Televisão Digital: informação e conhecimento

Maria Cristina Gobbi · Capítulo 9 de 17

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Televisão Digital: informação e conhecimento

7 As tecnologias digitais e o desafio ao modelo de negócios da TV Digital aberta no Brasil

7 As tecnologias digitais e o desafio

ao modelo de negócios da TV Digital

aberta no Brasil

 

Francisco Machado Filho 1

O homem e os dispositivos tecnológicos

É sabido que na história humana ocorreram vários momentos de transição tecnológica. Entretanto, não é nenhum exagero afirmar que a velocidade dessa transição seja maior em nossos dias do que fora no passado. Castells (1999) chega a afirmar que a Internet está provocando profundas alterações em nossa sociedade com paralelo apenas com a invenção do alfabeto. A compreensão dos efeitos da tecnologia e dos processos de transição tecnológica talvez seja o maior desafio de nosso tempo e o começo para esse árduo caminho perpassa pelo entendimento de como o indivíduo se relaciona com os dispositivos tecnológicos. Para essa discussão, recorremos a Vicente (2005), e sua análise da relação entre os homens e as máquinas. O autor traz uma importante contribuição ao expor a relação entre o individuo e a tecnologia desde os primórdios da civilização e como a tecnologia influencia o cotidiano do usuário comum e quais os problemas intrínsecos nesta relação.

Um ponto particular nesta questão é a sua análise de momentos transitórios entre o surgimento de uma nova tecnologia, que leva ao desuso outros dispositivos e padrões humanos associados e eles, gerando uma "instabilidade transicional resultante do surgimento e da queda de tecnologias e estruturas sociais" (Vicente, 2005, p.54). Esta situação descreve claramente o contexto atual, visto que vivenciamos um momento transitório entre os sistemas analógico e digital, onde os dois sistemas ainda convivem e se misturam, entretanto, com um claro encaminhamento para a supremacia do sistema digital em todas as áreas de nossas relações sociais, o que torna este momento angustiante para muitos, visto que na tentativa de resolver as novas situações geradas pela inovação tecnológica, nos apegamos às ferramentas do sistema antigo. Vicente (2005) nos chama a atenção para a importância deste momento.

Estamos passando por uma longa e incômoda instabilidade

transicional no mundo tecnológico – a tecnologia está causando

destruição à nossa volta. Mas até que um novo e melhor modo

de pensar se cristalize e predomine, continuaremos a recorrer

as idéias familiares mais datadas, porque elas costumavam

funcionar e são tudo de que dispomos em nossa caixa de

ferramentas conceituais. E, diante das lições da história, as

coisas terão que ficar realmente más, antes que nos decidamos

a abandonar aqueles velhos modos de pensar. Todos os

indícios me dizem que agora chegamos a esse ponto de

instabilidade transicional intolerável, porém fértil. (2005, p.57).

Importante filósofo brasileiro, Alvo Vieira Pinto, morto em 1987, analisa essa e outras questões em sua obra O Conceito de Tecnologia. Seus dois volumes abordam a chamada "era tecnológica" sobre dois pilares fundamentais: a aquisição, da nossa espécie, da capacidade de projetar, e a conformação de um ser social para a produção daquilo que foi projetado. Esses dois aspectos são determinantes na produção dos artefatos tecnológicos e no uso das máquinas pelos indivíduos e podem ser muito bem empregados no contexto atual da transição tecnologia pelas quais estão passando nossos veículos de comunicação, que no caso deste artigo, se limitará ao estudo da Televisão, tanto como um veículo de comunicação, bem como um dispositivo tecnológico, ou seja, o aparelho de TV.

Atualmente, são inúmeras as transformações pelas quais o aparelho de TV tem passado, e essas transformações é que estão (re)configurando a Televisão como veículo de comunicação. TV de Plasma, TV de LCD, OLED, em 3D, telas gigantes, e por fim, a digitalização do sinal enviado pelas emissoras até os receptores, impondo assim, uma adaptação de toda a indústria televisiva a este novo cenário.

Mas porque precisamos de uma nova televisão? Ou uma televisão diferente da que temos hoje? Na verdade não precisamos, mas Vieira Pinto (2005) nos aponta um caminho para entendermos a facilidade com que os indivíduos se entregam ao desenvolvimento tecnológico e passam a incorporar os novos dispositivos tecnológicos em seu cotidiano, e assim, compreender um dos motivos que levam a indústria televisiva a empregar uma enorme quantidade de dinheiro na evolução do sistema de transmissão e dos aparelhos de televisão. Essa entrega se baseia na capacidade humana de Maravilhar-se ante a natureza e, em nossos tempos, ante suas próprias obras.

O homem maravilha-se diante do que é produto seu porque, em

virtude do distanciamento do mundo, causado pela perda

habitual da prática de transformação material da realidade, e da

impossibilidade de usar os resultados do trabalho executado,

perdeu a noção de ser o autor de suas obras, as quais por isso

lhe parecem estranhas. Outrora, na pobreza de uma civilização

tecnicamente "atrasada", o homem só podia, com efeito,

maravilhar-se com aquilo que encontrava feito; agora, na época

da "civilização tecnológica", extasia-se diante do que faz. (Pinto,

2005, p.35).

De acordo com Dizard Jr. (2000), o desenvolvimento das pesquisas de digitalização do sinal de transmissão das emissoras, acorreu frente ao crescimento da Internet e a concorrência das empresas de telefonia que almejam entrar no mercado de transmissão de vídeo pela rede telefônica. A digitalização do sinal permite às emissoras enviar um sinal de Alta Definição ou Standard e ainda agregar uma série de serviços interativos elevando o aparelho de televisão de um simples receptor de sinais para um dispositivo mais complexo. Somando-se ao desenvolvimento das TVs abertas estão as inovações constantes da Internet e da telefonia celular, levando milhares de pessoas a aderir sem questionamento, e para alguns com certo sacrifício financeiro, os mais recentes dispositivos eletroeletrônicos.

Vieira Pinto (2005, p.38) também disserta sobre esta velocidade e busca constante dos indivíduos pela inovação. O autor afirma que a causa do estado de "Maravilhar-se" atualmente é a quantidade de objetos (dispositivos) que nos cercam e que o preço deste estado de espanto e entusiasmo só é mantido com a constante substituição dos objetos, máquinas e engenhos. O desenvolvimento acelerado da produção destes artefatos impõe na mesma rapidez o desgaste e o desuso destes artefatos, levando uma inovação, por mais engenhosa que seja, a perder este estado de maravilhamento. Com isso podemos afirmar que: não restava outra opção às emissoras de televisão a não ser evoluir ou então ela sucumbiria por completo diante das novas possibilidades da transmissão de produtos audiovisuais disponíveis atualmente pela Internet ou pela telefonia fixa (IPTV), celular ou TV a cabo.

Mas, a grande questão é que as emissoras de TV aberta estão tentando a todo custo, manter o atual modelo de negócios da TV analógica também na TV Digital e este pode ser um fator determinante para a televisão continuar ou não sendo o principal veículo de mídia em nosso país.

 

O grande desafio

Em 1995, Nicolas Negroponte, publicou o livro A Vida Digital (2003) onde fez várias previsões e análises do impacto das novas tecnologias em nossa vida. Umas não se confirmaram, mas outras estão se concretizando, mesmo que por defasagem de alguns anos. Dentre elas está sua análise do comportamento dos conglomerados de comunicação em manter o atual modelo de negócios, mesmo dentro do contexto digital dos veículos de comunicação.

Os barões dos meios de comunicação irão se agarrar a seus

impérios centralizados amanhã, na tentativa de mantê-los.

Estou convencido de que, lá por 2005, os americanos passarão

mais horas na Internet (ou qualquer que seja o nome) do que

assistindo às redes de televisão. As forças combinadas da

tecnologia e da natureza humana acabarão por impor a

pluralidade com muito maior vigor do que quaisquer leis que o

Congresso possa inventar.

Esta é uma afirmação contundente, pois estamos exatamente atravessando um período onde políticas de comunicação estão sendo traçadas pelo governo brasileiro, contemplando boa parte dos interesses das emissoras de televisão. Mas, se essas políticas serão aceitas pela audiência é outra história. A interatividade, a multiprogramação, a quantidade de canais, a alta definição das imagens, padrão do sinal e a possibilidade de realizar cópias dos programas veiculados na TV Digital, estão sendo decididos pelo governo sem consulta pública e na clara tentativa de se manter o modelo atual de negócios das emissoras de TV aberta do país. A escolha do padrão japonês de transmissão digital foi um consenso entre as emissoras do país na tentativa de se manter o modelo atual, conforme nos demonstra Cruz (2008).

Ele permite que as emissoras façam transmissões para

celulares, mantendo-se o modelo de negócios atual. A ameaça

das operadoras de telecomunicações fez com que as redes se

juntassem em uma campanha, em março de 2006, que dizia:

"TV aberta: 100% Brasil, 100% grátis. (2008, p.93)

A campanha reunia a TV Bandeirantes, RedeTV e SBT e apoiada pela TV Globo, Record, TV Cultura e Rede Vida. Esta já pode ser considerada uma das primeiras estratégias significativas que as emissoras estão traçando frente às novas tecnologias.

Entretanto, a concorrência com as empresas de telecomunicação não é a única frente de batalha das emissoras de TV aberta do país. A convergência digital está se constituindo em um forte adversário na luta pela audiência. Neste caso, o autor que norteia as linhas teóricas da pesquisa é Henry Jenkins, professor e fundador do programa de Estudo de Mídia Comparada do Massachusetts Institute of Technology (MIT). Para ele a convergência digital é algo diferente de apenas uma mesma máquina agregar vários tipos de mídia que anteriormente possuíam sua própria plataforma. A convergência não é apenas uma questão tecnológica e midiática. A convergência passa a ser uma questão cultural, onde os hábitos dos indivíduos mudam, e assim, toda relação entre o indivíduo, a mídia e entre nós mesmos. Cita o autor:

Por convergência refiro-me ao fluxo de conteúdos através de

múltiplos suportes midiáticos, à cooperação entre múltiplos

mercados midiáticos e ao comportamento migratório dos

públicos dos meios de comunicação, que vão a quase qualquer

parte em busca das experiências de entretenimento que

desejam. (...) A convergência não ocorre por meio de

aparelhos, por mais sofisticados que venham a ser. A

convergência ocorre dentro dos cérebros dos consumidores

individuais e suas interações sociais com os outros. (Jenkins,

2008, pp.. 27-28).

Para o Jenkins (2008), a questão da convergência das mídias faz surgir uma nova cultura: a Cultura da Convergência. A mudança central está no fato de que o individuo possui diversas formas e ferramentas para buscar a informação que deseja ou o entretenimento que deseja. E ele quer fazer isto de forma rápida e segura. E isto ocorrendo, muda completamente o atual modo de produção midiática e o modo como a indústria midiática veicula suas mensagens. Além disso, a publicidade que financia toda esta indústria, também terá de encontrar novos modos de sedução e persuasão para vender seus produtos.

A convergência das mídias é mais do que apenas uma

mudança tecnológica. A convergência altera a relação entre

tecnologias existentes, indústrias, mercados, gêneros e

públicos. A convergência altera a lógica pela qual a indústria

midiática opera e pela qual os consumidores processam a

notícia e o entretenimento. (Jenkins, 2008, p.41).

Isto faz surgir um novo tipo de consumidor. Agora, não definido por classe social, poder aquisitivo ou grau de instrução. "A pesquisa de audiência se deslocará, cada vez mais, para o estudo do status do usuário e para sua nova função como peça chave da convergência dos meios" (Vilches, 2003, p.21).

A internet já vem tirando das emissoras de televisão boa parte da audiência. Cruz (2008) descreve um estudo realizado pelo instituto Datanexus referente a novembro e dezembro de 2003 onde era possível comprovar que a internet vinha retirando audiência das emissoras. O estudo apontava que, na grande São Paulo, as pessoas que não possuíam acesso a internet gastava 12% de seu tempo com a televisão, contra 9,4% das pessoas que possuíam acesso. Ainda de acordo com Cruz (2008), em 2005 o país contava com uma audiência residencial de 2.654 milhões. Noticia veiculada

pelo site G1 2aponta estudo realizado pelo instituto Ibope Nielsen Online, que faz medições desde 2001, onde o Brasil possui 62,3 milhões de pessoas com acesso a internet em casa ou ambientes corporativos (Lan House, bibliotecas, trabalho, etc.). Ainda de acordo com o estudo, o brasileiro gasta 40 horas e 41 minutos mensais navegando na internet, o que faz do Brasil campeão de navegação na rede.

Este comportamento está mudando o hábito de uma parcela considerável de espectadores da TV aberta. Em pesquisa divulgada

pelo instituto Datafolha, 3 jovens da classe A e B já preferem a internet (43%) como fonte de informação e entretenimento a televisão (26%). Em outras faixas sociais a diferença entre os números diminui o que pode ser explicada pela conexão banda larga mais acessível à classe A e B.

Em outro estudo divulgado pela IMMI (Integrated Media

Measurement Inc.)4 um quinto dos americanos já vê TV pela internet. De acordo com o estudo, 50% dos que vêem televisão pela web realmente substituíram a TV pelo computador. A outra metade usa para ver programas em horários alternativos ou rever programas que já tenham visto na TV aberta ou cabo. O site

americano www. hulu.com é uma tentativa das emissoras de televisão americanas de conter o avanço do maior site de distribuição de vídeos atualmente:

o YouTube. O Hulu é o resultado de uma parceria entre as

redes News Corp. e a NBC Universal e distribui gratuitamente

vídeos de seus programas e séries, que conta ainda com

produtos da Sony e da MGM5. Dados recentes e divulgados

pelo site InfoOnline,6 mostram que o site vem ganhando

popularidade exibindo em março de 2009 437 milhões de

vídeos (de acordo com a mesma reportagem, ainda muito

distante de YouTube que no mesmo mês exibiu 5,9 bilhões de

vídeos) e já estuda a possibilidade de adotar um modelo pago

para uso do site.

É muito forte o indício de que as pessoas estão migrando para a web. Não que elas não queiram mais a televisão e nem sua programação. É a maneira como a web está oferecendo os produtos das emissoras de TV que tem atraído essa audiência. Com isso, os altos índices de audiência massiva que as emissoras obtinham na década de 80 dificilmente se repetirão devido às novas tecnologias.

 

O atual modelo de negócios

Squirra (1993) nos chama a atenção de que "qualquer emissora de televisão é uma empresa como outra qualquer" (1993, p.38), ou seja, visa lucro. No geral, as emissoras de televisão se dividem nos departamentos de administração, engenharia e programação. O entendimento do modelo de negócio das emissoras e seu funcionamento são importantes para a pesquisa, pois é esta estrutura que acaba por moldar todo o funcionamento e discurso televisivo e a produção dos programas em seus diversos formatos e gêneros.

Souza (2004) analisa a grade de programação da TV brasileira e nos auxilia na compreensão do vinculo existente entre os gêneros e formatos da programação da TV aberta e seu modelo de negócio. Souza (2004) afirma que o principal fator que afeta a estrutura básica dos programas televisivos é o econômico.

E o motivo dessa padronização de categorias e gêneros não é

desconhecido e pode ser interpretado, mais uma vez, pela ótica

de uma indústria que tem seus produtos à venda. O comprador

desses produtos é o mercado publicitário, que precisa identificar

um público alvo e não se dispõe a correr grande risco (Souza,

2004, p.53).

Este modelo veio se estruturando ao longo do tempo no Brasil e possui os mesmos princípios do modelo norte-americano. Neste sentido, André Mendes de Almeida nos dá uma importante contribuição ao resgatar esta estruturação e proximidade com o padrão americano no livro Mídia eletrônica: seu controle nos EUA e no Brasil. Almeida (2006) relata que através do Radio Act em 1927, Estados Unidos regularizaram o sistema de radiodifusão naquele país criando a FRC (Federal Radio Commission) que tinha poderes para não só regulamentar o sistema de radiodifusão, como também, outorgar as licenças para as emissoras. Um dos princípios básicos da radiodifusão tanto nos EUA, quanto aqui no Brasil, foi reafirmado pela FRC, como relata Almeida (2006, p.13):

A FRC reafirmou o princípio de que o espectro eletromagnético

é um bem público e ilimitado e que os radiodifusores são meros

usuários desse bem quando emissoras devidamente

licenciadas pelo governo. Conhecido como Trusteeship Model,

esse princípio, introduzido pelo Radio Act de 1927, vem sendo

a base filosófica para a regulamentação da radiodifusão há

mais de 60 anos.

Este é o mesmo principio aqui utilizado no Brasil, entretanto, aqui é o Congresso Nacional que outorga as concessões para utilização do espectro. De acordo com Almeida (2006) em 1931 o governo brasileiro baixou o primeiro decreto exclusivamente para controlar o sistema de radiodifusão. O decreto 20.047 dava competência única para o governo federal na outorga e controle do espectro e adotava o modelo Trusteeship norte-americano. O controle do Estado na concessão do uso do espectro se mantém até hoje inclusive na concessão dos canais da TV Digital. Este modelo limita o número de emissoras e foi a base para criação do modelo de negócio atual.

Contudo, a fragmentação da audiência das emissoras de TV aberta pode ser considerada o grande desafio para manutenção deste modelo de negócio. Emissoras estritamente comerciais e que dependem da publicidade e venda de programas visando grandes audiências podem entrar em dificuldades financeiras em um futuro muito breve, caso não encontrem alternativas para atingir essa audiência fragmentada.

Joseph Jaffe, respeitado consultor de marketing nos Estados Unidos, tem uma opinião bem Apocalíptica deste cenário. Em seu livro, O declínio da mídia de massa, o autor apresenta fortes argumentos de que os comerciais de 30 segundos nas emissoras de TV aberta estão com os dias contados. Um destes argumentos se baseia em ingredientes que estão corroendo o comercial padrão de TV:

- banda larga;

- tecnologia sem fio;

- buscadores;

- redes.

A equação é bem simples. Esses quatro elementos contribuem significativamente para que as pessoas deixem de assistir TV. Quanto menos pessoas estiverem assistindo TV, menos pessoas verão os produtos anunciados e, conseqüentemente, menos produtos serão vendidos. Desta forma, não restará alternativa à publicidade a não ser buscar outras formas de atingir os consumidores necessários para buscar o melhor CPM (custo por

mil7). Assim, a dispendiosa estrutura televisiva estará em sérios apuros, pois seu maior financiador (o comercial de 30 segundos) poderá se transformar em campanhas segmentadas nas emissoras por assinatura e Internet. Isto já vem ocorrendo nos EUA.

A TV aberta, por décadas uma oligarquia formada por ABC,

CBS e NBC, no passado serviu de ponto focal para os

momentos culturais compartilhados do país. Quase 83% dos

domicílios dos EUA assistiram à apresentação de Elvis Presley

no "Ed Sullivan Show", em 1956, a maior audiência de televisão

de todos os tempos em termos proporcionais. Em termos de

número bruto de telespectadores, o episódio final do seriado

"MASH", em 1983, estabeleceu o recorde, com 106 milhões de

telespectadores. Nos três meses finais de 2008, as redes de TV

aberta perderam 3 milhões de telespectadores, ou 7% de sua

audiência total. Em termos gerais, o número de telespectadores

cresceu, porém, e algumas redes de cabo de grande porte,

como a USA e a TNT, estão atraindo novos telespectadores. As

redes de TV aberta ainda conquistam as maiores audiências,

mas agora estão enfrentando uma profunda recessão

publicitária que prejudica tanto as redes quanto as estações

locais. (informação eletrônica)8

É bem verdade, que o cenário descrito por Jaffe (2005) é bem particular dos Estados Unidos. Lá, cerca de 80% das residências possuem banda larga. No Brasil (dados de novembro de 2009),

apenas 6% tem acesso por banda larga a Internet 9. Porém, isto pode mudar bem rápido. O governo brasileiro pretende atingir até 2014, 165 milhões de brasileiros com um plano nacional de banda larga a preços acessíveis. O projeto é levar a conexão de alta velocidade a 80% dos municípios brasileiros.

Augusto Gadelha, secretário de Política da Informática do

Ministério da Ciência e Tecnologia, diz que em cinco anos a

banda larga atingirá um "porcentual significativo de domicílios e

todas as escolas urbanas e órgãos públicos do País".

"Poderemos estar entre os dez países com maior penetração

de banda larga do mundo".10

Caso o plano se concretize, as conseqüências são imprevisíveis, ainda mais para as emissoras de TV aberta do Brasil.

O advento das novas tecnologias já está alterando a estrutura das emissoras de televisão. Vilches (2003) traz uma importante contribuição com seu livro A migração digital. O pesquisador espanhol nos mostra com muita propriedade qual será o novo papel da mídia, dos espectadores e usuários no novo negócio da comunicação. Neste novo contexto, a mídia passa a oferecer menos produtos e espetáculos e mais serviços. Para ele, em pouco tempo será difícil falar de bons ou maus programas, mas sim em utilidade e inutilidade. Outra estratégia apontada pelo autor é de que as novas ações de marketing dos conglomerados de comunicação (geralmente empresas de rádio, televisão, jornais e revistas) buscam criar serviços integrados convertendo-se em portais na internet onde o conteúdo produzido nas mídias tradicionais é oferecido em sua totalidade ou não, gratuito ou restrito a assinantes. O que já vem sendo realizado pela TV Globo, TV Record, SBT e Band.

 

Conclusão

Os referenciais teóricos quem norteiam este artigo se baseiam em estudos recentes das ações da mídia frente às inovações tecnológicas e do comportamento dos espectadores frente às inúmeras possibilidades de informação e entretenimento oferecidos pelas tecnologias da informação. Os autores aqui elencados têm por objetivo sustentar um caminho inicial para ser trilhado com subsídios para o entendimento da relação do indivíduo e os aparatos tecnológicos, da televisão e sua estrutura de produção e negócios, da nova segmentação da audiência de massa, suas repercussões na sociedade, na publicidade e a compreensão da convergência cultural.

Nos EUA, onde a TV Digital já está em plena operação e onde a internet tem uma penetração bem maior na população do que aqui no Brasil, as emissoras já estão se mobilizando há algum tempo. Tanto lá como aqui, a televisão ainda é o maior veículo de comunicação, mas também o mais vulnerável diante das novas tecnologias devido ao seu alto custo de manutenção. Por isso, a televisão é uma "indústria em declínio em longo prazo" (Dizard Jr., 2000, p.127), o problema é que com as mudanças acontecendo em um ritmo tão elevado, é possível que este prazo não seja tão longo assim. Qualquer perda de publicidade em uma estrutura tão cara como é a da TV aberta é uma desastre. É preciso encontrar com urgência um novo modelo de negócios, onde a lucratividade das emissoras possa ser mantida em um patamar que continue proporcionando a realização de programas de qualidade técnica e artística. Esta não é uma tarefa fácil. A estrutura da grade de programação se tornou um hábito para a audiência, e somente quando novos hábitos forem sendo incorporados em novas audiências (a geração Y) é que a televisão poderá experimentar novos modelos e uma nova postura para a indústria.

Nos Estados Unidos algumas iniciativas estão sendo tomadas, e como o modelo de negócios praticado pelas emissoras das TVs brasileiras é bem próximo ao praticado pelas emissoras americanas, é possível dizer que o que acontecer lá, poderá acontecer aqui também, e com isso, pode-se elencar alguns tópicos.

1. Fusões e aquisições. É possível que emissoras concorrentes

até pouco tempo se unam ou se fundam ou tenham parte de seu capital comprado por empresas estrangeiras. Nos EUA essa foi a fase que marcou o início das mobilizações que as três grandes redes, NBC, ABC e CBS encontraram para enfrentar a fragmentação da audiência e significativa perda de publicidade. A ABC foi comprada pela Capital Cities Comunications, proprietária do maior conglomerado de TVs avulsas do país. A NBC, tornou-se uma divisão da General Eletrics e a CBS foi comprada através de controle acionário por um conglomerado ligado ao ramo do tabaco (Dizard Jr. 2000, p.132). Em 1995 a Disney comprou a Capital Cities e se tornou o maior grupo de mídia do mundo. Mas, para que ações como essa possam ser realizadas aqui no Brasil foi preciso mudar a

lei, visto que a permissão para ser proprietário de uma emissora de TV é dada por meio de uma concessão do governo brasileiro. Até 2002, a constituição brasileira não permitia a participação de capital estrangeiro na empresas de comunicação. Mas, em 26/02/02 o Congresso aprovou a Emenda à Constituição nº 203/95, abrindo as empresas de mídia à participação de pessoas jurídicas e ao capital estrangeiro. Ou seja, a lei não é um grande problema, como um em cada dez deputados são donos direta ou indiretamente de emissoras de televisão fica fácil mudar a lei.

2. Cortar custos. Algumas das mais famosas séries da TV

americana foram cortadas devido ao alto custo de produção. Seinfeld, em 1998 e Friends, em 2004 foram cancelados. Mais recentemente, o comediante e apresentador de talk show, Jay Leno teve o horário de seu programa alterado após 17 anos no ar. Leno, a partir de maio de 2009, ocupa o horário das 20h que anteriormente pertencia à série CSI. A mudança de Leno das 23h para as 20h equivale aqui no Brasil à TV Globo colocar o Programa do Jô no lugar das novelas das 21:00 horas.

3. TV Digital. Digitalizar o sistema e investir no sinal em Alta

Definição foi uma estratégia que não trouxe ainda os resultados esperados aqui no Brasil. Mas, todo o mercado mundial de televisão apostou neste segmento e agora é um caminho sem volta. O jogo de interesse brasileiro agora e que pelos menos países da América do Sul e outros de língua portuguesa ado-tem o mesmo padrão de TV Digital que o nosso, o que traria bastante compensação financeira para emissoras e fabricantes de eletroeletrônicos.

4. Integração com a Internet. Todas as redes de TV americana

deram passos significativos nesta área. A Disney comprou 43% de uma empresa que controla um mecanismo de busca popular da rede nos EUA. No Brasil, não há notícias de que as emissoras estejam investindo ou fazendo parcerias para atuarem neste setor dessa mesma forma. O que existe são apenas portais onde as emissoras reproduzem o conteúdo jornalístico e de entretenimento.

5. Maior autonomia para as emissoras locais. Com a digitalização

do sistema e a possibilidade de transmissão de conteúdo pela Internet os conceitos de grade de programação e de rede se tornam obsoletos. Uma maior participação das emissoras na oferta de programas reduz muito o custo de produção dos programas e abre oportunidade de empregos para os profissionais dispensados ou recém formados.

Esses são aspectos estruturais que as emissoras de TV aberta podem observar com mais cuidado como alternativa para o modelo atual. É bem certo que outras ações deverão ser pensadas. O importante é que o momento requer alternativas. É preciso fazer alguma coisa antes que a situação se complique ainda mais, o que geralmente leva a situações drásticas de rompimento com o modelo antigo. Este artigo nasce nesse contexto, com a pretensão de abrir o caminho para essa discussão que está bem longe de se encerrar.

 

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PORTAL IMPRENSA. http://portalimprensa.com.br/portal/ultimas_

noticias/2009/04/03/imprensa27207.shtml. Acesso em 03/04/2009 – 08h1

1 Coordenador do curso de Jornalismo das Faculdades Integradas de Fernandópolis (Fernandópolis, SP). Mestre em Mídia e Cultura pela Universidade de Marília (Unimar) e doutorando no programa de Pós-Graduação em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), sob a orientação do professor Sebastião Squirra.

2 Informação disponível em

<http://g1.globo.com/Noticias/Tecnologia/0,, MUL1194765-

6174,00.html> Acesso em 15/06/2009 – 12h05.

3 Informação disponível em

<http://www1.folha.uol.com.br/folha/informatica/ult124u426874.shtml > Acesso em 27/07/2008 – 09h35.

4 Informação disponível em

<http://www1.folha.uol.com.br/folha/informatica/ult124u427692.shtml > Acesso em 30/07/2008 – 11h23.

5 Informação disponível em

<http://www.infodesktop.com/infonews/net/ noticia/4181> Acesso em 29/10/2007 – 12h23.

6 Informação disponível em

<http://info.abril.com.br/noticias/negocios/ hulu-pode-ser-pago-no-

futuro-04062009-42.shl> Acesso em 04/06/2009. 18h42.

7 Custo por mil é o valor que se obtém da divisão do preço de uma inserção em uma publicação ou emissora pelo total de sua audiência expressa em números absolutos, em milhares. Quanto maior a audiência e menor o preço de sua inserção, menor é o custo por mil.

8 Informação disponível em

<http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/ fi2103200929.htm> acesso em 21/03/2009 – 20h15.

9 Informação disponível em <

http://www.estadao.com.br/tecnologia/link/ not_tec3147,0.shtm> Acesso em 21/11/09 – 15h14.

10 Idem