Teoria da História I: Princípios e conceitos fundamentais

José D'Assunção Barros · Capítulo 4 de 18

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Teoria da História I: Princípios e conceitos fundamentais

I A teoria e a formação do historiador

I

 

A teoria e a formação do historiador

 

1 Uma “disciplina” – Entendendo como funcionam os diversos

campos de saber

 

O ponto de partida para nossas reflexões refere-se à própria “constituição

de um campo disciplinar”. Não nos referiremos especificamente ao campo

disciplinar da História, ainda, mas a 1 qualquer “campo disciplinar”. O que

significa falar de um certo conjunto de práticas, concepções e objetos de

estudo como um campo específico de conhecimento, ou como uma

“disciplina” (no sentido científico)? Nosso olhar aqui – independentemente

de tratarmos da História ou da Geologia, da Química ou da Medicina, da

Antropologia ou do Direito – não poderá deixar de ser o olhar do

historiador. Isto porque todo “campo disciplinar”, seja qual for, é histórico,

no sentido de que vai surgindo ou começa a ser percebido como um novo

campo disciplinar em algum momento, e que depois disso não cessa de se

atualizar, de se transformar, de se redefinir, de ser percebido de novas

maneiras, de se afirmar com novas intensidades, de se reinserir no âmbito

dos diversos campos de produção de conhecimento ou de práticas

específicas2. Um campo disciplinar é histórico mesmo no que se refere às

suas regras, que podem ser redefinidas a partir de seus embates internos, em

alguns casos. “O campo é um jogo no qual as regras do jogo estão elas

próprias postas em jogo” (BOURDIEU, 2003: 29)3.

O Quadro 1 orientará a nossa reflexão relativamente aos diversos

aspectos que envolvem ou estão envolvidos na constituição e afirmação de

um campo disciplinar de saberes e práticas, bem como relativamente às

suas constantes transformações. Começaremos por aquilo que é, de certo

modo, um evidente lugar-comum: toda disciplina é constituída, antes de mais nada, por um certo “campo de interesses” (1), o que inclui desde um

interesse mais amplo que define esse campo como um todo, até um

conjunto mais privilegiado de objetos de estudo e de temáticas a serem

percorridas pelos seus praticantes (ou de desafios a serem enfrentados, para

o caso dos campos disciplinares que, tal como a Medicina, envolvem uma

prática, mais ainda do que uma reflexão teórica e uma pesquisa).

Pode ocorrer que certas ciências ou disciplinas partilhem inclusive um

determinado interesse em comum (por exemplo, o interesse das chamadas

“ciências humanas” pelo estudo daquilo que é humano), mas é também fato

que em certo nível de profundidade surge sempre, para que se possa falar

em uma disciplina com identidade própria, algum tipo de singularidade, o

que nos levará ao próximo item. Assim, a História, que tem em comum com

a Antropologia, com a Sociologia ou com a Psicologia o estudo do Homem

– e que, portanto, partilha com essas ciências alguns de seus objetos de

estudo – a certa altura deverá ser definida como a ciência que coloca no

centro de seu campo de interesses “o estudo do 4 homem no tempo ”. Os

objetos da história – isto é, o seu “campo de interesses” – em que pese que

pareçam coincidir em um primeiro momento com os objetos possíveis das

demais ciências sociais e humanas, serão sempre objetos “historicizados”,

“temporalizados”, marcados por uma atenção à mudança em alguns de seus

níveis.

Quadro 1. Constituição de um campo disciplinar

 

Pode-se dar também que o centro de interesses de uma disciplina esteja

situado em uma confluência, em uma conexão de saberes, e este é

certamente o caso da Astrofísica, da Medicina Penal, da Filosofia da

Ciência, ou de qualquer outra disciplina que, por vezes em seu próprio

nome, não deixa dúvidas com relação ao caráter híbrido de sua esfera mais

direta de interesses. A essa questão voltaremos oportunamente, e desde já

cumpre observar que o conjunto de interesses temáticos de uma disciplina,

particularmente no que se refere aos seus desdobramentos e possibilidades

de objetos de estudo, também está sujeito a transformações no decorrer de

sua própria história.

Seguindo adiante, uma consequência imediata do que se disse aponta

para o fato de que cada disciplina possui a sua Singularidade (2), aqui

entendida como o conjunto dos seus parâmetros definidores, ou como

aquilo que a torna realmente única, específica, e que justifica a sua

existência – em poucas palavras: aquilo que define a disciplina em questão

por oposição ou contraste em relação a outros campos disciplinares5.

Polarizando, será preciso entender o fenômeno inverso: embora cada campo

de saber apresente certamente uma singularidade que o faz único e lhe dá

identidade, não existe na verdade um só campo disciplinar que não seja

construído e constantemente reconstruído por diálogos (e oposições)

interdisciplinares. Queiram ou não os seus praticantes, toda disciplina está

mergulhada na Interdisciplinaridade (7), questão à qual voltaremos

oportunamente. Ademais, para se constituir no seio de uma rede já existente

de saberes, todo novo campo de saber deve enfrentar duras lutas com

campos já estabelecidos, nas quais frequentemente se verá inserido em uma

verdadeira disputa territorial, ou pelo menos em uma partilha

interdisciplinar, além de enfrentar o desafio de mostrar a capacidade e

potencialidade para se posicionar com eficácia diante de antigos e novos

problemas que as disciplinas mais tradicionais também já vêm enfrentando

com seus próprios métodos e aportes teóricos. Dessa maneira, pode-se dizer

que o processo de surgimento de um novo campo disciplinar adquire, por

vezes, muito mais a aparência de uma verdadeira luta que se dá no interior

da arena científica do que a aparência de um parto. E essa luta, bem como

os laços de solidariedade que também se estabelecem entre os novos e antigos campos de saber, dão-se todos no seio de uma intensa e necessária

interdisciplinaridade, diante da qual o que é novo tem de se apresentar

diante do conhecimento já estabelecido e por vezes institucionalmente já

consolidado6.

Não é raro, aliás, que um novo campo de saber surja a partir de certos

desdobramentos de um campo disciplinar já existente, ou que se desprenda

desse campo original adquirindo identidade própria, ou mesmo que o novo

campo disciplinar se forme a partir de elementos dispersos oriundos de

vários outros campos. Podemos, a título ilustrativo, trazer o exemplo da

Biologia. Essa expressão, que logo daria origem à designação desse campo

de estudos hoje tão conhecido, foi cunhada em 1800 pelo médico alemão

Karl Friedrich Burdach (1776-1847), e dois anos depois seu significado foi

aperfeiçoado e fixado pelo naturalista alemão Gottfried Treviranus

(SCHILLER, 1968: 64). Todavia, até fins do século XVIII, a maior parte do

“objetos de interesse” que hoje são específicos da Biologia, bem como

certos aspectos que constituem hoje a sua “singularidade”, estavam na

verdade espalhados em outros campos de saber, tais como a Medicina –

notadamente naquelas de suas especialidades que estudavam a “anatomia” e

a “fisiologia” humana – a Botânica (muito praticada, então, pelos médicos

interessados em conhecer os potenciais curativos das ervas naturais) e a

História Natural, que era na época praticada por pesquisadores os mais

diversos, tais como os geólogos, que procuravam inserir a história dos seres

vivos na História da Terra, e os teólogos, que se preocupavam em mostrar

como a natureza estava perfeitamente ajustada à ideia religiosa da criação

divina (MAYR, 1998: 53). Treviranus (1776-1837) viu a necessidade de

constituir um estudo unificado de todos os seres vivos (plantas e animais)7,

e sua nova maneira de ver as coisas foi logo acompanhada pelo naturalista

francês Jean-Baptiste de Lamarck (1744-1829). Pode-se dizer que, desde

então, aqueles elementos de estudo que hoje são vistos como tipicamente

“biológicos”, e que antes estavam a cargo de outros campos de saber,

começaram a migrar para formar este novo campo disciplinar que hoje é

claramente definido como “Biologia”. Mas isto foi acontecendo aos poucos,

no decorrer do século XIX (cf. MENDELSOHN, 1965), até que o novo

campo disciplinar se visse perfeitamente consolidado 8.

A Biologia nos fornece um exemplo de campo disciplinar que se origina

a partir de elementos antes dispersos e que recolhe seus objetos de interesse

de outras áreas de estudo, até que, a partir daí, cria algo novo, uma nova

“singularidade”. Há também campos disciplinares que são literalmente

produzidos em uma interconexão. A Musicoterapia – campo disciplinar que

procura explorar as potencialidades terapêuticas da música – surge a partir

do Pós-guerra, na conexão entre a Medicina e a Música. Pode ocorrer ainda

que dois campos de saber separados se agrupem para formar um só,

fortalecendo-se mutuamente a partir de uma unidade. A dinâmica de

transformações no vasto universo que abarca os campos disciplinares

produz um eterno movimento: novos campos podem surgir, e outros

desaparecer; uns podem se desprender de outros, e alguns podem se formar

do casamento entre duas ou mais perspectivas disciplinares. Há também o

caso das “refundações”, e essa ideia parece ser bem adequada para entender

a história da História, uma vez que esta correspondia a um campo de

práticas e expressões já milenar quando, a partir de fins do século XVIII e

inícios do XIX, será como que “refundada” (WEHLING, 2006: 175) para se

constituir como “historiografia científica”, sem deixar, aliás, de incorporar

nessa operação elementos dispersos, tal como logo veremos no vol. 2 desta

série. A partir dessa refundação, e da consolidação do estatuto do

“historiador profissional”, pode-se dizer que a História passa de um

conjunto de práticas muito diversificadas – da história dos cronistas à dos

antiquários, dos filósofos da história e dos teólogos – para a formação de

uma “matriz disciplinar” mais bem definida, conforme veremos

oportunamente.

Em terceiro lugar, para considerar mais uma dimensão integrante de

qualquer campo disciplinar, será preciso ressaltar que a história do

conhecimento científico e da modernidade tem sido tal que, ao desenvolver

ou ultrapassar certo nível de complexidade, cada campo de saber começa a

gerar especializações e desdobramentos internos – campos

intradisciplinares (3), por assim dizer. Se um campo disciplinar não

apresenta ainda suas especializações – como a Física que se subdivide em

Mecânica, Ótica, Termodinâmica, Física Nuclear, e assim por diante –

qualquer disciplina cedo começa a se partilhar ao menos em possíveis

“campos de aplicação”, ou qualquer outro tipo de organização interna que corresponda mais ou menos a uma espécie de divisão do trabalho intelectual

e prático. No caso da História, é bem evidente a vertiginosa multiplicação

de “campos históricos” a partir do século XX, dando origem a inúmeras

modalidades como a História Econômica, História Cultural, Micro-História

e tantas outras, ao lado de outras que já existiam nos séculos anteriores,

como a História Política, História Militar ou a História da Igreja 9. Essa

tendência ao desdobramento interno e à crescente especialização – que se

apresenta como uma característica de praticamente todos os “campos

disciplinares” no período contemporâneo – tem sido um aspecto inerente à

história do conhecimento na civilização ocidental, sobretudo a partir da

Modernidade, o que não impede que os efeitos mais criticáveis do

hiperespecialismo sejam constantemente compensados pelos movimentos

interdisciplinares e transdisciplinares, voltados para uma “religação dos

saberes” em um mundo no qual os campos de produção de conhecimento

vivem a constante ameaça do isolamento10.

Para além disso, três aspectos fundamentais a serem considerados quando

se fala na constituição de um “campo disciplinar” relacionam-se ao fato de

que nenhuma disciplina adquire sentido sem que desenvolvam ou ponham

em movimento certas teorias, metodologias e práticas discursivas (4 a 6).

Mesmo que tome emprestados conceitos e aportes teóricos originários de

outros campos de saber, que incorpore métodos e práticas já desenvolvidas

por outras disciplinas, ou que se utilize de vocabulário já existente para dar

forma ao seu discurso, não existe disciplina que não combine de alguma

maneira Teoria, Método e Discurso. Bem entendido, um campo disciplinar

não se desenvolve no sentido de possuir apenas uma única orientação

teórica ou metodológica, mas sim de apresentar um certo repertório teórico-

metodológico que é preciso considerar, e que se torna conhecido pelos seus

praticantes, gerando adesões e críticas várias. Da mesma maneira, o

desenvolvimento de um campo disciplinar acaba gerando uma linguagem

comum através da qual poderão se comunicar os seus expoentes, teóricos,

praticantes e leitores. Há mesmo campos disciplinares que acabam gerando

certo repertório de jargões, facilmente reconhecido, mesmo

externamente 11. De todo modo, qualquer campo disciplinar, à medida que

vai se constituindo, vai também se inscrevendo em certa modalidade de Discurso, por vezes com dialetos internos. É por isso que não é possível a

ninguém se transformar em legítimo praticante de determinado campo

disciplinar, se o iniciante no novo campo de estudos não se avizinhar de

todo um vocabulário que já existe previamente naquela Disciplina, e através

do qual os seus pares se intercomunicam 12.

À questão da Interdisciplinaridade (7) já nos referimos, e por ora não

mais aprofundaremos esse ponto senão para chamar atenção para o fato de

que, ao se colocarem em contato interdisciplinar ou transdisciplinar, dois

campos disciplinares podem enriquecer sensivelmente um ao outro nos seus

próprios modos de ver as coisas e a si mesmos. Particularmente a História,

no decorrer do século XX e além, foi beneficiada por uma longa história de

contribuições interdisciplinares às concepções e abordagens dos

historiadores. A Geografia, a Antropologia, a Psicologia, a Linguística

estiveram fornecendo frequentemente conceitos e metodologias aos

historiadores, e certos desenvolvimentos em âmbitos como a História

Cultural ou a História das Mentalidades não teriam sido possíveis,

certamente, sem os respectivos diálogos interdisciplinares com a

Antropologia e com a Psicologia. Também no âmbito das ciências naturais

não foi raro que o contato interdisciplinar contribuísse para modificar a

própria maneira de ver as coisas neste ou naquele campo científico.

Diálogos entre a Física e a Astronomia, ou entre a Química e a Física, nos

oferecem alguns exemplos muito concretos de renovação13.

Por fim, não é obviamente possível pensar uma disciplina sem admitir o

seu lado de fora – uma zona de interditos (8), ou aquilo que se coloca como

proibido aos seus praticantes. O exterior de um campo de saber é tão

importante para uma disciplina como aquilo que ela inclui, como as teorias

e métodos que ela franqueia aos seus praticantes, como o discurso que ela

torna possível, como as escolhas interdisciplinares estimuladas ou

permitidas14. Ademais, o que se interdita em uma disciplina, como tudo

mais, também é histórico, sujeito a transformações, e as temáticas e ações

possíveis que um dia estiveram dentro de certo campo disciplinar podem ser

processualmente deslocadas para fora, como também algo do que estava

fora também pode vir para dentro, para um espaço de inclusão legitimado

pela rede de praticantes da disciplina15.

Tecnicamente poderíamos interromper aí a enumeração dos principais

aspectos a serem considerados para compreender a constituição de um

campo disciplinar qualquer, se não faltasse o essencial, na verdade aquilo

que perpassa todos os demais aspectos. Existe de fato uma densa e

complexa rede humana (9), constituída por todos aqueles que já praticaram

ou praticam a disciplina considerada e pelas suas realizações – obras,

vivências, práticas realizadas – e também isto é certamente tão inseparável

da constituição de um campo disciplinar, que poderíamos propor a hipótese

de que a entrada de cada novo elemento humano em certo campo

disciplinar já o modifica em alguma medida, da mesma maneira que cada

obra produzida sobre um campo de saber ou no interior desse mesmo

campo de saber já o modifica em menor ou maior grau, às vezes

indelevelmente, às vezes tão enfaticamente a ponto de se tornar visível o

surgimento de novas direções no interior desse campo disciplinar.

Perguntar-nos-emos, deste modo, até que ponto o surgimento de um novo

historiador ou de uma nova obra historiográfica, por mais banal que ela

seja, não modifica de alguma maneira a própria História enquanto campo

disciplinar, ou até que ponto o médico que introduz uma nova abordagem

ou uma nova prática em seu ofício já não termina por modificar o próprio

campo disciplinar da Medicina 16. Essas transformações, nem sempre fáceis

de visualizar – a não ser no âmbito das inovações mais notáveis ou das

grandes obras –, constituem no seu conjunto uma grande obra coletiva, na

qual os próprios praticantes de uma disciplina contribuem, cada qual à sua

maneira, para modificar o próprio campo disciplinar no qual se inserem.

Ao se falar em uma “rede humana” para cada campo disciplinar, também

temos de ter em vista, é claro, que essas redes encontram-se frequentemente

interferidas por uma “rede institucional” (universidades, institutos de

pesquisa, circuitos editoriais de revistas científicas), e também por uma

constelação de grupos de pesquisa e outras formas de parcerias e

associações dentro da qual essa vasta rede humana também se acomoda de

uma maneira ou de outra. A rede humana do campo disciplinar, dessa

forma, assume aqui a forma de uma “comunidade científica”. Boa parte dos

seus participantes ocupam lugares concretos na imensa rede institucional e

na constelação de grupos e parcerias científicas, e também ocupam lugares

simbólicos conforme a repercussão e recepção de suas obras e proposições. Uma ideia pode ser recebida de maneira diferenciada conforme se fale deste

lugar institucional ou daquele lugar simbólico. Nem todos podem dizer tudo

todo o tempo, conforme Michel Foucault já fez notar com especial nitidez

em seu ensaio A ordem do discurso (1996: 10), o que nos remete mais uma

vez à questão dos ditos e interditos permitidos e hierarquizados por um

campo disciplinar. Uma “comunidade científica” – um conceito que será

particularmente importante quando abordarmos a questão dos “paradigmas”

– é articulada, enfim, a um sistema de poderes institucionais e prestígios

acadêmicos que redefine o lugar de cada um e de todos 17.

A “rede humana” que constitui uma das dimensões integrantes do campo

disciplinar é também, ela mesma, uma rede de textos e de realizações, em

dinâmica interconexão. Isto ocorre nos diversos campos de saber. Na Física

e na Química, a rede de realizações produzida pela “rede humana” é

povoada não apenas dos textos científicos, mas de experiências, de

fórmulas, da construção de novos instrumentos de medição e tecnologias.

Michel de Certeau (1982: 72), que examinou os desdobramentos deste

campo disciplinar que é a História em seu já clássico texto A operação

historiográfica (1974), procura mostrar como cada realização empreendida

por cada historiador coparticipante da rede termina por enunciar “uma

operação que se situa em um conjunto de práticas”. Dito de outra forma,

está desde já inarredavelmente inscrito nessa complexa rede – formada

pelos historiadores e por suas realizações historiográficas – cada texto

histórico, “quer dizer, uma nova interpretação, o exercício de métodos

novos, a elaboração de outras pertinências, um deslocamento de definição e

do uso do documento, um modo de organização característico etc.”

(CERTEAU, 1982: 72). Não há contribuição, por singela que seja, que não

repercuta de alguma maneira na rede historiográfica, ainda que

indelevelmente 18.

Reconhecer a “rede humana” específica que constitui cada campo

disciplinar produzido pelo homem também leva à compreensão de um

derradeiro aspecto, quase um desdobramento da crescente consciência que a

rede humana vai desenvolvendo sobre si mesma e sobre o campo que

constitui, à medida que avança na sua história. A certa altura de seu

amadurecimento como campo disciplinar, começam a ser produzidos, cada

vez mais frequentemente no seio do próprio campo de saber em constituição, os “olhares sobre si”. Começam a surgir, elaboradas pelos

próprios praticantes da disciplina, as “histórias do campo”, aqui entendidas

no sentido de narrativas e análises elaboradas pelos praticantes do campo

disciplinar acerca da própria rede de homens e saberes em que estão

inseridos. Compreender-se historicamente é o resultado mais visível desse

“olhar sobre si” (10) 19.

Temos então dez dimensões importantes nesta caminhada para tentar

compreender uma disciplina, qualquer que ela seja: o seu campo de

interesses (1), a sua singularidade (2), os seus campos intradisciplinares (3),

o seu padrão discursivo (4), as suas metodologias (5), os seus aportes

teóricos (6), as suas interdisciplinaridades (7), os seus interditos (8), bem

como a extensa “rede humana” (9) que, através de suas realizações,

empresta uma forma e dá concretização ao campo disciplinar, sem contar o

“olhar sobre si” que essa mesma rede estabelece a certa altura de seu

próprio amadurecimento (10).

Encerrando esta parte inicial de nossa reflexão com a questão da história

– isto é, com a questão de que cada campo disciplinar tem a sua própria

História e que, de preferência, essa história deve ser escrita pelos seus

próprios praticantes de modo a renovar constantemente os seus “olhares

sobre si mesmos” – torna-se importante compreender adicionalmente que

cada uma das dez dimensões atrás citadas, além de interligada às demais,

está mergulhada ela mesma, por inteiro, na própria história. Os padrões

interdisciplinares se alteram, os desdobramentos intradisciplinares se

multiplicam ou se restringem, as teorias se redefinem, as metodologias se

recriam, o padrão discursivo se renova, os interditos são rediscutidos, e

mesmo algo da singularidade que permite definir uma “matriz disciplinar”

no interior da rede de saberes pode sofrer variações mais ou menos

significativas à medida que surgem novos paradigmas e contribuições

teórico-metodológicas. Para além de tudo isso, cada campo de saber está

constantemente produzindo novos “olhares sobre si mesmo” de acordo com

as transformações que se dão dentro e fora do campo – do contexto

histórico-social às transformações teóricas e tecnológicas. Tudo é histórico,

enfim, e essa máxima é também válida para todo o conjunto de elementos

daquilo que vem a constituir um determinado campo disciplinar.

Ademais, será importante compreender ainda que, uma vez tornado

visível e reconhecido como novo espaço científico ou forma de expressão,

cada campo disciplinar (ou cada campo de saber, dito de outra maneira),

passa a se constituir em patrimônio de todos os que podem ou pretendem

praticá-lo. Por outro lado, é óbvio também que, no interior da rede humana

que constitui certo campo disciplinar e também no seu exterior, isto é, na

rede humana que se estende para mais além daquela que conseguiu se

impor como a legítima rede de homens e obras que constituem o campo,

cedo se estabelecem verdadeiras lutas pelo poder de se lançar mão das

conquistas disciplinares, de praticá-las, de falar em nome da rede ou pelo

menos do interior da rede – lutas pelo direito de, neste campo, os diversos

proponentes a praticantes se verem incluídos. Esse imenso universo ou

sistema 20 que constitui um campo disciplinar, de todo modo, é anônimo,

não pertence a ninguém, embora dele nem todos possam se apossar. Sobre

esse complexo espaço territorial que é um campo disciplinar, lugar de saber

em que o poder se exerce, embora sem que se saiba exatamente através de

quem, assim Michel Foucault já se expressava:

Uma disciplina se define por um domínio de objetos, um conjunto de métodos, um corpus de proposições consideradas verdadeiras, um jogo de regras e de definições, de técnicas e de instrumentos: tudo isto constitui uma espécie de sistema anônimo à disposição de quem quer ou pode servir-se dele (FOUCAULT, 1996: 30).

 

Esse misterioso sistema anônimo que é um campo disciplinar, e

poderemos aqui continuar a seguir Michel Foucault nas suas exemplares

formulações, está, como já se disse, em permanente mutação, uma vez que

cada campo disciplinar é aberto a expansões. Na verdade um campo

disciplinar depende, para existir, de desencadear expansões. Conforme

ressalta o filósofo francês, “para que haja disciplina é preciso, pois, que haja

possibilidade de formular, e de formular indefinidamente, proposições

novas” (FOUCAULT, 1996: 30). Entre outros aspectos, esse intenso devir

que é um campo disciplinar mergulhado na sua própria história constitui,

como já se ressaltou, um incessante jogo entre o interior e o exterior da

disciplina, e entre um campo de estudos e o seu campo de objetos.

A História (campo de conhecimento) jamais será constituída por tudo o

que se pode dizer de verdadeiro sobre a história (campo dos

acontecimentos). Para que uma proposição pertença à disciplina História em certa época, à Medicina, ao Direito, ou a qualquer outro campo de