Teoria da História I: Princípios e conceitos fundamentais

José D'Assunção Barros · Capítulo 5 de 18

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Teoria da História I: Princípios e conceitos fundamentais

2 Teoria: o que é isso?

práticas e saberes, é preciso que essa proposição responda às condições

desta disciplina tal como a definem ou definiram os seus praticantes de

então. A História, como qualquer outra disciplina, estará sempre atraindo

para dentro de si ou repelindo para fora de suas margens determinado

conjunto de saberes, proposições e domínios que em momento anterior

poderiam ter estado ali, e que em um momento subsequente da história dos

saberes e dos discursos já não estão21.

 

2 Teoria: o que é isso?

 

Neste momento, poderemos começar a adentrar o nosso âmbito mais

específico de reflexões: como se dá a relação entre a Teoria e determinado

campo disciplinar; ou, ainda mais especificamente, como se dá a relação

entre Teoria e História? Vimos atrás que, entre outras instâncias, os

“aspectos teóricos” constituem uma das dimensões integrantes de qualquer

“campo disciplinar”, e a História não será aqui uma exceção. Qualquer

campo disciplinar, seja qual ele for, apresenta uma escrita (uma linguagem)

própria, uma organização interna que tende a se consolidar sob a forma de

“espaços intradisciplinares”, uma tendência a estabelecer no seu exterior

certos diálogos interdisciplinares com outros campos de saber, um conjunto

de procedimentos e alternativas metodológicas, um “olhar sobre si” que

passa progressivamente a refletir uma maior tomada de consciência dos

integrantes do campo disciplinar acerca de suas próprias realizações, e, por

fim, um certo repertório de possibilidades relacionadas à Teoria22. Será

esse aspecto específico, essa singular dimensão teórica que também

constitui a História como disciplina, e que, portanto, permite que nos

expressemos em termos de uma Teoria da História, que será o objeto do

presente livro. Mas o que vem a ser, antes de mais nada, a Teoria? Essa

indagação precisará ser respondida, ou ao menos revisitada, antes que

possamos passar à indagação ainda mais específica acerca do que vem a ser

a Teoria da História.

Uma teoria é uma visão de mundo. É através de teorias que os cientistas e

os estudiosos de qualquer área de saber conseguem enxergar a realidade, ou

os seus objetos de estudo, de formas específicas, seja qual for o seu campo

de conhecimento ou de atuação23. É particularmente interessante constatar

que a noção de “teoria” sempre esteve ligada, desde a Antiguidade, à ideia

de “ver” – ou de “conceber” – o que prossegue sendo válido até os dias de

hoje24. Todavia, quando dizemos que a Teoria é uma “visão de mundo”,

podemos discutir esta afirmação em três níveis (Figura 1).

 

Figura 1. Três níveis de discussão sobre a teoria

 

A teoria pode ser abordada, em um primeiro nível, como um “campo de

estudos”, ou como uma espécie de território25 constituído por todas as

realizações teóricas proporcionadas pelos praticantes de determinado campo

de saber. São nesses territórios teóricos, definidos por cada uma das

diversas ciências, que encontraremos, em graus vários de amadurecimento e

de interação, as linguagens conceituais específicas de cada campo de saber,

os seus modos de enxergar a realidade, os paradigmas disponíveis aos

praticantes do campo, ou as próprias perguntas que são possíveis de se

levantar, naquele momento, com relação aos objetos de estudo típicos do

campo de saber em questão. E é precisamente neste nível de significação –

a Teoria como “campo de estudos” – que poderemos falar em áreas

específicas como a Teoria da História, a Teoria Econômica, a Teoria do

Direito, a Teoria Literária, e inúmeras outras áreas que nos dias de hoje já

encontraram assento como disciplinas acadêmicas.

Também podemos falar de “teorias” quando nos referimos a cada um dos

modelos ou sistemas explicativos de que os cientistas se utilizam para

compreender os fenômenos, aspectos e objetos que se relacionam às suas

especialidades26. Há teorias sobre objetos ou processos muito singulares –

como a reprodução do mosquito da dengue, a (in)existência de vida em

Marte ou a Revolução Francesa. Mas há também teorias sobre questões muito mais amplas – como a Teoria da Evolução das Espécies, a Teoria do

Big-Bang, ou as várias teorias sobre os modos de se escrever a História. As

inúmeras teorias sobre os diversos fenômenos que concernem à História,

inclusive sobre a própria especificidade da História enquanto modalidade

científica, cabem na verdade no interior deste imenso território que é a

Teoria da História. Desta maneira, pode-se dizer que esse nível mais

específico de discussão sobre a Teoria está englobado pelo que citamos

anteriormente. A Teoria da História abarca dentro de si as diversas teorias

da história. A Teoria Econômica é essa arena na qual se confrontam as

diversas teorias econômicas sobre as questões específicas sobre as quais se

debruçam os economistas. A Teoria do Direito engloba tudo o que já se

teorizou até hoje sobre o Direito e suas questões correlatas.

Por fim, um terceiro nível em que se pode refletir sobre o “teórico” é

aquele que considera a Teoria como forma específica de apreender a

realidade e de enxergar o mundo. Embora seja nossa intenção discutir a

Teoria naqueles dois primeiros níveis – a Teoria como “campo de estudos”

e as teorias como sistemas para compreender um determinado objeto ou

aspecto da realidade – é com este terceiro nível de significação que

começaremos.

Como “modo de apreender o mundo” – ou mesmo como maneira de agir

diante da realidade ou do mundo imaginário – a Teoria se contrapõe ao agir

intuitivo, ao comportamento emotivo, ao impulso instintivo, à recepção

mística da “palavra revelada”, e a outros tantos modos de conhecer ou de se

movimentar no mundo. A Teoria é filha da Razão e irmã da Metodologia

Científica. Não é uma forma melhor nem pior de apreender o mundo ou de

nele se movimentar, é apenas uma forma específica, que compreenderemos

a partir do contraste entre o “teórico” e o “intuitivo”. Por aqui

começaremos.

Dizíamos atrás que “a Teoria é uma Visão de Mundo”, e que, nesse

terceiro nível de discussão, a teoria corresponde a certa maneira de “ver” e

de pensar sobre as coisas. A etimologia da palavra confirma isto desde os

antigos gregos (cf. nota 24). Ocorre que também a “Intuição” – faculdade

que iremos contrapor à capacidade de teorizar, de modo a iluminar uma e

outra coisa – não deixa igualmente de dever a sua origem etimológica ao

verbo “ver”. Mas enquanto a expressão “Teoria” deve estar associada a um modo de ver que se estabelece processualmente através da razão discursiva

(isto é, de uma verbalização que se impõe passo a passo) bem como através

de mediações várias entre o sujeito e o objeto “contemplado”, já o “ver” da

intuição é algo de natureza inteiramente outra. Em latim, intuere significa

“ver por dentro”, e a intuição corresponde a um conhecimento que se

produz sem mediações entre o sujeito e seu objeto, que nesse caso é

apreendido de uma só vez em sua plena singularidade. Ao contrário da

“Teoria”, a “Intuição” não precisa de método. Da mesma maneira, a

Intuição é instantânea, bem diferente da Teoria, que necessariamente

envolve um processo com várias etapas, procedimentos, mediações 27.

Um exemplo bastante banal poderá facilitar a distinção entre a Teoria

(modo de conhecer racionalizado e verbalizado) e a Intuição (modo de

conhecer que envolve muito mais as emoções e sensações do que a razão e

o método). Suponhamos que, por incumbência profissional ou por decisão

associada a uma pesquisa a ser realizada, tomei a meu encargo a análise

comportamental de um pequeno grupo de profissionais, de uma família, ou

mesmo de determinado indivíduo inserido em certo contexto profissional,

hospitalar ou carcerário. Por exemplo, imaginemo-nos na função de um

psicólogo criminal que precisa emitir um parecer sobre um presidiário

prestes a sair, ou não, para um sistema de liberdade condicional, ou de um

psicólogo clínico que precisa emitir a sua opinião acerca da possibilidade de

liberação de determinado indivíduo até então sujeito a um regime de

internação hospitalar, ou mesmo de um psicólogo institucional que foi

contratado por uma empresa para emitir um parecer sobre determinado

funcionário que poderia vir a ocupar um cargo de responsabilidade na

empresa. Trata-se, em todos estes casos, e podemos tomar como exemplo

ilustrativo qualquer um deles, de emitir uma opinião técnica,

circunstanciada, científica, sobre as características, comportamento,

potencialidades e modos de relacionamento de um certo indivíduo no

interior de determinados contextos. O prisioneiro será analisado

simultaneamente no contexto carcerário e alternativamente com vistas a um

contexto imaginário no qual estará eventualmente reintegrado à sociedade;

o paciente clínico será analisado simultaneamente no contexto hospitalar,

dentro do qual é sujeito à vigilância e assistência médica, e no contexto

imaginário de sua liberação para a vida comum, caso venha a receber alta; o funcionário será analisado no seu ambiente de trabalho e no exercício atual

de suas funções, mas fazendo-se também uma projeção de como ele atuaria

se fosse empossado no novo cargo empresarial. Ou seja, em cada um destes

casos, estaremos analisando um indivíduo no seu mundo circunstancial e

diante de novas possibilidades.

A Psicologia é uma ciência. O psicólogo encarregado deverá produzir o

seu parecer amparado em procedimentos científicos e em relatórios bem

circunstanciados. Para obter credibilidade daqueles que lhe confiaram a

função, precisará trabalhar no “modo teórico”, por assim dizer. Em vista

disso, ele inicia o seu trabalho. Quando se trata de avaliar determinada

pessoa com a qual travaremos algum contato pessoal, seja por incumbência

profissional, como é o caso, seja por contingências da nossa vida social e

cotidiana, podemos começar por estabelecer nossos juízos sobre o indivíduo

em questão a partir de uma série de informações, por vezes contraditórias,

que nos chegaram sobre essa pessoa. Diante deste vasto material

“empírico”28 que amealhamos ainda desordenadamente, é comum que

comecemos a proceder à comparação entre os diversos depoimentos e

informações sobre essa pessoa que estamos tentando conhecer em maior

profundidade. A respeito do presidiário, obteremos informações de seus

colegas de cárcere, mas também das pessoas que com ele conviveram no

mundo externo, e também de seus familiares, sem contar a análise de sua

ficha criminal. Acerca do paciente clínico, teremos informações obtidas

com os laudos médicos, mas também poderemos indagar os demais

pacientes que com ele convivem, ou investigar a sua história pregressa no

mundo exterior ao ambiente hospitalar. Para nos aproximarmos da vida

profissional, das potencialidades e das qualificações do funcionário da

empresa, poderemos entrevistar os seus colegas de trabalho, observá-los

todos no seu cotidiano profissional, realizar testes com o indivíduo em

questão, avaliar o seu currículo e registro de experiências anteriores.

Em cada um desses casos, para começar a empreender uma análise mais

sistemática, teremos à nossa disposição um grande conjunto de

informações, observações in loco, e depoimentos diversificados. Ato

contínuo, será preciso organizar todas essas informações que nos são

mostradas, inter-relacionando-as de acordo com certa lógica, inclusive

identificando e destacando contradições (afinal, podemos nos informar sobre uma determinada pessoa, em parte, através de depoimentos de outras

pessoas, que também são elas mesmas sujeitos humanos complexos e

contraditórios, capazes de má-fé, de interpretações equivocadas e de

opiniões parciais, perspectivadas). Ao mesmo tempo em que organizamos

todo esse material informativo e o submetemos a uma rigorosa análise e a

ponderações várias, conversas diretas com a própria pessoa em questão –

cujo discurso submeteremos a uma “análise” com vistas à identificação de

sua sinceridade, de suas características, de seus potenciais, de suas

idiossincrasias ou de seu caráter – concorrerão certamente para acrescentar

ainda mais materiais aos elementos que já temos à nossa disposição para

compor a nossa “teoria” sobre as características da pessoa que queremos

conhecer. Se o psicólogo estiver associado teoricamente à “corrente

psicanalítica”, por exemplo, a análise do discurso do indivíduo examinado

será mesmo central, e nada se poderá produzir de efetivo que não se inicie

pelo gesto de acionar o seu discurso com vistas a uma rigorosa análise

pautada em determinados critérios e procedimentos. Se o psicólogo estiver

associado à teoria reichiana, talvez seja preciso, literalmente, “desnudar” o

analisado. Um behaviorista estará atento ao seu comportamento no grupo, e

determinadas correntes holísticas e sistêmicas da psicologia estarão muito

atentas à integração do indivíduo com o seu contexto e sua trama de

relações. De todo modo, a investigação se iniciou no “modo teórico”, e isso

pressupõe lidar com um grande número de materiais e mediações.

É certo que acabamos de mencionar acima, desde já se pode notar, alguns

procedimentos “metodológicos”, e não simplesmente “teóricos”, e é preciso

desde já ressaltar que existe uma diferença a ser considerada entre a Teoria

e o Método, tal como veremos oportunamente. Mas o importante é que

compreendamos neste momento que, quando escolhemos o modo teórico de

enxergar a realidade, começamos a nos servir de uma série de “mediadores”

para compreender a realidade examinada. De um lado, municiamo-nos de

informações empíricas e tentamos desenvolver nossos pensamentos, passo a

passo (isto é, processualmente), através dessa base de informação. De outro

lado, a todo o instante estaremos criando “conceitos” e formulando

“hipóteses”. Se, em vista de certas informações colhidas e logo analisadas,

o psicólogo vier a classificar um indivíduo como uma pessoa na qual não se

pode confiar para determinados fins (que poderá representar determinado perigo para a sociedade, ou que então poderá apresentar algum tipo de

ineficiência para a função que lhe será requerida, no caso do funcionário a

ser analisado) é porque, bem antes disto, foi estabelecido um determinado

conceito de “confiabilidade”. Na própria vida cotidiana, com frequência

formulamos conceitos como esse e outros – pois, afinal de contas, também

podemos trabalhar com o “modo teórico” na vida comum e nas mais

diversificadas esferas da vida. A “confiabilidade” é um conceito que

também pode ser utilizado no dia a dia, e recorrentemente fazemos isto em

nossas vidas sociais. Pensar no mundo como passível de ser dividido em

pessoas nas quais se pode confiar, e outras das quais devemos desconfiar,

pressupõe já certa tábua de leitura do mundo. A própria pergunta que

indaga sobre a possibilidade de “confiar ou não em alguém” não teria

sentido diante de uma outra maneira de enxergar as coisas. De fato,

conforme veremos oportunamente, existem certas perguntas que somente

surgem em nossas mentes quando nos orientamos por uma determinada

maneira de ver as coisas – por um certo “horizonte teórico”, por assim

dizer.

A recolha de materiais e evidências, com a concomitante análise desses

materiais através de certos mediadores teóricos e metodológicos – e isto

valeria para a Psicologia, para a Química, para a História, ou mesmo para a

aplicação do “modo teórico” a ações relacionadas à vida cotidiana –

constitui uma necessidade imperativa quando se fala de Teoria. Por fim,

além da base empírica e da racionalização a partir de conceitos e hipóteses,

existirá sempre uma dimensão lógico-verbal envolvida na construção de

uma teoria, e no exemplo em questão não nos comportaríamos de maneira

diferente. Se estou tentando criar uma “teoria” sobre alguma coisa, meus

pensamentos vão sendo organizados a partir de uma espécie de “conversa”

que estabeleço comigo mesmo, ou com um interlocutor imaginário. A

“Teoria”, enfim, se desenrola a partir de um padrão discursivo,

argumentativo, no qual vamos a cada novo momento encaixando uma coisa

na outra ou interconectando pensamentos, ao mesmo tempo em que

buscamos demonstrar esses pensamentos passo a passo – seja a partir da

comprovação de informações através dos materiais e impressões que temos

à disposição, seja a partir de inferências que podemos estabelecer a partir desses mesmos materiais ou de consequências dos próprios pensamentos

que formulamos antes.

O gesto de “demonstrar” é inseparável de qualquer teoria, e este, aliás, é

um ponto que cria uma interconexão fundamental entre a Teoria e o

Método, conforme veremos mais adiante. De toda forma, é importante se

ter em vista que o processo de elaboração teórica é contínuo e circular, de

modo que nele estarão sempre reaparecendo estes diversos mediadores – os

conceitos e a linguagem de observação que darão certa consistência à

leitura da realidade trazida pelo sujeito que produz o conhecimento, as

hipóteses que serão formuladas, os procedimentos argumentativos e

comprovações empíricas, as análises encaminhadas através da

demonstração, e a verbalização dos resultados através de uma forma

específica de discurso, racionalizada.

 

Figura 2. Mediadores presentes no processo de “teorização”

 

Antes de prosseguirmos, uma pequena observação pode ser feita. Nos

exemplos que evocamos – a análise com vistas à concessão de liberdade

condicional a um prisioneiro, o estudo médico com vistas a dar alta ou não

a um paciente, ou a avaliação para auxiliar na decisão sobre a promoção ou

não de um funcionário a uma nova função – a “teoria” foi instrumentalizada

como forma de poder. A concessão de liberdade, a alta hospitalar ou a

promoção funcional correspondem a poderes que serão exercidos sobre

seres humanos. Nem sempre a teoria é utilizada para encaminhar o

exercício de um poder, mas não deixa de ser interessante refletir sobre o

fato de que, através da teoria, pode ser estabelecido um veículo de

mediação entre “saber” e “poder”. Um historiador ou um antropólogo que

trabalhe com questões relacionadas a identidades, memória, sistemas de

dominação, esclarecimento (ou ocultamento) de relações sociais ou

políticas, ou inúmeras outras temáticas, também pode estar se inscrevendo

em uma rede de poderes e saberes. De qualquer maneira, no momento, esta

é apenas uma observação lateral. Sigamos em frente em nosso empenho de

caracterizar a natureza do procedimento teórico.

Desenvolver uma teoria, é isto o que iremos considerar agora, constitui

algo bem diferente de “ter uma intuição” a respeito de algo. Com a

“intuição”, ao contrário do que ocorre com a teorização, o conhecimento ou

a apreensão do objeto dá-se de forma direta, e aqui temos de fato a nítida

impressão de termos atingido o âmago do aspecto que nos interessa sem

qualquer necessidade de mediações. Se acabamos de conhecer uma pessoa,

podemos ter a imediata impressão ou sensação de que se trata de uma

pessoa na qual poderemos confiar ou não. O empregador pode contratar o

seu empregado, ou promovê-lo, porque teve uma imediata empatia em

relação a ele, ou porque teve uma forte “intuição” nessa mesma direção.

Para auxiliar a sua decisão de contratar ou promover funcionários, ele

poderá requerer uma ajuda especializada, “teórica”, por assim dizer, ou sem

grandes percalços poderá se resignar a agir intuitivamente. Já para a

liberação de prisioneiros com vistas à liberdade condicional, ou para a

emissão de pareceres de alta a pacientes clínicos, uma mera intuição já não

é aceitável como procedimento-padrão, pois essas ações são instadas

institucionalmente a se fazerem vir acompanhadas de procedimentos

teóricos, com laudos precisos de avaliação, com argumentação registrada a

favor da decisão tomada em uma ou em outra direção. A psicologia

criminal, a perícia criminal e a prática clínica, na cultura ocidental,

inscreveram-se na esfera científica, e estão inarredavelmente associadas ao

“modo teórico”29. A investigação criminal, por exemplo, pode contar com

a intuição em diversos momentos, mas é também uma ciência, e, na maior

parte do tempo, irá trabalhar com o “modo teórico” e com um rigoroso

método de investigação.

O que ocorreu com esses campos de saber veio também a acontecer com

a História: esta, a partir do século XIX, tornou-se científica, e com esse

mesmo espírito seguiu pelo século XX adentro: doravante, muitos iriam se

referir à História como uma ciência (BLOCH, 1942), ou ao menos como

um “estudo cientificamente conduzido” (FEBVRE, 1953). Até muitos daqueles que iriam posteriormente colocar em dúvida o caráter de

cientificidade da História (VEYNE, 1971), nem por isso deixariam de

sustentar que ela deveria operar no “modo teórico”. E mesmo Benedetto

Croce, que refletiu sobre a temática da História reduzida ao conceito geral

de arte (1893), não deixou de escrever a sua Teoria e história da

historiografia (1917). A “Teoria”, definitivamente, veio a se integrar à

História no momento mesmo em que esta começou a se constituir como um

campo disciplinar, com assento nas universidades.

A Ciência, portanto – seja no campo da Psicologia, da Perícia Criminal

ou da História –, opera essencialmente no “modo teórico”, e é por essa via

que tendemos a seguir quando praticamos uma disciplina que se pauta por

algum padrão de cientificidade. Por outro lado, se ao guiar um veículo nos

surpreendermos diante de uma encruzilhada, ficando indecisos perante a

possibilidade de dois caminhos a seguir, e não dispusermos nesse caso de

nenhum mapa ou de qualquer outra informação que nos ajude a chegar a

proposições teóricas que orientem a nossa decisão de seguir por um

caminho ou por outro, podemos apelar em última instância para a intuição.

Uma “intuição” pode dar certo ou não, mas, de todo modo, quando temos

uma “intuição”, a impressão que toma conta de nossos pensamentos e

sentidos é a de que acabamos de atingir diretamente o âmago daquilo que

está diante de nós. Literalmente, com a intuição, temos a impressão de “ver

por dentro” (intuere). Já a “Teoria” nos permite, ou na verdade nos obriga,

a uma aproximação paulatina do objeto contemplado, pensado ou

pesquisado. “Intuição” e “Teoria”, portanto, correspondem a duas formas

bem distintas de “ver”. A Teoria vai como que se acercando do seu objeto e

do seu problema, estabelecendo uma visão de fora, ainda que sistemática e,

de toda maneira, capaz de posteriormente permitir que se atinja ainda assim

o âmago do objeto examinado.

A Teoria, associada ao Método, é a principal forma de obter

conhecimento aceita pela Ciência. Não que a Ciência não lide com a

Intuição – uma vez que inúmeras descobertas científicas foram produzidas a

partir de súbitas iluminações que parecem ter surpreendido os próprios

cientistas que as encaminharam –, mas a verdade é que, mesmo nesses

casos, o procedimento científico logo assume as rédeas da experiência e, em

seguida, começa a entretecer teorias para que esta forma de conhecimento que é a Ciência comece a avançar e a se estabelecer em bases mais sólidas.

Em contrapartida, a Arte traz frequentemente a intuição para o centro do

palco dos seus procedimentos criativos, embora nada impeça que o artista

também estabeleça procedimentos racionais para a elaboração de sua obra

artística 30. Posto que isto possa acontecer, a teoria na criação artística

estará frequentemente subordinada a instâncias como a da Intuição, a da

Emoção, e a do juízo estético, ainda que, depois de concluída a obra, um

crítico de arte possa perfeitamente empreender uma sistemática análise

teórica da obra produzida (a Arte não é considerada nos dias de hoje uma

Ciência. Mas a “Crítica de Arte” certamente o é)31.

Estabelecida essa distância em relação à Intuição, voltemo-nos neste

momento para esta forma específica de enxergar e compreender o mundo

que é a da Teoria, e reflitamos mais uma vez sobre a nossa frase inicial de

que “a Teoria é uma visão de mundo”. Será importante compreender que, na

história do pensamento, não deixaram de ocorrer variações importantes na

já mencionada relação entre a “teoria” e o “ver”, à medida que o

“conhecimento” foi sendo definido ou compreendido de maneiras

diversas32. A questão das mutações na relação entre a “Teoria” e o “ver”

merece de fato algumas considerações. Já ressaltamos que, para a maior

parte dos filósofos gregos da Antiguidade, theoria significava

“contemplação”. Deve-se ter em vista, todavia, que entre os antigos gregos

a ideia de conhecimento estava muito associada à noção de “percepção” de

uma realidade subjacente a ser desvelada pelo filósofo ou pelo pesquisador,

de modo que essa “contemplação” que estava fortemente implicada na

noção de theoria abarcava “simultaneamente a percepção, o conhecimento,

e a aceitação da ordem das coisas” (DELATTRE, 1992: 224)33. Pode-se

perceber uma mudança progressiva nesta relação entre a “teoria” e o “ver” à

medida que o conhecimento passa a ser proposto mais como uma

“construção” do que como uma “percepção”.

A constante reformulação do conceito de “teoria” acompanha essa

passagem, essa mudança de atitude do homem moderno perante o

conhecimento. É assim que, já desde o início do século XX, e incluindo as

próprias ciências exatas e da natureza, cientistas como Albert Einstein

(1938) e filósofos como Karl Popper começaram cada vez mais a chamar atenção para o fato de que é a nossa Teoria que decide o que podemos

observar, ou como observar. Popper, por exemplo, vale-se da interessante

metáfora de que “as teorias são redes, lançadas para capturar aquilo que

denomina-mos ‘o mundo’: para racionalizá-lo, explicá-lo, dominá-lo”

(POPPER, 1995: 61).

Outro aspecto bastante interessante a considerar é o fato de que as

ciências humanas e sociais precedem as ciências exatas e naturais nessa

consciência mais aguçada de que, rigorosamente falando, a teoria

transforma a realidade observada, ou ao menos revela certos aspectos de

uma realidade observada e não outros, conforme essa teoria seja construída

de uma maneira ou de outra, ou a partir de certos pontos de vista e

parâmetros. Ao menos em algumas das correntes e paradigmas das ciências

humanas que já se afirmam desde os séculos XVIII e XIX – e podem ser

citados por exemplo alguns dos setores mais relativistas do Historicismo

por oposição ao Positivismo como um todo34 – tem-se razoavelmente bem

desenvolvida uma significativa consciência de que o que se pode perceber

da realidade acha-se francamente interferido pelo ponto de vista do sujeito

que produz o conhecimento. Na segunda metade do século XIX isto já

parecia claro para alguns historicistas, como Droysen e Dilthey, entre

outros. Desta maneira, pode-se dizer que, no século XX, as ciências exatas

começavam a se aproximar de um tipo de autopercepção acerca dos seus

próprios processos de construção do conhecimento que já vinha sendo

desenvolvido na prática pelas diversas ciências sociais e humanas, inclusive

a História, no século anterior. Poderemos lembrar ainda o filósofo austríaco

Wittgenstein (1889-1951), que também iria reforçar esta mesma ideia, mas

já aplicada ao campo semântico e linguístico, ao afirmar que “o limite da

minha linguagem é o limite do meu mundo” (1922, proposição 5.6).

Vamos examinar mais de perto essa complexa relação entre a Teoria

como “visão de mundo” e o fato de que sempre ocorre, por cada teoria, uma

redefinição da realidade que é observada ou imaginada. Apenas para

pontuarmos um exemplo inicial, já pertinente à Historiografia, podemos

evocar um aspecto fundamental da Teoria que se refere à construção de

conceitos. Paul Veyne (n. 1.930), em seu livro Como se escreve a História

(1971), já chamava a atenção para o fato de que “a formação de novos

conceitos é a operação mediante a qual se produz o enriquecimento da visão” (VEYNE, 1982: 106). A essa formulação, o historiador francês

seguia argumentando que Tucídides, Eginhard ou Santo Tomás de Aquino

não teriam podido enxergar, nas sociedades de seu tempo, aquilo que hoje

nelas procuramos: “classes sociais”, “mentalidades”, “mobilidade social”,

“atitudes econômicas”, ou tantos outros aspectos que aprendemos a ver nas

diversas sociedades históricas através de conceitos que nós mesmos

formulamos ou que herdamos, para modificá-los ou não, de nossos

predecessores na análise historiográfica.

É uma determinada teoria – uma certa maneira de ver as coisas – e seus

instrumentos fundamentais, os conceitos, o que nos possibilita formular

uma determinada leitura da realidade histórica e social, enxergar alguns

aspectos e não outros, estabelecer conexões que não poderiam ser

estabelecidas sem os mesmos instrumentos teóricos de que nos valemos.

Desta maneira, a Teoria pode ser considerada, à partida, como fator de

importância fundamental para a constituição de qualquer campo de

conhecimento, o que inclui a História. É por isso que, em outro de seus

livros – intitulado O inventário das diferenças (1976) – Paul Veyne afirma

que “todo historiador é implicitamente um filósofo, já que decide o que

reterá como antropologicamente interessante”; ele deve decidir se atribuirá

importância aos selos postais através da história, ou às classes sociais, às

nações, aos sexos e suas relações políticas, materiais e imaginárias

(VEYNE, 1980: 3)35.

A noção fundamental de que as teorias são visões de mundo ficará ainda

mais clara de duas maneiras: pelo contraste mais rigoroso entre Teoria e

Método, e por um esclarecimento adicional de que, embora as teorias sejam

necessariamente visões de mundo, existem outros tipos de visões de mundo

que nada têm a ver com Teoria (e este não é apenas o caso do “modo

intuitivo”, que já exemplificamos anteriormente, mas também de outras

práticas como o pensamento mágico, a fé religiosa, ou mesmo o agir

instintivo). Vejamos cada um destes aspectos por partes.

A “teoria” remete, como já se disse, a uma maneira específica de ver o

mundo ou de compreender o campo de fenômenos que estão sendo

examinados (vimos atrás que, entre inúmeras correntes teóricas à sua

disposição, um psicólogo poderia se associar à corrente teórica da

“psicanálise”, trazendo o “discurso” para o centro de seu sistema, ou se ligar à corrente reichiana, para a qual o “corpo” desempenhará um papel

primordial, ou então se associar a uma abordagem teórica “sistêmica”, que

procurará enxergar o mundo através das relações dos indivíduos entre si e

em relação ao todo). Falar nessas maneiras diversificadas de ver que se

abrem no interior de certo campo disciplinar é falar em “correntes

teóricas”36.

Por outro lado, a Teoria remete ainda aos conceitos e categorias que serão

empregados para encaminhar uma determinada leitura da realidade, à rede

de elaborações mentais já fixadas por outros autores (e com as quais o

pesquisador irá dialogar para elaborar o seu próprio quadro teórico). Do

mesmo modo, a teoria remete frequentemente a generalizações, ainda que

essas generalizações se destinem a serem aplicadas em um objeto específico

ou a um estudo de caso delimitado pela pesquisa. Ao lado disto, a Teoria

também implica uma visão sobre o próprio campo de conhecimento que se

está produzindo. É, por exemplo, uma questão teórica importante a

subdivisão de certo campo de conhecimento em suas modalidades internas

(a Física que se desdobra em “termodinâmica”, “ótica” ou “mecânica”, por

exemplo, ou a Historiografia que se desdobra em “história cultural”,

“história política”, “história econômica”, e tantas outras modalidades).

Enfim, a Teoria tanto remete à maneira como se concebe certo objeto de

conhecimento ou uma determinada realidade examinada, a partir de

dispositivos específicos que são os conceitos e fundamentos teóricos de

diversos tipos, como também se refere ao modo como o pesquisador ou

cientista enxerga sua própria disciplina ou seu próprio ofício.

Já a “Metodologia” remete sempre a uma determinada maneira de

trabalhar algo, de eleger ou constituir materiais, de extrair algo específico

desses materiais, de se movimentar sistematicamente em torno do tema e

dos materiais concretamente definidos pelo pesquisador. A metodologia

vincula-se a ações concretas, dirigidas à resolução de um problema; mais do

que ao pensamento, remete à ação e a prática 37. Um tipo de entrevista

realizado por um psicólogo que tenta apreender as potencialidades de um

futuro profissional da empresa, ou a “análise de discurso” de que um

historiador lança mão para compreender as suas fontes históricas, são

relacionados ao âmbito dos procedimentos técnicos e das metodologias.

Quando o historiador situa um conjunto de documentos em série, e procura incidir sobre ela um determinado questionário ou uma tabulação de tópicos

e critérios, estará certamente empregando uma “metodologia”. Assim,

enquanto a “teoria” refere-se a um “modo de pensar” (ou de ver), a

“metodologia” refere-se a claramente um “modo de fazer”. Esses dois

verbos – “ver” e “fazer” – constituem os gestos fundamentais que definem,

respectivamente, Teoria e Método.

 

Figura 3. Do contraste entre teoria e metodologia

 

Poderemos, a partir dessas colocações iniciais, sintetizar aquilo que se

refere ao teórico, e o que já se refere ao metodológico, seja de modo geral

ou mais especificamente no âmbito das ciências históricas. O Quadro 2

procura relacionar, à esquerda, tudo aquilo que se refere ao âmbito teórico e

à Teoria da História. Já no lado direito do esquema, encontraremos aquilo

que se refere mais diretamente à Metodologia. Conforme já postulamos, são

elementos pertinentes à Teoria todos aqueles aspectos, fatores e artifícios

que se relacionam às “maneiras de ver” e às concepções historiográficas. Os

“conceitos”, por exemplo, são importantes instrumentos da Teoria. Quando

formulamos um conceito como o de “Classe Social”, estamos nos

proporcionando uma certa maneira de enxergar a sociedade, pois

imediatamente passamos a concebê-la como dividida de uma forma

específica, do mesmo modo que começamos a enxergar a partir dessa

divisão hierarquizações e antagonismos específicos entre os vários grupos

sociais resultantes dessa concepção da sociedade. Para dar outro exemplo,

conforme definamos de certa maneira o conceito de “revolução”, e não de

outra, estaremos abrindo espaço para algumas formas de enxergar e analisar

determinados processos sociopolíticos, e nos fechando para outras38.

Quadro 2. Sobre a diferença entre teoria e metodologia na operação

 

historiográfica

 

Também pertencem ao âmbito da Teoria da História os grandes

paradigmas historiográficos e os sistemas teóricos mais amplos que se

destinam a encaminhar a compreensão e análise historiográfica39. Os

paradigmas Positivista, Historicista e o Materialismo Histórico, entre

outros, pertencem ao quadro de grandes correntes teóricas disponíveis aos

historiadores (embora frequentemente essas correntes também envolvam

aspectos metodológicos, é preciso desde já ressalvar).

Teorias mais específicas sobre processos históricos – que nada mais são

que “maneiras de ver” esses processos históricos singularizados – também

pertencem ao âmbito da Teoria da História. Existem, por exemplo, dezenas

de teorias sobre o Nazismo, ou sobre os fatores que levaram à eclosão e

crescimento do Nazismo na Alemanha do período posterior à Primeira

Guerra Mundial. Há igualmente uma quantidade indefinida de teorias sobre

a Revolução Francesa, que procuram oferecer uma determinada leitura

daqueles acontecimentos e processos que se deram na França em fins do

século XVIII.

A Historiografia também estabelece “diálogos interdisciplinares”

importantes – muitos dos quais de cunho teórico, e outros relacionados ao

âmbito metodológico – com outros campos do conhecimento como a

Antropologia, a Geografia, a Economia, a Sociologia, a Psicologia, e tantos

outros. Por isso, no esquema proposto, os “diálogos interdisciplinares”

atravessam tanto a Teoria como a Metodologia da História. Para além disto,

a subdivisão da História em modalidades internas – como a História

Cultural, a História Política, a Micro-história, e tantas outras – é uma

questão teórica importante. Quando atinge certo nível de complexidade,

muito habitualmente um campo de saber começa a produzir “espaços

intradisciplinares”, e a permitir, obviamente, conexões as mais diversas

entre esses espaços intradisciplinares de acordo com cada objeto de estudo.

O olhar que um campo de estudos estabelece sobre si, identificando e

constituindo seus espaços internos, é também uma questão teórica, um

modo de enxergar a si mesmo, que no caso da História corresponde a mais

uma das tarefas da Teoria da História.

Vejamos agora o outro hemisfério da figura proposta. Conforme já

pontuamos, faz parte da Metodologia tudo aquilo que é pertinente ao “fazer

da história” – às situações concretas e práticas com as quais deve o

historiador se defrontar em seu processo de pesquisa, de análise de fontes,

ou mesmo de exposição de resultados. A partir disso, é possível vislumbrar

o que pode ou deve ser relacionado ao âmbito metodológico, para o caso da

História. Elementos de importância máxima, que perpassam toda a

Metodologia da História e que correspondem de certo modo ao seu centro,

são precisamente as Fontes Históricas. A Historiografia desenvolve

inúmeros procedimentos e metodologias para constituir as fontes históricas,

para analisá-las, para serializá-las, para utilizá-las como fontes de indícios e

informações historiográficas, ou para abordá-las como discursos que devem

ser decifrados, analisados, incorporados criticamente pelo historiador.

Inúmeros âmbitos relacionados aos “métodos e técnicas” poderiam ser aqui

indicados, e a História Oral, a Arqueologia, a Análise de Discurso, ou o

tratamento serial e estatístico constituem apenas alguns exemplos.

É imprescindível à Metodologia da História, ainda, o próprio

“planejamento da pesquisa” e, neste sentido, o “Projeto de Pesquisa”

constitui um recurso metodológico importante. Claro que, no interior do seu texto, um bom Projeto de Pesquisa também falará de Teoria, uma vez que

faz parte de um bom planejamento indicar as referências conceituais,

discutir o Quadro Teórico que orientará a análise, formular hipóteses, e

dialogar com a historiografia e teoria já existente. Isto posto, tomado em si

mesmo, o Projeto de Pesquisa pode ser perfeitamente tratado como um

recurso metodológico.

É verdade, ainda, que uma decisão “teórica” pode encaminhar também

uma escolha “metodológica”. Reciprocamente, a metodologia – ou uma

certa maneira de fazer as coisas – também pode retroagir sobre a concepção

teórica do pesquisador, modificando sua visão de mundo e levando-o a

redefinir os seus aportes teóricos. Frequentemente, há certas implicações

metodológicas a partir de certos pressupostos teóricos e, inversamente,

quando optamos por uma certa maneira de fazer as coisas, de enfrentar

situações concretas apresentadas pela pesquisa, também estamos optando

por um certo posicionamento teórico. Por exemplo, não é raro que o

Materialismo Histórico – um dos paradigmas historiográficos

contemporâneos – seja referido como um campo teórico-metodológico, uma

vez que enxergar a realidade histórica a partir de certos conceitos como a

“luta de classes” ou como os “modos de produção” também implica

necessariamente uma determinada metodologia direcionada à percepção dos

conflitos, das relações entre condições concretas imediatas e

desenvolvimentos históricos e sociais. Uma certa maneira de ver as coisas

(uma teoria) repercute de alguma maneira numa determinada maneira de

fazer as coisas em termos de operações historiográficas (uma metodologia).

A pesquisa em História, e a sua posterior concretização em escrita da

História (isto é, a apresentação dos resultados da pesquisa em forma de

texto) envolvem necessariamente este confronto interativo entre teoria e

metodologia. O ponto de partida teórico, naturalmente, corresponde a uma

determinada maneira como vemos o processo histórico (porque há muitas).

Podemos alicerçar nossa leitura da história na ideia de que esta é movida

pela “luta de classes”, tal como foi acima proposto. Mas se quisermos

identificar essa “luta de classes” na documentação que constituímos para

examinar este ou aquele período histórico específico, teremos de nos valer

de procedimentos técnicos e metodológicos especiais. Será talvez uma boa

ideia empreender uma “análise de discurso” sobre textos produzidos por indivíduos pertencentes a esta ou àquela “classe social” (“classe social”,

aliás, é também uma categoria “teórica”). Esta análise de discurso poderá se

empenhar em identificar “contradições”, ou em trazer a nu as “ideologias”

que subjazem sob os discursos examinados, e para tal poderá se valer de

técnicas semióticas, da identificação de temáticas ou de expressões

recorrentes (análises isotópicas), da contraposição intertextual entre

discursos produzidos por indivíduos que ocupam posições de classe

diferenciadas, e assim por diante.

De igual maneira, se acreditamos que as condições econômicas e

materiais determinam em alguma instância a vida social e as superestruturas

mentais e jurídicas de uma determinada comunidade humana

historicamente localizada (outro postulado 40 teórico do Materialismo

Histórico) deveremos selecionar ou constituir metodologias e técnicas

capazes de captar os elementos que caracterizariam esta vida material.

Dependendo do tipo de fontes históricas utilizadas poderemos, por

exemplo, realizar análises quantitativas ou seriais, utilizar técnicas

estatísticas para levantar as condições de vida de determinados grupos

sociais dentro de uma determinada população, e assim por diante.

É assim que uma determinada teoria pode se sintonizar com

determinadas possibilidades metodológicas; e certamente existem

metodologias que favorecem ou que inviabilizam o encaminhamento de

certas perspectivas teóricas. Para além disto, a interação entre Teoria e

Metodologia também aparece de maneira muito clara na elaboração de

“hipóteses”. Via de regra, uma hipótese é gerada a partir de certo ambiente

teórico, e frequentemente é formulada a partir de conceitos muito

específicos. Posto isto, não há sentido em formular uma hipótese que não

possa ser demonstrada – pois, se assim for, não estaremos diante de uma

verdadeira hipótese, e sim de uma mera conjectura 41. É depois que

formulamos uma hipótese, e quando partimos para a sua demonstração, que

surge a necessidade de uma “metodologia”. Nas ciências históricas,

qualquer hipótese apresentada deve buscar respaldo nas fontes primárias, e

na análise dessas fontes, ou, ao menos, deve ser referida a evidências que

tenham chegado ao historiador de alguma maneira. Estes procedimentos – o

levantamento de fontes, a constituição de um corpus documental, a

verificação comparada de informações e a análise dos discursos trazidos pela documentação – estão ancorados, conforme já vimos, na Metodologia.

Para verificar ou refutar uma hipótese, ou ao menos para sustentar a

possibilidade de formulá-la como uma linha interpretativa viável, é preciso

de método. Não é por outro motivo senão este que, no Quadro 2, fizemos

com que a palavra “hipótese” apareça atravessada entre os hemisférios da

Teoria e da Metodologia. Uma hipótese nasce no mundo teórico, a partir de

uma determinada maneira de enxergar a realidade, mas em seguida ela se

dirige ao âmbito metodológico em busca de demonstração. Torna-se mais

um dos inúmeros elos que podem ser estabelecidos entre a Teoria e a

Metodologia.

Vemos, portanto, que Teoria e Metodologia são como que duas irmãs

siamesas. Uma olha para o alto, buscando enxergar algo de novo no céu

estrelado de todas as realidades possíveis e imaginárias. A outra,

decididamente prática, aponta para o chão, em busca de soluções concretas

para viabilizar ou rejeitar as hipóteses aventadas pela irmã. Teoria e

Metodologia, separadas uma da outra, não têm muito sentido para a

Ciência. A “teoria pura” facilmente poderia se converter em especulação. A

“metodologia pura”, a rigor, nem surge como possibilidade, e quando muito

se converte em alguma forma de exercício aprendido mecanicamente em

alguma fase inicial de treinamento artesanal ou científico. Nas Ciências

Humanas, que sempre almejam produzir como resultado uma reflexão

fundamentada sobre a realidade social, a Teoria e a Metodologia são

gêmeas mais siamesas do que nunca. De todo modo, apesar das mútuas

repercussões entre teoria e método, não devemos confundir uma coisa com

a outra. Se há uma interpenetração possível entre concepções teóricas e

práticas metodológicas disponíveis ao historiador ou a qualquer outro tipo

de pensador/pesquisador, deve-se ter sempre em vista que “teoria” e

“método” são coisas bem distintas, da mesma maneira que “ver” e “fazer”

são atitudes verbais e práticas diferenciadas, embora possam se

interpenetrar.

Ainda como um ponto interessante que pode ser ressaltado para o caso da

Teoria, deve-se entender que pode existir uma grande diversidade de teorias

possíveis para qualquer objeto de investigação ou para qualquer campo de

conhecimento examinado, e que as diversas teorias podem se contrapor, se

sucederem ou se sobreporem umas às outras. Uma vez que cada teoria propõe ou se articula a uma determinada “visão de mundo”, ela também

corresponde à formulação de determinadas perguntas e, consequentemente,

abre espaço a um certo horizonte de respostas. Na mesma medida em que as

teorias se diversificam, também variam muito as respostas proporcionadas

por cada teoria em relação a uma certa realidade ou objeto examinado.

Thomas Kuhn, autor do célebre livro A estrutura das revoluções científicas

(1962), já considerava que uma teoria frequentemente se afirma em

detrimento de outra precisamente porque responde a algumas questões que

a outra teoria não respondia. Nessa perspectiva, as mudanças de teoria (ou

as opções por uma ou outra teoria) ocorrem porque uma teoria passa a

satisfazer mais do que outra – isto é, porque as questões a que a nova teoria

adotada dá resposta começam a ser consideradas mais importantes ou

relevantes pelo sujeito que produz o conhecimento. Dito de outra maneira,

cada teoria, ao corresponder ou ao equivaler a uma determinada visão de

mundo, permite que sejam formuladas certas perguntas e, frequentemente,

uma nova teoria contrasta com as teorias anteriores que abordaram esta ou

aquela questão precisamente pela sua capacidade de colocar novas

perguntas. Contrapor à realidade uma nova pergunta, que até então ainda

não havia sido imaginada, é já enxergar a realidade de uma nova maneira42.

Bem compreendidas as diferenças entre “Teoria” e “Método”, outro

comentário importante é o de que, se toda teoria é uma “visão de mundo”,

nem toda visão de mundo é necessariamente uma teoria. Uma religião, por

exemplo, é uma visão de mundo, e o modo de obter conhecimento em

diversas das religiões possíveis nada tem a ver com o “modo teórico”,

estando relacionado a práticas como a da “iluminação” e da “revelação”

(esta última correspondendo àquele “modo de conhecimento” em que o

mundo sobrenatural comunica algo diretamente, e unilateralmente, àquele

que recebe a palavra ou o conhecimento revelado). Da mesma maneira,

podem constituir visões de mundo, dotadas de suas próprias singularidades,

uma mitologia ou uma cosmogonia. A Magia – que também propõe uma

prática e um modo de agir sobre a vida cotidiana – também implica um tipo

de visão de mundo. Uma concepção artística, do mesmo modo, pode

corresponder a outro tipo de visão de mundo, e já vimos atrás que a Arte

mais costuma lançar mão dos ímpetos intuitivos e do livre jogo das

sensações e sensibilidades do que dos procedimentos teóricos. A “Teoria”, portanto, corresponde apenas a um dos vários tipos de visão de mundo que

se disponibilizam ao homem no seu permanente esforço de compreender e

recriar o mundo no qual se encontra inserido.

Embora a palavra “teoria” também possa ser empregada para diversos

outros tipos de atividades, já fizemos notar que geralmente as teorias – e as

teorias da história não são exceção – correspondem a um tipo de visão de

mundo que se relaciona mais estreitamente com o que hoje entendemos por

Ciência43. Quando a “Teoria” não é vista como, ela mesma, diretamente

relacionada a um conhecimento que se postula como científico, ao menos se

pode dizer que ela se mostra necessariamente – no sentido em que hoje a

compreendemos (e não mais no sentido filosófico-contemplativo que

possuía na Antiguidade) – como um dos produtos das sociedades

científicas. Vale dizer, a “Teoria” ou é parte integrante do discurso científico

(uma segunda natureza da própria Ciência), ou é uma visão de mundo que

dialoga com o científico, com essa dimensão da cultura que veio a ocupar

uma posição central no mundo moderno. Pode-se ter uma “teoria” a

respeito de qualquer coisa, e mesmo com relação a questões menores que se

relacionem a uma espécie de sabedoria prática. Mas obrigatoriamente o

pensar no “modo teórico” deve se amparar, nos dias de hoje, em certos

procedimentos e pressupostos que foram reforçados pelo padrão de

cientificidade da vida moderna. Já ressaltamos que a “teoria” sem

demonstração, sem encadeamento coerente de suas partes, sem

verificabilidade, pode se converter meramente em um conjunto de

“conjecturas”, pelo menos de acordo com o pensamento que passou a

predominar no mundo contemporâneo. É incontornável, portanto, antes que

possamos prosseguir mais confortavelmente na reflexão sobre o “teórico”,

que esbocemos um delineamento, ainda que sumário, acerca do que é a

“Ciência”.

A Ciência, compreendida como forma específica de produzir

conhecimento, pode ser identificada a partir da copresença de alguns

aspectos que lhe são inerentes. Deve antes de tudo visar e constituir um

conhecimento a ser produzido sistematicamente, com rigor

metodológico44. O saber científico também deve ultrapassar,

necessariamente, o mero nível descritivo ou narrativo, de modo a fornecer

explicações ou “sistemas para a compreensão” acerca dos fenômenos que examina. Esse sistema explicativo ou compreensivo deve buscar a

coerência entre todas as suas partes45. Em última instância, não busca, a

Ciência, no seu sistemático processo de produzir o conhecimento, fornecer

valorações éticas ou que tenham por escopo final julgar os fenômenos

observados de acordo com algum ponto de vista moral (tal como ocorre

com a Ética ou com a Religião) 46. Sobretudo, trata-se de um conhecimento

demonstrado, tanto a partir de uma lógica argumentativa, como no que se

refere à comprovação de dados que lhe sirvam de base informativa. É por

fim, e este é um dos seus aspectos mais definidores, um conhecimento que

deve ser “testável”, isto é, passível de ser verificável ou percorrido mais de

uma vez por qualquer pesquisador que se proponha a seguir todos os passos

da pesquisa original. Para tanto, o conhecimento produzido cientificamente

deve explicitar necessariamente o “caminho” e os “pressupostos” que

permitiram que o mesmo fosse produzido (o “método” e também a “visão

de mundo”, isto é, a “teoria”, que o sustenta), assim como deve esclarecer

as condições de produção do conhecimento em questão47.

Bem discutido o que é a Ciência, ou pelo menos o que é o “científico”,

podemos agora desfechar algumas conclusões a respeito da especificidade

do “teórico”. Nas sociedades modernas, uma teoria pode ser definida como

um corpo coerente de princípios, hipóteses e conceitos que passam a

constituir uma determinada visão científica do mundo. Conforme Mario

Bunge – um dos mais célebres estudiosos de Epistemologia – uma teoria

seria um “conjunto de proposições ligadas logicamente entre si e que

possuem referentes em comum” (1982: 41). Faz parte da ideia de teoria a

possibilidade de demonstração (de confirmar ou de extrair consequências

daquilo que é formulado). Para estarmos no âmbito da Teoria também é

necessário que o que se formula teoricamente seja submetido a um diálogo

com outras proposições teóricas, seja para reforço ou para refutação. Por

isso as diversas teorias relacionam-se, por contraste ou por interação, no

interior de um campo de conhecimento mais vasto, que é o campo científico

específico que se tem em vista. Desta maneira, se uma visão de mundo

como a Religião pode se colocar como uma experiência íntima do ser

humano perante Deus ou diante do mundo supranatural, nada impedindo

que seja experienciada isoladamente, já a Ciência – e as teorias que nesta estão envolvidas – colocam-se necessariamente em um campo de diálogos.

Não se pode avançar no campo científico, nem se movimentar no universo

teórico de um determinado campo de saber, sem se conectar com os

diversos autores que já percorreram esse mesmo campo de saber

formulando conceitos e hipóteses, propondo questões e sugerindo respostas,

ou arriscando demonstrações e procedimentos argumentativos.

1. O conjunto de observações que desenvolveremos aqui sobre “campos disciplinares” poderá ser adequadamente aplicado a qualquer outra disciplina, para além da História, incluindo desde as disciplinas relacionadas às ciências humanas, até aquelas que constituem as chamadas “ciências da natureza”.

2. A História, já veremos a seu tempo, constitui um campo de saber já milenar, que muitos remontam a Heródoto, e outros mesmo a momentos anteriores (HARTOG, 2003: 13). Uma série de ciências sociais e humanas, por outro lado, apresentam origens que remontam apenas aos séculos XVIII e XIX. Mas veremos isto oportunamente, sendo suficiente por hora apreender a ideia de que todo e qualquer “campo disciplinar” é histórico, no sentido de que possui uma história. Isto implica dizer que qualquer disciplina vai se modificando no tempo, conjuntamente com suas práticas e objetos, e que seus objetivos podem ser redefinidos de tempos em tempos. Nenhuma disciplina, e tampouco a História, escapa da própria história.

3. Pierre Bourdieu (1930-2002), sociólogo francês ao qual retornaremos ainda uma vez ao final deste volume, acrescenta em sua Teoria dos Campos que “qualquer que seja o campo, ele é objeto de luta tanto em sua representação quanto em sua realidade” (BOURDIEU, 2003: 29).

4. Essa é a definição proposta por Marc Bloch em seu livro Apologia da História ou o ofício do historiador (1941-1942). Naturalmente que uma definição ou outra, a respeito de um campo de saber, é sempre ela mesma histórica (isto é, sujeita a se modificar no decorrer da história). Com Heródoto, a História tinha já como seu “centro de interesses” o “homem” na sua vida concreta e específica, “sublunar” (isto em uma época em que ainda não existiam outros campos de saber dedicados a investigar esse tipo de especificidade do mundo humano, e contra o pano de fundo da Filosofia, que se ocupava das questões gerais, “supralunares”, acima da vida sublunar dos homens específicos). A História, então, remetia etimologicamente à “investigação”, mas não ainda explicitamente ao estudo do homem “no tempo” (por exemplo, o “passado humano”), a não ser por considerar que as ações “sublunares” do homem se dão no tempo. Mais tarde, a História vai assumindo um caráter de “estudo do passado”, e seus objetos (os temas que constituem o seu “campo de interesses”) acompanham esse movimento concentrando-se mais nos períodos que se afastam ou se distinguem do presente. Mas com os Annales e outros movimentos do século XX, ou mesmo com os fundamentos do Materialismo Histórico em meados do século XIX, ficará claro que a delimitação da História foi se afinando e se enriquecendo na direção de considerar que o seu “campo de interesses” se refere aos objetos que remetem ao “homem envolvido pela temporalidade”. De resto, vale lembrar também que outra “singularidade” importante da História enquanto campo de conhecimento (cf. próximo item) refere-se ao seu necessário apoio em fontes (documentos, textos, imagens, objetos, e outros indícios que nos chegam das sociedades passadas). Os aspectos definidores da “singularidade” da História – ou de qualquer outro campo disciplinar – corresponderão ao núcleo do que, até o final deste capítulo, estaremos entendendo como uma “matriz disciplinar” do campo de conhecimento em questão, e remetem aos princípios com os quais estão de acordo todos os historiadores.

5. A “singularidade”, em que se considere sua ligação direta com o “campo de interesses”, deve ser referida aqui aos parâmetros que definem irredutivelmente a Disciplina (no caso da História, a consideração do tempo, o uso de fontes), e não aos “objetos de estudo” privilegiados pelos seus praticantes, que já constituem mais propriamente o “campo de interesses” da disciplina. Uma coisa, é claro, está ligada à outra; mas são itens distintos. É possível abordar um determinado “campo de interesses” a partir de certa “singularidade” que é já específica da disciplina. Os grupos sociais (um mesmo objeto) podem ser examinados de modos distintos pela História, pela Antropologia ou pela Sociologia.

6. A História, à altura de sua milenar origem na Grécia Antiga, precisou se contrapor à Filosofia, mais antiga, e a outras formas de expressão ou campos de práticas, tais como a Poesia Lírica, a Poesia Épica e a Retórica. Posteriormente, no mundo moderno, foi confrontada pelo surgimento das novas práticas científicas no seio das ciências sociais e humanas, contrapondo-se à Economia Política, à Sociologia, à Antropologia. Os confrontos entre História e as demais Ciências Sociais (e também as suas alianças) são particularmente visíveis no século XX, e um exemplo já clássico é o dos embates institucionais que se deram na França à época da chamada Escola dos Annales. A esse respeito, cf. o ensaio A História em migalhas, de François Dosse (1987).

7. Já veremos, mais adiante, que a “teoria” é precisamente uma maneira de ver as coisas, e que, quando se estabelece um novo horizonte teórico, é possível literalmente enxergar o mundo de outra maneira. Com uma nova “teoria”, pode-se dizer, passa-se mesmo a “viver em um novo mundo”.

8. Um sintoma interessante dessa gradual consolidação da Biologia como campo disciplinar, antes de seu estabelecimento definitivo, é o fato de que, ao longo do século XIX e até inícios do século XX, ainda se construiu, nos termos da expressão “naturalistas”, a identidade de muitos pesquisadores e cientistas que hoje poderiam se autoidentificar como biólogos. É como “naturalista” que se apresenta Charles Darwin (1809-1882), teórico maior do paradigma que hoje se coloca como central para a Biologia, ou também o naturalista alemão Ernst Haeckel (1834-1919), que mais tarde proporia a expressão “ecologia” com vistas a delimitar uma perspectiva de estudos voltada para uma nova preocupação com a relação entre os seres vivos e seu meio ambiente. Mais tarde, a Ecologia alcançaria, ela mesma, o status de campo disciplinar. Também é interessante o fato de que a Biologia, que extrai seu “campo de interesses” de um conjunto de objetos que antes estava disperso e sob a atenção de outros campos disciplinares preexistentes, entre os quais a Botânica, mais tarde terminaria por anexar a própria Botânica como uma de suas modalidades intradisciplinares. Também anexou um ramo da Medicina, que era a Anatomia. Nos dias de hoje, tal como a Zoologia, a Genética ou a Fisiologia, a Botânica e a Anatomia constituem especializações intradisciplinares da Biologia. São bem complexos os vários movimentos e circunvoluções no interior do vasto universo dos campos disciplinares e, nesse processo, assim como alguns campos terminam por se separar de outros, outros terminam por anexar campos preexistentes.

9. Não se trata aqui, apenas, da multiplicação de campos históricos relativamente a uma ampliação de objetos de interesse dos historiadores. O fenômeno mais significativo é que – além da ampliação desse “campo de interesses” dos historiadores e de sua tendência à especialização em relação a alguns de seus objetos – a comunidade profissional dos historiadores passa cada vez mais a elaborar uma leitura do “Campo da História” a partir dessas diversas modalidades historiográficas, ou desses “campos históricos”, para já evocar um conceito que discutiremos ao fim do presente volume. Cada vez mais, a partir do século XX, os historiadores incorporam a prática de enxergar o seu próprio ofício e a sua Disciplina nos termos dessas diversas modalidades. Rigorosamente falando, não se falava em uma “História Política” no século XIX, embora fosse este o tipo de história que então predominava. Falava-se simplesmente em “História”. Mas no século XX surgirão efetivamente, no vocabulário dos historiadores, as várias designações que já denunciam uma nova visão da historiografia, organizada em modalidades internas. Sobre o assunto, cf. Barros, 2004.

10. Para um exemplo significativo, cf. a coletânea A religação dos saberes (MORIN, 2000).

11. Disciplinas como o Direito ou como a Economia parecem poder ser imediatamente reconhecidas pelo seu vocabulário bastante específico. A História, por seu turno, é daquelas disciplinas que trabalham em boa medida com um vocabulário comum, já que o seu produto – os livros de história – frequentemente se destinam a um público mais amplo, que não é apenas formado por historiadores. Mas assim mesmo também a História vai assistindo, no decurso das realizações de seus praticantes, à elaboração de conceitos mais específicos, aspecto sobre o qual discorreremos posteriormente. Cf. tb. Prost, 2008: 115-131.

12. Entre outros assuntos, os jargões das “comunidades linguísticas” geradas por alguns campos são examinados em uma coletânea organizada por Peter Burke e Roy Porter: Línguas e jargões (BURKE & PORTER, 2007), na qual se busca examinar nos seus diversos contextos sociais os dialetos e jargões criados e difundidos por vários grupos sociais e profissionais, entre os quais os médicos, advogados e professores, mas também as sociedades secretas como a dos maçons, bem como grupos sociais marginalizados, tais como os dos ciganos e dos mendigos. Discorreremos, oportunamente, sobre o vocabulário e o padrão de “escritura da História”.

13. Thomas Kuhn, em seu livro A estrutura das revoluções científicas (1962), ao discorrer sobre o atomismo químico desenvolvido por Dalton, dá-nos conta dos “efeitos revolucionários resultantes da aplicação da Química a um conjunto de questões e conceitos anteriormente restritos à Física e à Meteorologia. Foi isto que Dalton fez; o resultado foi uma reorientação no modo de conceber a Química, reorientação que ensinou aos químicos como colocar novas questões e retirar conclusões novas de dados antigos” (KUHN, 2007: 179). Sobre interdisciplinaridade, cf. Japiassu, 1976; e sob a perspectiva do Materialismo Histórico, Jantsch e Bianchetti, 1997. Internacionalmente, referências já clássicas são os artigos de Gusdorf, 1990.

14. Sobre a História enquanto campo de conhecimento, assim se expressa Hayden White: “Toda disciplina é constituída, como viu Nietzsche de modo muito claro, por aquilo que ela coloca como proibido aos que a praticam. Toda disciplina é constituída por um conjunto de restrições ao pensamento e à imaginação, e nenhuma é mais tolhida por tabus do que a historiografia profissional” (WHITE, 1978). Referência fundamental para a questão mais ampla dos interditos que afetam uma disciplina é A ordem do discurso, de Michel Foucault (1970). Por outro lado, também Thomas Kuhn, em A estrutura das revoluções científicas (1962), faz algumas observações importantes sobre as redefinições de ditos e interditos que se podem dar quando um novo paradigma substitui um paradigma que até então fora dominante: “Consequentemente, a recepção de um novo paradigma também requer com frequência uma redefinição da ciência correspondente. Alguns problemas antigos podem ser transferidos para outra ciência ou declarados absolutamente “não científicos”. Outros problemas anteriormente tidos como triviais ou não existentes podem converter-se, com um novo paradigma, nos arquétipos das realizações científicas importantes. À medida que os problemas mudam, mudam também, seguidamente, os padrões que distinguem uma verdadeira solução científica de uma simples especulação metafísica, de um jogo de palavras ou de uma brincadeira matemática” (KUHN, 2007: 138). Também iremos encontrar em Usos sociais da ciência, de Pierre Bourdieu (1997), observações interessantes a respeito da dinâmica que dita e interdita o que é possível, em cada momento, no âmbito de determinado campo disciplinar: “Um campo não se orienta totalmente ao acaso. Nem tudo nele é igualmente possível e impossível a cada momento” (BOURDIEU, 2003: 27). Sobre os interditos da História, cf. Certeau, 1982: 76-77.

15. Sobre as permissões e interditos da Operação historiográfica, dirá Michel de Certeau: “Antes de saber o que a história diz de uma sociedade, é necessário saber como funciona dentro dela. Esta instituição se inscreve num complexo que lhe permite apenas um tipo de produção e proíbe outros. Tal é a dupla função do lugar. Ele torna possíveis certas pesquisas em função de conjunturas e problemáticas comuns. Mas torna outras impossíveis; exclui do discurso aquilo que é sua condição num momento dado; representa o papel de uma censura com relação aos postulados presentes (sociais, econômicos, políticos) na análise. Sem dúvida, essa combinação entre permissão e interdição é o ponto cego da pesquisa histórica e a razão pela qual ela não é compatível com qualquer coisa. É igualmente sobre essa combinação que age o trabalho destinado a modificá-la” (CERTEAU, 1982: 76-77).

16. Ou pode se dar mesmo que esse médico venha a constituir um novo campo disciplinar – produzindo portanto uma sensível modificação no universo mais amplo dos campos disciplinares. Pode-se dar o exemplo do Dr. Freud que, por volta de 1890, terminou por fundar, através de uma nova abordagem clínica, a Psicanálise. Também seria útil lembrar o caso do Dr. Wilhelm Wundt (1832-1920) que, em 1879, criou o primeiro laboratório psicológico, contribuindo dessa maneira para separar da Filosofia a Psicologia.

17. Sobre as “comunidades científicas”, cf. o ensaio com este mesmo nome de Hagstrom (1965). Sobre a competição no interior das comunidades científicas, cf. o artigo deste mesmo autor para a American Sociological Review (HAGSTROM, 1974). A noção de uma “comunidade científica” também já foi tratada sob o prisma de um “Colégio Invisível”, e sobre isto podem ser consultadas as obras de Price e Beaver (Colaboração em um Colégio Invisível, 1966) e de Daiana Crane (Estrutura social em um grupo de cientistas – Teste para a hipótese do “Colégio Invisível”) [1966]. A expressão “colégio invisível”, que no século XVII tinha conotações que dialogavam com a ideia de “sociedades secretas” de intelectuais e cientistas, é nos dias de hoje empregada para expressar a livre transferência de informações, pensamentos e background técnico pela “comunidade científica” (isto à parte da estrutura física e institucional dentro da qual essa mesma comunidade também se distribui).

18. Michel de Certeau acrescenta nesse mesmo texto sobre A operação historiográfica: “Cada resultado individual se inscreve numa rede cujos elementos dependem estritamente uns dos outros, e cuja combinação dinâmica forma a história num momento dado” (CERTEAU, 1982: 72).

19. Veremos, no devido momento, que a História começa precisamente a se constituir em campo científico no momento em que começam a ser produzidos mais recorrentemente os seus “olhares sobre si mesma”, as histórias da historiografia, os ensaios de reflexão teórica, os manuais de metodologia.

20. “Sistema” – conceito que tem sua origem etimológica em uma palavra grega que remete aos gestos de “combinar”, “ajustar”, “formar conjunto” – é uma expressão que se aplica tanto ao mundo físico e natural (podemos falar em um “sistema solar”, mas também em “sistema respiratório”) como também ao mundo social e ao universo do conhecimento. No âmbito das instituições sociais, há, por exemplo, um “sistema carcerário”. Também podemos falar em “sistema” para qualquer conjunto no qual os elementos estão interconectados de modo a constituir um todo que produz a sua própria lógica. Um sistema, é importante notar, não constitui mero agregado de elementos, mas uma combinação que produz relações entre as várias partes, e entre cada parte e o todo. De um ponto de vista complexo, da interação das partes emergem propriedades que passam a formar os padrões que caracterizarão o funcionamento do sistema. “O todo é maior que a soma das partes” – esta se tornou uma frase clássica para o entendimento do que é um sistema. Desde meados do século XX, com a publicação da Teoria Geral dos Sistemas, de Ludwig von Bertalanffy (1956), um biólogo alemão que já criticava a divisão compartimentada do conhecimento em disciplinas estanques, tem surgido uma ampla bibliografia em torno da definição e caracterização de “sistemas”, e mesmo em torno da possibilidade de se pensar uma “Teoria Geral dos Sistemas”, chegando aos pensadores ligados ao chamado “pensamento complexo”.

21. Ou, conforme registra Michel Foucault para todas as disciplinas científicas em geral: “O exterior de uma ciência é mais ou menos povoado do que se crê: certamente, há a experiência imediata, os temas imaginários que carregam e reconduzem sem cessar crenças sem memória; mas, talvez, não haja erros, em sentido estrito, porque o erro só pode surgir e ser decidido no interior de uma prática definida; em contrapartida rondam monstros cuja forma muda com a história do saber. Em resumo: uma proposição deve preencher exigências complexas e pesadas para poder pertencer ao conjunto de uma disciplina [...]” (FOUCAULT, 1996: 33). Também Jacques Schlanger observa: “É-lhes impossível [aos sistemas estabelecidos em dado momento] compreender algo que seja exterior e contrário ao tecido da interpretação que permitem” (1978: 35).

22. Cada um desses aspectos, é claro, merece um estudo à parte. As técnicas e procedimentos metodológicos, na História, são analisados na disciplina acadêmica “Metodologia da História”, e também são discutidos em manuais sobre a “Pesquisa Histórica” (cf. BARROS, 2005). O “olhar sobre si” que os historiadores devem exercer regularmente consubstancia-se na disciplina intitulada “Historiografia”, sendo que as obras dos próprios historiadores sobre a historiografia começaram a ser escritas ainda no século XIX, tendo conhecido especial intensificação a partir das últimas décadas do século XX. Os espaços intradisciplinares motivam estudos específicos, que no caso da História têm se apresentado sob a forma de ensaios e coletâneas sobre as diversas modalidades da História (cf. BARROS, 2004). A interdisciplinaridade tem recebido uma significativa atenção dos historiadores em obras várias (cf. BRAUDEL, 1958). A escrita da História – ou o modo como se escreve a História, aqui considerada como uma forma especial de discurso – também tem suscitado estudos especiais a cargo de autores que vão de Michel de Certeau (1974) ou Pierre Vilar (1980) a Hayden White (1973) ou Peter Gay (1974), incluindo também estudiosos das ciências da comunicação (p. ex., BARTHES, 1984). E a Teoria da História, por fim, é o campo de estudos do qual nos ocupamos neste livro.

23. Particularmente nas Ciências Humanas, a palavra “teoria” tem sido empregada de maneira muito diversificada. Robert Merton já observava que muito frequentemente a palavra é empregada em sentidos diversos, que abarcam desde as menores hipóteses de trabalho até as mais amplas especulações ou aos sistemas axiomáticos de pensamento, daí decorrendo o cuidado que se deve ter no emprego da palavra (MERTON, 1970: 51). Veremos adiante que, no caso da História, há lugar para cada um desses sentidos particulares e generalizantes da palavra “Teoria”, desde que estejamos conscientes da implicação de cada um destes usos.

24. Conforme veremos mais adiante, Theorein, a palavra grega para “teoria”, relaciona-se literalmente à “ação de contemplar”. No latim, “contemplar” refere-se ao ato de examinar profunda e atentamente algo. Remete também a esse entrecruzamento etimológico a possibilidade de dizermos, nos dias de hoje, que uma determinada teoria “contempla” este ou aquele assunto. Os antigos gregos costumavam ainda estabelecer uma distinção entre a theoria, que remetia à já referida “contemplação”, e a práxis, que remetia à “ação” propriamente dita – e já Aristóteles, na Ética a Nicômaco, opunha a teoria a qualquer atividade que não tenha a contemplação como seu objetivo último (ABBAGNANO, 1999: 952). Acompanhando esta divisão entre a Teoria e a Práxis, “teorizar” chegou também a significar, entre os gregos, a dedicação exclusiva ao conhecimento e à sabedoria. Ainda com referência à mútua associação entre “teoria” e “ver”, podemos lembrar que o mesmo verbo que está na origem de theoria também originou Teos (Deus): “Aquele que Vê”.

25. O conceito de “território” refere-se ao espaço sobre o qual se estabelece alguma forma de poder ou sobre o qual se afirma uma determinada identidade. Na sua significação mais simples, o território é essa área que se vê delimitada pela posse de um animal, de um indivíduo, de um grupo de pessoas, de uma sociedade, de uma instituição ou de uma organização. Quando falamos na teoria como um “território”, estamos fazendo uma alusão ao fato de que determinadas áreas de saber terminam por se constituir em espaços sob a guarda daqueles que as praticam. Os historiadores vêm há séculos, ou mesmo milenarmente, constituindo o seu território. A Teoria da História, conforme veremos mais adiante, é uma conquista definitiva da historiografia científica que começa a se afirmar no século XIX. Um raciocínio análogo poderia se referir à Geografia, à Economia, à Psicologia, ou a qualquer outra das ciências humanas, sem falar nas diversas ciências da natureza. Sobre o caráter político associado ao conceito de “Território”, cf. Raffestin (1993: 143) e Souza (2001: 11).

26. A palavra “cientista” é aqui utilizada em sentido expandido, e refere-se aos praticantes de cada ciência ou especialidade acadêmica. O historiador é, nesse sentido, um “cientista”, mesmo que haja uma ampla discussão acerca da validade de se dizer ou não que a História é uma ciência. Com relação à interminável polêmica sobre a possibilidade de a História ser ou não uma ciência, esta depende, obviamente, da própria definição de ciência que se tenha em vista. Apenas para dar alguns exemplos, Karl Popper (1902-1994), que registrou suas posições sobre a historiografia em um livro intitulado A miséria do historicismo (1957), pretende renegar à historiografia a dimensão da cientificidade principalmente porque atribui à ciência a “capacidade de fazer previsões”. De maneira análoga, Carl Hempel (1905-1997), em seu ensaio sobre os “Problemas do conceito de lei geral”, sustenta que a cientificidade deve ser associada à possibilidade de explicar um fenômeno como subsumido a leis ou a uma teoria, o que o leva a negar a cientificidade, ao menos em parte, à historiografia de sua época (1960). Uma posição não muito distante é sustentada por Patrick Gardner, um autor particularmente interessado na Natureza da explicação histórica (1952), e que organizou um conjunto completo de fontes para o estudo das teorias da história, no livro que recebeu esse nome (1959). Há ainda os que definem ciência através do tipo de método e da abordagem, e que, ao perceber claros contrastes entre os métodos da História em relação ao modelo das ciências naturais, são levados a concluir que a historiografia não deve ser enquadrada como ciência. Não é o caso, contudo, do Historicismo, representado por autores como Dilthey e Droysen, que, embora percebam e sustentem claramente a distinção de métodos entre a História e as Ciências Naturais, nem por isso deixam de qualificar a História como um “outro tipo de ciência”. Seguiriam pela segunda metade do século XX as defesas da cientificidade da História. Roger Chartier, já escrevendo no início do século XXI contra o pano de fundo de uma torrente de posições pós-modernas que rejeitam a cientificidade da História, afirma que a História é, sim, uma prática científica – e justifica a afirmação no seu artigo “A História hoje: dúvidas, desafios, propostas”, sustentando que a cientificidade da História ancora-se no fato de que ela possui regras que possibilitam controlar as operações a partir das quais se produzem certos enunciados (1994: 111). No âmbito do Materialismo Histórico, há uma tendência a seguir a posição de que a história é uma ciência. Mas assim mesmo há posições como a de Thompson, que sustentou em Miséria da Teoria (1978) que a história é um conhecimento aproximado, o que em sua argumentação seria impeditivo para atribuir-lhe rigorosamente o status de ciência. Perry Anderson, outro dos mais eminentes historiadores marxistas da Inglaterra, fará a crítica desta posição em 1985, em um ensaio intitulado Teoria, Política e História: um debate com E.P. Thompson. Anderson afirmará neste artigo que a característica de ser um conhecimento aproximado e a impossibilidade de verificação empírica não são impeditivos para categorizar um âmbito de saber como científico, sendo mesmo esses fatores uma regra expressa pela maior parte das ciências. Enquanto isto, Pierre Vilar, historiador marxista que dialoga com os Annales, retoma a ideia sugerida por Marc Bloch e Lucien Febvre de que a “história é construção” – ideia que aparece registrada, por exemplo, em seu artigo de 1973 intitulado “Tentativa de diálogo com Althusser”. O debate segue adiante, e não se dá apenas em torno da questão de a História ser ou não uma Ciência. A pergunta seria, enfim, “o que é Ciência”? Thomas Kuhn (2007: 218) insiste que seria característica da Ciência a formação de comunidades científicas através das quais, durante largos períodos, chega-se a um consenso estável sobre grandes questões paradigmáticas, apesar dos períodos de crise e aguda disputa paradigmática nos quais eclodem as revoluções científicas. Segundo essa perspectiva, a História e as ciências sociais, por serem multiparadigmáticas todo o tempo, não seriam propriamente ciências. Mas o próprio Kuhn reconsiderou essa posição posteriormente, no que se refere às ciências sociais (2006: 265-273).

27. Entre estes mediadores, conforme já veremos na “Figura 2”, teremos as hipóteses, os conceitos, os procedimentos argumentativos, a demonstração a partir de elementos empíricos, e assim por diante.

28. O “conhecimento empírico” é aquele que obtemos através das experiências de vida, da observação do mundo, da vivência cotidiana. A palavra também pode ser associada ao conhecimento obtido através das experiências sensíveis, ou também – quando falamos em uma “base empírica” – aos elementos concretos e evidências que podem servir de base ao desenvolvimento de uma racionalização ou de teorizações científicas. Na Filosofia, particularmente no que se refere à questão da existência ou não de ideias inatas no ser humano que nasce, o Empirismo chegou a constituir uma corrente por oposição ao Racionalismo. Esta última corrente acreditaria na existência prévia de “ideias inatas” que vão se desvelando ao homem à medida que este vive, ao passo em que, para o autêntico Empirismo, o homem seria uma tabula rasa (uma “pedra em branco”) ao nascer (LOCKE, 1690, livro I). Posto isto estaremos empregando a palavra “empírico”, neste momento, no sentido de materiais concretos e evidências.

29. A Psiquiatria, um dos campos disciplinares ligados aos chamados saberes “psi”, começa a desenvolver uma reflexão teórica mais consistente a partir do século XVIII, com autores como William Cullen (1712-1790) e Philippe Pinel (1745-1826), e a partir daí vai se inscrevendo definitivamente no rol das disciplinas científicas. Em 1890, a Psicanálise começará a ser constituída teoricamente por Freud (1856-1939). A Psicologia, um saber que estivera tradicionalmente inserido na Filosofia, começa a constituir um campo disciplinar próprio em torno de 1880 (cf. ZIMBARDO, 2004). A psicologia criminal, mais especificamente, remonta ao início do século XX. São exemplos de campos que vão se constituindo teoricamente, e se inscrevendo no âmbito das disciplinas científicas. A História, veremos neste livro, passou a estar inscrita no campo científico a partir do século XIX.

30. É preciso ressalvar que nem sempre foram desenhadas muito claramente as linhas de separação entre Ciência e Arte, e enxergar esses campos como polos contrastantes é apenas uma posição possível, hoje predominante. Podemos lembrar o período renascentista, na Itália da época de Leonardo da Vinci, quando esta clivagem não era muito decisiva. Ademais, na Idade Média, certos campos hoje agrupados entre as disciplinas científicas eram categorizados como “artes maiores” e “artes menores”. As “artes liberais” das universidades medievais – por oposição às “arte servis”, que eram aquelas ligadas à atividade manual, tais como a pintura, a escultura e a arquitetura – subdividiam-se no Trivium (Gramática, Dialética e Retórica) e no Quadrivium, formado pela Aritmética, Geometria, Astronomia e Música. Os saberes eram aqui organizados de acordo com a sua utilidade para a Igreja, e veremos a Música e a Astronomia ocuparem o mesmo quadrante de saberes. No chamado período renascentista, assistiremos a uma extraordinária elevação de algumas das antigas “artes servis”, e a Pintura, a Escultura e Arquitetura ocuparão lugar de primeiro plano, sendo praticadas por homens que também trariam uma contribuição para o que hoje seria chamado de ciência, como foi o caso de Da Vinci. De todo modo, à parte inúmeros exemplos que acompanham a história semântica das palavras “Ars” e “Ciência”, a polarização entre “ciência” e “arte”, tão familiar hoje em dia, é bem característica das sociedades científicas.

31. A História, como veremos, também trouxe para o centro de suas ações o “modo teórico”, no momento em que passou a se postular como “científica”. A “intuição”, embora não ausente do trabalho do historiador, foi sendo situada na periferia de seus procedimentos. Por outro lado, a história da historiografia nos dá exemplos de setores historiográficos, em determinados momentos, que postularam um papel mais central para a “intuição” na História. Entre os filósofos e historiadores românticos do século XVIII, na contracorrente do racionalismo iluminista, e também entre os historiadores românticos do século XIX, iremos encontrar com frequência o apelo à “empatia” e à “intuição”. Johann Gottfried Herder (1744-1803), filósofo alemão associável ao pré-romantismo setecentista, praticamente recomenda aos historiadores este “ver por dentro” que é próprio da intuição: “penetrai profundamente neste século, nesta região, nesta história inteira; mergulhai em tudo isto e senti tudo isto dentro de vós próprios – só então estareis em situação de compreender” (HERDER, 1969: 182). Mesmo no século XIX, o século em que se instala a “história científica”, teremos em historiadores românticos como BALLANCHE (1827-1829) e CHATEAUBRIAND (1831) uma crítica à teorização esquemática herdada do Iluminismo, e um apelo à “atitude empática” entre o historiador e as sociedades que este pretende compreender. Também Jules Michelet (1798-1874), historiador romântico francês, também falaria dessa “identificação empática” do historiador com a sociedade examinada (1845) [sobre isto, cf. HADDOCK, 1989: 145]. Bem mais tarde, iremos encontrar também no século XX, com os projetos de Croce (1909) e Collingwood (1946) de aproximar da Arte a História, este apelo à Intuição. Podemos citar ainda a posição de Spengler, no início do século XX, que situa a Ciência em oposição à História por considerar que a primeira se aproxima de seus objetos através da busca e utilização de leis, enquanto a segunda, a historiografia, deveria se aproximar de seus objetos com o “avivamento da intuição”. De todo modo, à parte os múltiplos posicionamentos possíveis, não há como negar que, como os demais saberes conduzidos cientificamente, a História opera no “modo teórico” na maior parte do tempo, associando Teoria e Método, conforme veremos oportunamente.

32. Para alguns autores, a “teoria” é ainda mais do que uma certa maneira de ver as coisas, e chega a constituir uma “certa forma de vida”, típica do mundo ocidental. Podemos acompanhar, por exemplo, as considerações encaminhadas por Gilberto de Mello Kujawski a partir das formulações de Xavier Zubiri em Cinco lições de Filosofia (1997). A teoria – essa forma de conhecer o mundo que institui o “saber pelo saber” e que tem por objeto “o ser das coisas”, ao mesmo tempo em que se associa intimamente ao método da demonstração – chegaria a constituir mesmo um modo de vida que o Ocidente herda dos gregos: “O ocidental é o homem essencialmente teórico que condiciona sua vida e sua história à visão das coisas segundo certa perspectiva inconfundível com a de qualquer outra variedade humana (exceto os gregos)” (KUJAWSKI, 2002: 101). A ideia de que a teoria pode constituir um modo de vida era particularmente presente entre os gregos antigos. Nietzsche faz uma observação a respeito em uma passagem do seu ensaio “Sobre a utilidade e os inconvenientes da história para a vida” (1873): “Ninguém [hoje, ou seja, na segunda metade do século XIX] se atreve a aplicar a si mesmo a lei da filosofia, ninguém vive como filósofo, com aquela probidade simples e humana que obrigava um antigo a se conduzir sempre e em todo lugar como um estoico, uma vez que tenha jurado fidelidade à Stoa [nome da localidade grega onde surgiu o Estoicismo, uma das correntes filosóficas da Antiguidade Clássica] (NIETZSCHE, 2005: 111).

33. Ao lado disto, já dizia o filósofo Josef Pieper (1904-1997) que os romanos – que foram os responsáveis pela tradução da palavra grega theoria pelo termo latino “contemplatio” – explicitam ainda nesta “contemplação” uma dimensão afetiva importante. Contemplar implicaria também um “olhar amoroso”, somente possível ao homem que compreende o mundo como uma “criação”.

34. O Historicismo e o Positivismo – dois paradigmas das ciências humanas que se contrapõem a partir do século XIX – serão discutidos oportunamente (Volume II). Para um texto já clássico sobre o Historicismo, escrito por um antigo historiador liberal ligado a esta corrente, cf. Meinecke, 1936. Cf. tb. Wehling, 1994; Martins, 2002; Reis, 2003. Para o historicismo no Brasil, cf. Guimarães, L.M.P., 1997.

35. Na mesma obra, Paul Veyne dirá “A História existe apenas em relação às questões que nós lhe formulamos. Materialmente, a História é escrita com fatos; formalmente, com uma problemática e conceitos” (VEYNE, 1980: 2-3). Além disso, a dimensão teórica seria especialmente importante para a História pelo simples fato de que é ela que permite transcender o âmbito descritivo de uma história meramente factual. Em um ensaio de 1974 intitulado A história conceitual, Veyne dirá: “São os conceitos que distinguem a história do romance histórico e de seus próprios documentos” (VEYNE, 1988: 70).

36. Ver o mundo de determinada maneira, poderíamos acrescentar, é “viver” no mundo de um certo modo e não outro; ou, mesmo ainda, é viver em um certo mundo, e não em outro. Isso nos habilitaria mesmo a dizer que duas pessoas ou grupos de pessoas com visões teóricas diferenciadas vivem, de certa maneira, em mundos diferenciados. É o que sugere Thomas Kuhn, em certa passagem do “Posfácio” (1969) que acrescentou ao livro A estrutura das revoluções científicas (1962): “dois grupos cujos membros têm sistematicamente sensações diferentes ao captar os mesmos estímulos vivem, em certo sentido, em mundos diferentes” (2007: 241).

37. Mas há também – é preciso ser lembrado – os métodos que se dirigem para a organização do “pensamento”, ou para o adequado desenvolvimento da argumentação. Arrumar as ideias é também um fazer, sendo preciso considerar esses pontos em que a Teoria e o Método se tocam ou se interpenetram.

38. Hannah Arendt (1998: 17-46), ao definir “revolução” como um movimento social que introduz necessariamente a perspectiva do “novo”, sanciona uma leitura histórica da realidade que considera a Revolução Francesa como um movimento efetivamente revolucionário, mas não a Revolução Inglesa, mais ligada à restauração de certas liberdades que haviam sido subtraídas a determinadas classes sociais na Inglaterra do século XVII. Uma outra maneira de definir “revolução”, por outro lado, poderia permitir que a chamada Revolução Inglesa fosse considerada de fato uma revolução. Esse exemplo, ao qual retornaremos oportunamente (em outro volume), mostra que a redefinição de um conceito transmuda imediatamente a leitura da realidade ou de certos processos históricos.

39. O conceito de “paradigma” será definido mais adiante, até o final deste volume. O texto clássico para esta questão, conforme veremos, é o livro A estrutura das revoluções científicas, de Thomas Kuhn (1962). Para uma definição sintética, cf. tb. Barros (2005: 216).

40. Um “postulado” é uma proposição que se pede ao interlocutor que a aceite como princípio inconteste para iniciar ou dar sequência a um processo de raciocínio, embora se reconheça que esta proposição não é nem suficientemente evidente para que seja impossível colocá-la em dúvida (como o axioma) e nem passível de demonstração (como a hipótese). Deve-se considerar ainda que, conforme o horizonte teórico ao qual esteja associada a nossa maneira de ver as coisas, pode-se dar ainda que uma mesma ideia seja recebida como “postulado” ou como “axioma”. Para uma definição sintética de “postulado” e “axioma”, cf. Barros, 2005: 218 e 191.

41. Uma “conjectura” é uma suposição ou proposição que é proposta sem a intenção de ser submetida à comprovação ou a um processo de demonstração. Difere da hipótese – que é uma assunção provisória que se pretende submeter a um processo de demonstração que visará viabilizá-la ou não. Para que uma simples conjectura salte para a qualidade de hipótese, é preciso que ela traga consigo as possibilidades de uma verificação sistemática. Podemos dar um pequeno exemplo. A formulação da suposição de que existe vida em Saturno, por exemplo, constitui no atual estado do conhecimento humano uma mera conjectura, que pode ser feita pelos autores de ficção científica. Ela só poderá passar a ser uma hipótese, neste caso específico, quando surgirem meios efetivos que permitam comprová-la. Se um dia for confirmado, de maneira definitiva e incontestável, que existe efetivamente vida no planeta Saturno, a afirmação deixará de ser uma hipótese e passará a constituir um conhecimento adquirido. Também ocorrem casos em que uma hipótese comprovada (ou aparentemente comprovada) passa a ser aceita como uma “lei” em um determinado sistema científico (a “seleção natural” é uma “lei” para os darwinistas). Sobre estes aspectos, cf. Barros, 2005: 135 e 195.

42. Vale lembrar que, não raro, uma nova pergunta só pode ser formulada, ao menos em uma dimensão mais ampla de aceitação, quando a sociedade ou uma determinada comunidade científica já apresenta condições para resolver os problemas por ela colocados. Da mesma forma, uma sociedade “não se propõe nunca senão os problemas que ela pode resolver”. Karl Marx anota esse aspecto explicitamente no Prefácio para a crítica da economia política (1859). De igual maneira, uma nova imagem do mundo a ser elaborada por uma teoria científica só consegue florescer em épocas e terrenos propícios. Delattre, em seu verbete para a Enciclopédia Einaudi, ressalta esse aspecto para a questão do “geocentrismo”: “É sabido que a ideia de não imobilidade da Terra já se encontrava em Heráclito e em Aristóteles de Samos, que foi redescoberta por Escoto Eriúgena e de novo proclamada por Regiomontano e Nicolau de Cusa no século XV. Mas todos eles pregaram no deserto; os espíritos não estavam preparados para aceitar esse esquema demasiado incompatível com as outras concepções do momento” (DELATTRE, 1992: 244).

43. Delattre observa que, enquanto os antigos gregos costumavam distinguir com bastante cuidado a “teoria” da “ciência”, já a posterior história destas noções conheceu uma aproximação sempre crescente” (DELATTRE, 1982: 287).

44. Podemos, no interior desta afirmativa, abrir um longo parêntesis para pontuar também algumas considerações acerca do que seria uma “metodologia científica”, ainda que considerando a imensa variedade daquilo que fica sob a bandeira do “método” quando pensamos em cada tipo de ciência em particular, cada qual com seus métodos e técnicas específicos. Em primeiro lugar, se, para além da ciência, o “método” aparece em inúmeras outras atividades humanas (em tudo, conforme vimos, que se relaciona ao “fazer”), pode-se dizer que a ciência pressupõe um certo “uso científico” do Método. De modo geral, como se sabe, um Método se caracteriza pela “fixação de certos procedimentos” para atingir determinada finalidade, e muitas vezes se terá em vista procedimentos que possam ser sempre usados em uma mesma prática, ou em práticas similares. Há métodos para pescar, para se exercitar ou para produzir objetos artísticos. Mas, nas ciências, uma de suas características mais salientes é que o Método tem sido empregado de maneira “acumulativa e exaustiva”. À medida que o pesquisador ou o experimentador avança na execução dos procedimentos propostos pelo Método – seja no que se refere à repetição de alguns procedimentos no interior de uma série, seja no que se refere às etapas que são percorridas em alguns tipos de procedimentos – pressupõe-se que ele irá crescer progressivamente na obtenção do conhecimento. Cada etapa do método, por assim dizer, se torna “um progresso para o fim, não obstante a sinuosidade do caminho ou os desvios provisórios” (GRANGER, 1992: 56). “Sistematização” é outro aspecto notável na metodologia científica; em que pese que a intuição possa e deva aparecer na ciência, uma interminável sequência de intuições não pode constituir uma metodologia científica, embora possa ser uma boa metodologia para a Arte. Para além disso, o método científico deve vir formulado em uma linguagem, e entremear-se com uma lógica que lhe seja própria. Não há como negar também que a formulação de regras, que possam ser utilizadas pela comunidade científica, constitui um aspecto decisivo do uso científico do método. O que não impede, é claro, que a seu tempo as regras possam ser violadas. De igual maneira, é preciso não confundir “receita” com método, particularmente no que se refere ao método científico. Uma “receita” é uma lista para reproduzir o “mesmo”; já um método – notadamente no âmbito de qualquer ciência – corresponde a um conjunto de procedimentos para buscar o “novo”, para ampliar o conhecimento já existente. De resto, com relação a essa busca metodológica do “novo”, vale lembrar a já clássica complementabilidade que se estabelece na Ciência entre as duas grandes posturas metodológicas que se singularizam nas várias ciências: a Observação e a Experimentação.

45. “Buscar”, e não necessariamente “alcançar” a coerência total entre todas as suas partes. É mais de um estado de espírito – de um modo de proceder cientificamente – que aqui estaremos falando.

46. Sobre isto, ver um conhecido texto de Max Weber que tem por título A ciência como vocação (1919).

47. É por isso que a História, desde o momento em que postulou se tornar científica, ou em que se pôs a dialogar com as sociedades científicas, trouxe para o centro de suas preocupações um extremo cuidado em indicar as suas fontes. Essa é uma questão “metodológica” da maior importância para a História. É através da indicação das fontes utilizadas por um historiador que um outro, que deseje submeter o seu trabalho à prova, poderá percorrer o mesmo caminho traçado pelo primeiro pesquisador. A fonte está na base da dimensão de verificabilidade possível à História. Se na Química o pesquisador pode repetir em laboratório a experiência produzida pelo primeiro pesquisador, já a História deve assegurar que todos tenham acesso às fontes examinadas.

 

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