Televisão Digital: informação e conhecimento

Maria Cristina Gobbi · Capítulo 12 de 17

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Televisão Digital: informação e conhecimento

Parte II - Processos, experiências e embates

Parte II - Processos, experiências e

embates

 

10 (S)em direção à sociedade da

informação: desafios brasileiros e

espanhóis no processo de

implantação da TDT

 

Juliano Maurício de Carvalho1 2 ; Mateus Yuri Passos

 

Introdução

As expectativas em torno da Televisão Digital Terrestre (TDT) são enormes. Desde as primeiras discussões acerca da mudança no sistema de transmissão e a digitalização do sinal na década de oitenta até hoje, pudemos compreender que a implantação e a gestão do novo padrão não se tratam meramente de aspectos técnicos, motivo de preocupação para engenheiros e fabricantes, mas de uma profunda alteração na maneira com que a população lida com a televisão e a mídia, não tendo um papel passivo em relação à informação, por meio de funções ainda potenciais como multiprogramação e interatividade. Tal processo envolveria, assim, setores de distintos pontos de interesse em toda a sociedade civil: poder público, proprietários de emissoras, produtores de conteúdo audiovisual de âmbito nacional, regional ou local, empresários de grande, médio e pequeno porte, organizações não governamentais e, certamente, engenheiros e fabricantes de televisores, set-top boxes, transmissores, codificadores de sinal etc.

Também é necessário dizer que a chegada da TDT não pode ser compreendida de maneira alienada de um processo global de digitalização da informação, desde os níveis burocráticos até a comunicação interpessoal e os grandes meios de comunicação de massa. A depender da maneira como isso ocorre, televisores, rádios, computadores, e-readers e telefones móveis podem, ou não, tornar-se diferentes terminais de acesso a uma só rede comunicacional, ao que chamamos convergência midiática.

En tanto y en cuanto la televisión hertziana analógica es la

modalidad televisiva más extendida entre la población, es

acertado pensar que lograr su migración al sistema digital es la

forma más rápida y económica de universalizar el acceso a los

bienes y servicios derivados de la digitalización. De ahí que la

TDT venga a ser señalada por diversos autores como la

modalidad más adecuada para llevar adelante esta migración

debido a sus características técnicas y económicas (…). Es el

soporte más barato y rápido de instaurar, que además no se ha

volcado de manera definitiva hacia el pago por visión como ha

ocurrido con la televisión digital por cable y satélite. (Leiva,

2008, p.33)

Se a mudança no sinal televisivo pode proporcionar uma extensão de outras vantagens da digitalização, constitui uma forte saída para superar o abismo digital, ou exclusão digital, e assim contribuir de modo decisivo para a implantação de uma sociedade da

informação 3 de forma plena. Compreendemos exclusão digital como o aleijamento, parcial ou completo, de pessoas, grupos, instituições ou nações da posse, uso ou acesso às novas tecnologias de informação e comunicação, tornando-se uma barreira para que possam desfrutar plenamente das condições materiais criadas pela atual configuração tecnológica da sociedade. (Guimarães, 2004, p.5)

Para Silveira (2001) "as novas tecnologias e os frutos da revolução tecnológica têm como tendência ampliar o distanciamento entre ricos e pobres". As novas tecnologias de comunicação e informação são basicamente digitais, operando por meio da linguagem binária para realizar o processo de informação. Essa forma de processamento da informação alterou as estruturas da sociedade quando se tornou um modo de apropriação de capital.

Assim, a digitalização e convergência midiática está diretamente relacionada com a democracia, com o direito cidadão à informação e comunicação, e com o interesse público e privado na disposição de oferecimento e acesso a serviços e à informação digital, bem como a possibilidade de comunicar.

Neste artigo, temos o intuito de apresentar a perspectiva brasileira, e, tendo em vista seus desafios, analisar o estado da arte na Espanha acerca da instalação da Televisão Digital Terrestre, considerado o modelo mais adequado à convergência midiática, uma vez que o sinal navega pelo ar e sua recepção não está condicionada por assinatura. A partir da produção intelectual espanhola (em específico as obras de Bustamante, Leiva, Moragas, Pradro, Quijada, Llorens i Maluquer, Gonzalez, Crespo e Felici) a respeito da digitalização da comunicação eletrônica do país e seu marco regulatório, torna-se possível estabelecer parâmetros comparativos para a compreensão do contexto em países como o Brasil.

 

Desafios brasileiros

A televisão, no Brasil, é mais do que um meio de comunicação e informação. Desde sua chegada ao país na década de 1950, pelas mãos de Assis Chateaubriand, a TV logo se disseminou e se tornou o meio de comunicação de massa mais desejado, atingindo 90% da população brasileira. Atualmente, a TV aberta transmitida para os televisores existentes utiliza canais analógicos com largura de banda de 6 MHz. No entanto, o Brasil tem buscado, por meio de tecnologias, a melhoria do sistema brasileiro de televisão.

Em 2006, o presidente Luís Inácio Lula da Silva assinou o decreto oficializando o modelo japonês como o padrão de TV digital brasileiro, o SBTVD. Mesmo com todas as controvérsias geradas por essa escolha, incluindo a baixa abertura à participação de órgãos da sociedade civil no processo decisório, o fato é que entre 2007 e 2013 a TV digital será implantada.

Na mudança para o patamar digital, o Estado brasileiro não tem

adotado uma postura de discussão contínua, aberta ao conjunto

da sociedade, considerando a totalidade da dinâmica

econômicopolítica, que se relaciona com itens como custos em

geral, potencialidades, oportunidade de geração de empregos,

viabilidade de desenvolvimento tecnológico interno, redução

das distâncias sociais e vantagens comerciais. (Brittos, 2004,

p.37).

A nova era da radiodifusão brasileira foi marcada pela estreia da televisão Digital no dia 02 de dezembro de 2007 na Grande São Paulo. Com a possibilidade de maior interatividade entre telespectador e emissora por meio de um canal de retorno, a TV digital pode inovar no acesso às informações adicionais, o que representa uma melhora na relação emissor-receptor. Assim, esse processo de transição do sistema de TV analógica para digital não é uma simples mudança do formato de armazenamento, tráfego e recepção de informações do meio. Envolve uma série de transformações na cadeia de valor que demandam uma nova política econômica e social que se dará em relação ao fluxo das indústrias tecnológicas, pesquisadores, produtores de conteúdo, emissoras e sociedade.

Com o advento desse novo sistema, o usuário que possuir conversor digital (set-top-box) ou televisor digital terá vantagens como sinal digital, alta definição de imagem e som, poder de

mobilidade e portabilidade4 5 6 , multiprogramação e interatividade.

A introdução dessa nova tecnologia de comunicação no Brasil deve considerar as transformações no domínio político, as novas relações entre homem e máquina e a adaptação do mercado de ferramentas digitais de produção audiovisual e de conteúdo, possibilitando a inclusão social e viabilizando a capacidade de inovação no fornecimento de novos serviços de telecomunicação no país.

O "quando ver" e "onde ver" são conceitos novos que começam

a alterar padrões tanto de produção como de consumo de TV.

Não somente a questão da concentração dos programas com

mais audiência nos horários até então "nobres", mas também o

foco da publicidade para financiar toda a estrutura está sendo

um fator de risco. (Pellanda, 2006, p.48)

O serviço de interatividade anexado às programações da emissora não é obrigatoriamente gratuito, o que pode criar "dois tipos de cidadãos: aqueles que podem pagar pela interatividade e aqueles que continuarão com uma TV unidirecional" (Oliveira, 2007, p.162), criando um problema socioeconômico, já que a existência de acordos entre as emissoras com as operadoras de telecomunicações no oferecimento de serviços pagos é essencial para arrecadação de benesse que será investido em conteúdo e infra-estrutura.

A digitalização da televisão acarretará o redesenho no conjunto do sistema de comunicações do país: haverá novo ordenamento no setor audiovisual, investimentos na produção de novas tecnologias e reestruturação dos recursos humanos. Nesse contexto, a economia passa por uma reestruturação em âmbito mundial, já que serão beneficiadas as nações que possuírem conhecimento e tecnologia, principalmente os produtores de softwares, criando-se uma nova cadeia de valor na comunicação. É uma nova chance de reverter o quadro de centralização do conhecimento da ciência tecnológica pela minoria e, consequentemente, da desconcentração de capital, acabando com a divisão norte-sul que parece ser estratificada na era da globalização.

Outro desafio a se considerar é que a TV Digital não deve ser pensada como um aperfeiçoamento do sistema televisivo, mas sim uma nova mídia capaz de convergir com outras tecnologias. É equivocado também considerar a interatividade apenas como a existência de aplicativos extras em que o usuário poderá somente criar um diálogo bidirecional (recebimento e envio de informações) de modo a preencher a programação. Deve-se considerar o interesse e o anseio de diferentes públicos, utilizando-se uma linguagem apropriada e manuseio prático para não se criar reação adversa em relação aos novos recursos e se acabar por afastar os usuários.

Centros de pesquisa, grandes indústrias tecnológicas e universidades têm dado grande atenção ao desenvolvimento da televisão digital, não só por ser um mercado em expansão, mas também pela possibilidade de ser um instrumento educativo em potencial para inclusão social. Apesar de a comunicação eletrônica ser um instrumento restritivo em termos econômicos, não se pode anular que ela facilita o acesso à informação pela facilidade de convívio direta entre os geradores e consumidos da informação, constituindo-se na mais nova e eficiente maneira de divulgar mensagens para diversas tribos de informação, com a intenção de criar conhecimento (Barreto, 2008).

Ao incorporar a tecnologia em seu dia a dia, o incluído digital

passa a exercer sua cidadania de uma forma mais efetiva,

conhecendo melhor seus direitos e conquistando um meio

poderoso de se comunicar. As tecnologias da comunicação e

da informação, quando usadas de maneira eficiente,

transformam-se em ferramenta de mobilização social. (Cruz,

2006, p.178).

Entretanto, o desenvolvimento e aperfeiçoamento da televisão digital exigem alguns requisitos que possuem alto custo, ainda mais para um país de grande diversidade cultural como o Brasil.

Uma base digital interativa pensada a partir do campo da

comunicação deve contemplar as complexidades inerentes aos

âmbitos da produção e da recepção, e ser arquitetada dentro de

um projeto horizontal e participativo que contemple as

audiências. [...] Eis um bom desafio a ser superado para

construir e desenvolver projetos de produção de conteúdos que

realmente pensem a inclusão digital e a valorização cidadã

contemplando o pondo de vista e as necessidades dos

diferentes públicos [...]. (Castro, 2005, p.299).

A digitalização da televisão aberta no Brasil representa uma nova fase para as telecomunicações e um campo em potencial para a inclusão social e cultural, assim como para o incentivo à educação à distância no país. Significa, também, uma reestruturação da economia nacional, uma vez que exige não apenas a mobilização das emissoras e fabricantes de televisores, mas de diversas outras áreas, que vão desde a indústria eletrônica até o setor de produção e disseminação dos conteúdos. A proposta do Ministério das Comunicações é também colocar os institutos de pesquisa como intermediários para que as indústrias tenham acesso à pesquisa desenvolvida na universidade.

A discussão sobre a recente implantação da TV Digital no Brasil e sobre os benefícios advindos com ela é de grande importância na medida em que a formulação de políticas públicas estudadas e analisadas pelas autoridades, empresas detentoras dos meios de comunicação e sociedade contribua na busca de soluções dos problemas estruturais da sociedade.

A TV Digital precisa ser abordada como uma instrumentação

tecnológica que, além de relações de mercado, consistirá em

extraordinárias potencialidades culturais que devem ser

tratadas com a mesma atenção atribuída aos aspectos

tecnológicos e industriais do projeto. (FNDC, 2003).

 

Cronograma e planejamento de implantação da

TDT espanhola

Como nos demais países em que a radiodifusão passa pelo processo de digitalização, está programado um "apagão analógico", ou seja, após um período de simulcasting no qual os sinais digitais serão transmitidos junto aos analógicos, estes últimos serão suspensos e a recepção se dará exclusivamente pelos digitais. Enquanto no Brasil pretende-se encerrar por completo a transmissão de sinais analógicos de televisão em 2016, o Plano Nacional de Transição da Espanha o realizará em três etapas. A Fase I, a ser executada em 30 de junho de 2009, afetará municípios com alto índice de alcance da televisão digital terrestre (TDT) e fará com que 11,6% da população passe a receber o conteúdo televisivo apenas por sinais digitais. A Fase II, com execução prevista para 31 de dezembro de 2009, afetará algo próximo a 8 milhões de habitantes, cerca de um terço da população espanhola. Por fim, na Fase III, estimada para entrar em operação em 3 de abril de 2010, o simulcast se encerrará e todos os lares espanhóis passarão a receber exclusivamente o sinal digital de televisão (López, 2009). Atualmente, o número de usuários com acesso à TDT por meio de set-top boxes beira os 12 milhões, aproximadamente 50% da população espanhola. Embora López (2009) considere esse um grau satisfatório de digitalização, em cerca de um ano a outra metade do povo espanhol deverá adaptar sua aparelhagem de recepção para ter acesso ao sinal digital, sob pena de ficar excluída das transmissões.

A tabela apresenta a cronologia do encerramento das transmissões analógica na Europa. A Espanha será o primeiro país a finalizar o processo de transição tecnológica.

Fonte: Impulsa TDT, 2007, p.138

O processo de inserção da TDT na Espanha começou relativamente cedo em relação ao restante da União Europeia (Bolaño; Vieira, 2004): o início das transmissões digitais se deu em 1999, enquanto o Reino Unido tomou a largada do processo em 1998, seguido pela Suécia em 1999, Finlândia em 2002, Países Baixos em 2003, França, Itália e Portugal em 2004, Áustria em 2005. Na Alemanha, as transmissões tiveram início em Berlim em 2002 e houve ali o primeiro apagão analógico, posteriormente considerado ilegal (Leiva, 2006). A União Europeia recomenda aos estados-membros o favorecimento de implantação de uma sociedade da informação ao se promover a convergência de meios, redes e equipamentos digitais por meio de políticas públicas convergentes, assim como a cessão das transmissões analógicas até 2012, desde que esteja montada uma infraestrutura que não prive grande parte da população da recepção do sinal televisivo (Leiva, 2006).

A Espanha seguiu o padrão adotado pelos demais países europeus, o Digital Video Broadcasting (DVB). Esse sistema permite a hierarquização da informação transmitida, o que possibilita às operadoras a transmissão simultânea de programas com níveis de resolução distintos e opera com o software Multimedia Home Platform para proporcionar interatividade para o telespectador, por meio dos aparelhos receptores, e um canal de retorno terrestre (RCT), que pode realizar a interligação do sinal de TDT com redes GSM e 3G.

Vários elementos concorreram para a mudança no modelo de oferecimento da TDT na Espanha, a redução das audiências das redes públicas fortemente condicionada pelo baixo financiamento público evidenciou um cenário e a ausência estratégica no formato proposto inicialmente. A vocação pública da televisão cedeu lugar para um discurso mercadológico da organização concorrencial do audiovisual espanhol.

Las televisiones públicas se enfrentarán así a una conocida

disyuntiva que se resolverá con estrategias diferentes en cada

país: o el reforzamiento de las notas y funciones del servicio

público, con riesgo de marginalidad en el mercado, o la

búsqueda de la maximización comercial de su oferta que

incrementa aun más su deslegitimación social y política

(Bustamante, 2002, p.3).

É preciso ressaltar que não apenas em relação ao sinal, mas também às políticas de implantação e aos modelos de negócio para televisão digital a TDT entra em concorrência com três outros canais de transmissão digital: cabo, satélite e IP (internet). Desse modo, as prioridades acerca de cada modelo variam de país para país, de acordo com a maior penetração de televisão via cabo, via satélite ou terrestre, embora estado algum tenha prescindido da implantação da TDT (e, portanto, de encerrar as transmissões analógicas), considerado o modelo mais adequado à convergência midiática, uma vez que o sinal navega pelo ar e sua recepção não é condicionada por assinatura (Leiva, 2006; Bolaño; Vieira, 2004). Contudo, a primeira empreitada do governo espanhol em TDT foi justamente um sistema pago, a Quiero TV, cuja operação foi concedida ao grupo então estatal Retevisíon, e que resultou em fracasso por conta de diversos fatores: a concorrência com a televisão digital por satélite, a escassez de banda oferecida, a impossibilidade de se oferecer serviços interativos e um processo de regulação disperso e pontual, marcado pela ausência de debates parlamentares (Leiva, 2008).

En síntesis, puede decirse que con la privatización de

Retevisión y el reparto de las frecuencias de TDT entre los

poderes existentes, se determinó, en un juego de interacción

con las principales empresas, quiénes serían los ganadores y

perdedores de un modelo de corte principalmente comercial.

Queda claro, por consiguiente, que se desaprovechó una

oportunidad para democratizar el sistema televisivo,

profundizando la concentración horizontal cruzada entre

cadenas digitales o entre estas y las analógicas, y anulando la

competencia que la diversidad de soportes de la televisión

digital permitía (Leiva, 2008, p.211)

Até a efetiva elaboração e implantação do Plano Técnico Nacional de Televisão Digital Terrestre, em 2005, a preparação cognitiva e técnica para as transmissões de sinal digital viveram um "limbo regulatório" em que imperou a lógica de mercado (Prado, 2007; Leiva, 2008), a qual mais tarde seria responsável pela minimização do papel da televisão local nas iniciativas de impulso da digitalização televisiva (Alonso, 2007), ainda que haja um plano específico do governo espanhol para a televisão local.

Em 2005, contudo, uma série de "medidas urgentes" é decretada pela Lei nº 10/2005, de 14 de junho, de modo a recuperar o tempo perdido e dar novo impulso ao processo de digitalização da televisão terrestre, que todavia apresentava diversos problemas:

Estudiando la norma podemos afirmar que no apreciamos tal

impulso de la televisión digital, toda vez que lo fundamental es

que se permitirá excepcionalmente emitir en analógico por dos

años a las televisiones digitales, constatando el estancamiento

de las operadoras digitales. Tampoco vemos la liberalización del

cable puesto que se supedita lo incluido en la Ley a una norma

reglamentaria de la que se desconoce su alcance. Por último no

se atisba pluralismo alguno, a no ser que se entienda por tal

concepto avalar la titularidad de cinco concesiones en el mismo

territorio en el ámbito de difusión de la radio. Pensamos que lo

único que fomenta es la regresión en la televisión digital

terrestre, el caos técnico en la asignación de espectro

radioeléctrico y el arreglo de una situación particular en el

ámbito de la radiodifusión. (Torrego; Tamames, 2006, p.6)

A seguir, em 29 de julho, o Decreto Real nº 944/2005 estabelece o Plano Técnico Nacional de Televisão Digital Terrestre que regula as bandas de freqüência e estabelece 3 de abril de 2010 como a data máxima para o apagão analógico, e o Decretos Reais nº 945/2005 e 946/2005, proclamados na mesma data apresentam, respectivamente, a regulação da prestação de serviços para TDT e a criação de um novo canal analógico de cobertura nacional, o Canal Quatro, autorizado a transmitir sem codificação do sinal (Torrego; Tamames, 2006). A concessão do novo canal, em adição aos três que compunham o limite estabelecido pela Lei de Televisão Privada, de 1988, foi o principal efeito das "medidas urgentes", somada à criação de um quinto canal em novembro do mesmo ano e da recusa da solicitação de dois canais autorizados pela gestão do Partido Popular (1998-2004) a transmitir em sinal digital a poder emitir também sinais analógicos, o que evidencia que o propulsor dessas resoluções e o fio de ligação entre elas caracterizam-se por motivações eminentemente políticas (Bustamante, 2008).A regulação autônoma é um importante avanço no marco regulatório espanhol. Cada comunidade autônoma poderá dispor de quatro canais e programas para implementar o simulcasting no período de transição entre o modelo analógico e o digital. A transmissão terrestre local permite não só a transmissão de conteúdos em âmbito estatal, mas também local. O Plano Nacional da Televisão Digital Local estabeleceu um canal multiplex para cada capital de província e para municípios com uma população superior a cem mil habitantes.

El Plan ha acordado un total de doscientas setenta y seis

demarcaciones. La comunidad autónoma con más

demarcaciones es Andalucía con cincuenta y ocho y las que

menos Ceuta y Melila con un programa para cada una. Un

multiplex tiene capacidad para cuatro programaciones, para

cuatro emisiones distintas en la misma frecuencia. Por tanto, en

total serán más de 1.000 emisoras de televisión local que

puedan operar legalmente en España llegando a un 87% de la

población española. (Felici et al., 2007, p.118-19)

As primeiras concessões de licença de TDT no âmbito das comunidades autônomas ocorreram em Madri, Catalunha, La Rioja e Navarra. A maioria dos processos de cessão de canais já ocorreram e em algumas comunidades se encontram em processo de concessão. A tabela apresenta a distribuição dos canais digitais e o modelo de gestão pública e privada nas comunidades.

Fonte: Impulsa TDT, 2007: 158

 

Considerações finais

Ao contrário das expectativas iniciais, o processo de implantação da Televisão Digital Terrestre não se encontra, na Espanha, em estágio mais avançado do que o Brasil em aspectos cognitivos, técnicos, regulatórios ou estruturais, com exceção dos programas de instalação da TDT local privada, que, de todo modo, ainda é incipiente.

Ainda é prematuro afirmar que a vocação pública da TDT na Espanha e a sua experiência cidadã conduzirá a um processo de transformação da indústria audiovisual ou que concretizará as promessas de universalização do acesso às tecnologias, alta definição e interatividade. A migração tecnológica produz, ainda, poucos elementos para identificarmos transformações no modo de produzir e relacionar-se com o suporte digital.

Muito embora o Livro Verde Europeu do programa para a sociedade da informação sugerisse a disseminação das novas tecnologias para a redução das desigualdades regionais e o fortalecimento do capital intelectual, o que se pôde observar nos estudos da área da economia política da comunicação é o avanço do modelo privado da televisão, com a exceção do modelo britânico, e o desmantelamento de alternativas locais e regionais de produtos audiovisuais e a conseqüente redução das zonas produtivas para o mercado audiovisual independente das grandes redes de televisão.

Não obstante, a inclusão digital, principal promessa dos serviços de conectividade do novo sistema poderá reduzir a brecha digital, caso a capilaridade da TDT, notadamente, em pequenas cidades seja fomentada com esta finalidade.

A forte presença dos canais estatais e a ausência de uma política para o fomento e distribuição dos canais locais, desenha um prognóstico incerto para o futuro da TDT. Algumas questões seguem sem respostas no âmbito das políticas de comunicação espanholas. A ausência de critérios para o uso do espectro audioelétrico analógico no período pós-transição e inexistência de mecanismos de controle social sobre a cessão dos canais locais, por meio das comunidades autônomas, e, finalmente, a inserção dos atores sociais coletivos na arena decisória do marco regulatório como instrumento de decisão compartilhada do Estado com a sociedade.

 

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1 Coordenador do Programa de Pós-graduação em Televisão Digital e docente do curso de Comunicação Social – Jornalismo da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (FAAC) da Unesp. Pesquisador e líder do Laboratório de Estudos em Comunicação, Tecnologia e Educação Cidadã (Lecotec). Doutor em Ciência da Comunicação pela Umesp.

2 Mestrando em Ciência, Tecnologia e Sociedade pela UFSCar com bolsa Fapesp. Jornalista (PUC-Campinas), especialista em Jornalismo Literário (ABJL/Cesblu) e Jornalismo Científico (Unicamp). Membro do Lecotec/ Unesp e Gege/UFSCar.

3 A sociedade da informação (SI) surgiu em conseqüência à Terceira Revolução Industrial, processo que representa significativa diferença em relação às duas anteriores. Mattelart (2002) faz referência a uma sociedade global da informação como resultado de uma construção geopolítica, que ganha energia nos séculos XVII e XVIII, apesar de na época não se ter claramente a noção de informação na língua e na cultura da modernidade. Vivendo um momento em que a materialização da língua dos cálculos era intensa, a Revolução Francesa faz dela o modelo de igualdade cidadã e dos valores do universalismo. Castells (2000) afirma que na sociedade da informação os meios de produção são influenciados ou tomados pela generalização ou pelo fluxo de informações, trocadas pelos meios de comunicação de massa e, principalmente, pela rede mundial de computadores, a internet. Há, todavia, exagero no trato da informação como objeto de importância superior, inclusive à do trabalho. Apesar de ser dominante e essencial, seu valor e poder são referenciais, não absolutos. A informação tem serventia somente quando possui algum grau de aplicabilidade – e esse aspecto, as diversas aplicabilidades da informação, é o que tem passado por grandes revoluções nos últimos tempos.

4 Recepção do sinal digital em veículos em movimento e em aparelhos de pequeno porte como o celular.

5 Possibilidade de assistir um programa de TV com vários ângulos e transmissão de até quatro programas simultâneos no mesmo canal.

6 Serviço de valor agregado à programação permitindo, por exemplo, fazer compras pelas TV, participar de votações, consultar guias de programação e acessar e-mails.