Tieta do Agreste

Jorge Amado · Capítulo 3 de 10 · parte 5/5

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Tieta do Agreste

Segundo episódio

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

Ainda não obteve informação precisa sobre a espécie de negócio diretamente dirigido por Antonieta. Não se trata de indústria, as indústrias são geridas pelos filhos do comendador, sendo Antonieta sócia mas não administradora. Deve tratar-se de comércio, loja de modas pois tinha funcionárias. Perpétua surpreendera conversa entre Tieta e Leonora em que faziam referência ao trabalho das meninas. Igual aos imóveis, essa casa comercial é propriedade exclusiva da irmã, presente do comendador.

Perpétua vai perguntando, colhendo uma informação aqui, outra acolá. Antonieta e Leonora não são de muito contar. Talvez de propósito para não despertar a cobiça dos parentes. Uma coisa é certa: a magnitude da fortuna. Os negócios são grandes, múltiplos e rendosos, dinheiro é cama de gato.

Outro dia, de uma das malas, a que está sempre trancada à chave, Antonieta retirou pasta ou maleta — uma 007 na exata designação de Peto, de enciclopédica cultura cinematográfica — e a abriu, mantendo-a no colo, voltada para si. Ainda assim Perpétua conseguira, levantando-se como quem não quer nada, vê-la repleta de dinheiro, notas altas, um desparrame, pacotes e mais pacotes.

— Ai! Santo Deus! — exclamara.

Tieta explicou ter trazido dinheiro vivo não só para as despesas como para pagar terreno em Mangue Seco, dar sinal pela casa, garantir a compra.

— Aqui não existe banco e eu não gosto de ficar devendo.

— Mas tem uma fortuna aí. Você é maluca, deixar esse dinheiro dentro de uma mala, no armário.

— Só quem sabe é Leonora e agora você. É só não falar nisso.

— Eu, falar? Deus me livre. — Bate com a mão na boca. — Não vou mais é poder dormir sossegada.

Antonieta ri:

— Quando eu comprar o terreno e a casa, vai diminuir muito.

Fortuna de paulista, fartura de dinheiro, não essa riquezinha de Agreste, de Modesto Pires, do coronel Artur da Tapitanga, de cabras e mandiocas. O importante é evitar que um dia — todos nós, um dia, temos de morrer, não é mesmo? — parte do dinheiro e dos bens de Antonieta vá parar em mãos dos enteados, dos filhos do falecido comendador, dessa silenciosa Leonora que não cheira nem fede, uma pamonha. Tieta é doida por ela, vive a cuidá-la, a lhe dar de comer, obrigando-a a tomar leite de cabra todas as manhãs. A dita cuja deve ser igualmente muito rica, se bem Perpétua, na vistoria detalhada feita no quarto dela, quando examinou coisa por coisa, não tenha bispado mala de dinheiro. Nada está sob chaves, tudo aberto. Na bolsa, alguns milhares de cruzeiros, para Agreste bastante mas nem de longe comparável com o despropósito da 007 de Antonieta. Perpétua se arrepia ao recordar.

A irmã gosta dos sobrinhos, trata-os com afeto, alegra-se quando os vê. Faz-se necessário, no entanto, muito mais, é preciso que ela os trate como se fossem filhos, pois filhos devem ser. Os dois se possível, pelo menos um. Reconhecidos legalmente. Herdeiros.

Caso Antonieta deseje levar um deles para São Paulo, Perpétua não se oporá, ótimo se escolher Peto. Menino perdido, solto em Agreste a matar aulas, tomando pau todos os anos, vagabundo no bar e no cinema, breve em lugares piores. Mas se for Ricardo o escolhido para ir viver em São Paulo, tornar-se braço direito da tia, Perpétua estará de acordo. Peto tomará o lugar do primogênito no seminário, queira ou não queira, pois um dos dois pertence a Deus, assim ela prometera, encruada donzela, perdidas as esperanças terrenas, as últimas. Se Deus lhe desse esposo e filhos, um seria padre, a serviço da Santa Madre Igreja. Deus cumpriu, realizou o milagre, ela cumprirá também.

Na praia, os olhos semicerrados devido ao sol e ao vento, à luz violenta, propõe outra barganha ao Senhor. Se Antonieta adotar pelo menos um dos meninos, Perpétua se compromete a deixar para a igreja, em testamento, uma das três casas herdadas do major, a menorzinha, aquela onde morou Lula Pedreiro, agora alugada a Laerte Curte Couro, empregado de Modesto Pires. Pequena mas bem situada, próxima ao curtume, na pracinha onde fica a capela de São João Batista. Pelo jeito, o Senhor recusa a proposta; íntima de Deus, Perpétua adivinha as reações celestes. Arrependida, retira a oferta, o Senhor tem razão de ficar aborrecido: uma casinha de pequena renda em troca da fortuna de Antonieta, proposta ridícula. Ainda tenta argumentar: a praça está sendo calçada e ajardinada, terá bancos de ferro, o aluguel vai ser aumentado. Não adianta: se continuar, o Senhor pode até se ofender. Pede bens consideráveis, oferece ninharia. Mais do que de dinheiro e propriedades, Deus precisa de devoção e fé. Pois bem: se Antonieta tomar Ricardo ou Peto, como filho e herdeiro, qualquer deles, Perpétua irá com os dois à capital — à cidade da Bahia, sim, Senhor Deus! — e lá, a pé se dirigirá à basílica, na Colina Sagrada, onde mandará rezar missa, deixando no Museu dos Milagres fotografia dos filhos com dedicatória para o todo-poderoso Nosso Senhor do Bonfim. Se a irmã adotar os dois, a missa será cantada. O Senhor deve levar em conta, na proposta, o fato dos meninos já possuírem direitos assegurados; apenas não são os únicos herdeiros.

O ideal seria que Antonieta, tendo adotado os dois, mandasse Ricardo completar o curso em seminário de São Paulo, desses que formam logo cônegos e bispos. No calor do sol, no correr do vento, no remoer de planos e promessas, Perpétua cerra completamente os olhos, adormece e sonha. Vê-se acompanhando a procissão da Senhora Sant’Ana, numa cidade imensa, maior do que Aracaju, deve ser São Paulo, na frente do andor um bispo em vermelho e roxo, um cardeal, é seu filho Cupertino Batista Junior, d. Peto. Um aviso do céu, compromisso selado, promessa aceita, milagre à vista.

 

DOS CIÚMES E DAS ESPERANÇAS

DE ELISA COM CURIOSO DETALHE

SOBRE QUESTÃO DE TRATAMENTO

ELISA NÃO SABE NADAR. FORAM-LHE PROIBIDOS RIO E

MAR na meninice e na adolescência. Zé Esteves, empobrecido, tornara-se intransigente e virulento — basta uma puta na família, advertia, o bastão em punho. No exemplo do sucedido com Tieta, Elisa cresceu de rédeas curtas, a qualquer pretexto o pau cantava-lhe nas pernas e nas costas. Bacia de Catarina, praia de Mangue Seco, nem pensar.

Se namorou foi de longe, namoro de caboclo, o olho comprido, vendo o velho expulsar os gabirus em ronda pela rua. Somente quando aparecer um bom partido, disposto a noivado e casamento: senão boto no convento, ameaçava. Ameaça vã, cadê convento? Astério, filho único, herdara a loja onde desde menino trabalhava no balcão, rapaz direito. Pareceu um bom partido, Zé Esteves concordou. Aos dezesseis anos, beleza de noiva, Elisa se casou, pensando que se libertava. Mudou de servidão.

Fica no raso, não se atreve a ir mais longe, enquanto Tieta e Leonora arriscam-se em meio às ondas e à animação da comitiva inteira no rastro das paulistas. Elisa ali sozinha, abandonada. Nem sequer o marido lhe faz companhia, prefere os amigos do bilhar. Também, pelo que vale e serve…

Elisa tem ciúmes. Não que a irmã ou a moça paulista possam se interessar por Astério, imagine-se! Leonora está de namoro com Ascânio, os dois sempre juntos, não se largam. Antonieta, viúva recente, não veio a Agreste tomar marido de ninguém. Tomaria, se quisesse, com facilidade. Apesar dos quarenta e quatro anos confessados — proclamados! —, quando passa na rua, alegre e descontraída, os homens correm a saudá-la, assanhados. A pele lisa e macia, tratada, tratadíssima, o corpo esplendoroso. Já fez plástica, com certeza, comentara Elisa com dona Carmosina, ambas a par dos hábitos das artistas e das grã-finas, dos milagres realizados por dr. Pitanguy em nacionais e estrangeiras. Certamente Tieta recondicionou sua beleza na clinica célebre, limpando-a de rugas e pelancas: basta ver-lhe os seios jovens, magníficos, opulentos porém firmes, mais firmes que os dela, Elisa.

Outros são os ciúmes de Elisa. Da riqueza que elas ostentam, dos hábitos da cidade grande, da falta de preconceitos, de limitações, ciúmes por não viver no mesmo mundo, tabaroa do sertão, condenada ao desconsolo.

Ciúmes também de Leonora, do amor que Tieta lhe dedica, a chamá-la pelo apelido: Nora, a dizê-la filha, com desvelos maternos. Deseja os mesmos cuidados, amor idêntico, sentir-se mimada como filha, adotada. Em certos momentos, Antonieta é extremosa com ela, alisa-lhe a cabeleira negra, beija-lhe a face, elogia-lhe a beleza: tu é bonita demais. Trata-a de filha e de Lisa, ternamente, tudo parece se encaminhar como ela deseja. Mas noutros momentos, a irmã a fita, pensativa, como se duvidasse do calor de seu afeto. Elisa não consegue entender o motivo da desconfiança, do desagrado de Tieta. Intrigas de Leonora, quem sabe? Com receio da concorrência, medo de perder o lugar privilegiado junto àquela a quem chama de mãezinha.

Um dia, estando a sós com Tieta, também Elisa a tratara de mãezinha. A irmã dirigiu-lhe um olhar estranho, disse ríspida:

— Prefiro que me chame de Tieta.

Voz e olhar deixaram Elisa trêmula:

— Desculpe. Só quis lhe agradar, agradecer o que tem feito por mim.

Adoçaram-se olhar e voz de Antonieta, afagou os cabelos negros da irmã mas não voltou atrás em relação ao tratamento:

— Não estou zangada. Apenas prefiro que você me chame de Tieta. Em Agreste todos me chamam assim, eu gosto. Mãezinha é nome de São Paulo, coisa de Nora e das outras meninas.

— As filhas do finado?

— As filhas, as sobrinhas, a família é grande.

A essa família, sim, queria Elisa pertencer, prole de comendador, de rico industrial, gente graúda, linhagem fina. Quer elevar-se da mediocridade de Agreste, salvar-se do cansaço, da inutilidade, da avidez cotidiana. Quer as luzes, o brilho, a agitação, as possibilidades, a aventura de São Paulo. Em Agreste, sem horizonte, sem futuro, vegeta, morre a cada dia.

Vestindo um maiô emprestado por Leonora — o seu está velho e fora de moda — que lhe molda o corpo esplêndido, os cabelos noturnos caindo no cangote, sai da água, vem sentar-se na praia. Enxerga Perpétua adormecida. Elisa sabe que a irmã mais velha tem um plano traçado, essa é a opinião de dona Carmosina, a quem nada escapa. Perpétua ambiciona vender — vender muito bem vendidos — os dois meninos a Tieta, mandá-los para São Paulo, onde serão adotados como filhos e herdeiros. Plano diabólico, dona Carmosina o desvenda inteiro, de dedução em dedução.

Elisa não deseja tanto, não quer ser adotada de papel passado e sim de coração, não se candidata a herdeira única. Contenta-se com muito menos: basta que a irmã se compadeça da mesquinha sorte dela e do bestalhão do Astério e os leve para São Paulo, dando a ele emprego nas fábricas da família e tendo ela, Elisa, a seu lado, irmã preferida, quase filha, amada tanto ou mais que Leonora. Já disse não desejar casa própria em Agreste. Se a irmã pretende lhe dar alguma coisa, que seja em São Paulo onde a vida é digna de viver-se, repleta de novidades e de tentações. Lá terá quem lhe admire a beleza, não apenas um árabe velho, um moleque sujo, um fétido mendigo. Será alguém, tendo onde e a quem mostrar-se. Em São Paulo tudo pode acontecer.

 

SHERLOCKS A POSTOS!

 

INTERROMPO A NARRATIVA PARA DEIXAR CLARO QUE

TODOS os dados necessários à solução do enigma a envolver Tieta (e com ela Leonora) estão colocados na mesa das deduções, diante do leitor. Não é preciso ser Sherlock Holmes ou Hercule Poirot para tudo descobrir. Por que então dona Carmosina foi no embrulho? Os olhos cegos pela amizade, acreditou no conto.

Aliás, não houve em nenhum momento, de minha parte, a intenção de enganar o público, de esconder-lhe fatos, de baratiná-lo. Tampouco havia por que sair contando o fim logo no começo, desvendando o passado antes de fazer-se necessário. Nos folhetins sempre se considerou essencial um pouco de suspense para atiçar a emoção dos leitores.

Estão à disposição da capacidade de cada um, nas páginas já lidas, pistas e indícios, mais do que suficientes. A maioria com certeza deu-se conta da verdade desde o início e, se nada disse, fez bem para não alertar os lerdos de entendimento. Não pensem sobretudo que eu escondi, torci ou inventei detalhes na intenção de não manchar a imagem de Tieta. Se ela, em respeito à família e aos preconceitos de Santana do Agreste, teceu uma teia de enganos, não me cabem responsabilidade e culpa. Não a julgo, por isso, nem melhor nem pior, nem creio que a atuação posterior por ela desenvolvida tenha menos mérito por causa de sua condição. Mérito ou demérito, dependendo, é claro, da posição de cada um diante das propostas do Magnífico Doutor. Quais? Já veremos, no decorrer da narrativa.

Encontro-me em Agreste trazido pelo clima de sanatório mas não sou daqui, sou de Niterói, como se diz. Não faço minhas as desvairadas paixões a abalar o burgo, a açoitar os habitantes. Não me envolvo, apenas relato.

 

ONDE É SUSPENSO O VÉU QUE ENCOBRE O PASSADO DA BELA LEONORA

CANTARELLI E FICA-SE SABENDO DE

TUDO OU QUASE TUDO

 

LAR, VIDA DE FAMÍLIA, CALOR HUMANO, AFETO

VERDADEIRO, LEONORA VEIO A conhecer somente quando, aos dezenove anos, chegou ao randevu Refúgio dos Lordes e obteve aprovação de madame Antoinette. Antes aprendera em curso intensivo a fome, a maldade, o desconsolo.

Na infância, caixa de pancadas. A qualquer pretexto, os pais batiam-lhe na cara, um e outro, a magra Vicenza e o troncudo Vitório Cantarelli, quando não se batiam entre si — nem sempre Vitório levava a melhor. Cinco filhos, quatro homens e ela, a caçula. Os homens foram caindo fora do cortiço, um a um, para as fábricas ou a má vida. Giuseppe morreu mocinho, sob as rodas de um caminhão, ao voltar para casa, bêbado. Puseram o corpo em cima da mesa, os pés sobrando, dependurados. Único a ter compaixão da irmã, Giuseppe afagava-lhe o rosto imundo, dava-lhe vez por outra um caramelo. Ela completara treze anos e queria ir-se dali para evitar a fábrica, destino próximo. Todos a achavam bonita e o diziam. Não para felicitá-la, não em elogio, em bom presságio e, sim, em lástima, em ameaça:

— Non sa quello che l’aspetta di éssere cosi bella.

— Bonita e pobre, vai acabar mal.

Tinham razão. Rapazolas e homens perseguiam-na. Antes de ser púbere, tentaram violá-la no campo de futebol invadido pelo capim. De que adianta chorar se mais dia menos dia há de acontecer? Inexperiente, contou em casa, apanhou de Vicenza e de Vitório para deixar de ser debochada, para não viver na rua se oferecendo.

Freqüentou a escola, aprendeu a ler e a fazer contas devido à merenda, devorada — a comida em casa, insuficiente. Seu Rafael, dono da Pizzaria Etna, a barriga de nove meses, dava-lhe um pedaço de pizza dormida, de carne sentida, e lhe apertava os peitos enquanto ela engolia, sôfrega. A combinação durou meses e meses, nunca trocaram uma única palavra, estabeleceram e cumpriram em silêncio os termos do acordo. Um dia, vendo-a espiar os pratos expostos na vitrine, seu Rafael se adiantara, na mão um naco de pernil, mostrando-o como se atraísse um cão. Leonora entrara, ele avançou as duas mãos, uma a exibir a carne sedutora, a outra dirigida ao busto nascente, protuberâncias sem forma definida. A menina quis pegar o pedaço de pernil e sair, seu Rafael não deixou, sacudiu a cabeçorra proibindo: enquanto ela mastiga, ele apalpa, amassa, belisca os seios nascentes, corre-lhe a mão na bunda quando a gulosa volta as costas para ir embora. Assim Leonora pagou desde cedo comida e formosura sem conseguir, no entanto, saciar a fome.

Os seios cresceram, a beleza também, visível mesmo na farda pobre de escolar — Leonora dava um jeito no corpo, tentação. Aos quinze anos, a curra. Era fatal, disseram os vizinhos: assim bonita, desamparada e metida a moça. Quatro no automóvel, um bem mais velho, de barbas, os outros três muito jovens, a exibir revólveres. O mais brutal não aparentava sequer a idade dela, picou-lhe perna e braço com um canivete. O barbado permaneceu ao volante, os três adolescentes desceram, empurraram-na para o fusca, os passantes viram, deram-se conta, ninguém tomou sua defesa. Quem é louco de se envolver com marginais armados, maconheiros? Levaram-na, serviram-se dela, espancaram-na, rasgaram-lhe o vestido, o único além da farda. Esteve na polícia, ouviu graçolas, um tira propôs encontro, os jornais noticiaram a ocorrência em duas linhas, fato corrente, sem maior impacto. Tivessem-na matado, a matéria ganharia certo interesse. Estupro, curra — bobagens. Se alguma vez pensara em casamento, abandonou a idéia. Queria apenas ir embora, fosse para onde fosse, com quem a quisesse levar.

Vidrou-se em Pipo, o primeiro a quem se deu por bem-querer. Achava-o o máximo com os cabelos longos caindo no pescoço, despenteados; aos dezenove anos já citado nas páginas de esporte dos jornais, pinta de craque. Elevado dos juvenis para o time de cima na ausência do titular da ponta esquerda, abafou. Finalmente, o ponteiro ofensivo de que tanto necessita nosso futebol. Foi o começo do sucesso de Pipo, o fim do romance de Leonora.

— Não enche, chiveta. Não se enxerga?

Vez por outra, se quisesse, numa folga dos treinos e das boates, quando de visita ao bairro, à família no cortiço em tudo igual àquele onde vivia Leonora. Vez por outra, ela não quis; romântica, exigia carinho, doçura, amor, desejos absurdos naquele confuso labirinto.

Ainda chorava quando reencontrou Natacha, antiga vizinha, também de visita aos pais. Leonora lhe narrou a paixão e o abandono, da curra ela já sabia. Um punhal no peito, cravado pelo festejado Pipo, agora de automóvel, cercado de admiradores. Segundo a crônica esportiva, o sucesso está subindo à cabeça do rapaz, se continuar assim não irá longe. Natacha, bem-posta e perfumada, lhe falou da profissão de puta. Não contou vantagens, disse que dava para viver, se a fulana evitasse cafetões e gigolôs — para Natacha melhor do que oito horas na fábrica ou doméstica em casa rica. Para Leonora soara a hora decisiva — a fábrica ou a zona.

Dois anos andou aqui e ali, de mão em mão, em hotéis baratos, no quarto sem janela, dividido do vizinho por um tabique, foi presa, medida corretiva, viveu desvairada paixão por Cid Raposeira.

Quando o conheceu, Cid atravessava uma fase calma, os médicos deram-no como curado sem dúvida para se verem livres dele. Magro, calado, durão, quase sempre. De repente, terno e frágil. Para quem nada tivera, era bastante, Leonora se prendeu. Cid Raposeira odiava o mundo e a humanidade, mas excetuava a companheira, um dia vou casar contigo e teremos filhos. Conversa de casamento e filhos, sinal de crise à vista — amiudavam-se os ataques, cada vez mais curtos os intervalos de lucidez. Do carinho passava ao ódio, direto: sai de minha frente, demônio. Dias de xingos e tabefes, ameaças de morte, tentativas de suicídio, terminando no manicômio ou na delegacia. Passada a crise, lá vinha ele humilde, esquelético, esfomeado, pedinchento, inútil. Leonora, um aperto no coração, varada de pena, o acolhia. Não houvesse Raposeira partido com uma boliviana que transava drogas, talvez Leonora ainda permanecesse com ele, sem coragem de abandoná-lo.

Novamente Natacha mudou-lhe o curso da vida. Cruzaram-se na rua por acaso, num começo de tarde. Leonora perseguindo michês, Natacha próspera, elegante, superiora.

— Agora, faço a vida em randevu. No melhor de São Paulo, o mais caro, o Refúgio dos Lordes, já ouviu falar?

Mediu Leonora cuja beleza não apenas resistira mas crescera, absurda beleza virginal, translúcida, os enormes olhos de água, os cabelos doirados, a face pura, toda ela recato e inocência.

— Quem sabe madame Antoinette lhe aceita. Você faz o tipo moça de família. Se quiser, lhe apresento.

Madame Antoinette pôs as mãos nas cadeiras, estudou a recém-chegada:

— O que deseja?

Natacha antecipou-se:

— Leonora…

— Perguntei a ela, não a você, cabrita.

— Desejo trabalhar aqui se a senhora me aceitar.

— Por quê?

— Para melhorar de sorte.

— É casada? Já foi?

— Não. Mas já vivi uns meses amigada.

— Por que deixou?

— Ele me deixou.

— Por que foi ser rapariga?

— Para não ir para a fábrica. Antes tivesse ido.

— Tem algum homem? Algum rabicho? Cafetão, gigolô?

— Tive esse que falei. Era doente.

— Doente? De quê?

— Esquizofrênico. Quando estava são, era um cara legal.

— Filhos?

— Não, senhora. Não peguei nunca. Nisso tive sorte.

— Sorte? Não gosta de crianças?

— Gosto demais. Por isso digo que tive sorte. Não tenho com que criar menino. Para passar fome, não quero.

— Já teve doenças? Não minta.

— A senhora quer dizer doença comprada, venérea?

— Isso mesmo.

— Me cuido muito, sempre tive medo. Sou asseada.

— Está bem. Vou fazer uma experiência com você. Pode começar hoje mesmo.

Alguns meses depois, Lourdes Veludo, morenaço digno da melhor consideração, uma das três mulheres de residência fixa no Refúgio, deixou a casa para incorporar-se a um show de mulatas, espetáculo de sucesso com possibilidades de excursão à Europa. Madame Antoinette, que apreciava a discrição e a gentileza de Leonora, convidou-a a ocupar a vaga. Acontecera dois anos atrás.

 

ÚLTIMO FRAGMENTO DA NARRATIVA

NA QUAL — DURANTE A LONGA VIAGEM DE ÔNIBUS LEITO, DA CAPITAL DE SÃO PAULO À DA BAHIA — TIETA RECORDA E CONTA À BELA LEONORA CANTARELLI EPISÓDIOS DE SUA VIDA

 

— QUANDO CONHECI FELIPE, ELE NÃO ERA AINDA

COMENDADOR e eu ainda era Tieta do Agreste, meu nome no sertão, na cidade da Bahia, no Rio de Janeiro e em meus começos em São Paulo. Felipe tinha voltado da Europa.

Felipe Camargo do Amaral, aos cinqüenta anos, considerava-se realizado como homem de negócios, empresário vitorioso em todos os setores onde atuava. Realizado também como paulista, cidadão e homem. Na Revolução de 32, não aceitou o cargo burocrático no gabinete do governador, providenciado pela família tradicional, marchou para a frente de combate, praça voluntário e, ali chegando, foi imediatamente promovido a primeiro-tenente, ajudante-de-ordens, um Camargo do Amaral não pode ser soldado raso. Terminou major, no Estado-Maior Revolucionário, redigindo manifestos e proclamações. Nascera rico fazendeiro de café, já com fartas colheitas e com quatrocentos anos de cidadania ou mais, se for considerado o sangue indígena, algumas gotas, o suficiente para dar-lhe condição nativa, autêntico bandeirante.

Por conta própria tornou-se industrial, um gênio para ganhar dinheiro, presidente de empresa, consórcios, bancos, entupido de ações e dividendos. Rápida passagem pela política. Deputado, em 1933, ao regressar do cômodo exílio em Lisboa, não disputou a reeleição. Faltava-lhe paciência para os inócuos debates, para as sessões chatas e, quanto à astúcia, preferia empregá-la melhor do que em trincas eleitorais. Assim o fez, crescendo em riqueza e em sabedoria.

— Felipe sabia viver e me ensinou. Eu era uma cabrita andeja, com ele virei madame. Aprendi com Felipe o valor do dinheiro mas aprendi também que a gente deve ser dono e não escravo do dinheiro.

Sabedoria para ele era viver bem. Não se deixar aprisionar pelos negócios. Música, quadros, livros, boa mesa, boa adega, viagens, mulheres. Conheceu os cinco continentes, Europa e Estados Unidos de cabo a rabo, pagou montes de mulheres — mulher a gente paga de qualquer forma, o melhor é pagar com dinheiro, fica sempre mais barato e não dá aporrinhação. Bom chefe de família, vivendo em paz com a esposa, escolhida no seio da exportação do café, em clã de muita linhagem e maior pecúnia, doido pelos filhos: um com ele, lugar-tenente na direção das empresas, o outro irremediavelmente ancorado no laboratório de pesquisas científicas da universidade norte-americana onde estudara e permanecera, casado com gringa. Felipe não tinha queixas da vida.

— Foi ele quem teve a idéia do Refúgio, muito antes de me conhecer. O primeiro nome era francês.

A idéia propriamente não fora dele. Com um pequeno, selecionado grupo de senhores do mesmo padrão econômico e de idênticos altos ideais, financiara benemérito projeto de diligente e encantadora amiga, madame Georgette. Um dos filhos de Felipe estudara nos Estados Unidos, o outro em Oxford, na Inglaterra. Ele, porém, preferia la douce France, familiar de Paris, guloso de vinhos, queijos e fêmeas. Quanto mais conheço outras cidades, mais gosto de Paris, dizia. Madame Georgette transportara para a capital paulista algumas especiarias francesas, condimentadas, picantes, às quais somara o melhor produto nacional. Perita na escolha das gentis parceiras.

O projeto referia-se ao estabelecimento de reservadíssimo randevu a ser freqüentado apenas pelos reis do latifúndio e da indústria — terras e fábricas, financeiras e bancos —, pelos maiorais da política, ministros, senadores; grandes das letras e das artes, excepcionalmente, para dar lustre à casa. Experiente e capaz, madame Georgette superou-se. Assim nasceu o Nid d’Amour onde os fatigados, nervosos senhores, repousavam em braços jovens, em colos perfumados, de dóceis e eruditas jeunes-filles.

— Quando Felipe chegava de viagem, vinha farto de brancas, tinha um pendor pela cor morena, assim tostada igual à minha — minha bisavó foi negra escrava. Cabrita montês, queimada de nascença, fui-lhe servida com champanha.

Madame Georgette conhecia o gosto de monseigneur le prince Felipe — somente de príncipe o tratava —, guardara para ele pitéu digno de tão fino paladar: Tieta do Agreste, morena de cabelos anelados, curtida no sol do sertão, educada nos bordéis dos povoados pobres, a flor da casa.

— Por que se engraçou de mim, não sei. O certo é que não me deixou mais.

— Que homem não se engraçaria, mãezinha? Além de bonita, devia ser saliente, uma brasa, imagino.

— Eu era bonita, sim, e esporreteada. Falava pelos cotovelos, ria à toa e quando topava parceiro de respeito, não tinha rival na cama, te garanto. Não sei se gostou de mim por isso ou porque acalentei seu sono.

O que prendeu Felipe e o fez constante? O conversê de moça a contar coisas do burgo e do sertão, da vida pacata, das cabras saltando sobre as pedras, do banho no rio? A competência? Ou o calor a desprender-se dela, a vida intensa e o gosto de viver? No quarto, com Tieta, sentiu-se jovem. Não mais o gasto senhor, refugiado no randevu para repousar de afazeres e problemas com prostituta de alta classe, a ser usada uma vez, quase nunca repetida. Madame Georgette mantinha vasto e renovado estoque, inumeráveis telefones no caderno azul, todas selecionadas no capricho. Ficara assombrada quando le prince Felipe pediu de novo a cabrita sertaneja e, depois de umas quantas vezes, a reservou — não fará mais a vida, fica por minha conta, à minha disposição.

Quando em São Paulo, Felipe mantinha-se assíduo ao corpo de agreste sabor, ao dengue, às carícias quase sempre castas, ao cafuné, aos ingênuos acalantos. Quando em viagem, tomava as medidas necessárias para que nada lhe faltasse, tivesse dinheiro bastante para não esquecê-lo e para respeitá-lo.

— Não botava chifres nele, mãezinha?

— Chifres? Quem podia botar chifres nele era a esposa, dona Olívia, mas não me consta que pusesse. Eu, era sua protegida. Nunca me proibiu nada, a não ser que eu fizesse a vida. Dei a quem quis, por querer, assim como dava em Agreste, antes de ser mulher-dama, para satisfazer o fogo me queimando o rabo, nunca por dinheiro. Fui discreta nos meus casos, sempre o respeitei e jamais falamos disso.

— E ele, não tinha outras?

— Nunca quis saber, nunca perguntei pelas mulheres que ele comia mundo afora. Me contaram de uma que ele trouxe da Suécia.

Alta escultura de trigo e neve, belíssima, disseram a Tieta as intrigantes. Ela cerrara os dentes, não abrira a boca. Apenas recomeçou a freqüentá-la e se viu nos dengues, rindo, adormecendo no cafuné, Felipe despediu a escandinava. Despediu, não: a beldade foi cedida, em troca de charutos cubanos, a um amigo importador, maníaco de material estrangeiro. Mesmo de segunda mão, em bom estado — observou Felipe de bom humor, concluindo que, em matéria de rapariga, tinha tendências à monogamia.

— Penso que ele ficou comigo a vida inteira porque nunca liguei para a fortuna dele, para mim não fazia diferença que fosse rico ou não, o que me prendia eram as atenções. Nunca pedi nada a Felipe, a não ser, por duas vezes, dinheiro emprestado. A primeira, no dia que nos conhecemos, se não tivesse a quantia exata perderia a ocasião de comprar um casaco de napa, argentino, um espetáculo, novo em folha. Tudo mais que ele me deu foi de livre e espontânea vontade.

Os apartamentos, um a um, em prédios cuja construção incorporara. Um dia chegou com a planta de um edifício, abriu na cama.

Estou construindo esse prédio, doze andares, na alameda Santos.

— Puxa! Que colosso!

— Reservei um apartamento para você. São todos iguais: sala e dois quartos. Tem quatro em cada piso.

— Tu ficou doido? Para eu pagar com quê?

— Quem falou em pagar? É um presente, está completando três anos que nos conhecemos.

Com tanta coisa em que pensar, Felipe recordava datas, aniversários. Apegara-se a Tieta, mais ainda se apegara ela a esse homem que lhe dava tanto e tão pouco lhe pedia. Aos pés do leito, os chinelos sob os travesseiros, o pijama de Felipe. Os edifícios cresceram em andares, os apartamentos em tamanho. No último prédio, imenso, uma cidade, ganhou loja no andar térreo, ponto caríssimo. Se ela lhe deu carinho, ele pagou em dinheiro — ou em bens, a mesma coisa: o melhor é pagar em dinheiro, fica mais barato e não dá aporrinhação.

— Um dia, madame Georgette me chamou para conversar. Queria passar o negócio adiante, ia voltar para a França, me ofereceu a preferência.

Madame Georgette depositava na França economias e lucros, comprara casa na banlieue de Paris, sempre pensara no regresso e na aposentadoria. Quando falou com Tieta, já adquirira a passagem de navio para daí a dois meses. Pela segunda vez, ela pediu a Felipe dinheiro emprestado.

— Você não me pagou ainda o que tomou no dia em que lhe conheci — pôs-se ele a rir. — Deixe comigo, acerto com Georgette, o Nid é seu.

— Faz mais de treze anos que assumi. Reformei tudo, modernizei, separei um apartamento para mim e Felipe, aquele luxo. Mudei o nome e aumentei os preços.

— Por que mudou o nome, mãezinha?

— Nid d’Amour cheirava muito a casa de puta. Refúgio dos Lordes é mais decente. São todos uns lordes, os meus fregueses. Em troca, tive de mudar meu nome. Conselho de Felipe.

— Um randevu de alto bordo e preços de esfolar tem de ser dirigido por francesa, ma belle. Madame Antoinette, vai muito bem com seu tipo. — Assim ele dissera.

— Nome francês com minha cor, meu bem? Não pode ser.

— Francesa da Martinica, como Josefina, a de Napoleão.

Os fregueses fizeram-se amigos, o prestígio do randevu cresceu, freqüentar o Refúgio dos Lordes tornou-se privilégio mais disputado do que ser sócio do Jockey Club, da Sociedade Hípica, dos clubes mais fechados de São Paulo. No apartamento reservado, com o máximo conforto, aos pés do leito, os chinelos de Felipe, sob o travesseiro, o pijama. Envelhecera, enviuvara, o papa agraciara-o com o título de comendador, viajava pouco, apenas superintendia as múltiplas empresas, cada vez mais presente à cama e ao riso cálido de Tieta.

— Para Felipe não mudei de nome, fui Tieta do Agreste até o fim.

Para os demais, madame Antoinette, francesa nascida nas Antilhas do casamento de um général de la Republique com uma mestiça. Educada em Paris, desperdiçando charme, mestra no ofício de escolher mulheres, especiarias para o gosto caro dos fregueses, os mais ricos de São Paulo, Dieu merci. Para as duas ou três raparigas que, como Leonora, habitam permanentemente no Refúgio dos Lordes, é mãezinha, exigente e generosa, temida e amada.

DO RECADO URGENTE

 

NO MELHOR DA FESTA, CHEGA O RECADO URGENTE.

Devorado o almoço, repetida a sobremesa, dona Laura, Elisa e Leonora servem o cafezinho. Rega-bofe grandioso, com variado fundo musical: o moderníssimo som do toca-fitas competindo com a harmônica de Claudionor das Virgens. O trovador possui extraordinário faro para detectar odores culinários, perfume de batida, aroma de cachaça. Sem esperar convite, aparece de sanfona em punho, o sorriso aberto, caradura simpático e bem-vindo: com vossa permissão!

Enquanto Elisa, Aminthas, Fidélio, Seixas e Peto curtem o rock-and-roll, os demais aplaudem Claudionor e Elieser. O repertório do trovador dá preferência à música sertaneja enquanto o dono da lancha, habitualmente casmurro, de pouca conversa, animado pelos tragos, solta a voz agradável e, atendendo às sugestões saudosistas de Tieta e de dona Carmosina, canta esquecidas melodias. Tieta, sentada numa esteira, enorme chapéu de palha a defender-lhe o rosto, pede:

— Toque aquela que Chico Alves cantava, Claudionor.

— Qual?

— Uma que começa: “Adeus, adeus, adeus, cinco letras que choram…”.

Elieser abre o peito, Claudionor acompanha na sanfona. Tieta deixa-se levar pela música, está distante, não participa das conversas. Leonora inquieta-se. Conhece mãezinha: quando está assim, calada, é porque algum problema a preocupa, uma chateação qualquer. O que será? Não se anima a perguntar, não vale a pena, melhor é deixá-la em paz até o riso voltar. Quando estou de calundu, me larguem de mão, não se metam, recomendava ela no Refúgio. Em silêncio, senta-se a seu lado.

Tieta percebe a presença de Leonora, volta-se, acaricia-lhe a face. A moça toma-lhe da mão e a beija, com ternura. Cabrita sem juízo, reflete Tieta, corre o risco de se apaixonar, de perder a cabeça. Somente ela, de cabeça oca? Mais ninguém?

Que espécie de obrigação inapelável exigira a presença de Ricardo ao lado do padre na devoção de Rocinha? Obrigação, coisa nenhuma! O sobrinho estava fugindo dela, isso sim; fora com o padre para não vir a Mangue Seco, não manchar os olhos castos — castos?, carolas! — na nudez da tia, soberba no reduzido biquíni, bestalhão! Nos últimos dias sentira a ausência do rapaz, no banho do rio, nos passeios. Até a hora da banca ele mudara, sem dúvida para não lhe fazer nova massagem. E Tieta, burra velha, a sonhar com o sobrinho, a vê-lo noite e dia com asas de anjo e aquele pé de mesa. Jamais se interessara por jovens, muito menos por meninotes de dezessete anos, preferindo homens-feitos, sempre mais idosos do que ela. Fizera-se necessário voltar a Agreste para desejar um rapazola, sentir frio na espinha ao pensar nele, ficar mal-humorada, desagradável, vazia devido à sua ausência. Triste, irritada, em pleno calundu. Com essa não contava. Ainda por cima sobrinho e seminarista. Vendo-a tão longe, perdida em pensamentos, Leonora levanta-se, vai ao encontro de Ascânio. Tieta toca-lhe novamente a face, num afago.

— Sabe “Foi tudo um sonho”, Elieser?

— Sei mais ou menos, dona Antonieta. Mete os peitos, Claudionor!

Tieta veleja na música, conduz Ricardo pela mão. Osnar, encharcado de cerveja, acomodou-se na sombra, mamando um charuto. Barbozinha ressona debaixo de um coqueiro, esquecido dos projetos de declamação no alto dos cômoros. O cansaço começa a se fazer sentir, no crescer da tarde, após a maratona de dendê e pimenta, coco e gengibre, batidas, cachaça, cerveja. A manhã fora fatigante: banho de mar no embate das ondas bravias, escalada das dunas sob o sol de verão. Ainda assim, Ascânio e Leonora projetam uma fuga para a praia. Quando o calor diminua, antes da volta marcada para o pôr-do-sol.

Inesperado, o barulho de um motor na distância. Comandante Dário, a quem todos os ruídos do mar e do rio são familiares, decreta:

— É o barco de Pirica.

Pirica vem em busca de Ascânio, trazendo recado do coronel Artur da Tapitanga e notícia sensacional: os engenheiros da hidrelétrica de Paulo Afonso encontram-se em Agreste e querem falar com alguém responsável pela prefeitura. Foram à casa do prefeito, deu a maior confusão. Dr. Mauritônio não diz coisa com coisa, vive num mundo de fantasmas, agrediu o engenheiro-chefe, confundindo-o com o agrônomo Aristeu Regis, responsável pela deserção de Amélia Doce Mel. Insultados e expulsos, foram parar na fazenda do coronel Artur de Figueiredo, presidente da câmara municipal. O octogenário enviara Pirica a Mangue Seco com ordens de trazer Ascânio.

Há uma animação geral, querem saber mais, reclamam detalhes, mas Pirica, além do já contado, acrescenta apenas uma informação: o coronel estava muito contente quando o encarregara do recado:

— Diga a Ascânio que os homens da luz estão aqui, que ele venha imediatamente, não perca um minuto.

Fidélio exclama:

— Vão instalar a luz, ganhei a aposta. Viva dona Antonieta!

O primeiro viva, seguido de outros ali mesmo, sob os coqueiros. Prólogo às comemorações da cidade, Agreste vai vibrar com a notícia. Ascânio, empertigado, encaminha-se para Tieta:

— Permita, dona Antonieta, que eu lhe antecipe a gratidão do povo de Agreste.

Tieta estende a mão a Ascânio para que ele a ajude a levantar-se:

— Ainda não, Ascânio. Não arrote antes de comer. Atenda ao chamado do coronel, tire o assunto a limpo, por hora não se sabe de nada certo. Eu aprendi a não soltar foguete antes do tempo para não queimar a mão. Se for verdade, quem mais merece parabéns é você que lutou tanto. Eu pouco fiz, só fiz pedir.

— As intenções, os gestos não valem nada quando não trazem resultados, foi a senhora mesma quem me disse — retruca Ascânio.

— Você brigou, se bateu, não ficou na intenção. Vá saber o que há e, se for verdade, comemoraremos juntos.

— Nós e o povo todo, dona Antonieta. Vai ser a maior festa de Agreste.

O entusiasmo domina a alegre comitiva. Tieta, queira ou não, é abraçada, beijada, felicitada. Barbozinha ameaça discursar, fará um poema à luz de Paulo Afonso, luz nascida dos olhos de Tieta; Osnar propõe que a carreguem em triunfo — solte minha perna, seu aproveitador!; Aminthas promete a Fidélio pagar a aposta assim a notícia se confirme. Afetuoso abraço do comandante; solenes felicitações de Modesto Pires, impressionadíssimo com o prestígio da conterrânea; nunca acreditara que os pedidos feitos por ela dessem resultado positivo; nem vão tomar conhecimento dos telegramas, jogam no lixo, garantira a dona Aída e a alguns amigos. Perpétua empina o peito: as relações da irmã na cúpula da política e do governo são um orgulho para a família, sua posição social eleva todos os parentes. Se não estivesse tão amuada, ao ouvir a palavra cúpula, Tieta abriria num frouxo de riso; ainda assim sorri nos braços de Perpétua. Elisa, emocionada, não contém o choro, cobre a irmã de beijos. Dona Carmosina e dona Milu jamais duvidaram, contavam as horas na espera da resposta. Agora, diante da presença dos engenheiros em Agreste, que dirão os incrédulos? Terão de dar a mão à palmatória. Tieta gostaria de participar da alegria geral mas aquele por cujo beijo anseia não está presente, não veio, não quis vir, preferindo seguir atrás do padre no lombo de um burro, o idiota! Que espécie de dor-de-cotovelo mais absurda! Seu rival é Deus. Pois Deus que se cuide, no particular Tieta do Agreste não costuma perder.

Por proposta de dona Carmosina, unanimemente aprovada, decidem voltar em seguida, acompanhando Ascânio, ninguém se sente capaz de demorar-se o resto da tarde em Mangue Seco, esperando o pôr-do-sol, com tamanha novidade em Agreste. Todos desejam ver os engenheiros.

Todos, menos Tieta. Anuncia sua decisão de aceitar o convite de dona Laura e do comandante, de ficar na praia até quarta-feira quando, em companhia de Modesto Pires, voltará a Agreste para a escritura do terreno.

Enquanto os demais se arrumam, leva Perpétua à Toca da Sogra, entrega-lhe um molho de chaves:

— Quero que você me faça um favor. Abra a mala azul, repare na chave, pegue aquela maleta onde guardo dinheiro, a que você viu, abra com essa chave pequena, e retire… — calcula a quantia em voz alta, o necessário para dar um sinal a Modesto Pires, assegurando a compra do terreno, e para as despesas iniciais da construção.

— Você vai fazer casa? Em seguida?

— Imediatamente. Vou demarcar o terreno e começar uma casinha, pequena, o comandante se ofereceu para tomar conta da obra, em Saco tem tudo que se precisa, em material e mão-de-obra, é só ter dinheiro para pagar. O comandante disse que a construção pode andar depressa. Quero ver minha casinha de pé, pelo menos as paredes, antes de regressar a São Paulo. Quando eu não estiver, você e os meninos ficam usando. Elisa também. — Fita a irmã, adoça a voz. — Tenho vontade de fazer alguma coisa por meus sobrinhos, Perpétua, já que não tenho filhos.

— Ah!, mana, que alegria você me dá dizendo isso. — Brilham os olhos gázeos, tremula a voz esganiçada. O acordo com o Senhor, apenas estabelecido e já em pleno andamento.

— Em Agreste, a gente conversa sobre isso.

— Por quem mando o dinheiro e as chaves?

— Pelo comandante, ele vai com a canoa, levando gente.

O comandante não precisou ir, couberam todos na lancha de Elieser e no barco de Pirica onde se acomodarão, além de Ascânio, Leonora e Peto. Tieta se aflige:

— E eu que preciso desse dinheiro amanhã bem cedo. Mande por qualquer um que venha para cá.

— Deixe comigo, eu dou jeito — garante Perpétua.

Tieta confia, já alegre, sorrindo. O calundu passou, constata Leonora ao despedir-se. No momento do embarque, na praia, a caravana improvisa ruidosa manifestação, sob a batuta de dona Carmosina:

— Então, como é que é?

O coro responde:

— É!

— Para Antonieta nada?

— Tudo!

Dona Carmosina junta-se aos demais:

— Hip, hip! Hip, hip! Hurra! Antonieta! Antonieta!

Modesto Pires repete:

— O povo de Agreste, se essa história da luz for verdade, como parece, vai lhe entronizar no altar-mor da matriz, junto da Senhora Sant’Ana, dona Antonieta. Eu já lhe disse e repito.

Tieta desata em riso: mundo mais divertido.

 

DA PERGUNTA MAL-HUMORADA

 

NA PREFEITURA, DE BASTANTE MAU HUMOR, O

ENGENHEIRO-CHEFE informa ao ansioso secretário da mudança havida no plano de extensão dos fios e postes da hidrelétrica: Agreste fora incluído inesperadamente na relação de municípios a serem beneficiados com luz e força da usina. Não apenas isso, já de si incrível absurdo, tinha mais. As ordens, vindas do alto, da própria presidência da companhia, urgentes, eram de conceder a Agreste prioridade absoluta, iniciando-se imediatamente as obras necessárias para que fossem concluídas em tempo mínimo. Inconcebível decisão a trazê-los ali, a esses quintos do inferno, num domingo, dia de descanso, cobertos de poeira, putos da vida. Perdendo tempo, ainda por cima, pois há horas buscam um funcionário responsável com quem conversar.

Antes de informar sobre prazos e datas, existe uma coisa, uma única, que o engenheiro-chefe e seus subordinados desejam saber: como se explica que um município tão pobre e atrasado, cujo prefeito é maluco, precisando de camisa-de-força e internamento, o presidente da câmara de vereadores um macróbio, houvesse conseguido modificar planos aprovados, definitivos, ordens de serviço em andamento, passando à frente de comunas ricas, prósperas, protegidas por políticos de renome, ocupando altos postos? Quem pedira por Agreste? Pedira, não, impusera! Por favor, o nome desse líder de tamanha força, dessa personalidade assim eminente, desse prepotente mandachuva, do potentado capaz de tal proeza? Tem de ser realmente alguém de muito poder, com certeza general.

Osnar, distribuidor de patentes, dizia-a generala. Mas Ascânio silencia, para não aumentar o mau humor dos engenheiros. Sorriu modesto, vamos ao que interessa, às datas e aos prazos.

 

DO MEDO E DA VONTADE

DISSOLVIDOS EM LUAR

 

GENERALA? SOZINHA, DEITADA NO ALTO DAS DUNAS,

MOLECA DE AGRESTE, pastora de cabras. O marulho ingente das ondas, o odor de maresia, música e perfume dos começos do mundo. No céu, a lua e as estrelas, eternas.

Nos cômoros, ouvindo as vagas, nos oiteiros de terra pobre, no contato com o rebanho indócil, fizera-se forte e decidida, aprendera a desejar com intensidade e a lutar para conseguir. Mar bravio, terra árida, faces de um mesmo mundo agreste, duro, pobre e terrivelmente belo. Sentia-se plantada nas pedras onde as cabras saltavam e nas areias movidas pelo vento. Tinha da terra e do mar, da água doce e da salgada, correnteza de rio, ressaca de oceano. Aprendeu a não ter medo, a não fugir, a olhar de frente, a assumir a iniciativa. Tantas estrelas, incontáveis; quantos amores, o desejo preso na garganta, na ponta dos dedos, no fundo do estômago? Amores de fugidio instante, amor da vida inteira, o de Felipe. Ninguém conta as estrelas, para que contar as ânsias, a boca seca, a necessidade urgente? O número não importa e sim o beijo, a morte e a vida juntas, uma coisa só. Em Mangue Seco, sobre a areia, em Agreste, nos esconsos do rio, cabra montês. Em cama de casal, somente Lucas, quando ela deixou a aridez dos oiteiros e descobriu os atalhos do prazer. Ei-la de novo ali, nos cômoros, como da primeira vez. Tensa, pronta, à espera.

Longe, no rio, a luz; pode ser apenas o reflexo de uma estrela. Qualquer ruído se perde no rebentar dos vagalhões contra as montanhas de areia. Mas a lua cheia ilumina as dunas, suave claridade, macia. O vulto indeciso, no sopé dos cômoros, por qual se decidir? Tieta levanta-se, olha, adivinha, reconhece. Modula o chamado da cabra, doce convocação de amor, berro ligeiro, sussurrado. Indicando rumo e desembarque.

Frente a frente, a tia e o sobrinho. Cardo veste o calção e a camisa do Palmeiras que Tieta lhe enviou. Sorri sem jeito:

— A bênção, tia. Mãe mandou que eu viesse lhe trazer uma encomenda, deixei na mão do comandante, lá embaixo.

— Foi só?

— Disse para eu ficar com a senhora, lhe ajudando.

— Mas tu não queria vir.

Atrapalha-se o rapazinho, tenta esboçar um gesto, baixa os olhos. A evasiva, entre gaguejada e orgulhosa:

— Está uma festa por lá, por causa da luz. O povo todo na rua, dando vivas pra tia. Diz que a tia…

— Tu tem medo de ficar, não é?

A resposta se espelha na confusão do rosto aberto ao luar, franco, sem malícia. Tieta prossegue:

— Me conte. É comigo que tu sonha aquelas coisas? Não minta.

O adolescente baixa os olhos:

— Todas as noites. Me perdoe, tia, não é por meu querer.

— E tu tem medo, foge de mim?

— Não adianta de nada. Nem me esconder nem rezar. Até na reza, penso e vejo.

— Tu me acha bonita?

— Demais. Bonita e boa. Eu é que não presto, sou ruim de natureza ou bem é castigo de Deus.

— Castigo? Por quê?

— Não sei, tia.

— Se tu não quer ficar, pode ir embora. Em seguida, neste instante.

Aponta para baixo, deita-se de novo sobre a areia, o corpo exposto: a saia aberta, a blusa desatada. A voz de Ricardo chega de longe, do fundo do tempo:

— Estou com medo de ofender a Deus e de lhe ofender, tia, mas tenho vontade de ficar.

— Aqui, junto de mim?

— Se a tia deixar. — Os olhos incendeiam.

Na lonjura, espoca o clarão dos foguetes subindo ao céu, estrelas acendidas pelo povo de Agreste em honra e louvor da filha ilustre, da viúva rica e poderosa, da paulista com voz e mando no governo.

Tieta sorri, estende a mão:

— Tenha medo, não. Nem de mim nem de Deus. Venha, se deite.

Os corpos flutuam no luar, na música das vagas. Lua, estrelas, mar, os mesmos do passado, iguais. Que importam idade, parentesco, batina de seminarista? Uma mulher, um homem, eternos. Aqui, nas dunas, chiba em cio, um dia distante ela começou. Tieta toca seu princípio. Hoje, cabra de ubre farto, cansada do bode Inácio, defloradora de cabritos.

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