Televisão Digital: informação e conhecimento
9 Cenários e desafios da digitalização para as TVs públicas
9 Cenários e desafios da digitalização
para as TVs públicas
Diolinda Madrilena Feitosa Silva1 2 ; Maria Cristina Gobbi
O sistema público de TV
Um conjunto de fatores contribuiu para que, ao longo do tempo, fosse gerada muita incompreensão sobre os propósitos e fundamentos da TV pública. A trajetória das emissoras públicas educativas do país guarda algumas peculiaridades. O sistema público de TV só foi inaugurado em 1967, 17 anos após a estreia da TV comercial. Foi quando entrou no ar a TV educativa de Pernambuco. Entre 1967 e 1974 surgiram nove emissoras educativas, cujas origens e vinculações eram as mais diversas.
O Decreto-lei 236 regulamentou a criação das emissoras de cunho educativo e no mesmo ano também foi instituída a Fundação Centro Brasileiro de TV Educativa (FCBTVE), voltada ao fomento da programação educativa.
Até meados de 1970 os governos estaduais implantavam rádios e TVs e o governo federal atuava como centro de produção de programas educativos. Para atender a essa finalidade o governo federal criou o Programa Nacional de Teleducação (Prontel) com a finalidade de coordenar as atividades desse segmento no país. Mas essa realidade mudou em 1975, quando o executivo federal passou a atuar como operador direto das emissoras (Intervozes, 2009).
O ano de 1975 também foi marcado pela criação da Empresa Brasileira de Radiodifusão (Radiobrás), órgão responsável pela exploração dos serviços de radiodifusão do governo, e pela estreia da TVE do Rio de Janeiro.
Além do atraso histórico, a TV pública surge sob a tutela da ditadura militar, que lhe impôs, de início, finalidades exclusivamente didáticas (Abepec, 2009). Aí estaria uma das razões para explicar porque as TVs comerciais acabaram por estabelecer, quase que de forma solitária, as bases de funcionamento das emissoras públicas e a natureza das relações com os telespectadores.
A maior parte das TVs públicas foi criada nos anos 80 e 90, período que coincide com a redemocratização do país, mas apesar disso e da ênfase na educação, cultura e cidadania ainda estão distantes de poder cumprir as propostas que lhes deram origem (Carrato, 2008).
Razões de cunho político motivaram a criação de algumas emissoras. Outras têm seu histórico relacionado ao entusiasmo e idealismo de pioneiros da comunicação pública. De modo geral foram concebidas com objetivos instrucionais, visando complementar a lacuna do ensino básico neste imenso país.
Essa tendência foi revertida, em parte, somente na década de 80. Nesse período as emissoras públicas educativas passaram a diversificar mais a programação, pois já havia o entendimento de que a TV não poderia substituir a escola. Assim é que os conteúdos transmitidos estavam também voltados para a identidade nacional, cidadania e a cultura brasileira.
Um fato que também impulsionou essas mudanças foi o Decreto 96.291, de 1988, e a Portaria 93, do Ministério das Comunicações, publicada em 1989. Através desses regulamentos as TVs educativas obtiveram permissão para expandir e interiorizar o sinal, já que uma das dificuldades para expansão da rede era sua interiorização. Com essa permissão, algumas entidades e administrações de diversos municípios passaram a se interessar em ter uma retransmissora de TV, as chamadas Retransmissoras mistas (RTVs). Isso porque, graças ao decreto e a portaria, poderiam veicular 15% de programação local dentro da grade de conteúdos das tevês públicas educativas.
Políticos viram nessa nova possibilidade uma boa oportunidade para explorar estações menos reguladas e mais baratas que as geradoras e veicular conteúdos com fins eleitoreiros. Essa situação foi modificada, legalmente, por volta de 1998, depois de muitas pressões sociais e políticas, que exigiam mudanças no serviço de RTV. Foi então que o Governo reformulou o regulamento das RTVs, proibindo a inserção de 15%, mas reconhecendo a grande quantidade de retransmissoras mistas como geradoras (Intervozes, 2009).
Dentre os fatos marcantes da história da tevê pública brasileira a Lei Sarney, promulgada em 1986, deve ser ressaltada por haver aberto às emissoras a possibilidade de buscar novas fontes de financiamento, já que permitia o que se convencionou chamar de patrocínio cultural. Desse modo, as tevês exploradas pelos executivos estaduais poderiam captar recursos no mercado e não exclusivamente ser mantidas com o orçamento público.
Durante os oito anos em que Fernando Henrique Cardoso esteve à frente do Palácio do Planalto as emissoras públicas foram alvo da política neoliberal, que caracterizou o governo e que buscava reduzir a influência do estado em todos os setores. Como reflexo dessa política, as TVs Cultura de São Paulo e TVE do Rio de Janeiro foram alvo de cortes de recursos e por essa razão adotaram novos modelos de negócio para autosustentação, optando por captar verbas publicitárias.
A forte pressão estatal do governo anterior desencadeou a formação da Rede Pública de TV (RPTV), em 1999, visando a formação de uma grade nacional, com predominância da programação das TV Cultura e TVE do RJ e retransmissão pelo conjunto de praças. A experiência durou dois anos.
Desde então o país vive uma fase de mobilização social crescente quando o assunto em pauta é o debate sobre o papel dos veículos públicos de comunicação. Em 2007, com a realização do I Fórum de TVs Públicas, em Brasília, proposto pelo Ministério da Cultura e Radiobrás, o tema vem ganhando mais notoriedade e hoje está na agenda da maior parte das associações de categorias profissionais, partidos políticos, além de diversos segmentos da sociedade civil organizada.
A criação da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), em 2008, foi outra iniciativa do governo federal, visando instituir um sistema público de TV mais independente da tutela governamental e com um modelo de gestão mais democrático que as estruturas e hierarquias até então vigentes na administração federal de comunicação. A EBC incorporou a antiga Radiobrás.
A empresa pública gere a TV Brasil, a NBR – canal do governo federal – e a TV Brasil – Canal Integración. A TV Brasil é resultado da fusão entre a TV Nacional de Brasília e TVEs do Rio de Janeiro e Maranhão. Seu modelo de gestão conta com quatro instâncias deliberativas, que são os conselhos curador, administrativo, diretoria executiva e conselho fiscal.
O Coletivo Brasil de Comunicação (Intervozes), em recente estudo sobre os sistemas públicos de comunicação no Brasil e no mundo destaca o modelo de rede da TV Brasil, enfocando o projeto de abrangência do sinal digital, bem como o intuito de se tornar a primeira emissora efetivamente pública de dimensão nacional, com um perfil voltado para o jornalismo e programas culturais, em nivel local e internacional.
Com o novo modelo de rede e com a instalação de
retransmissoras próprias, a perspectiva da direção da empresa
é levar a emissora a 24 unidades da federação. No sinal digital
estão reservados canais no espectro de radiofrequências para a
TV Brasil (...). Embora a Lei 11.652, que criou a EBC,
estabeleça para as operadoras de televisão por assinatura
veicularem obrigatoriamente o canal em todos os seus pacotes
e planos, a TV Brasil é ofertada a 1,9 milhão de assinantes
(96,27% do total) do serviço via satélite DTH, a 2 milhões de
assinantes (57,66%) do serviço de TV a cabo em 96 cidades, e
gratuitamente pela banda C para quem possui parabólica, o que
representa um universo de 50 milhões de brasileiros
(Intervozes, apud Cruvinel, 2009, p.275).
A história do sistema público de comunicação brasileiro ainda registra fatos importantes como a Lei 8.977, de 1995, que disciplina a televisão por cabo no Brasil e através da qual as emissoras públicas viram alargar o seu espaço de visibilidade.
Esta lei estabeleceu que para operar no mercado de radiodifusão as operadoras de TV por assinatura devem veicular em seus pacotes e planos os canais básicos de distribuição gratuita, garantindo espaço para um canal legislativo, em nível estadual e municipal, além de também contemplar canais para a Câmara dos Deputados, Senado Federal, canal universitário, comunitário e educativo – cultural. Em 2002, a Lei 10.461 determinou que o Supremo Tribunal Federal fosse contemplado com um canal.
Digitalização e democratização
No Brasil, a chegada da TV digital é fruto de um processo histórico e não pode ser vista simplesmente do ponto de vista técnico e isolado do contexto da radiodifusão. A implantação no Brasil começa quando o Ministério das Comunicações cria, em 1991, a Comissão Assessora de Assuntos de Televisão (COM-TV), cuja finalidade era apresentar propostas para uma política, de âmbito nacional, visando a implementação da TV de alta definição.
Várias etapas se sucederam até o Governo baixar as diretrizes e estratégias para a introdução do Sistema Brasileiro de TV Digital (SBTVD), instituído pelo Decreto 4.901, de 26 de novembro de 2003. Assim, conforme esse decreto, o SBTVD deveria alcançar objetivos como promover a inclusão social, a diversidade cultural do país e a língua pátria, por meio do acesso à tecnologia digital, visando a democratização da informação; propiciar a criação de rede universal de educação a distância; estimular a pesquisa e o desenvolvimento e propiciar a expansão de tecnologias brasileiras e da indústria nacional relacionadas à tecnologia de informação e comunicação, além de contribuir para a convergência tecnológica e empresarial dos serviços de comunicações.
As características do sistema foram anunciadas em junho de 2006, através do Decreto 5.820, que implantou o SBTVD-T(Sistema Brasileiro de TV Digital Terrestre). Nesse decreto o Governo Federal definiu as características do sistema nacional, que difere dos três padrões existentes, o japonês (Integrated Service Digital Broadcasting – ISDB), o europeu (Digital Video Broadcasting – DVB) e o americano (Advanced Television Standard Commitee – ATSC).
O padrão brasileiro, considerado o mais avançado, foi definido tomando por base o sistema de modulação japonês, mas com inovações tecnológicas, dentre elas o middleware desenvolvido no Brasil.
O SBTVD-T mantém as características da TV brasileira, aberta e gratuita para toda a população, mas introduz a possibilidade de ser captada por receptores portáteis móveis, além de permitir maior interatividade do telespectador com a programação.
O grande potencial que o sistema oferece de inclusão digital e social foi um dos fatores considerados quando da definição do padrão nacional, tendo em vista que no país há, hoje, mais de 100 milhões de brasileiros usuários de televisores e de aparelhos celulares, além do crescente número de acessos à internet.
Outro aspecto que marcou a introdução da TV digital no Brasil é a liberação de mais canais de frequência para a radiodifusão. O SBTVD-T estabelece a implantação de novos canais públicos, com programação sobre atos do governo, educação, cultura e cidadania em níveis federal, estadual e municipal, em cada região do país, o que pode significar maior democratização da comunicação.
O Decreto 4.901 acena com essa possibilidade ao atribuir novas finalidades ao sistema brasileiro de radiodifusão, quando estabelece que a radiodifusão seja um instrumento de transformação social, na medida em que enuncia que a nova tecnologia adotada acarretará o desenvolvimento da educação a distância, o incentivo à pesquisa e ao desenvolvimento de tecnologias brasileiras e a pluralidade cultural (Instituto Euvaldo Lodi, 2007).
Novos atores ampliam o debate
As atribuições estabelecidas pelo Decreto 4.901 também se encontram em sintonia com debates e aspirações nacionais no campo da comunicação social, a exemplo do que envolve a democratização dos meios e da programação por eles veiculada. Hoje, há um maior envolvimento da sociedade civil organizada na busca por mais transparência nos atos daqueles que comandam mais diretamente as emissoras públicas.
Em um país dominado pelo modelo comercial de TV, o processo de migração das emissoras públicas federais do sistema analógico para o digital impõe desafios aos governantes e à sociedade. Com a abertura democrática que o país vive nas últimas décadas aumenta o interesse e comprometimento de intelectuais, organizações e ativistas sociais dedicados à constituição de um sistema público de comunicação mais forte, assim como a luta pela garantia dos direitos e liberdades nesse campo.
Discutir a realidade das TVs Públicas não é assunto de interesse apenas para quem atua nestas emissoras e, menos ainda, dos políticos em geral. A discussão envolvendo este tópico aponta para um aspecto essencial para democratizar a relação do poder público com a sociedade.
A criação da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) inaugura uma nova etapa no sistema público de comunicação com a implantação de modelos de gestão, financiamento, produção e difusão de conteúdos que, pela primeira vez na história do país, podem ampliar o debate e a participação da sociedade na construção de um sistema que vai agregar experiências isoladas em torno de um mesmo projeto de comunicação pública rumo à digitalização.
Em nível nacional, há um movimento crescente que tem como um dos temas centrais a democratização do direito à comunicação, em contraposição a um modelo tradicional, unidirecional e concentrado, em que poucos se apropriam dos meios de produção e difusão de conteúdos (Intervozes, 2009).
A 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), realizada em dezembro de 2009, em Brasília, foi representativa desse momento singular que vive a comunicação no campo público, porque reuniu uma grande representação da sociedade civil imbuída na discussão de políticas para o setor.
Nas suas fases regionais e o resultado da reunião de dezembro, na sua fase nacional, foram abordados grandes temas da legislação, de modo a subsidiar o Congresso Nacional na elaboração de uma nova lei das comunicações. A sociedade espera que essa nova etapa represente os anseios gerais da população, não somente para o segmento privado, mas também para o campo público da comunicação.
Cenários e desafios
A 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom) ofereceu ao Brasil um momento ímpar de efervescência política e de mobilização em prol da construção de um sistema público de comunicação, fundamentado no reconhecimento do direito individual e coletivo de que todos são produtores de informação. No que concerne às emissoras de TV não comerciais, é voz corrente entre as manifestações públicas a luta pela conquista de um campo público de TV editorialmente independente, que estimule a formação crítica do indivíduo para o exercício da cidadania e da democracia.
Não obstante os longos anos de ditadura militar, durante os quais muitos canais não comerciais foram criados, e o árduo caminho percorrido por essas emissoras para construírem sua identidade, hoje há um avanço e mais clareza quanto ao rumo que as TVs públicas devem seguir. O II Fórum Nacional de TVs Públicas, realizado em maio de 2009, em Brasília, representou, em certo grau, a essência desse contexto promissor.
Além de haver deliberado sobre questões cruciais para o campo público de TV como regulamentação, financiamento e programação, ainda dedicou longas horas de debate, com representantes de todo o segmento, sobre o tema digitalização, realizando, também, propostas e encaminhamentos.
Uma das discussões do II Fórum Nacional de TVs Públicas e que está na agenda nacional foi a reafirmação do direito das TVs Comunitárias e Universitárias ao espaço aberto de transmissão no processo de migração dos canais públicos do cabo para redes digitais. Nesse aspecto reivindicou que o Sistema Brasileiro de Televisão Digital Terrestre (SBTVD-T) incorpore os canais comunitários e universitários como players devidamente identificados no texto da Lei, disciplinando sua operação nos mesmos moldes previstos na Lei do Cabo.
Outra importante discussão do fórum é que se garanta o acesso das TVs Comunitárias e das TVs Universitárias ao espectro da TV Digital Aberta Terrestre, com possibilidade de utilização de todas as funcionalidades da tecnologia: interatividade, multiprogramação, mobilidade e multiserviço.
No que concerne à liberação de mais canais de frequência para a radiodifusão, estabelecido no decreto 5.820/2006 de implantação do SBTVD-T, esse fórum propôs que as TVs comunitárias tenham assegurada sua participação no novo Canal da Cidadania, previsto nesse mesmo decreto.
Ainda no que se refere à migração dos canais públicos do cabo para redes digitais, houve uma recomendação do fórum no sentido de que seja incluído um inciso adicional no artigo 3º do Projeto de Lei 277/2007 prevendo o Canal da Universidade, com gestão conjunta, autônoma e isonômica por instituições de ensino superior, autorizadas a funcionar pelo Ministério da Educação, as quais responsabilizar-se-ão por transmitir programação decorrente das produções realizadas por discentes, docentes e colaboradores das referidas instituições de ensino.
Outro pilar que precisa ser fortalecido na conjuntura que envolve as emissoras de TV não comerciais refere-se à distribuição de conteúdos à população no ambiente digital e que está diretamente relacionada à capacidade tecnológica. Além desse fator, que impõe altos investimentos decorrentes da necessidade de modernização dos parques tecnológicos, há, sobretudo, a preocupação com uma política de circulação da programação.
Nesse aspecto, o II Fórum Nacional de TVs Públicas deliberou pela criação de um operador de rede pública único para transmissão digital, que congregue todas as emissoras de televisão do campo público. O direito à multiprogramação e à interatividade para a ampliação da transmissão e recepção de conteúdos que venham, de fato, colaborar para a construção da cidadania no Brasil foi outro ponto de discussão do fórum e que esteve também em pauta na Confecom, em dezembro.
Para além das decisões do fórum, estudos realizados pelo Intervozes (2009) apontam duas alternativas para a construção de uma política de transição tecnológica que garanta a digitalização dos canais públicos:
1. A primeira é a articulação de uma rede das TVs públicas,
liderada pela TV Brasil, com o objetivo de desempenhar a função de cabeça-de-rede, e pelas emissoras educativas estaduais. Essa rede terá uma grade comum de dez horas, sendo quatro produzidas pela TV Brasil, quatro pelo conjunto das associadas e duas especificamente do gênero infantil [...].
2. A segunda é o acordo para a construção de uma infraestrutura
única de transmissão no sistema digital. Ela tem o potencial de constituir um sistema misto, ao menos na oferta de programações, uma vez que contemplarão seis canais (TV Brasil, TV Câmara, TV Senado, TV Justiça, canal da educação e canal da cidadania), cada um dos quais podendo fazer multiprogramação. O acordo, para além da redução dos custos
da transição, pode permitir a presença de várias programações que dificilmente poderiam ter acesso ao sistema digital com recursos próprios, como as educativas estaduais (que serão carregadas no canal da TV Brasil) e as TVs Universitárias (que são carregadas no canal da educação). (Intervozes, 2009, p.315)
O entendimento é que essa segunda alternativa permitirá uma política de distribuição de conteúdo no ambiente digital, garantindo a presença de todas essas programações em todas as cidadespolo do país, utilizando-se de uma estrutura de retransmissão para a interiorização dos sinais. Por último, as pesquisas indicam que a infraestrutura única de transmissão no sistema digital possibilitará o carregamento obrigatório de um número mínimo de programações de emissoras públicas perante os serviços digitais de comunicação eletrônica dos operadores comerciais.
Financiamento e regulamentação das emissoras
não comerciais
A emergência das novas tecnologias da informação e comunicação e, particularmente, o advento da digitalização impõem a revisão das fontes atuais de financiamento das emissoras públicas, assim como o marco regulatório, pois está em construção uma nova era no sistema de televisão no país, com implicações que vão do campo técnico ao modo de o telespectador se relacionar com a TV.
Mudanças na regulamentação para a radiodifusão vêm sendo sugeridas pela União Internacional de Telecomunicações (UIT), órgão da ONU, e estão sendo realizadas em diversos países, pela necessidade de criação de um ambiente de desenvolvimento de novas aplicações e serviços dinâmico, com menores custos, e de uma melhor utilização dos recursos e sistemas.
Quando se fala em marco regulatório faz-se uma referência a mudanças significativas nas leis que vão traçar um novo paradigma nas relações dos diversos atores do cenário das telecomunicações brasileiras, incluindo-se o sistema de radiodifusão público. A conjuntura tecnológica e econômica impõe uma atualização na legislação que rege o segmento de televisão, tanto pública como privada. Isso porque o Brasil tem que acompanhar os avanços em uma área que alavanca negócios em todas as outras.
O Artigo 223, da Constituição Federal, prevê complementaridade entre os sistemas privado, público e estatal de comunicação, mas ainda não há uma lei diferenciando estas categorias ou definindo o que estaria no escopo de cada uma delas. A própria Empresa Brasil de Comunicação (EBC) foi criada sem que houvesse uma reformulação do ambiente regulatório.
O Decreto 236, de 1967, que criou as TVs educativas, está caduco. Um exemplo é que o artigo 13 estabelece que as TVs educativas não têm caráter comercial, sendo vedada a transmissão de qualquer propaganda, direta ou indiretamente, bem como patrocínio dos programas transmitidos, mesmo que nenhuma propaganda seja feita, através destes. Esse decreto, em vigor há 22 anos, não foi ainda alvo de uma reformulação para adequá-lo à nova realidade da radiodifusão educativa.
Há divergências quanto à eficácia da Lei das Organizações Sociais (OSs), de número 9.637/9, pois, embora possibilite o recebimento de recursos provenientes de patrocínio e publicidade institucionais, não é um benefício que atenda às necessidades das emissoras na conjuntura atual, pelas lacunas existentes na sua essência (Intervozes, 2009). E usufruem dessa exceção apenas as TVs que se transformaram em OSs ou Fundações Públicas de Direito Privado.
É importante ressaltar, por exemplo, que a Lei 11.652, de 7 de abril de 2008, que criou a EBC, Empresa Brasil de Comunicações, embora contenha parâmetros de definição dos princípios que devem reger uma televisão pública até então inéditos no âmbito jurídico brasileiro, apenas regulamenta a emissora federal operada pela União, ficando as demais à espera de uma regulamentação específica (Intervozes, 2009).
Para além da necessidade de uma revisão no sistema que regulamenta o funcionamento do campo público de TV há que se pensar que essas emissoras carecem de fontes de financiamento mais diversificadas e menos atreladas à tutela governamental e às ingerências políticas. A questão remete, mais uma vez, ao debate sobre o ambiente regulatório, que deve dar mais flexibilidade para que esses canais obtenham novas fontes de captação de recursos e busquem modelos de autosustentabilidade.
Na conjuntura atual, as verbas do orçamento público mantêm, majoritariamente, as emissoras educativas estaduais, legislativas e universitárias. O financiamento das organizações públicas de comunicação se dá por meio de recursos públicos, provenientes da arrecadação de impostos, verbas orçamentárias, fundos públicos, publicidade institucional de entes públicos e de captações próprias, anúncios publicitários, apoios culturais, publicidade institucionais de entes privados e venda de produtos e serviços.
Na discussão nacional sobre o modelo de negócios que deve dar sustentação às TVs do campo público (universitárias, comunitárias, legislativas, educativas estaduais) há preocupações que vão desde a submissão da programação à lógica comercial – no caso de maior arrecadação da venda de anúncios publicitários e daí o atrelamento aos anunciantes – até a manutenção apenas com recursos dos cofres públicos. Outra alternativa em debate é a veiculação de publicidade institucional de entes públicos e privados.
Qual modelo de negócios?
A TV no Brasil está submetida a um processo de transformação com efeitos sem precedentes, estando aí implicados desde elementos básicos da produção e fluxos de distribuição até os comportamentos dos usuários, que cada vez mais consomem produtos audiovisuais e ajudam a conformar estilos de vida. Uma nova soberania do telespectador, convertido pelos apelos do marketing em suposto protagonista do processo e em destinatário final de todos os esforços da indústria das comunicações, da informação e do entretenimento (Arnanz, 2002).
O conceito de televisão digital se relaciona com vários elementos que estão implicados na formação desse novo paradigma de transmissão. A TV digital é uma das manifestações mais visíveis e perfeitas da convergência tecnológica e dos meios de comunicação e entretenimento. Uma característica marcante da televisão digital é acumular conteúdos para outorgar-lhes um novo valor derivado de agregações e combinações múltiplas. A tela pode combinar o jornal do dia, um jogo interativo, um vídeo, além da programação tradicional de um canal de tevê. Tudo pode interrelacionar-se para gerar experiências de comunicação mais intensas.
Um dos desafios a serem enfrentados na definição de um novo modelo de televisão para o campo público são as mudanças que devem ser introduzidas na programação das emissoras, no tocante à produção de conteúdos, de forma a aproveitar as potencialidades proporcionadas pela digitalização, a exemplo da interatividade, além de buscar meios de promover a convergência com outras plataformas como internet e celulares.
Um leque de combinações possíveis será introduzido, paulatinamente, na configuração da TV comercial brasileira, criando novos modelos de negócios. Mas e quanto às televisões do campo público? Que modelos de sustentação econômica serão adotados para prover aos telespectadores conteúdos de qualidade, ampliando a audiência e diminuindo o fosso que distancia a programação das emissoras privadas e públicas?
Historicamente, o Brasil é um país onde as verbas oriundas dos cofres públicos ainda sustentam boa parte do orçamento dos grandes grupos de comunicação privada, através da publicidade governamental, enquanto uma pequena fatia desse bolo é destinada às TVs públicas.
Levantamento divulgado no 1º Fórum Nacional de TVs Públicas, em 2006, expõe uma desproporção gigante. Entre 2005 e 2006 as emissoras do campo público movimentaram R$ 407 milhões, enquanto as emissoras comerciais, juntas, faturaram R$ 11 bilhões (Intervozes, 2009).
As disparidades também são gritantes quando se compara a movimentação das emissoras públicas, entre si. As extintas TVE do Rio de Janeiro (hoje TV Brasil) e Radiobrás, incorporadas à EBC, arrecadaram R$ 185 milhões, no mesmo período. A TV Cultura de São Paulo, R$ 120 milhões; a TVE do Paraná, R$ 18 milhões; a TVE do Rio Grande do Sul, R$ 16,7 milhões; TVE da Bahia, R$ 15,3 milhões, e a Rede Minas, R$ 14,6 milhões.
As dificuldades de captação externa de recursos, em virtude das limitações impostas pela legislação, travam as emissoras públicas. Outro agravante é o custo elevado da modernização dos seus parques tecnológicos, além da fuga de anunciantes para investirem em plataformas lucrativas como a internet.
Uma fonte esperada é o apoio da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), cujo modelo de gestão estabelece que as associadas poderão receber apoio financeiro e estrutural para melhorar a produção e parques de transmissão (Intervozes, 2009). Mas a própria EBC já foi alvo de contingenciamento de recursos, pelo próprio governo, ainda em seu nascedouro. No primeiro ano, em 2008, teve uma dotação orçamentária de R$ 350 milhões que foi reduzida a cerca de R$ 30 milhões, em razão de sucessivos cortes do governo federal.
Multiprogramação
A realidade tecnológica que marca a conjuntura atual enseja a democratização da televisão brasileira, sendo a oportunidade de alterar de forma substancial a condição marginal a que foram relegadas as emissoras do campo público e ainda pela possibilidade de os telespectadores passarem à condição de verdadeiros produtores de informação.
A digitalização traz em seu bojo um leque de novas funcionalidades que tornam mais dinâmica a relação do cidadão com a TV, porque enseja a criação e veiculação de conteúdos interativos, além do envio customizado e individualizado de informações e outras possibilidades não menos significativas como a agregação de conteúdos adicionais aos programas e a organização da grade de programação, pelo próprio telespectador .
Mas, além disso, a TV digital é sinônimo de multiplicidade porque permite múltiplas funções, a exemplo da ampliação do número de programações em um mesmo canal, a chamada multiprogramação, pela otimização do espectro e pela capacidade de compressão de dados. A multiprogramação permite a inclusão de novos segmentos sociais na produção e distribuição de conteúdos audiovisuais.
E é tendo como princípio a inclusão social que as tevês públicas, principalmente as universitárias, estão tomando a dianteira nessa questão, porque vislumbram a possibilidade de alargar o universo de pessoas atendidas pelos programas de educação a distância ou mediada pelas novas tecnologias, notadamente através da oferta de formação profissional a diversas categorias, por meio da multiprogramação de TV.
A Associação Brasileira de TVs Universitárias (ABTU) vê na multiprogramação uma janela para o incremento à educação no país. A Associação é uma das defensoras da operação plena de um canal de 6 MHZ, em regime de multiprogramação.
Em informativo, a ABTU (2009) ressalta que as TVs universitárias é o segmento que mais cresce no país com programação voltada para a promoção da educação, da cultura, das artes, da ciência, tecnologia e da valorização humana. Somente as afiliadas da ABTU produzem mais de 240 horas semanais de programação inédita.
As TVs Universitárias estão adotando modelos de gestão compartilhada de canais universitários, que estão localizados em 40 instituições de ensino superior. Esses canais foram criados e aprimorados de forma autônoma e com respeito às diferenças regimentais de instituições públicas, privadas e comunitárias (ABTU).
Hoje, o parque técnico das afiliadas da ABTU possui mais de 650 funcionários, 50 estúdios próprios, centenas de ilhas de edição e câmeras. Tudo isso é um espaço de formação de novas competências profissionais, de apoio ao ensino e às ações comunitárias e extensionistas que beneficiam milhões de pessoas (ABTU, 2009).
Convergência tecnológica
O cenário de convergência de meios tecnológicos é outro desafio que também está na ordem do dia. Essa convergência é facilitada pela digitalização, que transforma todo tipo de informação em um código binário. Uma das consequências positivas dessa revolução foi a integração dos mercados de informática, telecomunicação e radiodifusão, cujas redes são agora capazes de transportar todo tipo de conteúdo.
Os conteúdos se transformam em bits e podem ser distribuídos por qualquer rede, promovendo a convergência que está em construção no Brasil. TV pela linha telefônica, no celular, no computador, no iPod, no carro, trem, metrô e em vários dispositivos fixos, móveis e portáteis (Negroponte, 1995).
Henry Jenkins (2006) é uma leitura indispensável para a reflexão sobre esse processo de digitalização e suas consequências para a produção simbólica na nossa sociedade.
Bem vindo à cultura da convergência, onde as velhas e novas
mídias colidem, onde o público e as corporações da mídia
cruzamse, onde o poder dos produtores e dos consumidores da
mídia interagem em um caminho imprevisível. A cultura da
convergência é o futuro, mas está sendo moldada no presente.
Consumidores serão mais poderosos em uma cultura da
convergência, mas somente se reconhecerem e usarem seu As multinacionais de telefonia que operam no Brasil ocupam as posições de liderança no ranking das companhias com mais faturamento. A Telefônica da Espanha lucrou cerca de 70 bilhões de dólares em 2006, seguida pela italiana Telecom, que faturou US$ 41 bilhões, enquanto a brasileira Embratel não ultrapassou a cifra de 3,9 bilhões e a Globo ficou em último lugar com US$ 2,92 bilhões (Cruz, 2008).
poder tanto como consumi dores quanto como cidadãos, como
parti cipantes plenos de nossa cultura (Silveira, apud Jenkins,
2006, p.150).
Como as TVs públicas vão acompanhar esse cenário de transformações tão rápidas e radicais, mantendo e ampliando uma audiência cada vez mais segmentada e menos massificada, com nichos mais específicos que refletem a formação de telespectadores com perfis individualizados e menos afeitos à lógica tradicional de ver TV?
A adoção da internet como plataforma alternativa de exibição da programação de TV e de outros conteúdos estabelece mais um desafio para as emissoras de televisão que passam a dividir o bolo de receitas publicitárias com as empresas de telecomunicações e de internet.
O site iTunes é um exemplo, citado por Renato Cruz (2008), antevendo para a TV o mesmo efeito desestabilizador que a companhia Apple, fabricante do iTunes, provocou na indústria fonográfica ao vender, entre 2003 e 2006, um bilhão de músicas e 15 milhões de vídeos, por meio dessa plataforma de reprodução de áudio e imagens. O iTunes seria uma dentre várias demonstrações de como o conteúdo digital pode gerar negócios fora do modelo das empresas tradicionais de comunicação.
O impacto dessas transformações atingiu fortemente o setor tradicional da música e aponta para a televisão que começa a enfrentar o mesmo desafio das gravadoras, tendo em vista o avanço da chamada tecnologia IPTV, a TV via internet de banda larga, que permite a transmissão dos sinais de TV pela mesma rede por onde trafegam as chamadas telefônicas. A potencial e crescente adoção da internet como plataforma alternativa de exibição da programação de TV e de outros conteúdos estabelece mais um desafio para as emissoras de tevê tradicionais que passam a dividir o bolo de receitas publicitárias com as empresas de telecomunicações e de internet.
É nesse cenário que as TVs públicas entram na era da digitalização para produzir conteúdos em um ambiente de convergência tecnológica bastante competitivo, que não pode ser desconsiderado, pois, embora não estejam estruturadas nas mesmas bases econômicas que sustentam as emissoras comerciais, compartilham a mesma finalidade precípua que é a conquista do telespectador.
Considerações finais
O processo de migração das emissoras públicas do sistema analógico para o digital apresenta muitos desafios. A criação da EBC inaugura uma nova etapa com a implantação de modelos de gestão, financiamento, produção e difusão de conteúdos mais democráticos. Essa iniciativa pode ampliar a participação social na construção de um projeto de comunicação pública rumo à digitalização.
Quanto à política de financiamento, o sistema público de TV está a exigir um modelo que permita mais autonomia na gestão dos recursos e menos atrelamento às intempéries das decisões políticas.
A distribuição mais igualitária de verbas publicitárias do governo, entre as emissoras privadas e públicas, e a adoção de novos modelos de negócio, baseados em redes solidárias de produção e distribuição de conteúdo, são questões que também estão tomando corpo na agenda nacional de comunicação e se impõem como desafios que não podem mais ser negligenciados pelo poder público.
Referências bibliográficas
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1 Mestranda do Programa de Pós-graduação em Televisão Digital: Informação e Conhecimento, da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação, Unesp, em Bauru. sob a orientação da prof. Dra. Maria Cristina Gobbi. Especialista em Marketing Estratégico, pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Jornalista da TV UFPB, onde foi correspondente regional do Canal Futura, entre 2007 e 2008. Para a emissora da Fundação Roberto Marinho também produziu e editou VTs, veiculados no telejornal Futura.
2 Pós-Doutora pelo Prolam-USP (Universidade de São Paulo – Brasil), Doutora em Comunicação pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), Diretora-suplente da Cátedra Unesco de Comunicação. Professora do programa Pós-Graduação Stricto Sensu em TV Digital e Comunicação da Unesp de Bauru. Coordenadora do Grupo de Pesquisa Pensamento Comunicacional Latino-Americano e Comunicação Digital e Interfaces Culturais na América do CNPq. Diretora de Documentação e coordenadora do GP "Mídia, Cultura e Tecnologias Digitais na América Latina" da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom).