Teoria da História I: Princípios e conceitos fundamentais
3 Teorias da história e filosofias da história
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
próprio termo por ele cunhado, de elaborar uma “História-Problema”.
O “documento”, ou a “fonte histórica”, como se diz hoje mais
habitualmente, está certamente na base do Método historiográfico. Sem
fontes históricas, não há caminho possível para que um historiador atinja
uma determinada realidade ou processo histórico que pretenda examinar,
ou, tampouco, não surge a possibilidade de reformular uma certa visão do
Passado em função de questões levantadas no Presente. Na base do Método
historiográfico, encontra-se obviamente a fonte histórica, material do qual
deverá partir o historiador.
O “problema”, por outro lado, está na base do que pode ser referido a
uma Teoria da História, a uma certa maneira de “ver” a historiografia de
maneira geral ou a um certo modo de conceber certo processo histórico
especificamente. Quando um determinado problema é formulado pelo
historiador, quando ele propõe certas hipóteses, quando ele instrumentaliza
certos conceitos, reconstrói-se a história de uma nova maneira. A “Teoria”,
então, torna-se fundamental para que surja uma historiografia
problematizada, correspondente à época e ao contexto em que foi
produzida, capaz de sucessivas reformulações.
Teoria e Método, em vista disso, são os dois alicerces do trabalho
historiográfico. “Problemas” e “fontes” são imprescindíveis para uma
historiografia que proponha a apresentar realmente um maior interesse
científico. Desta maneira, é fundamental uma atenção especial aos modos
de tratamento das fontes historiográficas, mas, sobretudo, às concepções e
horizontes teóricos que podem orientar e reorientar a operação
historiográfica. A Teoria, ao lado do Método, estará sempre na ordem do
dia para uma historiografia que postule algum padrão de cientificidade ou
de sistematização.
3 Teorias da história e filosofias da história
Será importante retomarmos, a partir daqui, a discussão acerca da própria
historicidade da Teoria da História. Quando surge, mais precisamente na
história do pensamento ocidental e na história da historiografia em
particular, um campo que já pode ser definido como Teoria da História? Perguntar isso, aliás, leva concomitantemente a outra pergunta ainda mais
importante, que já nos permite abordar a passagem da especulação
puramente filosófica para a análise sistematicamente epistemológica: que
condições tornam possível a Teoria da História?
Conforme foi ressaltado anteriormente, devemos desde já reconhecer que
a ideia de uma Teoria da História está intimamente relacionada ao
surgimento das pretensões de cientificidade da História, seja naqueles
autores que definem a História como Ciência – e teremos aqui um extenso
arco que partirá dos primeiros historicistas e positivistas e que segue adiante
pelo mundo contemporâneo – até outros que, se não definem a história
como “ciência”, ao menos entendem a história como um conhecimento
cientificamente produzido59. Também existirão autores que, mesmo
rejeitando o estatuto de cientificidade da história, não deixam de transitar
em uma reflexão sobre a Teoria da História, pelo simples fato de que já se
permitem fazer a pergunta epistemológica fundamental: aquela que indaga
sobre as condições que tornam possível o conhecimento historiográfico. É o
caso, por exemplo, do Paul Veyne de 60 Como se escreve a História (1971).
Pode-se mesmo encontrar autores que, embora concebam a historiografia
como uma forma de arte, nem por isso deixarão de abordar uma sistemática
reflexão sobre o que consideram ser uma Teoria da História61. De qualquer
modo, de uma maneira ou de outra, o contexto de cientificidade que se abre
para as ciências humanas na passagem do século XVIII para o século XIX
pode de fato ser considerado um momento fundamental para a emergência
da Teoria da História.
Lembraremos um indício inicial que atesta bem essa transição do
pensamento historiográfico para uma nova fase em que já se torna possível
falar em uma Teoria da História. No século XVIII, o verbete de Voltaire
para a Enciclopédia ainda classificava a História essencialmente como um
gênero literário 62. O verbete “História”, elaborado pelo filósofo francês,
abre-se sintomaticamente com a frase de que “a história é a narração dos
fatos verdadeiros, ao contrário da fábula, que é narração dos fatos fictícios”.
Se prosseguirmos em sua leitura veremos que, em nenhum momento do
verbete, Voltaire expressa-se em termos de “cientificidade” para se referir à
História, e tampouco se propõe a discorrer em torno de questões teóricas, embora fale, ainda que de modo pouco sistemático, do “método dos
historiadores”. A “história útil” também será, conforme a concepção antiga,
aquela “que nos mostra nossos direitos e deveres” (VOLTAIRE, 2006:
272) 63. De qualquer maneira, a época já nos mostra o contraponto do
filólogo alemão Chladenius (1710-1759), digno de ser apontado como
sintoma desses tempos de transição, que já começa por referenciar sua obra
de 1752 nos termos de uma 64 Ciência da História. Mas, enfim,
começaremos a assistir, da metade do século XVIII em diante, à emergência
de “filosofias da história” como a de Kant ou Herder, esse novo gênero
literário-filosófico que, em 1830, culminará com a “filosofia da história” de
Hegel, o que já constitui um desenvolvimento importante. Mas será apenas
com a afirmação de uma pretensão à cientificidade historiográfica e com a
delimitação de uma nova especialização centrada na figura do historiador –
o que incorrerá na concomitante formação de uma “comunidade de
historiadores” que já se deixa entrever na passagem do século XVIII para o
século XIX – que se estabelecerão efetivamente as condições
epistemológicas para que sejam trazidas para o centro da discussão
historiográfica as questões teóricas, ao lado das questões metodológicas.
Emerge nesse momento um campo que já se pode pensar efetivamente
como uma Teoria da História, e surgem também aquelas primeiras correntes
de pensamento que já poderemos qualificar não mais no âmbito das
“filosofias da história” – em geral realizações individuais empreendidas por
filósofos –, mas sim no âmbito das “teorias da história”, espaços de reflexão
coletiva que já mobilizam e dividem a comunidade de historiadores em
torno de reflexões como as relacionadas ao tipo de conhecimento científico
que a História estaria apta a produzir: se, por exemplo, um conhecimento
relacionado a uma cientificidade ideográfica (voltada para o singular) ou
nomotética (isto é, relativa ao estabelecimento de leis). Multiplicam-se as
questões que indagam pelo tipo de relação que se pode estabelecer entre o
sujeito de produção do conhecimento histórico e o seu objeto de estudo;
surge a preocupação com a fixação de um vocabulário comum, ou mesmo
de um novo âmbito conceitual – seja no que se refere à teoria da história no
sentido mais amplo, como base de toda a matriz disciplinar da história, seja
no âmbito mais localizado de cada Teoria da História em particular. Por fim,
no interior dessa efervescente discussão teórico-metodológica, começam a se formar paradigmas historiográficos, a principiar pelo historicismo e pelo
positivismo, logo seguidos pelo materialismo histórico. É nesse novo
contexto que se tornará legítimo se falar, mais propriamente, em uma Teoria
da História.
O caráter das teorias da história como espaços coletivos de reflexão
acerca da História, acima citado, é, aliás, um aspecto importante. A
“filosofia da história” de Kant é só de Kant, e aquela outra é a “filosofia da
história” de Voltaire ou de Hegel – isto é, realizações pessoais desses
filósofos. Não foram espaços coletivos de reflexão “fundados” por estes
autores, e que depois passam a pertencer a amplos setores da comunidade
de historiadores, tal como ocorrerá com as “teorias da história”. A “filosofia
da história” de um certo filósofo, via de regra, esgota-se nele mesmo. O
mesmo não ocorre com as “teorias da história”. O Historicismo não
pertence a Ranke, e o Positivismo pode ter sido fundado por Comte ou por
outro autor, mas, ato contínuo, torna-se espaço de reflexão que é partilhado
por muitos que passam a se autodenominar ou a serem considerados, em
sua própria época ou na posteridade, como positivistas e historicistas.
Mesmo o Materialismo Histórico, fundado por Marx e Engels, não pertence
a esses dois autores que lançam a proposta de seus fundamentos; ao
contrário, será escrito a muitas e muitas mãos. As “teorias da história” são
de fato espaços coletivos de reflexão 65.
Isso leva a um contraste entre a postura do “filósofo da história” e aquela
que será a do historiador ou cientista social que se vincula a uma Teoria da
História. Com o seu texto e o seu discurso, o Filósofo da História proclama:
“esta é a minha concepção acerca da história”; nela vejo este sentido, e não
aquele. Em contrapartida, a Teoria da História é ainda mais do que uma
concepção pessoal de um homem de letras: o historiador ou pensador que a
formula agrega ao seu pensamento, muito frequentemente, um certo
programa de ação que oferece à comunidade de historiadores; ou, o que
vem a ser análogo, ele adere a um programa de ação que já existe,
eventualmente aperfeiçoando-o ou acertando as arestas de um paradigma.
Em poucas palavras, o pensador que formula, adere ou acrescenta algo a
uma Teoria da História, insere-se de imediato em uma comunidade de
historiadores, notadamente em um certo setor dessa comunidade
historiográfica, ou ao menos dialoga com essa comunidade constituída pelo conjunto de historiadores, no caso de não ser um historiador
“profissional” 66.
É por isto que um filósofo como Paul Ricoeur67, que escreve nas últimas
décadas do século XX sobre a história e sobre o fazer historiográfico, não
está mais elaborando com seus textos uma “filosofia da história” no sentido
que a expressão tem desde os filósofos iluministas, e sim se inscrevendo em
uma Teoria da História específica, no caso o novo historicismo. As suas
reflexões no âmbito da História da Filosofia são de fato dedicadas à
comunidade dos historiadores, pretendem afetar ou contribuir para as suas
práticas, e é como uma contribuição teórica que são recebidas pelos
historiadores. O teórico da história está sempre particularmente preocupado
com a historiografia, com a escrita da História a ser levada a cabo pelos que
a ela se dedicam, enquanto o “filósofo da história” muitas vezes está apenas
ou principalmente preocupado de uma maneira muito específica com a
história-processo: em decifrar o seu sentido ou, como Hegel 68, descobrir o
propósito que se esconde por trás da história – ainda que Hegel, certamente
por influência de um contexto no qual, por volta de 1830, já se mostrasse
claramente estabelecida a nova comunidade dos historiadores profissionais,
tenha se dedicado a discutir logo à saída de seu ensaio “os três modos de
escrever a história” (HEGEL, 2001: 45-52) 69. Outrossim, logo em seguida
o filósofo alemão já revela os seus principais interesses e dedica-se a
desdobrar, na “Introdução” de seu meticuloso ensaio, as suas reflexões
sobre “a Razão como base da História” (p. 53ss.) 70.
O contraste entre o “pensar sobre a História” empreendido por Paul
Ricoeur, e o “pensar sobre a história” levado a cabo por Kant ou Hegel,
todos eles filósofos, mas com perspectivas e objetivos bem diferenciados,
pode contribuir para trazer bastante esclarecimento às questões de que
estamos tratando. O primeiro (Ricoeur) concentra o principal de suas
atenções na História (forma específica de conhecimento produzido pelos
historiadores), e os outros dois (Kant ou Hegel) deslocam o principal de
suas reflexões para a história (processo vivido ou a ser vivido pelos homens
em geral). Ricoeur, pode-se dizer, é um filósofo que está pensando
“teoricamente” sobre a História, e no interior deste grande ramo da
Filosofia que é a “Filosofia da História” (um ramo da Filosofia que é análogo a outros como a “Filosofia do Direito” ou à “Filosofia da
Ciência”) 71. Mas Kant e Hegel são filósofos que estão pensando
filosoficamente sobre a história (neste caso sobre o “objeto” história, e não
sobre a disciplina “História”), e nesta operação estarão produzindo
“filosofias da história” específicas, que assinalam suas perspectivas ou
expectativas pessoais acerca do sentido da história. Há que se entender a
diferença radical entre a expressão “Filosofia da História”, quando é
utilizada para denominar um ramo específico da Filosofia e que também
constitui uma disciplina universitária, e a “filosofia da história” substantiva,
produzida especulativamente por este ou por aquele filósofo. Grafaremos a
primeira modalidade – a “Filosofia da História” compreendida como um
ramo da Filosofia, e comprometida com uma análise crítica do
conhecimento histórico – com iniciais “maiúsculas”; e a segunda
modalidade, que corresponde às realizações pessoais de filósofos que
especularam sobre o sentido da história, com “letras minúsculas” 72.
A maneira como a comunidade de historiadores recebe uma obra de
“filosofia da história” ou uma realização que contribui para a Teoria da
História é também diferenciada. Paul Ricoeur, filósofo historicista que
acima mencionamos, tem seus trabalhos discutidos e incorporados ao
metier do historiador. De fato, não é possível nos dias de hoje falar sobre a
Escrita da História sem discuti-lo em algum nível, tamanha é a penetração
que a obra de Ricoeur tem entre os historiadores profissionais. Isso ocorre
porque a “comunidade dos historiadores” recebeu o conjunto de obras sobre
a história produzido por Ricoeur como uma teoria da história, ou como uma
contribuição à Teoria da História. Em contrapartida, quando Hegel escreveu
em 1830 os textos que depois constituiriam as suas Lições sobre a Filosofia
da História Universal e, particularmente, quando essa obra foi publicada
postumamente em 1837 a partir de suas anotações de aula, a comunidade de
historiadores recebeu a sua História Universal, de modo geral, como o
meticuloso trabalho de um “filósofo da história”, e não como uma
realização historiográfica, apesar da sua erudição. Ainda que a obra tenha
sido festejada e que tenha motivado o surgimento de um novo gênero que
foi o das “histórias universais”, ela não teve a mesma penetração que os
paradigmas nascentes do Positivismo e do Historicismo. Não foi assimilada
como teoria pelo conjunto maior da Teoria da História, por assim dizer, continuando de fato a ser vista pelos historiadores como um interessante
trabalho de filosofia e de erudição, ainda que em alguns historiadores
profissionais, inseridos nos paradigmas positivista e historicista, possa ser
detectada esta ou aquela forte influência hegeliana. Serão Marx e Engels,
por outro lado, que irão resgatar da filosofia de Hegel um aspecto muito
específico para a constituição do novo paradigma teórico-historiográfico
que estavam fundando: a dialética. Mas a essa questão voltaremos
oportunamente (vol. 3, cap. I).
Outro aspecto extremamente interessante a respeito desta nova era
historiográfica que trará sucessivamente à tona as “filosofias da história” e
as “teorias da história”, enquanto espaços diferenciados de reflexão sobre a
história, evidencia-se quando comparamos com o saber historiográfico
algumas das diversas novas disciplinas que vão surgindo a partir dos
séculos XVIII e XIX, tais como a Economia, a Antropologia, a Sociologia,
ou a Ciência Política. Essas disciplinas nascem já com o concomitante
soerguimento de um novo espaço teórico para cada uma delas. A Economia
Política já nasce com uma Teoria da Economia Política, e a Sociologia
começa a surgir no século XIX já como um espaço teórico de reflexão sobre
a sociedade. Quanto à História, campo de expressão já milenar, inúmeras
práticas e gêneros historiográficos já vinham sendo experimentados por
pensadores e pesquisadores diversos. Por isso, pode-se dizer que, para a
Historiografia incorporar uma dimensão científica – isto é, para constituir-
se a partir de um espaço teórico – “precisou ser refundada” (WEHLING,
2006: 181). Diferentemente das novas disciplinas em formação no período
moderno, a História tinha uma longa história, já milenar, na qual se vinha
mostrando como espaço multidiversificado de possibilidades discursivas e
abrindo-se a contínuas variações e transformações relativas à natureza do
fazer histórico.
Um contraste como esse que se estabelece entre as “filosofias da história”
e as “teorias da história” torna-se por isto mesmo um fenômeno muito
específico da historiografia, que praticamente não tem paralelo nas novas
disciplinas acima citadas. Não há uma “filosofia da antropologia”73, por
oposição à Teoria da Antropologia74. Assim como a Economia já nasce
como reflexão teórica, no contexto de uma cientificização dos saberes
sociais, também a Antropologia já nasce como um novo âmbito teórico (como uma nova forma – “teórica” – de olhar para o mundo humano). Mas
com a História – enquanto campo de expressão e espaço de produção de um
conhecimento específico – ocorrerá essa singularidade que fará contrastar
as “filosofias da história” e as “teorias da história”, sem esquecer ainda que
já tinham existido inúmeras outras formas de produzir um certo
conhecimento sobre a história desde a Antiguidade. A Teoria da História é
uma novidade que refundará a História – campo de expressão e saber muito
antigo –, mas que não nasce com esse mesmo campo de saber. A História é,
na verdade, milenarmente mais antiga do que a Ciência; mas será mais tarde
refundada por essa mesma Ciência. E a Teoria da História é a cunha que irá
ajudar a esculpir essa fratura, essa cisão entre uma História e suas outras. Já
a teoria sociológica nasce com a Sociologia, e vice-versa. Uma coisa é
inseparável da outra.
Por ora, retornemos ao contraste entre essas duas formas de pensar a
História que são já tipicamente modernas. As “filosofias da história”, enfim,
guardam sua distância em relação às “teorias da história”, conforme logo
discutiremos em maior detalhe. Diga-se de passagem, devemos notar que a
“era das filosofias da história” não é substituída totalmente pela “era das
teorias da história”, como se uma cancelasse definitivamente a outra.
Conforme veremos oportunamente, houve um período em que as “filosofias
da história” em seu apogeu – bem representadas por Kant e Herder –
conviveram com as “teorias da história” em seu estágio nascente, e outro no
qual uma das últimas grandes realizações em termos de “filosofias da
história”, que foi a filosofia da história de Hegel, conviveu com o
Positivismo e o Historicismo enquanto “teorias da história” em fase de forte
e decisiva consolidação, já com todo um futuro pela frente. De igual
maneira, também as “filosofias da história” e as “teorias da história”
conviveram ainda, em certo momento, com as reminiscências de um outro
modo de pensar a história, mais antigo, que tivera os seus princípios com
Santo Agostinho (354-430) e o seu apogeu no século XVII com as
“histórias teológicas”, estas que, à maneira de Bossuet (1627-1704),
enxergavam o desenvolvimento histórico em termos de processos e
acontecimentos guiados pela Providência Divina75. Para além disso,
mesmo as “filosofias da história” ainda retornariam casualmente, com obras
como as de Spengler e Toynbee, em plena época de amplo predomínio do discurso de cientificidade da História, já na primeira metade do século XX e
além; e, de todo modo, as histórias teológicas nunca desapareceram
propriamente enquanto gênero historiográfico específico, embora
certamente tenham sido excluídas, a partir de certo momento, do horizonte
de perspectivas dos historiadores profissionais. Se quisermos representar ao
longo de uma linha do tempo essa intrincada polifonia de modos de ver a
história, poderemos propor algo como o esquema apresentado no Quadro 3.
E certamente deixamos ainda de fora outras possibilidades importantes e
recorrentes de conceber a história – entre as quais aquelas geradas pela
história antiquária, pela história filosófica ou pela história tradicional em
estilo cronístico – em relação às quais não seria o caso de nos determos
neste momento.
Será importante, por outro lado, entendermos com maior clareza o que é
uma “filosofia da história”, por contraposição ao que poderemos já entender
como uma teoria da história. Isso nos ajudará, certamente, a trazer maior
precisão a este último termo. As “filosofias da história” podem ser
entendidas, na sua definição mais irredutível, como um gênero filosófico
que produz uma reflexão ou especulação sobre a história. Mas a “história
filosófica” – este flanar sobre a história com vistas a produzir reflexões
filosóficas sobre questões de toda a ordem – vai encontrar esse mesmo
gênero a meio caminho, de modo que, no fundo, a “Filosofia da História”
termina por constituir um gênero híbrido, difícil de ser definido a não ser
pela sua própria história enquanto gênero filosófico e pelas temáticas a ele
afeitas76. Tentemos entender, antes de mais nada, a história deste gênero
específico.
É no século XVIII que as filosofias da história começam a surgir como
um gênero específico, com autores como Voltaire, Herder ou Kant 77,
estendendo-se depois até Hegel. Posteriormente conhecem um certo
declínio diante da emergência da historiografia científica e daquilo que já
poderemos entender como “teorias da história”. Mas nunca, propriamente,
deixaram de existir, e no século XX teremos também novos exemplos. É
importante deixar claro que estamos falando aqui de trabalhos que podem
se classificar dentro do gênero literário “filosofias da história”, e não da
disciplina “Filosofia da História”, que é um campo de pensamento
específico da Filosofia. É análogo ao que ocorre com a Teoria da História – enquanto um campo específico no interior da historiografia – e com as
teorias da história específicas, como o Positivismo, o Historicismo, o
Materialismo Histórico e outras.
Quadro 3. A polifonia dos modos de conceber a História.
História teológica, filosofias da história e teorias da história.
O que diferencia essencialmente as “filosofias da história” das “teorias da
história”, talvez como um traço mais proeminente, é a carga maior de
especulação a que as primeiras se permitem, para além das suas
preocupações temáticas bastante específicas, as quais já discutiremos. De
algum modo, as duas coisas (temas e modo de especulação) estão ligadas.
Filosofias da história como as dos filósofos alemães Kant e Hegel, ou como
aquela que está implícita nas especulações sobre a história do matemático
francês Condorcet (1743-1794)78, mostravam-se todas profundamente
preocupadas com a questão do “sentido da história”, com a possibilidade de
pensar o progresso humano no decurso da história, ou com a necessidade de
entender a lógica imanente ao desenvolvimento histórico 79.
Ao mesmo tempo em que eram filosoficamente especulativas, estas
temáticas – o sentido da história, a sua lógica imanente, o progresso ou a
decadência através da história – consistiam os focos essenciais para os quais costumavam se voltar as filosofias da história. Sobretudo, os filósofos da
história não esgotavam seu trabalho, de modo algum, com os fenômenos
históricos que tinham diante de si através dos registros e evidências que
habitualmente dão suporte ao trabalho dos historiadores. O filósofo da
história queria ir além, e enxergar mesmo o futuro, ou ao menos um
determinado padrão necessário de evolução ou de desenvolvimento da
história em direção ao futuro. Muitos especularam sobre o “fim da história”.
Haveria um estágio a ser atingido pela humanidade que mudaria totalmente
o padrão de desenvolvimento humano, encerrando as grandes
transformações e situando a humanidade no melhor dos mundos possíveis?
80 Haveria a possibilidade (ou a necessidade) de se atingir um dia uma
condição humana “pós-história”, na qual a regularidade aproximar-se-ia da
“regularidade e da previsibilidade de um sistema natural”, como pretendia o
matemático e economista francês Antoine-Augustin Cournot (1801-1877)
em sua originalíssima “Filosofia da História” (1861), na qual se
confrontavam o “acaso” e a “necessidade”? (ANDERSON, 1992: 31 e 37).
Outros, de um modo ou de outro, com menor ou maior dosagem de
teleologia, queriam se ocupar de elaborar um discurso sobre o sentido
necessário da história, o que segue sendo uma marca indelével das
filosofias da história81.
Apesar do amplo predomínio, nesse gênero textual, de filósofos ou de
eruditos com maior amplitude de interesses temáticos, também
historiadores desenvolveram eventualmente as suas próprias “filosofias da
história”. O que estaria fazendo o historiador inglês Arnold Toynbee (1889-
1975) senão elaborar ele mesmo a sua própria “filosofia da história”, ao
introduzir nos seus estudos históricos profundamente eruditos uma forte
especulação acerca de um pretenso padrão de desenvolvimento que afetaria
todas as grandes civilizações sob a forma de um ciclo de “nascimento”,
“apogeu” e “declínio” comparável ao desenvolvimento dos seres humanos
individuais no que concerne às suas etapas de “infância”, “maturidade” e
“velhice”?82
Se as “filosofias da história” se permitem a este voo especulativo, ele
acha-se muito mais limitado nas chamadas “teorias da história”83. Há aqui
uma indelével marca que, desde princípios do século XIX, parece começar a firmar as fronteiras entre os territórios que serão doravante habitados pela
“tribo dos filósofos” e pela “tribo dos historiadores”. As reflexões em torno
do sentido da história universal, que foram desenvolvidas em 1830 por
Hegel – este que pode ser considerado o último dos grandes filósofos da
história, no sentido iluminista da expressão – constituem um espaço
discursivo privilegiado para a percepção desse confronto entre as duas
tribos. São os novos historiadores da Escola Alemã – “historiadores
profissionais”, como ele mesmo já os designa – que Hegel tem em vista
quando registra as seguintes assertivas:
Portanto o estudo da história universal [isto é, a modalidade que ele mesmo, Hegel, produziu] resultou e deve resultar em que nela tudo aconteceu racionalmente, que ela foi a marcha racional e necessária do espírito universal; espírito cuja natureza é sempre idêntica e que a explicita na existência universal. Tal deve ser, como dissemos, o resultado do estudo da história. A história, porém, devemos considerá-la como ela é: devemos proceder de forma histórica, empírica; ademais, não podemos permitir que os historiadores profissionais nos seduzam, pois estes, principalmente os alemães, que gozam de grande autoridade, fazem aquilo de que acusam os filósofos, ou seja,
invenções 84 a priori da história (HEGEL, 2008: 18).
Bem entendido, e à parte a querela entre historiadores profissionais e
filósofos da história no século XIX, deve-se aceitar que o livre jogo
conceitual que é próprio da ciência também faz parte do metier do
historiador, e cada vez mais à medida que adentramos o século XX. Mas os
historiadores ligados ao Positivismo, ao Historicismo ou ao Materialismo
Histórico, ou a outros âmbitos teóricos, costumam conter razoavelmente o
seu ímpeto especulativo ao aceitarem os atuais padrões de cientificidade da
História que são definidos pela necessidade de amparar seus trabalhos nas
fontes e nas evidências históricas. Não que a História já não lide aqui com
especulações e conjecturas, seja em relação ao passado ou mesmo em
relação ao futuro, mas a verdade é que essas instâncias especulativas e
conjecturais não ocupam de modo algum o centro do cenário na
historiografia regida pelas “teorias da história”.
A teoria, nas “teorias da história”, volta-se para a tentativa de explicar os
fatos, processos, estruturas e sociedades que podem ser percebidas através
das fontes, isto é, através da realidade histórica que pode funcionar como
um referente real pelo historiador. Isso distingue, sobretudo, os dois campos
– o das “teorias da história” e o das “filosofias da história”. “Para onde
caminha o mundo” (e como caminha ou continuará caminhando no futuro) é a pergunta essencial que paira sobre as “filosofias da história”; mas para os
historiadores ela não ocupa, definitivamente, o centro do seu palco de
preocupações no momento em que eles trabalham sobre suas fontes e
refletem sobre as sociedades que surgem diante de si a partir de seu
laborioso trabalho de pesquisa. Como funciona o mundo social, e como esse
funcionamento se tem expressado na História através de uma realidade
concreta que pode ser percebida através das fontes, esta sim seria a questão
que logo se fortaleceria a partir da reflexão historiográfica já produzida sob
o signo das “teorias da história”.
Figura 4. Contraste entre as filosofias da história e as teorias da história.
Se o grau de densidade especulativa com que se trabalha pode funcionar
como um bom índice para distinguir a Filosofia da História da “Teoria da
História”, isso não quer dizer que não possam surgir muitas ambiguidades
quando se trata de definir se o trabalho de um determinado pensador está
relacionado às “filosofias da história” ou às “teorias da história”. Se
pensarmos no magistral trabalho de pensamento sobre a história produzido
por Karl Marx (1818-1883), por exemplo, poderemos nele perceber de
alguma maneira tanto uma Teoria da História como uma Filosofia da
História. Há um Marx “teórico da História” que elaborou um dos mais
perfeitos sistemas para a compreensão da história – aquele que, sob a
designação “Materialismo Histórico”, busca entender a história
simultaneamente sob a perspectiva da “luta de classes” e da sucessão
dialética de modos de produção (ou de formações históricas), e que
introduziu inúmeros conceitos que hoje constituem parte importantíssima
do patrimônio teórico dos historiadores contemporâneos. Existe, é claro, o
Marx “economista”, que desenvolveu, em obras como O Capital (1867), alguns conceitos fundamentais para a compreensão do sistema capitalista,
tal como o de “mais-valia” (e, para o Materialismo Histórico, ser
“economista” implica ser concomitantemente “sociólogo” e historiador). Há
ainda um Marx “historiador”, no sentido mais específico do termo, que em
algumas poucas obras como o 18 brumário (1852) ou as Lutas de classe na
França (1850), buscou aplicar os referenciais teóricos por ele coligidos,
bem como a dupla perspectiva da “luta de classes” e dos “modos de
produção”, ao estudo de uma realidade histórica concreta, perceptível a
partir de fontes de diversos tipos. Mas há também um Marx “filósofo da
história” – embora o próprio Marx, em mais de uma oportunidade, tenha se
referido pejorativamente aos “filósofos que interpretaram o mundo”85. Pois
o que seria, senão uma “filosofia da história”, as quase proféticas reflexões
de Marx sobre a inexorável caminhada da humanidade rumo ao modo de
produção socialista? Nesse momento de suas reflexões, Marx não está
direcionando a teoria para a análise de uma realidade já conhecida, como o
fez o Marx historiador, mas sim especulando sobre os rumos das sociedades
humanas. O Marx “político”, aliás, alia-se de alguma maneira ao Marx
“filósofo da história” nesse projeto. Todas essas facetas do complexo
pensamento de Marx (e de Engels) são de todo modo fascinantes. Posto
isto, não há como não considerar o Materialismo Histórico, fundado por
esses dois autores, como uma das mais importantes “teorias da história” já
surgidas, conforme teremos oportunidade de verificar no vol. 3.
Exemplifiquemos agora com outra teoria da história – o Positivismo –
que teremos oportunidade de examinar em maior detalhe no vol. 2. O
Positivismo foi fundado no século XIX por Augusto Comte (1798-1857)86,
filósofo francês a cujo nome está associada a consolidação de toda uma
nova maneira de enxergar as sociedades humanas e a história e, portanto,
produzindo-se aqui uma Teoria da História muito específica, que logo foi
abraçada por diversos historiadores profissionais87. Estes historiadores
positivistas, tais como Henry Thomas Buckle (1821-1862), na sua ampla
maioria estiveram voltados para a análise direta de fatos e processos
históricos que podiam perceber através da documentação histórica, e aliás
deram importantes contribuições à Metodologia da História no que
concerne aos modos de trabalhar com essas fontes. Isso não impede, por outro lado, que o próprio Augusto Comte apresente em parte de seu sistema
de reflexões o seu quinhão de “filosofia da história”. Assim, se ele refletiu
sistematicamente sobre a natureza das ciências humanas ou sobre a postura
do sujeito de conhecimento diante do seu objeto de estudo – indagações
eminentemente teóricas88 –, por outro lado especulou também, quase
profeticamente, sobre o desenvolvimento da humanidade, e também sobre a
evolução dos campos de conhecimento, concebendo-os como que ligados a
uma espécie de caminhada progressiva através de três estágios. Acreditava
que o progresso dava-se de acordo com uma Grande Lei, exposta no seu
Curso de Filosofia Positiva (1830-1842), segundo a qual “cada uma das
nossas principais concepções e cada ramo dos nossos conhecimentos
passam necessariamente por três estágios teóricos diferentes, o estado
teológico ou fictício, o estado metafísico teórico ou abstrato e o estado
científico ou positivo”.
De acordo com a perspectiva comtiana, no “estágio teológico”, os
fenômenos seriam compreendidos como “produtos da ação direta e contínua
de agentes sobrenaturais mais ou menos numerosos”; já no “estágio
metafísico”, passariam a ser explicados em função de “essências, ideias ou
forças abstratas”. Para retomar alguns exemplos de Comte, nessa
modalidade de pensamento, os corpos se uniriam graças à “simpatia”; as
plantas cresceriam em virtude da presença da “alma vegetativa”, e o ópio,
como ironizava Molière, seria capaz de produzir sono porque possuiria uma
“virtude soporífera”. Mas seria somente no “estágio positivo”, que Comte
acreditava estar atingindo uma maior expressão precisamente a partir de seu
próprio pensamento e da sociedade industrial na qual ele mesmo vivia, que
“o espírito humano, reconhecendo a impossibilidade de obter
conhecimentos absolutos, renuncia a perguntar-se qual é a sua origem, qual
o destino do universo e quais as causas íntimas dos fenômenos, para
procurar somente descobrir, com o uso bem combinado do raciocínio e da
observação, as suas leis efetivas, isto é, as suas relações invariáveis de
sucessão e semelhança”. Chega a ser irônico, aliás, que Comte defina o
estágio positivo como aquele que exclui totalmente a especulação em favor
da prática científica e da observação da realidade observável, mas que
rigorosamente falando não esteja mais do que, com a sua Lei dos Três
Estágios, produzindo uma nova especulação sobre os destinos humanos e sobre o padrão de progresso da humanidade através da história. Comte,
nesse momento, está produzindo uma “filosofia da história” como qualquer
outra. Em contrapartida, e a despeito disto, o Positivismo (mas não a Teoria
dos Três Estágios do Comte filósofo da história) pode ser certamente
classificado como uma das teorias da história mais importantes entre
aquelas que surgiram no século XIX, pois introduz uma certa maneira de
“ver a história” que se mostra perfeitamente aplicável à “matriz disciplinar”
(definiremos esse conceito mais adiante) que no século XIX passa a ser
aceita pela comunidade dos historiadores profissionais.
É por causa desse tipo de ambiguidades e da razoável complexidade que
constitui a obra de alguns dos grandes pensadores que refletiram sobre a
História, que não raramente uns acabam por acusar os outros – mesmo que
estes se proponham a realizar seus projetos estritamente no âmbito da
Teoria da História – de serem no fundo filósofos da história.
Devemos ainda considerar que, mesmo na época em que as “filosofias da
história” ocuparam uma posição de destaque no âmbito do pensamento
historiográfico ocidental, o que se deu na segunda metade do século XVIII,
não faltam autores complexos e ambíguos no que se refere a suas
concepções da história e às possibilidades de situá-los no quadro das
alternativas vigentes. Voltaire, que cunhou a própria expressão “filosofia da
história”, constitui o exemplo maior de dificuldades nesse sentido. Ele
oscila entre uma “filosofia da história” propriamente dita e um estilo
pessoal de “história filosófica”, no qual o erudito flana pelas sociedades e
processos históricos, de modo a encetar suas reflexões gerais sobre o gênero
humano e assuntos diversos, ou mesmo encaminhar uma crítica social em
relação à sua própria época. Mas o ponto de ambiguidades que mais nos
interessa em Voltaire é outro. Se as “filosofias da história” de Kant,
Condorcet ou Hegel apresentam a característica comum de conceber o
tempo como linear e progressivo – de resto uma maneira de conceber o
tempo que é assimilável à ampla maioria das “filosofias da história” e que
pode ser considerada uma novidade trazida pelo iluminismo setecentista
(Figura 6) – já em algumas obras de Voltaire veremos a mescla desta
temporalidade progressiva com um tempo cíclico que remete aos clássicos
(Figura 5). Para Voltaire, o progresso da humanidade, embora de fato ocorra
em um arco mais abrangente, é entretecido por avanços e recuos – ou pela alternância entre épocas iluminadas e épocas de decadência – já que para o
filósofo francês teriam ocorrido, até a sua época, apenas quatro grandes
“épocas felizes” (a Grécia Clássica, o Império Romano, o Renascimento, e
a França de Luís XIV). Esses magníficos períodos, em sua opinião, teriam
sido sucedidos por épocas de profunda decadência e regressão, como que a
perfazer um ciclo de nascimento, apogeu e morte. Mas, por outro lado,
conforme assinala Goulemot em sua análise sobre a filosofia da história em
Voltaire (1975: 464), cada época memorável não é apenas mero
renascimento das outras épocas felizes que a precederam, como também
“uma ultrapassagem”, uma condução para um ponto mais alto:
Figura 5. O tempo mesclado da Filosofia da História de Voltaire
Essa maneira de entender o tempo traz à filosofia da história de Voltaire
uma singularidade que a contrapõe aos outros filósofos da história de sua
época. Para estes, o tempo histórico afirma-se definitivamente como
vetorial, contínuo, progressivo, passível de ser representado como uma seta
que aponta para o futuro:
Figura 6. O tempo linear e progressivo das filosofias da história (de Kant a
Hegel)
Ora. Eis aqui um importante aspecto em que a maior parte das “filosofias
da história” do século XVIII irmana-se ao conjunto das “teorias da história”
do século XIX. Em umas como nas outras, emerge vitoriosa esta nova
concepção de tempo: vetorial, progressiva, voltada para o futuro89, mais
claramente delineadora destas instâncias temporais que são o Passado, o
Presente e o Futuro, e mesmo de outros modos mais sofisticados de
conceber a temporalidade histórica que hoje já são, de certo modo, tão
corriqueiros90. Desse novo modelo de tempo, ademais, pode-se dizer que
ele não é mais, daqui por diante, algo que “acomoda” dentro de si a história (ou a imensa variedade de histórias locais e desconectadas); o tempo torna-
se ele mesmo a própria história. Reinhart Koselleck (1923-2006),
historiador dos conceitos que fez da própria história dos modos de
apreender o tempo um de seus principais focos de estudo 91, sintetiza
magistralmente esse novo momento da historiografia ocidental em que a
história passa a ser entendida como uma “dimensão” da própria existência:
Desde a segunda metade do século XVIII se acumulam indícios que apontam enfaticamente para o conceito de um novo tempo. O tempo passa a ser não apenas a forma em que todas as histórias se desenrolam, ele próprio adquire uma qualidade histórica. A história, então, passa a realizar-se não apenas no tempo, mas através do tempo. O tempo se dinamiza como uma força da própria história. Mas esta nova fórmula da experiência pressupõe também um novo conceito de história, a saber, a história como singular coletivo, que a partir de mais ou menos 1780 pode ser concebido como história em si, sem um objeto a ela coordenado ou um sujeito pré-ordenado
(KOSELLECK, 2006: 283) 92.
Com relação ao novo formato do tempo, agora visto como fluxo
contínuo, e não mais como compartimento que acomoda histórias, há mais a
dizer. Se o tempo vetorial e progressivo não foi propriamente invenção das
“filosofias da história” e das “teorias de história” – uma vez que as antigas
concepções cristãs do tempo histórico já há muito se tinham contraposto ao
“tempo cíclico” do mito e das concepções clássicas de alternância de épocas
de grandeza e decadência – tratava-se agora de uma progressão não mais
regida pelas instâncias divinas. As datas da Criação, da morte de Cristo e do
juízo final já não serão mais, em umas como em outras, as grandes balizas
da história e da progressão humana na direção do futuro. Ao passo dessa
nova concepção acerca do tempo, diremos que, aqui como ali, seja com as
“filosofias da história” do século XVIII ou com as “teorias da história”
inauguradas no século XIX, pela primeira vez se vê a necessidade de
formular mais claramente um forte compromisso em ligar diretamente o
discurso histórico às reais condições de vida dos homens. Como estaremos
distantes das crônicas medievais e das vidas de santos! De igual maneira,
em que pese que sempre tenham existido historiadores de tipos diversos que
se ocuparam efetivamente da realidade vivida ou produzida no mundo
humano, a formulação desse compromisso, por uma coletividade de sábios
– ou pelo que em breve já poderemos entender como uma “comunidade
científica” dedicada a estudar as sociedades humanas – será a grande
novidade.
A História, já com as “filosofias da história”, mas principalmente com as
“teorias da história”, seculariza-se. Ao invés da perspectiva de
transcendência que animara as histórias teológicas, doravante a História –
uma única história, e não mais diversas e desconectadas “histórias” –
deveria ser abordada sob a perspectiva da imanência. Vale dizer, o que
ocorre aos homens é o que é produzido pelos próprios homens, mesmo que
sujeitos às adversidades e às condições naturais. O movimento da história –
condenado ao interminável exercício da criação e da liberdade – é agora de
alçada e responsabilidade dos próprios seres humanos, ainda que muitos
vejam nesse movimento uma lógica, ou mesmo leis que direcionam a ação
humana sem que os próprios homens delas se apercebam93. Com tudo isso,
a história adquire a possibilidade de ser pensada em uma direção que não
mais reverte sobre si mesma: o tempo é seta que aponta para o futuro94.
É verdade que, nas “filosofias da história”, não está ainda inteiramente
superada a ideia de forças transcendentes que, se não impulsionam ou
intervêm aleatoriamente na história, ao menos orientam seus rumos. Na
“filosofia da história” de Kant teremos um “plano secreto da Natureza”,
capaz de reaproveitar mesmo as ações mais egoístas dos indivíduos no seu
projeto mais amplo destinado a impulsionar o caminho da humanidade na
direção do “melhor” (KANT, 4ª proposição). Na de Hegel, ouviremos falar
na “Astúcia da Razão”. De qualquer maneira, em um como outro, assim
como em Voltaire, o que teremos é mais um mecanismo lógico que se
superpõe sobre a história humana do que um ente que a conduz
arbitrariamente 95. Para Hegel, por exemplo, “o Real é Racional, e o
Racional é Real” 96. A realidade não está separada da lógica que a conduz, e
tampouco a lógica se separa da realidade que a produz 97.
De um modo ou outro, o advento de um novo quadro de concepções a
respeito do “tempo” será decisivo para a gestação de uma nova era
historiográfica que já mostra seus sinais desde meados do século XVIII.
Com a perspectiva de um tempo vetorial – seta para o futuro – o historiador
logo passará a encontrar uma das condições que o permitirão trazer o
projeto de cientificidade para a própria História. A possibilidade de
conceber a história não mais como algo que retorna sobre o mesmo, mas
sim como algo que se abre para o novo, para a descoberta, para o que não se repete – e que, ainda que novo e irrepetível, pode ser estudado com teoria e
método – é o primeiro indício de uma nova era historiográfica, de que algo
havia mudado na face do mundo dos historiadores. O tempo progressivo –
seja este linear ou multilinear, mas certamente não mais aquele “tempo
redondo” e “redundante” da história cíclica – viria a constituir precisamente
esse novo modelo de tempo que se adaptou tão bem aos novos interesses da
história científica.
Esse tempo vetorial que aponta para o futuro, diga-se de passagem, não
se identifica necessariamente com o tempo de “fluência uniforme” que
propunha Newton (embora também inclua esta possibilidade). O tempo
vetorial admite acelerações e desacelerações, bem como admite que, de
dentro dele, surjam olhares e sensações distintas a respeito das três
instâncias temporais (Passado, Presente e Futuro). Nos momentos mais
dramáticos e decisivos do Iluminismo revolucionário do final do século
XVIII não seria incomum a sensação de que já se estava prestes a viver no
“futuro”. Na primeira metade do século XIX, homens como Humboldt,
Schlegel e Arndt já se surpreendem com esse tempo que parece ter se
acelerado e que agora “avança a galope”, para utilizar uma expressão
proferida por Ernst Moritz Arndt (1769-1860) em seu ensaio “O Espírito do
Tempo” (ARNDT, 1806: 55). Desse modo, a nova percepção do tempo
como “vetorial” não implica obrigatoriamente sua identificação com um
“fluir homogêneo” – com um ritmo constante e sempre o mesmo – do
mesmo modo que a “sensibilidade vetorial do tempo” não impede a
percepção da multiplicidade das durações.
Foi certamente decisiva, para a preparação do ambiente que ofereceria
condições para uma completa refundação da História, a dimensão vetorial
do novo padrão de representação do tempo – seja no caso em que essa
dimensão vetorial se apresentou como mera expressão do “tempo linear”
das filosofias da história, que arrastavam de roldão a humanidade e a
natureza em um único movimento para o futuro, seja no caso de alguns
setores da nova historiografia profissional, que já deixavam antever por
debaixo dessa mesma aparência de linearidade, de resto sempre cultuada, e
já em um nível arqueológico mais profundo, um novo tipo de
descontinuidades que se referia à multiplicidade dos “tempos de cada coisa” – tais como o tempo de uma linguagem, de uma produção, de um modo de
vida (ver FOUCAULT, 1999: 513).
Linear ou multilinear, mas sempre “vetorial”, trata-se aqui, de fato, de um
tempo que se impulsiona irreversivelmente em direção ao novo, e que, já
liberto da tutela divina, permitiu que a História finalmente se liberasse de
certas funções que antes pareciam aderir imperativamente ao principal de
sua razão de ser. A História – a necessidade da História – já não poderia
encontrar mais, entre as suas justificativas, aquelas tradicionais funções que
antes eram evocadas como a própria razão de ser da produção do
conhecimento histórico, a exemplo da antiga função de “mestra da vida”,
que era tão comum à concepção dos clássicos e renascentistas, ou a
exemplo da função de registrar os desígnios de Deus no decurso da
realidade vivida com vistas a uma preparação para o juízo final, tal como
ocorria com a “história teológica”. O novo historiador profissional, a partir
do século XIX, já não se dispõe mais a ser um “auxiliar”, nem para a
educação política, nem para a preparação teológica. Se a Teoria pode ser
entendida como uma forma de conhecer o mundo que institui o “saber pelo
saber” e que tem por objeto “o ser das coisas” (KUJAWSKI, 2002: 101),
também a História (historiografia), para se ressignificar como um tipo de
conhecimento científico que incorpora uma dimensão teórica, deveria ter
como centro de suas atenções a própria história, como um conhecimento
digno de ser apreendido em virtude do seu próprio valor intrínseco (o
“saber pelo saber”) e tendo em vista a compreensão do que há de humano
no mundo humano (“o ser das coisas”)98.
O tempo vetorial, dotado de perpétua “fluência” e de incontornável
“imanência”, funcionou, portanto, como um sopro libertador que prepara o
clima intelectual para o surgimento de uma Teoria da História. A princípio
linear, mas também já admitindo implicitamente a “polifonia de
temporalidades” que ficaria mais clara a partir das diversas modalidades
históricas do século XX, esse tempo vetorial e fluente ainda poderia
adquirir novas formas no futuro, mas sem nunca perder a sua natureza
vetorial, a sua irrefreável fluência e o seu caráter imanente. Poderia esse
tempo adquirir novos formatos, se apresentar sob a forma de ondas ou se
espiralar na direção do futuro. Tempos viriam em que também a repetição
passaria a constituir um novo foco de estudos para a história científica – possibilidade que seria bem representada por certos setores do movimento
dos Annales no século XX –, mas neste momento em que se gesta a Teoria
da História no início do século XIX, a ideia de irreversibilidade do tempo
será simultaneamente uma conquista e um desafio para o novo tipo de
historiografia 99.
Significativo indício de que estavam finalmente se gestando as condições
para uma história científica, já o dissemos, é a própria emergência do
historiador profissional, e isto já permite que se realize a transição das
“filosofias da história” do século XVIII para as “teorias da história” do
século XIX. Se as “filosofias da história” eram frequentemente elaboradas
por sábios e eruditos iluministas, as “teorias da história” já pertencerão aos
historiadores profissionais, preocupados em se especializar em um novo
tipo de conhecimento – uma História refundada a partir de um novo padrão
de cientificidade. O historiador profissional, especialista, começa
concomitantemente a formar a sua própria comunidade científica – como a
dos físicos, químicos, botânicos ou qualquer outro tipo de especialista. Esse
aspecto, veremos mais adiante, será fundamental para a constituição de uma
“matriz disciplinar” específica da História e para o surgimento dos
primeiros paradigmas historiográficos.
Outro indício particularmente importante desse novo momento, no século
XIX, em que os historiadores passam a se ver como uma comunidade
específica, e também como grupo de especialistas que se posicionam em
diálogos recíprocos prontos a se agrupar em determinadas redes conforme
seus posicionamentos teórico-metodológicos, é a emergência do gênero
“historiográfico” por excelência: obras nas quais os historiadores discorrem
sobre a própria historiografia e sobre as correntes históricas de sua época.
Esse “olhar sobre si mesmo”, que apenas conhecera exemplos isolados nos
séculos anteriores (Luciano de Samósata, 165 d.C.; Voss, 1623; Mably,
1775 e 1783), é condição fundamental para a consolidação da Teoria da
História como um subcampo disciplinar da História, e associa-se também à
ideia de que qualquer obra historiográfica deve ser submetida à crítica da
própria “comunidade dos historiadores”. Com esse gênero, a História entra
em sintonia com uma modernidade na qual a autocrítica deveria ser
entendida como um dos traços necessários da cientificidade, com vistas a
gerar o aperfeiçoamento de cada disciplina, no caso o aprimoramento da Teoria da História. Seguia-se, aqui, a sinalização de Immanuel Kant na
Crítica da razão pura (1781), para quem “nossa época é a época da crítica,
à qual tudo deve se submeter”.
É um atento olhar sobre si o que começará a ser sistematicamente
exercido pelos historiadores da era das “teorias da história”. Um prenúncio
desses “olhares sobre a História” – a saber, sobre a história dos
historiadores – já havia sido assinalado nas últimas décadas do século
XVIII por uma certa variedade de verbetes de Enciclopédias que se
puseram a discutir a História e os modos de dividir o tempo, todos eles
atentamente examinados por Reinhart Koselleck (2006: 280-296). Mas é
com a prática historicista que esse “olhar sobre si” assume a forma de
ensaios mais alentados, realizados pelos próprios historiadores. Gervinus
escreverá em 1837 o ensaio As grandes linhas da história; Sybel escreverá
em 1856 um estudo intitulado Sobre o estado da moderna historiografia
alemã; Droysen escreverá entre 1858 e 1883 o seu Historik. Enquanto isto,
na França, também a Escola Metódica produzirá seu próprio “olhar sobre a
história”, bem consubstanciado no texto-manifesto dos metódicos que será
escrito por Gabriel Monod (1876) e publicado com o primeiro número da
Revue Historique, em 1876. Treze anos depois, o mesmo Gabriel Monod
acrescentaria um novo olhar pormenorizado sobre os Estudos Históricos na
França (1889), ao passo em que Thierry já havia escrito, a essa altura, seu
ensaio sobre As Diferentes maneiras de se escrever a História (1884). Ao
lado de toda essa produção dos historiadores sobre a própria historiografia,
existirão também as obras produzidas pelos filósofos historicistas, tal como
o célebre ensaio de Wilhelm Dilthey escrito em 1883 com vistas a uma
Introdução ao estudo das Ciências do espírito 100. De igual maneira, a par
do diálogo que já se começa a estabelecer em torno de questões
historiográficas e de ordem teórica, já aparecem nos prólogos das primeiras
grandes obras de historiadores historicistas as reflexões metodológicas
sobre o “fazer historiográfico”, procurando estabelecer um modelo
direcionado às questões de método e crítica documental, tal como ocorre
com Ranke e sua História das nações latinas e teutônicas (1824). Eis aqui o
duplo alicerce da Teoria e do Método a estabelecer, definitivamente, um