Teoria da História I: Princípios e conceitos fundamentais

José D'Assunção Barros · Capítulo 10 de 18

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Teoria da História I: Princípios e conceitos fundamentais

2 Três outras definições importantes: Escola Histórica, Paradigma, Matriz Disciplinar

Quadro 5. Conceitos basilares para o estudo da Teoria da História

 

Avançaremos, a seguir, por novos conceitos que consideramos basilares

para uma reflexão sobre a Teoria da História: “matriz disciplinar”,

“paradigma”, “escola histórica”, “campo histórico”. Essas noções nos

ajudarão a entender a História como campo específico de produção de

conhecimento. O Quadro 5 apresenta, visualmente, esse conjunto de

conceitos. No topo teremos a já discutida noção de Teoria da História (1)

naquele sentido mais abrangente, que é aquele que a tudo abarca, em termos

de instrumentos teóricos e de modos de “ver”, a História e o mundo

histórico. Em seguida, no sentido horário, descemos a um nível menor de

abrangência quando pensamos em uma “matriz disciplinar da História” –

que corresponderá aos elementos e pressupostos mínimos que constituem a

História (historiografia) em uma determinada época, de acordo com o

consenso de todos (ou de quase todos) os historiadores de um mesmo

período (o conceito será discutido mais adiante). Uma “matriz disciplinar”

pode abarcar, em seguida, ao que estaremos conceituando como

“paradigmas historiográficos” (conceito também discutido a seguir). No

interior dos paradigmas, ou mesmo entre eles, por outro lado, surgem

inúmeras “teorias da história” (2) no sentido mais restrito (o Materialismo

Histórico que se subdivide em uma certa variedade de modelos marxistas,

por exemplo), e também podem surgir “teorias históricas” (3) que se

referem a fenômenos ou processos históricos específicos. Por fim, as

“escolas históricas” e os “campos históricos”, que também serão discutidos

conceitualmente, completam o conjunto de noções fundamentais para que

nos movimentemos mais confortavelmente no universo mais amplo da

Teoria da História.

 

2 Três outras definições importantes: Escola Histórica,

Paradigma, Matriz Disciplinar

 

As teorias da história, bem como as diversificadas metodologias

empregadas pelos historiadores na sua prática profissional, têm-se

propagado de diversos modos na história da historiografia. Para melhor

compreendermos as formas de propagação da Teoria da História no mundo dos historiadores, será útil refletirmos aqui sobre dois conceitos importantes

– o de “escola historiográfica”, e o de “paradigma científico”.

Uma “Escola” – fora a noção mais vulgar que se refere a instituições de

ensino – pode ser entendida no sentido de uma “corrente de pensamento”,

sempre que ocorre um padrão ou programa mínimo perceptível no trabalho

de um grupo formado por um número significativo de praticantes de

determinada atividade ou de produtores de certo tipo de conhecimento. É

ainda importante que haja uma certa intercomunicação entre esses

praticantes e a constituição de uma identidade em comum, frequentemente

também ocorrendo a consolidação de meios para a difusão das ideias do

grupo, como é o caso de revistas especializadas controladas por seus

membros ou programas veiculados em mídias diversas. Será importante

entender ainda que as “escolas” podem apresentar uma referência

sincrônica – relacionada a autores ou praticantes de uma mesma época – e

uma referência diacrônica, no sentido de que a “Escola” pode se estender no

tempo e abarcar sucessivas gerações, ou ser por elas reivindicada.

A Historiografia, no decorrer de sua própria história, conheceu muitas

escolas históricas (BOURDÈ & MARTIN, 2000). Algumas eram

entendidas como “escolas” pelos seus próprios praticantes, outras foram

classificadas como escolas independentemente de seus componentes. Uma

boa parte das “escolas históricas” até hoje conhecidas relacionaram-se a

espacialidades específicas, não raro se referindo a países a que pertenciam

os historiadores que nelas se viram incluídos. É assim que, no século XVIII,

conhecemos a “Escola Escocesa”, que se referia a eruditos iluministas

atuantes na Escócia, tais como Adam Fergusson, John Millar ou David

Hume, e que estavam unidos por uma certa concepção naturalista da

história. No século XIX, podemos lembrar a “Escola Alemã”, que reunia

historiadores alemães ligados ao paradigma historicista, e, no século XX,

podemos falar em uma “Escola Marxista Inglesa”, que reunia historiadores

marxistas do Reino Unido que se vinculavam à Revista Past and Present e

que propunham certas renovações no corpo teórico-prático do Materialismo

Histórico. A base comum de uma escola histórica em torno de uma revista,

aliás, foi bastante comum na história da historiografia. Podemos lembrar o

movimento que ficou conhecido como Escola dos Annales, congregando

historiadores franceses do século XX que tiveram como principal instrumento de divulgação de seu trabalho a revista de mesmo nome, ou,

ainda, a Escola Metódica, que reunia historiadores também franceses

através da 115 Revue Historique. Muitos também enxergam como uma

escola os historiadores ligados à micro-história italiana, que apresenta uma

base nos Quaderni Storici, embora neste caso os próprios historiadores

envolvidos não se vejam desse modo 116.

Para que se tenha uma escola histórica é preciso, desta maneira, que haja

certo padrão ou linguagem comum entre seus participantes, ou outro

elemento qualquer que seja forte o suficiente para estabelecer uma unidade

– o que pode se dar através do Método, de uma determinada perspectiva

teórica, de uma certa maneira de entender a História, ou do pertencimento a

determinado paradigma historiográfico. Pode-se falar ainda, para

caracterizar uma Escola, em um “programa” em comum, para utilizar uma

expressão de Andrés Burguière em um artigo de 1979 sobre “O nascimento

dos Annales”.

Nem sempre é fácil encontrar elementos em comum quando se discute o

trabalho de um grupo de historiadores vinculados a uma Revista ou

Instituição: discute-se, por exemplo, se a chamada “Escola dos Annales” era

mesmo uma escola (BURKE, 1990), se constituía um “movimento

historiográfico”, se chegou a apresentar algo que poderia ser entendido

como um “novo paradigma historiográfico” (STOIANOVICH, 1976), ou se

na verdade abrigava dois ou mais paradigmas (IGGERS, 1988: 31). Há

mesmo os que rejeitam a ideia de que a Escola dos Annales teria produzido

o tão propalado corte na historiografia francesa, como é o caso de Jean

Glénisson, que, em um ensaio de 1965 sobre a Historiografia Francesa

Contemporânea, chega a falar de uma “tranquila evolução” da

historiografia francesa “desde cem anos” (p. X-XI).

De todo modo, apesar das habituais dificuldades classificatórias, o

espírito de grupo que determinados historiadores terminam por constituir,

trabalhando para uma finalidade comum, frequentemente é forte o

suficiente para que se crie a ideia de uma Escola. Marc Bloch e Lucien

Febvre, à parte certos pontos em comum que se referiam às críticas contra a

historiografia francesa tradicional representada pelos metódicos,

apresentavam influências e estilos historiográficos distintos, mas isto não impediu que erigissem um dos movimentos mais bem-sucedidos da

historiografia contemporânea. Sua unidade – além de estratégias bem

calculadas para a conquista de um espaço institucional – foi assegurada por

um programa mínimo, em torno da ideia da “interdisciplinaridade”, da

multiplicação de interesses historiográficos para além do “político”, e da

necessidade de opor radicalmente uma “História-Problema” a uma

historiografia que consideravam factual. Mas a verdade é que, no interior

desses parâmetros, os historiadores dos Annales desenvolveram

diversificadas formas de trabalho.

Outro aspecto importante a ressaltar é que, face ao sucesso ou projeção

de certo grupo que se tenha constituído ou se tornado conhecido como uma

Escola, não raramente surgem os herdeiros, os que se postulam como

continuadores da escola em questão, mesmo que já tenham se distanciado

dos aspectos que unificavam a escola historiográfica na sua origem. Não

raro se estabelecem polêmicas acerca da continuidade ou descontinuidade

de um determinado grupo de historiadores em relação a outro grupo anterior

que seja evocado como elemento identitário importante. Podemos dar o

exemplo da notória polêmica sobre a continuidade ou descontinuidade entre

o arco que abrange as duas primeiras gerações da chamada Escola dos

Annales (1930-1968), e a chamada Nouvelle Histoire, que reúne novos

historiadores franceses em torno da mesma Revista dos Annales que um dia

fora fundada por Marc Bloch e Lucien Febvre. Os historiadores ligados à

Nouvelle Histoire seriam mesmo legítimos herdeiros dos Annales – tal

como propõe Peter Burke em seu livro A Escola dos Annales – Revolução

Francesa da Historiografia (1990) – ou, tal como propõe François Dosse,

há muito mais uma ruptura entre a Escola dos Annales e esta outra corrente

que, a partir das últimas décadas do século XX, tende a desenvolver o que

foi por muitos chamado de Uma história em migalhas (DOSSE, 1987)? Se

a polêmica existe, o que se percebe é que o gesto de se autoinscrever em

uma Escola Histórica também está frequentemente relacionado a

mecanismos formadores de identidade, à imagem que determinado grupo

pretende projetar de si mesmo. Os próprios historiadores da Nouvelle

Histoire tendem a reforçar esse vínculo com as gerações de Marc Bloch e

de Braudel (NORA & LE GOFF, 1974). Eis aqui um exemplo de que o pertencimento a uma escola é também uma construção da qual podem

participar os próprios sujeitos envolvidos.

Outro conceito importante para contrapor ao de “Escola” é o de

“Paradigma”. Em um ensaio de 1962 sobre a Estrutura das Revoluções

Científicas, que alcançou extraordinário sucesso, o físico e historiador da

ciência Thomas Kuhn (1922-1996) define o que seria um “paradigma” na

História das Ciências. À parte o sentido filosófico, que se refere a um

modelo de tratamento com relação a determinado aspecto ou questão

singularizados, Kuhn define o paradigma – no sentido sociológico, que é o

que estará mais interessando aqui – como “conjunto de crenças, valores e

técnicas comuns a um grupo que pratica um mesmo tipo de conhecimento”.

É verdade que Kuhn priorizava em sua análise as ciências exatas e naturais

e, por vezes, refere-se ao paradigma como uma espécie de macroteoria,

marco ou perspectiva que se aceita de forma geral por toda a “comunidade

científica” relacionada a determinado campo de saber (por exemplo, a

Física, a Química, ou a Astronomia). A análise funciona particularmente

bem para o caso de boa parte da história da Física – que apresentou um

grande paradigma dominante desde Newton e até a emergência de novos

paradigmas no século XX – ou para a Astronomia, a Química, e outros

campos.

Para Kuhn, um paradigma sempre apresenta o interesse de criar e

reproduzir condições para ampliar o conhecimento, respondendo aos

problemas que são colocados pela sua época. Na verdade, as próprias

definições dos problemas ou dos tipos de problemas que a ciência deve

resolver fariam parte do paradigma. De todo modo, até certo momento de

seu desenvolvimento, o paradigma vigente parece se mostrar apto a resolver

todos os problemas que são considerados pertinentes e dignos de atenção

pela comunidade científica. A certa altura, contudo, o paradigma depara-se

com seus próprios limites, e começa a se apresentar como inadequado.

Quando o paradigma não é mais capaz de resolver todos os problemas, que

podem persistir ao longo de anos ou mesmo séculos, ele é gradualmente

posto em xeque, porque se começa a questionar se ele constitui mesmo o

“marco” mais adequado para a resolução de problemas ou se deveria ser

abandonado. O paradigma, naturalmente, tende a resistir ferrenhamente,

ancorado em suas pretensões monopolistas, antes de se resignar a um solene retiro para o cemitério das ideias mortas. Mas isto cedo ou tarde ocorrerá

com o paradigma que já não responde às perguntas de seu tempo, as

mesmas que se acumulam sobre o seu céu conceitual como pesadas nuvens

de uma tempestade que se anuncia 117. Nesses momentos, em que se

estabelece uma “crise paradigmática”, ocorreria a proliferação de novos

paradigmas que competiriam entre si até que um conseguiria se impor como

o enfoque mais adequado, produzindo-se então uma Revolução Científica.

Desde já, é importante salientar que Thomas Kuhn mostra-se ciente da não

homogeneidade dos campos de saberes, uma vez que se expressa em termos

de que seria impingida, ao praticante que adentra o seio da comunidade

científica, uma certa formação que se constrói em torno de “uma falsa ideia

de linearidade da evolução de seu respectivo campo especializado” 118.

Na História e nas Ciências Humanas, há necessidade de maior ajuste ou

adaptação desses vários conceitos, em primeiro lugar porque, como já

ressaltamos no início deste ensaio, as diversas teorias tendem aqui a ser

essencialmente concorrentes, bem como a se mostrar disponíveis para a

comunidade historiográfica ou sociológica sem que se possa dizer que, em

algum momento, haja predomínio de uma só perspectiva119. Fica mais

difícil, para o caso das ciências sociais e humanas, falar em uma “revolução

científica” que estabeleça uma hegemonia, ou que produza a substituição de

um novo e único paradigma pelo tradicional, como se houvesse uma única

sucessão de paradigmas, no sentido sociológico da expressão. A situação é

distinta daquela que atrás vimos relativamente às teorias na Física, uma vez

que estas, quando não romperam definitivamente com suas predecessoras

em situação de irreparável ruptura, frequentemente foram progressivamente

englobantes no seu desenvolvimento histórico, ao menos até fins do século

XIX. A história da Física nos mostra inúmeros exemplos nos quais uma

teoria mais completa incorporou a outra, superando-a, e ao mesmo tempo se

mostrando capaz de resolver também novos problemas. Nesses casos, se há

uma ruptura, de alguma maneira o novo paradigma se nutre constantemente

de conquistas anteriores, redimensionando-as120. De outra parte, a história

da Física mostra ainda inúmeras situações em que novas teorias surgiram

em radical ruptura com o que até o momento se tinha por certo, e, nessas

ocasiões, através daquilo que Thomas Kuhn chamou de “revoluções científicas”, terminava-se por ocorrer a instalação de um novo paradigma,

por substituição ao paradigma anterior. A história das ciências naturais, no

Ocidente, foi alternadamente a história de englobamentos e

aperfeiçoamentos do paradigma (o que Kuhn chama de “desenvolvimentos

da Ciência Normal”) e de rupturas, que estabelecem a “Ciência

Revolucionária”.

Com as ciências humanas não é preciso insistir no fato de que é muito

mais comum identificarmos, ao longo de toda a sua história, o eterno

padrão dos “paradigmas concorrentes” que se dão ao mesmo tempo, em

recíproca descontinuidade. Aqui, se cada teoria permite de fato colocar e

resolver novos problemas, não se pode dizer que um paradigma supere o

outro, em absoluto. É assim que, desde há muito, historiadores e sociólogos

se acostumaram a conviver com uma expressiva diversidade de paradigmas

relativos aos seus campos de saber, e também de teorias concorrentes

concernentes aos seus mais diversos objetos de estudos. Deve-se ressaltar,

inclusive, que os próprios problemas levantados por um determinado

paradigma, nas ciências humanas (como também nas ciências naturais), não

são os mesmos que chamarão a atenção dos historiadores e cientistas sociais

ligados a outro âmbito teórico. Perguntas radicalmente diferentes são

formuladas pelas diversas formas de Positivismo, pelo Historicismo e pelo

Materialismo Histórico, apenas para citar os três primeiros grandes

paradigmas historiográficos que surgiram assim que a História se tornou

científica, e também são problemas basicamente distintos daqueles que são

evocados pelos desenvolvimentos teóricos propostos por pensadores mais

ou menos independentes como Max Weber, Norbert Elias ou Michel

Foucault.

Assim, se os materialistas históricos empenham-se desde sempre em

apreender na história a “luta de classes”, e costumam indagar pelas relações

que existiriam entre os aspectos econômicos e culturais, já algumas das

correntes relacionadas ao Positivismo pretendem enxergar a realidade social

sob o prisma da “conciliação de classes”, e formular questões que

relacionem “ordem” e “progresso” sob essa mesma perspectiva. De igual

maneira, se os praticantes de uma “história universal” buscavam apreender

a história da humanidade como um único movimento, tal como se pode ver

na historiografia idealista inspirada em Hegel a partir dos anos 1830, já os historicistas daquela mesma primeira metade do século XIX costumavam se

perguntar como seria possível captar a singularidade de cada povo ou

nação, de modo a construir uma história genuinamente nacional.

Os exemplos poderiam ser multiplicados ad nauseam. O importante é dar

a perceber que os historiadores e cientistas sociais desde há muito convivem

com essa multiplicidade de maneiras de indagar a realidade e de ver as

coisas, e que já a partir dos primeiros momentos de seu treinamento

aprendem a conviver com as diversas alternativas teóricas que terão à sua

disposição em cada um desses campos de saber, sem acreditar que uma

delas trará a solução definitiva. Ou, ainda, mesmo que um historiador ou

sociólogo acredite que o seu paradigma específico é o mais correto, a

própria história do seu campo de saber lhe mostra que os vários paradigmas

aqui coabitam sem que um possa superar o outro. O mesmo não se dá,

certamente, com os diversos campos de saber relacionados às ciências da

natureza e, em alguns deles, é especialmente intensa a ideia de que a

comunidade científica deve entrar em acordo com relação a certas questões

paradigmáticas. A ausência desse acordo, para alguns cientistas da natureza,

chega a ser mesmo perturbadora 121.

Poderíamos mesmo ir além, e adotar uma metáfora que é empregada pelo

próprio Thomas Kuhn na sua análise dos paradigmas relacionados às

ciências naturais e exatas. Os contingentes de cientistas sociais e humanos

associados aos diversos paradigmas – sejam historiadores, antropólogos,

sociólogos, geógrafos, psicólogos, economistas ou outros – “habitam

mundos diferentes”. Um determinado historiador vive em um mundo no

qual se embatem as “classes sociais”, outro habita um mundo povoado por

“espíritos nacionais”, um terceiro vive em um planeta social que é

produzido pelo somatório de indivíduos, e aquele outro perambula

descompromissadamente por um universo descontínuo. Neste historiador

das relações de gênero, a “sexualidade” (o conjunto de fatores que

determinam o “masculino” e o “feminino”) constitui um pacote de dados

que se impõe pela própria natureza; mas, para aquele outro, não é apenas o

“gênero” que é histórico, mas até mesmo o sexo, em última instância, é uma

construção social. Há ainda os que habitam mundos povoados por “raças”

de homens, e aqueles que, no limite, caminham por paisagens nas quais é

possível vislumbrar em cada átomo individual a diversidade humana.

Essa propriedade dos cientistas de “viverem em mundos diferentes”,

conforme as visões teóricas que conformam suas maneiras de pensar, não é

apanágio das ciências sociais e humanas, e é também atributo dos cientistas

da natureza e dos saberes exatos122. O cerne da questão, todavia, encontra-

se no modo como uns e outros encaram essa mesma situação. Além de

serem muito mais acentuados nas ciências humanas e sociais esta

convivência e o intenso trânsito entre diversificadas teorias, o fato é que os

cientistas sociais já se habituaram há muito a esse “viver entre mundos”. Os

cientistas sociais, habitantes de uma diversificada federação de planetas

teóricos, tornaram-se excelentes tradutores uns dos outros, e exercem desde

há muito uma sofisticada diplomacia teórico-metodológica 123.

O universo das ciências sociais e humanas, enfim, oferece desde cedo aos

seus praticantes uma complexa rede de paradigmas e posicionamentos

teóricos que devem ser escolhidos, caso a caso, para a prática da produção

de conhecimento em cada um dos campos de saber. Não é com a sucessão

de paradigmas que suplantam uns aos outros, e que fazem a ciência avançar

a partir de rupturas irreversíveis, que lidam os cientistas sociais e humanos,

mas sim com a possibilidade de estabelecerem uma comunicação entre

mundos distintos. A “tradução” é uma prática mais firmemente estabelecida

entre os cientistas sociais do que as operações de “conversão”, que de resto

precisam ocorrer mais amiúde entre os cientistas exatos. No universo das

ciências sociais e humanas, as conversões de pesquisadores que decidiram

migrar para um novo paradigma, em que pese não deixem de ocorrer, são

decisões sempre individuais, e não necessidades da comunidade científica.

A comunidade de historiadores jamais se pronuncia em bloco a favor da

adoção de um único paradigma, mesmo ao cabo de algumas gerações, tal

como ocorreu com a maior parte da comunidade dos físicos ao aderir ao

paradigma newtoniano, e ao considerá-lo mais tarde superado pela Teoria

da Relatividade124.

Ao lado disto, ainda que um materialista histórico consiga convencer um

positivista a abandonar o seu planeta teórico, ele sabe perfeitamente que

não poderá converter maciçamente todo o “planeta dos positivistas”. Assim

também, ainda que possa atrair para o seu centro de gravidade um filósofo

errante, a paisagem espacial das ciências humanas sempre será percorrida por meteoritos e cometas autônomos, ao lado da viagem orbital mais perene

dos grandes planetas paradigmáticos. Obrigar o universo a se curvar a um

único paradigma, ou, mais ainda, a uma única corrente teórica no interior de

um paradigma, é o mesmo que resolver questões teóricas e empíricas a

golpes de foice e martelo, como fez Stalin com relação à imposição teórica

de determinadas soluções historiográficas no interior do marxismo-

leninismo russo, no período de seu governo autoritário na União

Soviética125.

O eficaz aparato conceitual proposto por Thomas Kuhn para

compreender a História da Ciência veio a ocupar um lugar de inegável

destaque no âmbito dos estudos sobre a história dos diversos campos

disciplinares. O conceito de paradigma, todavia, clama por algumas

adaptações conforme o apliquemos a um ou outro campo de conhecimento,

em especial quando temos em vista as ciências sociais e humanas. É

oportuno lembrar que, em outro momento de suas reflexões, ao procurar

aparar arestas de seu quadro conceitual, Thomas Kuhn chegou a falar em

uma “matriz disciplinar” – noção que poderia se mostrar mais eficaz no que

se refere ao universo mais amplo de valores que afetam cada comunidade

científica em questão126. Este segundo conceito pode ser particularmente

interessante para a comunidade historiadora, no sentido de que existem

certos princípios mais gerais que realmente são aceitos pela ampla maioria

dos historiadores – tais como a necessidade de uma base empírica nas

fontes ou como a consideração da perspectiva do tempo – e que desse modo

poderiam corresponder a uma “matriz disciplinar”, sendo que esta, por sua

vez, poderia abrigar dentro de si certo número de paradigmas concorrentes.

A matriz disciplinar, para o caso da História, corresponderia em boa parte

ao que Michel de Certeau se referiu como a rede de pressões que vem da

comunidade de historiadores e que interfere no “lugar de produção” de uma

Operação historiográfica (1974). Jörn Rüsen adaptou o conceito de “matriz

disciplinar” em seu livro Razão histórica, Teoria da História: fundamentos

da ciência histórica 127 (1983). Também Michel Foucault, em A ordem do

discurso (1970), embora sem utilizar o mesmo vocabulário, refere-se a esse

conjunto de imposições disciplinares que incidem sobre os praticantes de

cada um dos vários campos de conhecimento. Ainda para Thomas Kuhn, seria sempre preciso considerar certo patamar básico de conhecimentos e

pressupostos que existiriam como necessários, aos olhos da comunidade

científica, de modo a dar suporte à concepção e à recepção das questões

científicas em determinado campo de conhecimento. É aqui que a noção de

“matriz disciplinar” torna-se operante.

As adaptações desses vários conceitos podem se mostrar relevantes para

a historiografia, desde que sempre tenhamos em vista as especificidades da

História. O que ocorre com a Historiografia e com outras ciências humanas

é que, conforme já reiteramos algumas vezes, nelas não se impõe ao seu

praticante em formação essa ilusão de uma evolução linear de seu campo de

conhecimento. Desde cedo, o historiador em formação toma conhecimento

de que existem diversos paradigmas concorrentes, diversas teorias que se

complementam ou que se confrontam, conceitos flexíveis a serem

operacionalizados. Conscientizado de que trabalhará com escolhas, o

historiador percebe ao longo da sua formação que a situação habitual é

mesmo a da proliferação de paradigmas concorrentes, e dificilmente se

poderia dizer que tenha ocorrido alguma vez a imposição de um paradigma

único. Seria útil pensar na imposição, sim, de certa “matriz disciplinar”,

aliás em contínua mas lenta transformação através do devir histórico, no

interior da qual se afirmam paradigmas diversificados ao sabor do dinâmico

jogo de interações e transformações mais ou menos rápidas estabelecidas

pelas variadas realizações historiográficas.

Pensadas em um quadro de historicidade e de adequação às ciências

humanas, as noções de “matriz disciplinar” e de “paradigma” podem se

adaptar particularmente bem ao estudo da Teoria da História. Em nossa

estrutura conceitual, a “Matriz Disciplinar” corresponderá, antes de mais

nada, a um universo mais amplo de valores que dificilmente seriam

colocados em questionamento pela ampla maioria dos historiadores – tais

como a necessidade de uma referência à base documental (fontes históricas)

ou a consideração das mudanças no tempo – aspectos sem os quais a

própria disciplina perderia a sua identidade nos moldes como hoje a

concebemos. Estas e outras “singularidades” – que, para cada caso,

correspondem àquele conjunto irredutível de dimensões, princípios e

postulados aceitos por todos ou quase todos os praticantes de um

determinado campo disciplinar, e que, de certo modo, é o que marca a identidade do campo em relação a outras áreas de saber – constituem, por

assim dizer, o “núcleo duro” de uma “matriz disciplinar”. Esse núcleo duro

pode mudar, mas, se isso ocorre, ou é muito lentamente, ou é como

resultado de alguma mudança revolucionária nos aspectos essenciais de um

campo disciplinar.

Na História, por exemplo, veremos depois que a consciência de que o

historiador trabalha com a dimensão do “Tempo” foi se instalando gradual e

decisivamente na História (pois ainda não estava presente com toda a

clareza na historiografia de Heródoto, para quem a História era sobretudo

um “inquérito” ou uma “investigação”). Hoje, historiador algum

questionaria o fato de que a História opera essencialmente com a dimensão

do “Tempo”. Pode se dar mesmo que haja mudanças menos ou mais

perceptíveis na forma como se pensa essa dimensão temporal da História –

e podemos lembrar que os historiadores um dia tenderam a pensar a

História como “estudo do passado humano”, enquanto a partir de Marc

Bloch tem-se como uma definição mais precisa a de que “a história é o

estudo do homem no tempo” (BLOCH, 1949). Mas de todo modo é

inconteste para qualquer historiador que a História traz essa noção de

“temporalidade” para a centralidade de suas operações.

A noção de “fonte histórica” tem integrado, da mesma maneira, o

“núcleo duro” da “matriz disciplinar” da História. Desde Heródoto e

Tucídides, já havia a consulta historiográfica de fontes escritas ou materiais,

ainda que esses historiadores da Grécia Antiga tendessem a considerar co-

mo possuindo maior grau de confiabilidade os depoimentos orais ou mesmo

aquilo que o historiador pode presenciar ele mesmo. Tal tendência foi se

revertendo, e a “fonte histórica” foi ocupando cada vez mais uma

centralidade. Desde o princípio do século XIX, quando começa a se

constituir para a História uma “matriz disciplinar” já propriamente

científica, a noção de fonte histórica – ou de “documento histórico” –

beneficia-se mesmo de uma revolução que agrega ao trabalho com as fontes

históricas uma preocupação metodológica bastante rigorosa, a começar pela

chamada “crítica documental” instituída pelos historicistas da Escola

Histórica Alemã. Essa centralidade da “fonte histórica”, e também os

cuidados metodológicos na sua operacionalização, não abandonariam mais,

desde então, o “núcleo duro” da “matriz disciplinar da História”. Podem-se discutir as metodologias, ou mesmo as relações que essas fontes poderão

estabelecer com a possibilidade de se alcançar em algum nível uma

“verdade histórica” (um questionamento encaminhado, por exemplo, por

setores do pós-modernismo historiográfico). Mas os historiadores não

colocam em dúvida o papel central da “fonte histórica” no seu trabalho. Isso

faz parte da sua “matriz disciplinar”.

Pode-se ainda acompanhar a proposição de Thomas Kuhn de que os

chamados “exemplares” também fazem parte de uma “matriz disciplinar”.

Postularemos que os exemplares não fazem parte do “núcleo duro” de uma

matriz disciplinar, mas que de todo modo a habitam, como um repertório de

modelos disponíveis para todos os praticantes de uma disciplina científica,

inclusive para aqueles que estão aprendendo o seu ofício e ainda se

instruindo com vistas a serem aceitos na “comunidade científica”. Para

Kuhn, os “exemplares” constituem, antes de mais nada, “as soluções

concretas de problemas que os estudantes encontram desde o início de sua

educação científica, seja nos laboratórios, exames, ou nos capítulos dos

manuais científicos” (KUHN, 2007: 234). Tais soluções, prossegue Kuhn,

indicam, através de exemplos, como os praticantes do campo devem

realizar o seu trabalho. “A prática da ciência normal depende da habilidade,

adquirida através dos exemplares, para agrupar objetos e situações em

conjuntos semelhantes” (KUHN, 2007: 234, 235). Na História, iremos

encontrar muitos exemplares através do repertório de métodos e técnicas

que se coloca à disposição dos historiadores para a abordagem dos diversos

tipos de fontes. Através de um exemplar – não importa a que corrente

teórica ou a que paradigma o historiador se associe – pode-se encontrar uma

operação metodológica aplicável a uma situação análoga. É possível

também encontrar “exemplares” no nível teórico, mas, para os

historiadores, é especialmente no âmbito metodológico que os exemplares

se oferecem em maior quantidade, uma vez que as escolhas teóricas e

conceituais, em boa parte dos casos, já começam a fazer parte do universo

mais específico das correntes teóricas e paradigmas historiográficos,

compreendidos como subconjuntos que se encaixam no interior da “matriz

disciplinar”, mas que formam territórios específicos, por vezes

concorrentes, no interior dessa matriz. Isto nos leva, aliás, ao próximo

aspecto a ser discutido.

A “Matriz Disciplinar”, poderemos deixar por estabelecido, é esse

universo mais amplo no qual se incluem, ou com o qual concordam, todos

os praticantes do campo. Ela tem o seu “núcleo duro”, formado pelos

aspectos incontestes do campo, e também uma certa constelação habitada

por exemplares e elementos disponíveis para todos os praticantes,

independente de suas filiações teóricas mais específicas 128. Quanto aos

paradigmas, e já consideraremos aqui o caso da História, estes expressam

posicionamentos distintos sobre questões fulcrais que redefinem a prática

historiográfica, situação que podemos exemplificar com a contraposição

entre o paradigma Positivista e o paradigma Historicista no século XIX,

apenas para dar um exemplo (cap. II, vol. 2). O paradigma, contudo,

habitualmente não se impõe contra certos aspectos que constituem o núcleo

fundamental da matriz disciplinar, e podemos lembrar aqui as reflexões do

micro-historiador italiano Carlos Ginzburg sobre as “Raízes de um

Paradigma Indiciário” (1986), em um artigo no qual ele historia a

emergência, nas ciências humanas, de um novo modelo epistemológico

relacionado a uma inovadora abordagem dos indícios. Apesar de propor a

consideração de um novo paradigma, em nenhum momento Ginzburg

coloca em xeque a necessidade da referência a “bases de fontes históricas”,

o que já constitui uma dimensão inerente ao “núcleo duro” da própria

matriz disciplinar da História atualmente em vigor, conforme vimos acima.

O mesmo Carlo Ginzburg vem, aliás, em defesa dessa matriz em outro

artigo, de 1979, intitulado “Provas e Possibilidades”, no qual polemiza

contra certas posições sustentadas por Hayden White que estariam

ameaçando aproximar perigosamente a Historiografia dos trabalhos de

ficção literária (1973). O exemplo mostra que afirmar ou sustentar certo

paradigma, na História, não implica afrontar elementos fundamentais da sua

matriz disciplinar. Conforme postulamos antes, a História, já desde há

muito, trabalha com paradigmas concorrentes, e não com a sucessão de

paradigmas únicos. Mas isto não impede que haja uma determinada “matriz

disciplinar” reconhecida pela ampla maioria de historiadores.

Para além dos paradigmas, entre eles, e no interior deles, podemos ter

inúmeras correntes teóricas, conforme já discorremos antes, e não mais nos

deteremos nesse ponto. Seria o caso, apenas para lembrar um exemplo, de

pensar nas numerosas correntes teóricas que povoam o paradigma do Materialismo Histórico ou o paradigma Historicista, por vezes algumas

dessas correntes confrontando-se umas com as outras na sua discordância

com relação ao uso de determinados conceitos, abordagens, ou mesmo no

que se refere à interpretação ou possibilidades de aplicação de certos

princípios que constituem o paradigma. Pode ocorrer inclusive o confronto

de dialetos no interior da linguagem mais ampla que é típica do paradigma

(por vezes, é possível reconhecer no interior do paradigma do Materialismo

Histórico, através do seu dialeto, os partidários da “Teoria Crítica” inspirada

na Escola de Frankfurt, os historiadores marxistas influenciados pela Escola

Inglesa do Marxismo, ou os historiadores que incorporaram o dialeto

estruturalista de influência althusseriana).

A questão das “linguagens” e “dialetos”, aliás, constitui um último ponto

a discorrer. Os historiadores, por exemplo, costumam lidar com um

entremeado muito rico de linguagens e elementos expressivos, oriundos de

âmbitos diversos. Tais como os demais cientistas humanos, muito

habitualmente os historiadores trabalham com palavras e expressões de uso

comum, de maneira que a sua linguagem é de modo geral facilmente

comunicável ao grande público. É mais fácil ao público não especializado

compreender um historiador do que compreender um economista ou um

profissional ligado ao Direito (a não ser que estes se empenhem na tradução

dos seus termos mais complexos), e será ainda mais difícil se aproximar da

linguagem dos Físicos e dos Matemáticos no momento em que estes

estiverem utilizando fórmulas matemáticas e um sistema conceitual de base

para cuja compreensão é necessário determinado treinamento prévio.

Todavia, mesmo os historiadores têm também a sua linguagem, transversal

aos diversos níveis que se estabelecem a partir do âmbito mais englobante,

que é o da Matriz Disciplinar.

Existem expressões e conceitos que são amplamente conhecidos de todos

aqueles que são familiares a determinado campo de saber, e que conhecem

bem a sua Matriz Disciplinar. Não raro, existem expressões e conceitos que

foram fixados no campo disciplinar através de determinados “exemplares”,

e que são cedo aprendidos pelos praticantes de um campo, desde o seu

período de formação; existem também expressões que ficaram associadas

ao uso que delas fez certo autor129. A expressão “processo civilizador”, por

exemplo, ficou muito associada ao sentido a ela atribuído por Norbert Elias no livro que leva esse nome (1939). Há também conceitos que se