Teoria da História I: Princípios e conceitos fundamentais

José D'Assunção Barros · Capítulo 13 de 18

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Teoria da História I: Princípios e conceitos fundamentais

5 Algumas perguntas propostas pela Teoria da História

historiador 191. Ademais, devemos ter sempre em mente que a realidade é

complexa; a teoria, ainda que procure apreender esta complexidade, não é

ela mesma o “real”, mas apenas a “rede” através da qual se busca capturar

algo da realidade complexa192.

Talvez seja oportuno lembrar, neste momento, uma derradeira trava que

pode prejudicar o livre fluir do “teórico”, e que se refere ao que poderíamos

chamar de “Fobia do Erro” (11). A esta fobia também poderíamos nos

referir como a “covardia (ou in-audácia) de apenas usar a teoria mais

segura”. A questão também se refere ao Método, e relaciona-se de alguma

maneira à necessidade de considerar também a prática das “tentativas e

erros”. O conhecimento científico, inclusive a História, se esta puder de fato

ser vista segundo essa perspectiva de cientificidade, também avança a partir

de tentativas, de experimentação no que concerne ao modo de ver e de dizer

as coisas, de aventuras em direção a novas indagações. Muitas dessas

tentativas, experimentações e aventuras podem conduzir a erros. Mas

também não há forma de conhecimento que possa avançar e se desenvolver

senão a partir de erros 193. De igual maneira, almejar o impossível, e se

arriscar pelo mundo das incertezas, também são traços importantes do novo

espírito científico. Existe uma frase que é atribuída a Max Weber e que diz:

“O homem não teria alcançado o possível se, repetidas vezes, não tivesse

tentado o impossível”. É preciso, por fim, para além de errar e de se arriscar

por estranhos caminhos, aprender a violar regras. Com arte. Porque se a

História é uma ciência, é também uma arte.

 

5 Algumas perguntas propostas pela Teoria da História

 

Encerraremos este capítulo lembrando que, se a “Teoria” é um “modo

singular de ver o mundo” – e se as várias “teorias da história” oferecem

visões diversificadas sobre a História como disciplina, ou sobre as

sociedades e processos específicos da história-vivida – estará entre as

principais funções da Teoria da história a formulação de perguntas. Fazer

uma certa pergunta corresponde a ver de uma determinada maneira, ou, ao

menos, abrir um certo horizonte de observação possível. Frequentemente,

uma nova contribuição teórica só se torna possível quando ousamos

formular uma nova pergunta, que até então ainda não havia sido sequer imaginada. Também há aquelas perguntas que sempre acompanharão

determinados campos de saber. Perguntas sobre o próprio campo de saber

em questão, ou perguntas sobre aspectos específicos relacionados aos seus

objetos de estudo.

Os historiadores – no decorrer de sua própria história como sujeitos

produtores de conhecimento – têm lançado incessantemente as mais

instigantes indagações à “História” e sobre a “história” 194. O que vem a

ser, afinal, a “História”, isto é, a própria modalidade de conhecimento que

eles praticam? Como funciona ou se dá a “história”, esta que é o seu vasto

universo de estudos e que, em última instância, também os envolve por

serem eles mesmos homens sujeitos ao próprio devir histórico? Ou, por fim,

como se relacionam uma coisa e outra – a “História” e a “história” –

considerando a primeira como a leitura, a pesquisa e a escrita que são

elaboradas a respeito da segunda, e levando em consideração que a segunda

– a história vivida – também determina a primeira, a História-

Conhecimento?

A História, entre todas as formas de conhecimento, será sempre essa

disciplina – talvez a única com essa singularidade – que é determinada pelo

seu próprio universo de estudos que, aliás, corresponde também ao seu

mesmo nome. Escreve-se História sobre a história; e a história produz a

História. Essa rica ambiguidade, que só pertence à História, situa-nos diante

de uma das mais fascinantes formas de conhecimento e modos de expressão

que já foram inventados pela espécie humana.

Para além das indagações sobre a História e a história, existem aquelas

perguntas que os historiadores costumam fazer sobre si mesmos. O que é,

ou o que deve ser, um historiador? Quais as funções que tomam para si, e as

tentações às quais se rendem, os historiadores? Aprender com o Passado

como pretendia Maquiavel? Decifrar o Futuro como almejavam os filósofos

da história, de Kant a Hegel? Planejar o Presente, como queriam os

positivistas? Registrar a realidade histórica a partir de um ponto de vista,

como praticariam alguns dos historicistas? Transformar a realidade, tal

como desejam os historiadores marxistas e libertários? Escrever a história

dos vencedores, ou dos vencidos? Buscar um novo ângulo de observação,

para enxergar a “História vista de baixo”, tal como propunha Thompson?

Ou contar, com a história, uma boa “estória”, à maneira de alguns dos historiadores pós-modernos? Em relação à memória, como se devem portar

os historiadores? Será sua tarefa dar à memória um tratamento científico,

zelar pelas instituições que a preservam ou que a reconstroem? Ou, como

pensava Walter Benjamin nas suas Teses sobre a Filosofia da História

(1940), seria a sua principal missão produzir uma “contramemória dos

vencedores”, reacendendo as centelhas dos tempos perdidos? 195

 

Quadro 9. Algumas questões sobre a História

 

A Teoria da História propõe-se a muitas indagações, entre as quais

postularemos algumas, apenas para estabelecer um princípio de reflexão

(Quadro 9). As “teorias da história” (o Positivismo, o Historicismo, o

Materialismo Histórico e tantas outras), assim como os diversos

historiadores na sua singularidade, têm arriscado algumas respostas com

relação a estas mesmas indagações. Não existem respostas únicas, ou

respostas mais corretas em relação a suas alternativas. Se a História se

modifica com a própria história, e se quem faz a História são os

historiadores – enriquecidos por suas singularidades e por suas formas de

diálogo ou de pertencimento em relação às “teorias da história” vigentes ou

aos multidiversificados quadros conceituais que lhes são oferecidos – serão sempre possíveis novas respostas às perguntas mais tradicionais que têm

sido feitas sobre a “História” e a respeito da “história”.

Mais ainda, será sempre possível a formulação de novas perguntas. A

tábua de questionamentos que foi sintetizada no Quadro 9 é apenas proposta

como um campo de reflexões iniciais. No decorrer dos demais volumes

desta obra entraremos em contato com respostas possíveis, já formuladas

por alguns historiadores e pensadores da História, e perceberemos também

que algumas perguntas levam a novas perguntas 196. Com este espírito de

quem levanta indagações e questionamentos sobre si mesmo e sobre a

própria vida, sigamos adiante.

101. Quando intitulamos o presente livro como Teoria da História, é este sentido mais geral que temos em vista, correspondendo ao mesmo sentido que é empregado nos currículos de Graduação em História para a denominação de uma disciplina específica como Teoria da História. Para isto, retornar à discussão já encetada no início deste capítulo. Se a disciplina Teoria da História procurará lançar luz sobre os modos como se concebe a História, habituando o historiador em formação a lidar com “conceitos”, com “hipóteses”, ou com questões como as relações da História com o “tempo”, o “espaço” e a “memória”, já a disciplina “Metodologia da História” deve se ater principalmente a aspectos pertinentes ao “fazer da História”, sobretudo os que se referem à pesquisa histórica propriamente dita e à interação do historiador com as suas fontes.

102. O texto-manifesto que inaugura formalmente a Teoria Crítica foi escrito por Max Horkheimer em 1937, intitulando-se “Teoria Tradicional e Teoria Crítica”. Depois disto, seguem-se textos importantes de Adorno, Marcuse, Walter Benjamim, Habermas e outros filósofos ligados à Escola de Frankfurt. A Dialética do Esclarecimento (1944), escrita conjuntamente por Adorno e Horkheimer, é talvez o texto mais representativo das propostas da Teoria Crítica.

103. Entre as obras produzidas pelos frankfurtianos que combinam mais audaciosamente o Marxismo e a Psicanálise, iremos encontrar em Eros e civilização (1955), de Herbert Marcuse (1898-1979), um marco significativo.

104. A referência para os fundamentos dessa corrente são os textos de Louis Althusser reunidos na coletânea Pour Marx (1965).

105. Se bem que, como uma influência constante, o pensamento de Foucault remete à crítica do conhecimento e da racionalidade ocidental solitariamente inaugurada no século XIX por Friedrich Nietzsche (1844-1900). Seria possível pensar um paradigma crítico a partir de Nietzsche, que depois irá ser adotado por alguns autores do século XX, para além do próprio Michel Foucault, tais como Gilles Deleuze (1925-1995), Félix Guattari (1930-1992) e Jacques Derrida (1930-2004). Entre os historiadores, o paradigma de crítica ao racionalismo ocidental, que se estabelece com Nietzsche, irá influenciar – principalmente através da obra de Michel Foucault – nomes como o de Hayden White (n.1928), Paul Veyne (n. 1930) e Michelle Perrot (n. 1928). Alguns situam Foucault também na linha de influência do Pós-Modernismo. Mas é ainda nebulosa a possibilidade de se falar em um Paradigma Pós-Moderno, uma vez que o Pós-modernismo Historiográfico parece englobar um certo número de tendências que eventualmente podem ser conflitantes umas em relação a outras.

106. Essas “teorias” mais específicas que se referem a processos particulares que ocorreram na história devem ser abordadas, no quadro curricular do Ensino de Graduação em História, nas diversas disciplinas de conteúdo (História Antiga, História Medieval, História Moderna, História da América, História da África, e assim por diante). Desse modo, a Teoria da História, para efeito de organização curricular de cursos de Graduação, deve se concentrar principalmente neste “olhar sobre si” que deve ser exercido constantemente pelos historiadores (o que não impede que temas específicos possam ser tomados para mostrar como os historiadores costumam estender uma infinidade de olhares diferenciados sobre os mesmos conjuntos de acontecimentos).

107. Para um quadro de teorias interpretativas clássicas sobre o Fascismo, cf. De Felice, 1976.

108. Tzvetan Todorov (n. 1939), filósofo e linguista búlgaro, tem utilizado a perspectiva Semiótica para examinar temáticas diversas, sempre orientadas para a questão da “alteridade” (isto é, questões relacionadas ao “outro” e ao confronto entre culturas radicalmente distintas). A sua própria situação como migrante búlgaro radicado na França desde 1963 o coloca no centro de uma visão de mundo preocupada com a alteridade e com a intolerância contra o outro, o que explica contextualmente alguns de seus interesses teóricos, tal como os expressos no seu ensaio Sobre a diversidade humana (1993). Alguns de seus livros, em especial A conquista da América (1982), tornaram-se clássicos nos meios historiográficos.

109. Voltaremos a esse exemplo quando falarmos sobre as “Hipóteses na História”, no volume VI.

110. Na Teoria Política de Maquiavel, o principado corresponde ao Reino; mas a República abarca tanto a aristocracia como a democracia, que na Teoria Política de Aristóteles apareciam como formas políticas separadas. Esse exemplo é interessante para mostrar como diferentes teorias podem agrupar de modos diversos os mesmos objetos, produzindo visões de mundo – no caso do mundo político – inteiramente diferenciadas.

111. Sobre Max Weber e a História, cf. Diehl, 2004; Colliot-Thélène, 1995. Para um perfil intelectual de Weber, cf. Bendix, 1985. Para a Teoria Política de Weber, cf. Beetham, 1974.

112. Giambattista Vico (1668-1744), por exemplo, ainda que reconhecendo as três formas políticas clássicas previstas por Aristóteles, acrescenta a sua própria contribuição teórica ao distinguir três tipos de autoridade – Monástica, Econômica e Civil – que explicariam o desenvolvimento das sociedades humanas desde o seu estado primitivo. A esta Teoria das Formas Políticas Vico acrescenta a sua própria visão da história: um desenvolvimento ao mesmo tempo cíclico e progressivo, no sentido de que, apesar das eventuais repetições, em um arco mais amplo o destino do homem poderia ser visto como a gradual elevação de um estado bestial até a melhor forma de governo. Uma teoria política como esta, enfim, introduz uma certa visão da história, distinta de outras possíveis. Para uma introdução ao pensamento de Vico, cf. Burke, 1997.

113. Montesquieu (1689-1755), já escrevendo no período da crítica iluminista (O espírito das leis, 1748), irá propor uma leitura do mundo político em termos de três governos: “republicano”, “monárquico” e “despótico”. De maneira análoga ao que ocorre na teoria política de Maquiavel, a “aristocracia” e a “democracia” são apontadas como subdivisões de uma única forma política, no caso a “república”. Mas a sua ênfase está na necessidade de chamar atenção para o governo despótico, aquele em que um só tirano arrasta todo o mundo político a partir de sua vontade e de seus caprichos. Hegel, na sua “filosofia da história”, irá retomar as mesmas formas políticas propostas por Montesquieu e dar a elas a sua própria ordenação histórica, cumprindo notar que esse filósofo alemão enxerga na monarquia prussiana uma situação ideal. Assim, o Despotismo será associado ao mundo oriental, a República ao mundo antigo, e a Monarquia ao mundo moderno.

114. Há nuances teóricas que devem ser firmadas entre os conceitos de Ditadura, contraposto ao conceito de Democracia, e de Totalitarismo. As ideias de “democracia” e de “ditadura” relacionam-se à ocorrência de consentimento (ou não) entre os governados e seus governantes (o que se pode dar de maneira independente em relação à aparência de democracia que pode ser forjada, para o caso de ditaduras como a exercida por Saddam Hussein entre 1979 e 2003). Quanto à ideia de “totalitarismo”, esta se refere não apenas ao fato de que o consentimento se acha rompido entre o governo e grande parte dos governados (o que nem sempre ocorre), mas sobretudo à amplitude da esfera de interferência do governo totalitário na vida de cada um de seus governados. Podemos iluminar o contraste entre as três formas a partir da questão da “restrição da liberdade em regimes autoritários, a abolição da liberdade política em tiranias e ditaduras, e a total eliminação da própria espontaneidade, isto é, da mais geral e elementar manifestação de liberdade humana, à qual somente visam os regimes totalitários, por intermédio de seus diversos métodos de condicionamento” (ARENDT, 2009: 133). É assim que, na ditadura comunista da Coreia do Norte da segunda metade do século XX, passam a ser estabelecidos regulamentos que prescrevem até mesmo o estilo adequado de cortes de cabelo, e na Alemanha de Hitler, quando se torna explícito o Totalitarismo, a suástica do partido nazista termina por se transformar, sintomaticamente, na própria bandeira da Alemanha. Podemos também recorrer à imaginação literária para encontrar modelos de totalitarismo, como aquele que é trazido pelo governo do “Grande Irmão”, no livro 1984 de George Orwell (1948). Para uma análise sobre as Origens do Totalitarismo, cf. Arendt, 1989.

115. A Revue Hsitorique, que se tornou o principal instrumento difusor de ideias da Escola Metódica, fora fundada por historiadores franceses de duas gerações: a de antigos positivistas como Taine e Renan, e a dos novos metódicos, que já combinavam a influência positivista a certos elementos historicistas, sendo possível citar entre seus componentes mais destacados Monod, Lavisse e Seignobos. A Escola Metódica, através de sua Revue Historique, privilegiava ideias republicanas e, conforme Carbonell e Livet (1983: 135), combatia os monarquistas, católicos e aristocratas, que se agrupavam por sua vez em uma outra revista da época, a Revue des Questions historiques. Sobre a Escola Metódica, cf. Reis, 1996.

116. Sobre A micro-história italiana, cf. o livro de Espada Lima, 2006.

117. Edgar Morin, não tanto refletindo sobre os “paradigmas” no sentido proposto por Kuhn, mas se referindo ao que denominou “sistemas de ideias”, assim se expressa: “Com a força do caráter autoritário e da pretensão monopolista, uma teoria, mesmo científica, tende sempre a recusar um desmentido dos fatos, uma experiência que lhe seja contrária, uma teoria mais bem argumentada. Por isso é raro que seja suficiente, para a desintegração de uma teoria, uma experiência decisiva ou um argumento “imbatível”. É necessária uma longa série de provas acumuladas das suas carências e insuficiências e também o aparecimento de uma nova teoria mostrando uma grande pertinência. Assim, na história das ciências, as teorias resistem dogmaticamente como doutrinas, mas, finalmente, a regra do jogo competitivo e crítico leva-as a emendarem-se, depois a retirar-se para o grande cemitério das ideias mortas” (MORIN, 1998: 166).

118. No capítulo “A invisibilidade das revoluções”, do livro A estrutura das revoluções científicas (1962), Kuhn discorre sobre o papel dos manuais científicos na difusão desta ideia de continuidade atrelada a uma longa tradição científica, mais povoada por sucessivas acumulações do que por rupturas: “Sendo os manuais veículos pedagógicos destinados a perpetuar a ciência normal, devem ser parcial ou totalmente reescritos toda vez que a linguagem, a estrutura dos problemas ou as normas da ciência normal se modifique. Em suma, precisam ser reescritos imediatamente após cada revolução científica e, uma vez reescritos, dissimulam inevitavelmente não só o papel desempenhado, mas também a própria existência das revoluções que os produziram”. Mais adiante, prossegue Kuhn: “Deste modo, os manuais começam truncando a compreensão do cientista a respeito da história de sua própria disciplina e em seguida fornecem um substituto para aquilo que eliminaram” (KUHN, 2007: 177). A história da historiografia nos oferece uma interessante situação inversa. Os principais artífices do movimento dos Annales, na primeira metade do século XX – Marc Bloch, Lucien Febvre e Fernando Braudel – bem como os historiadores que reivindicam sua herança na Nouvelle Histoire, sempre se empenharam em colocar em relevo o caráter revolucionário dos Annales, e até em exagerar sua ruptura em relação a correntes historiográficas anteriores. Construiu-se mesmo certa mística em relação a esse caráter revolucionário dos Annales, cultuada em ensaios de historiadores ligados ao grupo (cf. BRAUDEL, 1972: 467 e também os diversos artigos em FEBVRE, 1953). Outro exemplo clássico é a leitura do movimento dos Annales proposta por Pierre Chaunu em seu livro História, Ciência Social. Para ele, a História – a verdadeira História – nasce apenas em 1929, e “o que é anterior tem [somente] valor de documento” (CHAUNU, 1974: 101). Com relação à não progressividade da história das ciências naturais, inclusive considerando a ideia de ruptura que seria depois retomada por Thomas Kuhn, esta também já havia sido bem analisada por Gastón Bachelard em meados do século XX. Sobre isto, cf. o ensaio Le materialisme rationnel (1953: 209-217). De igual maneira, há outras contribuições importantes de Bachelard a serem consideradas neste e em outros ensaios, tal como por exemplo a referência, em Formação do Espírito Científico, aos “obstáculos epistemológicos” que vão surgindo no próprio ato de conhecer (1938).

119. O próprio Thomas Kuhn, em um artigo posterior intitulado “As ciências naturais e as ciências sociais”, dá mostras de ter se tornado consciente dessa diferença. O ensaio foi incluído na coletânea de textos intitulada O caminho desde a estrutura (2006: 265-273), e contrasta com as posições de Kuhn por ocasião da publicação de seu famoso livro A estrutura das revoluções científicas (1962). Uma passagem dessa obra, em particular, ilustra o posicionamento de Thomas Kuhn. Depois de mostrar como os vários campos de saber e âmbitos de estudos relacionados às ciências exatas e naturais vão passando à fase mais amadurecida marcada pela tendência ao predomínio de um paradigma único, Kuhn assim se refere às ciências sociais “Permanece em aberto a questão a respeito de que áreas da ciência social já adquiriram tais paradigmas. A história sugere que a estrada para um consenso estável na pesquisa é extraordinariamente árdua” (KUHN, 2007: 35).

120. Quando não efetiva, essa ideia de englobamento é frequentemente estimulada pelos manuais científicos como tábua de leitura da própria história de seu campo de conhecimento. Nesse sentido, Thomas Kuhn considera que alguns fatores que afetam a comunidade científica tendem a consolidar, nos candidatos a pesquisadores de certa especialidade, uma “falsa ideia de linearidade” na evolução de seu campo de estudos, de modo que se estabelece um fundo de operações menos flexível que lhes impinge certas certezas acerca do tipo de conhecimento mais correto. Vai se formando então a crença em um certo modo de pensar que seria o correto, em determinados valores verdadeiros, o que termina por favorecer nos praticantes uma certa resistência às mudanças que, apesar disto, terminarão por ocorrer. Quando as explicações para os fenômenos que se apresentam começam a ser contraditadas pelas novas realidades, ou quando outras explicações concorrentes são apresentadas em eventos científicos e começam a encorpar as tendências a serem aceitas por um número cada vez mais significativo de cientistas, quando a maior parte das práticas começa a aderir às teorias mais recentes e adotam novos procedimentos metodológicos, que antes não eram aceitos, logrando alcançar resultados científicos mais satisfatórios, percebe-se que está praticamente instalado um novo paradigma.

121. No capítulo “Resposta à crise” de seu ensaio, Thomas Kuhn (2007: 115) chega a mostrar como é perturbador para os físicos e químicos o período de crise paradigmática, no qual concorrem vários paradigmas na sua disputa pela hegemonia teórica de um campo científico. Em suas “notas autobiográficas”, Einstein assim se refere ao período que precede a maturação da Teoria do Campo Eletromagnético de Maxwell, e depois o desenvolvimento dos princípios de Heisenberg, que permitiriam à Física sair da confusão paradigmática de fins do século XIX: “Foi mesmo como se o solo debaixo de nossos pés tivesse sido retirado, sem que nenhum fundamento firme, sobre o qual se pudesse construir, estivesse à vista” (EINSTEIN, 1949: 45). Muito antes dele, vivendo a crise paradigmática de sua própria época, Copérnico havia comparado o campo disciplinar da Astronomia do século XVI a um “monstro” montado com partes incoerentes entre si (KUHN, 1957: 138). Já entre historiadores, e cientistas humanos e sociais, de modo geral, a “confusão paradigmática” é absolutamente o estado normal das coisas, e todo historiador, sociólogo ou antropólogo já aprende desde cedo a respirar confortavelmente no redemoinho no qual se embatem as diversas teorias e modelos.

122. Assim discorre Thomas Kuhn sobre a questão, referindo-se aos campos da Física e da Química: “Em um sentido que sou incapaz de explicar melhor, os proponentes de paradigmas competidores praticam seus ofícios em mundos diferentes. Um [o mundo físico dos aristotélicos] contém corpos que caem lentamente; o outro [o mundo físico de Galileu], pêndulos que repetem seus movimentos sem cessar. Em um caso, [já se referindo à Química] as soluções são compostos; no outro, misturas. Um encontra-se inserido numa matriz de espaço plana [o cientista associado ao paradigma newtoniano]; o outro, em uma matriz curva [os cientistas relativistas que adotam o ponto de vista de Einstein]. Por exercerem sua profissão em mundos diferentes, os dois grupos de cientistas veem coisas diferentes quando olham de um mesmo ponto para a mesma direção” (2007: 192).

123. Com perdão da metáfora, poderíamos imaginar um campo disciplinar associado ao universo das ciências sociais e humanas como um sistema solar no qual, em torno da matriz disciplinar fixa, gravitam os grandes planetas paradigmáticos. Mas seria preciso imaginar que haveria também aqueles que habitam “ilhas espaciais” situadas entre dois planetas, e que tomam emprestadas características de dois ou mais mundos, e outros mais que preferem viver solitariamente em pequenos meteoros errantes. E há ainda os que não possuem pouso fixo, e que vivem em trânsito. De todo modo, seja para viver em um dos planetas paradigmáticos, ou entre eles, ou em nenhum deles, todos os habitantes desse universo metafórico estariam habituados a este “viver entre mundos”. Aqui, não seria possível fazer boa carreira sem falar certo número de idiomas teóricos, ou sem dominar uma “arte da tradução” que possibilite efetivamente a comunicação entre os pares e planetas teóricos.

124. Nas ciências exatas, a conversão da comunidade científica ao novo paradigma dá-se, comumente, não através do somatório das adesões de cada cientista. Geralmente a comunidade científica vai aderindo ao novo paradigma através da sucessão de duas ou mais gerações. Thomas Kuhn registra o seguinte depoimento de Max Planck: “uma nova verdade científica não triunfa convencendo seus oponentes e fazendo com que vejam a luz, mas porque seus oponentes finalmente morrem e uma nova geração cresce familiarizada com ela” (PLANCK, 1949: 33-34; KUHN, 2007: 193). Da questão da “conversão”, Kuhn trata no cap. 11 de seu livro.

125. Esclareceremos esse ponto no penúltimo item do presente capítulo.

126. Esta solução conceitual – utilizada para evitar dois usos distintos que haviam sido empregados no livro A estrutura das revoluções científicas (1962) – é introduzida por Thomas Kuhn no “Posfácio” de 1969, que o autor acrescentou a esse mesmo livro (KUHN, 2006: 228). Nesse Posfácio, Thomas Kuhn justifica a escolha do termo: “‘Disciplinar’ porque se refere a uma posse comum dos praticantes de uma disciplina particular. ‘Matriz’ porque é composta de elementos ordenados de várias espécies, cada um deles exigindo uma determinação mais pormenorizada” (KUHN, 2006: 228-229). Segundo Kuhn, a “Matriz Disciplinar” é uma espécie de patrimônio ou repertório de recursos partilhados por todos os praticantes de um determinado campo disciplinar, e se constitui de alguns tipos de componentes, os principais dos quais seriam: (1) as “generalizações simbólicas” (na verdade postulados ou expressões empregados pelos praticantes do campo sem discussão ou dissensão; (2) crenças; (3) valores e (4) exemplares (modelos que instruem os aprendizes de uma ciência).

127. Jörn Rüsen (n. 1938), historiador e teórico ligado ao moderno Historicismo alemão, a cujas obras voltaremos algumas vezes em vista da acuidade de suas reflexões teóricas sobre a História, dedicou-se amplamente ao estudo de diversos dos campos que aqui nos interessam: a Teoria da História, a Metodologia da História, a Historiografia, e o Ensino de História. Sua primeira obra significativa foi sua tese de doutorado, defendida em 1966, na qual estudou aspectos teóricos relacionados à obra do historiador oitocentista Johan Gustav Droysen. No Brasil, suas obras mais conhecidas são aquelas que constituem a sua famosa trilogia dedicada à Teoria da História: razão histórica (1983); Reconstrução do passado (1986) e História viva: formas e funções do conhecimento histórico (1989). A reflexão sobre o Ensino de História desenvolvida por Rüsen encontra seu ponto alto em O ensino de História: fundamentos e paradigmas (1994). Da mesma forma, as reflexões de Rüsen sobre historiografia, além de Estudos de Meta-história (1993), renderam uma obra igualmente notória em parceria com Friedrich Jaeger, intitulada História do historicismo: uma introdução (1992).

128. No cap. I do vol. 2 delimitaremos o conjunto de fatores mínimos que correspondem, nos dias de hoje, ao núcleo duro da “Matriz disciplinar da história”, tal como esta veio se constituindo desde o século XIX.

129. Thomas Kuhn se refere a alguns casos como este, no momento em que discute os problemas de linguagem e tradução que estão envolvidos na comunicação entre os membros de certas comunidades científicas: “Uma vez que as palavras em torno das quais se cristalizam as dificuldades foram parcialmente apreendidas a partir da aplicação direta de exemplares, os que participam de uma interrupção da comunicação não podem dizer: ‘utilizei a palavra ‘elemento’ (ou ‘mistura’, ‘planeta’, ou ‘movimento livre’) na forma estabelecida pelos seguintes critérios” (KUHN, 2007: 250).

130. O ensaio Dialética negativa foi escrito em 1966 por Adorno (1903-1969), um dos representantes da Escola de Frankfurt. Sobre o uso do conceito de Dialética Negativa no pensamento dos vários frankfurtianos, que buscam trabalhar com uma dialética da “não identidade”, bem como respeitar o diferente, o dissonante, e mesmo o “inexpressável”, cf. Buck-Morss, 1982.

131. Sobre um panorama crítico para várias possibilidades de sentidos modernamente atribuídos ao conceito de “ideologia”, o autor remete a Naess et al., 1956: 143ss.

132. Essa questão é também tangenciada por Thomas Kuhn no “Posfácio” de 1969 para o ensaio Estrutura das revoluções científicas: “Em suma, o que resta aos interlocutores que não se compreendem mutuamente é reconhecerem-se uns aos outros como membros de diferentes comunidades de linguagem e a partir daí tornarem-se tradutores” (KUHN, 2007: 251). Clássicos para as questões que envolvem a tradução são os livros Mundo e objeto (1965), e Teorias e coisas (1960), de W.O. Quine.

133. Discussão notória sobre isto, empreendida por historiadores diversos, é que indaga se a chamada Escola dos Annales introduziu na historiografia ocidental um novo paradigma (GEMELLI, 1987; STOIANOVITCH, 1976), ou mesmo vários novos paradigmas (REVEL, 1979). Também José Carlos Reis é favorável à ideia de que os Annales introduzem um novo paradigma, no caso relacionado a uma nova forma de tratamento do tempo (REIS, 2000: 15). A essas questões voltaremos no quinto volume.

134. Os historiadores franceses ligados à “História Nova”, por exemplo, organizaram algumas coletâneas de ensaios sobre as diversas modalidades da História, sendo dois dos mais conhecidos a coletânea La nouvelle Histoire (1978), organizada por Jacques Le Goff, e a coletânea Faire de l’Histoire (1974), organizada por Pierre Nora e Le Goff. Essas coletâneas constituem, hoje, fontes importantes para a própria história da historiografia, já que refletem um contexto específico que é o da passagem da era dos grandes paradigmas historiográficos para um novo momento na história da historiografia, trazido pelas últimas décadas do século XX. Procurando abarcar um circuito historiográfico para além da França, o historiador inglês Peter Burke fez algo similar com a coletânea A escrita da História (1992). Há ainda coletâneas de ensaios sobre uma única modalidade, como a História Cultural ou a História Política. Foi o caso, e aqui damos apenas dois dos muitos exemplos, do livro organizado por Lynn Hunt sob o título A nova História Cultural (1992), ou da coletânea Por uma nova História Política, organizada por René Remond (1988). No Brasil temos na coletânea Domínios da História (1997), organizada por Ciro Flamarion Cardoso e Ronaldo Vainfas, um bom exemplo do interesse pelo estudo das modalidades da história. De nossa parte, abordamos o tema em O campo da História (2009, 7ª edição).

135. Pierre Bourdieu (1930-2002) é considerado o maior sociólogo francês das últimas décadas do século XX, tendo-se dedicado a campos diversificados de estudo, que vão desde a vida rural, nas primeiras obras, até dimensões fundamentais da vida contemporânea, tais como as relações de gênero (A dominação masculina, 1990). Suas contribuições conceituais aos estudos da Cultura e da Política, em obras como O poder simbólico (1990), entraram definitivamente para o repertório teórico de estudos sociológicos, antropológicos e historiográficos, fornecendo conceitos como o de “habitus”, “capital cultural”, “poder simbólico”, “violência simbólica”, ou como o próprio conceito de “campo”, aqui evocado. O estudo das relações do Capitalismo com o Ensino, uma temática privilegiada por Bourdieu, foi encontrar em diversas obras a parceria de Jean-Claude Passeron, a começar pelo notório estudo intitulado A reprodução – Elementos para uma Teoria do Sistema do Ensino (1970). As relações do “simbólico” com aspectos como o poder, a violência, a revolução artística, os campos científicos de conhecimento, constituíram outro nítido campo de interesses.

136. A proposta de uma “teoria geral dos campos” é encaminhada por Pierre Bourdieu no ensaio O Campo Científico (1976) e mais particularmente no livro As regras da arte – gênese e estrutura do campo literário (1992). O sociólogo francês retorna ao tema de maneira particularmente esclarecedora na conferência publicada com o título Os usos sociais da ciência – por uma sociologia clínica do campo científico (1997). Nesta última obra encontraremos a seguinte passagem, particularmente expressiva: “Todo campo, o campo científico, por exemplo, é um campo de forças e um campo de lutas para conservar esse campo de forças. Pode-se, num primeiro momento, descrever um espaço científico ou um espaço religioso como um mundo físico, comportando as relações de força, as relações de dominação” (BOURDIEU, 2003: 22-23). Em outra passagem, Bourdieu esclarece: “A noção de campo está aí para designar esse espaço relativamente autônomo, esse microcosmo dotado de suas leis próprias” (2003: 21).

137. Discutiremos essa matriz disciplinar específica no vol. 2. Mas desde já pode ser consultada a “Figura X”, que expõe visualmente aqueles aspectos que são inerentes ao trabalho de todo historiador, independente de suas escolhas paradigmáticas e de suas alternativas teóricas.

138. A metáfora do “campo” pode reenviar, como vimos, àquele espaço no qual se estabelece um jogo com regras definidas (um “campo de futebol”, por exemplo). Mas a essa metáfora do “campo” como canteiro podemos contrapor outra, que é a do “campo eletromagnético”, naquele mesmo sentido em que a representaram os físicos modernos. O “campo” existe quando existe uma corrente; e é uma espécie de depósito de energia (EINSTEIN & INFELD, 1938: 123). Metaforicamente, um campo histórico existe quando os historiadores trabalham continuamente com certos objetos, abordagens ou outros aspectos a ele pertinentes. Não é algo que existe isoladamente como um canteiro geográfico que possa ser visitado de vez em quando. Mais ainda, os campos interagem entre si, e é na sua confluência que os objetos historiográficos se constituem.

139. No limite, conforme argumentam Gilles Deleuze e Félix Guattari, pode-se pensar um livro para muito além da sua autoria, até um ponto em que podemos dissolvê-la de modo a enxergar o livro de uma nova maneira: “Um livro não tem objeto nem sujeito, é feito de matérias diferentemente formadas, de datas e velocidades muito diferentes. Desde que se atribui um livro a um sujeito, negligencia-se esse trabalho das matérias e a exterioridade de suas correlações” (DELEUZE & GUATTARI, 1995: 11 [original: 1980]).

140. Em 1928, Marc Bloch publicaria, na Revue de Synthèse Historique, um artigo intitulado “Pour une histoire comparée des sociétés européenes” (BLOCH, 1928: 15-50). Mas antes disto já havia realizado o seu primeiro grande estudo de História Comparada com a obra Os reis taumaturgos (1924), que examina um fenômeno específico relacionado ao imaginário da realeza através da comparação entre as sociedades medievais da França e da Inglaterra. Existe ainda outro texto pertinente de Bloch acerca da “Comparação” em História (1930). Sobre Mark Bloch, cf. Fink, 1995.

141. Para além da consideração relativa às pressões externas que afetam um campo, é importante também ter em vista o outro polo da questão, para o qual Pierre Bourdieu chama atenção em suas reflexões sobre uma “teoria geral dos campos”, sintetizadas em Os usos sociais da Ciência (1997): “Este capital [o “capital científico”, que é possuído pelos integrantes mais notórios de determinado campo de saber], pertencente a um tipo inteiramente particular, repousa, por sua vez, sobre o reconhecimento de uma competência que, para além dos efeitos que ela produz e em parte mediante esses efeitos, proporciona autoridade e contribui para definir não somente as regras do jogo, mas também suas regularidades, as leis segundo as quais vão se distribuir os lucros nesse jogo, as leis que fazem que seja ou não importante escrever sobre tal tema, que é brilhante ou ultrapassado” (BOURDIEU, 2003: 27).

142. Para um estudo mais acurado sobre este tema, cf. Barros, 2004.

143. Convocar a Civilização Greco-romana para a História do Ocidente, aliás, constitui já um ponto de vista teórico, e também ideológico. Há uma certa maneira de ver as coisas que permite escolher o mundo Greco-romano como uma das bases civilizacionais do Ocidente Cristão.

144. América Portuguesa, por exemplo, foi o nome que um historiador no século XVIII – Rocha Pitta – preferiu para designar, em 1730, essa vasta extensão sob o domínio português que, mais tarde, daria origem ao Brasil independente (1976).

145. Sobre os primórdios da noção de uma “idade média sombria”, nos escritos de Petrarca, um estudo de referência é o de T.E. Mommsen, 1942: 226-242.

146. A expressão “idades médias”, ou “tempos médios”, já aparece no século XV com os humanistas italianos Leonardo Bruni (c.1374-1444) e Flávio Biondo (c.1362-1493); e, antes dele, conforme já foi ressaltado, Petrarca se referira aos “tempos sombrios” que se situavam entre a Antiguidade Greco-Romana e os novos tempos que começavam a retomar mais enfaticamente as referências da Antiguidade Clássica. Mas o uso da expressão “Idade Média” como claro designativo de um período de tempo a ser inserido em uma estrutura tripartida para a compreensão da história pode ser mesmo atribuído ao erudito alemão Christoph Cellarius, que já divide a sua História Universal nos períodos “Antigo”, “Medieval” e “Novo”.

147. Também a tendência a pensar nos séculos como unidades de sentido histórico tem a sua história, como tão bem assinala Reinhart Koselleck: “[...] a partir do século XVII eles [os séculos] adquirem cada vez mais pretensões históricas próprias. Passam a ser entendidos como unidades coerentes de sentido. O século do Iluminismo já é pensado assim pelos contemporâneos, estando consciente, por exemplo em Voltaire, de ser diferente do século de Luís XIV” (KOSELLECK, 2006: 283).

148. Na Alemanha, Alois Riegl, com seu livro sobre a arte nos últimos tempos da Roma Antiga (Arte Tardo-romana), foi dos primeiros a popularizar o conceito de Spätantike (“Antiguidade Tardia”). Mais recentemente, o historiador irlandês Peter Brown (n.1935) consolidou o uso do conceito na língua inglesa, com os livros The World of Late Antiquity (1971) e The Making of Late Antiquity (1978). Para Brown, a “Antiguidade Tardia” não corresponderia a um período de declínio, mas a um tempo de recomeços, de novas redefinições sociais e culturais que, ainda assim, poderiam ser localizadas dentro dos quadros da Idade Antiga.

149. Os processos e eventos sinalizadores da Idade Moderna, muito evocados para a delimitação desse período, são vários, entre os quais a (1) Reforma – que institui definitivamente um mundo cristão dividido em várias igrejas, quebrando de uma vez por todas a pretensão de controle papal sobre toda a religiosidade cristã – bem como (2) o fortalecimento das monarquias absolutas, (3) o deslocamento, em relação ao eixo marítimo principal, do Mediterrâneo para o Atlântico, (4) a expansão europeia através das grandes navegações, com a subsequente conquista das Américas, e (5) a mundialização através do comércio de longo alcance. Outro evento importante, que chegou mesmo a ser estabelecido como marco, foi (6) a tomada de Constantinopla pelos turcos, colocando um fim no Império Bizantino, que persistira e resistira durante todo o período medieval, e firmando as fronteiras da expansão islâmica contra a cristandade. Em termos do paradigma apoiado no Materialismo Histórico, (7) o declínio do “modo de produção feudal”, apesar de suas persistências até períodos avançados do Antigo Regime, permite que por essa mesma época de transição se entreveja a formação de um modo de produção capitalista, ainda em sua fase mercantilista.

150. Na historiografia europeia, convencionou-se pensar nos marcos da Revolução Francesa e do movimento de Independência Americana como sinalizadores iniciais de um novo período que seria chamado de “História Contemporânea”. Embora sejam sinalizadores carregados de eurocentrismo, e mesmo de franco-centrismo, a escolha do período iluminista mais radical como marco inicial da contemporaneidade encontra respaldo na percepção de que os iluministas, e particularmente os homens envolvidos com as lutas revolucionárias na França, passaram a incorporar um sentimento intenso de que estavam fazendo história no seu próprio tempo presente, sendo já personagens de uma nova era. De modo geral, mesmo os historiadores fora da França e em período posterior não questionaram a validade desse marco ou de uma distinção entre a “história contemporânea” e a “história moderna”. Koselleck, no capítulo “Modernidade” de seu Futuro passado (1979), registra as seguintes observações sobre Ranke: “Ranke, enquanto ensinou, sempre de novo se referia à ‘história dos tempos mais recentes’ ou ‘história contemporânea’ que, dependendo da temática, ele fazia começar com o velho Frederico [rei da Prússia] ou com a Revolução Francesa ou a Americana. Só quando falava da história que lhe era contemporânea é que se desviava do uso linguístico tradicional, chamando-a de ‘história de nosso tempo’” (KOSELLECK, 1979: 281). Prenuncia-se então, também aqui, um novo conceito que seria o da “História do Tempo Presente”. Com relação ao “sentimento do novo” entre os europeus do final do século XVIII, é também Koselleck (p.180) quem traz à luz esta passagem de H.G.M. Köster, escrita em 1787 para o verbete “História” da Enciclopédia Alemã: “quase toda a Europa ganhou uma configuração totalmente diferente [...] e quase aparece nesta parte do mundo uma nova raça de homens” (KÖSTER. Deutsche Encyclopedie, 1787, p. 657). De resto, cumpre observar que a passagem da Idade Moderna para a Idade Contemporânea tem como processo distintivo importante o advento da Era Industrial.

151. Sobre isto, Paul Veyne faz uma interessante observação: “Uma vez que todo acontecimento é tão histórico quanto um outro, pode-se dividir o campo factual com toda liberdade. Como se explica que ainda se insista em dividi-lo tradicionalmente segundo o espaço e o tempo, “história da França” ou “o século XVII”, segundo singularidades e não especificidades? Por que ainda são raros livros intitulados: “O Messianismo revolucionário através da História?”, “As Hierarquias Sociais de 1450 a nossos dias, na França, China, Tibet e URSS” ou “Paz e guerra entre as nações”, para parafrasear títulos de três obras recentes? Não seria uma sobrevivência da adesão original à singularidade dos acontecimentos e do passado nacional?” (VEYNE, 1982: 42).

152. O notório debate sobre A Condição Pós-moderna, introduzido por Lyotard (1979), e logo criticado por Jameson (1984) e outros autores marxistas, insere-se nesse quadro de reflexões sobre a Crise dos Paradigmas, conforme veremos no vol. 7 desta série.

153. Esse fetiche teorizante a que estamos nos referindo como uma “adesão burocrática à Total Coerência de um sistema preestabelecido”, corresponde àquilo que, em sua obra O Método (1991), Edgar Morin destacou como uma “disposição do sistema a fechar-se em sua armadura lógica, que assim se torna racionalizadora”. Logo adiante, continua o filósofo francês: “Racionalidade e Racionalização têm o mesmo tronco comum: a busca de coerência. Mas, enquanto a racionalidade está aberta ao que resiste à lógica e mantém o diálogo com o real, a racionalização integra à força o real na lógica do sistema e crê então possuí-lo” (MORIN, 1998: 171).

154. “Imiscibilidade” = impossibilidade de misturar certa coisa com outra.

155. “Não há uma só regra que seja válida em todas as circunstâncias, nem uma instância a que se possa apelar em todas as situações” (FEYERABEND, 1989: 279).

156. Nietzsche, em certa passagem de Ecce Homo (1888) – uma espécie de grande memorial no qual o filósofo alemão analisa suas obras e entretece comentários sobre a repercussão futura das mesmas – registra uma frase significativa: “tenho um medo horrível de que um dia me proclamem santo”. Também é atribuída a Karl Marx a frase: “A única coisa que eu sei é que eu não sou marxista”. Em carta a C. Schmidt, de 5 de agosto de 1890, Engels emnciona este dito de Marx, e esclarece que o filósofo alemão o proferiu para se referir a certos “marxistas franceses” do final dos anos 1870, os quais, paradoxalmente, estavam evocando a concepção materialista histórica [à maneira de argumento de autoridade] como “pretexto para não estudar história”.

157. Friedrich Nietzsche (1844-1900) – filósofo alemão que produz solitariamente, na segunda metade do século XIX, a sua singular obra de crítica à longa tradição do racionalismo ocidental desde Sócrates ou Platão e até autores modernos como Hegel e Kant – foi se tornando cada vez mais atual a partir do século XX. Além da contumaz crítica contra a razão clássica e contra posicionamentos filosóficos voltados para a busca de uma “verdade absoluta”, foi também um contumaz crítico do Cristianismo (O anticristo, 1888), e das correntes filosóficas idealistas e moralistas (Aurora, 1881; Para além do bem e do mal, 1886; Para a genealogia da moral, 1887). O caráter radicalmente crítico de sua filosofia levou a que muitos autores o considerassem “niilista” (mesmo sendo esta uma corrente bastante criticada por Nietzsche) ou “irracionalista” (LUKÁCS, 1952). De outra parte, Nietzsche apresenta sua filosofia como uma enfática “afirmação da vida” (O eterno retorno, 1881). Além disto, apesar de seus inúmeros críticos, também influenciou filósofos e autores vários, de Heidegger (2007) a Foucault, Deleuze e Derrida. Através da contribuição de Michel Foucault, que se situa em linha direta em relação ao pensamento de Nietzsche, sua influência se estende a historiadores como Paul Veyne e Hayden White. Com relação ao estilo de Nietzsche, ocupam especial destaque em sua obra os textos curtos e os “aforismos” – sentenças, produzidas na confluência da filosofia e da criação literária, que buscam sintetizar uma ideia particularmente emblemática, tal como ocorre em A gaia ciência (1882). Já em Assim falou Zaratustra (1883-1885), o filósofo alemão explora a criação de uma narrativa poético-literária que parodia o Antigo e o Novo Testamentos como caminho para filosofar sobre assuntos diversos. Uma síntese de todas as ideias de Nietzsche, e das críticas aos diversos aspectos que rejeitava na cultura ocidental, pode ser encontrada em O crepúsculo dos ídolos (1888), uma de suas últimas obras antes de ser acometido de insanidade mental. O título dessa obra, aliás, é uma paródia ao título do drama musical O crepúsculo dos deuses, de Richard Wagner, um compositor com quem Nietzsche havia nutrido fortes afinidades à época de sua primeira obra completa – O nascimento da tragédia no espírito da música (1872) – e de quem terminou por se tornar ferrenho opositor na época em que escreveu O Caso Wagner (1888) e Nietzsche contra Wagner (1888). Para uma biografia sobre Nietzsche, cf. Halévy, 1989; para estudar o seu pensamento, Vattimo, 1990; Losurdo, 2009.

158. Para um dos impactantes textos de Nietzsche que, entre inúmeros ensaios mais desenvolvidos, encaminham uma crítica do conhecimento, ver a célebre Consideração intempestiva que traz o título “Sobre a verdade e a mentira no sentido extramoral” (1873), na qual o filósofo alemão fala sobre a invenção do conhecimento a partir de uma imagem cósmica: “Em algum recanto perdido deste universo que se expande no brilho de incontáveis sistemas solares houve, certa vez, um astro em que animais inteligentes inventaram o conhecimento. Este foi o minuto mais arrogante e mais mentiroso da história do mundo, mas não passou de um minuto. Após uns poucos suspiros da natureza, o astro congelou e os animais inteligentes tiveram de morrer. [...] Essa é a fábula que alguém poderia inventar, e mesmo assim não teria ilustrado suficientemente o modo lamentável, vão, fugidio, sem sentido e sem importância com que o intelecto humano se apresenta no meio da natureza”. Michel Foucault comenta o texto em sua palestra A verdade e as formas jurídicas (2003: 13).

159. Para um texto de rara beleza poética que expõe a aversão de Nietzsche aos discursos igualitários, cf. a passagem “Das Tarântulas”, da Segunda Parte de Assim falou Zaratustra (1883-1885) [1985: 112-115].

160. Assim se refere o escritor Isaac Asimov, ironicamente, ao uso do argumento de autoridade pelos chamados criacionistas, que combatem teorias como a da Origem das espécies (1858), de Darwin: “A Bíblia diz que Deus criou o mundo em seis dias e a Bíblia é a palavra de Deus inspirada. Para o criacionista médio é tudo o que importa. Todos os outros argumentos são apenas um meio tedioso de combater a propaganda de todos aqueles perversos humanistas, agnósticos e ateus que não estão satisfeitos com a clara palavra do Senhor” (AZIMOV, 1981). O “argumento de autoridade” pretende bastar a si mesmo, e dispensar toda a argumentação dedutiva e demonstração empírica como se uma determinada afirmação proferida por certa autoridade ou fonte inquestionável adquirisse peso inconteste de Lei. Em que pese que o “argumento de autoridade” seja frequentemente evocado no âmbito religioso, também o encontraremos na Ciência, sempre que achamos suficiente citar o que disse um grande autor para encerrar uma argumentação que deveria se desenrolar através de dedução e demonstração empírica, de discussão teórica sistemática e refinamento conceitual.

161. Sobre isto, cf. Morin, 1998: 170.

162. No cap. I do vol. 3 (Materialismo Histórico) teremos oportunidade de discutir alguns exemplos de como certas proposições científicas de Marx foram convertidas, por alguns autores, em postulados de validade universal ou transformadas em ossatura para uma doutrina. Karl Korsch (1886-1961), em Marxismo e Filosofia (1923), chama atenção para o fato de que certas proposições que aparecem nos textos de Marx estariam associadas a determinado contexto e voltadas para certo campo de análise ou de aplicação. Contudo, teriam sido convertidas por autores posteriores em princípios de validade geral. Seria o caso de algumas análises de Marx relacionadas à “ascensão e desenvolvimento do capitalismo na Europa Ocidental”, que depois foram elevadas a uma instância de validade geral por Plekhanov (1901) e Lenin (1914). Conforme assinala Josep Fontana (2004: 321-322), o próprio Marx, em sua correspondência (Cartas russas), teria expressado restrições ao uso generalizado ou esquemático de análises suas que apenas se referiam a processos históricos particulares (seria o caso do cap. 24 de O capital (1867), que aborda o processo de “Acumulação Primitiva” que se dá especificamente na Europa Ocidental (MARX, 2004), mas que nunca pretendeu constituir-se em fórmula aplicável ao desenvolvimento histórico de todas as outras sociedades. É ambém uma crítica contra a ossificação de algumas correntes marxistas aquela que Sartre desenvolve em Crítica da razão dialética (1960).

163. O texto de Carl Sagan traz o instigante título de “A arte refinada de detectar mentiras” (1995: 232-252), e procura rastrear uma série de “falácias argumentativas”.

164. Para uma biografia sobre Louis Althusser, cf. Moulier-Boutang, 1992. A Autobiografia [“Les Faits”] acompanha a edição de 1992 de L’avenir dure longtemps [1985].

165. Em A Escola dos Annales (1990: 27), Peter Burke mostra como a nova Universidade de Estrasburgo, situada também em uma cidade renovada (recentemente desanexada da Alemanha em favor da França com o fim da 1ª Guerra), oferecia por isso mesmo “um ambiente favorável à inovação intelectual”. Foi nesse ambiente que surgiu a conexão entre Marc Bloch e Lucien Febvre, preparando o advento do movimento dos Annales, um dos mais renovadores para a historiografia contemporânea. O próprio Peter Burke, em uma nota de rodapé, presta depoimento similar a respeito de sua atuação na nova universidade de Sussex, um ambiente intelectual igualmente novo e efervescente do qual ele mesmo participou nos anos 1960.

166. Diz o texto original de Marx: “A miséria religiosa constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma. A religião é o ópio do povo. A abolição da religião enquanto felicidade ilusória dos homens é a exigência da sua felicidade real. O apelo para que abandonem as ilusões a respeito da sua condição é o apelo para abandonarem uma condição que precisa de ilusões. A crítica da religião é, pois, o germe da crítica do vale de lágrimas, do qual a religião é a auréola” (MARX, 2005: 146-147 [original: 1943]). Na verdade, a comparação da religião com o ópio, seja depreciativamente ou valorativamente, já aparece em outros autores, como Kant, Feuerbach, Bruno Bauer, Moses Hess e Heinrich Heine que, já em 1840, teria empregado essa metáfora valorativamente ao dizer: “Bendita seja uma religião que derrama no amargo cálice da humanidade sofredora algumas doces e soporíferas gotas de ópio espiritual, algumas gotas de amor, fé e esperança”. Sobre isso, cf. Löwi, 2006.

167. Embora profundamente comprometido com a leitura social proporcionada pelo paradigma do materialismo histórico, inclusive nos aspectos relacionados à práxis e ao envolvimento nos processos de transformação social, Paulo Freire declarava-se católico e estava francamente associado a entidades de caráter religioso, tal como o Conselho Mundial das Igrejas – CMI. Para uma biografia de Paulo Freire, cf. Gadotti, 1996.

168. Em outro momento desse mesmo texto (“Sobre a verdade e a mentira no sentido extramoral”, 1873), acrescenta Nietzsche: [alguns conceitos são] “ilusões, das quais se esqueceu de que o são, metáforas que se tornaram gastas e sem força sensível, moedas que perderam sua efígie e agora só entram em consideração como metal, não mais como moedas” (NIETZSCHE, 1974: 56).

169. Sobre o uso historiográfico de conceitos, cf. Prost (2008: 115-131) e Koselleck (1990: 97-118).

170. No cap. I do vol. 3, no qual abordaremos o Materialismo Histórico, veremos que alguns dos mais criativos historiadores que se associaram a esse paradigma historiográfico – tal como foi o caso de Edward Thompson – souberam se libertar do uso estagnado de certas imagens, como por exemplo a famosa metáfora da “base que determina a superestrutura”. A metáfora da “base” de um edifício, utilizada por Marx como imagem, metáfora livremente criada, havia sido convertida em um conceito “ósseo e ortogonal” por alguns dos continuadores de Marx. Thompson e outros historiadores da Escola Inglesa de historiadores marxistas souberam submeter a eficácia dessa imagem à crítica, dessacralizá-la, enfim. Para a crítica da Escola Inglesa à metáfora da “infraestrutura”, cf. Thompson (2001: 254-255), e o ensaio Marxismo e literatura, de Raymond Williams, 1971.

171. Paul Veyne registra as seguintes observações sobre isso, no seu ensaio “A Histórica Conceitual”, escrito para a coletânea Faire de l’histoire organizada em 1974 por Pierre Nora e Jacques Le Goff: “Acontece então, frequentemente, que este ou aquele conceito novo conheça um sucesso de voga, e acredita-se encontrá-lo por toda a parte: houve um tempo em que se encontrava em todos os lugares uma burguesia ascendente, na França de Luís XVI como na Inglaterra de Cromwell, na Roma de Cícero e no Japão de Tokugawa; descobriu-se em seguida que essa nova chave não entrava em tantas fechaduras senão forçando-as, e que ainda seria necessário forjar novos conceitos para essas outras fechaduras” (VEYNE, 1988: 71 [original: 1974]).

172. “Toda história é contemporânea [...] considerando mais de perto, até esta história já formada, a que chamamos ou gostaríamos de chamar história ‘não contemporânea ou passada’, se é realmente história, isto é, se tem algum sentido e não é um eco vazio, é também contemporânea, e em nada difere da outra. [...] pois é evidente que só um interesse pela vida do presente pode nos levar à investigação de um fato do passado” (CROCE, 1920: 53-65).

173. A expressão “crise econômica”, como observa Antoine Prost em suas Doze lições sobre a História (1996: 116), foi somente empregada pela primeira vez por Ernst Labrousse, em seu clássico livro A crise da economia francesa ao fim do Antigo Regime e no princípio da Revolução (1944).

174. A argumentação desenvolvida nos últimos parágrafos foi extraída de um livro anterior: O campo da História (BARROS, 2004: 51-53).

175. A frase também é de Feyerabend, 1989: 260.

176. Às vezes, há consciência em alguns autores de que já não se está mais falando de uma “teoria”, mas sim de uma “doutrina”. Lenin chega a definir o Marxismo como “o sistema das ideias e da doutrina de Marx” (1914).

177. Sobre a diferença entre “teoria” e “doutrina”, e para um exemplo da metáfora da blindagem, cf. Morin, 1996: 168.

178. A transformação de uma teoria em dogma encerra a sua vida como teoria. Naquela espécie de metamorfose ao avesso, à qual já nos referimos, a teoria perde seu poder de voo e se transforma de borboleta em larva. Podemos lembrar aqui as palavras de Edgar Morin em um dos ensaios do livro A inteligência da complexidade (1999): “Uma teoria é científica não porque ela é certa, mas, ao contrário, porque ela aceita ser refutada, seja por razões lógicas, seja por razões experimentais ou de observações. Isto é, uma teoria científica não é o substituto, num mundo laico, da verdade teológica e religiosa. É o contrário!” (MORIN, 2000: 39).

179. A esse respeito, podemos reter, ainda, algumas das oportunas palavras de Edgar Morin, no quarto volume de O método (1998: 167): “Assim, uma teoria aceita a crítica no quadro filosófico, mas é no quadro científico que deve admitir o princípio da sua biodegradabilidade: uma teoria aberta é uma teoria que aceita a ideia da sua própria morte”.

180. Ou, como ressalta Edgar Morin: “As trocas entre a doutrina e o mundo empírico são rarefeitas. Mas nem por isso a doutrina é totalmente fechada. Ela assegura as trocas mínimas selecionando unicamente o que lhe traz confirmação” (MORIN, 1998: 168). Por isto, em nossa metáfora sobre o “encastelamento teórico”, o papel do pesado portão de ferro que eventualmente se transforma em “ponte levadiça”.

181. No período pré-revolucionário russo havia também a corrente que, ao contrário da proposta bolchevique, considerava que o socialismo russo deveria se desenvolver no ambiente da tradicional comuna camponesa. Deste modo, essas proposições teóricas – tanto a de Lenin como a de seus opositores – devem ser também compreendidas no contexto das lutas pela liderança do movimento revolucionário russo.

182. A lentidão das mudanças socioeconômicas e o caráter arcaico e primitivo da sociedade russa, no período que precede os movimentos revolucionários de 1905, seriam, de acordo com Trotsky, as principais marcas de sua originalidade: “Se comparamos o desenvolvimento social da Rússia com o de outros países da Europa – destacando os fatores comuns que constituem seus traços gerais mais distintivos e que distinguem sua história da história russa – poderemos dizer, por comparação, que a principal característica do desenvolvimento social da Rússia é sua lentidão e seu caráter relativamente primitivo” (TROTSKY, 1969: 397-398).

183. Mikhail Pokrovsky (1868-1932), desde os primeiros anos do governo bolchevique e até a sua morte em 1932, foi o principal nome da historiografia soviética oficial. Bolchevique desde 1905, iria confluir para o típico exemplo do “historiador orgânico”, vinculado ao Estado. Ocupou importantes cargos no Partido Bolchevique: foi presidente do “Soviet de Deputados e Soldados” de Moscou logo após a revolução de Outubro de 1917, e em seguida foi nomeado vice-comissário para a Educação, cargo que ocupou entre 1918 a 1932. Além disso, foi o primeiro diretor do “Instituto de Professores Vermelhos”, e também o primeiro presidente da “Sociedade de Historiadores Marxistas”. Em 1925, adere à corrente stalinista; mas em 1936, quatro anos após sua morte, seria execrado pelo Partido juntamente com sua obra historiográfica, que foi banida dos horizontes teóricos aceitos pela doutrina bolchevique sob o rótulo de “sociologismo vulgar”.

184. Lenin havia falecido em janeiro de 1924, e seu poder foi em seguida partilhado por um triunvirato formado por Kamenev, Zinoiev e Stalin, com plenos poderes sobre o Estado e a Organização Partidária. Entre os triúnviros, contudo, seria Josef Stalin (1878-1953) – secretário-geral do partido que controlava a admissão e exclusão de seus militantes – quem progressivamente passou a usufruir de maior poder e autoridade.

185. Trotsky é expulso do Partido Bolchevique em 1927, exilando-se logo em seguida. Para uma biografia crítica abordando as três fases de relacionamento de Trotsky com o poder bolchevique, cf. Deutscher, 1984, 3 vols.

186. Os planos quinquenais iniciam-se em 1928, e estendem-se até 1989, com a desagregação soviética.

187. Comentários a respeito da execração póstuma do trabalho historiográfico de Pokrovsk podem ser encontrados em Fontana, 2004: 310.

188. A Teoria das Etapas Necessárias e Inevitáveis do Desenvolvimento Histórico remonta a uma obra que Engels escreveu um ano após a morte de Marx: A origem da família e da propriedade privada e do Estado (1884). Nessa obra, entre outros aspectos, Engels já desconsidera o conceito de “modo de produção asiático”, que havia formulado conjuntamente com Marx, e categoriza as sociedades orientais como “comunidades gentílicas” que precederiam historicamente o modo de produção escravista da Antiguidade. A partir daí, começa-se a pensar em uma evolução necessária da história, o que não estava de acordo com o pensamento de Marx.

189. Ocorreram duas reuniões de orientalistas soviéticos, uma em Tiflis (1929) e outra em Leningrado (1931), como preparação para a condenação definitiva do velho conceito marxista de “modo de produção asiático”. Nesse debate, venceu a proposição de se considerar como “variantes asiáticas do feudalismo” uma série de sociedades orientais para as quais até então se admitia a possibilidade de serem enxergadas sob o prisma do conceito de “modo de produção asiático”. A cristalização definitiva do esquema da sucessão de modos de produção – incluindo este e outros lances das novas imposições teóricas – foi registrada pelo próprio Stalin em seu livro Materialismo Dialético e Materialismo Histórico (1938). Quanto ao conceito de “modo de produção asiático”, nos anos 1960 reabriram-se discussões sobre o mesmo. Sobre a controvérsia do modo de produção asiático, cf. Sofri, 1977; Gebran, 1978; Cardoso, 1990.

190. Essa falácia também é examinada por Edgar Morin, em seus comentários sobre “Idealismo e racionalização” (MORIN, 1998: 172).

191. É com vistas a destacar a diferença entre a “realidade” e o “modelo teórico” criado na pesquisa que Max Weber assim se refere aos “tipos ideais” – recurso teórico-metodológico por ele desenvolvido: “Obtém-se um tipo ideal mediante a acentuação unilateral de um ou vários pontos de vista, e mediante o encadeamento de grande quantidade de fenômenos isoladamente dados, difusos e discretos, que se podem dar em maior ou menor número ou mesmo faltar por completo, e que se ordenam segundo os pontos de vista unilateralmente acentuados, a fim de se formar um quadro homogêneo de pensamento. Torna-se impossível encontrar empiricamente na realidade esse quadro, na sua pureza conceitual, pois se trata de uma utopia. A atividade historiográfica defronta-se com a tarefa de determinar, em cada caso particular, a proximidade ou afastamento entre a realidade e o quadro ideal [...] Ora, desde que cuidadosamente aplicado, esse conceito cumpre as funções específicas que dele se esperam, em benefício da investigação e da representação” (WEBER, 1904).

192. Etimologicamente, a palavra “complexidade” (complexus) remete a “entrelaçado”, “trançado juntos”, “torcido junto”. As discussões em torno dos desenvolvimentos de uma Teoria da Complexidade remontam a meados do século XX, com um artigo de Warren Weaver intitulado “Ciência e complexidade” (1948). Antes dele, seria preciso considerar também as proposições de Gastón Bachelard, com O novo espírito científico (1938). Em 1962 teríamos um artigo de Herbert A. Simon, que marcou sua posição no debate: “A Arquitetura da Complexidade” (1962). Entre outros ensaios, a complexidade dos seres vivos seria abordada por Henri Atlan em Entre o cristal e a fumaça, no qual se examina a criação da ordem a partir da desordem no mundo natural. Por fim, teremos a vasta obra de Edgar Morin (n. 1921), entre as quais os seis volumes de O método (1973-2005), o ensaio Ciência com consciência (1984), e a coletânea A inteligência da complexidade (1998). Cf. tb. Dupuy, 1982; Stengers, 1987; Prigogine e Stenger, 1988.

193. A questão é discutida por autores diversos, entre os quais Paul Feyerabend, em Contra o método (1975), e Edgar Morin, em Sete saberes necessários para a educação do futuro (2000).

194. No decurso deste livro deixaremos por estabelecida essa convenção neste momento: estaremos sempre entendendo a História, com “H” maiúsculo, como a disciplina e o campo produção de conhecimento que é elaborado pelos historiadores a respeito da realidade vivida em épocas diversas e que lhes chega através das fontes históricas. Em contrapartida, convencionaremos grafar “história”, com “h” minúsculo, sempre que estivermos nos referindo à história-processo, à história-vivida, isto é, a essa realidade humana que o historiador examina e sobre a qual reflete, de modo a produzir um tipo de texto bastante específico, que de modo geral é o produto final de seu ofício.

195. “Como não lembrar aqui das Teses sobre filosofia da história, de Walter Benjamin, autor que, vivendo o dilaceramento das identidades trazido pela complexificação da sociedade moderna e pela aceleração da temporalidade chamada progresso, vítima daquilo que Harvey chamará de compressão espaçotemporal, só ampliada em nosso tempo, vai pensar a tarefa do historiador como a de um garimpeiro de esperanças em meio a cinzas, como aquele responsável por produzir uma contramemória dos vencedores, como aquele comprometido a reacender as pequenas brasas que restassem do calor das refregas e das batalhas que se travaram no passado e que, recobertas de poeira, já não mais cintilavam, nem causavam perigo?” (ALBUQUERQUE JR., 2007: 87). Sobre a compressão do espaço-tempo, cf. Harvey, 2003: 257-276.

196. Propomos ao leitor que tente responder, antes de avançar na leitura dos próximos capítulos deste livro, a algumas das perguntas propostas. E que faça o mesmo ao final da leitura, já com o conhecimento mais amplo da Teoria da História. Suas respostas não terão necessariamente se modificado (o que será bem possível). Mas certamente terão sido abertas perspectivas mais ricas em torno delas.

 

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