Teoria da História I: Princípios e conceitos fundamentais
3 Campos históricos
territorializam. O conceito de “dialética negativa” tornou-se praticamente
marca registrada dos desenvolvimentos derivados da “Teoria Crítica” e de
outras propostas da Escola de Frankfurt – uma escola filosófica ligada ao
Materialismo Histórico com características muito específicas 130. Mas
existe grande quantidade de conceitos utilizados pelos historiadores que são
polissêmicos. Terry Eagleton registra, em seu livro Ideologia, nada menos
do que dezesseis sentidos de uso mais comum para esse conceito na
atualidade (EAGLETON, 1997: 15)131. A questão da polissemia
conceitual, e também a dos dialetos que se referem a setores no interior de
uma mesma comunidade científica, requerem por vezes o recurso à
“tradução” 132. Um enunciado, perfeitamente transparente para
determinado setor teórico de um campo disciplinar, pode parecer opaco para
outro setor da mesma comunidade científica.
Estes e outros, enfim, são os aspectos que se devem relacionar com vistas
à aplicabilidade, para a Teoria da História, dos conceitos de “Matriz
Disciplinar”, “Paradigma”, “Corrente Historiográfica”, “Escola Histórica”.
É preciso dizer ainda que as escolas históricas, definíveis pelos diversos
aspectos que asseguram a unidade de um grupo e também por questões
identitárias que se estabelecem entre seus componentes, podem se inserir no
interior de um paradigma ou não, e pode mesmo ocorrer que historiadores
de uma mesma escola estejam vinculados a paradigmas distintos 133. O
paradigma pode também abarcar, em alguns casos, diversas escolas, e
podemos lembrar o caso do Historicismo, que encontrou difusão não apenas
na Escola Alemã, como também entre inúmeros outros historiadores, que
por vezes se viram agrupados em diversas escolas historicistas nacionais.
3 Campos históricos
Uma última noção a ser operacionalizada antes de iniciar o estudo mais
amplo da Teoria da História é a de “campo histórico”. Um campo histórico
– que também pode ser entendido como uma “modalidade histórica” ou
uma subespecialidade da História enquanto âmbito disciplinar –
corresponde àquelas subdivisões que começaram a ser idealizadas ou percebidas no interior da História-Disciplina, à medida que a historiografia
foi se tornando cada vez mais complexa. Já desenvolvemos um estudo mais
exaustivo sobre O Campo da História (BARROS, 2004), de modo que aqui
apenas pontuaremos algumas questões, e remeteremos a essa obra para um
estudo mais aprofundado.
A partir do momento em que a historiografia foi se tornando mais
complexa, do século XX em diante, e à medida que o próprio conhecimento
científico foi produzindo “especialidades” nas várias esferas de
conhecimento, também foi ocorrendo o mesmo fenômeno de multiplicação
de espaços intradisciplinares no interior da História. Ao exercer esse “olhar
sobre si” que é, aliás, uma das precondições para o surgimento de uma
Teoria da História, os historiadores precisaram pensar cada vez mais o seu
próprio campo de estudos em termos de modalidades internas. Era preciso,
por assim dizer, organizar e tornar mais inteligível esse enorme espaço de
saberes historiográficos que foi sendo gerado pela expansão da noção de
“fonte histórica”, pela multiplicação dos interesses temáticos dos
historiadores, pela proliferação de diálogos interdisciplinares, pelo acúmulo
de novas metodologias e aportes teóricos, e pela crescente complexidade do
estudo da história, enfim.
A partir do século XX, começamos a ouvir falar cada vez mais em
História Cultural, em História das Mentalidades, em História do Imaginário,
em Micro-História, em História Serial, em História Quantitativa, apenas
para mencionar uma quantidade muito pequena das expressões a partir das
quais os historiadores começaram a pensar o tipo de trabalho que
realizavam dentro da História. O que define cada um destes e de outros
campos pode corresponder desde a um campo específico de fenômenos e
processos que são examinados em primeiro plano pelo historiador, até um
tipo de fonte a ser trabalhada pelo historiador, uma abordagem que
conduzirá necessariamente o trabalho historiográfico, ou um eixo temático
fundamental. A multiplicação de critérios a partir dos quais podem ser
propostas as subdivisões da História – e nem mencionaremos aqui os já
tradicionais critérios de temporalidade que criam divisões como a História
Antiga, a História Medieval ou a História Moderna – parece mergulhar o
ofício do historiador em um complexo oceano de especialidades ou
especializações possíveis. Refletir sobre essa miríade de modalidades que fragmentam o campo de ação do historiador, ou que, sob outra perspectiva,
o enriquecem, tem sido tarefa de historiadores que, nas últimas décadas,
têm se imposto a tarefa de refletir sobre o seu próprio ofício, sobre os
limites e liberdades da disciplina em que seus trabalhos se inscrevem. A
percepção da História a partir de uma dinâmica de modalidades internas é
certamente parte do estudo da Teoria da História, e não é por acaso que nos
últimos tempos têm surgido muitas coletâneas de livros inventariando as
conquistas historiográficas no interior de cada uma destas modalidades134.
A chave para compreender esses vários campos da História, conforme
argumentação que desenvolveremos a seguir, estará em distinguir muito
claramente as divisões que se referem a dimensões (enfoques), as divisões
que se referem a abordagens (ou modos de fazer a História), e as divisões
intermináveis que se referem aos domínios (áreas de concentração em torno
de certas temáticas e objetos possíveis). O Quadro 6 procura registrar essa
complexidade pertinente aos inúmeros campos históricos, e ao mesmo
tempo fornecer uma base mais organizada para a sua compreensão.
Quadro 6. Campos históricos [Quadro já apresentado no livro O campo da
História (2004)]
O primeiro critério gerador de divisões da História em modalidades mais
específicas refere-se ao que chamaremos de dimensões, correspondendo
àquilo que o historiador traz para primeiro plano em seu exame de
determinada sociedade: a Política, a Cultura, a Economia, a Demografia,
assim por diante (Quadro 6, lado esquerdo). Deste modo, teríamos na
História Econômica, na História Política, ou na História das Mentalidades,
campos do saber histórico relativos às dimensões ou aos enfoques
priorizados pelo historiador. Um historiador cultural, por exemplo, constitui
em primeiro plano a noção de cultura, na mesma medida em que um
historiador político estuda o poder nas suas múltiplas formas e um
historiador demográfico orienta seu trabalho em torno da noção de
“população”. Desta maneira, essas modalidades, ao enfatizarem certa
perspectiva da vida social, devem ser mais adequadamente localizadas no
campo das dimensões historiográficas.
Um segundo grupo de critérios para estabelecer divisões no saber
histórico é aquele que chamamos de abordagens, referindo-se aos métodos
e modos de fazer a História, aos tipos de fontes e também às formas de
tratamento de fontes com os quais lida o historiador. São divisões da
História relativas a abordagens a História Oral, a História Serial, a Micro-
História e tantas outras (Quadro 6, parte superior direita). A História Oral,
por exemplo, lida com fontes orais e depende de técnicas como a das
entrevistas; a História Serial trabalha com fontes seriadas – documentação
que apresente um certo tipo de homogeneidade e que possa ser analisada
sistematicamente pelo historiador. A Micro-História refere-se a abordagens
que reduzem a escala de observação do historiador, procurando captar em
uma sociedade aquilo que habitualmente escapa aos historiadores que
trabalham com um ponto de vista mais panorâmico, mais generalista ou
mais distanciado. Também a História Regional poderia ser classificada
como modalidade historiográfica ligada a uma abordagem, no sentido de
que elege um campo de observação específico para a construção da sua
reflexão ao construir ou encontrar historiograficamente uma “região”.
Examinando um espaço de atuação no qual os homens desenvolvem suas
relações sociais, políticas e culturais, a História Regional viabiliza, através
de sua abordagem, um tipo de saber historiográfico que permite estudar
uma ou mais dimensões nessa região que pode ser analisada tanto no que concerne a desenvolvimentos internos, como no que se refere à inserção em
universos mais amplos.
Para além das modalidades relacionadas a dimensões e abordagens,
podemos pensar finalmente nas divisões da História que chamaremos de
domínios, e que se referem a campos temáticos privilegiados pelos
historiadores (Quadro 6, parte inferior direita). Vários domínios da História
têm surgido e mesmo desaparecido no horizonte de saber dessa complexa
disciplina que é a História. Estaremos falando de domínios quando nos
referimos a uma História da Mulher, a uma História do Direito, a uma
História de Sexualidade, a uma História Rural. Os domínios da História são,
na verdade, de número indefinido. Alguns domínios podem se referir aos
“agentes históricos” que eventualmente são examinados (a mulher, o
marginal, o jovem, o trabalhador, as massas anônimas); outros, aos
“ambientes sociais” (rural, urbano, vida privada); outros, aos “âmbitos de
estudo” (arte, direito, religiosidade, sexualidade), e a outras tantas
possibilidades. Os exemplos sugeridos são apenas indicativos de uma
quantidade de campos que não teria fim, e qualquer um poderá começar a
pensar por conta própria as inúmeras possibilidades.
Alguns domínios surgem e desaparecem um pouco ao sabor das modas
historiográficas – motivados por eventos sociais e políticos, ou mesmo por
ditames editoriais e tendências de mercado. Outros surgem quando para eles
se mostra preparada a sociedade na qual se insere a comunidade de
historiadores (por exemplo, uma “História da Sexualidade” dificilmente
poderia ter surgido na Inglaterra puritana, e uma “História da Mulher” não
poderia surgir senão quando, no século XX, a mulher começa a conquistar o
mercado de trabalho e se organizam os movimentos feministas e de
valorização social da mulher). Outros domínios, por fim, são quase tão
antigos quanto a própria História – como é o caso da História Religiosa e da
História Militar – e tendem a ser perenes na sua durabilidade.
Tal como dissemos, os critérios de classificação que estabelecem
domínios da História referem-se primordialmente às temáticas (ou campos
temáticos) escolhidas pelos historiadores. São já áreas de estudo mais
específicas, dentro das quais se inscreverá o objeto de investigação e a
problemática constituídos pelo historiador. A maioria dos domínios
históricos presta-se a historiadores que trabalham com diferentes dimensões históricas, e certamente abre-se às várias abordagens. Mas existem
domínios que têm mais afinidade com uma determinada dimensão, dada a
natureza dos temas por eles abarcados. Assim, a História da Arte ou a
História da Literatura podem ser eventualmente consideradas
subespecialidades da História Cultural (embora se deva chamar atenção
para uma História Social da Arte, ou uma História Social da Literatura, que
não deixam de ser possibilidades dentro da História Social).
De modo análogo, um domínio como o da História das Imagens
(entendida como história das imagens visuais obtidas a partir de fontes
iconográficas, fotográficas etc.) mostra-se não raro como um
desdobramento da História do Imaginário. Mas, bem entendido, uma série
de imagens visuais tomadas como fontes históricas sempre poderá dar a
perceber qualquer das dimensões que discutimos atrás, como a História
Econômica, a História Política, a Geo-história ou a História da Cultura
Material. Pense-se em uma iluminura de Livro de horas, da qual o
historiador lança mão para perceber aspectos da economia rural no ocidente
medieval, suas representações políticas, as relações do homem medieval
com seu meio natural ou traços da cultura material; ou pense-se em uma
pintura impressionista utilizada para captar aspectos da História Social na
Belle Époque; ou ainda nas cerâmicas gregas utilizadas para levantar
aspectos da História Política da Atenas da Antiguidade Clássica. Mas de um
modo ou outro, em todos esses casos sempre estará ocorrendo um diálogo
da História do Imaginário com uma dessas outras dimensões.
Também a História das Representações, por motivos análogos, sempre
terá intimidade com o campo definido como História do Imaginário,
embora também se abra a uma História das Mentalidades e certamente à
História Cultural. Já a História do Cotidiano, ou a História da Vida Privada,
abrem-se a inúmeros campos de enfoques para além da História das
Mentalidades, como a História da Cultura Material, a História Social a
História Econômica ou a História Política (neste último caso, focando a
questão dos micropoderes). Raciocínio análogo pode ser encaminhado para
outros domínios igualmente abertos, como a História das Religiões ou a
História da Sexualidade.
Conforme vemos, os domínios tendem a ser englobados por uma
dimensão (são poucos os casos) ou então partilhados preferencialmente por duas ou mais dimensões. Mas é possível ainda que algum campo que hoje
esteja sendo tratado como “domínio”, mas que possua uma abrangência em
potencial, possa vir a transformar-se futuramente em uma “dimensão”. A
História da Sexualidade tem sido pouco estudada em relação à importância
da sexualidade para a vida humana na concretude diária, e é talvez isto o
que lhe dá um status de domínio. Mas seguramente esta poderia ser vista
como uma dimensão historiográfica tão basilar e fundamental como a
Economia, a Política ou as Mentalidades. O que ocorre é que estas não
apenas são dimensões significativas que definem a vida humana, elas
constituem na verdade “macrocampos”, ou tornaram-se “macrocampos”
devido à atenção que lhes prestaram os historiadores e outros pensadores.
Vale lembrar ainda que, quando falamos em uma dimensão
historiográfica, teremos sempre em conta aquilo que, de modo irredutível, é
intrínseco da vida humana, inseparável e não casual em nenhuma instância.
Ao nascer, um ser humano já se encontra automaticamente inscrito em uma
determinada relação com a sociedade. Poderá modificar suas relações
sociais com o passar do tempo, menos ou mais rapidamente. Mas, para o
seu próprio existir em uma coletividade, sempre deverá desenvolver
relações sociais. Isto significa que, queira ou não queira, qualquer ser
humano, com a exceção do eremita que habita uma ilha deserta, estará
mergulhado até à medula nesta dimensão que é a História Social. E, mesmo
quanto ao Eremita, pode-se dar que – a não ser que tenha nascido na ilha
deserta – esteja mergulhado em uma História Social através de suas
lembranças acerca de quando vivia em sociedade, e pode mesmo se dar que
a sua decisão pessoal de se ter tornado eremita tenha sido resultado de
relações sociais específicas contra as quais reagiu um dia. Do mesmo modo,
ao se relacionar com outros homens, qualquer ser humano irá afetar e ser
afetado por poderes de todos os tipos. A Política, em sentido amplo, será
sempre inseparável do seu existir e, portanto, uma História Política, quer ele
deseje ou não, termina também por constituí-lo. Esse mesmo ser humano
também estará sempre produzindo Cultura em suas relações com os homens
e com a natureza. Ele não pode apagar isso de sua existência: ao iniciar um
simples movimento ou a produzir um simples gesto estará automaticamente
produzindo cultura. A História Cultural, essa dimensão incontornável,
inscreve-se indelevelmente nos seus menores gestos.
Por outro lado, em que pese que boa parte dos seres humanos possua
alguma forma de religião – a verdade é que, no limite, pode-se imaginar
perfeitamente um homem, ou até uma humanidade, sem religião. A religião
é uma contingência da vida humana, embora uma contingência perene,
duradoura, e que pode mesmo se eternizar – mas não é propriamente
intrínseca à natureza humana, e é esta uma das razões pelas quais podemos
classificar a História da Religião como um domínio, e não como uma
dimensão. Do mesmo modo, em que pese que metade dos seres humanos
seja do sexo feminino, e que uma boa parte da humanidade seja constituída
de jovens, não será adequado classificar a História das Mulheres ou a
História dos Jovens senão como domínios, e um raciocínio similar poderia
ser formulado para a História Rural ou para a História Urbana, apenas para
mencionar alguns dos domínios mais abrangentes, já que para os domínios
mais específicos o seu nível de restrição e contingência torna-se ainda mais
evidente (por exemplo, a História da Loucura, a História do Direito, a
História da Arte, a História dos Marginais, a História do Vestuário, e
inúmeros outros imagináveis). De igual maneira, uma História da Doença
não pode ser senão um domínio historiográfico, e não uma dimensão, uma
vez que estamos aqui falando em uma circunstância da vida humana (“estar
doente” ou “ter saúde” são circunstâncias que se alternam na vida
individual de qualquer ser humano).
As fronteiras entre as modalidades historiográficas produzidas a partir
dos três critérios – dimensões, abordagens e domínios – são por vezes
ambíguas e interpenetrantes, mas de todo modo constituem um problema
teórico bastante interessante. Por outro lado, apesar da vertiginosa
multiplicação contemporânea de modalidades internas ao saber
historiográfico, é preciso neste momento tocar em uma questão de máxima
importância para a historiografia de nossos dias, considerando que esta
presentemente luta contra crises provocadas por fragmentações diversas em
relação ao tipo de conhecimento que é produzido pelos historiadores. Na
verdade, os “campos históricos”, ou as modalidades da história, não devem
ser vistos como compartimentos nos quais se situariam os historiadores, ou
mesmo seus trabalhos mais específicos. Para utilizar uma imagem
emprestada à Física, diremos que os “campos históricos” são como campos
de força que se interconectam em função de uma pesquisa ou reflexão historiográfica que está sendo produzida por determinado historiador em
um momento específico. Os “campos históricos”, ou aquilo que se produz
na interconexão entre eles, são espaços de interatividade, dimensões nas
quais se operam os diálogos historiográficos. Nada mais danoso para o
conhecimento histórico do que a hiperespecialização de um historiador, que
passe a trabalhar ou a se definir em termos de um único campo histórico.
Em confronto contra essa prática, o fato é que os diversos trabalhos e
pesquisas historiográficos não se realizam no interior de um só campo da
história, como a História Econômica ou a História Cultural. Os temas
historiográficos examinados pelos historiadores, e também os modos de ver
e de tratar metodologicamente com esses temas, chamam para si uma certa
conexão de “campos históricos”. Digamos, por exemplo, que um
determinado historiador esteja estudando as “canções de protesto no
período da Ditadura Militar no Brasil (1965-1985)”. Um tema como este –
ao tratar de Música, de Poesia e de Cultura Popular – parece inscrever-se de
imediato no âmbito da História Cultural. Contudo, se pretendemos
investigar o papel das canções de protesto na crítica do Regime Militar, não
podemos deixar de pensar também na História Política. Duas dimensões, a
História Cultural e a História Política, são chamadas aqui a uma
interconexão, sem contar o domínio da História da Música, que também
deve ser evocado. Contudo, se a pesquisa pretende ser desenvolvida
principalmente a partir de entrevistas com agentes históricos que
vivenciaram aquele período (os músicos, os censores, o público, os diversos
profissionais da indústria cultural, os críticos musicais), estaremos
necessariamente chamando para o nosso estudo um outro campo histórico,
que é a “abordagem” da História Oral – uma modalidade da história que
pode ser definida pelo trabalho específico com a “memória” dos agentes
históricos que vivenciaram determinados processos histórico-sociais, e pela
utilização de metodologias específicas, como a das entrevistas.
Qualquer exercício de imaginar que “campos históricos” estariam sendo
evocados por determinado trabalho historiográfico que está sendo realizado,
ou que está em vias de começar a ser realizado, pode conduzir-nos a
raciocínios análogos. Os “campos históricos” não são prisões para os
historiadores, mas meios para que possam ser estabelecidos certos diálogos
– diálogos no interior da história, quando são colocados em conexão dois ou mais “campos históricos”, ou diálogos “interdisciplinares”, que são aqueles
produzidos pelas relações da História com outras modalidades de saber
como a Antropologia, a Economia, a Psicologia, a Linguística, a Geografia,
e inúmeros outros âmbitos de conhecimento.
Conhecer mais a fundo um determinado “campo histórico” deve ser
visto, na verdade, como uma oportunidade de evocar toda uma
historiografia já realizada em diálogo com aquele campo. Os campos
históricos não devem ser tratados como compartimentos, como “lotes” nos
quais se divide a história. Devem ser compreendidos como dimensões,
abordagens e domínios que se interpenetram. O que possibilita a conexão
de certos campos históricos, em um momento específico que é o da
realização da pesquisa e da reflexão historiográfica, é o objeto de estudo
constituído pelo historiador. É esse objeto de estudo que chamará a si certas
possibilidades de conexões entre os campos históricos.
A noção de “campo”, de modo a ser explorada em toda a sua riqueza no
que concerne às possibilidades de seu emprego com vistas a uma reflexão
sobre as modalidades internas da História, pode dialogar diretamente com
seus dois sentidos possíveis. “Campo” pode remeter a “espaço físico”, a um
lugar no qual se organiza algo ou dentro do qual se dão determinados
embates e alinhamentos; mas, de outra parte, a mesma palavra “campo”
também pode reenviar ao sentido quântico, ao “campo de forças”.
O uso metafórico de “campo” como “espaço físico” pode ser antes de
mais nada evocado, tal como o fez Pierre Bourdieu (1930-2002) 135, para se
referir a uma disciplina específica como o campo dos estudos e da produção
literária136 – ou também, em nosso caso, a História, aqui entendida como
lugar de produção de uma forma específica de conhecimento que é levada a
cabo pelos historiadores. Existe, neste sentido mais amplo, um “Campo da
História” que se apresenta como espaço disciplinar no qual se movimentam
intelectualmente os historiadores através de suas obras, e no interior do qual
se estabelece a “Matriz Disciplinar da História” ditando suas regras
mínimas e aquelas práticas consensuais que unificam todos os
historiadores 137. É assim que, como qualquer outro “campo disciplinar”, o
Campo da História pode ser visto metaforicamente como uma complexa
Arena no interior da qual se alinham e se enfrentam virtualmente os diversos historiadores, com suas múltiplas e cambiantes posições
relacionadas às várias temáticas pertinentes ao seu universo de estudos, e
também com seus modos específicos de considerar o seu próprio ofício de
historiadores.
De igual maneira, nesse espaço “físico”, que é o Campo da História, são
produzidos os vários paradigmas e correntes teóricas (o Positivismo, o
Historicismo, este ou aquele Materialismo Histórico, esta ou aquela leitura
sobre as possibilidades de aplicar o modelo de Max Weber ao estudo da
história), ao mesmo tempo em que também são gerados os inúmeros
“campos históricos” que correspondem às modalidades internas da História
– a História Política, a História Cultural, a História Oral, a História da
Música, e tantas quantas se possa imaginar. Mas aqui – quando estivermos
nos referindo não mais a um “Campo da História”, e sim aos diversos
“campos históricos” – o conceito de “campo” já estará sendo mais bem
empregado no sentido de “campo de força”, porque então poderemos
compreender que na verdade vários “campos históricos” confluem para
favorecer a visibilidade ou, mais propriamente, a constituição de um
determinado objeto historiográfico – a “História das canções de protesto no
período da Ditadura Militar de meados dos anos 1960 aos meados dos anos
1980”, por exemplo 138.
Podemos encontrar na conferência de Pierre Bourdieu sobre Os usos
sociais da Ciência (1997) uma genial passagem na qual o sociólogo francês
reenvia a Einstein uma metáfora sobre o “espaço físico” que um dia foi
concretizada pelo célebre cientista:
Os agentes [que se estabelecem ou circulam no interior de um campo] – por exemplo, as empresas no caso do campo econômico – criam o espaço, e o espaço só existe (de alguma maneira) pelos agentes e pelas relações objetivas entre os agentes que aí se encontram. Uma grande empresa deforma todo o espaço econômico conferindo-lhe uma certa estrutura. No campo científico, Einstein, tal como uma grande empresa, deformou todo o espaço em torno de si. Essa metáfora “einsteiniana” a propósito do próprio Einstein significa que não há físico, pequeno ou grande, em Brioude ou em Harvard que (independentemente de qualquer contato direto, de qualquer interação) não tenha sido tocado, perturbado, marginalizado pela intervenção de Einstein, tanto quanto um grande estabelecimento que, ao baixar seus preços, lança fora do espaço econômico toda uma população de pequenos empresários (BOURDIEU, 2003: 23).
Iremos ainda mais longe, emprestando talvez uma certa tonalidade
foucaultiana a essas considerações de Bourdieu, para sugerir que não apenas um grande físico modifica a Física com sua genial contribuição, mas
que, na verdade, qualquer praticante de um determinado campo de
conhecimento já o modifica de alguma maneira, mesmo que de forma
indelével, no momento em que adentra o campo disciplinar. Assim, o mais
humilde dos estudantes-pesquisadores de Iniciação Científica já está
modificando a História no momento mesmo em que se introduz no seu
estudo, e isto ocorre porque a História é um campo disciplinar produzido
coletivamente, pela integração de todas as contribuições que nela se
inscrevem. Interferem no “Campo da História” mesmo os leitores de
História – pois o fato é que é muito diversificada a população de
interessados no conhecimento ou nos discursos produzidos pelos
historiadores. O mundo dos leitores, conforme ressaltou certa vez Paul
Ricoeur (1982), reconfigura a própria História. No limite, podemos dizer
que, sempre que alguém abre um livro de história, já está interferindo, ainda
que de maneira indelével e imperceptível, no próprio campo disciplinar da
História 139.
Afora a noção mais ampliada de “Campo da História”, que coincide com
o próprio universo dessa disciplina frequentada pelos historiadores e cujos
resultados podem ser apreendidos por todos os tipos de leitores, interessa-
nos em maior detalhe a noção mais restrita de “campo histórico”. O
“Campo da História” produz no seu interior inúmeros “campos históricos”,
uns em conexão com outros. A configuração dos “campos históricos”, no
interior da disciplina História, está em perpétua mutação. O que hoje se
mostra uma conexão possível entre determinados “campos históricos”, com
vistas a abordar determinado objeto de estudo ou a percorrer certa temática,
pode não ter sido, em outro momento da história da historiografia, uma
conexão possível. Esta ou aquela modalidade historiográfica que hoje é tão
visitada pelos historiadores, e que desperta tanto interesse da parte dos
leitores, pode ter sido marcada em outro momento por um interesse
secundário, inexistente, ou ter sido mesmo proibida. Um certo “campo
histórico” pode não ter feito parte da imaginação possível dos historiadores
de determinada época. Quem imaginaria uma “História das Mulheres” no
século XVI, ou mesmo até o século XIX?
O Campo da História – assim como qualquer outro campo científico ou
artístico – é reconfigurado por dentro e por fora. Pierre Bourdieu, em sua teoria geral dos campos, define o “campo” como um espaço relativamente
autônomo – “um microcosmo dotado de suas próprias leis” (BOURDIEU,
2003: 20). Mas, ao mesmo tempo, ressalta que é preciso guardar distância
de certa tradição analítica que “descreve o processo de perpetuação da
ciência como uma espécie de partenogênese: a ciência engendrando-se a si
própria, fora de qualquer intervenção do mundo social” (BOURDIEU,
2003: 20). Michel de Certeau (1973) já demonstrou brilhantemente que a
História está inscrita em um “lugar de produção”. A comunidade dos
historiadores, suas instituições, suas demandas, sua escrita, interferem
diuturnamente na reconfiguração do Campo da História. Mas também as
demandas externas têm o seu lugar. A “História Demográfica”, como novo
“campo histórico” que se afirma mais intensamente nos anos 1950, não o
faz senão em um contexto assinalado pelo preocupante crescimento
populacional que se torna a marca do século XX. A emergência da
“História Comparada”, proposta como abordagem por Marc Bloch nos anos
1920, acompanha a decepção de certos setores da intelectualidade europeia
frente aos nacionalismos exacerbados que haviam levado o mundo à
Primeira Grande Guerra: romper as amarras das histórias nacionais,
voltadas para o estudo de um único país, parece ter se mostrado ao
historiador francês como um caminho que poderia ser experimentado por
aquele novo “campo histórico” que pretendia comparar dois recortes
historiográficos distintos, duas sociedades, duas realidades em iluminação
recíproca140. Motivações similares diante dos horrores das Guerras
Mundiais também teriam levado Spengler (1918) e Arnold Toynbee (1934-
1961) a retomar o “campo histórico” da “História das Civilizações”, que
estava um pouco esquecido desde fins do século XIX. E o próprio
crescimento da “História Local” também constitui uma nova alternativa às
antigas “histórias nacionais”, recortando no espaço uma “região” que pode
ou não se situar inteiramente dentro de uma realidade nacional
específica141. Os “campos históricos”, enfim, redefinem-se a partir desta
complexa dialética que se instaura entre o interior e o exterior do Campo da
História142.
Para além dos “campos históricos” atrás definidos em termos de
“dimensões”, “abordagens” e “domínios”, e ao lado da intrincada rede de conexões que estes estabelecem, é importante lembrar, ainda, que a História
tem sido também dividida, tradicionalmente, de acordo com
“espacialidades” e “temporalidades”. O critério das Temporalidades gera
modalidades como a História Antiga, História Medieval, História Moderna,
História Contemporânea. O critério das Espacialidades gera modalidades
como a História Europeia, a História da América, a História da África, a
História do Brasil, ou as inúmeras histórias de realidades nacionais
específicas. Uma ampliação da escala de observação espacial, em direção
ao supranacional, pode gerar a História das Civilizações (se incorporarmos
o conceito de “civilização”), ou, se pensarmos apenas em termos de um
agregado planetário, um âmbito mais vasto denominado “História
Universal”. Outras divisões relacionadas à espacialidade também podem ser
pensadas, como a “História do Ocidente” ou “História do Oriente”
(conceitos que sempre precisam ser problematizados, pois bem que poderia
ser pensada uma “História do Hemisfério Sul” por oposição a uma “História
do Hemisfério Norte”, se olhássemos para o planeta de acordo com uma
outra leitura geopolítica). Por fim, é possível combinar “temporalidades” e
“espacialidades” para gerar denominações específicas de modalidades
históricas, como a “História da América Antiga”, a “História do Brasil
Império”, ou a “História do Brasil República” (Quadro 7).
Naturalmente que a combinação dos critérios da Espacialidade e da
Temporalidade gera dilemas e problemas teóricos interessantes, nem
sempre fáceis de resolver. Como situar a História do Império Romano, se
este, em sua fase de maior expansão, abrangeu vastas regiões da Europa,
Ásia e África? De igual maneira, o domínio grego, no período do apogeu
militar das ligas Ateniense e Espartana, estendeu-se pela Europa e pela Ásia
Menor, o que também inspira dilemas análogos 143. Há ainda outras
questões teóricas interessantes: embora a História Europeia possa gerar as
tradicionais divisões da História Antiga, da História Medieval, da História
Moderna e da História Contemporânea, a História da América não se
adéqua bem a esta tábua de leitura, uma vez que não há uma diferença
plausível entre uma América Antiga e outra América Medieval que faça
qualquer sentido para as sociedades que existiam no período pré-
colombiano. De modo geral, denomina-se como “História da América
Antiga” a todo o período da História da América que precede a colonização europeia a partir da chegada dos espanhóis, dos portugueses, e depois dos
ingleses. A série de “Histórias do Brasil”, em contrapartida, também tem as
suas especificidades. Prefere-se dividi-la de acordo com sua situação no
quadro político externo e interno: um “Brasil-Colônia”, um “Brasil
Império” já independente, e um “Brasil República”. Polêmicas conceituais
também podem ocorrer quando estendemos para trás o olhar acerca de uma
determinada realidade nacional. O Brasil do período colonial era já
“Brasil”, ou seria melhor chamá-lo de “América Portuguesa”?144
Quadro 7. Modalidades da História por espacialidade e temporaliodade:
alguns exemplos
Deve-se entender, antes de tudo, que os diversos critérios de divisão
temporal, que hoje nos são tão familiares e corriqueiros a ponto de os
discutirmos muito pouco, são eles mesmos históricos. Mais ainda, nem
sempre foram tão gloriosos os começos de todos os “conceitos” que
ocupam lugar de honra na Teoria da História. A “Idade Média”, por
exemplo – uma modalidade temporal da História que tem sido universo de
dedicação de alguns dos mais renomados historiadores, tais como Marc
Bloch, Georges Duby e Jacques Le Goff – traz na sua designação uma
história à qual não faltaram as imposições depreciativas. Houve uma época
em que a expressão “tempos médios” era empregada pela História
Teológica para designar um momento da história mundana que já se
demorava na sua função de preceder os “finais dos tempos”, estes nos quais
um novo mundo se abriria definitivamente para os seres humanos
considerados dignos da salvação, ao passo em que outros tantos
mergulhariam na danação eterna. Mas depois, com o Humanismo que
começa a emergir na Itália da época de Petrarca (1304-1374), os “tempos
médios” vão designar esse longo período “bárbaro” e “sombrio” que
parecia se interpor de maneira incômoda entre o glorioso modelo da
Antiguidade Clássica e os novos tempos humanistas que o queriam
recuperar no trecento italiano145. Mas rigorosamente falando, tal como
assinala Reinhart Koselleck (2006: 271), parece ter sido Christoph Cellarius
(1639-1707), em um manual escrito em 1685, um dos primeiros a já
consolidar o uso da expressão “idade média” como designativo de uma das
divisões da História Universal (1696), em uma obra que teve tanta
repercussão que em 1753 já tinha atingido a sua 11ª edição 146. A partir daí,
“o conceito de Idade Média generalizou-se no século XVIII dos iluministas
– quase sempre em sentido pejorativo – para transformar-se, no século XIX,
em um topus fixo da periodização histórica” (KOSELLECK, 2006: 271).
Esses exemplos em torno da trajetória de uma designação que percorre
sentidos vários – entre outras investigações de trajetórias semânticas que
poderiam se referir à “Idade Antiga”, “Idade Moderna”, “Idade
Contemporânea”, “Modernidade”, “Pós-Modernidade” – mostram
claramente a historicidade dos próprios conceitos e categorias utilizados
para abordar a questão mesma da “historicidade”147. Nesse quadro de
problemas teóricos, ocupam lugar de destaque as intrincadas polêmicas
sobre os limites que separam determinadas temporalidades. Quando se
encerra a Idade Antiga e inicia-se a Idade Medieval? De acordo com as
distintas teorias sobre a desagregação, desarticulação, queda, declínio ou
transformação cultural do Império Romano, as datas ou períodos de
separação ou transição entre uma época e outra podem oscilar
historiograficamente de modo considerável, e já foram propostas
interpretações que sinalizam a passagem de um para outro período em
momentos diversificados no interior de um período de consideráveis
extensões que vai do século II ao VIII. Novos conceitos também podem surgir dessas oscilações interpretativas: a “Antiguidade Tardia” pode se
estender Idade Média adentro, disputando territórios historiográficos com a
“Alta Idade Média” 148.
Também são ambíguas as fronteiras entre a Idade Média e a Idade
Moderna 149, e ainda mais aquelas que podem ser estabelecidas ou
propostas entre a Idade Moderna e a Idade Contemporânea150. De igual
maneira, quando pensamos no mundo contemporâneo, que período
estaríamos vivendo agora, nesta era tão peculiar que se inicia nas últimas
décadas do século XX e que adentra o novo milênio: uma Idade Pós-
industrial?, um período Pós-moderno?, uma fase avançada do Capitalismo
Tardio? Surgirá um dia a “História Pós-Moderna”? À medida que
avançarmos para o futuro, será necessário redefinirmos toda a tábua
tradicional de leitura habitualmente aceita para as temporalidades históricas,
já que a “história contemporânea” de hoje será do passado, da mesma forma
que a “história moderna” já não é mais moderna? A largas pinceladas, será
útil rediscutir as modalidades temporais da História em termos de uma
“História da Era Agrícola”, uma “História da Era Industrial”, e a mais
recente “História da Era Digital”?
As subdivisões da História sempre geram problemas teóricos a serem
resolvidos. Será desnecessário lembrar que a organização da História por
modalidades internas que combinam os critérios da “espacialidade” e da
“temporalidade” constituem apenas recursos para organizar o trabalho
historiográfico em um primeiro momento, mas não são grilhões ou
compartimentos para aprisionar os objetos históricos, que inúmeras vezes
não correspondem aos espaços nacionais rigidamente estabelecidos, ou
balizas temporais inflexíveis 151.
O conceito de “campo histórico”, de todo modo, seja no que se refere ao
circuito de conexões anteriormente discutido (dimensões, abordagens e
domínios), ou seja no que se refere à combinação dos critérios de
espacialidade e temporalidade, é o último que aqui evocamos para um
estudo mais sistemático e consistente da Teoria da História. Precisaremos
desse conceito para melhor compreendermos os encaminhamentos da
historiografia contemporânea, o mesmo se dando com os conceitos de
“paradigma”, “matriz disciplinar”. “escola histórica”, “Filosofia da História”, ou com as três acepções possíveis da noção de Teoria da História