Teoria da História I: Princípios e conceitos fundamentais
Introdução
A Teoria da História constitui um campo de estudos fundamental para a
formação do historiador. Não é possível desenvolver uma adequada
consciência historiográfica, nos atuais quadros de expectativas relacionados
ao nosso ofício, sem saber se utilizar de conceitos e hipóteses, sem
compreender as relações da História com o Tempo, com a Memória ou com
o Espaço, ou sem conhecer as grandes correntes e paradigmas teóricos
disponibilizados aos historiadores através da própria história da
historiografia. Do mesmo modo, essa consciência histórica que se mostra
tão necessária não apenas aos historiadores em formação, mas também aos
próprios leitores de livros de história, é inseparável de uma adequada
reflexão sobre o tipo de conhecimento que se produz com a História, sobre
as relações possíveis desse conhecimento com alguma base concreta de
realidade, sobre as singularidades da História como um “campo disciplinar”
muito específico que se situa ou se desloca no quadro geral das outras
formas de conhecimento e que com elas trava disputas e diálogos
interdisciplinares. Como entender a História, ainda, sem reconhecer a sua
complexidade, sem vislumbrar o labirinto das suas modalidades internas,
sem compreender como – na interconexão entre essas várias modalidades –
trabalham os historiadores como uma comunidade profissional bastante
específica? Como apreender, por fim, essa enigmática relação entre a
História e a história – entre uma forma de conhecimento bem singular que é
essa que é produzida pelos historiadores, e o seu próprio objeto de estudos,
que corresponde à “história vivida” que lhes chega através de vestígios
trazidos pelas chamadas “fontes históricas”? Todas essas inúmeras questões
– “teóricas” por excelência – fazem parte dos aspectos disciplinares que
podem ser referidos como uma Teoria da História, conforme veremos no
decorrer deste livro.
Antes de abordarmos os diversos aspectos pertinentes à Teoria da
História, contudo, será oportuno entendermos o que é “Teoria”. Não são raras, por exemplo, confusões entre “Teoria” e “Método” e, mais
particularmente, entre Teoria da História e Metodologia da História, embora
esses dois âmbitos sejam na verdade bem diferenciados, ainda que
interpenetrantes um em relação ao outro. Confundir uma coisa com a outra
gera, muito habitualmente, inadequações curriculares relacionadas ao
Ensino de História em nível de graduação. Seria inadequado orientar todo
um curso de “Metodologia da História” para aspectos exclusivamente
pertinentes à Teoria da História, sem nunca tocar nos pontos que seriam
essencialmente metodológicos (como as dimensões da pesquisa e a
necessidade de seu planejamento, ou como os diversos aspectos
relacionados às fontes históricas e aos métodos e técnicas disponíveis para
lidar com elas, seja em nível de coleta de informações e evidências, seja em
nível de análise de discursos e de séries de informações). Igualmente
inadequado seria também o contrário: estabelecer uma prática de
metodologia da história no Curso de Teoria da História sem abordar
questões especificamente teóricas, entre as quais poderíamos mencionar o
papel dos conceitos na escrita da história, as diversas modalidades internas
nas quais se organiza a prática historiográfica, ou ainda a formulação de
hipóteses como fator importante para mediar, na pesquisa, a passagem da
teoria à metodologia. De igual maneira, seria lacunar deixar de se
empreender uma discussão inicial em torno de correntes teóricas e
paradigmas como o Positivismo, o Historicismo ou o Materialismo
Histórico na disciplina Teoria da História, ou deixar de se encetar uma
reflexão mais sistemática sobre o “Tempo” ou o “Espaço” na História, sobre
as relações entre “História e Memória”, apenas para lembrar alguns dos
aspectos eminentemente teóricos que se tornam basilares para o
desenvolvimento de uma formação historiográfica mais consistente.
Se a Teoria da História e a Metodologia da História podem ser
inadvertidamente confundidas, também não é raro confundir uma outra
coisa: a Historiografia, com a Teoria da História ou com a Metodologia da
História. Todos esses âmbitos – a Historiografia, a Teoria e a Metodologia –
obviamente se interpenetram, mas nem por isso deixam de guardar entre si
a sua distância ou a sua identidade fundamental. A Historiografia, por
exemplo, corresponde ao acúmulo do trabalho já realizado pelos
historiadores, e à reflexão mais sistemática sobre esse trabalho. É claro que um estudo mais aprofundado sobre o trabalho já realizado pelos diversos
historiadores desde os primórdios da História – isto é, a análise da
historiografia e um acompanhamento sistemático da história dessa mesma
historiografia – trará necessariamente à baila questões de Teoria e
Metodologia, já que todo historiador produz as suas obras e pesquisas
historiográficas a partir de teorias e métodos. A Historiografia, em
contrapartida, oferece exemplos necessários tanto para o estudo da “Teoria
da História” como para o ensino da “Metodologia da História” e, portanto,
tanto para o ensino de uma coisa ou de outra será imprescindível lançar mão
da Historiografia. Mas necessariamente se deve ter em conta a necessidade
de estabelecer enfoques diferenciados para disciplinas que sejam
respectivamente denominadas “Historiografia”, “Teoria da História” e
“Metodologia”. Ainda que falar nesses três âmbitos de maneira interligada
seja algo essencial, ao menos os pontos de partida de cada um desses
campos de estudo devem ser pensados de maneira distinta.
Por que isso nem sempre ocorre? Nossa hipótese é a de que nem sempre
se parte, como se deveria, de um necessário esclarecimento sobre o que é
“teoria”, sobre o que é “método”, sobre o que é “historiografia”. Um
caminho interessante para esse esclarecimento é o de iluminar cada uma
dessas noções a partir da outra. Seguindo essa linha de pensamento, o nosso
objetivo, em um primeiro momento de nossas reflexões, será clarificar bem
a diferença entre “Teoria” e “Método”, pois somente a partir dessa distinção
poderemos começar a discutir com maior propriedade os assuntos
pertinentes à Teoria da História, e situá-los com clareza em sua relação com
a “Metodologia da História” e com a “Historiografia”. Mas, antes de
retomarmos esse ponto, desviaremos por um instante o nosso olhar para
uma perspectiva mais abrangente. Se a História é uma disciplina (um
“campo disciplinar” no interior do qual se produz uma forma de
conhecimento específico que teremos como objetivo clarificar ao longo
deste livro) será útil entender o que é, de modo mais geral, uma
“Disciplina”. O que vem a ser, tal como ocorre com a História – mas
também com a Sociologia, a Antropologia, a Geografia, a Física, ou a
Astronomia –, a constituição de uma “Disciplina”? Antes de compreender o
que é uma “Teoria” – esta que é uma das dimensões que necessariamente
constituem qualquer campo disciplinar – e antes de examinarmos em sua especificidade o que é essa disciplina que chamamos “História”, busquemos
entender o que é uma “Disciplina” no seu grau mais geral de envolvência.
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