores ou usuários é repetir propostas teóricas do mundo analógico, onde o público ainda é visto como seres manipulados, incapazes de pensar por si mesmos. Tampouco significa dizer que as tentativas de manipulação não existam, mas agora as audiências têm a possibilidade de dar sua opinião e expressá-las, em grupo ou individualmente de forma pública, em diferentes plataformas tecnológicas.

 

Sobre a produção de conteúdos

Como já comentei em artigos anteriores (2007, 2008, 2009) preciso pensar estrategicamente, a médio e longo prazo, políticas públicas que sejam elaboradas como um plano de Estado e não apenas como pertencentes ao governo de plantão. E incluir, para além da formação, da atualização profissional e do estímulo à pesquisas inovadoras, a produção de conteúdos de áudio, vídeo, texto e dados em diferentes plataformas tecnológicas. Essas plataformas são os

celulares, a TV digital em suas diferentes versões: móvel7 ou fixa, para telas gingantes, médias ou pequenas, o rádio e cinema digital, os computadores mediados por internet e os videojogos em rede. Uma produção que pode ser desenvolvida para cada aparelho eletrônico ou através de conteúdos audiovisuais voltados para a convergência entre as diferentes tecnologias, o que exige propor, desenvolver e realizar pesquisas para os novos formatos

audiovisuais digitais interativos8.

A TV, o cinema e o rádio digital, os celulares, os videojogos em rede, os computadores mediados por internet ou a convergência entre as mídias exigem – como tenho repetido – novos formatos de programação, novos tipos de roteiros voltados para diferentes níveis interativos ou para programas que apareçam nos diferentes canais digitais das empresas de TV. Também requerem uma nova noção de grade de horários (mais flexível, por isso em textos anteriores André Barbosa filho e eu tratamos de módulos e não mais do conceito de grades) e novos modelos de negócios para as empresas, sejam elas públicas ou privadas.

Não é possível comparar os modos de produção jornalística ou ficcional para TV e rádio analógica com as novas necessidades da TV e do rádio digital, onde este último (o rádio) inclui o uso de imagens e de serviços on line. Nem é possível (como alguns imaginam) simplesmente repassar esses conteúdos audiovisuais digitais desenvolvidos para broadcasting diretamente para a televisão usada em um computador com acesso à internet, conhecida por IPTV, cujas características são bem diferentes da TV aberta.

Volto a recordar que a TV digital interativa pode ser utilizada a partir da televisão que todos nós temos em casa, com presença diária em 98% dos lares, acrescida da possibilidade de usar a caixa de conversão para o sistema digital e o canal de retorno para ter acesso a internet e a interatividade. A interatividade aqui

Ela pode ser usada para acessar emails, ver diferentes ângulos na tela, usar multiprogramação, sugerir pautas, entrevistados, avaliar programas, usar serviços públicos de saúde, EAD, agendar consultas médicas, checar processos e imposto de renda, realizar tele-medicina, ver saldos bancários, etc. Também é possível entrar em páginas web desde o próprio aparelho de TV usando o controle remoto como teclado (similar ao que fazemos quando mandamos mensagens de texto – SMS – nos celulares).

 

Em um mundo de hipertelas Os franceses Gilles Lipovetsky e Jean Serroy (2007) dizem que na era contemporânea vivemos uma inflação de telas (celulares, TV analógica ou digital, rádio digital, cinema, telões de festas, videogames, computadores, iPods, PDAs, livros digitais, como o Kindle) que tomam contam de nosso olhar durante o dia e a noite. Observando o este mundo do olhar e de visualidades, é possível desenvolver conteúdos ficcionais ou jornalísticos para TV e usar nos aparelhos de celulares desde que o conteúdo seja pensado para dispositivos móveis. Isso representa um tamanho similar de tela, a possibilidade de ser usado em qualquer lugar (em um parque, ônibus, metrô ou escola) e um nível similar de definição de imagem voltada para esse tipo específico de tela.

Mas se a proposta de conteúdos é pensada para diferentes meios de comunicação digitais, com diferentes características, como ser fixo ou móvel, ou as diversas dimensões de telas (celulares, televisores portáteis ou televisores de 72 polegadas) é preciso levar em consideração que exigem diferentes espacialidades, temporalidades e mobilidades. Também requerem outros tipos de linguagem, conteúdos e formatos audiovisuais, assim como uma relação diferenciada com seus públicos e uso de níveis de interatividade.

No caso da TV digital (TVD), os novos formatos audiovisuais já estão sendo desenvolvidos pensando as possibilidades interativas do público com a TVD que, no modelo nipo-brasileiro, é um benefício extra gratuito para as audiências. Pela primeira vez na história, as audiências – e não apenas o restrito grupo que possui computadores mediados por internet – poderá se relacionar de perto com o campo da produção, com aqueles que produzem e dirigem diariamente os diferentes programas de televisão. Além, é claro, de ter a oportunidade de produzir conteúdos audiovisuais digitais, algo que até então, estava restrito ao campo da produção.

Através do canal de retorno acoplado interna ou externamente ao aparelho de TV, é possível utilizar diferentes níveis de interatividade, como já comentamos em artigos anteriores (Barbosa Filho e Castro, 2007, 2008, 2009, Castro e Fernandes, 2009). Entre os recursos interativos está a possibilidade de avaliar um programa enquanto está ocorrendo enviando mensagens à produção a partir do controle remoto; sugerir pautas ou entrevistados; baixar informações extras sobre o programa e seus participantes, etc. Além disso, é possível utilizar recursos interativos pensando a multiprogramação, onde cada um dos sub canais de uma mesma empresa de comunicação poderá apresentar diferentes (ou nenhum) níveis de interatividade

com o público9. Também é possível encontrar interações mais simples, como as informações previamente disponíveis sobre jogadores e a situação de uma equipe durante uma partida do campeonato brasileiro, que já há alguns anos é disponibilizada aos assinantes dos canais pagos.

 

Para finalizar

Outra diferença importante do sistema analógico para o digital é que é possível mudar a origem da produção dos conteúdos audiovisuais digitais, até então restrita a grandes grupos de comunicação, como Organizações Globo, SBT, Grupo Abril, Record, etc. Ou seja, a produção de conteúdos audiovisuais digitais poderá ser feita por profissionais de Comunicação, por produtores independentes ou mesmo por profissionais de diferentes áreas, como Design, Educação ou Informática, por exemplo. E acredito que aí resida o caráter revolucionário e profundamente democrático das mídias digitais, pois as audiências e movimentos sociais têm a possibilidade de sair do caráter alternativo e contra-hegemônico para oferecer – de maneira mais equilibrada – outros pontos de vista sobre a realidade e o mundo.

A Comunicação Digital abre um novo espaço para a produção de conteúdos audiovisuais, que não ficará mais restrita a intermediação dos grupos de comunicação. Os mesmos grupos que há anos concentram e produzem conteúdos para diversas mídias, como rádio AM e FM, televisão aberta e por assinatura, TV digital, internet, jornais e revistas impressas e por internet, produzem filmes e vídeos, possuem empresas discográficas, agências de notícias, etc. Neste caso, a produção de conteúdos audiovisuais digitais audiovisuais interativos poderia ser elaborada desde vários lugares, públicos ou privados. Entre eles, a própria casa, um estúdio ou redação ou mesmo a partir de um telecentro, de uma biblioteca com recursos multimídia, uma organização não governamental (ONG) em um bairro, em TVs comunitárias e/ou TVs educativas, oferecendo outras vozes ao discurso informativo e ficcional atual. Desde este ponto de vista, a produção de conteúdos audiovisuais digitais significa inclusão social, visibilidade e respeito à diversidade cultural e também, mais empregos, colaborando para o desenvolvimento sustentável sempre e quando seja desenvolvida enquanto política pública.

Para finalizar, gostaria de reforçar a importância do trabalho conjunto, sistêmico, aberto as novas possibilidades interativas e de inclusão social que ainda engatinham no campo televisivo digital, assim como na convergência de mídias. O desenvolvimento de pesquisas e projetos em conjunto com diferentes ciências, tendo a tecnologia como eixo transversal a partir de seu potencial de inovação e criatividade, é o movimento concreto para mostrar, na prática, que a construção do conhecimento, é mais do que um ato solitário. Ele pode ser a prova de que o respeito à diversidade e ao pensamento do Outro ultrapassa a teoria para as ações cotidianas e são atos da responsabilidade social de todo pesquisador ou profissional interessado em colaborar com a melhoria da qualidade de vida da população.

 

Referências bibliográficas

BARBOSA FILHO, A.; CASTRO, C.; TOME, T. Mídias digitais, convergência tecnológica e inclusão social. São Paulo: Ed. Paulinas, 2005.

BARBOSA FILHO, A.; CASTRO, C. Comunicação digital: educação, tecnologia e novos comportamentos. São Paulo: Ed. Paulinas, 2008. D’AMBROSIO, U. A possibilidade de paz total – novos paradigmas: o que são e qual a razão de ser dos "velhos" paradigmas?, mimeo, 1993.

CASTRO, C.; FEITOSA, D.; VALENTE, V. Interoperabilidade e interatividade da TV digital na construção da sociedade da colaboração. Artigo apresentado no Congresso da Intercom 2009.

Disponível na página da Intercom: www.intercom.org.br , 2009c.

CASTRO, C. "La televisión como rito de pasaje del mudo analógico para el digital". In: Revista Tramas. Buenos Aires: Universidad La Plata , 2009a.

_______. "La comunicación digital y las posibilidades de inclusión a partir del uso de las tecnologías digitales". In Revista Disertaciones. Caracas, 2009b.

_______. "Industrias de contenidos y medios digitales – entre la teoría y la práctica: la creación de centros para producción de contenidos digitales". In: Revista Diálogos. Lima: Univ. de Lima, 2008a.

_______. "La televisión figital en Brasil y las posibilidades de inclusión digital". Revista SET (edición especial em castellano). Ano XIX, n.1. São Paulo: Ed. Embrasec, abril 2009.

JENSEN, H. Cultura da convergência. São Paulo: Aleph, 2008.

LIPOVETSKY, G.; SERROY, J. La pantalla global. Cultura mediática y cine en la era hipermoderna. Barcelona: Anagrama, 2009.

REVISTA CHASQUI. Especial sobre Jesús Martín-Barbero. Quito: Ciespal, 2009.

SCOLARI, C. Hipermediaciones: elementos de uma teoria de la comunicación digital Interactiva. Barcelona: Gedisa, 2008. SOMMERMANN, A. Inter ou Transdisciplinaridade? São Paulo: Paulus, 2006 (Col. Questões Fundamentais na Educação).

1 Professora do Programa de Pós-Graduação em Televisão Digital da Unesp, campus de Bauru.

2 Compreendida como a relação que se estabelece entre o campo da produção e da recepção, onde as audiências passam a interagir, em diferentes níveis, com os produtores de televisão, podendo participar, interferir ou comentar os programas (Barbosa Filho e Castro, 2008).

3 A multiprogramação é resultado da aplicação de técnicas de compressão de algoritmos que permitem que sejam transmitidos mais programas em um espaço de banda onde atualmente se permite apenas um. Ou seja, em alta definição, também conhecida como HDTV, a TV digital permite que um mesmo canal seja divido em quatro sub-canais, ampliando a oferta de conteúdos para as audiências e o mercado de trabalho para os profissionais do setor. Há outras possibilidades, como o uso de 06 canais, quatro em HDTV e outros dois em padrão standard, conhecido como SDTV, ou usar oito canais apenas no SDTV. Esta última alternativa limita e restringe o uso de recursos interativos.

4 Outros autores têm tratado sobre essa separação dos saberes, entre eles Hilton Jiapiassu (1991) e Maria Cândida Moraes (1997) .

5 Aqui consideradas como o conjunto heterogêneo de técnicas, sistemas e aparelhos e/ou plataformas eletrônicas, máquinas inteligentes e redes informáticas que permeiam a vida social. Estão em constante crescimento e podem ser fixas ou móveis.

6 Produção de sentido aqui utilizada a partir do conceito de Eliseo Verón, desenvolvido em 1982 no livro A produção de sentido, publicado no Brasil pela Editora Cultrix.

7 As plataformas tecnológicas que possibilitam a mobilidade, o deslocamento são os celulares, a TV digital portátil, os laptops, os iPods e os videogames portáteis. O conjunto dessas tecnologias são chamadas de multidispositivos. O termo se diferencia de multiplataformas, porque estas incluem a TV digital fixa e os computadores de mesa, por exemplo.

8 O governo brasileiro, através do Ministério da Educação e também do Ministério da Cultura, abriram em 2009 os primeiros editais estimulando a produção de conteúdos audiovisuais digitais.

9 Projeto deste tipo vem sendo desenvolvido desde metade de 2009 no laboratório do professor Luis Fernando Gomes, localizado na PUC/RJ.