Teoria da História I: Princípios e conceitos fundamentais
4 Sobre a liberdade teórica
(cf. Quadro 5).
4 Sobre a liberdade teórica
Alguns alertas se fazem necessários antes de iniciarmos a viagem pelo
oceano teórico que se oferece aos historiadores, e que se abre como um
convite para as suas próprias descobertas, invenções e viagens pessoais.
Assim como no item anterior chamamos atenção para o fato de que é
empobrecedor acreditar que se pode realizar um bom trabalho
historiográfico no interior de um único “campo histórico”, e que se deve
entender que os objetos históricos chamam para si uma certa conexão de
campos históricos, algumas palavras análogas devem ser ditas acerca das
escolhas teóricas, paradigmáticas e conceituais, de modo geral.
Podemos partir de algumas provocantes indagações iniciais. Será
necessário ao pesquisador escolher um só paradigma, ou um sistema teórico
único, depurado de quaisquer contribuições que não partam senão do
interior desse sistema já consolidado? Há autores incompatíveis uns com os
outros, bem como conceitos que não podem ser misturados entre si sob
hipótese alguma? Existem “autores sagrados”, cuja contribuição é
inquestionável e definitiva? E, ao inverso, existem “autores malditos”, que
já não podem mais ser recuperados, e que devem ser condenados por todo o
sempre ao inferno do ostracismo teórico? Devem as teorias apresentar certo
nível de permeabilidade, de modo a interagir com o seu exterior, ou, ao
contrário, deverão blindar seus cascos como navios que se preparam para
singrar mares perigosos?
Vamos refletir, inicialmente, sobre a primeira pergunta: aquela que
indaga sobre a necessidade ou não de se adotar um paradigma único,
concebido sob a perspectiva de uma “coerência absoluta” (Quadro 8,1).
Colocada a questão de outra forma, podemos nos perguntar, ainda, sobre até
que ponto um “autor-fundador” de determinada corrente teórica tem
poderes ou direitos absolutos sobre a perspectiva teórica que se originou de
suas reflexões sistematizadas. De igual maneira, e na mesma linha de
reflexões, mas já apelando para uma tonalidade mais irônica, alguém
também poderia indagar se todo autor-fundador deve ser elevado a objeto de culto, e se determinados sistemas teóricos devem permanecer
preservados em sua “pureza original”, tombados como “patrimônios
teóricos” que não convém sequer retocar.
Até as três últimas décadas do século XX, predominava nos meios
acadêmicos, particularmente na área das ciências humanas, a ambição de
construir grandes sistemas capazes de darem conta de tudo, de fornecerem
todas as respostas às diversas questões surgidas no campo disciplinar em
questão – fosse este a História, a Sociologia, a Antropologia, a Geografia,
ou a Psicologia. Também não era raro que os pesquisadores e pensadores
que haviam escolhido este ou aquele paradigma hostilizassem, ou pelo
menos se afastassem, de outros que haviam escolhido “paradigmas rivais”.
A crise dos grandes sistemas explicativos, dos grandes esquemas que
resolviam tudo no mundo abstrato das ideias (mas que, ao contato com as
realidades históricas trazidas pelas fontes, mostravam suas insuficiências)
acabou por trazer ao âmbito das ciências sociais e humanas uma certa
liberdade teórica que, a nosso ver, tem sido benéfica para a reflexão
historiográfica. Se algumas vertentes pós-modernistas forneceram uma
alternativa pessimista à crise dos grandes paradigmas 152, por outro lado
também existiram respostas criativas que se empenharam em renovar os
diversos campos de saber no âmbito das ciências humanas e da
historiografia em particular.
Paul Feyerabend, em um instigante livro que traz o título de Contra o
Método (1975), afirma a certa altura de suas reflexões que “nenhuma teoria
está em concordância com todos os fatos do seu domínio” (1989: 79).
Libertar-se de exigências de “coerência absoluta” em relação a um sistema
teórico fechado pode ser um bom conselho para evitar estagnações e para
assegurar uma maior riqueza de recursos. É também o que postula o
epistemólogo Gastón Bachelard, que, embora rejeitando a ideia de um
“ecletismo de fins”, não hesita em considerar um certo “ecletismo de
meios”:
Aos filósofos nós reclamaremos do direito de nos servir de elementos filosóficos separados dos sistemas em que tiveram origem (BACHELARD, 1940: 10).
Conhecer os grandes paradigmas teóricos que se disponibilizam para o
trabalho historiográfico é fundamental para a formação do historiador.
Aderir integralmente a um desses paradigmas, a tudo o que até hoje disseram os maiores autores ligados ao paradigma escolhido, pode não ser
igualmente salutar. A recomendação é que só se deve aderir a todos os
elementos de um determinado paradigma, ou, mais restritamente ainda, a
uma determinada subcorrente teórica no interior desse paradigma, se o
pesquisador sentir-se inteiramente à vontade com o seu tema no ambiente
teórico proporcionado por essa sua escolha. Aceitar imposições cegamente
é, via de regra, contraproducente e limitador, mormente quando acabamos
de definir “Teoria” como um “modo de ver as coisas”. Encarar a teoria
como doutrina ou dogma, recusar-se a aceitar aportes interessantes que
tenham sido originados em outros campos teóricos, rejeitar o contato ou o
diálogo com autores que se acredita serem incompatíveis com o “modo de
ver” que se escolheu definitivamente e por todo o sempre, é algo
equivalente a aceitar uma viseira definitiva: a lente que substituirá o
verdadeiro olho do pesquisador – este que deveria sempre se conservar
como um olho humano, aberto ao desafio de explorar novas paisagens – e
que corre o risco de se converter, com a estagnação teórica, em “olho de
vidro”, inerte e já sem função recriadora. Uma coisa é enxergar o mundo a
partir destas “lentes” que são as teorias, cada qual permitindo uma
perspectiva diferenciada e colorizando o mundo de uma nova maneira;
outra coisa é enxergar (não enxergar) o mundo através de um “olho de
vidro”, colado definitivamente ao rosto para disfarçar a verdadeira ausência
de visão. Em casos como este, a “teoria” pode contribuir mais para “cegar”
do que para abrir a mente em direção a “novos modos de ver as coisas”153.
Quadro 8. Travas ao livre fluir de uma boa construção teórica
No quadro ao lado, reunimos em um esquema, para além da acima
discutida “adesão burocrática à total coerência de um sistema”, outras
travas muito habituais ao livre fluir da construção teórica. Trata-se de um
certo complexo de “fobias”, “fetiches” e “deformações” contra os quais o
pensador e pesquisador deve se prevenir, uma vez que, no limite, obliteram
o pensamento teórico.
Vamos chamar ao segundo aspecto que gostaríamos de examinar,
considerando-o como uma das travas que têm se mostrado mais frequentes
como impedimento à livre invenção teórica, de “Fobia da
Incompatibilidade” (2). Esse item refere-se tanto à irredutível rejeição do
gesto de misturar certos autores, tidos por incompatíveis, como à recusa
ferrenha de combinar certos conceitos, ou mesmo elementos oriundos de
sistemas teóricos distintos. A nossa experiência com relação à ideia de
“imiscibilidade de certos autores entre si”154, muito difundida em alguns
setores dos meios acadêmicos, é que, na verdade, não existe essa pretensa
situação de incompatibilidade entre certos autores para todas as situações.
O que torna compatível uma certa conexão de autores – assim como o que
permite uma determinada conexão de “campos históricos” – é o seu objeto de estudo específico, é o uso que se fará de cada um desses autores diante
desses objetos, é o que se tomará de cada um deles. Foucault não é
“incompatível com o Materialismo Histórico”. O que se pode dizer é que
um certo uso de Foucault pode se tornar incompatível com um certo uso de
determinado autor marxista, diante de determinado objeto histórico e de
certos encaminhamentos metodológicos. O que estou usando de Foucault, o
que estou utilizando do Materialismo Histórico, como essa combinação
pode ser empregada para o meu objeto histórico? Esse objeto solicita essa
combinação, ou a rejeita? Ou oferece-me uma escolha? São questões como
estas que devem ser feitas diante de um quadro teórico. Combinar “visões
de mundo” (isto é, “teorias”) pode perfeitamente abrir espaço para novas
“visões de mundo”. Ou não.
É importante se ter em vista que um determinado sistema austero,
reconhecido pela comunidade historiadora por ter mostrado eficácia para a
análise de certos objetos e questões propostas, pode se mostrar totalmente
inadequado para outro objeto histórico, distinto dos que até então
justificaram a adoção do sistema pré-posto. Forçar certo sistema a ajustar
ou enquadrar a todo custo um objeto pode contribuir para deformá-lo
efetivamente.
Não há regras155. Há escolhas. E as escolhas devem ser feitas diante do
objeto de estudo, seja as que se referem à Teoria ou ao Método. Abrir-se à
novidade, de todo modo, é sempre uma excelente postura. É adequado,
também, considerar a possibilidade da invenção conceitual, ou de uma nova
utilização de conceitos já existentes para produzir algo novo. No cap. I do
vol. 3, veremos que Karl Marx soube reutilizar de uma nova maneira, para
viabilizar a constituição de um novo paradigma para o estudo das
sociedades humanas, uma série de conceitos que já existiam em campos
teóricos bem diferenciados, alguns até antagônicos. Extraiu a perspectiva da
“dialética” do idealismo hegeliano, mas combinou-o com um
“materialismo” que lhe era estranho, e que já existia no âmbito de reflexões
produzidas por outros autores. Reutilizou, para uma nova finalidade, um
conceito de “luta de classes” que já vinha sendo aplicado por historiadores
franceses da Restauração. A ideologia, a práxis, tampouco foram conceitos
inventados por Marx. No entanto, Karl Marx soube combinar alguns desses
conceitos, oriundos de âmbitos teóricos distintos (conceitos aventados antes dele por autores pertencentes a campos teóricos rivais ou tidos por
incompatíveis) de modo a produzir um sistema teórico inteiramente novo –
uma nova “visão de mundo”, capaz de propor novos problemas e fazer
novas indagações que antes não seriam possíveis. Também soube partir da
contribuição da Economia Política clássica, escolhendo alguns autores e
rejeitando outros, por inadequados aos novos problemas que desejava
examinar. E, a seu tempo, avançou para além dos patamares de visão que
estavam inarredavelmente ligados ao “quadro de coerência” da Economia
Clássica.
Para além da insistência na rigorosa e burocrática “coerência do sistema”
e da “fobia da incompatibilidade”, outra trava a evitar é o “fetiche do autor”
(3). Há autores que são quase elevados por certos seguidores a heróis
hagiográficos. Nesses casos, incorpora-se não o que se acha interessante ou
útil de determinado autor, mas “tudo” o que disse esse autor, elevado à
posição de profeta de uma nova religião teórica156. O fato é que não
precisamos, para incorporar a salutar e demolidora crítica de Friedrich
Nietzsche157 ao conhecimento milenarmente orientado pelo racionalismo
clássico 158, levar junto alguns dos seus “escritos políticos” carregados de
rejeição aos ideais de igualdade social159. Muito menos seria preciso
aceitar, por causa desta que é uma das mais brilhantes obras filosóficas já
produzidas, os seus aforismos contra as mulheres (A gaia ciência, aforismos
60 a 75), ou adotar a rejeição musical do último Nietzsche a algumas das
mais belas composições de Richard Wagner (O Caso Wagner, 1888).
Tampouco seria preciso deixar de enxergar o extraordinário valor do
Materialismo Histórico como instrumento de análise para a história, apenas
porque não se quer abraçar a causa do socialismo revolucionário nos
mesmos moldes em que a propuseram Karl Marx e Friedrich Engels, ou
mesmo a posterior corrente política do chamado “marxismo-leninismo”. De
igual maneira, para incorporarmos as esplêndidas reflexões de Heidegger
sobre Ser e tempo (1927), não precisaremos levar junto as preleções a favor
do Nazismo produzidas por esse filósofo alemão em 1933 – aliás, escritos
que ele mesmo, posteriormente, renegou (HEIDEGGER, 1933-1966). Por
fim, para darmos um último exemplo, reconhecer a descoberta do
“inconsciente” (FREUD, 1915) ou o valor do “método de investigação psicanalítica” não significa aceitar necessariamente “todo” o Freud. As
teorias podem ser recompostas livremente a partir dos conceitos e
abordagens que um dia foram criados pelos grandes pensadores. Aceitar
acriticamente tudo o que disse um autor é retornar aos tempos patrísticos do
“argumento de autoridade”, no qual uma afirmação ou assertiva não
precisava ser demonstrada, se já tivesse sido assinada embaixo por uma
grande autoridade no campo de conhecimento professado 160.
Particularmente quando as teorias se convertem em doutrinas (questão
sobre a qual já discorreremos) o “fetiche do autor” pode desempenhar um
papel especial (e anticientífico) em alguns sistemas de pensamento, ou mais
especificamente nas versões destes sistemas de pensamento que se
ossificaram ou se blindaram contra as trocas externas que poderiam
promover a crítica e a reformulação. É muito comum, como um caso
particular de “fetiche do autor”, o “fetiche do fundador”. Sacraliza-se o
fundador de um sistema, e os textos por ele proferidos em algum momento
(muitas vezes no interior de certo contexto e voltados para determinado
campo de aplicabilidade) passam a ser citados e recitados como se fossem
artigos de fé161. Um texto deslocado de seu contexto e de seu campo de
aplicação original pode deformar completamente a teoria flexível que um
dia foi criada por um autor, convertendo-a em doutrina rígida, em dogma.
Da mesma forma, a repetição vazia e dogmática dos ditos de um autor pode
desvitalizar as proposições que um autor um dia ofereceu à comunidade
científica para ser posteriormente elaborada nos quadros científicos de seu
campo disciplinar. De proposição científica, o dito se converte em
“argumento de autoridade”: a fórmula experimental se deteriora em receita;
o conceito perde suas qualidades de instrumento flexível e aberto ao novo,
para se transformar em trava, em artigo de fé, em objeto de culto 162.
Há também outra trava que costuma prejudicar o bom fluxo teórico, e
que é mais ou menos o contrário do “argumento da autoridade”. Carl Sagan,
em um dos mais interessantes ensaios inseridos no seu livro O mundo
assombrado por demônios (1995), chama a este tipo de “falácia de
argumentação” de “ad hominem” (ao homem), consistindo esse
procedimento retórico em atacar o argumentador e não o argumento163.
Pode ocorrer em um livre debate de ideias, por exemplo, que um argumentador falacioso busque atacar aspectos pessoais da vida do teórico
para desmerecer a possibilidade de incorporação de sua contribuição
teórica. Ou, o que vem dar no mesmo, que alguém se recuse a examinar a
contribuição teórica de certo autor – impedindo a si mesmo de se beneficiar
de uma contribuição que lhe poderia ser eventualmente útil, ou ao menos
digna de ser considerada de um ponto de vista teórico – apenas porque está
preso àquilo que, de nossa parte, chamaremos de “Demonização de
Autores” (4).
Por exemplo, nos anos 1960, fez muito sucesso na França uma corrente
teórica do marxismo que surgiu das proposições aventadas por um filósofo
francês de origem argelina que se chamava Louis Althusser (1918-1990). Já
mencionamos acima, rapidamente, a contribuição desse autor, ao qual
voltaremos oportunamente, e à qual muitos comentadores denominaram de
“marxismo estruturalista”, uma vez que Althusser combina de alguma
maneira as ideias e conceitos de Karl Marx com o estruturalismo francês à
maneira de Claude Lévi-Strauss (1908-2009). Ocorre que, em 1980 –
quinze anos depois do extraordinário sucesso do livro Pour Marx,
publicado por Althusser em 1965 –, o filósofo argelino, em um surto
psicótico, estrangulou a companheira (Hélène Rytmann) com a qual vivia
desde 1946. Cinco anos depois, Althusser escreveu um livro intitulado
L’avenir dure longtemps (1985), no qual, entre inúmeras revelações
bombásticas, reivindicou certa responsabilidade pelo assassinato da
companheira, o que resultou em uma acirrada polêmica entre seus
detratores e seus correligionários. Na sequência, Althusser foi internado em
um hospital psiquiátrico, no qual viveu em relativa reclusão, dedicando-se
ali a redigir a sua Autobiografia. Também confessou, em outra
oportunidade, que nunca havia lido certos textos de Marx, autor em relação
ao qual tivera a pretensão de fazer uma verdadeira revisão em livros como
Ler O capital 164 (1965).
A contribuição teórica de Althusser foi tão significativa que atraiu o
interesse teórico de toda uma geração de intelectuais franceses dos anos
1960, dentro e fora do Marxismo. Grandes teóricos ligados ao paradigma do
Materialismo Histórico, como os historiadores Pierre Vilar (1973) e Edward
Thompson (1978), enfrentaram adequadamente as proposições de
Althusser. O primeiro escreveu um bem fundamentado artigo para a Revista dos Annales intitulado “Marxismo e Construção” (VILAR, 1973); o
segundo publicou uma demolidora coletânea de ensaios intitulada A miséria
da teoria (THOMPSON, 1978), na qual vai além das críticas a Althusser e
propõe um verdadeiro refinamento de certas proposições do Materialismo
Histórico. Considerar uma proposta teórica e refutá-la, retificá-la, refiná-la,
rediscuti-la, mas tudo nos próprios termos do debate teórico em questão e
buscando desenvolver uma argumentação a partir da verificação lógica e da
sustentação empírica, é o procedimento adequado que enriquece a Teoria da
História, ou qualquer outro tipo de Teoria no âmbito científico. Mas já
escutei, certa feita, com relação às propostas de Althusser, uma estranha
reflexão baseada na postura da “Demonização do Autor”, considerando que
o argumentador declarou que era absurdo sequer discutir as proposições
teóricas de um homem que havia estrangulado a própria esposa.
Também não é digno de constar como refutação da teoria althusseriana o
fato de que o próprio autor declarou depois não conhecer certos textos de
Marx em uma “autocrítica”; afinal, uma teoria deve ser testada, discutida e
considerada a partir das proposições e consequências que carrega em si
mesma, dos conceitos que ela mesma mobiliza em sua formulação. Também
é válido contrapor, comparativamente, teorias entre si, com o intuito de
demonstrar que uma funciona melhor que a outra com relação a
determinado objeto de estudos, ou que responde melhor às novas perguntas
trazidas por um novo tempo. Mas não é possível, de um ponto de vista
científico, agregar questões e observações de ordem pessoal como
elementos que irão dar suporte à rejeição de uma teoria. Fazer isso é apelar
para a falácia da “Demonização de Autores”. Neste caso, tem-se uma
espécie de “argumento de autoridade ao avesso”, e fala-se de “autores
malditos”. Há ainda uma curiosa observação a fazer: mesmo quando um
autor faz uma autocrítica e renega a sua própria obra, ou migra de um
campo teórico a outro, isto não cancela a sua contribuição teórica anterior.
Um autor não tem mais direitos sobre um livro que escreveu, assim que o
coloca no mundo. Uma boa obra, fundamentada teoricamente (e na verdade
qualquer tipo de produção intelectual), adquire vida própria quando se torna
pública, podendo a partir daí ser utilizada de modos diversificados pela
comunidade de leitores e pelos vários campos de saber. A “autodepreciação do autor” também não cancela uma obra anterior – não é isso que poderá
inviabilizá-la teoricamente.
Nenhum desses diversos desdobramentos relacionados à vida pessoal ou
a uma “demonização do autor”, assim como tampouco o seu contrário, que
seria uma “beatificação do autor” ou a sua elevação a ícone, pode encontrar
adequado respaldo em uma boa discussão teórica. Rejeitar a contribuição
teórica de um determinado autor em vista de certos incidentes da sua vida
pessoal equivaleria a se recusar a apreciar algumas das mais belas
composições musicais de Richard Wagner apenas porque esse gênio da
música manifestou em alguns de seus escritos opiniões antissemitas, ou
porque algumas das óperas do compositor alemão foram depois muito
apreciadas por Hitler e até mesmo usadas para embalar deprimentes práticas
em campos de concentração. A música, na verdade, existe como construção
estética a ser apreciada, independentemente da personalidade de seu autor
ou dos usos que lhe foram emprestados em um outro momento. Uma
construção teórica, da mesma forma, também está livre no mundo a partir
do momento em que é oferecida às comunidades de cientistas e
historiadores, e deve ser examinada nos termos de seu potencial explicativo,
de sua clareza argumentativa e de sua força demonstrativa.
Há ainda outro tipo de falácia que também se desdobra da “demonização
do autor”, e que consiste em depreciar a instituição a que se vincula o
pensador que encaminha determinada argumentação teórica. Alguém que
sustenta que não é preciso considerar as reflexões de determinado autor
porque ele é ligado a uma instituição de ensino ou pesquisa de menor
importância ou sem significativo peso acadêmico, como se houvesse uma
espécie de hierarquia de lugares institucionais a partir dos quais os
argumentos adquirem mais valor quando proferidos desta ou daquela
instituição, não deixa de também estar incorrendo, de uma maneira ou de
outra, nesse par que se relaciona aos “argumentos de autoridade” e à
“depreciação de autores”. Quando Marc Bloch (1886-1944) e Lucien
Febvre (1878-1956) contribuíram para revolucionar a historiografia
francesa, na primeira metade do século XX, estavam lotados na
Universidade de Estrasburgo, e dali proferiram suas implacáveis críticas
contra os tradicionais mandarins historiográficos que controlavam o
Departamento de História da mais prestigiosa universidade francesa desde os tempos medievais: a Sorbonne. A força de seus argumentos em favor de
uma nova prática historiográfica não pode ser obstaculizada pelos
argumentos de autoridade que lhes foram contrapostos a partir da mais
poderosa Torre de Marfim do sistema universitário francês165. Enfim, no
limite, o ideal é que qualquer discussão teórica possa ser travada
teoricamente, ou que ela se sustente sozinha, sem que seja necessária uma
legitimação externa, institucional. As exigências de legitimação ocorrem
muito, é claro, e, ainda que inevitáveis, não fazem parte propriamente dos
procedimentos científicos.
Avançando em nosso “Quadro das Travas ao livre Fluir Teórico”,
veremos que também existem aqueles que rejeitam sequer discutir uma
teoria por temor às suas “Consequências Adversas” (5). Seria uma postura
teórica desse tipo a que poderia estar oculta no gesto de impor
acientificamente o ensino do Criacionismo, contra a sequer menção à
Teoria das Espécies de Charles Darwin (1859), com base no argumento de
que, se esta teoria for aceita, há o risco de trazer a ruína a sistemas
religiosos construídos desde há muitos séculos, dos quais a humanidade
necessita para não mergulhar em uma vida caótica. O mesmo argumento
também poderia ser utilizado erroneamente para proibir discussões com
base na proposta teórico-metodológica do Materialismo Histórico, por se
considerar que Karl Marx, um dos criadores desse paradigma, era de
opinião de que “a religião é o ópio do povo” (Crítica da Filosofia do
Direito de Hegel 166 , 1843). Aliás, nesse caso combinamos as duas falácias,
a da “fobia das consequências adversas”, e uma forma invertida da “adesão
burocrática à total coerência do sistema”. Afinal, rejeita-se aqui o
Materialismo Histórico em todos seus aspectos, apenas porque seu criador,
Karl Marx, era ateu, como se certo sistema teórico só pudesse ser aceito
considerando literalmente a adesão a todos os pontos de vista formulados
pelo criador original (isso é também uma forma invertida do “fetiche do
autor”). Paulo Freire (1921-1997), um dos maiores educadores da história
de nosso planeta, era simultaneamente marxista e católico. Aderir a certa
visão do Materialismo Histórico não o impediu de administrar em sua vida
pessoal determinada crença religiosa 167. Paulo Freire não estava escravizado pela falácia da “adesão burocrática à total coerência do
sistema”.
Também seria uma “fobia das consequências adversas” se um
determinado militante marxista, ligado a um partido político de esquerda, se
recusasse a discutir uma teoria sobre as causas do fracasso do Socialismo
Real, com base na mera argumentação de que levar adiante tal discussão
teórica poderia pôr a perder mais de um século de história de lutas
alicerçadas no desenvolvimento do chamado Marxismo-Leninismo,
arriscando dissolver todos os sonhos revolucionários (o que, de todo modo,
é também uma falácia argumentativa, já que se pressupõe que todos os
sonhos revolucionários ligam-se necessariamente a um modelo específico
dentro do Materialismo Histórico que é o do chamado “marxismo-
leninismo”).
Para além do “apego burocrático à coerência do sistema”, da “crença na
imiscibilidade de certos autores”, do “fetiche do autor”, da “demonização
de autores” e da “fobia das consequências adversas”, uma trava muito
comum é a “estagnação discursiva” (6), ou o que, para utilizar uma
linguagem mais popular, poderia ser entendido como uma “mesmice
discursiva”. Se propor novas perguntas mostra-se um excelente recurso para
alcançar novos patamares teó-ricos, com alguma frequência também o
recurso a uma “nova linguagem de observação” permite enxergar as coisas
de uma nova maneira (FEYERABEND, 1989: 115). Ousar criar é também
importante. Experimentar novas linguagens é também forçar-se a ver as
coisas de uma nova maneira. É evidente, contudo, que para se aventurar à
criação de uma nova linguagem sem cair na gratuidade, que se converteria
em mera presunção, é útil conhecer antes as linguagens de observação já
existentes, dominá-las com igual fluência. Este é o papel da Teoria da
História enquanto disciplina importante para a formação do historiador. A
Teoria da História é capaz de disponibilizar para o historiador em formação
não apenas um vocabulário conceitual diversificado, como também lhe
oferecer um repertório de “modos de ver” diferenciados, combináveis ou
não (e o que vai ajudar a decidir isso – isto é, sobre o que usar, e como usar
– não é uma afirmação dogmática, nem um decreto acadêmico, mas o
objeto histórico que o historiador constitui ou tem diante de si).
De todo modo, a “estagnação discursiva” também abarca como possível
vício uma outra forma de fetiche, que é o “fetiche do conceito”. Trata-se,
aqui, de uma tendência a sacralizar não mais o autor, mas na verdade um
conceito, transformá-lo em imagem sob a qual o teórico vai depositar suas
oferendas, e por vezes construir uma cerca em torno desse conceito
“territorializado” (isto é, transformado em espaço que passa a estar
submetido a um poder), para a partir daí só se permitir que o espaço
conceitual cercado seja apenas frequentado pelos peregrinos autorizados.
Um conceito, pensaremos aqui a partir de um comentário extremamente
oportuno de Friedrich Nietzsche, é algo para ser usado, de modo a favorecer
um modo de visão, e não para ser reverenciado ou transformado em coisa
inerte, desgastada como o “velho metal das moedas”:
Enquanto cada metáfora intuitiva é individual e sem igual e, por isso, sabe escapar a toda rubricação, o grande edifício dos conceitos ostenta a regularidade rígida de um columbário romano e respira na lógica aquele rigor e frieza, que são próprios da matemática. Quem é bafejado por essa frieza dificilmente acreditará que até mesmo o conceito, ósseo e ortogonal como um dado e tão fácil de deslocar quanto este, é somente o resíduo de uma metáfora, e que a ilusão da transposição artificial de um estímulo nervoso em imagens, se não é a mãe, é pelo menos a avó de todo e qualquer conceito
(NIETZSCHE, 1974: 57) 168
Desmistificar o conceito, reenviá-lo de volta ao mundo dos vivos,
desfossilizá-lo, não se deixar escravizar por esse conceito solenemente
convertido em ídolo de pedra ou de madeira, é por diversas vezes uma
operação importante para escapar à estagnação discursiva. O “conceito”
deve ser colocado ao serviço do historiador; não é o historiador que deve
servir ao conceito 169. Convém, portanto, não se deixar aprisionar
acriticamente por esse “céu conceitual matematicamente repartido” de que
também nos fala Nietzsche (1974: 57). Um conceito, ou uma metáfora, é
um recurso de que o pensamento teórico lança mão, e não um grilhão que se
volta contra a própria leitura teórica170. Quando um pensamento teórico
rende-se ao peso da estagnação discursiva, quando se permite que seus
conceitos se ossifiquem, a teoria perde o seu poder de voo. As asas
conceituais regridem e se recolhem, convertem-se em cascas protetoras que
doravante estarão coladas ao corpo, como se fossem protetores blindados
contra o meio externo. Em uma espécie de metamorfose invertida, a borboleta converte-se em larva. Veremos, mais adiante, que esse é o
momento em que uma “teoria” transforma-se em “doutrina”.
Não é raro que o “fetiche do conceito” – essa forma de “estagnação
discursiva” muito específica – conduza à tendência viciosa de adaptar uma
fórmula já desgastada a toda e qualquer realidade171. Ou, também é
frequente, incorrer-se ainda no erro de aplicar, indiscriminadamente a tudo,
o conceito ou sistema teórico que se mostrou eficaz para a análise de
determinada realidade, mas não necessariamente a outras.
O “anacronismo” – uso acrítico, para uma determinada situação histórica,
de um conceito que somente se ajusta bem à análise de outra época – é
outro dos vícios desta mesma família (7). Esse é certamente um dos erros e
vícios mais graves contra os quais se deve resguardar o historiador, mas
também não é menos danoso recair no exagero que se entrincheira no outro
extremo, uma espécie de “fobia do anacronismo” que pode levar o
historiador a rejeitar o uso pertinente de categorias de análise desenvolvidas
em sua própria época sob a alegação de que tais categorias não existiam no
passado. Uma coisa é se deixar enredar no vício do “anacronismo” e
projetar categorias de pensamento dos homens de uma época, ou do próprio
historiador, nos seres humanos de outro tempo e localidade, que se
movimentavam e viviam a partir dos seus próprios padrões de pensamento e
sensibilidade, e que possuíam os seus próprios referenciais de mundo e
tábuas de valores (que obviamente precisam ser compreendidos pelo
historiador que desenvolve a análise). Outra coisa é se deixar atolar no
imobilismo que pode ser gerado pela insistência em trabalhar
exclusivamente “no nível das fontes” (como se tal fosse possível),
rejeitando as “categorias do historiador” ou seus recursos analíticos sob a
alegação de que estes seriam “anacrônicos”. Essa outra ingenuidade, que
poderemos denominar “fobia do anacronismo”, é quase tão danosa quanto o
anacronismo. Para entender isto, vamos retomar algumas observações que
já registramos em outro livro (O campo da História, 2004).
Antes de desenvolvermos a argumentação sobre a necessidade de se
permanecer equidistante em relação ao “anacronismo” e à “fobia do
anacronismo”, será oportuno lembrar uma observação fundamental de
Reinhart Koselleck sobre o uso de conceitos em história. Em seu célebre
livro Futuro passado (1979), Koselleck observa que os historiadores trabalham necessariamente com dois tipos de “conceitos” ou categorias
verbais, na verdade com “dois níveis de conceitos”: alguns conceitos e
expressões o historiador irá retomar das próprias fontes, correspondendo
àquelas palavras que os homens da própria época analisada empregavam
para a sua autocompreensão ou para descrever os acontecimentos e
processos que lhes eram contemporâneos. Estes são os conceitos “no nível
das fontes”, e é certamente preciso trabalhar com eles (obviamente que de
maneira crítica) uma vez que eles expressam as mentalidades de uma época,
os artifícios verbais dos homens de então, as marcas de um contexto
histórico que já não é mais o nosso. Mas existe um segundo nível que é o
dos conceitos que se estabelecem “no nível do historiador”. Estes
correspondem às suas próprias categorias de análise. O historiador pode
criá-las, ou tomá-las de empréstimo do repertório conceitual que já existe
na tradição historiográfica. Por exemplo, os conceitos de “modo de
produção”, “crise econômica”, “colonialismo”, “luta de classes”,
“mentalidades”, “estrutura”, “sistema” podem ser perfeitamente utilizados
para a análise de sociedades diversificadas, inclusive nas épocas em que
ainda não se usavam essas expressões. É preciso não confundir o uso desse
tipo de conceitos – aqueles que se estabelecem “no nível do historiador”,
legitimamente, como instrumentos adequados de análise – com aqueles
outros conceitos que correm o risco de ser empregados “anacronicamente”
em vista de os projetarmos indevidamente nos modos de pensar de pessoas
de uma outra época. Dito de outra forma, é preciso não confundir o “nível
da análise” com a “realidade das fontes”. O historiador lida, obviamente,
com essas duas coisas: com os instrumentos conceituais de análise, e com
uma realidade histórica que ele analisa (o nível das fontes). Será importante
partirmos dessas considerações sobre os “dois níveis de conceitos” se
quisermos ter uma maior clareza sobre o que é efetivamente o
“Anacronismo”, sem recairmos inadvertidamente no seu extremo oposto,
que é o das distorções causadas pela “fobia do anacronismo”. Há uma
diferença de níveis e de natureza teórica entre os usos dos conceitos de
“sistema” e de “feminismo” para a análise de sociedades antigas, da qual é
preciso nos conscientizarmos.
O que é anacronismo? Em primeiro lugar, é preciso não esquecer o já
mencionado fato de que o historiador, ao examinar determinada sociedade localizada no passado, está sempre operando (também) com categorias de
seu próprio tempo (mesmo que ele não queira). Daí aquela célebre frase de
Benedetto Croce, que dizia que “toda história é contemporânea”. Isto quer
dizer que mesmo a História Antiga e a História Medieval são de certo modo
histórias contemporâneas, porque são elaboradas pelos historiadores de
nosso tempo (e voltadas para leitores de nosso tempo)172. Há uma tensão
muito delicada que envolve esta inarredável característica do trabalho
historiográfico: por um lado o historiador deve conservar vivamente a
consciência de que trabalhará com as categorias de seu próprio tempo, no
nível da análise, mas, por outro lado, deverá evitar que algumas dessas
categorias ameacem deturpar as suas possibilidades de compreender os
homens do passado, seres humanos históricos que tinham as suas próprias
categorias de pensamento e de sensibilidade. Estas últimas, obviamente,
também serão trabalhadas pelo historiador, mas não como instrumentos
para desenvolver a análise, e sim como aquilo mesmo que se analisa. Por
exemplo, da mesma forma que os métodos que um historiador emprega
serão sempre métodos seus, desenvolvidos na sua própria época, já que ele
poderá empregar os recursos da análise semiótica, só desenvolvidos
recentemente, para examinar fontes da história antiga ou medieval, de igual
maneira esse mesmo historiador poderá elaborar ou trabalhar com novos
conceitos, somente tornados possíveis no seu tempo, para iluminar uma
época anterior a sua.
Não há o menor problema nesses usos. Aliás, são precisamente os usos
de novas técnicas, conceitos e modos de ver uma realidade passada o que
assegura que a História de uma determinada época deverá ser sempre
recontada. A questão do Anacronismo é muitas vezes mal interpretada, se
nos deixamos enredar pelas distorções causadas pela “fobia do
anacronismo”. Para utilizar um exemplo um tanto caricatural, não tenho que
me constranger de utilizar a expressão “ataque cardíaco” para uma morte
deste tipo, ocorrida na antiguidade Greco-Romana ou na Idade Média só
porque os homens de então se referiam a esses males como “mal súbito”
(pressupondo-se que seja possível comprovar, é claro, que é precisamente a
um ataque cardíaco que se referm mesmo as minhas fontes, no caso
estudado). Menos ainda haveria qualquer problema em utilizar a expressão
“crise econômica” – um conceito estabelecido no nível da análise historiográfica, e não no nível das fontes – somente porque os gregos
antigos e os homens medievais não conheciam o emprego da palavra
“crise” para explicitar determinadas situações que ocorrem com as
sociedades humanas 173.
O que não posso é dizer que um determinado grupo de mulheres dessas
épocas, consideradas as suas atitudes de resistência ao controle masculino
em um tempo em que essas resistências não eram esperadas, eram
“feministas”. O erro, neste caso, está em que estou lhes atribuindo uma
categoria de pensamento que só surgiu nas mulheres do século XX – à luz
de uma equivalente conquista de direitos políticos e da obtenção de espaço
social e profissional – e transferindo isto para uma época em que o discurso
feminista simplesmente não existia, ou sequer teria podido existir. O
discurso feminista é datado, e na verdade inseparável das condições de seu
surgimento e perpetuação a partir do século XX. Se quero tentar
compreender as mulheres da Antiguidade e da Idade Média que resistiram à
sociedade misógina de suas épocas, devo tentar perceber como elas viam o
mundo, através de que categorias de pensamentos, a partir de que práticas e
representações. Devo examinar, além disto, a excepcionalidade ou não do
comportamento deste ou daquele grupo, que sentido os componentes deste
grupo atribuíam aos seus próprios discursos. Devo refletir longamente sobre
as suas palavras (que certamente não incluirão a expressão “porco
chauvinista”). Metaforicamente falando, deverei sintonizar neste caso essa
singular estação que é a mulher antiga ou a mulher medieval, sempre com a
consciência de que deverei apreender um idioma estrangeiro, diferente do
meu. Para compreender as mulheres da Antiguidade e da Idade Média, devo
submeter a uma rigorosa análise os próprios conceitos que emergem “no
nível das fontes”, e não pressupor que um conceito de minha própria época,
igualmente histórico e relacionado às maneiras de pensar das mulheres de
hoje, corresponda a uma categoria dada desde sempre e que pode
corresponder aos modos de pensar e de sentir possíveis às mulheres de
todas as épocas.
Muitas vezes os historiadores de nosso tempo, que aprendem desde cedo
na Academia que o maior pecado para um historiador é o do Anacronismo,
quase se sentem tentados a mandar confeccionar um manto medieval para
depois se encerrarem nos seus gabinetes de estudo com uma roupa apropriada para iniciar uma investigação sobre a ordem medieval dos
Templários. Não é isto o que os libertará dos riscos do Anacronismo, e nem
um eventual horror a utilizar categorias teóricas contemporâneas na hora de
analisar uma fonte histórica. Se assim fosse, a própria discussão sobre a
possibilidade de diálogo entre a História e a Psicologia, ou entre a História
e a Semiótica, seria inviável... já que não existiam esses campos de saber
naquelas épocas mais remotas (e já que, rigorosamente, a própria História
não existia da maneira como hoje concebemos esse campo de
conhecimento).
O que o historiador não deve fazer de modo algum, com vistas a evitar os
riscos do anacronismo, é inadvertidamente projetar categorias de
pensamento que são só suas ou de outros homens de sua própria época nas
mentes das pessoas de determinada sociedade ou de certo período. Para
compreender os pensamentos de um chinês da época dos mandarins, terei
de me avizinhar dos códigos que (tanto quanto me for possível perceber)
regeriam o universo mental dos chineses. Esse exercício de compreender o
“outro chinês” é que tem que ser feito. Mas não é a análise que tem de ser
chinesa 174.
Passemos ao próximo item. Toda teoria, para conservar sua eficácia
científica, precisa respirar o ar da liberdade. A ousadia de romper fronteiras
será, consideraremos em seguida, uma qualidade teórica da maior
importância e, como uma indicação importante, podemos salientar a
necessidade de ultrapassar a trava das “fronteiras interdisciplinares
demasiado rígidas” (8). O último século trouxe, com a modernização
acelerada, fenômenos preocupantes para a história do pensamento ocidental
– como a hiperespecialização que isola um profissional, apartando-o duma
vida mais abrangente. Mas também trouxe o instigante fenômeno da
interdisciplinaridade, este convite a romper as fronteiras entre os diversos
campos disciplinares. É sempre importante se ter em mente que os limites
disciplinares foram criações acadêmicas, que trazem eles mesmos a sua
própria história. Deve-se sempre indagar se o seu objeto de estudo, as suas
hipóteses, os seus problemas e os seus objetivos de investigação
acomodam-se bem ou não no interior de uma fronteira disciplinar (ou, mais
grave, intradisciplinar). Romper fronteiras, quando isso é necessário, é também uma opção teórica. “Um rio pode ver-se dividido em fronteiras
nacionais, mas isso não faz dele uma realidade descontínua”175.
Se as fronteiras entre os campos disciplinares podem se enrijecer,
ocasionando a formação, em torno do campo disciplinar, de verdadeiras
camisas de força que já não permitem o estudo de determinados objetos que
mal se acomodam no interior de uma única disciplina, existe ainda um
último enrijecimento que é fatal para o “fluir teórico”. Tal ocorre quando se
dá um enrijecimento interno, e a “teoria” termina por se engessar em
“Doutrina” (9) 176. A conversão de uma teoria em doutrina se dá quando
esta começa a se blindar para além do seu núcleo irredutível (o seu “núcleo
duro”) e a blindagem chega a atingir o nível dos conceitos, que nas teorias
abertas sempre conservam certa flexibilidade e permeabilidade de modo a
realizar adequadamente uma boa mediação entre a teoria e o mundo externo
(a realidade, ou as evidências, para o caso da História). Blindar uma teoria e
transformá-la em doutrina pode ser extremamente pernicioso para a sua
possibilidade de permanecer nos quadros da cientificidade, já que as
aberturas para a crítica externa e para as possibilidades de reformulações
constituem pressupostos indissociáveis da Ciência 177. A blindagem de uma
teoria em doutrina também pode ser compreendida a partir de outra
metáfora, que é a do “encastelamento teórico”.
Uma teoria criada ou desenvolvida de acordo com o mais maleável e
aberto espírito científico pode ser tomada, por determinada escola ou grupo
de teorizadores-doutrinadores, como recanto a partir do qual se edificará o
mais intransponível dos castelos medievais. A princípio são erguidas as
torres, com a sua altivez ameaçadora. Depois começa a surgir um castelo,
com suas espessas paredes teóricas. Em torno dele, cava-se um fosso de
água parada, que logo será habitado por crocodilos prontos a devorar
estrangeiros incautos, com a potente dentição formada pelos seus
“argumentos de autoridade”. Uma sombria ponte levadiça será o único
ponto de contato entre o castelo teórico e o mundo, mas apenas para
permitir a entrada de víveres, daquilo que reforçará a doutrina. Os eventos
que confirmem o que já foi dito serão sempre bem recebidos, como víveres
dos quais dependerá a eterna revitalização da doutrina; os demais, ou serão
ignorados, ou atirados aos crocodilos. No interior do castelo teórico, será observada uma regra mais rigorosa do que a dos beneditinos. Bem
acomodado em uma espécie de altar, e ao invés dos materiais que antes se
prestavam a uma livre reflexão teórica, terá surgido um dogma. As tábuas
de leitura da realidade, instrumentos para se enxergar a complexidade real
de certa maneira e para reelaborar continuamente essa “visão de mundo”
que é a teoria, transformaram-se agora em “tábuas de certezas”, em
mandamentos para serem seguidos e recitados178. Eis uma Doutrina.
Inscritos na pedra, os mandamentos não poderão mais ser questionados e
nem retificados, e aqueles que futuramente insistirem em fazer adaptações
na “Lei” serão, imediatamente, inseridos no “livro dos heréticos” ou
tratados como apóstatas. Contra as teorias rivais, já não se direcionarão
debates científicos, mas sim verdadeiras “cruzadas” e “guerras santas”. Já
no interior da teoria que se converteu em doutrina, reinará doravante a paz
das águas paradas, propícias para o ritual de batismo. O “fetiche do autor”
poderá ser convocado para a cerimônia de sacralização dos sacerdotes da
nova religião. Já nem mais teremos um Castelo, talvez um Templo, com
seus próprios deuses.
O Dogma pode transformar uma boa ciência em má religião. De fato,
“para que haja disciplina é preciso que haja possibilidade de formular, e de
formular indefinidamente, proposições novas” (FOUCAULT, 1996: 30). De
igual maneira, um determinado sistema de ideias não pode sequer se manter
como “teoria”, a não ser que conserve a sua abertura externa e a sua
maleabilidade interna, isto é, “capacidade de adaptação e modificação na
articulação entre os seus subsistemas, assim como a possibilidade de
abandonar um subsistema e de substituí-lo por outro” (MORIN, 1998: 167).
Dessa maneira, existe uma salutar tensão entre a necessidade de uma
“maleabilidade interna” – para aquém da qual a teoria se esclerosa ou se
transforma em doutrina blindada – e a tendência de uma teoria a lutar pela
conservação dos seus pressupostos irredutíveis no seu “núcleo duro”, para
além dos quais ela se desintegraria para desaparecer ou se transformar em
outra formulação teórica (o que também não é necessariamente ruim)179.
De resto, com relação à “abertura externa”, que se mostra uma exigência de
toda teoria no plano científico, podemos lembrar que mesmo as doutrinas
não são inteiramente fechadas, embora, nestas, essa abertura às trocas externas seja extremamente seletiva e só haja assimilação de elementos e
informações que a confirmem 180.
A Doutrina, enfim, também está sujeita a movimentos. Mas como perdeu
a fluidez dos rios, que é típica das teorias, e se tornou um vasto ideário
petrificado, movimenta-se à maneira das grandes placas tectônicas que
existem sob a terra, provocando abalos sísmicos sempre que ocorre algum
deslocamento mais significativo em uma nova direção, e esmagando
concomitantemente os teóricos que perdem o equilíbrio e ficam presos nas
suas fissuras. Particularmente, a doutrina que foi anexada pela má-política,
ou que se pôs a serviço de uma ditadura, ou que foi por esta reesculpida,
pode violentar gravemente a ciência, e em particular a História. A história
da Rússia stalinista e de alguns dos países socialistas sob a égide de
governos autoritários, bem como as suas contrapartidas nos totalitarismos
de direita, fornece-nos um número relevante de exemplos sobre esse
violentar da historiografia a partir do poder ditatorial.
Pode-se ilustrar bem a situação com a historiografia russa da primeira
metade do século XX, quando consideramos as teorias que nessa época se
propunham a refletir sobre o desenvolvimento histórico da Rússia até os
limiares da Revolução de Outubro. Haveria alguma similaridade entre o
desenvolvimeto histórico dos demais países europeus – como a Inglaterra e
a França – e a história dessa “formação histórica” específica que foi a
Rússia czarista? Ou haveria uma significativa originalidade do processo de
desenvolvimento do capitalismo russo? Essa pergunta – teórica por excelên-
cia – iria dar o que falar (e também dar o que calar) na Rússia bolchevique.
Vladimir Ilitch Lenin (1870-1924), o primeiro dirigente da Rússia
socialista, havia elaborado, no período pré-revolucionário, uma obra teórica
sobre O desenvolvimento do capitalismo na Rússia (1899). Nesta enfatizara
aquilo que o desenvolvimento da sociedade e da economia da Rússia –
ainda sob o jugo do czarismo – tinha de especificamente capitalista. Sua
tendência a dar um estatuto de lei geral ao esquema interpretativo que Marx
elaborou em sua análise sobre o desenvolvimento do capitalismo no
ocidente europeu, no célebre capítulo sobre “A acumulação primitiva” de O
capital (1867), aproxima suas conclusões nessa obra às de Plekhanov
(1901). Assim, tanto para Lenin, como para Plekhanov, o desenvolvimento
do capitalismo seria uma precondição necessária para o advento do
socialismo 181. Mais tarde, em 1922, Leon Trotsky (1879-1940), outra
figura de proa do bolchevismo revolucionário dos primeiros tempos, iria
publicar uma obra sobre os movimentos revolucionários da Rússia de 1905
(TROTSKY, 1969), sendo que esse livro enfatizaria, a partir de um viés
bem distinto, a originalidade da formação social russa182.
Nessa época, a doutrina bolchevique – ainda não totalmente encastelada
ou blindada no que se refere à análise histórica – abria ainda discretos
espaços internos para alguma discussão historiográfica, de modo que,
concomitante ao lançamento da primeira edição russa da obra de Trotsky
sobre o “Balanço do movimento revolucionário de 1905”, surgiria uma
análise divergente, encaminhada pelo maior historiador profissional da
Rússia bolchevique: Mikhail Pokrovsk (1868-1932) 183. Este iria criticar
frontalmente as teses de Trotsky acerca da originalidade da formação social
russa. Restabelecendo uma leitura histórica mais próxima à de Plekhanov
(1901) e de Lenin (1899), ao mesmo tempo em que rejeitava
veementemente a ideia de uma originalidade do processo de
desenvolvimento capitalista russo, Pokrovsk iria propor a sua própria
interpretação sobre o desenvolvimento histórico da Rússia. Em suas obras –
tanto teóricas (Teoria da Revolução Proletária) como historiográficas
(Breve História da Rússia) – o historiador chama atenção precisamente para
o desenvolvimento do comércio da Rússia no século XVI, aproximando o
desenrolar da História nesse país àquele que ocorrera na Europa ocidental.
Vinculando-se ao Stalinismo a partir de 1925184, Pokrovsk chegaria a
agregar a sua análise à condenação stalinista que anatemizaria Trotsky
como uma espécie de apóstata do credo bolchevique 185, registrando o
implacável comentário de que “toda a teoria histórica de Trotsky corrobora
o veredicto negativo que o Partido pronunciou sobre o trotskismo”
(BARON, 1974: 393).
Banido Trotsky com suas ideias, as águas não permaneceriam paradas,
todavia, por muito tempo. Logo ocorreria, e não demoraria muito, um novo
movimento teutônico da doutrina bolchevique. Pouco tempo depois da
morte de Pokrovsk, em 1932, o stalinismo promoveria novas adaptações no
mundo historiográfico sob seu controle. Um totalitarismo teórico,
mormente quando atrelado a necessidades políticas, sempre precisa de reajustes. Em 1936, o bloco de pedra se desloca mais uma vez, e o castelo
teórico novamente se organiza. Se a Breve história da Rússia escrita por
Mikhail Pokrovsk (1920), que até então estivera tão bem ajustada ao gesso
doutrinário, havia atendido perfeitamente aos interesses partidários e
doutrinários dos bolchevistas – particularmente nos tempos da execração de
Trotsky – não tardaria que também esta leitura da história russa já não
interessasse mais às novas necessidades políticas. Foi assim que novos
interesses terminaram por se desenhar a partir dos desenvolvimentos
posteriores dos “planos quinquenais” do governo soviético186, uma vez
que estes almejavam colocar em relevo o acentuado atraso econômico da
Rússia pré-revolucionária, em termos de industrialização, por contraste com
as realizações promovidas pelos bolchevistas. A necessidade de uma nova
leitura da realidade pré-revolucionária levaria a obra de Pokrovski a ser
condenada por Stalin em 1936. Com isto, a obra desse historiador russo,
que um dia repousara solenemente no altar historiográfico da doutrina
bolchevique, seria radicalmente banida e passaria a ser submetida à
execração partidária. A Breve história da Rússia precisou ser atirada aos
crocodilos187.
Outro exemplo clássico, ainda no ambiente do stalinismo, pode ser
encontrado na notória imposição de Stalin, para os historiadores russos, de
uma sequência obrigatória de cinco modos de produção188. John Barber,
em seu livro Historiadores soviéticos em crise,1928-1932 (1981), mostra
como o ditador soviético resolvia questões historiográficas diversas a
vigorosos golpes de martelo. Foi assim que o conceito de “modo de
produção asiático”, que até então havia sido tolerado nas estrebarias do
castelo teórico do stalinismo, terminou por ser também atirado, em 1931,
aos crocodilos 189.
De acordo com os movimentos do quadro político soviético, interesses
doutrinários pareciam forçar a escrita da história em certa direção, e mesmo
condenar à morte a historiografia, ou até os próprios historiadores, que não
se adaptassem aos ditames político-doutrinais. Escrever História na Rússia
stalinista, fora dos esquemas propugnados pelo Partido, implicava sair da
história. Literalmente. Para além disto, ao destino da morte historiográfica, mesmo os mortos poderiam não escapar, do que nos dá um macabro
testemunho a sumária execração póstuma do historiador Mikhail Pokrovsk.
Não há muita diferença entre as teorias que são moldadas em doutrinas, a
golpes de marteladas, e aquelas que, tal como serpentes seduzidas por
misteriosas flautas, são forçadas a dançar ao som melodioso do tilintar das
moedas. Assim, para além da coerção através da violência estatal ou de
outros tipos, outra forma de atuar sobre a historiografia para cooptá-la com
vistas a determinadas finalidades é a da coação econômica. Uma polêmica
teórica e historiográfica que ficou bastante conhecida foi trazida por uma
das grandes vagas de discussões sobre o Nazismo, entre os historiadores
alemães. A polêmica, desencadeada em 1998, envolveu o trabalho de
historiadores alemães que haviam sido contratados para escrever a história
empresarial de grandes indústrias alemãs que tinham cooperado com o
Nazismo na época do Terceiro Reich, e até se beneficiado e enriquecido
com o trabalho escravo produzido nos campos de concentração ou com a
implantação de repressão ao estilo nazista contra os seus próprios
trabalhadores. Temendo serem surpreendidas por processos de reparação
pelo trabalho escravo ou pelas práticas repressivas e violentas, ou mesmo
receando a culpabilização criminal de seus dirigentes – isto sem contar os
óbvios receios relacionados às ressonâncias negativas que esses processos
poderiam produzir no mercado consumidor de seus produtos – essas
empresas haviam resolvido antecipar-se ao problema contratando
historiadores conceituados para escreverem a sua “história empresarial”. Na
verdade, o objetivo último era “limpar o seu nome” de qualquer referência à
cooperação ou, pior, à inserção no próprio sistema nazista. A Volkswagen, a
Faber, e mesmo o Deutsche Bank foram alguns desses grandes contratantes
que encomendaram historiografias sintonizadas com os seus próprios
interesses.
Um artigo de Michael Pinto-Duschinsky, publicado em 1998 no Times
Literary Supplement, abalou os meios historiográficos por trazer a nu essa
questão. Seu título era “Vender o Passado” (1998), e sua temática central
girava em torno da denúncia contra historiadores que tinham aceitado o
encargo de elaborar aquelas histórias empresariais manipuladas. O artigo
provocou réplicas dos envolvidos, mas também uma rediscussão sobre a
ética na História. Vemos aqui que as leituras teóricas da realidade histórica, e a própria pesquisa empírica a cargo dos historiadores, não estão apenas
sujeitas ao encastelamento doutrinário; no mundo capitalista, muitas delas
tornam-se produtos negociáveis. Não há ciência envolvida na sua
construção.
Como mostram fartamente exemplos diversos no decurso da própria
história – e particularmente nessa atualidade na qual o poder econômico
parece se fazer acompanhar da máxima de que “tudo tem seu preço” – a
historiografia e a Teoria da História enfrentam, de fato, não apenas o
problema de serem vistas como objetos vendáveis, mas também a
possibilidade de que os próprios historiadores possam ser vistos como
passíveis de serem comprados. De igual maneira, o uso da historiografia
para manipular a sociedade também tem deixado seus registros ao longo da
história. Marc Ferro dá-nos exemplos bastante diversificados sobre A
manipulação da História no Ensino e nos Meios de Comunicação, em uma
série de ensaios interligados que foram publicados com esse título em 1981.
Vamos encerrar esta sessão com alguns comentários sobre um penúltimo
deslize contra o fluir teórico, e que é aquele que fetichiza o próprio
“teórico”, terminando por estabelecer uma “confusão entre o Teórico e o
Real” (10). A Teoria, instrumento e visão de mundo da qual lançamos mão
para compreender a realidade ou determinado aspecto da realidade, é aqui
tomada pelo próprio real. Com essa distorção, estamos no âmbito daquilo
que Whitehead (1925) chamou de “falácia da concretude mal colocada”, e
que consiste em “tomar, por engano, nossas abstrações por realidades
concretas”190. Para a História, esse deslize é extremamente deformador,
pois termina-se por tentar submeter artificialmente, a uma abstração ou
modelo inflexível, a realidade trazida pelas fontes históricas e pelas
evidências. Uma teoria, no caso da História, deve ser reajustada no decorrer
da dialética que se estabelece entre o historiador e suas fontes. Não é a
realidade histórica, ou o conjunto de evidências e fontes com os quais
trabalha o historiador, que devem ser forçados, a todo custo, a se adaptar ao
modelo teórico preestabelecido. A Teoria, assim como o Método, constitui
um caminho que se refaz durante a própria caminhada. O modelo teórico
não é o “alfa e ômega” a ser atingido, mas sim um meio para apreender e
interpretar de certa maneira, e de acordo com determinada perspectiva, a
realidade histórica que constitui a referência a partir da qual trabalha o