Teoria da História I: Princípios e conceitos fundamentais
III Alguns conceitos fundamentais
III
Alguns conceitos fundamentais
1 Conceitos basilares para o estudo da Teoria da História
Vimos já, a esta altura, alguns conceitos basilares para iniciar o estudo de
uma Teoria da História (ou de uma “Teoria Geral da História”). A própria
noção de Teoria da História, conforme já foi destacado, constitui expressão
polissêmica, que acompanha a mesma diversidade de sentidos que
poderemos encontrar para a palavra “Teoria”. Na acepção mais geral, vimos
que “teoria” se relaciona ao modo científico de se produzir conhecimento, e
corresponde a uma “forma específica de conceber e abordar o mundo” (por
oposição ao “pensamento religioso”, ao “pensamento mítico”, à “magia”, e
assim por diante, que também constituem outras formas igualmente
legítimas de se relacionar com o mundo).
Essa acepção mais geral, como já se ressaltou, também pode ser trazida
para o âmbito da reflexão historiográfica e, a partir dela, teremos na Teoria
da História um modo específico de abordar a história que teria surgido na
mesma época em que começaram a se consolidar as propostas de assegurar
uma cientificidade para a História (o que teria ocorrido, conforme
discorremos, a partir da passagem do século XVIII para o século XIX).
Essa acepção mais geral de Teoria da História também gera, no interior da
própria História (aqui entendida como disciplina e forma de conhecimento),
um âmbito específico de estudos historiográficos que é o da Teoria da
História como disciplina curricular e como espaço de reflexão no interior da
própria história. Poderíamos falar aqui, se quiséssemos matizar o termo, de
uma “Teoria Geral da História”, ou de um vasto universo habitado pelas
inúmeras maneiras de se compreender a história como “conhecimento
científico”, como “conhecimento cientificamente conduzido”, ou ao menos
como uma “forma específica de se produzir conhecimento histórico” nesta nossa época contemporânea – esta época que situa a Ciência como um
interlocutor incontornável. Assim, ainda que um determinado historiador ou
filósofo não conceda à História o estatuto de cientificidade, não se pode
negar que os modos de se fazer profissionalmente a História nesta “era da
Ciência” são outros que não os da “história teológica” do século XVII ou da
narratividade histórica típica da Idade Média, apenas para citar dois
exemplos.
Neste livro, grafaremos com iniciais maiúsculas a Teoria da História
sempre que estivermos nos referindo a esse amplo universo de reflexão que
abrange dentro de si os vários paradigmas historiográficos, as suas
subcorrentes internas, os inúmeros conceitos que são instrumentalizados
pelos historiadores profissionais, ou os diversificados sistemas construídos
pelos historiadores para compreender processos históricos específicos como
a “Revolução Francesa”, “O Nazismo”, a “Descolonização”, a
“Industrialização” e tantos outros fenômenos (“teorias da história” sobre
questões históricas específicas). Sobretudo, estarão inclusos no interior da
Teoria da História os vários olhares que os próprios historiadores constroem
sobre o seu próprio ofício 101.
A Teoria da História, como esclarecemos no início deste capítulo,
corresponderá aqui a todo o instrumental reflexivo de que os historiadores
lançam mão para “pensar” a história, da mesma maneira que a
“Metodologia da História”, na sua acepção mais geral, corresponderá a todo
o instrumental de que lançam mão os historiadores profissionais para
“fazer” a História, coletar e organizar as suas informações, para realizar a
sua pesquisa sistemática a partir das fontes, para extrair informações e
depoimentos de seus entrevistados quando se trata deste campo histórico
mais específico que é o da História Oral, para analisar metodicamente os
resultados, e assim por diante. Por isso, é oportuno dizer que a Teoria da
História e a Metodologia da História – duas disciplinas que devem fazer
parte da formação curricular dos historiadores – constituem os alicerces
fundamentais de uma História que integra o “ver” e o “fazer” de modo a
produzir a “historiografia” (conjunto total do trabalho produzido pelos
historiadores de todos os tempos).
De outra parte, vimos também que há mais duas acepções para a
expressão “Teoria da História”, que agora grafaremos com iniciais minúsculas. São “teorias da história” (2) essas visões paradigmáticas da
história que enxergam o mundo histórico e o ofício do historiador de uma
determinada maneira, que se posicionam de certa forma perante problemas
como o da “objetividade histórica” ou o do tipo de ciência que seria a
História, ou mesmo que fazem certas “perguntas” à história, e não outras.
Aqui, o conceito de Teoria da História irá se aproximar do conceito de
paradigma historiográfico, que logo adiante discutiremos, passando a se
referir a sistemas de compreensão da História que podem ser
exemplificados com o Positivismo, o Historicismo ou o Materialismo
Histórico, a serem discutidos nos próximos capítulos.
Para além disto, tal como veremos mais adiante, “paradigmas”
potencialmente complexos como o do Materialismo Histórico, ou como os
dois outros que foram citados, acabam com o tempo se desdobrando em
variações internas, de tal modo que poderemos reservar a designação de
“paradigma” para um certo ambiente teórico que abrange várias teorias da
história. O Materialismo Histórico, por exemplo, deu origem a correntes
teóricas mais específicas, como a da “Teoria Crítica” (relacionada à
chamada Escola de Frankfurt) ou a do modelo mais específico de
Materialismo Histórico que foi proposto pela chamada Escola Inglesa
(Thompson, Hobsbawm, Christopher Hill, e outros). Inúmeros outros
exemplos poderiam ser citados, como o open marxism dos anos 1990, ou
como o “marxismo estruturalista” inaugurado por Althusser nos anos 1960.
Mas há também teorias que se estabelecem não no interior, mas “entre” os
paradigmas, ou mesmo na conexão de experiências teóricas que
transcendem os pensadores mais tradicionais que se relacionam à História.
Assim, a já citada “Teoria Crítica”, rigorosamente falando, estabelece-se
não propriamente no interior do paradigma do Materialismo Histórico, mas
sim na conexão de uma certa forma de Materialismo Histórico com a
Psicanálise de origem freudiana, sendo que o referencial teórico oriundo do
Materialismo Histórico é a base utilizada pelos frankfurtianos para explicar
o funcionamento da sociedade e a formação das classes sociais, ao passo em
que a Teoria Psicanalítica é a base que se agrega para dar escopo a uma
análise mais sofisticada sobre a “formação do indivíduo”102. Nesse caso,
podemos dizer, ainda, que estamos diante de uma teoria “interdisciplinar” –
isto é, que se produz na conexão entre dois campos de saber, que são a
História (e, por extensão, a Sociologia) e a Psicanálise103. Para dar outro
exemplo de teoria que se produz entre dois paradigmas, pode-se igualmente
dar o exemplo da corrente althusseriana do Materialismo Histórico, esta que
combina este último paradigma com o “estruturalismo” francês, dos anos
1960104. A essas questões voltaremos oportunamente.
Ainda neste nível de significação a ser atribuído à palavra “teoria”,
iremos mesmo encontrar aquelas “teorias” que se situam de forma
independente em relação aos paradigmas, pairando de maneira mais ou
menos livre em relação às órbitas paradigmáticas. Michel Foucault (1926-
1984), filósofo-historiador que durante a sua vida frequentemente
reinventou a si mesmo e à sua contribuição teórica, produziu “teorias”
diversas sobre temáticas várias, que nem sempre seriam situáveis no interior
de um único paradigma ou mesmo entre eles105.
As “teorias da história”, neste sentido mais intermediário que as
aproxima dos paradigmas ou as situa em relação a eles, podem também ser
contrastadas, conforme vimos no último item, às “filosofias da história”, um
conceito que também foi ali definido. Mas existem, por fim, conforme
também mencionamos no princípio deste capítulo, as “teorias da história”
(3) no sentido mais restrito, que se referem aos sistemas teóricos
construídos pelos historiadores para a tentativa de compreensão de
fenômenos ou processos históricos específicos como o da “emergência dos
totalitarismos na primeira metade do século XX” ou o da “eclosão das
revoluções burguesas” nos dois séculos anteriores, ou ainda como as teorias
que são construídas para produzir um entendimento sobre temas diversos
como a “Conquista da América”, a “emergência e consolidação do
Cristianismo no Ocidente”, o fim do “Império Romano”, e tantos outros
objetos de estudo106. Seria possível dar como exemplo de “teoria”, nesse
terceiro sentido, a teoria de Max Weber sobre as relações entre a Ética
protestante e o espírito do capitalismo (1904-1905). Ou ainda a teoria de
Wilhelm Reich sobre a Psicologia de Massas do Fascismo (1933), teoria
que, avançando para além de outras teorias sobre o Nazismo que
consideram apenas o contexto econômico-social e político, busca relacionar
as causas da projeção do Nazismo na Alemanha das terceira e quarta
décadas do século XX à estrutura familiar da baixa classe média alemã, incorporando a uma visão histórica pautada no Materialismo Histórico os
conceitos da Psicologia 107. Ou, para o caso da Conquista da América,
poderíamos dar como exemplo de “teoria” a que foi desenvolvida por
Todorov (n.1939)108, que considera a “alteridade” e o “choque cultural”
como aspectos principais para explicar adequadamente como se deu a
rápida sujeição dos astecas pelos conquistadores espanhóis no início do
século XVI 109. Estes são apenas exemplos. Uma enorme quantidade de
teorias, nesse sentido mais restrito da expressão, tem sido produzida em
torno de temas como a Expansão Islâmica, a Revolução Francesa, o
Nazismo, a Derrocada do Socialismo Real em fins do século XX, e
inúmeros outros conjuntos de acontecimentos ou processos históricos
específicos.
Em um nível ainda específico, mas de todo modo mais abrangente que os
já citados estudos acerca de processos historicamente localizados (a
“Revolução Francesa” ou o “Nazismo”), estão as teorias que se referem a
aspectos mais generalizados e abstratos. São por exemplo as teorias sobre
as “Revoluções” como um todo (e não sobre a “Revolução Francesa”,
especificamente), ou sobre o “Totalitarismo” como um tipo mais amplo de
ocorrência no mundo político (e não sobre o “Nazismo Alemão” ou o
“Fascismo Italiano” em particular).
Assim, por exemplo, existem inúmeras teorias, elaboradas por
historiadores, sociólogos ou filósofos, sobre as “Formas de Governo”, nas
quais se procura estabelecer um sistema para a compreensão acerca de
como estas se estabelecem, como se desenvolvem, e como se legitimam.
Podemos ir desde os tempos da Antiguidade Clássica aos mais recentes
períodos nos quais emergiram novas teorias no âmbito das ciências
políticas, para ter uma ideia de como teorias distintas sobre as formas de
governo e, eventualmente, sobre a sua sucessão histórica, competem entre si
e se oferecem aos pesquisadores de todos os tempos como recursos teóricos
para enxergar o mundo político. Apenas para exemplificar, o filósofo
Aristóteles (384-322 a.C.), já na Antiguidade, construiu a sua teoria sobre
as formas de governo e sobre os tipos de exercício dos poderes em termos
de uma tipologia que identificava como “boas formas políticas” as
modalidades básicas e exemplares da “Monarquia”, “Aristocracia” e “Democracia”. A esse modelo, o historiador grego Políbio (203-120 a.C.),
que viveu no século II a.C., já na época da expansão romana, contrapõe a
sua própria teoria, segundo a qual seria recorrente um ciclo de seis formas
de governo que se sucedem umas às outras, sendo possível considerar ainda
uma “forma mista” que seria a da própria constituição romana. Já
Maquiavel (1469-1527), escrevendo da Florença do século XVI, irá
reconhecer apenas duas formas políticas essenciais: o Principado e a
República ( 110 O príncipe , 1513).
Na primeira metade do século XX, partindo de uma visão de mundo bem
distinta – e, portanto, de uma nova teoria por ele construída – o sociólogo
alemão Max Weber (1864-1920) procurou fazer uma nova pergunta em
torno das formas políticas, deslocando o ponto de partida centrado no tipo
de governo concretizado para uma questão primordial centrada na forma de
poder exercido 111. Desse modo, sua Teoria indaga sobre o modo como as
formas de governo ou os poderes se legitimam, o que permitiu a Weber
chegar a um sistema no qual, entre outros pressupostos, desenvolve-se a
ideia de que a “dominação” pode se legitimar pela “tradição”, pelo
“carisma”, ou pela “lei” (WEBER, 1999: 187-580). Essas quatro leituras
distintas sobre as “formas de governo” – a de Aristóteles, a de Políbio, a de
Nicolau Maquiavel, e a de Max Weber – e diversas outras que poderiam ser
citadas, desde as teorias políticas de Jean Bodin (1530-1596), Giambattista
Vico (1668-1744) 112 113 e Montesquieu (1689-1755) até a Teoria das
Formas Políticas de Norberto Bobbio (1909-2004), constituem cada qual
uma “teoria” específica sobre o poder e sobre as formas de governo.
Uma teoria ou outra abre ao pesquisador e analista da sociedade,
inclusive ao historiador, determinados horizontes, ao mesmo tempo em que
fecha outros caminhos. Weber, por exemplo, pretende abrir um novo
horizonte de leituras do político ao mobilizar em sua construção teórica
novos conceitos, como o de “tradição” e o de “carisma”. É este sistema que
ele chamará de Teoria da Dominação, e a sua proposta é a de que tal sistema
poderia ser empregado para a análise de diversas situações históricas que já
tenham ocorrido, ou que ainda poderão ocorrer um dia. Existem de fato
novas aberturas que se tornam possíveis a partir do deslocamento do
tradicional olhar sobre os modos como os poderes se institucionalizam, de modo a dar origem a formas estatais específicas, para um novo olhar que se
volta para as maneiras como os poderes são exercidos e se legitimam.
Muito habitualmente, fenômenos diversos passam a ser iluminados com
maior propriedade e eficácia a partir de conceitos produzidos por um novo
olhar teórico, sem que mesmo o sistema original precise ser apropriado
integralmente. Realidades como o “mandonismo” ou o “coronelismo”, no
Brasil, podem se tornar mais visíveis a partir de um simples deslocamento
do olhar teórico, ou a partir da proposição de uma nova pergunta – ponta de
lança de uma nova visão de mundo.
Este tipo de teorias, que acima exemplificamos com a diversidade
possível de teorias acerca das “formas políticas”, corresponde precisamente
àqueles constructos teóricos que depois podem ser aplicados a estudos mais
específicos (situações ou processos historicamente localizados),
fornecendo-lhes materiais conceituais. Assim, torna-se possível analisar um
e outro processos históricos específicos à luz da teoria weberiana sobre os
tipos de dominação. De maneira algo similar, de uma teoria mais ampla
sobre as formas de “totalitarismo” ou de “regimes autoritários” (dois
conceitos que cumpre distinguir) parte-se para a construção de uma teoria
mais específica sobre um sistema fascista específico, historicamente
localizado, tal como a ditadura franquista na Espanha, por exemplo 114.