Teoria da História I: Princípios e conceitos fundamentais
I A teoria e a formação do historiador
I
A teoria e a formação do historiador
1 Uma “disciplina” – Entendendo como funcionam os diversos
campos de saber
O ponto de partida para nossas reflexões refere-se à própria “constituição
de um campo disciplinar”. Não nos referiremos especificamente ao campo
disciplinar da História, ainda, mas a 1 qualquer “campo disciplinar”. O que
significa falar de um certo conjunto de práticas, concepções e objetos de
estudo como um campo específico de conhecimento, ou como uma
“disciplina” (no sentido científico)? Nosso olhar aqui – independentemente
de tratarmos da História ou da Geologia, da Química ou da Medicina, da
Antropologia ou do Direito – não poderá deixar de ser o olhar do
historiador. Isto porque todo “campo disciplinar”, seja qual for, é histórico,
no sentido de que vai surgindo ou começa a ser percebido como um novo
campo disciplinar em algum momento, e que depois disso não cessa de se
atualizar, de se transformar, de se redefinir, de ser percebido de novas
maneiras, de se afirmar com novas intensidades, de se reinserir no âmbito
dos diversos campos de produção de conhecimento ou de práticas
específicas2. Um campo disciplinar é histórico mesmo no que se refere às
suas regras, que podem ser redefinidas a partir de seus embates internos, em
alguns casos. “O campo é um jogo no qual as regras do jogo estão elas
próprias postas em jogo” (BOURDIEU, 2003: 29)3.
O Quadro 1 orientará a nossa reflexão relativamente aos diversos
aspectos que envolvem ou estão envolvidos na constituição e afirmação de
um campo disciplinar de saberes e práticas, bem como relativamente às
suas constantes transformações. Começaremos por aquilo que é, de certo
modo, um evidente lugar-comum: toda disciplina é constituída, antes de mais nada, por um certo “campo de interesses” (1), o que inclui desde um
interesse mais amplo que define esse campo como um todo, até um
conjunto mais privilegiado de objetos de estudo e de temáticas a serem
percorridas pelos seus praticantes (ou de desafios a serem enfrentados, para
o caso dos campos disciplinares que, tal como a Medicina, envolvem uma
prática, mais ainda do que uma reflexão teórica e uma pesquisa).
Pode ocorrer que certas ciências ou disciplinas partilhem inclusive um
determinado interesse em comum (por exemplo, o interesse das chamadas
“ciências humanas” pelo estudo daquilo que é humano), mas é também fato
que em certo nível de profundidade surge sempre, para que se possa falar
em uma disciplina com identidade própria, algum tipo de singularidade, o
que nos levará ao próximo item. Assim, a História, que tem em comum com
a Antropologia, com a Sociologia ou com a Psicologia o estudo do Homem
– e que, portanto, partilha com essas ciências alguns de seus objetos de
estudo – a certa altura deverá ser definida como a ciência que coloca no
centro de seu campo de interesses “o estudo do 4 homem no tempo ”. Os
objetos da história – isto é, o seu “campo de interesses” – em que pese que
pareçam coincidir em um primeiro momento com os objetos possíveis das
demais ciências sociais e humanas, serão sempre objetos “historicizados”,
“temporalizados”, marcados por uma atenção à mudança em alguns de seus
níveis.
Quadro 1. Constituição de um campo disciplinar
Pode-se dar também que o centro de interesses de uma disciplina esteja
situado em uma confluência, em uma conexão de saberes, e este é
certamente o caso da Astrofísica, da Medicina Penal, da Filosofia da
Ciência, ou de qualquer outra disciplina que, por vezes em seu próprio
nome, não deixa dúvidas com relação ao caráter híbrido de sua esfera mais
direta de interesses. A essa questão voltaremos oportunamente, e desde já
cumpre observar que o conjunto de interesses temáticos de uma disciplina,
particularmente no que se refere aos seus desdobramentos e possibilidades
de objetos de estudo, também está sujeito a transformações no decorrer de
sua própria história.
Seguindo adiante, uma consequência imediata do que se disse aponta
para o fato de que cada disciplina possui a sua Singularidade (2), aqui
entendida como o conjunto dos seus parâmetros definidores, ou como
aquilo que a torna realmente única, específica, e que justifica a sua
existência – em poucas palavras: aquilo que define a disciplina em questão
por oposição ou contraste em relação a outros campos disciplinares5.
Polarizando, será preciso entender o fenômeno inverso: embora cada campo
de saber apresente certamente uma singularidade que o faz único e lhe dá
identidade, não existe na verdade um só campo disciplinar que não seja
construído e constantemente reconstruído por diálogos (e oposições)
interdisciplinares. Queiram ou não os seus praticantes, toda disciplina está
mergulhada na Interdisciplinaridade (7), questão à qual voltaremos
oportunamente. Ademais, para se constituir no seio de uma rede já existente
de saberes, todo novo campo de saber deve enfrentar duras lutas com
campos já estabelecidos, nas quais frequentemente se verá inserido em uma
verdadeira disputa territorial, ou pelo menos em uma partilha
interdisciplinar, além de enfrentar o desafio de mostrar a capacidade e
potencialidade para se posicionar com eficácia diante de antigos e novos
problemas que as disciplinas mais tradicionais também já vêm enfrentando
com seus próprios métodos e aportes teóricos. Dessa maneira, pode-se dizer
que o processo de surgimento de um novo campo disciplinar adquire, por
vezes, muito mais a aparência de uma verdadeira luta que se dá no interior
da arena científica do que a aparência de um parto. E essa luta, bem como
os laços de solidariedade que também se estabelecem entre os novos e antigos campos de saber, dão-se todos no seio de uma intensa e necessária
interdisciplinaridade, diante da qual o que é novo tem de se apresentar
diante do conhecimento já estabelecido e por vezes institucionalmente já
consolidado6.
Não é raro, aliás, que um novo campo de saber surja a partir de certos
desdobramentos de um campo disciplinar já existente, ou que se desprenda
desse campo original adquirindo identidade própria, ou mesmo que o novo
campo disciplinar se forme a partir de elementos dispersos oriundos de
vários outros campos. Podemos, a título ilustrativo, trazer o exemplo da
Biologia. Essa expressão, que logo daria origem à designação desse campo
de estudos hoje tão conhecido, foi cunhada em 1800 pelo médico alemão
Karl Friedrich Burdach (1776-1847), e dois anos depois seu significado foi
aperfeiçoado e fixado pelo naturalista alemão Gottfried Treviranus
(SCHILLER, 1968: 64). Todavia, até fins do século XVIII, a maior parte do
“objetos de interesse” que hoje são específicos da Biologia, bem como
certos aspectos que constituem hoje a sua “singularidade”, estavam na
verdade espalhados em outros campos de saber, tais como a Medicina –
notadamente naquelas de suas especialidades que estudavam a “anatomia” e
a “fisiologia” humana – a Botânica (muito praticada, então, pelos médicos
interessados em conhecer os potenciais curativos das ervas naturais) e a
História Natural, que era na época praticada por pesquisadores os mais
diversos, tais como os geólogos, que procuravam inserir a história dos seres
vivos na História da Terra, e os teólogos, que se preocupavam em mostrar
como a natureza estava perfeitamente ajustada à ideia religiosa da criação
divina (MAYR, 1998: 53). Treviranus (1776-1837) viu a necessidade de
constituir um estudo unificado de todos os seres vivos (plantas e animais)7,
e sua nova maneira de ver as coisas foi logo acompanhada pelo naturalista
francês Jean-Baptiste de Lamarck (1744-1829). Pode-se dizer que, desde
então, aqueles elementos de estudo que hoje são vistos como tipicamente
“biológicos”, e que antes estavam a cargo de outros campos de saber,
começaram a migrar para formar este novo campo disciplinar que hoje é
claramente definido como “Biologia”. Mas isto foi acontecendo aos poucos,
no decorrer do século XIX (cf. MENDELSOHN, 1965), até que o novo
campo disciplinar se visse perfeitamente consolidado 8.
A Biologia nos fornece um exemplo de campo disciplinar que se origina
a partir de elementos antes dispersos e que recolhe seus objetos de interesse
de outras áreas de estudo, até que, a partir daí, cria algo novo, uma nova
“singularidade”. Há também campos disciplinares que são literalmente
produzidos em uma interconexão. A Musicoterapia – campo disciplinar que
procura explorar as potencialidades terapêuticas da música – surge a partir
do Pós-guerra, na conexão entre a Medicina e a Música. Pode ocorrer ainda
que dois campos de saber separados se agrupem para formar um só,
fortalecendo-se mutuamente a partir de uma unidade. A dinâmica de
transformações no vasto universo que abarca os campos disciplinares
produz um eterno movimento: novos campos podem surgir, e outros
desaparecer; uns podem se desprender de outros, e alguns podem se formar
do casamento entre duas ou mais perspectivas disciplinares. Há também o
caso das “refundações”, e essa ideia parece ser bem adequada para entender
a história da História, uma vez que esta correspondia a um campo de
práticas e expressões já milenar quando, a partir de fins do século XVIII e
inícios do XIX, será como que “refundada” (WEHLING, 2006: 175) para se
constituir como “historiografia científica”, sem deixar, aliás, de incorporar
nessa operação elementos dispersos, tal como logo veremos no vol. 2 desta
série. A partir dessa refundação, e da consolidação do estatuto do
“historiador profissional”, pode-se dizer que a História passa de um
conjunto de práticas muito diversificadas – da história dos cronistas à dos
antiquários, dos filósofos da história e dos teólogos – para a formação de
uma “matriz disciplinar” mais bem definida, conforme veremos
oportunamente.
Em terceiro lugar, para considerar mais uma dimensão integrante de
qualquer campo disciplinar, será preciso ressaltar que a história do
conhecimento científico e da modernidade tem sido tal que, ao desenvolver
ou ultrapassar certo nível de complexidade, cada campo de saber começa a
gerar especializações e desdobramentos internos – campos
intradisciplinares (3), por assim dizer. Se um campo disciplinar não
apresenta ainda suas especializações – como a Física que se subdivide em
Mecânica, Ótica, Termodinâmica, Física Nuclear, e assim por diante –
qualquer disciplina cedo começa a se partilhar ao menos em possíveis
“campos de aplicação”, ou qualquer outro tipo de organização interna que corresponda mais ou menos a uma espécie de divisão do trabalho intelectual
e prático. No caso da História, é bem evidente a vertiginosa multiplicação
de “campos históricos” a partir do século XX, dando origem a inúmeras
modalidades como a História Econômica, História Cultural, Micro-História
e tantas outras, ao lado de outras que já existiam nos séculos anteriores,
como a História Política, História Militar ou a História da Igreja 9. Essa
tendência ao desdobramento interno e à crescente especialização – que se
apresenta como uma característica de praticamente todos os “campos
disciplinares” no período contemporâneo – tem sido um aspecto inerente à
história do conhecimento na civilização ocidental, sobretudo a partir da
Modernidade, o que não impede que os efeitos mais criticáveis do
hiperespecialismo sejam constantemente compensados pelos movimentos
interdisciplinares e transdisciplinares, voltados para uma “religação dos
saberes” em um mundo no qual os campos de produção de conhecimento
vivem a constante ameaça do isolamento10.
Para além disso, três aspectos fundamentais a serem considerados quando
se fala na constituição de um “campo disciplinar” relacionam-se ao fato de
que nenhuma disciplina adquire sentido sem que desenvolvam ou ponham
em movimento certas teorias, metodologias e práticas discursivas (4 a 6).
Mesmo que tome emprestados conceitos e aportes teóricos originários de
outros campos de saber, que incorpore métodos e práticas já desenvolvidas
por outras disciplinas, ou que se utilize de vocabulário já existente para dar
forma ao seu discurso, não existe disciplina que não combine de alguma
maneira Teoria, Método e Discurso. Bem entendido, um campo disciplinar
não se desenvolve no sentido de possuir apenas uma única orientação
teórica ou metodológica, mas sim de apresentar um certo repertório teórico-
metodológico que é preciso considerar, e que se torna conhecido pelos seus
praticantes, gerando adesões e críticas várias. Da mesma maneira, o
desenvolvimento de um campo disciplinar acaba gerando uma linguagem
comum através da qual poderão se comunicar os seus expoentes, teóricos,
praticantes e leitores. Há mesmo campos disciplinares que acabam gerando
certo repertório de jargões, facilmente reconhecido, mesmo
externamente 11. De todo modo, qualquer campo disciplinar, à medida que
vai se constituindo, vai também se inscrevendo em certa modalidade de Discurso, por vezes com dialetos internos. É por isso que não é possível a
ninguém se transformar em legítimo praticante de determinado campo
disciplinar, se o iniciante no novo campo de estudos não se avizinhar de
todo um vocabulário que já existe previamente naquela Disciplina, e através
do qual os seus pares se intercomunicam 12.
À questão da Interdisciplinaridade (7) já nos referimos, e por ora não
mais aprofundaremos esse ponto senão para chamar atenção para o fato de
que, ao se colocarem em contato interdisciplinar ou transdisciplinar, dois
campos disciplinares podem enriquecer sensivelmente um ao outro nos seus
próprios modos de ver as coisas e a si mesmos. Particularmente a História,
no decorrer do século XX e além, foi beneficiada por uma longa história de
contribuições interdisciplinares às concepções e abordagens dos
historiadores. A Geografia, a Antropologia, a Psicologia, a Linguística
estiveram fornecendo frequentemente conceitos e metodologias aos
historiadores, e certos desenvolvimentos em âmbitos como a História
Cultural ou a História das Mentalidades não teriam sido possíveis,
certamente, sem os respectivos diálogos interdisciplinares com a
Antropologia e com a Psicologia. Também no âmbito das ciências naturais
não foi raro que o contato interdisciplinar contribuísse para modificar a
própria maneira de ver as coisas neste ou naquele campo científico.
Diálogos entre a Física e a Astronomia, ou entre a Química e a Física, nos
oferecem alguns exemplos muito concretos de renovação13.
Por fim, não é obviamente possível pensar uma disciplina sem admitir o
seu lado de fora – uma zona de interditos (8), ou aquilo que se coloca como
proibido aos seus praticantes. O exterior de um campo de saber é tão
importante para uma disciplina como aquilo que ela inclui, como as teorias
e métodos que ela franqueia aos seus praticantes, como o discurso que ela
torna possível, como as escolhas interdisciplinares estimuladas ou
permitidas14. Ademais, o que se interdita em uma disciplina, como tudo
mais, também é histórico, sujeito a transformações, e as temáticas e ações
possíveis que um dia estiveram dentro de certo campo disciplinar podem ser
processualmente deslocadas para fora, como também algo do que estava
fora também pode vir para dentro, para um espaço de inclusão legitimado
pela rede de praticantes da disciplina15.
Tecnicamente poderíamos interromper aí a enumeração dos principais
aspectos a serem considerados para compreender a constituição de um
campo disciplinar qualquer, se não faltasse o essencial, na verdade aquilo
que perpassa todos os demais aspectos. Existe de fato uma densa e
complexa rede humana (9), constituída por todos aqueles que já praticaram
ou praticam a disciplina considerada e pelas suas realizações – obras,
vivências, práticas realizadas – e também isto é certamente tão inseparável
da constituição de um campo disciplinar, que poderíamos propor a hipótese
de que a entrada de cada novo elemento humano em certo campo
disciplinar já o modifica em alguma medida, da mesma maneira que cada
obra produzida sobre um campo de saber ou no interior desse mesmo
campo de saber já o modifica em menor ou maior grau, às vezes
indelevelmente, às vezes tão enfaticamente a ponto de se tornar visível o
surgimento de novas direções no interior desse campo disciplinar.
Perguntar-nos-emos, deste modo, até que ponto o surgimento de um novo
historiador ou de uma nova obra historiográfica, por mais banal que ela
seja, não modifica de alguma maneira a própria História enquanto campo
disciplinar, ou até que ponto o médico que introduz uma nova abordagem
ou uma nova prática em seu ofício já não termina por modificar o próprio
campo disciplinar da Medicina 16. Essas transformações, nem sempre fáceis
de visualizar – a não ser no âmbito das inovações mais notáveis ou das
grandes obras –, constituem no seu conjunto uma grande obra coletiva, na
qual os próprios praticantes de uma disciplina contribuem, cada qual à sua
maneira, para modificar o próprio campo disciplinar no qual se inserem.
Ao se falar em uma “rede humana” para cada campo disciplinar, também
temos de ter em vista, é claro, que essas redes encontram-se frequentemente
interferidas por uma “rede institucional” (universidades, institutos de
pesquisa, circuitos editoriais de revistas científicas), e também por uma
constelação de grupos de pesquisa e outras formas de parcerias e
associações dentro da qual essa vasta rede humana também se acomoda de
uma maneira ou de outra. A rede humana do campo disciplinar, dessa
forma, assume aqui a forma de uma “comunidade científica”. Boa parte dos
seus participantes ocupam lugares concretos na imensa rede institucional e
na constelação de grupos e parcerias científicas, e também ocupam lugares
simbólicos conforme a repercussão e recepção de suas obras e proposições. Uma ideia pode ser recebida de maneira diferenciada conforme se fale deste
lugar institucional ou daquele lugar simbólico. Nem todos podem dizer tudo
todo o tempo, conforme Michel Foucault já fez notar com especial nitidez
em seu ensaio A ordem do discurso (1996: 10), o que nos remete mais uma
vez à questão dos ditos e interditos permitidos e hierarquizados por um
campo disciplinar. Uma “comunidade científica” – um conceito que será
particularmente importante quando abordarmos a questão dos “paradigmas”
– é articulada, enfim, a um sistema de poderes institucionais e prestígios
acadêmicos que redefine o lugar de cada um e de todos 17.
A “rede humana” que constitui uma das dimensões integrantes do campo
disciplinar é também, ela mesma, uma rede de textos e de realizações, em
dinâmica interconexão. Isto ocorre nos diversos campos de saber. Na Física
e na Química, a rede de realizações produzida pela “rede humana” é
povoada não apenas dos textos científicos, mas de experiências, de
fórmulas, da construção de novos instrumentos de medição e tecnologias.
Michel de Certeau (1982: 72), que examinou os desdobramentos deste
campo disciplinar que é a História em seu já clássico texto A operação
historiográfica (1974), procura mostrar como cada realização empreendida
por cada historiador coparticipante da rede termina por enunciar “uma
operação que se situa em um conjunto de práticas”. Dito de outra forma,
está desde já inarredavelmente inscrito nessa complexa rede – formada
pelos historiadores e por suas realizações historiográficas – cada texto
histórico, “quer dizer, uma nova interpretação, o exercício de métodos
novos, a elaboração de outras pertinências, um deslocamento de definição e
do uso do documento, um modo de organização característico etc.”
(CERTEAU, 1982: 72). Não há contribuição, por singela que seja, que não
repercuta de alguma maneira na rede historiográfica, ainda que
indelevelmente 18.
Reconhecer a “rede humana” específica que constitui cada campo
disciplinar produzido pelo homem também leva à compreensão de um
derradeiro aspecto, quase um desdobramento da crescente consciência que a
rede humana vai desenvolvendo sobre si mesma e sobre o campo que
constitui, à medida que avança na sua história. A certa altura de seu
amadurecimento como campo disciplinar, começam a ser produzidos, cada
vez mais frequentemente no seio do próprio campo de saber em constituição, os “olhares sobre si”. Começam a surgir, elaboradas pelos
próprios praticantes da disciplina, as “histórias do campo”, aqui entendidas
no sentido de narrativas e análises elaboradas pelos praticantes do campo
disciplinar acerca da própria rede de homens e saberes em que estão
inseridos. Compreender-se historicamente é o resultado mais visível desse
“olhar sobre si” (10) 19.
Temos então dez dimensões importantes nesta caminhada para tentar
compreender uma disciplina, qualquer que ela seja: o seu campo de
interesses (1), a sua singularidade (2), os seus campos intradisciplinares (3),
o seu padrão discursivo (4), as suas metodologias (5), os seus aportes
teóricos (6), as suas interdisciplinaridades (7), os seus interditos (8), bem
como a extensa “rede humana” (9) que, através de suas realizações,
empresta uma forma e dá concretização ao campo disciplinar, sem contar o
“olhar sobre si” que essa mesma rede estabelece a certa altura de seu
próprio amadurecimento (10).
Encerrando esta parte inicial de nossa reflexão com a questão da história
– isto é, com a questão de que cada campo disciplinar tem a sua própria
História e que, de preferência, essa história deve ser escrita pelos seus
próprios praticantes de modo a renovar constantemente os seus “olhares
sobre si mesmos” – torna-se importante compreender adicionalmente que
cada uma das dez dimensões atrás citadas, além de interligada às demais,
está mergulhada ela mesma, por inteiro, na própria história. Os padrões
interdisciplinares se alteram, os desdobramentos intradisciplinares se
multiplicam ou se restringem, as teorias se redefinem, as metodologias se
recriam, o padrão discursivo se renova, os interditos são rediscutidos, e
mesmo algo da singularidade que permite definir uma “matriz disciplinar”
no interior da rede de saberes pode sofrer variações mais ou menos
significativas à medida que surgem novos paradigmas e contribuições
teórico-metodológicas. Para além de tudo isso, cada campo de saber está
constantemente produzindo novos “olhares sobre si mesmo” de acordo com
as transformações que se dão dentro e fora do campo – do contexto
histórico-social às transformações teóricas e tecnológicas. Tudo é histórico,
enfim, e essa máxima é também válida para todo o conjunto de elementos
daquilo que vem a constituir um determinado campo disciplinar.
Ademais, será importante compreender ainda que, uma vez tornado
visível e reconhecido como novo espaço científico ou forma de expressão,
cada campo disciplinar (ou cada campo de saber, dito de outra maneira),
passa a se constituir em patrimônio de todos os que podem ou pretendem
praticá-lo. Por outro lado, é óbvio também que, no interior da rede humana
que constitui certo campo disciplinar e também no seu exterior, isto é, na
rede humana que se estende para mais além daquela que conseguiu se
impor como a legítima rede de homens e obras que constituem o campo,
cedo se estabelecem verdadeiras lutas pelo poder de se lançar mão das
conquistas disciplinares, de praticá-las, de falar em nome da rede ou pelo
menos do interior da rede – lutas pelo direito de, neste campo, os diversos
proponentes a praticantes se verem incluídos. Esse imenso universo ou
sistema 20 que constitui um campo disciplinar, de todo modo, é anônimo,
não pertence a ninguém, embora dele nem todos possam se apossar. Sobre
esse complexo espaço territorial que é um campo disciplinar, lugar de saber
em que o poder se exerce, embora sem que se saiba exatamente através de
quem, assim Michel Foucault já se expressava:
Uma disciplina se define por um domínio de objetos, um conjunto de métodos, um corpus de proposições consideradas verdadeiras, um jogo de regras e de definições, de técnicas e de instrumentos: tudo isto constitui uma espécie de sistema anônimo à disposição de quem quer ou pode servir-se dele (FOUCAULT, 1996: 30).
Esse misterioso sistema anônimo que é um campo disciplinar, e
poderemos aqui continuar a seguir Michel Foucault nas suas exemplares
formulações, está, como já se disse, em permanente mutação, uma vez que
cada campo disciplinar é aberto a expansões. Na verdade um campo
disciplinar depende, para existir, de desencadear expansões. Conforme
ressalta o filósofo francês, “para que haja disciplina é preciso, pois, que haja
possibilidade de formular, e de formular indefinidamente, proposições
novas” (FOUCAULT, 1996: 30). Entre outros aspectos, esse intenso devir
que é um campo disciplinar mergulhado na sua própria história constitui,
como já se ressaltou, um incessante jogo entre o interior e o exterior da
disciplina, e entre um campo de estudos e o seu campo de objetos.
A História (campo de conhecimento) jamais será constituída por tudo o
que se pode dizer de verdadeiro sobre a história (campo dos
acontecimentos). Para que uma proposição pertença à disciplina História em certa época, à Medicina, ao Direito, ou a qualquer outro campo de