Teoria da História I: Princípios e conceitos fundamentais

José D'Assunção Barros · Capítulo 6 de 18

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Teoria da História I: Princípios e conceitos fundamentais

II Teoria da História e Filosofia da História

II

 

Teoria da História e Filosofia da

 

História

 

1 Teoria da História: o encontro entre historiografia e ciência

 

A relação entre “teoria” e “ciência” também tem sido ressaltada, por

diversos autores, para o caso da história da historiografia. Conforme destaca

Jörn Rüsen em sua obra Razão histórica (2001: 14), a Teoria da História se

refere ao “pensamento histórico em sua versão científica”. De acordo com

essa perspectiva, pode-se estabelecer uma distinção mais clara entre as

“filosofias da história” ou outras formas de concepção histórica como as

“teologias da história”, e as “teorias da história” propriamente ditas,

considerando que estas se vinculam ao novo momento em que a

historiografia passa a reivindicar um estatuto de cientificidade, chamando a

si novas necessidades. É também o que postula Arno Wehling em seu texto

Historiografia e epistemologia histórica (2006: 181), fazendo notar ainda

que, obviamente, já existiam formas de conhecimento histórico bem antes

da passagem do século XVIII ao XIX, que é esse momento particular em

que se passa a tomar como parâmetro para a historiografia a cientificidade e

no qual, portanto, já se pode falar em “teorias da história”. Contudo,

naqueles momentos anteriores – como a Antiga Grécia, o mundo romano, a

Idade Média, o Renascimento, ou o Moderno Absolutismo – apresentavam-

se para a historiografia referenciais muito diversos, como “a anamnese

grega, o patriotismo romano, o providencialismo medieval, ou o oficialismo

absolutista” (WEHLING, 2006: 181)48.

O próprio século XVIII, na antessala para o surgimento das “teorias da

história” que passarão a vigorar no século XIX, também já oferece, com as

“filosofias da história” ao modo de Herder ou de Kant, uma outra maneira de pensar sobre a História que não é bem ainda a daquelas “teorias da

história” que serão tão bem exemplificadas no século seguinte pelos

paradigmas do Positivismo, do Historicismo, ou do Materialismo Histórico,

todos inarredavelmente alicerçados por uma metodologia documental que já

estará na base do surgimento da figura do historiador profissional e da

inserção da História como disciplina universitária. De fato, as “filosofias da

história”, que grassam no século XVIII e se estendem até as realizações de

Hegel no século XIX, constituem um gênero filosófico-historiográfico à

parte, e devem ser bem distinguidas das “teorias da história” propriamente

ditas, conforme veremos mais adiante. Outrossim, mesmo ressalvando as

diferenças, tanto as “filosofias da história” como as “teorias da história” já

são enunciadas em uma nova era historiográfica, distinta de tudo o que até

então se tinha feito nas tradicionais “histórias” representadas pelos

inúmeros gêneros historiográficos que precederam o trabalho dos

historiadores modernos. Existe entre as “filosofias da história” e as “teorias

da história” tanto uma certa cumplicidade no que se refere ao gestar de uma

nova época historiográfica, como também uma diferença radical que será

preciso considerar.

Por ora, deixemos por compreendido que não é senão em um contexto no

qual a cientificidade se apresenta como um referencial para a historiografia,

aspecto que se afirma mais consistentemente na passagem do século XVIII

para o século XIX, que se pode falar da emergência de “teorias da história”

como grandes sistemas de compreensão sobre a história e a Historiografia.

Começarão a surgir, aqui, tanto uma “matriz disciplinar” mais definida para

a História, como os primeiros grandes paradigmas historiográficos que mais

adiante discutiremos, a começar pelo Positivismo, pelo Historicismo e pelo

Materialismo Histórico. Oportunamente, retornaremos a essa questão.

Se uma teoria constitui certa visão de mundo relacionada a um ou outro

dos diversos campos científicos, uma Teoria da História, ou um paradigma

historiográfico, corresponderá a uma certa visão histórica do mundo, ou

mesmo a uma determinada visão sobre o que vem a ser a própria História.

Qualquer Teoria da História pressupõe, simultaneamente, uma determinada

concepção sobre o que é a história e sobre o que deve ser a historiografia

(isto é, o campo de estudos que examina a história enquanto campo

processual). Isto, é claro, naquele sentido mais abrangente que pode ser atribuído à expressão Teoria da História. Por outro lado, no intuito de

começar a decifrar de modo mais sistemático os vários sentidos que podem

ser atribuídos às “teorias da história”, poderemos acompanhar as reflexões

de Agner Heller (n. 1.929) em seu ensaio Uma Teoria da História (1981). A

filósofa húngara sustenta que, em termos de teorias da história, podemos

nos remeter tanto àquelas que se referem a objetos historiográficos

específicos (eventos ou processos como a Revolução Francesa, o Nazismo,

as crises específicas do Capitalismo), ou às teorias mais amplas, mais

generalizadoras, que se referem a séries de eventos (não uma teoria sobre a

Revolução Francesa, mas uma teoria sobre as “revoluções”; não uma teoria

sobre o nazismo alemão ou sobre o fascismo italiano, mas uma teoria sobre

o “totalitarismo”):

Há tipos diversos de teorias: umas mais particularísticas e outras mais genéricas. Os historiadores podem fornecer uma teoria que diga respeito a determinado evento, a uma série de eventos, a um período, ao desenvolvimento de instituições segundo um entrecruzamento cultural e assim por diante (HELLER, 1993: 176).

 

Diremos mais. No limite máximo de generalização, os historiadores

podem oferecer teorias acerca do que seja a própria Historiografia. O que é

a História, como ela se constrói, quais as tarefas do historiador diante da

produção desse tipo de conhecimento? Para que serve a História; que tipo

de conhecimento é a Historiografia? É possível, ou desejável, que o

historiador faça previsões do futuro a partir de suas observações do

Passado? Que tipo de envolvimento – contemplativo, distanciado,

comprometido, militante – deve ter o historiador em relação à história de

sua própria época? Deve a Historiografia ser colocada a serviço de alguma

causa, ou deve conservar o ideal de constituir um tipo de conhecimento

desinteressado?

Perguntas como essas (cf. Quadro 9), p. 270, são respondidas de

maneiras diferenciadas pelas várias teorias da história – no sentido um

pouco mais abrangente da expressão – e terminam por constituir, na

especificidade de suas respostas, paradigmas historiográficos distintos. Por

exemplo, o paradigma positivista e o paradigma historicista encaminham

teorias da história bem distintas. Um e outro podem ser contrapostos como

modelos bem diversos de historiografia. Claro que, quando se fala em

Positivismo e Historicismo, estamos considerando referencialmente dois

modelos limites. Os historiadores específicos, no seu trabalho singular, não precisam se enquadrar diretamente em um ou outro desses paradigmas.

Podem buscar mesmo mediações entre os dois, podem propor variações,

podem responder algumas das perguntas acima propostas de uma maneira

ou de outra. Não são obrigados, os historiadores, a seguirem uma cartilha

paradigmática. Geralmente, há historiadores cuja visão de mundo sobre a

história e sobre a historiografia permite que uns sejam aproximados de

outros, e é isto o que vai dando origem a um determinado campo

paradigmático. É evidente que, uma vez que os historiadores estão

mergulhados na própria história, no decorrer de uma vida de atividades

podem passar a se distanciar em suas posições fundamentais os

historiadores que antes estavam inseridos, por afinidade, no interior de um

mesmo campo paradigmático. Nesse caso, um historiador pode migrar ou

colocar-se entre dois modelos historiográficos distintos, ou pode mesmo vir

a construir uma nova teoria geral sobre a História49. É importante, de todo

modo, que consideremos os grandes paradigmas historiográficos que

abordaremos mais adiante como campos que fornecem modelos ou um

determinado horizonte de visibilidade ou de escolhas, mas não como

prisões teóricas às quais teriam de se ajustar necessariamente todos os

historiadores.

Outro aspecto relevante a ressaltar é que, em termos de “teorias da

história”, não existe a princípio, conforme veremos ao fim deste capítulo, a

possibilidade de se falar em algumas teorias ou paradigmas historiográficos

que sejam consensualmente considerados definitivamente melhores do que

outros. As teorias da história competem entre si, ratificam-se ou retificam-

se umas às outras, integram-se ou excluem-se mutuamente, apresentam

leituras diferentes para os mesmos problemas e objetos historiográficos. As

teorias da história não são cumulativas: uma não se constrói

necessariamente sobre a outra, integrando-a ou refutando-a, como se

tivéssemos aqui um processo cumulativo no qual os saberes vão se

superpondo em um grande crescendo de precisão e refinamento teóricos. Se

um historiador tiver por objetivo o desenvolvimento de uma nova teoria

sobre os processos relacionados à Revolução Francesa, jamais poderá dizer

que finalmente chegará com o seu trabalho à teoria correta e definitiva

sobre essa questão. De igual maneira, ainda que defenda ferrenhamente o

seu modo de conceber a historiografia de modo mais geral, um positivista jamais poderá dizer que refutou o Historicismo, ou vice-versa, e tampouco

o Materialismo Histórico poderá ser colocado como a tábua de leitura

definitiva para examinar os processos históricos. Podemos, como

historiadores, optar pelo Positivismo, pelo Historicismo, pelo Materialismo

Histórico, por combinações entre esses paradigmas, por mediações entre

eles, por uma abordagem weberiana, ou por uma teoria eclética à base de

elementos de procedências teóricas diversas. Mas isto será sempre uma

opção teórica. Ainda que um historiador arrogue-se estar do lado da

verdade em termos de escolhas teóricas, jamais haverá consenso sobre isto.

A Teoria da História (agora entendida no sentido mais abrangente, que se

confunde com um campo disciplinar) será sempre uma grande arena, um

eterno campo de disputas e diálogos vários. Diante do amplo conjunto de

teorias que se disponibilizam ao historiador, será sempre preciso escolher,

pois não existem fórmulas consensuais com vistas a entender ou praticar a

História. Em termos de Teoria, cada historiador está condenado a ser livre.

Trata-se esta de uma situação um pouco distinta daquela que ocorre, ou

pelo menos ocorreu até tempos não muito remotos, com certos campos de

conhecimento co-mo a Química ou a Física50. Assim, durante os séculos

XVIII e XIX – o que inclui, portanto. a própria época em que se consolidou

o estatuto científico para as ciências históricas – havia vigorado de forma

praticamente absoluta o paradigma newtoniano da Física 51. As teorias que

iam sendo construídas dentro desse campo de conhecimento costumavam se

apoiar muito habitualmente umas nas outras, dando a ideia de ampliação de

um determinado horizonte de leitura da realidade no qual as descobertas e

formulações teóricas feitas no passado tornavam-se bases para novas

formulações no presente e no futuro. Esse período correspondeu, pode-se

dizer, a uma vasta época da história das ciências exatas que foi fortemente

assinalada por um paradigma consensual entre os físicos de diversas

especialidades e interesses de estudo. Havia também, é claro, aportes

teóricos que, no processo de reflexão e pesquisa dos físicos ao longo da

história de seu campo de conhecimento, viam-se descartados

definitivamente, terminando por ocorrer, ao final de um processo não isento

de verdadeiras lutas intelectuais, certo consenso de todos os físicos acerca

do desenvolvimento cumulativo de seu campo de conhecimento. Isto se

dava de tal maneira que se costumava considerar os mais significativos avanços nesse processo aparentemente “progressivo” e “acumulativo” de

conhecimento como verdadeiras “descobertas” – aqui entendidas como

realizações que pareciam passar a constituir uma conquista definitiva para

os físicos52. Esse padrão só começou a ser quebrado no início do século

XX, com a emergência de novos paradigmas da Física, tais como a Teoria

da Relatividade e a Física Quântica 53, que, a rigor, trouxeram modos

inéditos de “ver o mundo” que se distanciavam bem claramente do

horizonte de leitura proposto pelo paradigma newtoniano que vigorara

durante dois séculos.

Pode-se dizer que a principal novidade, neste novo momento da história

do conhecimento científico que foi trazido pela história da Física no século

XX, é que, na mesma época e sem refutarem necessariamente uns aos

outros, passaram a coexistir diversos paradigmas teóricos sobre a Física que

começaram a se disponibilizar com a mesma eficácia e reconhecimento aos

cientistas. Nesse momento, que começa a se afirmar na passagem do século

XIX para o XX e nas primeiras décadas deste novo século, pode-se dizer

que a Física, enquanto campo de saber específico, começou a experimentar

de novo algo que já era bem familiar e constante para os historiadores e

cientistas sociais: a convivência, em uma mesma época, de teorias distintas

(e igualmente legítimas) que forneciam padrões diferentes de visualização

dos fenômenos a serem estudados. Os físicos passaram a se defrontar, a

partir da Teoria da Relatividade proposta por Einstein e dos

desenvolvimentos da Física Quântica, afora outras diversas teorias, com o

fato de que várias teorias podem ser apresentadas todas como corretas

dentro de um certo campo de saber, embora fornecendo leituras bem

diversificadas – ou mesmo antagônicas entre si – acerca da realidade

examinada 54. Essa polifonia de “leituras da realidade”, que invade o campo

das ciências da natureza no século XX, já era corriqueira no âmbito das

ciências sociais, e, ainda que seja um pouco mais discreta e menos

ressonante no mundo dos saberes exatos do que no mundo dos saberes

sociais, reforçaria progressivamente a ideia de que o conhecimento é uma

“construção”, não se reduzindo mais ao desvendamento de algo que já se

encontra dado pela natureza à espera de ser simplesmente “descoberto”55.

De outra parte, no âmbito da historiografia, a tendência a considerar o

conhecimento como uma construção sempre esteve pelo menos implícita na

prática dos historiadores, a despeito das assertivas positivistas que ainda

sonhavam com a objetividade absoluta. De todo modo, a competição entre

teorias historiográficas já era antiga, seja no que se refere a teorias

particularizantes sobre aspectos históricos específicos – como a Revolução

Francesa ou a passagem do mundo medieval ao mundo moderno – seja no

que se refere a teorias mais gerais sobre a própria História (sobre a história

processual como um todo ou sobre os modos como se deve escrever a

historiografia, por exemplo). Pensadores iluministas diversos ofereceram –

com as suas várias filosofias da história – leituras diferenciadas daquilo que

consideravam uma tendência da história universal; por seu turno,

historiadores românticos do século XVIII e historicistas do século XIX

criticaram precisamente esta ideia de que seja possível ou válido escrever

uma história universal, pertinente a todos os povos; já os positivistas do

século XIX reinvestiram na busca de leis gerais – e, entre eles, havia

aqueles que alternativamente acreditavam que o desenvolvimento histórico

era orientado pelo determinismo geográfico, pelo determinismo biológico,

ou pelo determinismo econômico. Hegel introduziria, na primeira metade

do século XIX, uma leitura dialética da História, de base idealista, e Marx

retomaria de Hegel a proposta dialética para recolocar uma leitura

materialista da História. No século XX, historiadores como Braudel (1958)

teorizariam sobre os padrões múltiplos de temporalidade, introduzindo o

conceito de “duração” nos modos historiográficos de abordar o tempo. No

âmbito dos desenvolvimentos contemporâneos do Materialismo Histórico,

infinitas variações teóricas seriam propostas pelos historiadores que

tomaram como linha mestra de orientação os princípios estabelecidos por

Marx e Engels no século anterior. De modo diverso, historiadores como

Toynbee (1934) ou Spengler (1918) iriam propor uma visão de mundo

sobre a “história das civilizações” que as abordava em termos de

“nascimento”, “ascensão” e “declínio”. E, na esteira da visão estética da

História que foi proposta por Friedrich Nietzsche (1873), Benedetto Croce

(1909) e Robin George Collingwood (1946) aproximariam da Arte a

Historiografia 56, por oposição a inúmeros outros historiadores que viam

seu campo de conhecimento como relacionado a uma Ciência, ou, ao menos, a um tipo de conhecimento cientificamente conduzido (FEBVRE,