Televisão Digital: informação e conhecimento
11 Gestão de Conteúdos Narrativos Televisivos: o Processo de Convergência Midiática Digital
11 Gestão de Conteúdos Narrativos
Televisivos: o Processo de
Convergência Midiática Digital
Edvaldo Olécio de Souza1 2 ; Maria Cristina Gobbi
Introdução: breve resgate sobre a evolução da
televisão
O século XXI se apresenta como a era da imagem, da informação e da comunicação. Com a exigência de uma maior velocidade na produção e na transmissão de conteúdos para atender às novas demandas sociais, os avanços da tecnologia e da mídia digital surgem como resultados desses processos. Os novos aparatos comunicativos e tecnológicos criaram a possibilidade de uma comunicação cada vez mais universalizada, (re)configurando antigas fronteiras que, muitas vezes, impediam o livre e igualitário intercâmbio de informações e a troca de conhecimentos entre os homens em seu ambiente social. Nesse sentido, a atual sociedade globalizada se caracteriza pelo uso e pela aplicação da informação a fim de alcançar conhecimento, sobretudo aquele gerado por um padrão complexo de redes interligadas por inovações tecnológicas.
[...] uma coisa é certa: vivemos hoje uma destas épocas
limítrofes na qual toda a antiga ordem dos saberes oscila para
dar lugar a imaginários, modos de conhecimentos e estilos de
regulação social, ainda pouco estabilizado. Vivemos um destes
raros momentos em que, a partir de uma nova configuração
técnica, quer dizer, de uma nova relação com o cosmo, um
novo estilo de humanidade é inventado. Nenhuma reflexão
séria sobre o devir da cultura contemporânea pode ignorar a
enorme incidência das mídias eletrônicas. (Levy,1993, p.17)
A evolução dessas tecnologias e suas presenças cada vez mais constantes no dia a dia das pessoas requerem novos planejamentos, novas acomodações e adaptações no plano do uso e da interação. Essa tarefa se torna mais complexa quando falamos da televisão e sua convergência com as tecnologias digitais.
A televisão se apresenta como artefato pioneiro das promessas
e riscos, das vantagens e desafios da convergência midiática.
Por sua enorme implantação social, sua pujança econômica e
sua expansão em novas redes, aparece crescentemente como
a porta de acesso potencial de universalização dos bens e
serviços da era digital em muitas sociedades (Bustamante,
2003, p.167).
Se fizermos uma breve revisão da história da televisão podemos afirmar que tudo é muito recente, especialmente aqui no Brasil. Documentos comprovam que o início das transmissões analógicas no país ocorreu na primeira metade de 1950, embora haja evidências das primeiras investidas nos EUA no final dos anos de 1920. Somente vinte anos depois (1970) é que se iniciaram os trabalhos de pesquisa, especialmente no Japão, sobre uma televisão de alta definição, dando início ao que a Anatel, de acordo com Moraes (2005, p.12), chamou de marco inicial da história da televisão digital. Essa investida resultou, tempos depois, nos três sistemas de transmissão digital conhecidos na atualidade: ATSC (Television System Committee) – sistema americano; DVB (Digital Vídeo Broadcasting) – sistema Europeu e o ISBD (Integrated Services Digital Broadcasting) – sistema japonês, embora a intenção inicial dos japoneses fosse somente ter a imagem e som como no cinema, livre dos ruídos e dos "chuviscos". A etapa seguinte foi desenvolver o sistema de cores.
Tecnicamente, a habilidade de produzir programas em cores
ocorreu em fins de 1940, porém só foi por volta de 1960 que os
canais de televisões principais começaram a produzir a sua
programação em cores. As televisões coloridas mais antigas
não forneciam a réplica exata da cor. Uma cor não natural podia
ser facilmente corrigida ajustando o seletor de cores na
televisão (Polomercantil, 2009, web).
Nos anos de 1980 o sistema japonês Muse (Multiple Sub-Nyquist Sampling Encoding) foi considerado o primeiro sistema de televisão de alta definição a operar em nível comercial.
Ele combinava técnicas de processamento digital com o uso de
subportadoras analógicas. De acordo com o teorema de
Nyquist, seria impossível a captação de um sinal de
transmissão complexo como o da televisão em um espaço
espectral pequeno. Entretanto, o Muse derrubou esta barreira
chamada de "bloqueio psicológico": reduziu o tamanho do sinal
de transmissão de alta definição de tal maneira que este
pudesse ser transmitido pelos satélites da época. Este sistema,
de acordo com a Anatel (2001) era chamado de Hi-Vision. A
partir de 1986, na Europa, a Comunidade Européia iniciou um
trabalho similar ao do Japão, patrocinando o projeto conhecido
como MAC (Multiplexed AnalogComponents). Este padrão se
alternava entre componentes digitais e, como no Muse,
algumas técnicas analógicas para a composição final do sinal.
Para os sinais de alta definição, foi criada uma versão similar,
operando com um maior número de pixels e batizada de HD-
MAC (Moraes, 2005, p.12).
Na Europa várias experiências foram realizadas, como por exemplo, os sistemas HDMAC (operando via satélite) e Spectre (Inglaterra), HDDIVINE (países nórdicos), HDTV-T (Alemanha) e Eureka 625 Vadis (European Broadcasting Union – EBU).
Devido às dificuldades (econômicas e tecnológicas), Japão e
Europa partiram para o desenvolvimento de um sistema de
transmissão intermediário: este seria melhor que o sistema
analógico, mas sem os custos do sistema de televisão de alta
definição, a chamada da HDTV (High Definition Television).
Entre esses sistemas, podemos citar o ATV (Advanced
Television), o ETV (Enhanced Television) e finalmente o EDTV
(Enhanced Definition Television). O Japão ainda lançou o Embora demorasse mais de 10 anos para a chegada da tecnologia digital em nosso País, este breve panorama evidencia a rápida evolução da mídia mais popular do Brasil. Em dezembro de 2009 completamos dois anos da implantação do sistema de TV Digital no Brasil. Para alguns, motivo de muita comemoração, pois o sinal já está em mais de 26 regiões metropolitanas, atendendo mais de 60 milhões de brasileiros, além de ter conquistado vários países da América Latina, entre eles: Peru, Argentina, Chile e Venezuela, fatores que permitem uma maior comercialização e barateamento dos preços. Outros estudiosos defendem que esse cenário é muito pequeno para a alta representatividade da televisão no país, principalmente com referência a interatividade e a inclusão social, bandeiras levantada pelos defensores da Televisão Digital.
EDTV-I, comercialmente batizado de Clearvision e o EDTV-II.
Na Europa, experiências similares foram realizadas, como o
PALplus, sistema analógico comparado ao PAL tradicional.
Estas tentativas da Europa e do Japão apenas visavam
melhorar a definição das imagens, mas sem mudar a forma
como elas seriam transmitidas, ou seja, sem modificar os
satélites (Moraes, 2005, p.12-13).
Nos Estados Unidos, no ano de 1987, um grupo de 58 instituições estimulou as primeiras pesquisas sobre as transmissões digitais, que chamaram de ATV (Advanced Television Service), criando o ACATS (Advisory Committee on Advanced Television Services). O projeto abandonou as incursões realizadas pelo Japão e pela Europa e provocou uma verdadeira revolução no conceito de "fazer TV". Os resultados iniciais foram chamados de DTV (Digital Television). "Para o problema de transição, onde ocorria a existência de dois sistemas – o analógico e o digital –, chegaram à solução de que o programa teria de ser transmitido das duas formas, solução chamada de simulcasting" (Anatel, 2001).
Entra em cena a Televisão Digital
Amanda Moraes (2005, p.12-13) afirma que foi o pesquisador italiano Leonardo Chiaringlione, na década de 1990, o responsável por parte significativa dos resultados alcançados para a televisão digital. "(...) ele consegue compactar um grande volume de informações em um espaço de transmissão pequeno, chamado de padrão MPEG (Moving Picture Experts Group)", ajudando os japoneses e europeus. "Este padrão foi rapidamente disseminado para vários grupos de pesquisa e os EUA foram os primeiros a utilizar a descoberta" (Anatel, 2001).
Entre os anos de 1991 e 1992, a Advanced Television Test Center (ATTC) – uma organização privada sem fins lucrativos voltada para o teste das novas tecnologias de TV Digital, iniciou os testes em várias propostas, de diferentes fabricantes, mas não chegou a um consenso.
No ano seguinte, sete empresas e instituições participantes dos
testes (AT&T, GI, MIT, Phillips, Sarnoff, Thomson e Zenith) se
uniram na chamada "Grande Aliança", desejando obter um
sistema unificado que englobasse as principais vantagens dos
sistemas-candidato. Foi em 1993 que fabricantes e emissoras
europeus uniram o conhecimento que tinham adquirido com
suas pesquisas ao padrão MPEG e criaram o consórcio DVB
(Digital Vídeo Broadcasting). Em 1998, esta versão para
radiodifusão entrou em operação na Inglaterra. Em 1995, a
Grande Aliança também usou o padrão MPEG em suas
pesquisas e o ATSC (Advanced Television System Committee)
recomendou que o sistema da Grande Aliança fosse adotado
como padrão para a DTV norte-americana. O padrão norte-
americano, batizado então de ATSC, também entrou em
operação no ano de 1998 (Anatel, 2001).
Assim, em 1997, no Japão, iniciou-se o desenvolvimento de um sistema totalmente digital, muito similar ao DVB europeu, que eles chamaram (dezembro de 2000) de ISDB (Integrated Services Digital Broadcasting), operando inicialmente via satélite (em substituição ao Muse). As primeiras transmissões terrestres foram feitas em 2003 (Anatel, 2001).
No Brasil – único país emergente onde as emissoras e indústrias de equipamentos financiaram testes de laboratório e de campo para comparar a eficiência técnica dos três padrões tecnológicos existentes – a decisão de escolha quanto ao sistema tecnológico a ser adotado coube ao Governo Federal. Foi em 29 de junho de 2006 que "o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou o decreto que implantou TV digital no Brasil. O Sistema Brasileiro de TV Digital Terrestre (SBDTV-T) está baseado no padrão de sinais japonês (ISDB-T), incorporando as inovações tecnológicas brasileiras" (Polomercantil, 2009, web). Além disso, ficou documentada no decreto a intenção de promover a inclusão digital, além de "propiciar a criação de rede universal de educação à distância" (Art. 1º, inciso nº II).
O então Presidente do Fórum SBTVD, Frederico Nogueira, afirma que
Isso é resultado do comprometimento, dedicação e seriedade
de representantes da indústria, governo, academia e
radiodifusão, que trabalham pela TV digital há mais de 10 anos
e hoje se congregam no Fórum SBTVD, sempre com o objetivo
alcançar o que há de melhor tecnologicamente, sem deixar de
cumprir seu papel social (Fórum SBTVD, 2009, web).
Mas nem tudo é um "mar de rosas" com referência a televisão digital no País. Com muitas promessas, expectativas frustradas e amplas discussões a televisão digital ainda tem pela frente muitos obstáculos, não só no Brasil, mas em todo mundo. Aqui há um aparente descompasso entre tecnologia, políticas públicas, setores produtivos, produção de conteúdos, definição de um plano de negócios que atenda aos interesses comerciais e culturais, assimilação dessa nova tecnologia pela população, inclusão digital, convergência, multiprogramação, canal de retorno, middleware, normatização e muitos outros fatores.
Interesses vs. necessidades: quem paga a
conta?
Como afirmou Stephen Lowe, diretor da Broadband Wireless Association, para o Jornal O Estado de S. Paulo ( 2002)
[...] os problemas que impedem a expansão e o sucesso
comercial da TV digital não decorrem da tecnologia, mas, sim,
do modelo de negócios. Como conseqüência, todos perdem
dinheiro, sejam emissoras ou fabricantes de equipamentos. Pior
ainda: os usuários não se convencem das vantagens da nova
televisão nem se animam a pagar os preços exorbitantes dos
serviços nem dos equipamentos. A conclusão básica do debate
entre especialistas é que a TV digital exige muito mais tempo
para sua maturação e aceitação pelo usuário, mesmo diante de
aplicações futuristas, tais como comércio eletrônico em banda
larga, interatividade e mobilidade via telefone celular. Enquanto
não descobre seus próprios caminhos, a televisão digital e
mesmo a de alta definição buscam descobrir nichos e
alternativas com a criação de subprodutos e aplicações, muitas
vezes cosméticos, capazes de atrair a clientela. Um desses
exemplos é o casamento entre Internet e TV digital, com a
possibilidade de integrar e gerenciar no televisor doméstico
todos os serviços de e-mail e de acesso a Web. (2002).
E embora passados quase sete anos do relato acima, muito pouco desse panorama foi resolvido, pelo menos no Brasil. O Grupo Intervozes (2005) e vários pesquisadores e profissionais de comunicação têm levantado bandeiras interessantes desse descompasso entre tecnologia, setores produtivos e de serviço, governo e academia. Para eles o governo precisa urgentemente acordar para as possibilidades da televisão digital. Ela deve ser vista como uma nova televisão, reconfigurando o cenário da mídia no País. Deve ser plural, acessível, de qualidade, solidificando o direito à comunicação democrática. Para isso é fundamental incentivar as "produções audiovisuais em todas as regiões (...)", assegurando ao Brasil a possibilidade de se transformar em um "pólo soberano de criação cultural e intelectual". Muita coisa já foi feita e um exemplo disso é o Decreto Presidencial 4901, que assegura a "utilização de serviços como interatividade, e seu papel na inclusão social dos cidadãos" de forma a promover a "inclusão social, a diversidade cultural do país (...) por meio do acesso à tecnologia digital". O que se faz necessário e urgente são ações concretas e que a pauta não seja apenas melhores imagens e sons. (Intervozes, 2005).
Em outras palavras, a Televisão Digital apresenta novos ingredientes ao tema direito à comunicação, convergindo aspectos da radiodifusão, da informática e das telecomunicações num único serviço: televisão interativa (Becker, 2006). Além da alta qualidade de som e imagem, a Televisão Digital é capaz de agregar outros benefícios aos telespectadores, como a interatividade e a mobilidade. Essas inovações refletem o novo modelo de negócios que reformulam a sociedade, a mídia, a educação, a política, a ciência, a cultura, a nova maneira de viver o espaço e o tempo ao nosso redor.
Segundo Castells (1999), são características desse novo paradigma tecnológico: a informação como matéria prima; a penetrabilidade dos efeitos das novas tecnologias em toda a atividade humana; a lógica de redes em qualquer sistema ou conjunto de relações; a capacidade de reconfiguração com base na flexibilidade dos processos; a crescente convergência de tecnologias específicas para um sistema de informação altamente integrado e essa combinação de múltiplos fatores será capaz de operar mudanças significativas no cenário da comunicação democrática do País.
Digital midiático ou midiático digital?
No campo da comunicação midiática, o panorama da transmissão digital da televisão se apropria das tecnologias de comunicação e de todas as suas potencialidades, incluindo interatividade, fragmentação da narrativa, simultaneidade de ações e descentralização da figura do autor. Esses elementos ampliam os limites da representação dramática tradicional e exploram um ambiente de comunicação ainda desconhecido, pleno de possibilidades de interação entre autores e receptores.
Segundo Anna Maria Balogh (2002, p.32), os formatos ficcionais são herdeiros de um vasto caudal de formas narrativas e dramatúrgicas prévias: a narrativa oral, a literária, a radiofônica, a teatral, a pictórica, a fílmica e a mítica entre outras. Com o desenvolvimento tecnológico e a consolidação da televisão como meio de comunicação de massa, esses formatos ficcionais se evoluíram ganhando espaço e conseqüentemente mais atenção na linguagem e produção audiovisual.
De acordo com Lorenzo Vilches (2003), os conteúdos modernos não poderão ser indiferentes a essa realidade tecnológica. Até os anos 1990, produziu-se para a televisão. Agora, toda a produção multimídia é multiformato. As narrativas ficcionais e a informação televisiva ou jornalística são emitidas pela internet e podem ser vistos na tela do computador e do telefone. Porém, ainda segundo Vilches (2003, p.59), todas essas tecnologias da comunicação não se destinarão apenas a produzir informação ou conteúdos, mas, principalmente, a gerir as relações com usuários.
Desse modo, abre-se espaço para novos serviços, tais como a comunicação de dados de alta velocidade, os jogos eletrônicos, o comércio virtual, o Vídeo On Demand (VOD) e até a consulta a e-mail e o envio de mensagens instantâneas por meio da tela de TV. Tudo isso sem que seja necessário "mudar de canal" ou interromper a programação que está sendo assistida.
Na mesma linha, as emissoras também poderão enviar dados adicionais sobre a programação que está sendo transmitida, como estatísticas e informações sobre biografias dos atores, perfil dos personagens e resumo dos últimos capítulos de uma novela.
Também será possível acrescentar uma pesquisa em que o telespectador eleja, por exemplo, seu personagem favorito de uma dramaturgia, com os resultados parciais sendo exibidos simultaneamente. Enfim, com a transmissão digital surge uma nova fase para a TV brasileira e conseqüentemente com intensas transformações na estrutura da teledramaturgia existente.
Assim, diante dessas expressivas potencialidades da plataforma digital de comunicação e através de políticas de inclusão, democratização social, qual será o novo paradigma (modelo) de gestão dos conteúdos narrativos ficcionais desses núcleos? Terá a TV brasileira, a possibilidade de criar novas fórmulas para a teledramaturgia que, no mínimo, reavaliem suas inserções culturais, em espaços socialmente diversificados e em condições econômicas que permitam ampliar sua relação com o espectador?
Neste sentido, como conciliar os novos serviços, tais como a comunicação de dados de alta velocidade, os jogos eletrônicos, o Vídeo On Demand (VOD) e o Tcommerce (television commerce) com as estruturas narrativas da teledramaturgia? Como tornar o espectador usuário desses serviços e permitir sua interação com o conteúdo? Como possibilitar a inserção de conteúdos educativos e culturais neste setor? Como introduzir outros tipos de recursos interativos de interesse para o desenvolvimento de novos gêneros e formatos? Os gêneros disponíveis se esgotaram ou não são mais suficientes para sustentar essas transformações? Como viabilizar e estruturar novos conteúdos permanecendo a serviço de uma cidadania democrática?
Um produto nacional: teledramaturgia
A teledramaturgia é, geralmente, concebida em narrativas cuja apresentação é seriada, ou seja, é realizada em capítulos ou episódios que podem ter, a depender do tipo de narrativa, características e formas de desenvolvimentos bem diferenciados e específicos. Destaque para a produção de novelas, minisséries, séries, seriados e especiais, exibidos nas diversas emissoras, nos mais variados horários.
No cenário mundial, segundo o pesquisador de teledramaturgia Mauro Alencar (2008), o setor de teledramaturgia movimenta cerca de US$ 70 milhões por ano e alcança uma platéia de 2 bilhões de pessoas, em mais de 32 idiomas.
Na televisão brasileira, atualmente, os principais núcleos de produção de conteúdo narrativo são a Rede Globo, a Rede Record e o SBT (Sistema Brasileiro de Televisão). Desses, se destacam, o Projac (Projeto Jacarepaguá), da Rede Globo com conteúdos de grande repercussão nacional e projeção internacional.
Esses núcleos concentram milhares de profissionais, entre pesquisadores, estudiosos, diretores, produtores, atores, iluminadores, maquiadores, figurinistas, técnicos etc.; atingindo com suas produções cerca de 145 milhões de brasileiros, muitos dos quais têm na TV a sua única fonte de informação, lazer e cultura.
No panorama nacional, conforme assinala José Marques de Melo (1998), a teledramaturgia brasileira é um produto que repercute de maneira considerável sobre o público e tem importância na cultura, na sociedade e na economia brasileira. Apesar dessa relevância, a maioria do conteúdo de seus produtos são meramente de entretenimento, menosprezando o caráter educativo e cultural, excetuando-se aqueles exibidos em emissoras criadas para este fim, como a TV Cultura de São Paulo, TV Brasil, entre outras.
De tempos em tempos, surgem novos produtos que se aproximam mais desta validade cultural como, por exemplo, a minissérie "Hoje é dia de Maria" da TV Globo que obteve êxito de público e de crítica. Porém, atualmente, presencia-se uma carência de conteúdos narrativos que abordem o novo suporte de comunicação, congregando os aplicativos multimídias com interatividade, distribuição, cultura e entretenimento. E nesse sentido, como afirma Gosciola (2003), há ainda muito a ser investigado, já que esse meio de comunicação é relativamente novo e está em pleno processo de construção de modelos e linguagens.
Segundo o próprio site de pesquisas e estudos do Ibope (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística), o brasileiro é um dos espectadores que mais consome conteúdos televisivos, em especial teledramaturgia, e anseia por novidades e qualidade nos produtos que assiste.
Diante desse cenário é possível prever que a demanda por conteúdo em todo mundo, em especial no Brasil, irá crescer exponencialmente nos próximos anos, principalmente com todas as possibilidades oferecidas pela plataforma digital.
Televisão Digital democrática e de qualidade
Portanto, para que a Televisão Digital rompa, principalmente, o processo hipnótico da imagem televisiva e atenda aos anseios de sua audiência, é importante fornecer ao telespectador conteúdos televisivos inovadores, significativos e expressivos, que dialoguem com a tecnologia, especialmente a convergência midiática e as ferramentas oferecidas por essa nova plataforma, atendendo a uma demanda de criação de uma nova linguagem televisiva. O grande desafio está em como produzir e aprofundar estudos e pesquisas de linguagens narrativas ficcionais compatíveis com as possibilidades dessa plataforma e com o anseio do público consumidor.
Nesse contexto, são aspectos merecedores de estudo: a teledramaturgia e a convergência midiática, a produção ficcional com seus formatos básicos, a busca por novos formatos, o comportamento da teledramaturgia no ambiente digital, sua relação com as multiplataformas, o processo de catalisação em outras mídias e o fomento de estratégias de gestão de conteúdos. São esses aspectos que estamos pesquisando na dissertação de mestrado, que está sendo desenvolvida no pioneiro Programa de Pós-Graduação em Televisão Digital, no Brasil e que será defendida no próximo ano (2010).
Por se tratar de um assunto emergente no cenário nacional, o estudo da gestão de conteúdos narrativos para Televisão Digital é muito recente, pouco explorado e com fontes de referência ainda escassas, o que reforça a importância de estudos nesta área. Há, então, a necessidade de se realizar e aprofundar estudos e conhecimentos que evidenciem novos modelos para produção e difusão de conteúdos narrativos nesta nova fase da televisão brasileira. E isso fornece o estímulo necessário para o desenvolvimento da pesquisa que estamos empreendendo
Em uma sociedade pautada na desigualdade não há possibilidade em se construir um modelo único e ideal de comunicação e de educação, tão pouco definir formas únicas de preservação e difusão cultural. Assim as tecnologias como mediadoras das relações da sociedade possibilitam, de alguma forma, a promoção e a inclusão social para um contingente maior da população, mesmo que isso ainda não seja real em termos qualitativos e quantitativos. A comunicação e a educação percebidas como dimensões sociais, no contexto atual, delineiam um sujeito com autonomia, com reflexão crítica e com possibilidade de edificar seu conhecimento, criando mecanismos comunicativos capazes de divulgar e promover sua cultura.
Podemos afirmar que estamos diante de uma nova realidade, uma nova postura, uma nova maneira de utilizar os recursos tecnológicos a serviço da sociedade, promovendo a educação, a inclusão e criando uma sociedade mais próxima de ser igualitária.
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1 Formado em comunicação Social – Rádio e TV na Unesp (Bauru/SP) e atualmente sou discente regular do programa de pós-graduação em Televisão Digital: Informação e Conhecimento da Unesp no qual desenvolvo pesquisa na linha de Gestão da Informação e Comunicação para Televisão Digital com projeto Gestão de conteúdos narrativos ficcionais na teledramaturgia brasileira: o processo de convergência midiática digital sob orientação da professora Doutora Maria Cristina Gobbi. Sou integrante do grupo de pesquisa Comunicação Digital e Interfaces Culturais na América Latina do CNPq com área predominante nas Ciências Sociais Aplicadas e atuo no mercado audiovisual como editor e diretor de imagens dos programas religiosos da TV Record Paulista.
2 Pós-Doutora pelo Prolam-USP (Universidade de São Paulo – Brasil), Doutora em Comunicação pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), Diretora-suplente da Cátedra Unesco de Comunicação. Professora do programa Pós-Graduação Stricto Sensu em TV Digital e Comunicação da Unesp de Bauru. Coordenadora do Grupo de Pesquisa Pensamento Comunicacional Latino-Americano e Comunicação Digital e Interfaces Culturais na América do CNPq. Diretora de Documentação e coordenadora do GP "Mídia, Cultura e Tecnologias Digitais na América Latina" da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom).