Teoria da História I: Princípios e conceitos fundamentais

José D'Assunção Barros · Capítulo 3 de 18

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Teoria da História I: Princípios e conceitos fundamentais

Introdução

 

A Teoria da História constitui um campo de estudos fundamental para a

formação do historiador. Não é possível desenvolver uma adequada

consciência historiográfica, nos atuais quadros de expectativas relacionados

ao nosso ofício, sem saber se utilizar de conceitos e hipóteses, sem

compreender as relações da História com o Tempo, com a Memória ou com

o Espaço, ou sem conhecer as grandes correntes e paradigmas teóricos

disponibilizados aos historiadores através da própria história da

historiografia. Do mesmo modo, essa consciência histórica que se mostra

tão necessária não apenas aos historiadores em formação, mas também aos

próprios leitores de livros de história, é inseparável de uma adequada

reflexão sobre o tipo de conhecimento que se produz com a História, sobre

as relações possíveis desse conhecimento com alguma base concreta de

realidade, sobre as singularidades da História como um “campo disciplinar”

muito específico que se situa ou se desloca no quadro geral das outras

formas de conhecimento e que com elas trava disputas e diálogos

interdisciplinares. Como entender a História, ainda, sem reconhecer a sua

complexidade, sem vislumbrar o labirinto das suas modalidades internas,

sem compreender como – na interconexão entre essas várias modalidades –

trabalham os historiadores como uma comunidade profissional bastante

específica? Como apreender, por fim, essa enigmática relação entre a

História e a história – entre uma forma de conhecimento bem singular que é

essa que é produzida pelos historiadores, e o seu próprio objeto de estudos,

que corresponde à “história vivida” que lhes chega através de vestígios

trazidos pelas chamadas “fontes históricas”? Todas essas inúmeras questões

– “teóricas” por excelência – fazem parte dos aspectos disciplinares que

podem ser referidos como uma Teoria da História, conforme veremos no

decorrer deste livro.

Antes de abordarmos os diversos aspectos pertinentes à Teoria da

História, contudo, será oportuno entendermos o que é “Teoria”. Não são raras, por exemplo, confusões entre “Teoria” e “Método” e, mais

particularmente, entre Teoria da História e Metodologia da História, embora

esses dois âmbitos sejam na verdade bem diferenciados, ainda que

interpenetrantes um em relação ao outro. Confundir uma coisa com a outra

gera, muito habitualmente, inadequações curriculares relacionadas ao

Ensino de História em nível de graduação. Seria inadequado orientar todo

um curso de “Metodologia da História” para aspectos exclusivamente

pertinentes à Teoria da História, sem nunca tocar nos pontos que seriam

essencialmente metodológicos (como as dimensões da pesquisa e a

necessidade de seu planejamento, ou como os diversos aspectos

relacionados às fontes históricas e aos métodos e técnicas disponíveis para

lidar com elas, seja em nível de coleta de informações e evidências, seja em

nível de análise de discursos e de séries de informações). Igualmente

inadequado seria também o contrário: estabelecer uma prática de

metodologia da história no Curso de Teoria da História sem abordar

questões especificamente teóricas, entre as quais poderíamos mencionar o

papel dos conceitos na escrita da história, as diversas modalidades internas

nas quais se organiza a prática historiográfica, ou ainda a formulação de

hipóteses como fator importante para mediar, na pesquisa, a passagem da

teoria à metodologia. De igual maneira, seria lacunar deixar de se

empreender uma discussão inicial em torno de correntes teóricas e

paradigmas como o Positivismo, o Historicismo ou o Materialismo

Histórico na disciplina Teoria da História, ou deixar de se encetar uma

reflexão mais sistemática sobre o “Tempo” ou o “Espaço” na História, sobre

as relações entre “História e Memória”, apenas para lembrar alguns dos

aspectos eminentemente teóricos que se tornam basilares para o

desenvolvimento de uma formação historiográfica mais consistente.

Se a Teoria da História e a Metodologia da História podem ser

inadvertidamente confundidas, também não é raro confundir uma outra

coisa: a Historiografia, com a Teoria da História ou com a Metodologia da

História. Todos esses âmbitos – a Historiografia, a Teoria e a Metodologia –

obviamente se interpenetram, mas nem por isso deixam de guardar entre si

a sua distância ou a sua identidade fundamental. A Historiografia, por

exemplo, corresponde ao acúmulo do trabalho já realizado pelos

historiadores, e à reflexão mais sistemática sobre esse trabalho. É claro que um estudo mais aprofundado sobre o trabalho já realizado pelos diversos

historiadores desde os primórdios da História – isto é, a análise da

historiografia e um acompanhamento sistemático da história dessa mesma

historiografia – trará necessariamente à baila questões de Teoria e

Metodologia, já que todo historiador produz as suas obras e pesquisas

historiográficas a partir de teorias e métodos. A Historiografia, em

contrapartida, oferece exemplos necessários tanto para o estudo da “Teoria

da História” como para o ensino da “Metodologia da História” e, portanto,

tanto para o ensino de uma coisa ou de outra será imprescindível lançar mão

da Historiografia. Mas necessariamente se deve ter em conta a necessidade

de estabelecer enfoques diferenciados para disciplinas que sejam

respectivamente denominadas “Historiografia”, “Teoria da História” e

“Metodologia”. Ainda que falar nesses três âmbitos de maneira interligada

seja algo essencial, ao menos os pontos de partida de cada um desses

campos de estudo devem ser pensados de maneira distinta.

Por que isso nem sempre ocorre? Nossa hipótese é a de que nem sempre

se parte, como se deveria, de um necessário esclarecimento sobre o que é

“teoria”, sobre o que é “método”, sobre o que é “historiografia”. Um

caminho interessante para esse esclarecimento é o de iluminar cada uma

dessas noções a partir da outra. Seguindo essa linha de pensamento, o nosso

objetivo, em um primeiro momento de nossas reflexões, será clarificar bem

a diferença entre “Teoria” e “Método”, pois somente a partir dessa distinção

poderemos começar a discutir com maior propriedade os assuntos

pertinentes à Teoria da História, e situá-los com clareza em sua relação com

a “Metodologia da História” e com a “Historiografia”. Mas, antes de

retomarmos esse ponto, desviaremos por um instante o nosso olhar para

uma perspectiva mais abrangente. Se a História é uma disciplina (um

“campo disciplinar” no interior do qual se produz uma forma de

conhecimento específico que teremos como objetivo clarificar ao longo

deste livro) será útil entender o que é, de modo mais geral, uma

“Disciplina”. O que vem a ser, tal como ocorre com a História – mas

também com a Sociologia, a Antropologia, a Geografia, a Física, ou a

Astronomia –, a constituição de uma “Disciplina”? Antes de compreender o

que é uma “Teoria” – esta que é uma das dimensões que necessariamente

constituem qualquer campo disciplinar – e antes de examinarmos em sua especificidade o que é essa disciplina que chamamos “História”, busquemos

entender o que é uma “Disciplina” no seu grau mais geral de envolvência.

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