Tieta do Agreste
Segundo episódio
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
Elisa veio encontrá-las na agência, muito excitada, querendo saber se dona Carmosina estava a par do acontecido entre Osnar e dr. Caio Vilasboas; na véspera Astério a acordara para lhe contar o escabroso diálogo. Esse Osnar não passa de um patife, não respeita ninguém: afinal dr. Caio é médico, possui terras e rebanhos, é compadre da Senhora de Sant’Ana, madrinha de sua filha Ana, cidadão de idade, devoto e respeitável. Dona Carmosina está a par, é claro. Aminthas, testemunha do encontro, amanhecera em casa de dona Milu; relatara palavra por palavra, a conversação na madrugada. Pois bem, de tudo o que Osnar dissera, nada se compara, na opinião de dona Carmosina, ao deboche final, pois esse dr. Caio é santo de pau oco, minha filha, por fora senhor são Bento, por dentro pão bolorento. Osnar é um porreta, de quando em quando lava a alma da gente.
Tieta interrompe a discussão, curiosa de saber de que conversa se trata, capaz de causar tanto riso, de provocar indignação e entusiasmo.
Dona Carmosina não se faz de rogada, capricha nos detalhes. Sucedera há dois dias, naquela noite em que Osnar e Aminthas ficaram até tarde em casa de Perpétua, saindo depois a mariscar nas ruas. Altas horas, quando voltavam da beira do rio, Osnar acompanhado de uma quenga de baixa extração, encontraram-se com o dr. Caio Vilasboas, um catão, vindo de atender à velha dona Raimunda, asmática incurável. Fosse algum pobre de Deus agonizando, o doutor não abandonaria o calor da cama, mas a velha dona Raimunda tinha dinheiro grosso, destinado em testamento a pagar a conta do médico quando o Senhor a chamasse ao seu seio.
Ao ver Osnar despedindo-se da esfarrapada criatura, medonhosa, dr. Caio, psicólogo amador, abelhudo de nascença, não se conteve:
— Satisfaça-me, caro Osnar, a curiosidade, respondendo a uma pergunta que me permito fazer-lhe.
— Mande brasa, meu doutor, sou seu criado às ordens.
— Você é um rapaz endinheirado, já meio entrado em anos mas sendo solteiro ainda passa por rapaz, de boa família, com hábitos de asseio, tendo com que pagar cortesã de melhor nível, por que não freqüenta a casa dirigida pela rapariga que atende por Zuleika Cinderela, onde, segundo me consta — lá estive no exercício sagrado da medicina e não como cliente —, praticam esse infame comércio mulheres limpas, de belo porte e figura amena, por que prefere essas imundas, essas bruxas?
— Primeiro permita, meu doutor, que eu lhe informe ser um dos fregueses prediletos das meninas da casa de Zuleika e da própria patroa, boa de rabo. Parte sensível de minha renda se esvai naquele antro. É certo, porém, que não desprezo um bucho quando saio de caçada, vez por outra. Alguns, devo confessar, bastante deteriorados.
— E por quê? Deixe que eu lhe diga tratar-se de apaixonante problema de psicologia, digno de memória dirigida à Sociedade de Medicina Psiquiátrica.
— Vou lhe dizer por que, meu doutor, e escreva a razão se quiser, não me oponho. Se chamo um bucho aos peitos quando calha, o motivo é não viciar o pau, o Padre-Mestre.
— Padre-Mestre?
— Foi o apelido que ele ganhou, dado por uma beata ainda passável com quem andei praticando umas sacanagens, meu doutor. Imagine se eu servisse ao Padre-Mestre somente pitéus finos, material de primeira, formosuras, perfumarias, e ele se acostumasse a comer apenas do bom e do melhor. De repente, um dia, por uma circunstância qualquer, dessas que acontecem quando a gente menos espera, me vejo obrigado a pegar um estrepe em más condições e o Padre-Mestre, viciado, se recusa, fica pururuca, brocha. Não lhe dou vício, vou comendo as bonitas e as feias e tem cada feia que vale mais do que um exército de bonitas porque uma coisa, meu doutor, é mulher para se ver e admirar a imagem e outra é o gosto da boceta.
Dr. Caio emudece, o queixo caído, Osnar conclui:
— De suas visitas profissionais à pensão de Zuleika, meu doutor, ouvi falar; Silvia Sabiá me contou muito em segredo que chuparino igual a vosmicê não há por essas bandas. Meus sinceros parabéns.
Enquanto riem as quatro — esse Osnar é de morte! —, buzina na curva a marinete, naquela quinta-feira por milagre quase no horário, desprezível atraso de vinte minutos, Jairo recebendo felicitações dos passageiros. Tieta, Leonora e Elisa preparam-se para ir ao encontro de Ascânio, mas ele salta à frente de todos e se afasta no caminho de casa, em marcha batida.
— Vai tomar banho. Depois de viajar na marinete de Jairo, ninguém pode fazer nada antes de gastar água e sabão. Muito menos ver a criatura dos seus sonhos… — esclarece dona Carmosina: — Daqui a pouco bate por aqui.
Demoram-se na agência dos Correios, à espera. Aminthas vem juntar-se ao grupo, comentam o diálogo já agora histórico. Aminthas acrescenta o detalhe final: dr. Caio lívido na madrugada, querendo falar sem poder, os olhos fuzilando. Osnar e ele, Aminthas, saíram de mansinho, não fosse o médico ter um ataque de apoplexia.
O tempo passa, Barbozinha surge, traz uma rosa na mão, uma rosa-chá. Ao ver Tieta estende-lhe a flor:
— Colhi para você no jardim de dona Milu, ia levá-la à casa de Perpétua mas os meus guias dirigiram-me os passos para aqui. Pena não ter mais três, para homenagear todas as presentes.
— E Ascânio? Vai aparecer ou não? — interroga Elisa, cansada de esperar.
Leonora, a criatura dos sonhos de Ascânio, na opinião de dona Carmosina, aguarda em silêncio, os olhos postos na rua. Nem sinal de secretário da prefeitura, de cavaleiro andante, limpo ou empoeirado. O jeito é mandar chamar. O moleque Sabino, requisitado, abandona a sorveteria, vai correndo com o recado para Ascânio: esperam-no impacientes na agência dos Correios, venha rápido. Para matar o tempo, vão tomar sorvete de cajá, servido pelo próprio árabe. Amanhã será de pitanga, difícil saber qual o mais gostoso. Voltem para comparar e decidir.
Finalmente desponta na esquina o cavaleiro andante, o passo lento, a face descomposta, Cavaleiro da Triste Figura. Mesmo antes dele subir o degrau da porta da agência dos Correios todos se dão conta da derrota do campeão de Agreste na batalha travada em Paulo Afonso. Os destroços do guerreiro, o fracasso da missão, o rosto em luto, sepulcral.
— Negativo, não foi? — pergunta Aminthas. — Eu avisei. Não havia nenhuma possibilidade. Ainda bem que o motor vai agüentando: quando pifar, voltaremos ao fifó.
— Não se importe — disse Leonora. — Você fez o que pôde. Cumpriu o seu dever.
— Foi horrível, humilhante. O diretor da companhia, o que fica permanente em Paulo Afonso, nem queria me receber. Tive que pedir e suplicar, por fim me atendeu. Nem comecei a expor, me cortou a palavra. Não podia perder tempo, esse assunto de Agreste estava encerrado, não havendo nenhuma possibilidade de instalação de luz da usina no município. A prefeitura não recebeu o memorando, negando o pedido? Então? Não adiantava falar com os técnicos, Agreste tem de esperar sua vez e não vai ser tão cedo, daqui a alguns anos, quando levarmos força e luz aos últimos recantos dos estados servidos pela hidrelétrica. Agora, impossível, meu caro. Não adianta argumentos, deixe-me trabalhar, meu tempo é precioso.
Ascânio suspende o relato, abana as mãos. Onde o entusiasmo, o ânimo de luta? Evaporaram-se, rolaram na cachoeira, esmagados pelo diretor da companhia.
— No fim, ainda me gozou: tem uma única maneira, disse. Obtenha uma ordem do presidente da Companhia do Vale do São Francisco, do presidente, não de um diretor igual a mim, mandando instalar luz em Agreste e no dia seguinte lá estaremos. Passe bem. Riu e me voltou as costas.
Um silêncio pesado cai sobre a agência dos Correios. A primeira a abrir a boca, dona Carmosina:
— Filho-da-mãe! É por isso que eu sou contra essa gente.
Leonora aproxima-se de Ascânio:
— Não se aflija tanto, tudo no mundo tem jeito. — Os doces olhos plenos de ternura.
Tieta levanta-se da cadeira onde ouvira em silêncio:
— Quem é o presidente, Ascânio, e o que é mesmo essa tal companhia! Me ilumine o pensamento.
Ascânio, ainda sem graça, deprimido, explica o que é a Companhia do Vale do São Francisco, a importância da hidrelétrica de Paulo Afonso, termina citando o nome do deputado que exerce a presidência da grande empresa estatal, aquele que manda e decide, o único a poder modificar planos estabelecidos. Mas, como atingi-lo? Impossível. Quem tem razão é Aminthas: mais do que importância econômica, falta a Agreste o prestígio de um grande chefe, alguém cujo pedido seja uma ordem.
Tieta repete o nome do deputado:
— Já ouvi falar mas não conheço pessoalmente. Mas, em São Paulo, não tem político importante com quem eu não me dê — esclarece. — Todos amigos de Felipe, todos freqüentam minha casa. Carmô, Ascânio, me ajudem a redigir um telegrama. Ou melhor, dois.
Pronuncia nomes ilustres, mandachuvas em São Paulo e no país. Dona Carmosina escreve. Tieta pede-lhes que intervenham em favor de Agreste junto ao presidente da Companhia do Vale do São Francisco, seguem-se as razões detalhadas por Ascânio mas a principal é o interesse de Antonieta, o favor que lhe farão e ela ficará devendo.
— Telegrama enorme — observa dona Carmosina. — Vai custar uma nota.
— A prefeitura paga — adianta-se Ascânio.
— Quem paga sou eu, meu filho, que estou enviando. Carmô, assine Tieta do Agreste. Os amigos mais íntimos me tratam assim, era como Felipe gostava de me chamar.
Ainda não haviam retornado à casa de Perpétua e já a notícia dos telegramas abalava a cidade — dona Antonieta Esteves Cantarelli telegrafara a um senador paulista e ao próprio dr. Ademar, amigos do peito do falecido comendador, pedindo a instalação em Agreste da luz de Paulo Afonso. Os comentários cívicos cobrem os ecos do fescenino diálogo sobre os hábitos sexuais de Osnar; se as mensagens telegráficas não resultarem em iluminação feérica, já terão servido à moral pública. Sucedem-se as hipóteses: possui a viúva realmente tanto prestígio, conhece, trata, é íntima de senadores e governadores ou apenas está fazendo farol? Qual o resultado: luz ou trevas? Até apostas são feitas. Fidélio bota dinheiro no sucesso, Aminthas continua pessimista, por que esses lordes de São Paulo hão de se mover por Agreste, o cu-do-mundo? Dobro a aposta, Fidélio.
Por quê? Tieta poderia responder que se moverão exatamente por serem lordes e por ela ser Tieta do Agreste.
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DO PASSEIO NA FEIRA COM
O ANÚNCIO DO PRÓXIMO FIM DO MUNDO, CAPÍTULO DE PROFECIAS
A FEIRA DE AGRESTE É UMA FESTA SEMANAL. NO
PRIMEIRO SÁBADO APÓS A chegada das paulistas, transformou-se num festival, em regozijo público, por pouco termina em fuzuê.
Após a missa pela alma do comendador, Tieta e Leonora passam em casa para trocar de roupa: ninguém agüenta fazer feira com vestidos negros, pesados, elas nem sabem por que milagre os puseram na mala. A comitiva inclui Elisa, Barbozinha, Ascânio Trindade, Osnar. O velho Zé Esteves, paletó no braço, bastão e esposa, faz-lhes companhia até a praça do Mercado (praça Coronel Francisco Trindade), de onde a feira se estende pelas ruas vizinhas. Ali se despede, à tarde irá buscar Tieta para correrem duas casas à venda, entre as muitas oferecidas, as únicas convenientes.
Perpétua agradece o convite, não aceita. Vai à feira cedo, acompanhada por Peto a carregar as cestas. Dia de feira, dia dos mendigos: Perpétua passa o resto das manhãs de sábado em casa, distribuindo esmolas, mercadejando com Deus um lugar no paraíso em troca da caridade hebdomadária. Em cada uma das casas das ruas principais, durante a semana, as famílias guardam as sobras de pão, as bolachas envelhecidas, restos de comida da véspera, frutas amassadas, algumas moedas, para a multidão de esmoleres a invadir a cidade, vindos quem sabe de onde. Seu Agostinho da padaria fornece por preço de ocasião sacos cheios de pães dormidos, duros como pedras, de bolachões moles, de bolos mofados, filantropia a preço módico. Quem dá aos pobres empresta a Deus. Com juros altos, bom emprego de capital.
Alguns pedintes são fixos em Agreste, passam diariamente pela manhã ou ao cair da tarde, possuem freguesia certa. O cego Cristóvão senta-se na escadaria da igreja na hora da missa chova ou faça sol e ali se demora de mão estendida, a recitar sua litania. O beato Possidônio, somente aos sábados e na feira. Vem de Rocinha, sob o queixo a barba rala de profeta caboclo, sem dentes e boca de praga; traz um caixote de querosene, vazio, e uma cuia de queijo. Prega nas proximidades do local onde ficam os vendedores de pássaros, trepado no caixote, a cuia ao lado para as esmolas — só aceita dinheiro. Estende-se em nebulosa lengalenga sobre os pecados dos homens; anuncia desgraças aos montes, profeta de um Deus terrível, vingativo, cruel. Cita os evangelhos, condena protestantes e maçons, proclama a santidade do padre Cícero Romão. Basta enxergar uma mulher mais pintada, ergue-se a insultá-la, destinando-a às chamas eternas.
A voz esganiçada, Perpétua queixa-se dos mendigos a Antonieta, fala deles como de inimigos: cada vez mais ousados e exigentes, o exercício da caridade transforma-se em sacrifício:
— Não aceitam nem mangas nem cajus, dizem que ninguém compra, que tem demais, manga não é esmola que se dê, já viu? Mesmo banana, torcem a cara. Não tem um trocado? Querem dinheiro. Outro dia um me chamou de canguinha.
Na feira, montes de frutas se sucedem, muitas delas Leonora não conhece; bate palmas, encantada. Que goiabinhas pequenas! Não são goiabas, são araçás, araçá-mirim, araçá-cagão. Com elas se faz o doce que comemos em casa de Elisa. As goiabas estão aqui: vermelhas e brancas. Comparadas às goiabas dos japoneses de São Paulo, são pequenas, mas sinta o gosto, meça a diferença. Melhor ainda se estiver bichada. Cajus, não há fruta igual para a saúde. A não ser jenipapo, que cura até doença do peito. Você precisa comer jenipapada para ficar forte. E o gosto? Para mim, não há nada mais gostoso. Vamos comprar agora mesmo; o jenipapo quanto mais encarquilhado melhor. Tieta escolhe, conhecedora. Mangabas, cajás, cajaranas, umbus, pitangas. Os mendigos têm razão ao recusar esmolas de manga, sobram pela feira, as cores de aquarela, as variedades numerosas: rosa, espada, carlota, coração-de-boi, coração-magoado, itiúba, tantas. As jacas, duras e moles, descomunais, das talhadas expostas sobe um odor de mel. Que fruta é essa que parece pinha? Condessa. E essa maior? Jaca-de-pobre, o sorvete é sublime. Leonora quer ver de perto, quer tocá-la. Curva-se, exibe a calçola diminuta sob a minissaia. Júbilo geral.
Quando a viu de minissaia, Ascânio pensou desaconselhar o traje na visita à feira mas temeu passar por tabaréu, por retrógrado, calou-se. Agora é ir em frente, buscando não ver e não escutar. Difícil, pois a animação aumenta.
Nunca a feira de Agreste conheceu pagodeira igual. Barbozinha, entretido a explicar a Tieta problemas de desencarnação e reencarnação, da vida no astral, assuntos em que é professor emérito, não se dá conta do sucesso, mas Ascânio Trindade aflige-se com tamanho atraso, indeciso sobre a maneira de agir. Aflito apenas? Ou sofre também ao ver expostas ao público aquelas formosuras que deseja exclusivas, reservadas a quem conduza ao altar a inocente Leonora Cantarelli? Inocente de todo mal, não imaginara o escândalo que provocaria indo à feira vestida de minissaia, moda banal no sul do país e no estrangeiro. Nas páginas coloridas das revistas, Ascânio admirou minissaias bem mais ousadas, a de Leonora até que lhe encobre a bunda se ela se mantém a prumo.
— É melhor que ela se curve menos — sussurra Osnar a Ascânio.
Nem Osnar, um cínico, se anima a aconselhar a cândida vítima da ignorância local, quanto mais Ascânio. Prossegue o passeio pela feira arrancando exclamações de Leonora e do bando de moleques a seguir a comitiva. De quando em vez um assovio, uma interjeição, uma frase em língua de sotaque:
— Espia, Manu, o andor da procissão está passando…
Sacos de alva, olorosa farinha de mandioca, torrada em casas de farinha da região; a puba, a tapioca, os beijus. Prove, Leonora. Com café são ótimos, vamos comprar. Esses molhados levam leite de coco, não há quem resista, vou engordar como uma porca. Mas que é isso, meu Deus, essa meninada a segui-los? Antonieta contempla o ajuntamento.
Não só meninos, homens-feitos também, bando de ordinários. É a minissaia de Leonora, figurino inédito em Agreste. Antonieta olha para Ascânio, para Osnar, eles fingem não se dar conta da corja em zombaria. Barbozinha está reencarnado pela sexta vez, em longínqua galáxia. As mãos nas cadeiras, à maneira das feirantes, Tieta fita o animado rebanho. O olhar da ricaça de São Paulo — ou o olhar da pastora de cabras? —, entre severo e pícaro, dissolve o cortejo, restam apenas alguns moleques, admiradores mais renitentes. Ascânio respira, Osnar aprova. Para dizer a verdade, o que mais incomoda a Ascânio é a presença de Osnar, o olhar de verruma, a expressão de beatitude.
Duas cadeiras de barbeiro ao ar livre, ocupadas ambas, e o trovador Claudionor das Virgens a declamar os versos do folheto de cordel:
Três vezes já casei
Com branca, preta, mulata
No padre, no juiz, na mata
Pela quarta casarei
Por ordem do delegado
Pra deixar de ser ousado.
Cala-se a voz do trovador Das Virgens à passagem da comitiva. A minissaia o inspira, improvisa:
Quem me dera casar com Aurora
Que passa de cu de fora.
— É isso que você come em casa no café da manhã — Tieta aponta as raízes de aipim, de inhame, as batatas-doces. A verde fruta-pão.
Elisa, inquieta, a constatar novo crescimento do grupo de basbaques, convida:
— Vamos indo para casa? Estou morrendo de calor.
Verdade, aliás. Não trocara de roupa, está com o vestido negro posto para a missa, fechado no pescoço, o contrário de Leonora. O que mais aflige Elisa? Os moleques, os assovios, o deboche do trovador, a falta de respeito, o achincalhe ou o sucesso da paulista?
— Ascânio prometeu me levar para ver os passarinhos… — doce pipilar de Leonora.
A procissão engrossa, enquanto rumam para a feira de passarinhos — os pássaros sofrê, os pássaros pintores, os pássaros negros, os cardeais, os azulões, os canários-da-terra, papagaios e periquitos e uma araponga a malhar o ferro com seu grito de bigorna. Leonora irradia felicidade, o acompanhamento toma aspecto de comício, com risos, dichotes, pregões.
— Acho melhor a gente ir andando — insiste Elisa.
— Só um minuto mais. Olhe esse, que amor!
— É um pássaro sofrê, imita todos os passarinhos. Ouça. — Ascânio assovia, a ave responde.
Da turba em gozação, outros assovios, acanalhados. Fi-ti-ó-fó, vaia também o passarinho. Rindo, a pitar o cigarro de palha, solerte, Osnar avança em direção aos pândegos, agarra um molecote pela orelha, os demais recuam em correria, explodem em apupos, a troça se estende pela feira.
Ali perto, em cima do caixão de querosene, a cuia ao lado, o profeta Possidônio proclama o iminente fim do mundo, anunciado pela aparição de objetos luminosos em Mangue Seco, ígneas naves de gás conduzindo arcanjos enviados por Deus para escolher e marcar os locais onde se erguerão as fogueiras de enxofre sobrenatural, fabricado nas caldeiras do inferno para consumir o mundo entregue à devassidão, à orgia, à luxúria.
De costas para a cara do ascético beato, curva-se Leonora, oferecendo o dedo a um papagaio manso e falador — diz bom-dia, pede a bênção, fecha um olho, cômico. O beato Possidônio, por mais erudito em matéria de iniqüidade humana, de depravação, de impudicícias, jamais vira, com seus olhos queimados pelo sol do sertão, tal desregramento, tamanha imoralidade. O excitante traseiro de Leonora, praticamente nu, obra-prima de Satanás, aplaudido pela súcia de condenados, coloca-se diante das místicas ventas do profeta, provocação monstruosa!
— Arreda! Sai de minha frente, volta para as profundas do inferno, mulher imunda, pecadora, rameira!
Indignado, Ascânio marcha para o beato Possidônio:
— Cala a boca, maluco!
Mas Tieta o detém, segura-lhe o braço, diverte-se às pamparras.
— Deixa o velho, Ascânio. É a minissaia de Leonora.
— Hein? A minissaia… — Leonora não sabe se ri ou chora. — Não me diga, nunca pensei… — dirige-se a Ascânio. — Nunca me passou pela cabeça. Desculpe.
— Quem tem de pedir desculpas sou eu, pelo atraso do povo. Um dia vai mudar. — No fundo, nem ele próprio tem certeza. Mudança tão incerta quanto o fim do mundo do sermão de Possidônio.
Deixam para outro passeio boa parte da feira: as carnes-de-sol, os guaiamus, os potes e moringas, as figuras de barro, o caldo de cana extraído em primitivas prensas de madeira, tão sujo e tão delicioso. O beato continua a vociferar enquanto eles partem. Tieta a rir do acontecido, e logo a pedir a Osnar que lhe conte a célebre história da polaca, sobre a qual Carmosina lhe falara. Alguns moleques ainda os acompanham pela rua.
A notícia os precedeu, chegou ao bar e ao adro da igreja, um alvoroço para vê-los passar. Leonora anda o mais depressa possível, nunca pensara desencadear o fim do mundo.
— Está próximo, sim, tive aviso e confirmação, posso assegurar — esclarece Barbozinha a par dos segredos dos deuses e da loucura dos homens. — Vai ser uma explosão atômica colossal. Todas as bombas atômicas existentes, as americanas, as russas, as francesas, as inglesas, as chinesas — os chineses estão fabricando na surdina, tenho informações recentes — vão explodir ao mesmo tempo, às três horas da tarde de um dia 1º de janeiro. Não digo o ano para não alarmar ninguém.
BREVE ESCLARECIMENTO DO AUTOR
SOBRE PROFECIAS E ENXOFRE
HOUVE QUEM QUISESSE DESCOBRIR NA ARENGA DO
BEATO POSSIDÔNIO SOBRE o próximo e inevitável fim do mundo referências proféticas à indústria de dióxido de titânio. Quando, por exemplo, o iluminado aludiu ao enxofre procedente dos infernos para destruir a terra e a humanidade não citou claramente os objetos não identificados, vistos em Mangue Seco? Naves de gás?
Conotações existem, não há dúvida. Em tempos de tanto misticismo, o melhor é não negar nem discutir. Os profetas multiplicam-se, exibem-se no rádio e na televisão. Ao contrário do beato Possidônio, não se contentam com escassa esmola. O beato Possidônio é profeta antigo, produto semifeudal, perdido no sertão, ainda não percebeu as maravilhas da sociedade de consumo. Não se dá conta de que nas minissaias lavamos a vista condenada à cegueira pela poluição. Quanto ao enxofre, é produzido nos Estados Unidos, nação privilegiada, não se faz necessário importá-lo dos infernos.
DE PEDINTES E ABUSOS, DE AMBIÇÕES — CAPÍTULO DE MESQUINHOS INTERESSES
ALEGRE ALVOROÇO, NA FEIRA E EM TODO O BURGO,
nascido da presença em Agreste de Tieta e da enteada, formosa e virginal. Tão meiga, lembra a Ricardo a noiva predileta do Senhor, santa Terezinha do Menino Jesus, apesar da minissaia, do transparente cafetã e dos shorts ousados. Mesmo acompanhando as indecentes modas atuais, percebe-se na suave Leonora o odor da castidade, o encanto da inocência.
Após o passeio na feira, Elisa ameaçara vestir a minissaia trazida por Tieta, em solidariedade e em desagravo a Leonora — ou em competição? Astério se opôs, contou com o apoio de Perpétua:
— Podem me chamar de atrasada; sou contra, pelo menos aqui. Em São Paulo, pode ser. Aqui o povo não aceita, acha imoral. Eu também, para ser franca. — A voz esganiçada, estridente, soprando as labaredas do inferno.
— Por mim, dona Perpétua, fique descansada. Nunca mais uso. Não quero ser responsável pelo fim do mundo — promete a mansa Leonora num fugaz sorriso.
— Não estou lhe censurando, sobrinha, você não teve culpa.
Não deseja ofender a querida parenta, sobrinha por adoção. Sobrinha, sim, pois enteada da irmã, filha do cunhado industrial e comendador do papa, herdeira rica. Pena os meninos serem tão novos; quem está rondando a bolada é Ascânio, não parecia tão esperto.
— Sei que você não fez por mal, sua boba. Em São Paulo, nos Estados Unidos, nessas terras onde só tem protestante, não digo nada. Mas aqui ainda se cumpre a lei de Deus.
Conversa aparentemente sem conseqüência mas, por detrás da alegria a rodear Tieta existem esperanças, planos, alguns audazes. Reunido em torno à filha pródiga, o clã dos Esteves se desdobra em bajulação às paulistas, escondendo sob o manto da paz familiar uma efervescência de inconfessáveis ambições, de furtivas diligências. Entreolham-se, com suspeita, uns aos outros.
No correr da semana, sucederam-se as visitas, uma romaria. Os importantes do lugar, comerciantes, colegas de Astério, a professora Carlota, seu Edmundo Ribeiro, coletor, Chico Sobrinho com a esposa Rita, por coincidência acompanhados por Lindolfo Araújo, tesoureiro da prefeitura e galã — um dia ainda se enche de coragem e irá tentar a vitória num programa de calouros na televisão, em Salvador. Vieram o dr. Caio Vilasboas, circunspecto, falando difícil, metade médico, metade fazendeiro, se fosse viver de clínica em Agreste terminaria pedindo esmola aos sábados, e o coronel Artur da Tapitanga que demorou a tarde inteira conversando. Conhecia Tieta de quando ela, meninota, pastoreava as cabras do pai, em terras vizinhas às suas, aliás hoje suas, compradas a Zé Esteves. Fez elogios à beleza de Leonora: parece com uma estatueta de biscuit que antigamente tinha na casa-grande, quebrou-se. Fosse ele ainda jovem, na sustança dos setenta, e lhe proporia casamento, mas aos oitenta e seis não quer correr o risco. Por mais honesta que a moça seja, há perigo de chifre. Ria numa catarreira grossa, puxando a fumaça do charuto. Único a faltar, o prefeito da cidade, Mauritônio Dantas, ausência explicada por Ascânio Trindade por ocasião do desembarque: o digno mandatário vive confinado em casa, de miolo mole desde a deserção da esposa, Dona Amélia de apelido Mel, ativíssima militante da revolução sexual.
Os pobres, inumeráveis, vêm a qualquer hora, não passam da sala de jantar; a de visitas, Perpétua reserva aos graúdos. Cada pobre, uma história triste, uma súplica, um pedido. A fama da riqueza e da generosidade de Tieta alastra-se como erva ruim, veleja nas águas do rio, viaja nos lombos dos burros, alcança as fronteiras de Sergipe. Perpétua franze a testa, não tolera abusos nem esbanjamento.
— Não posso ver ninguém necessitado, passando fome — declara Tieta. — Sei o que é precisão, dói em minha carne.
Perpétua, apesar da chaleirice, não se contém:
— Não digo que não ajude um ou outro infeliz. Margarida, que o marido largou na cama, de barriga aberta, vá lá, não pode trabalhar. Calo minha boca. Mas David, um batoteiro, cabra ruim que nunca pegou no pesado, não merece esmola. Só sabe beber cachaça e roncar na beira do rio. É até pecado ajudar a preguiça, a vagabundagem. O melhor benefício que se pode prestar a essa gente é rezar por eles, pedir a Deus que lhes indique o bom caminho. Quem mais pratica a caridade sou eu: rezo por eles todas as noites. Ainda ontem você deu dinheiro a Didinha. Uma perdida, com aquele renque de filhos, cada um de um pai e ainda por cima ladrona. Dona Aída teve pena, tomou de empregada, pegou roubando na despensa…
— Feijão para dar aos filhos, Perpétua, tenha piedade. Havia de deixar os pobrezinhos morrerem de fome?
— Não os tivesse. Na hora de deitar com o primeiro que aparece, não pensa no futuro, só na descaração, Deus me perdoe — a voz sibilina em nojo e reprovação.
— Nessa hora, Perpétua, ninguém pensa em nada, não é? Não dá mesmo… — ri Antonieta. — Você foi casada, sabe disso, não sabe? — espia a irmã, um sorriso de galhofa.
— O dinheiro é seu, você faz com ele o que quiser, não tenho nada com isso. Mas que me dá pena esse desperdício, me dá, não nego.
— Lá isso é, minha filha. Uns aproveitadores. Sabem de seu bom coração, abusam. Por mim, metia todos eles na cadeia, é o que merecem. — Zé Esteves, por uma vez, de acordo com Perpétua.
Todas as manhãs o velho passa para botar a bênção à filha pródiga: Deus te abençoe e te aumente, minha filha. Resmunga um Deus te dê a bênção para Perpétua, outro para Elisa, se a mais moça está presente. Relanceia o olhar pela sala onde conversam — numa rede na varanda, Leonora escuta os trinados do pássaro sofrê oferecido por Ascânio. Zé Esteves pousa o olhar em Perpétua, em Elisa, prossegue:
— Só querem lhe explorar. Todos. Sem exceção. Tome tento. Se você continuar de mão aberta, roubam tudo. — Refere-se aos pedintes? Os olhos em Perpétua, em Elisa, masca o naco de fumo de corda. — Não está vendo dona Zulmira, toda devota, vive na igreja papando hóstia. Na hora de dizer quanto quer pela casa, como é para você pede um absurdo. Quem falou certo foi Modesto Pires: um roubo. Essa gente que vive metida na igreja…
Perpétua faz que não ouve, contida pela presença de Tieta. O velho está pondo as manguinhas de fora, pela vontade dele a filha rica não ajudaria sequer as irmãs, os sobrinhos. Velho ruim como a necessidade. Vive agora na perspectiva da mudança para casa confortável em rua decente, a ser adquirida por Tieta para os dias da velhice. Enquanto ela não vier, Zé Esteves e Tonha desfrutarão sozinhos, isso já está assentado. Não será tão breve que Antonieta, guapa, transbordante de vida, deixará o fausto de São Paulo para enterrar-se em Agreste. É muito mulher para casar de novo e aí então não virá nunca.
Nesse caso Zé Esteves ficará de dono, refestelado, de papo para o ar, com criada para cuidar da casa, mesada larga, tendo de um tudo, na vida que encomendou a Deus. Fazendo economia, pode até pensar em adquirir um pedacinho de terra e um par de cabras e recomeçar a criação. No mundo, não há coisa melhor e mais bonita do que um rebanho de cabras nos oiteiros.
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TIETA NO MUNDO DOS NEGÓCIOS
IMOBILIÁRIOS
FOI O DONO DO CURTUME QUEM CHAMOU A ATENÇÃO de
Tieta para a casa de dona Zulmira.
De braço com a esposa, dona Aída, Modesto Pires visitara a badalada conterrânea logo no dia seguinte ao desembarque, apressado em conhecer melhor a emitente dos cheques mensais que ele descontava. Guardava vaga lembrança da molecota a pastorear cabras, namoradeira, expulsa de casa pelo pai, regressando agora viúva e rica. Admirou-lhe as carnes e a imponência, o requinte da peruca acaju, a saia aberta de um lado, refinamentos devidos à posição social e ao trato de São Paulo. Comparou-a com Carol, dois pancadões de mulher, diferentes uma da outra, mas ambas fartas, densas, desejáveis, mulheres para a cama.
Acompanhada de Leonora e de Ricardo — de batina — Tieta, dias depois, paga a visita. Modesto e dona Aída a recebem e tratam nas palmas das mãos: licor de jenipapo, bolo de milho, doce de banana em rodinhas, confeitos e bolachas de goma. Dona Aída, esconda essas tentações, estou engordando a olhos vistos, vou virar uma baleia. Que nada, a senhora está ótima. Leonora regala-se com o doce de banana em rodinhas, Tieta promete:
— Depois lhe digo como chamam esse doce aqui…
Risos na sala. Modesto Pires comporta-se como homem do mundo, liberal:
— Se quiser dizer, não se acanhe, dona Antonieta. Aída e o padrezinho tapam os ouvidos.
— Maluquice minha, sou uma estouvada. Me desculpe, dona Aída. O que quero pedir ao senhor, seu Modesto, é um conselho.
Homem rico, importante plantador de mandioca em Rocinha, criador de cabras e ovelhas, proprietário do curtume, de terras a perder de vista, na beira do rio, nas imediações de Mangue Seco, de várias casas de aluguel, entre as quais aquela onde Elisa reside, ninguém melhor do que Modesto Pires para aconselhar sobre casas e terrenos.
— Quanto a terreno em Mangue Seco, se desejar, eu mesmo posso lhe servir. Boa parte daquela área de coqueiral me pertence. Temos lá uma casa de veraneio, para receber os netos, só que não vêm.
Dona Aída não esconde a mágoa: apenas a filha mais velha, casada na Bahia com um engenheiro da Petrobras, aparece nas férias e traz os dois meninos. O filho, médico no interior de São Paulo, sócio de uma casa de saúde, casado com paulista, promete muito, nunca se decide. Tampouco a filha mais nova; vive em Curitiba, o marido é paranaense, empresário, construtor de imóveis. Para ver filhos e netos dona Aída tem de viajar, tomar o avião em Salvador, morre de medo. Antonieta simpatiza com a queixosa:
— A vida no sul é muito absorvente, ninguém tem tempo para nada. É por isso que quero comprar casa aqui e terreno na praia.
Ali mesmo acertaram os detalhes sobre o lote em Mangue Seco, vizinho ao do comandante Dário, adquirido também a Modesto Pires. Depende dela ver e gostar, naturalmente.
— Vai adorar, o lugar é lindo e está a salvo da chuva de areia. De lá para as dunas, um pulo, uma caminhadinha a pé, boa para manter a forma.
— É bonito, sim — confirma dona Aída. — Tomara que a senhora venha sempre, assim aumenta nossa colônia de veraneio. Daqui a uns dias estaremos lá. Logo que Marta e Pedro cheguem. — Refere-se à filha e ao genro engenheiro.
— Nós iremos com o comandante, neste fim de semana. Estou contando as horas. Faz para mais de vinte e seis anos que não vejo a praia de Mangue Seco.
Modesto Pires informa:
— Quanto à casa na cidade, sei que dona Zulmira quer vender a dela, até já mandou me oferecer. Não me interessei, comprar casa de aluguel em Agreste é comprar consumição. Os aluguéis são baixos, as casas sempre precisando de conserto, o pagamento atrasa. Tenho algumas, vivo me amofinando com elas. Mas essa casa de dona Zulmira vale a pena. Construção boa, terreno plantado. Ela quer se desfazer para dar o dinheiro à igreja. Tem medo que o sobrinho, se ela morrer, faça como os parentes do finado Lito que botaram causa na justiça, contestando o testamento pelo qual ele deixou tudo que tinha para o padre dizer missa. Não sei a conselho de quem, dona Zulmira resolveu vender a casa e dar logo o dinheiro à Senhora Sant’Ana. A velhinha só ocupa um pedaço da residência: um quarto, a cozinha e o banheiro, o resto trancado, se estragando.
— Onde ela vai morar?
— Tem uma casinha pequena, desalugada. Vai morar lá.
— E quanto ela está pedindo, o senhor sabe?
— Já lhe digo. — Modesto Pires vai em busca da pasta, retira um papel. — Está aqui a quantia, escrita pela mão dela.
— Barato, não é?
— Para a senhora, talvez. Para Agreste, razoável. Não digo que seja caro mas casa aqui não tem valor. Passe na rua e veja quantas ao abandono, em ruínas. Como diz minha filha Teresa, a que mora em Curitiba, Agreste é um cemitério.
— Um cemitério? Se Agreste, com esse clima, essa fartura de frutas e peixes, essa água santa, é um cemitério, o que se há de dizer de São Paulo?
— São Paulo, dona Antonieta, é uma grandeza, com aquele parque industrial, aquele movimento, aqueles edifícios, uma potência. Que idéia a sua, comparar Agreste com São Paulo.
— Não estou comparando, seu Modesto. Para quem quer ganhar dinheiro, São Paulo é a cidade ideal. Mas para viver, para descansar, gozar de um pouco de sossego, quando a gente cansou de trabalhar e de ganhar dinheiro…
— E tem quem se canse de ganhar dinheiro? Me diga, dona Antonieta? Não sei de ninguém.
— Tem, sim, seu Modesto. — Tieta pensa em madame Georgette passando o negócio adiante, embarcando para a França, no auge dos lucros.
— Pois eu não acredito, me perdoe. — Muda de assunto. — Soube que a senhora mandou telegramas para São Paulo pedindo que a hidrelétrica nos forneça luz.
— Telegrafei para dois amigos de meu finado marido que me consideram. Pode ser que dê resultado.
— Deus permita. Estão falando por aí que um dos dois foi o doutor Ademar, será verdade?
— É, sim, dou-me muito com ele, lhe arranjei uns votos na última eleição. Felipe não votava nele, coisas de paulista metido a nobre. Mas se davam bem e comigo ele sempre foi muito atencioso.
— Para mim — sentenciou o dono do curtume — é um grande homem. Rouba mas faz. Se todos fizessem como ele, seríamos rivais dos Estados Unidos. Não pensa assim, dona Antonieta?
— Nessas trincas de política, sou ignorante, seu Modesto. Lhe digo apenas que grande coisa é ter amigos. Felizmente, eu tenho.
— Se a senhora conseguir a luz da hidrelétrica, o povo vai lhe entronizar no altar-mor da matriz, junto com a Senhora Sant’Ana.
Idéia tão estapafúrdia, Antonieta riu às gargalhadas.
ONDE TIETA RECUSA A PROPOSTA DE
DONA ZULMIRA E EM TROCA VÊ
UMA PROPOSTA SUA VETADA PELO PAI, PELO CUNHADO E POR ELISA,
ESSA POBRE ELISA
ALGUÉM, CUJO NOME NÃO IMPORTA, ACONSELHARA
DONA ZULMIRA a vender a casa e colocar o dinheiro vivo no altar necessitado da Senhora Sant’Ana, livre de contestação, garantindo-lhe o lugar no céu, à direita de Deus, entre os mais justos. Quem sabe, a mesma voz divina a aconselhou a pedir à ricaça de São Paulo o dobro do preço proposto a Modesto Pires. A bolsa de imóveis funcionando pela primeira vez em Agreste.
Se Antonieta não soubesse do preço anterior, talvez nem discutisse pois, mesmo pelo dobro, a vivenda ampla e fresca, em centro de terreno, com árvores e jardim, não lhe parece cara. Tinha, porém, horror de ser explorada, sabia o valor do dinheiro. Generosa, mas não esbanjadora. Perpétua se engana ao julgá-la. Conhecera dias podres, conserva vivo o travo da miséria. Custou-lhe esforço, habilidade, tato e malícia o que conseguiu juntar a duras penas, não pensa desperdiçar seu pé-de-meia. Com a morte de Felipe, secou-se a fonte. Recusa a proposta de dona Zulmira, oferece a quantia pedida a Modesto Pires. Não teve ainda resposta.
Em lua-de-mel com a família dá-se conta, no entanto, do encoberto interesse de cada um, da avidez maior ou menor a movê-los, apenas os sobrinhos escapam, ainda limpos, fora do círculo mesquinho onde os demais se movimentam. Mais do que os pedintes, os parentes a apoquentam.
Preocupada com o fato de Astério pagar aluguel, levantara a hipótese de, comprada a casa de dona Zulmira ou outra semelhante, igual em conforto, residirem juntos os dois casais: o pai e Tonha, Astério e Elisa. Consultou a uns e a outros, em separado.
— Não minha filha, não me obrigue a isso! — o velho bate com o cajado no chão, lança uma cusparada negra, de fumo mascado. — Elisa só pensa em modas e figurinos, o rádio naquelas alturas o dia todo. Astério, aqui pra nós, não vale um peido. Tenho que estar controlando para ele não meter a mão no dinheiro que você me manda. Se você faz questão e como não tenho outro jeito, vou morar com eles. Mas se você tem piedade de seu pai, me poupe esse desgosto. Pode ser meu fim.
Tieta termina rindo, que outra coisa pode fazer? O velho, forte, sadio, mandão, a fazer-se fraco e humilde para não viver com a filha e o genro.
— E se fosse com Perpétua, pai? Vosmicê aceitava?
— Deus me livre e guarde, minha filha! Antes a morte. Me crave logo um punhal no peito mas não me peça isso.
— Vosmicê não toma jeito.
— Com você, eu posso morar, minha filha. Você é direita, saiu a mim. Nossos gênios combinam.
Não menos categórica a reação de Astério e Elisa:
— Enquanto puder pagar o aluguel, prefiro que a gente more só, Elisa e eu. Não por mãe Tonha, mas seu Zé Esteves é osso duro de roer. Tem cisma comigo. — Desculpa-se Astério, cheio de dedos.
— Pai só tem modos com você, com a gente é aos pontapés. Já pensou, ele e a gente morando na mesma casa? Quer saber de uma coisa, mana? Eu não tenho vontade de ter casa própria em Agreste. Até prefiro não ter.
Tieta não perguntou por quê. Sorriu para a irmã, essa pobre Elisa.
— Se é assim, não se fala mais nisso.
MAIS UM FRAGMENTO DA NARRATIVA, NA QUAL, DURANTE A LONGA VIAGEM DE ÔNIBUS LEITO DA CAPITAL DE
SÃO PAULO À DA BAHIA, TIETA RECORDA E CONTA EPISÓDIOS DE SUA VIDA
À BELA LEONORA CANTARELLI
— QUANDO ME DEI CONTA DA INTENÇÃO DE JARBAS:
queria que eu fizesse a vida, ficando para ele o ganho, para sustentar sua malandrice, senti uma raiva subir pelo meu peito, uma sufocação. O mais difícil foi arrancar o amor cravado em mim, no meu corpo inteiro. Tinha me apaixonado, estava entregue. Pela primeira vez não era só gozo de cama, era uma coisa diferente, tão boa.
Jarbas La Cumparsita subsistia com razoável largueza às custas do físico de gigolô latino-americano em filme de Hollywood. Esbelto, corpo de toureiro, negros cabelos lisos à força de brilhantina, o bigodinho, as unhas tratadas, a piteira longa e os olhos, ah!, olhos fatais. Aqui e ali, laboriosas, as trabalhadoras reunidas em cooperativa para sustentar os gastos do galã. Ameaças quando preciso, uns bofetes, se indispensáveis, La Cumparsita vinha e recolhia a féria. Mas para chegar a bom resultado fazia-se necessário que a obrigação fosse precedida de namoro e conquista, levando a recruta ao delírio: faça de mim o que você quiser, meu amor. Jarbas possuía uma pequena voz agradável, cantava tangos e, por vezes, dizia-se argentino.
Quando falou de amor a Tieta, declarando-se enrabichado, disposto a viver com ela para todo o sempre, contando vantagens de dinheiro e importância social, não foi a perspectiva de largar a vida, ter mando e filho que a jogou nos braços dele.
— Xodó tão grande, eu não pensava em nada disso, ele não precisava prometer me tirar da zona. Se me levasse para viver com ele, em casa nossa, eu de rainha, muito que bem. Mas se quisesse apenas vir tarde da noite, após a ocupação, deitar comigo, falar de coisa à-toa, tomar de minha mão, dizer palavras doces, cantar em meu ouvido me abrindo por dentro e por fora, isso me bastava demais. Cega de amor.
Quando elas estavam presas sem remédio à melosa lábia e à inegável competência nos embates de alcova, então Jarbas decretava a lei, ditava os itens do regulamento das finanças do casal: para ele, no mínimo, setenta por cento da receita diária, daí para cima. Cafifa de tal status implica em despesas. Empenho no trabalho, nada de vagabundagem, cadela.
— Eu estava desarvorada, no auge da paixão, no maior amor, e até começara a acalentar a idéia de morar com ele, largar o ofício, ser mulher direita, já pensou? Tudo conversa mole para engambelar. Depois, igual aos tangos que ele cantava, la comparsa de miserias sin fin, só então compreendi por quê. Me deu uma raiva, dele e de mim. Ele nem tinha acabado de falar, eu juntei calça e paletó, camisa e gravata, atirei tudo no corredor: fora daqui, escroto!
Revolta e fúria, Jarbas não esperava. Vez ou outra, um gesto de recusa, boca e peito em choradeira. Resistência curta. Logo a lábia, a intimidação, a violência, em último caso: consolo e argumento decisivos. Tentou a escala inteira com Tieta, perdeu o tempo.
— Primeiro veio manso, depois gritou comigo, levantou a mão. Para mim, imagine! Eu, acostumada a labutar com cabras e bodes, Tieta do Agreste, curtida no mar de Mangue Seco. Me dei conta que o cabelo dele não cheirava, fedia a brilhantina. Saiu ventando. Mas, depois que ele saiu…
— Sim, mãezinha…
— Chorei como uma cabrita desmamada. Não por ele, mas pela decepção, pelo sonho desvanecido. Não há nada tão ruim como sonhar, minha filha.
— Sonho tanto…
— Quem sonha, paga caro. Bom é querer. Comecei tudo de novo, devo esse favor a Jarbas La Cumparsita. Disse pra mim mesma: puta posso ser mas de alto bordo. A partir daí cheguei ao que sou.
— Nunca mais se apaixonou, mãezinha?
— Paixão daquela, de perder a cabeça, nunca. Gostar, gostei de alguns. De Felipe, demais.
Mesmo depois de Felipe ter falecido, Tieta não retirara o pijama e os chinelos do quarto de dormir, como se ele fosse voltar a qualquer momento. Em hora incerta, como sempre, para o sorriso e o beijo.
— Com Felipe foi diferente, durou quase vinte anos. Quando me conheceu, eu ainda era jovem, estabanada.
— Era doido por você, mãezinha.
— Ele encontrava em mim alegria, o descanso, o outro lado da vida. Também não sei definir meu sentimento. Amor, amizade, gratidão, mistura das três coisas? Por isso vim nessa viagem, porque ele morreu e fiquei de novo sozinha como no começo. Para pegar as duas pontas do novelo e dar um nó, ligar princípio e fim.
— Fim, mãezinha? Tão nova, tão bonita, com tantos pretendentes?
— Não falo disso, ainda não apaguei o fogo, será que ele se apaga um dia? Penso que só com a morte. Quero apenas mergulhar no que fui, saber como seria se eu tivesse ficado em Agreste em vez de vir para São Paulo. Quero tomar banho na bacia de Catarina, no rio, enterrar os pés na areia das dunas de Mangue Seco. Só isso. E encher teu peito de ar puro, curar tua anemia.
— Mãezinha, você é tão boa!
— Boa? Sou boa e ruim, quando tenho raiva ninguém pode comigo, viro cão.
— Já testemunhei, mãezinha. Mas a raiva passa, a bondade fica.
— Aprendi com o sofrimento. Uns trancam o coração, outros abrem, o meu se escancarou. Porque encontrei Felipe. Se não tivesse conhecido ele, talvez só a ruindade crescesse em mim, engordando na amargura. Para falar a verdade, não sei. Dizem que sou mandona.
— Penso que você já nasceu como é, mãezinha. Nasceu para ser pastora, cuidar do seu rebanho.
DO BANHO DE RIO COM OS SOBRINHOS, O ATREVIDO E O RECATADO
DIVERTE-SE TIETA COM OS SOBRINHOS. PETO, um espoleta,
reinador, matreiro, a rondar em torno delas, da tia de São Paulo e da formosa enteada, quando não está no bar se instruindo no que não deve. No que não deve?
— Esse menino é minha cruz. Ponho de castigo, arreio-lhe a taca com vontade, nem assim. Em vez de estudar, vive no bar aprendendo porcarias… tenho um desgosto! — lastima-se Perpétua, constatando a ausência do filho menor.
— Porcarias? — Antonieta adora arreliar a irmã, escandalizá-la. — Pois fique sabendo que já estão ensinando essas coisas nas escolas, li nos jornais que vai ser obrigatório, desde o primário.
— Nas escolas, o quê?
— Aulas de educação sexual para meninos e meninas.
— Cruz-credo! — benze-se, puxa do terço, o mundo está perdido.
Peto desemboca na varanda, contente da vida, o ar sonso, o olho velhaco regalando-se nos seios entrevistos, nas pernas e coxas à mostra; vai ter uma indigestão, sorri Tieta. Vem recordar o banho no rio, programado para aquela manhã. Perpétua ordena a Ricardo que se prepare e acompanhe a tia. Irão à bacia de Catarina.
No caminho, carregado com os instrumentos de pesca, Peto conversa com Leonora:
— Mãe disse que você é minha prima. É mesmo?
— Sou sim, Peto. Está contente com essa prima feiosa?
No bar, Peto escuta Osnar provocando Seixas sempre ocupado a levar as primas ao cinema, ao banho de rio, a passear com elas, são várias: minha prima Maria das Dores para cá, minha prima Lurdinha para lá, minha priminha Lalita chegou da roça. Osnar cantarola a paródia de certa melodia italiana, Come prima…: quem tem prima, come prima. No bar, aplicado, Peto se educa.
— Contente, pacas. Feiosa? Pô! — o olho atrevido atravessando a saída de banho. — Só é bonita. Seu Ascânio está gamado.
— Quem?
— Morda aqui — estende o dedo mínimo. — Diga que não sabe. Pô!
Mistura as expressões da terra com a gíria ouvida no rádio, freguês de programas de música jovem. Tieta e Ricardo ficaram para trás.
— A tia é legal. Gosto dela pacas.
A bacia de Catarina é uma pequena enseada na curva do rio, onde as margens se afastam, na maior distância. A correnteza serpeia entre pedras, seixos e rochedos, águas claras, límpido abrigo. Dali se avista o ancoradouro, os barcos, as canoas, a lancha de Elieser. Escondidos entre as rochas, à margem, recantos discretos, pousos de namoro e frete, o capim amassado pelos corpos.
Antigamente havia horário para homens e mulheres banharem-se separados na bacia de Catarina, duas vezes por dia, pela manhã e à tarde. Com o aparecimento dos maiôs e a evolução dos costumes — mesmo em Agreste os costumes evoluem — desapareceram os horários e a separação. De manhã cedinho é certo encontrar seu Edmundo Ribeiro, Aminthas e Fidélio. Seixas, na farra com Osnar até o alvorecer, aparece mais tarde comboiando primas. Lavadeiras batem roupa sobre as pedras. Lavadeira foi Catarina, conta a lenda:
Lá vai Catarina
Com sua bacia
O patrão atrás
De fala macia.
A água é fria
Quente a bacia
De Catarina.
Por volta das seis surge Carol, passa em silêncio, sem dar trela a ninguém, todos espiam. A água é fria, é quente a bacia, na de Carol mergulha somente Modesto Pires, um despropósito!
Ambas vestidas, despidas em sumários biquínis, Antonieta e Leonora deitam-se sobre as pedras. Estendidas de bruços, desabotoam os sutiãs para melhor bronzearem as costas, sobram volumes proibidos, dignos de ver-se. Ricardo mergulha, nada para longe. Peto atira o anzol bem perto, aproveita, os olhos vão e vêm. O melhor banho é à noite, sob o luar. Quando a lua crescer, virão com Ascânio, já combinaram.
Tieta admira Ricardo, nadando em grandes braçadas, mergulhando, atravessando o rio, um jovem atleta, o corpo moreno, musculoso. Alguém se aproxima, vem deitar-se perto, sobre as pedras: dona Edna, desejando bom-dia. Acompanhada por Terto, seu marido embora não pareça. Ricardo vem vindo em direção à enseada, Tieta acompanha o olhar de dona Edna a envolver o rapaz, a cabra deve gostar de meninos, ei-la mordendo o lábio inferior. Não vê que ainda não está no ponto, verde demais? Deslambida, descarada. Ricardo se aproxima, sai da água, senta-se nas pedras ao lado do irmão, sorri para a tia e para Leonora. Atrevida, dona Edna: