Televisão Digital: informação e conhecimento
12 TV Digital no Pará
Maria Ataide Malcher 1 2 ; Fernanda Chocron Miranda
Uma nova era tem início no Pará3. Assim foi anunciada a chegada da TV Digital no Estado pela imprensa local. No início do segundo semestre de 2009, três emissoras de televisão da capital paraense, TV Liberal (afiliada à Rede Globo), Rede Record Belém (afiliada à Rede Record) e Rede Brasil Amazônia de Comunicação (afi liada à Rede Bandeirantes), assinaram a consignação do sinal digital.
Apesar da ampla divulgação que o assunto ganhou na mídia local, a cobertura tem se construído a partir de uma visão reducionista, voltada a um único aspecto: a imagem de alta definição.
Acreditamos, porém, que para se pensar TV Digital é necessário ir além de seu viés tecnológico, principalmente em uma região como a Amazônia. É preciso visualizar suas potencialidades e refletir sobre as formas como o novo padrão de televisão atenderá às necessidades da região, que ainda enfrenta problemas elementares em áreas essenciais como de saúde e educação, por exemplo.
Durante muitos anos, o isolamento da região Norte do restante do país foi fato vivido e percebido. O que talvez não esteja tão claro, para quem não conhece a região, é o isolamento imposto entre seus Estados, que se torna um grande obstáculo para diversas ações, dentre elas a comunicação.
Realidades muito diferentes das encontradas no eixo Sul-Sudeste. Talvez em outros locais do Brasil, o poder das novas mídias tenha trazido impactos menores, já que o acesso à informação se dá de forma mais fácil, mas aqui as mais recentes e as mais antigas tecnologias midiáticas dão o tom na modificação no status quo da região.
A nova TV tem a possibilidade de ampliar o acesso à educação e ao conhecimento sobre o próprio Estado do Pará, com a produção diversificada de conteúdos e a participação dos futuros "usuários", estejam eles localizados em diferentes pontos do Estado. Possibilidades apontadas por autores como Thompson (2009, p.12) ao se referir ao uso dos meios de comunicação que implica a transformação da organização espacial e temporal da vida social, criando novas formas tanto de interação quanto de exercício do poder, "que não está mais ligado ao compartilhamento do local comum".
Ao deixar de lado as diferentes variáveis existentes na mudança para o padrão digital de TV corre-se o risco de repetir erros cometidos ao longo da trajetória dos meios de comunicação no Brasil. É retornar ao estágio inicial da TV analógica, no qual a televisão foi encarada apenas como um eletrodoméstico, trazida ao Brasil por um "magnata excêntrico" da comunicação. É esquecer que a "chegada" do sinal da TV Digital não é um fato transformador em si, não produzirá o "desenvolvimento" e tampouco, por si só, decretará a inserção do Norte nas novas possibilidades tecnológicas.
O estabelecimento da TV Digital demandará mudanças significativas na forma de ver e fazer televisão no Brasil, e principalmente nesta parte do país, carente de recursos humanos especializados na área televisiva. Portanto, pelo papel desempenhado por esse meio na sociedade brasileira, a discussão necessita ser aprofundada, ou seja, é necessário levar a sério as variáveis que envolvem a televisão, como destacado por Machado (2005).
Para discutir questões como essa foi delimitado um corpus composto por três reportagens de telejornais, sete de mídia impressa e um caderno especial que tem como foco a chegada a TV Digital em Belém. Além da cobertura apresentada em três páginas de coluna social. É importante destacar que grande parte do material coletado para análise faz parte da cobertura feita pelos veículos de comunicação das Organizações Rômulo Maiorana, mídia impressa e TV. O objetivo é evidenciar e registrar como o fato foi divulgado pela mídia local a partir de uma análise de conteúdo do material levantado, no período da assinatura do sinal pelas emissoras, de 05 de agosto a 13 de setembro de 2009. Esse primeiro momento de análise marcou o início do monitoramento da implantação da TV Digital no Pará que tem sido desenvolvido por nós. A partir de observações não sistemáticas verificarmos que o assunto foi "esquecido" pela mídia local dois meses depois da
"chegada" 4 do sinal. O assunto perde espaço na mídia local e
retoma recentemente com um dado "novo" 5: o início das transmissões digitais pela TV Record Belém a partir da inauguração do canal 22 no dia 20 de novembro.
Além do acompanhamento de matérias veiculadas nos meios de comunicação, temos buscado o diálogo com as emissoras com objetivo de estabelecer pontos de observação em suas dependências. Esse local privilegiado oferecerá informações vitais para continuidade de nossas pesquisas.
Apesar do processo de observação nas emissoras não ter sido ainda estabelecido, conseguimos identificar alguns dados interessantes para futuras análises. Como, por exemplo, que as produções em HDTV não foram iniciadas e quando forem se darão
a partir dos produtos jornalísticos 6. Outro indicativo interessante é que os esforços ainda se concentram na implantação da central técnica e na formação de técnicos para lidar com os novos aparatos tecnológicos de transmissão e as demais questões (formação de recursos humanos para produção, produção de conteúdo, mobilidade, interatividade etc.) não fazem, ainda, parte do cotidiano das emissoras.
Imprensa local e a disputa pelo novo campo
televisivo
No período da assinatura do sinal de TV Digital por três emissoras de Belém do Pará, que durou pouco mais de um mês, o assunto foi apresentado por vários veículos da imprensa local. Entre os 14 produtos midiáticos que compõem o corpus deste trabalho, o de
maior destaque é o Caderno Especial "Belém Digital "sobre HDTV 7, encartado na edição de 10 de setembro de 2009, no jornal O Liberal. Vale ressaltar que o encarte marca o dia de lançamento do sinal digital pela TV Liberal, veículo que compõe, juntamente com o jornal impresso e as rádios (Rádio Liberal FM e AM), as Organizações Rômulo Maiorana.
O material analisado possui oito páginas, onde são apresentadas informações sobre o surgimento da TV Liberal e "esclarecidas" dúvidas a respeito da TV Digital, como as "vantagens" dessa tecnologia, o que é necessário fazer para receber o sinal etc.
Há ainda uma espécie de compilação de depoimentos de personalidades de destaque no cenário local, que vão desde os membros da direção e funcionários dos veículos de comunicação do grupo, até representantes de empresas e agências de publicidade que compõem o quadro de maiores anunciantes.
No encarte, a TV também se refere à condição de afiliada da Rede Globo no Pará e se denomina parceira da emissora nacional em mais uma empreitada: a implantação da TV Digital no Brasil.
Chega, agora, o momento em que a TV Liberal acompanha a
Rede Globo de Televisão em mais uma revolução: a
implantação da TV Digital com imagens em alta definição. É
dessa forma que essas duas emissoras demonstram respeito
ao público telespectador. É com essa revolução que tem início a
fase mais brilhante da televisão paraense. E, mais uma vez, a
TV Liberal assume a vanguarda desse importante processo.
(Belém Digital, 2009, p.03).
Esse posicionamento também aparece na reportagem "Belém é a 1ª
a ter TV digital no Norte" 8, publicada em 05 de agosto de 2009 pelo jornal O Liberal, no momento em que o superintendente da TV Liberal se refere aos novos equipamentos adquiridos pela emissora:
A excelência dos equipamentos também se deve às exigências
que a TV Globo tem com suas afiliadas. Os equipamentos
devem ser todos importados para que a cobertura do sinal
digital chegue igualmente a todos os municípios cobertos pela
transmissão analógica. ‘Enquanto nosso equipamento digital é
importado e de qualidade, nosso concorrente tem transmissor e
antena nacional produzida em Santa Rita do Sapucaí. Algo
jamais aceito pela Rede Globo’, comenta Nascimento. (Caderno
Poder, 2009).
A partir desse depoimento, podemos verificar outro aspecto emergente neste estudo: a disputa entre duas das três emissoras pelo pioneirismo na transmissão do sinal digital. De um lado está a TV RBA, que afirma logo no início da reportagem veiculada no
programa "Barra Pesada" 9, sobre a assinatura do sinal, ter sido a primeira a fazer a transição para o padrão digital. O pioneirismo também é anunciado pelo apresentador do programa momentos antes da reportagem ir ao ar: "Mais uma vez o pioneirismo da RBA credencia a empresa como uma das principais afiliadas da Rede Bandeirantes em todo o Brasil".
Do outro lado está a TV Liberal, que através dos veículos do grupo de comunicação a que pertence, também afirma ter sido a primeira.
O fato é evidenciado, por exemplo, na reportagem10 sobre a solenidade de lançamento do sinal digital pela emissora, na qual o presidente das ORM anuncia o início do futuro da televisão no Estado, dando como certo a posição de pioneira da TV na implantação desta tecnologia.
A disputa fica ainda mais clara quando se analisa a edição do dia 11 de setembro de 2009, tanto do jornal O Liberal, quanto do Diário do
Pará11. Por ter sido realizada na noite do dia 10 de setembro, a cerimônia de lançamento ganhou destaque na edição do dia seguinte do jornal. Neste mesmo dia, o jornal Diário do Pará publicou a seguinte matéria: "RBA festeja pioneirismo no sistema de TV Digital". A reportagem, que ocupa meia página do Caderno
Pará12, é sobre um jantar realizado também na noite do dia 10 de setembro, em comemoração ao pioneirismo da TV RBA na transição para o padrão digital.
O grupo RBA de Comunicação reuniu ontem representantes de
agências de publicidade de Belém para um ‘happy hour’ no
restaurante Treviso, localizado no edifício Metropolitan Tower. O
objetivo do encontro foi apresentar a grade de programação da
TV RBA Canal 13, assim como outras novidades do grupo,
como o pioneirismo na implantação da televisão digital no Pará
(...). O diretor-presidente do DIÁRIO, Jader Barbalho Filho, e o
diretor geral do grupo RBA, Camilo Centeno, recepcionaram os
representantes das agências e falaram sobre os avanços
tecnológicos do grupo. ‘São avanços que nos aproximam ainda
mais do nosso público, e, por isso, deixam também os nossos
anunciantes mais próximos de seu consumidor, podendo
desfrutar de toda a qualidade possível pela TV digital, que se
aproxima da perfeição’, disse [...] (Caderno Pará, 2009).
Diferentemente das demais emissoras de televisão de Belém, que iniciaram a transição para o padrão digital, a TV Record Belém não sinalizou nenhum tipo de movimento que a inserisse nessa disputa. Apesar disso, o olhar reducionista da TV diante do tema, que supervaloriza o aspecto tecnológico da nova TV, também se faz presente em suas reportagens, como na matéria exibida durante o programa "Fala Pará Entrevista", sobre HDTV, na qual o repórter, durante sua passagem de vídeo afirma que "... a qualidade da imagem e do som é tão perfeita que pode se confundir com a realidade". Para ilustrar a mudança da qual o repórter fala, utilizou-se um efeito de edição, para dar a ideia de melhoria na imagem. Além disso, durante toda a reportagem são apresentados depoimentos de pessoas falando sobre a mudança na qualidade da imagem, já que como o próprio repórter diz, "a imagem chuviscada e com som distante está com os dias contatos em Belém".
Essa visão direcionada única e exclusivamente ao viés tecnológico da nova TV fica evidente logo na capa do Caderno Especial sobre HDTV, na qual aparece uma foto da antena transmissora do sinal digital, na sede da TV Liberal, localizada no centro da cidade, casada ao título "Belém Digital". Isso também é notado no espaço da publicação dedicado para "esclarecer" dúvidas do leitor. Entre as perguntas selecionadas pelo jornal está "O que muda com a TV Digital?". Esta é respondida da seguinte forma: "Com a TV Digital você receberá o sinal de TV em sua casa sem chuviscos, fantasmas, interferências, chiados e cores borradas que podem
aparecer na sua telinha" 13.
Na matéria exibida no Jornal Liberal 2ª edição, sobre os "preparativos" para a cerimônia de lançamento do sinal digital pela emissora, isso também é percebido no momento em que a repórter explica ao telespectador que as imagens que ele está vendo foram filmadas ainda no padrão analógico. Para demonstrar a diferença, ela informa que serão exibidas, em seguida, imagens mais "bonitas", filmadas com câmeras de alta definição.
A visão limitada diante das possibilidades do padrão digital de televisão também é verificada no discurso da governadora do Estado do Pará, Ana Júlia Carepa, e do prefeito de Belém, Duciomar Costa, apresentados na reportagem "Começa transmissão da TV Liberal HD", parte da cobertura da solenidade de lançamento do sinal pela TV Liberal publicada por O Liberal, no dia 11 de setembro:
Ana Júlia também se disse ‘maravilhada’ com as possibilidades
que a TV digital e as imagens em alta definição são capazes de
oferecer. ‘Imagine um Estado como o nosso, que já é lindo por
natureza, ter suas praias e paisagens transmitidas por imagens
em HD (sigla em inglês para alta definição). Imagine Alter-do-
Chão, por exemplo, ter toda aquela beleza revelada em
imagens límpidas e claras. É realmente algo maravilhoso o que
nos oferece essa tecnologia’. O prefeito Duciomar Costa
declarou (...). ‘Nossa Belém terá imagens mais reais de suas
belezas. O telespectador terá noção mais clara do que
realmente está assistindo. E isso é importante porque
demonstra respeito com aqueles que dedicam parte do seu
tempo para vislumbrar o trabalho de quem faz TV na nossa
região’ (Caderno Atualidades(1), 2009)
Outra grande evidência dessa questão é o depoimento do editor geral de Jornalismo da TV Liberal, no qual garante que "não é exagero afirmar que a era digital representa uma grande revolução na TV brasileira. Vamos viver um mundo de imagens e sons
perfeitos" 14. E ele completa:
Imagine você no complexo Feliz Lusitânia, pôr do sol, sentando
num daqueles banquinhos aprazíveis, assistindo à TV com
qualidade de cinema? Vamos ver nossos programas em
qualquer lugar e em qualquer hora. E podemos interagir. Dar
nossa opinião, ler o que aconteceu no capítulo anterior da
novela e comprar a camisa de um clube de futebol são
pequenos exemplos de que nosso modo de ver televisão vai
mudar. E o desafio para o profissional que trabalha em uma
emissora de televisão será estimulante. (Caderno Especial,
2009, p.3).
É interessante destacar ainda o caráter social do lançamento do sinal digital pelas emissoras de TV, principalmente a TV Liberal, no qual as personalidades de destaque no cenário local ganharam evidência e espaço nas páginas das colunas social. A solenidade que marcou o início das transmissões pela TV Liberal, por exemplo, além de ter sido destaque na edição do jornal Liberal 2ª edição do dia 10 de setembro, foi transmitida ao vivo em um dos canais da TV a Cabo, a ORM Cabo, veículo que também compõe as ORM.
O lançamento também foi assunto em todas as páginas de coluna social da edição de domingo, 13 de setembro de 2009, de O Liberal. Entre elas merece destaque o material publicado na coluna social de Bernardino Santos:
Magistralmente, Fafá de Belém cantou o Hino Nacional e as
bênçãos aos novos equipamentos foram dadas pelo padre
Ronaldo Menezes, pároco da Igreja da Trindade e amigo das
ORM (Caderno Magazine, 2009).
Figura 1 – Cerimônia de lançamento do sinal igital pela TV Liberal.
Fonte: Reportagem "Diretor da Globo destaca investimentos",
publicada em 11 set. 2009, no Caderno Atualidades, de O Liberal.
Apesar do olhar reducionista da imprensa local diante do assunto, em algumas reportagens que compõem o corpus desse trabalho, destaca-se a necessidade de repensar o processo de fazer TV. É o caso da reportagem "TV Liberal: Uma revolução na telinha",
publicada no Caderno Magazine15, que fala das mudanças que a nova TV promoverá na atuação de profissionais que atuam nos bastidores dos programas. Entre os destaques da matéria está a questão da maquiagem, que será modificada devido a qualidade da imagem, que evidenciará todo tipo de imperfeição. Na matéria sobre dois dos programas da TV Liberal que estão acompanhando as mudanças pressupostas pelo padrão digital, esse aspecto também é percebido, mas ainda de forma tímida e limitada.
Interatividade: ferramenta de consumo?
A partir desta análise, percebe-se a abordagem ainda superficial dada ao complexo conceito de interatividade que, na visão de autores como Fernando Crocomo (2007), é comumente encarado de forma simplista, como se a interatividade fosse apenas um recurso para consumo.
Esse mesmo aspecto também é percebido na reportagem veiculada no programa "Barra Pesada", na TV RBA, na qual a palavra interatividade é apenas citada no texto da repórter e mencionada por apenas um dos entrevistados. Assim acontece na reportagem "Programas mostram tendência mundial", publicada na edição de 06 de setembro de 2009, no Caderno Atualidades, de O Liberal, onde se afirma que "a interatividade é outro recurso previsto pelo sistema digital (...). Com ela, será possível, por exemplo, fazer compras pela televisão ou votar em enquetes" (Caderno Atualidades, 2009).
O potencial interativo da nova TV também é apresentado de forma superficial no Caderno Especial "Belém Digital", apenas como a possibilidade das emissoras de disponibilizar informações adicionais para o telespectador, como resumo do que aconteceu no capítulo anterior da novela e sinopses de filmes. No caso da reportagem da TV Record, veiculada durante programa "Fala Pará Entrevista" sobre TV Digital, nota-se uma pequena mudança de posicionamento no que diz respeito ao conceito, já que a interatividade, apesar de ser apenas citada no texto do repórter, é apresentada como "uma promessa dos especialistas para os próximos anos".
Durante a matéria, afirma-se ainda que "a nova tecnologia promete ser um marco na relação que os telespectadores podem passar a ter com as TVs". Apesar de sinalizar a mudança na relação das pessoas com a tecnologia, o repórter utiliza como exemplo para a afirmação anterior a possibilidade de "opinar sobre uma notícia ou sobre o capítulo de uma novela. Tudo isso a partir do controle remoto".
É interessante destacar que em nenhum momento nem mesmo o recurso que possibilitará ao usuário "gravar" conteúdos é mencionado nas reportagens acima citadas. Além disso, a interatividade, como defendida por Crocomo (2007), ultrapassa as possibilidades de compra, hoje consolidada na internet, e de disponibilização de informações "extras" para o usuário.
Para Crocomo (2007), existem três níveis de interatividade. O primeiro deles seria a interação do usuário com informações que estão dadas, ou seja, que são disponibilizadas pelas emissoras periodicamente e ficam armazenadas no conversor, o set-top-box, como sinopses de filmes, resumos de novelas, letras de músicas, etc. O autor explica que, além da programação normal de TV, a emissora poderá enviar dados extras no mesmo fluxo de informações do canal. Nesse caso, "o usuário estará na verdade ‘navegando’ dentro dos dados armazenados no terminal" (Crocomo, 2007, p.82). O au-tor compara este grau de interação com a "liberdade" dada pelo uso do controle remoto para a mudança de canal, que se limita à relação do usuário ao aparelho.
O segundo nível pressupõe o uso de um canal de retorno, que provavelmente terá como base a rede telefônica. A partir dessa via, será possível, por exemplo, comprar através do controle remoto. O autor destaca, porém, que esse retorno não será enviado necessariamente na mesma hora.
No caso do terceiro nível de interatividade apontado pelo pesquisador, "o canal de retorno ficará sempre funcionando", permitindo o envio e o recebimento de dados em tempo real. É nesse caso que se percebe o verdadeiro potencial interativo da TV Digital, já que através dessa "via de mão dupla", que não tem ainda definido o suporte tecnológico que viabilizará seu uso, será possível o envio de conteúdo para exibição na TV pelo usuário. Essa ferramenta, porém, pressupõe mais um ponto para reflexão: a privacidade do usuário. Até que ponto o suporte tecnológico que viabilizará a "troca" de conteúdo entre emissor-receptor será utilizado de forma ética, já que o equipamento de conversão, o set-top-box, armazenará informações do usuário, como dados pessoais e conteúdos que foram acessados? "É na liberdade apregoada pela rede, acessada pela TV Digital nas salas, que o cidadão poderá ser vigiado em muitos de seus hábitos". (Loss, 2008, p.81)
Por isso, aspectos como esse devem necessariamente pautar as discussões sobre TV Digital. Portanto, é preocupante verificar que durante o processo de implantação do sinal digital em uma região como a Amazônia, aspectos fundamentais como esses não sejam se quer citados na cobertura feita pelos meios de comunicação. Agindo assim, as empresas de comunicação podem estar "podando" a possibilidade de democratizar seu espaço para grupos sociais pouco, ou nada, representados na mídia, além de possivelmente comprometer a ampliação do acesso às potencialidades tecnológicas da TV Digital, considerando a possibilidade de seus recursos para educação no Estado, aspecto que ainda desafia gestores públicos. O Pará é um dos Estados brasileiros caracterizado por sérios problemas na rede de ensino, no qual uma significativa parcela de formadores são professores
"leigos" 16.
Além disso, a TV Digital, se implantada em sua plenitude, se tornará um canal de inclusão digital da população brasileira. É preciso ter em vista que, diferentemente da televisão, presente em qua-se 90%
dos lares paraenses17, o computador é realidade em apenas 14,77% dos domicílios do Estado. Desse total, pouco mais que 8% possuíam computador com acesso à internet.
Apesar do Pará ainda apresentar esses dados preocupantes, a inclusão digital é uma meta do atual governo, que criou em outubro
de 2007 o "Navega Pará"18, projeto de inclusão digital considerado como pioneiro pela proposta inovadora e de grande impacto social
para região se cumpridos seus objetivos (www.navegapara.pa.gov.
br). Porém, é possível pensar que políticas públicas como essa podem ter seu potencial subutilizado, já que na fala da governadora do Estado durante a cerimônia de lançamento do sinal digital pela TV Liberal, citada anteriormente, o distanciamento diante das possibilidades do uso da TV Digital na socialização do conhecimento, que certamente só somaria ao projeto Navega Pará é perceptível.
Em entrevista, concedida a Áurea Lopes, publicada na edição de outubro de 2009 da Revista "A Rede", Gustavo Gindre afirma que:
[...] se depender da vontade dos radiodifusores, o máximo que
teremos é a interatividade associada à programação. Ou seja, o
sujeito se mantém naquele programa de TV (o que não gera
evasão de audiência para a emissora) e são abertos alguns
frames com informações adicionais, especialmente aquelas que
possam gerar receita para a emissora. Isso significa subutilizar
as potencialidades do Ginga19, que poderiam chegar a áreas
como educação a distância, telemedicina, e-mail, e-gov etc.
(Lopes, 2009, p.28)
O estabelecimento da total potencialidade da TV Digital talvez leve mais tempo do que o viabilizado pelos avanços tecnológicos, já que envolvem duas esferas determinantes aos rumos dos meios de comunicação massiva no país: o político e o econômico. Mas, sabemos também que as mudanças possuem dinâmicas aceleradas nesses novos tempos. Portanto, não resta dúvida que ela acontecerá, mesmo que de forma pouco democrática. Nessa perspectiva já é possível perceber a corrida por conteúdos e formas de fazer produtos audiovisuais que possam suprir demandas futuras. Acreditamos que a ampliação dessa participação dependerá e muito da forma como conduziremos as discussões e os debates necessários a esses novos domínios. Se deixarmos os rumos a serem traçados repousarem única e exclusivamente nas mãos dos radiodifusores, não há dúvida que pouco será mudado.
Outro conceito "negligenciado" na cobertura feita pela imprensa local no período de assinatura do sinal digital é o de
multiprogramação 20 21 . Na reportagem analisada destaca-se a capacidade do novo padrão de TV de emitir mais de um programa ao mesmo tempo. Além de não explicar mais detalhadamente porque a TV Digital permite essa amplitude, a reportagem não questiona em nenhum momento as implicações que essa mudança causará, por exemplo, no formato de inserção dos anúncios publicitários.
[...] se no sistema tradicional a emissora tem a capacidade de
enviar apenas um programa por vez, no digital é possível enviar
até seis programas simultaneamente. O que permite variar a
programação ou oferecer uma experiência mais rica, como
assistir um jogo a partir de câmeras diferentes (Caderno
Atualidades, 2009).
A "desinformação" no que diz respeito ao conceito de multiprogramação e suas interferências na forma de inserção da publicidade, também é percebida entre os profissionais da propaganda. Isso é verificado no depoimento de alguns profissionais de publicidade e propaganda apresentados no Caderno Especial "Belém Digital", no qual há uma reunião de depoimentos de grandes anunciantes dos veículos de comunicação das ORM.
[...] graças à TV Liberal estamos tendo a chance de conhecer
esse universo novo e maravilhoso que é a TV Digital e suas
imagens em alta definição. Da parte do mercado publicitário,
haverá a obrigatoriedade de aperfeiçoamento. Será necessário
rever conceitos de luz e cores para atender a realidade e
definição que exigem as imagens transmitidas a partir de agora
pela TV Liberal. Ganha, com isso, o público, que ganha a
chance de se deliciar do que há de mais moderno e
revolucionário no setor televisivo (Caderno Especial HDTV,
2009).
Mesmo que ainda remota, a multiprogramação permitirá às emissoras a oferta de mais "canais" (leia-se espectros), modificando o formato da televisão que estamos acostumados, que deixará de
ser linear para ser tabular 22. Por isso, intervalos comerciais entre os programas da atual grade, por exemplo, tendem a "desaparecer".
Os conceitos de mobilidade e portabilidade, potencialidades características do padrão japonês adotado no Brasil, também ficaram de fora da cobertura feita pelos meios de comunicação do Estado no período de assinatura do sinal digital. Entre os 14 componentes do corpus desta pesquisa, o único que se referiu a essa questão, porém, ainda de forma limitada, foi a reportagem "TV Liberal inaugura nova era no Pará", de O Liberal. Na publicação, que fala basicamente dos investimentos feitos pela emissora para implantação do sinal, bem como das parcerias firmadas para a realização de treinamentos, afirma-se apenas que "com os novos recursos, a programação poderá ser assistida em celulares, computadores e TVs portáteis: isso tudo sem ruído, chuviscos ou interferências, mesmo em movimento".
A necessária inserção do local na discussão
global
O surgimento de um novo modelo eletrônico de comunicação integrado e interativo, provocando impactos em todas as áreas, mudará para sempre nossa cultura, o que demonstra a necessidade da busca de caminhos para o entendimento dessas mudanças.
Nesse panorama, as formas de ver, apreender, interagir, produzir e consumir são afetadas diretamente pelos avanços tecnológicos. O sistema de comunicação integrada baseado na produção, distribuição e intercâmbio de sinais eletrônicos digitalizados tem consequências importantes para formas e processos sociais.
Quais serão as competências que deverão ser acionadas para os desafios impostos aos novos tempos? Como explorar esse imenso universo digital? Como será redefinida a atuação do profissional e do pesquisador de televisão nesse cenário de convergência tecnológica e midiática?
Considerando esses desafios, estudar o processo de comunicação nessa nova configuração, voltadas aos aspectos que formarão a televisão, é um caminho promissor. Um dos lócus interessante de observação e experimentação dessas novas possibilidades é a realidade Amazônica, e nós temos como local (de fala e local do qual se fala) estratégico: o Norte do Brasil. Região que durante muito tempo ficou isolada, se comunicando muito mais com países vizinhos, as possibilidades tecnológicas abrem perspectivas mais intensas de interatividade a partir da nova realidade digital.
Nesta sociedade digital, que exclui e ao mesmo tempo promove a interconexão, novas formas de sociabilidade e aprendizados são acrescentadas ao panorama nortista, tornando mais evidentes os conceitos defendidos por Castells (1999) que evidenciam a poderosa ação das redes digitais encurtando distâncias, promovendo encontros virtuais e a interatividade.
As redes não darão conta sozinhas de resolver questões concretas e alarmantes no Norte do país, como a taxa de 10,7% de analfabetos e 24,2% de analfabetos funcionais. Além desses índices apenas 39,6% da população, entre 15 e 17 anos, chega ao ensino médio.
O ensino superior registra a taxa de 9,9% da população com pessoas na faixa etária entre 18 e 24 anos, segundo os últimos resultados das pesquisas do IBGE divulgadas em 2009, mas elas poderão ser fortes aliadas para diminuir a dívida social com essa região. Sabemos que a formação social das regiões no Brasil se deu de forma diferenciada e desigual e, no caso da região Norte, essas disparidades são bastante visíveis. Basta verificar que na região 85% da população, segundo dados do IBGE (2009), está classificada na faixa E de distribuição de renda e 11,3 % na faixa D.
A televisão analógica ainda é a mídia de maior alcance no país, como demonstrado anteriormente, e tem sido a grande difusora de informações para população, considerando apenas o volume e não a qualidade do que é disponibilizado, que sempre deverá ser discutido.
Portanto, quando se fala em mudanças relativas a esse domínio midiático há muito a ser estudado e apreendido e o exercício proposto neste artigo foi apenas apresentar resultados parciais das aproximações de um grupo de observação que pretende analisar essas alterações no campo midiático nesta parte do País, a partir de um exercício constante de articulação entre o global e o local. Acreditamos que através das pesquisas integradas e sistemáticas no Norte do Brasil possamos estruturar caminhos para vencer os desafios impostos com a "chegada" da TV Digital.
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(IBGE). Disponível em: <http://noticias.cancaonova.com/noticia.
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TV AMAZONAS inaugura sinal digital em Manaus. Disponível em: <
http://www.tvglobodigital.com>. Acesso em: 01 de nov. 2009.
TV LIBERAL. Matéria sobre lançamento sinal digital pela TV Liberal. Belém, 10 set 2009.
TV RBA. Matéria sobre TV Digital. Belém, set 2009.
TV RECORD, Belém. Matéria sobre TV Digital. Belém, ago 2009.
1 Doutora e Mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP. Professora adjunta da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal do Pará. Pesquisadora de televisão, audiovisual e divulgação científica coordenando, atualmente os projetos Ciência e Comunicação na Amazônia, Academia Amazônia e ABC Digital. Pesquisadora líder dos Grupos de Pesquisa, do CNPq, Audiovisual e Cultura e Preservação: Comunicação, Ciência e Meio Ambiente. Pesquisadora do Grupo Comunicação Digital e Interfaces Culturais na América Latina.
2 Estudante de graduação em Comunicação, com ênfase em Jornalismo, pela Universidade Federal do Pará, bolsista de iniciação científica (PIBIC/CNPq) pelo projeto CIECz – Ciência e Comunicação na Amazônia, integrante da pesquisa ABC Digital, projeto de estudo e experimentação de conteúdos para TV Digital e do Grupo de Pesquisa em Audiovisual e Cultura do CNPq, e colaboradora dos projetos desenvolvidos na Academia Amazônia.
3 Estado integrante da região Norte, pertencente a Amazônia Legal Brasileira, que é composta também pelo Mato Grosso e parte do Maranhão. Pará, Maranhão e Amazonas são os Estados onde se encontra o maior contingente populacional dessa região.
4 No I Simpósio Internacional de TV Digital, realizado na Unesp-Bauru, no período de 18 a 20/11, apresentamos o artigo "A ‘chegada’ da TV Digital no Pará", no qual analisamos a cobertura midiática no período de assinatura do sinal por três emissoras paraenses. Este capítulo é resultado de uma breve atualização e adequação às normas desta publicação.
5 Na análise do corpus deste estudo que será apresentada a seguir, a TV Record Belém afirmava, naquele período, que iniciava as transmissões digitais. Porém, recentemente a emissora divulga que iniciará suas transmissões em 20/11 pela televisão aberta no canal 22.
6 Indicação percebida em outras partes do Brasil e natural entre as emissoras paraenses já que a base da produção local é a jornalística.
7 High Definition Television. Modalidade de transmissão do sinal digital, com resolução de 1.080 linhas, sendo 1.920 pontos em casa linha. (Crocomo, 2007, p.62)
8 A reportagem, que ocupa uma página inteira do Caderno Poder, é sobre a cerimônia de assinatura da consignação do sinal digital pela TV Liberal, no Ministério das Comunicações, em Brasília. A chamada da matéria indica ser a TV Liberal a primeira a inaugurar o sinal digital, em 10 de setembro. No entanto, em 31 de agosto a TV Amazonas, filiada da Rede Globo, em Manaus inaugura também o sinal digital, portanto, dias antes da emissora paraense
(http://www.tvglobodigital.com)
9 Programa exibido desde janeiro de 1992 na TV RBA e apresentado pelo jornalista Ronaldo Porto, de gênero híbrido com características de telejornal, estruturado a partir de matérias voltadas aos fatos policiais – ainda muito presente nos veículos de comunicação do Estado – e de "talk show", já que o apresentador costuma comentar as notícias assim como a realização de entrevistas em algumas edições do programa. O programa é diário, com exibição por volta das 13 horas, e tem como maior público as classes menos favorecidas.
10 Reportagem "Começa transmissão da TV Liberal HD", publicada em 11 de setembro de 2009, caderno Atualidades de O Liberal
11 Jornal impresso de grande circulação no Pará, pertencente à RBA (Rede Brasil Amazônia de Comunicação), que também assinou o sinal digital, através de sua TV.
12 Primeiro caderno do jornal, que equivale à editoria de "atualidades", na qual são veiculadas notícias da região.
13 Caderno Especial "Belém Digital", encartado na edição de 10 de setembro de 2009 de O Liberal, p.07.
14 Caderno Especial "Belém Digital", encartado na edição de 10 de setembro de 2009 de O Liberal, p.03.
15 Editoria de Cultura do jornal O Liberal.
16 Professores que não possuem formação acadêmica para atuar na rede pública de ensino, e em muitos casos, não concluíram nem mesmo o Ensino Fundamental.
17 A televisão está presente em 88,62% dos domicílios particulares permanentes no Estado do Pará. (Fonte: PNAD 2008)
18 Programa de Democratização do Acesso às Tecnologias de Informação e Comunicação que coloca à disposição da sociedade o mais ambicioso projeto de integração e inclusão digital já realizado no país. Projeto do Governo do Estado com objetivo de atuação principalmente nas áreas de saúde, segurança e educação.
19 Software brasileiro que permite desenvolver os aplicativos de interatividade já dentro do televisor e nos conversores. (Box presente na entrevista com Gustavo Gindre, publicada na edição de outubro de 2009 da revista "A Rede", p.28).
20 Transmissão de vários programas dentro de um único canal. Isso é possível no sistema digital em que o sinal é altamente comprimido. (Box de multiprogramação presente na entrevista com Gustavo Gindre, publicada na edição de outubro de 2009 da revista "A Rede", p.28).
21 Reportagem "Programas mostram tendência mundial", publicada na edição de 06 de setembro de 2009, no Caderno Atualidades, de O Liberal.
22 Formato de programação que permite ao usuário acessar, mostrar e mesmo ordenar as informações, devido ao caráter alinear da grade de programação, que poderá ser assistida da forma como o usuário achar mais cômodo.