Tieta do Agreste
Segundo episódio
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
— Bom dia, Ricardo.
— Bom dia, dona Edna, não tinha visto a senhora.
— Você nada bem.
— Eu? Peto nada muito melhor.
Também dona Edna baixou as alças do maiô e Ricardo desvia a vista enquanto Peto confere e julga. Não há comparação possível, as tetas da tia e as da prima vencem fácil e dão lambujem. Tieta acompanha a cena, apóia-se no cotovelo, deitada de lado. Casada e puta, dona Edna, e o marido, que mansidão de corno! Zangada, Antonieta? Ficou puritana ou protege a integridade da família e da Igreja? O sobrinho não chegou ao ponto, nem de vez está.
Peto, menino perdido, ousado, sem noção de respeito, toca o braço de Ricardo, segreda:
— Os cabelos da tia estão saindo do biquíni.
— Cabelos?
— Os de baixo, espie. Os pentelhos.
Ricardo não espia; severo, fita o irmão, olhar de censura e advertência, atira-se no rio novamente. Peto nem liga: Cardo vive por fora, um careta.
Enquanto passa creme nas costas da esposa — marido deve ter alguma serventia — Terto dirige-se a Tieta:
— É verdade, dona Antonieta, que a senhora…
— Telegrafei, sim. E o senhor, apostou? Achando que vai vir a luz ou não?
— Eu não apostei, onde vou buscar dinheiro para apostas? Edna acha…
Antonieta não se interessa pela opinião de dona Edna. Vagabunda! Prende o sutiã, durante a operação os seios aparecem duros, opulentos, não esses molambos que dona Edna faz questão de exibir. Põe-se de pé, de um salto mergulha nas águas da bacia de Catarina, em braçadas largas nada para o meio do rio onde está Ricardo. Peto abandona vara e anzol, convida Leonora:
— Vamos?
Dona Edna mede o garoto, ainda não lhe acende o pito.
DA MASSAGEM COM ORAÇÃO
RICARDO MERGULHA, FOGE NAS ÁGUAS DO RIO. Mergulha
nas folhas do livro, na hora da banca, após o passeio, o bate-bola, a pesca, o banho antes do almoço, diariamente. De volta do banheiro, pingando água, a tia senta-se diante do espelho, afrouxa o penhoar, toma dos tubos de creme, dos potes, dos frascos. O perfume flutua, estende-se, invade as narinas do rapaz.
Do sobrinho mais velho, atencioso e recatado. Sempre às ordens da tia e da prima — não esqueça que Leonora é sua prima, recorda-lhe Perpétua — mas não a segui-las, brechando contornos e profundezas, o olho vicioso, como o menor. Ao contrário, a afastar a vista, a desviá-la para o outro lado quando um seio aflora ou uma sombra se ilumina sob robes e shorts.
Mergulha nos livros, foge nos teoremas de álgebra, abstratos. Necessita manter-se atento, não se deixar distrair pois, apenas se distrai, os olhos rumam para o quarto onde a tia, porta aberta e nenhum cuidado, se embeleza. Cometerá pecado mortal, com certeza absoluta, se espiar a tia. Mas quando acontece ver sem querer, por acaso? Por mais que faça, impossível não enxergar tão expostos atributos.
Pior que ver, é pensar. Não olhara quando Peto chamou sua atenção para os pêlos da tia, atirou-se no rio. Mas, mesmo dentro da água, nadando, sem espiar, ele os imaginara. De olhos fechados ou abertos, queira ou não, pensa, imagina. A gente imagina sem querer, mesmo não querendo, é a maneira de Deus provar a fé, o zelo dos eleitos. É preciso controlar-se; vencer os maus pensamentos.
E os sonhos? Os sonhos, a gente não controla. Cosme, um asceta, o pusera em guarda contra os sonhos, neles o demônio tenta os homens, nem os anacoretas escaparam. Dormindo, a gente pode pecar e se condenar. Cosme aconselha espalhar grãos de milho ou de feijão sobre o lençol, deitar em cima, castigando a carne. Na rede, impossível.
Da rede, no escuro, ouve e percebe a tia na toalete noturna, retirando a maquiagem. Fechar a porta não resolve, ao contrário. De porta aberta fica reduzido a pequenos ruídos de potes e frascos, a limitadas amostras, vislumbres de carnação surgindo do robe. Mas para a imaginação não há limites, quando fecha a porta o robe se abre inteiro e é tão curta a camisola! Só as orações desviam vista e pensamento.
De qualquer maneira, de noite ou de dia, é árduo o combate com o demônio, só a ajuda de Deus permite a vitória. Na banca, antes do almoço, tenta absorver-se no estudo da matemática ou da história, enquanto, no quarto em frente, a tia se pinta e se perfuma. Os teoremas de álgebra, os navegadores portugueses. Impossível concentrar-se, o perfume acalentou seu sono no seminário, aqui o entontece.
— Cardo!
— Diga, tia.
— Está ocupado?
— Estou estudando, é hora da banca. Mas, se quiser alguma coisa…
— Quero, sim. Venha cá.
Ricardo deixa o livro, entra no quarto.
— Passe creme nos meus ombros, faça uma massagem. Abra a mão. — Espreme a bisnaga, põe-lhe no côncavo da mão o creme oloroso. — Vá, espalhe primeiro, depois amasse com as mãos e os dedos.
Baixa o penhoar, exibe as espáduas nuas; com a mão fecha-o sobre os seios, fica composta, ainda bem. Curva-se para facilitar a tarefa do sobrinho. Ricardo espalha o creme e começa, desajeitado, a esfregar-lhe os ombros.
— Nas costas, filho.
Esse não tem malícia, se fosse o pequeno estaria tentando ver a curva do busto sob as rendas. O rapaz sente o cheiro doce do creme, a maciez da pele. Não pode entupir o nariz nem retirar as mãos. Sente, sem querer sentir. O demônio o possui pelos dedos, pelas ventas. Que fazer, Senhor? Orar, pois a oração é a arma que Deus entregou aos homens para vencer as tentações, derrotar o inimigo. Padre nosso que estais no céu…
— Força, meu bem.
Curva-se ainda mais Antonieta, a mão já não prende o robe. Ricardo desvia a mirada pois o seio, solto, surge inteiro, moreno, volumoso. Onde parou, na oração? Não nos deixeis cair em tentação…
— Chega, meu filho, muito obrigada.
Ao agradecer, volta-se com um sorriso, surpreende o sobrinho a mover os lábios.
— Que é que você está fazendo? Rezando?
Espoca em riso, Ricardo encabula, vermelho, escabreado.
— Tem medo de mim? Não sou diabo, não.
— Oh!, tia.
— Nem fazer massagem no cangote da tia é pecado.
— Não pensei nada disso. Tenho o costume de rezar enquanto faço algum trabalho manual. — Mente, ainda por cima.
— Então me dê um beijo e vá estudar.
Beijo do pequeno não seria esse distante roçar de lábios na face. Peto é um perigo. Aos doze anos nem Tieta possuía igual atrevimento, tanta urgência.
DOS ALEGRES DIAS
QUASE INTEIRAMENTE LIVRES
DE PREOCUPAÇÃO
O PROGRAMA DE FESTEJOS CONTINUA E SE INTENSIFICA.
Dias alegres, despreocupados, felizes; dias de passeio, de prosa e rede, no trino dos passarinhos a infinita paz.
Na rede pendurada na varanda, ouvindo o gorjeio do pássaro sofrê, Leonora Cantarelli pergunta-se como a vida pode ser tão maravilhosa. Ascânio passa por um momento, para desejar bom-dia, a caminho da prefeitura. Na cidade, conta ele, fervem as discussões sobre o problema da eletricidade: Tieta obterá, através de suas relações paulistas, mandões da política, a instalação dos postes da hidrelétrica? Uns dizem que sim, outros que não, os últimos em maioria. Ninguém duvida da riqueza, da importância social da viúva do comendador Cantarelli, mas daí a mover graúdos da estirpe de governador e senadores vai distância. De qualquer maneira, bom assunto para as conversas, os debates, para matar o tempo longo, as lentas horas arrastadas. Ditosas ao ver de Leonora.
Após cumprimentar as senhoras e comentar a polêmica da luz elétrica, Ascânio dirige-se ao trabalho. O rosto esfogueado, a loira cabeleira, o riso de cristal, finíssimo bacará aos ouvidos do rapaz, Leonora acena adeus da porta de casa. Adeus? Até logo, até daqui a pouco, pois ele passará de novo, meio sem jeito, com receio de parecer importuno. Mas, se demora a chegar, Leonora reclama, a fala doce queixume:
— Demorou, por quê?
— Medo de ser chato.
— Se repetir isso, me zango.
Sempre com numerosa e alegre comitiva, subiram e desceram o rio na canoa a motor do comandante, lerda e segura, na lancha de Elieser, no bote veloz de Pirica. No sábado finalmente irão a Mangue Seco, Tieta e Leonora serão hóspedes de dona Laura e do comandante Dário. O secretário da prefeitura, restabelecido, pelo menos em aparência, da decepção da viagem a Paulo Afonso, anuncia à bela Leonora Cantarelli:
— Já tomei as necessárias providências burocráticas para encomendar um luar deslumbrante para você. Sabe que noite de lua cheia em Mangue Seco é a coisa mais bela do mundo?
— Tem que ser um luar daqueles senão não aceito.
— Deixe comigo, sou chapa de são Jorge.
Um luar para namorados, gostaria ela de dizer mas se contém, tudo é tão novo e inesperado, um sonho antigo fazendo-se de súbito realidade. Tarde demais. Também Ascânio gostaria de dizer: encomendei um luar de namorados, onde a coragem? Pobre, reles funcionário municipal, como elevar os olhos para herdeira milionária? Nem em sonhos. Ainda assim, pensa Leonora, pensa Ascânio, são dias plenos, venturosos, benditos. O melhor é não pensar.
No meio da semana, jantaram em casa de dona Milu. Dona Carmosina anunciara espantoso cardápio, um despotismo de pratos todos eles da mais alta qualidade, para regalar o mais fino paladar sulista. Da maioria desses quitutes, Leonora nunca ouvira falar.
Na sala repleta de bibelôs, recordações de um tempo de abastança — abastança dos Sluizer consumida pelo finado Juvenal Conceição, amigo do bom e do melhor, restaram apenas os bibelôs e o tenaz amor à vida da mãe e da filha —, Leonora se informa com Ascânio:
— Teiú? Que bicho é esse? Uma ave?
— Um lagarto.
— E se come?
— Delícia. Mais gostoso do que capão. Daqui a pouco você vai ver.
Dona Milu chega da cozinha, onde comanda:
— A carne-de-sol está quase pronta, o pirão de leite também. A frigideira de maturi já está dourando no forno.
Leonora recorda-se de outra conversa e cobra:
— Por falar em comida, mãezinha, como se chama aquele doce de banana da casa de dona Aída, você ficou de me dizer…
Risos gaiatos, Ascânio encabulado, Perpétua fecha a cara, quem explica é dona Milu, a idade lhe concede privilégios:
— Doce de puta, minha filha. Dizem que tem desse doce em tudo que é casa de rapariga. Não é, Osnar?
— A senhora pergunta logo a mim, marechala? Eu que não sou chegado a doces e não freqüento essas casas… pergunte ao tenente Seixas que é freguês… — Além de debochado, cínico.
Jantar de muitos convidados: afora as homenageadas, Perpétua, Elisa e Astério, Barbozinha, Ascânio, a malta do bilhar. O comandante e dona Laura estão em Mangue Seco.
Sucedem-se os pratos, a frigideira de maturi levanta exclamações entusiásticas, Barbozinha proclama-a digna de um poema, pelo menos de um brinde, corre a cerveja, a conversa entremeada de pilhérias, de risos e de algumas piadas de mau gosto. Devidas a Osnar e a Aminthas, a propósito da lírica melancolia em que se consomem Leonora e Ascânio: ela sonhadora, ele ansioso. Retiraram-se para a varanda, querem estar a sós. Dona Carmosina, enternecida, adora alcovitar um namoro, torcendo pelo sucesso, pelo casamento — festa rara em Agreste. Tão bom se tudo desse certo, ele se recuperando do golpe vibrado por Astrud, a traiçoeira víbora, recuperando-se ela do fracasso do noivado com o ignóbil caça-dotes. Céu azul, sem nuvens.
— Não fiquem aí a fofocar, seus cretinos. Não acham um quadro lindo? Ela é tão mimosa! — dona Carmosina aponta o casal isolado, mastigando teiú e maturi entre suspiros. — Ascânio tirou o prêmio grande na loteria do amor.
— Loteria do amor, vulgarmente conhecida como golpe do baú — goza Osnar. — Em troca, perdemos nosso futuro prefeito.
— Não vejo por quê.
— Coronela, pelo amor de Deus… Onde está o tutu? Em São Paulo.
— Leonora já disse que gosta daqui.
— Diz isso agora, na influência do rabicho. Depois, passa— Aminthas é cético como compete a um humorista. — Namoro sem futuro, Carmosina. Não vai adiante.
— Sem falar que a generala não vai deixar a enteada ficar aqui, mesmo que ela peça. Se Ascânio quiser, tem de ir para São Paulo — retorna Osnar. — E quem vai ser prefeito, me diga? Só se for você, coronela. Tem meu voto.
A generala se empanturra, ouvindo, sem prestar atenção, o conversê de Barbozinha que se declara cozinheiro de mão cheia; não existe aliás profissão que ele não conheça a fundo, tendo-as exercido todas à perfeição. Tieta aprova com a cabeça ou com monossílabos, enquanto constata alarmada como está engordando, daqui a dias não caberá nos vestidos. Quisera ter a natureza de Leonora que não engorda. Passou tanta necessidade, ficou magra para o resto da vida. Procura a enteada com os olhos. Lá está ela, na varanda, derretida ao lado de Ascânio. Cabrita sofrida e direita, ninguém merece tanto ser feliz. Terá Ascânio tamanha competência? Tieta não crê. Mesmo se ele quisesse, em Agreste seria impossível.
Dona Milu e dona Carmosina vêm juntar-se a Tieta e ao poeta:
— Nunca vi ninguém tão apaixonado como está Ascânio. — Dona Carmosina não tem outro assunto. — Você acredita que Leonora corresponda?
— Não sei… ela sofreu muito, já lhe contei, Carmô. Teve um noivo que só queria avançar no dinheiro dela, dona Milu. Foi uma decepção muito grande, até hoje está marcada.
Barbozinha confia na força do amor:
— Ninguém morre de amor, de amor se vive.
— Sem-vergonha! Depois vem dizer que já morreu de amor por mim não sei quantas vezes. Também desencarna e reencarna com a maior facilidade.
— Vivo morrendo por você, Tieta. Se você lesse meus versos, saberia.
— Seu Barbozinha ainda é melhor na mentira do que na rima. Mentiroso igual não tem por essa redondeza — afirma dona Milu e muda de assunto. — E a casa, Tieta? Já achou outra, a seu gosto?
Todos a par da surpreendente alta ocorrida no preço dos imóveis com a chegada das paulistas ricas.
— Uma descaração! Como se eu fosse mesmo paulista, não tivesse nascido e me criado aqui, uma exploração. Mas, se dona Zulmira reduzir o preço, acabo comprando, é uma casa como eu quero. As outras que corri, nenhuma me agradou.
Saem tarde do jantar. Ascânio as acompanha até a porta de casa. Perpétua morta de sono, habitualmente dorme às nove da noite, às seis da manhã firme na igreja para a missa. Leonora, nas nuvens, sorriso abobado, olhar de quebranto, cabrita tola. Tieta sacode os ombros: no fundo não tem muita importância, não se morre de amor, de amor se vive; Barbozinha tem razão, alguém disse que os poetas têm sempre razão. Tendo passado o que passou, o namoro de Ascânio não poderá fazê-la mais infeliz. Algumas lágrimas no ônibus de volta, depois o esquecimento.
Antes de despedir-se, Ascânio assume um ar solene, convida dona Antonieta para ser madrinha da inauguração festiva do calçamento, do jardim e dos bancos da praça Modesto Pires, antes denominada praça do Curtume; o curtume de peles fica próximo, na ribanceira do rio. Obra da prefeitura, contara com a ajuda do importante cidadão: Modesto Pires oferecera os três bancos de ferro. Agradecida e bajuladora, a câmara municipal decidira mudar o nome da praça. A cerimônia será antes do Natal, com exibição de ternos-de-reis e do bumba-meu-boi de Valdemar Cotó.
— Quem deve ser madrinha é dona Aída, mulher de seu Modesto. Ela ou bem… — ri descontraída, ligeiramente tonta, abusou dos licores — … Carol, ou as duas juntas para não haver injustiças…
Perturba-se Ascânio, dona Antonieta infunde-lhe certo temor, nunca se sabe quando fala a sério e quando brinca:
— É que tem duas placas para serem descerradas. Uma, com o nome novo da praça, quem vai puxar a fita é dona Aída. Mas a placa das obras, no obelisco, a mais importante, eu queria que fosse a senhora. Tive a idéia e meu padrinho, o coronel Artur, que é o presidente da câmara, achou ótima. Mandou que convidasse a senhora em nome dele.
Licores docíssimos, tantos brindes à sua saúde, Tieta flutua. Noite encantada, cálida, alegre. Quem é ela para paraninfar inauguração de praça pública? Aceita, comovida.
— Se não fosse por outra coisa, bastavam os telegramas que a senhora mandou para São Paulo sobre a luz elétrica. Mesmo que não dê resultado, o gesto é valioso, a intenção merece…
— Nenhum gesto vale nada quando não dá certo, meu filho. Intenção? De que serve intenção, por melhor que seja? Na vida, somente os resultados contam, não se engane. Muito obrigada e boa noite.
Deixa os dois na porta, ri sozinha, à toa.
DA EMOCIONANTE VISÃO
E DO PESADELO
COM CABULOSO ANJO
ANTES DE RECOLHER-SE, TIETA PASSA NO BANHEIRO.
Está risonha e aérea, um pouco bebida, quase em estado de graça. Para a noite ser completa… bem, deixa isso para lá.
Vagarosa, no corredor, na mão a placa acesa. Comera como um bicho, há quantos anos não provava frigideira de maturi? Os quitutes, cada qual mais saboroso, de estalar a língua e revirar os olhos. Quantos repetira, todos engordantes? Quantos cálices dos licores de frutas — de pitanga, maravilha; de groselha, divino; de rosas, perfumado; o indispensável licor de jenipapo, tantos —, todos embriagadores. Para completar a noite, só falta… Cala a boca, viúva alegre, mais que alegre, libertina.
Em frente ao gabinete, no reflexo da luz da placa, Tieta enxerga a rede onde Ricardo dorme. Espia na porta, distingue na sombra o sobrinho a ressonar. Que é aquilo? Dá um passo, entra. Suspende a luz, espia e vê. Descomposto, o camisolão subindo pelo peito e por baixo nada. Ela o julgava verde, nem de vez ainda. Enganara-se, quem tem razão é dona Edna, arguta. Já no ponto, e como! Desmesurado, benza Deus.
Para estar assim armado, com quem sonha o seminarista? Com os santos não há de ser. Aquele tesouro ali, à mão, e ela proibida, que injustiça mais medonha. Não sabe bem por que proibida, mas deve existir uma razão a fazê-la afastar a vista, voltar as costas, andar para a alcova, a placa acesa, acesa ela também. Que desperdício!
Empanturrada, dorme sono agitado. Primeiro sonha com Leonora e Ascânio, fogem os dois pelas ruas de Agreste, perseguidos pela população, à frente dos linchadores estão o profeta Possidônio e Zé Esteves, brandindo o cajado. O pesadelo prossegue com Lucas a lhe ensinar posições e requintes enquanto Ricardo, de batina e asas de anjo, sobrevoa o leito. Suspende a batina, exibe a estrovenga. Lucas sumiu. Anjo decaído, o sobrinho propõe massagear-lhe o cangote com o magno instrumento. Mas quando Tieta vai agarrá-lo, os braços não se elevam, estão presos. O anjo não é mais Ricardo, é o bode Inácio. Ela não passa de uma cabra em cio, saltando sobre as pedras.
CAPÍTULO CULINÁRIO ONDE O AUTOR
OFERECE COMO BRINDE AOS LEITORES, NA INTENÇÃO DE SEGURÁ-LOS, SECRETA RECEITA DE FRIGIDEIRA DE MATURI,
DE AUTORIA DE ILUSTRE CORDON-BLEU
COMO SABEM OU NÃO SABEM, MATURI É O NOME DADO
à castanha do caju quando ainda verde. Nós, baianos, mulatos gordos e sensuais, cultivados no azeite amarelo de dendê, no branco leite de coco e na ardida pimenta, utilizamos maturi num prato raro e de especial sabor. Aliás em mais de um, pois com a castanha verde do caju pode-se preparar moqueca ou frigideira.
Aqui nos ocuparemos apenas da frigideira, petisco oferecido por dona Milu à paulista Leonora Cantarelli para lhe ensinar os sabores da Bahia. Quem temperou e deu o ponto foi Nice, no fogão de lenha onde moureja há cinqüenta anos. Mas a receita a seguir transcrita deve-se a dona Indayá Alves, ilustre cordon-bleu da capital baiana, professora de arte culinária, com muita teoria e longa prática. Dela a obtive e em brinde aos leitores a ofereço. Lambendo os beiços, após fartarem-se no manjar sublime, talvez mais facilmente cheguem às páginas finais, ainda distantes, deste já extenso folhetim. Estamos na época da propaganda, da arte suprema da publicidade, vivemos sob suas regras e uma delas, das mais provadas, manda distribuir brindes à freguesia, irresistível chamariz.
Fúlvio d’Alambert, confrade e amigo, por pouco tem um enfarte:
— Receita de comida? Assim, não mais? Ao menos para tapear a coloque num diálogo vivo e pitoresco entre a moça e a cozinheira, durante o qual esta última ensina a receita, de quando em quando interrompida pela paulista com perguntas e exclamações. Afinal, que pretende você nos impingir? Romance ou livro de cozinha?
— Sei lá!
A literatura tem cânones precisos, se a queremos exercer devemos respeitá-los, ensina-me o erudito D’Alambert. Duvido — se teve já não tem. Outro dia, jovem e genial diretor de teatro, o gostosão, o ai-jesus da crítica, explicou-me ser o texto o elemento de menor valia numa peça, quanto menos o ouça o espectador melhor para a compreensão e a qualidade do espetáculo. Diante disso, atrevo-me e, em seguida, passo a transcrever a receita de mestra do coco e do dendê.
Ingredientes:
duas xícaras de maturi;
quatro espetos de camarão seco;
quatro colheres de sopa de óleo (de soja, de amendoim ou de algodão);
três colheres de sopa de azeite doce, digo de azeite de oliva, português, italiano ou espanhol;
três tomates;
um pimentão;
um coco grande;
uma cebola também grande;
uma colher de extrato de tomate;
seis ovos;
coentro e sal — o necessário.
Afervente os maturis e os tempere com alho, sal e extrato de tomate. Ponha o camarão seco de molho por algum tempo, depois o cate e o passe na máquina de moer juntamente com o coentro, o tomate e o pimentão.
Leve ao fogo uma caçarola com óleo e as cebolas cortadas para refogar. A seguir, junte os maturis e o camarão seco passado na máquina com os temperos. Deixe apurar. Coloque então na caçarola a massa de meio coco ralado de costas — de costas, o detalhe é importante se quiser que a massa do coco ralado saia como um fino creme — e o leite da outra metade, extraído do bagaço com o auxílio de meia xícara de água. Deixe cozinhar um pouco e acrescente o azeite doce e três ovos batidos, primeiro as claras, depois as gemas. Junte um pouco de farinha de trigo aos ovos. Prove para ver se o paladar está a gosto.
Por fim, tudo suficientemente cozido, coloque em assadeira untada com óleo para nela assar a frigideira de maturi, que será coberta com três ovos batidos, clara e gema juntos, e uma borrifada de farinha. Ponha a dourar em forno quente. Só retire o quitute da assadeira quando ela estiver bem fria.
Aí está, em grifo, a cobiçada receita. Difícil mesmo é obter os maturis, não se encontram à venda. Se o leitor pedir por gentileza a Camafeu de Oxossi ou a Luiz Domingos, filho da finada Maria de São Pedro, ambos estabelecidos no Mercado Modelo da Bahia, talvez um deles obtenha e forneça uma ou duas mãos da castanha verde e tenra com sabor de virgem.
Ainda mais difícil será conseguir o ponto justo, o paladar divino. Por mais correta a receita, por mais estritamente observadas as leis da culinária, tudo depende do talento e do ofício da cozinheira, do mestre-cuca, do cordon-bleu — igual à literatura.
O melhor, o mais garantido, é encomendar o prato a Indayá, recebê-lo feito, regalar-se. Prometi aos leitores um brinde, ofereço dois, ambos de graça: a receita e o conselho.
ONDE A MANSA LEONORA CANTARELLI PROCLAMA IMPORTANTE DECISÃO
NO SÁBADO PELA MADRUGADA, TIETA, LEONORA E
PETO embarcam na canoa do comandante Dário que os veio buscar deixando dona Laura na Toca da Sogra ainda adormecida: quando acordar, vai cuidar dos preparativos para recepcionar as visitantes. No almoço, haverá moqueca, o peixe fresquinho, pescado na hora.
Os demais irão no domingo, sábado é dia de muita ocupação em Agreste. Ricardo preso à missa, Astério preso à loja, Elisa à cozinha, Ascânio à prefeitura onde atende ao povaréu do interior do município até o fim da tarde. Dona Carmosina a esperar a marinete para distribuir jornais e revistas, entregar e receber cartas, ler e redigir algumas, a pedido de roceiros iletrados. Para a gente dos povoados e do campo, sábado é o dia das compras, das queixas, das reclamações e dos pedidos à municipalidade, da correspondência com os parentes emigrados para o sul.
Com dona Carmosina irá dona Milu levando comida para juntar à de dona Laura e fazerem um piquenique na sombra dos coqueiros. Também o vate Barbozinha se estiver melhor do reumatismo a castigá-lo pela mania de ficar acordado até altas horas da noite, sondando o horizonte à espera de discos voadores, de naves espaciais de onde desçam seres das mais remotas galáxias, vindos de visita ao grão-mestre de todas as sociedades secretas, Gregório Eustáquio de Matos Barbosa, filósofo e vidente conhecido na imensidão do sistema celeste. Ultimamente recebeu irradiações poderosas, anúncios de acontecimentos extraordinários em futuro próximo. De quando em vez, num disco luminoso ou na pouco recomendável companhia de Osnar, de Seixas, de Fidélio e Aminthas, desembarca o poeta na casa mal-afamada de Zuleika Cinderela, no beco da Amargura, onde range a música de velhos discos e se pode dançar com raparigas. Nos tempos boêmios e literários da capital, em companhia de Giovanni Guimarães, James Amado e Wilson Lins, no castelo de Vavá ou no 63 da ladeira da Montanha, o vate Barbozinha era apreciado pé-de-valsa. Hoje, envelhecido, meio entrevado, mesmo assim faz figura na cadência dos passos de um foxtrote, no rodopio de uma valsa. Num tango ainda arranca palmas.
Tieta e Leonora assistem ao sol nascendo sobre o rio, a moça de São Paulo vai calada, um tênue sorriso: o comandante a observa e percebe a emoção a dominá-la. Quando ele chegou de volta e fez esse mesmo caminho descendo o rio, não conteve as lágrimas. Tieta tampouco fala, a face fechada, quase dolorosa. Apenas Peto espana a água com as mãos quando não ajuda o comandante nas manobras.
Na Toca da Sogra, onde dona Laura recebe os visitantes com água-de-coco e pequenos peixes fritos no azeite de dendê — tem batida de pitanga e de maracujá para quem quiser —, o comandante desdobrou sobre a mesa uma planta rudimentar dos terrenos de propriedade de Modesto Pires, traçada por ele próprio:
— Aqui está a Toca, nosso terreno. Eu lhe aconselho, Tieta, a comprar esse aqui, vizinho ao nosso, nessa área do coqueiral. É a parte mais bonita e a mais defendida da areia. Podemos ir até lá, se quiser.
— Agora mesmo, para isso vim.
Não veio para isso, veio para rever as dunas e nelas se reencontrar. Mas demora de propósito, retém a vontade de correr para os cômoros, de subir ao alto e olhar a imensidão. Com o comandante e Leonora, vai constatar as vantagens do terreno, quando regressar a Agreste efetuará a compra.
— Pode acertar aqui mesmo. Modesto e dona Aída estão na praia. Aliás ele mandou convidá-las para tomar aperitivo em casa dele, antes do almoço. Fica mais adiante, perto da povoação de pescadores.
— Tudo aqui é belo. Nunca vi nada igual — diz Leonora de retorno à Toca da Sogra, dona Laura exigindo que ela prove a batida de pitanga. — Obrigada, dona Laura, mais tarde aceito. Agora, se me dão licença, vou andar na praia. — Mansa e discreta, tão querida.
— Olha que o almoço não demora e, antes, devemos ir à casa de seu Modesto. A moqueca já está sendo preparada, Gripa é especialista. — Na pequena cozinha, a gorda mulata clara sorri a escamar os peixes.
— Volto já, vou só dar uma espiada.
— Vou com você. — A voz rouca de Tieta.
Peto sai correndo na frente, começa a escalar as dunas, logo chega ao alto, monta numa palma seca de coqueiro, desce veloz a cavalgá-la. Convida a tia e Leonora. A ventania uiva, a areia voa em rodopio.
Tieta sente no rosto o sopro da maresia, o inconfundível olor. A areia fina, trazida do outro lado da barra na força do vento, penetra-lhe os cabelos. O sol queima-lhe a pele. Ali fora mulher pela primeira vez.
Em Agreste, perguntara ao árabe Chalita pelo mascate. Pois não sabe? Morreu de um tiro quando a polícia quis prendê-lo na Vila de Santa Luzia, há uns dez anos mais ou menos. Valente, não se entregou, nunca encontraram a mercadoria, as provas. Chalita cofia a bigodeira.
— Gostava de levar umas quengas para Mangue Seco. Molecas também. — Repousa em Tieta o olhar de sultão decadente. Entre eles, ali, na porta do cinema, por um instante redivivo, o contrabandista.
Os cômoros crescendo diante das duas mulheres, Peto a descer estendido na palma de coqueiro. Qual dessas dunas galgou Tieta na distante tarde do mascate? Leonora a interroga com os olhos, ela balança a cabeça:
— Quem pode saber? Sinto uma coisa por dentro, Leonora. Por estar aqui de novo, com esse vento na cara e esse mar na minha frente. Quase tudo no mundo já apodreceu, mas ficou Mangue Seco, você entende? Quando chegar lá em cima, você vai ver.
Estão próximas do cume, Peto as alcança, Leonora força o passo, os pés se enterram na areia.
— Ai! Que coisa! Isso não existe — exclama a moça paulista ao divisar inteira a paisagem ilimitada.
Busca Tieta com os olhos ofuscados pelo sol e a enxerga erguida no ponto mais alto, no extremo das dunas sobre o oceano, envolta pelo vento, invadida de areia, pastora de cabras diante de sua cama de noiva.
Leonora chega junto dela, a voz estrangulada:
— Mãezinha, não quero ir embora daqui, nunca mais. Não vou voltar para São Paulo.
Peto as convida a cavalgar as palhas de coqueiro e escorregar, venham ver como é bom. O vento leva as loucas palavras de Leonora, Tieta não responde.
— Nunca mais! — repete a moça.
Melhor seria se afogar ali, nas vagas desmedidas, no mar enfurecido.
ONDE TIETA COMPRA UM TERRENO
EM MANGUE SECO E LEONORA,
BEM-EDUCADA, DEVANEIA
HAVIAM VOLTADO AOS CÔMOROS NA NOITE
ENLUARADA, ELA E TIETA. Leonora parecia flutuar na paisagem encantada — de repente liberta do passado, recém-nascida na magia da lua cheia derramada sobre as dunas e o oceano, no embalo do marulho das ondas. Gostaria de demorar no cimo, deitada sobre a areia, invadida de paz. Mas, quando o comandante veio recordar o encontro marcado com dona Aída e Modesto Pires, Leonora não quis ser desatenta, regressou com Tieta à Toca da Sogra.
Por sua vontade, teria permanecido no alto dos cômoros, sob o luar encomendado por Ascânio, deslumbrante como ele prometera, a sentir o mar noturno arrebentando contra as montanhas de areia. Mesmo sozinha: pensaria nele, cioso dos deveres de administrador, tão correto. Sujeito decente, diziam de Ascânio. Decência, virtude rara, constata Leonora. Teve de atravessar o Brasil, chegar ao sertão, para vislumbrá-la. Dá-se conta de que comete uma injustiça: Tieta é decente; a seu modo, sem dúvida. Decência não significa candura, castidade. Mulher direita, diziam dela no Refúgio.
Se estivesse nas dunas poderia escorregar, estendida sobre uma palma de coqueiro, igual a Peto, moleque travesso. Não fora travessa, não fora moleca nem menina. Não tivera infância, tampouco adolescência; não provara o gosto do primeiro beijo recebido ou dado em ímpeto de ternura. Não tivera namorados, não ouvira palavras sussurradas, cálidas. Aos treze anos já lhe apalpavam inexistentes seios.
Tenta reconhecer os sons da harmônica — há festa na povoação. Passaram por lá, viram os pescadores reunidos diante de uma choupana em torno do tocador. Não era outro senão Claudionor das Virgens, com a harmônica, as emboladas, as trovas, os improvisos, de lugarejo em lugarejo, de batizado em batizado, de casamento em casamento, onde houver festa. Ao vê-los, saudara:
Salve o senhor comandante
E sua ilustre companhia.
Na Toca da Sogra, Antonieta, apressada como sempre que deseja alguma coisa, acerta os últimos detalhes da compra do terreno. Leonora persegue o som da harmônica, distante da conversa.
— Pague como bem entender, em quantas prestações quiser. Nem por ser dono vou mentir: terreno em Mangue Seco não se compra nem se vende. De muitas dessas terras, ninguém sabe o dono. Faz para mais de quatro anos que vendi um lote. Para um gringo que apareceu por aqui; se lembra, comandante?
— Lembro muito bem, era um alemão, pintor. Anunciou que ia se desfazer da casa na Baviera para vir morar em Mangue Seco.
— Pagou três prestações adiantadas dizendo que precisava de três meses para botar a vida em ordem na terra dele e voltar de vez. Nunca mais voltou nem acabou de pagar.
— Eu quero pagar à vista, seu Modesto. Dinheiro batido, moeda corrente… — anuncia Tieta a rir.
— Vê-se que a senhora não é mulher de negócios, dona Antonieta: com a inflação, comprar a prazo sempre é melhor.
— Não gosto de dever, é por isso, mas não pense que sou tola. Como pago à vista, quero abatimento.
Foi a vez de Modesto Pires rir:
— Abatimento? Vá lá. Cinco por cento, que lhe parece? Não por ser à vista mas pelo prazer da vizinhança.
Espreguiçadeiras, tamboretes, um banco rústico na porta de casa, debaixo dos coqueiros. Ali conversam enquanto a lua se desmancha. Peto adormecera deitado numa esteira.
Leonora escuta vagamente o diálogo, também ela, se pudesse, compraria terreno em Mangue Seco. Não para a velhice mas para ficar desde agora. Ansiara a vida inteira por sentimentos e verdades de cuja existência tinha notícia por ouvir dizer, através de filmes de cinema, das novelas de televisão. Nada de mais, sentimentos normais, verdades corriqueiras. A avó, referindo-se à vida na aldeia toscana antes da viagem, falava de coisas simples: família, sossego, paz, amor. Amor, como seria? Nas ruelas podres, no cortiço seboso, ninguém soubera responder.
Quanto mais por baixo, batida, derrotada, lacerada, rota por dentro, mais se refugiava Leonora no modesto sonho irrealizável: afeto, ternura, bem-querer de um homem. Vida limpa, como existia fora dos limites onde nascera, crescera e se fizera mulher, mais além do círculo de dor e desespero. Subindo e descendo a avenida nas frias madrugadas, carregando seu fardo, o castigo por ter nascido filha de pais tão pobres em terra tão rica, as chagas abertas, ainda assim sonhava. Se não sonhasse, só lhe restaria a morte.
Inesperadamente, quando o horizonte se fizera aperto na garganta, estertor final, conheceu a bondade e nela descansou, aprendeu novos valores, sentiu-se uma pessoa. Os sonhos loucos de amor eterno adormeceram pois, não sendo torpe a nova condição, apenas triste, menos carente estava. Não de todo satisfeita: sempre no desejo, na intenção de sair daquele invólucro para a existência desejada: casa e companheiro — não previa casamento —, um par de filhos. Outros reclamam dinheiro e fama. Leonora nascera como a avó, para ser dona-de-casa, mãe de família, não almeja mais do que isso.
Ali em Agreste, mundo pacato e diferente, onde a vida parece ter adormecido e assim é vivida por inteiro, Leonora sente-se tomada de exaltação e medo. Em Agreste o sonho persiste além da imaginação, concretiza-se em recatado enleio, alimenta-se de olhares e sorrisos, gentilezas, meias palavras, cresce no canto do pássaro sofrê, presente do príncipe encantado que ela não deseja príncipe, nobre ou rico, apenas encantado, decente. Mesmo sabendo-o inatingível, Leonora anseia ao menos chegar à margem, tocar com a ponta dos dedos o simples, maravilhoso mundo.
Para agir corretamente, deve abrir-se com mãezinha, ouvi-la, seguir-lhe os conselhos. Receia, porém, que Tieta, temerosa das conseqüências, resolva apressar a volta a São Paulo. Leonora pretende apenas alguns dias de ternura, mesmo irremediavelmente contados, poucos — a certeza da morte não impede o homem de aproveitar a vida. Reivindica o direito a ouvir e a pronunciar palavras trêmulas, a esboçar gestos de carinho, o direito ao primeiro beijo, como será?
Para guardar essas recordações, ter com que encher de saudade a solidão. Nunca sentiu saudade. De nada, de ninguém. Tudo foi ruim e sujo em seu percurso. Muita falta faz não ter um instante ao menos, um rosto, uma carícia, uma palavra a relembrar, não ter saudades. A solidão torna-se vazia e perigosa. Implora uns dias apenas, por misericórdia, suficientes para encher o coração de momentos ternos, dos quais se recordar. Então, dirá: vamos embora daqui, mãezinha, antes que seja tarde.
Prossegue Claudionor animando o arrasta-pé, pode atravessar noites e noites, firme na harmônica. Um ruído de motor se mistura à música, vem dos lados do rio, quem será? Leonora terá saudade desse minuto breve, do pressentimento e da ansiedade. Acompanha o barulho que cresce e se modifica: a embarcação enfrenta o mar na entrada da barra. Volta a reinar sozinha a harmônica festiva. Logo, os passos na areia, Leonora põe-se de pé. Ascânio aparece, desembarca do luar. Num ímpeto, a moça se adianta.
Na meia sombra as mãos se tocam, sorriem os lábios, brilham os olhos.
— Vim no barco de Pirica. Veio só me trazer, já está de volta. — Novamente o barulho do motor, o casco de encontro às vagas.
— Não agüentou esperar até amanhã, hein, mestre Ascânio? Fez muito bem: quem é aguardado não pode se atrasar — saúda o comandante.
O rapaz busca uma desculpa:
— Prefiro viajar de noite do que acordar de madrugada.
Não sabe como agir: deve sentar-se a conversar ou partir com Leonora? Dona Aída vem em seu socorro:
— Por que não leva Leonora para apreciar o luar de cima dos cômoros? É tão… — ia dizer romântico, conteve-se — … tão lindo…
Sugestão aceita, a moça amarra um lenço na cabeça:
— Com licença…
O movimento acorda Peto: vou com vocês. Mas o comandante, cúmplice, proíbe.
— É hora de menino estar dormindo.
Os vultos perdem-se entre os coqueiros. Dona Laura suspira:
— Nada se compara com a juventude. Só tenho pena de não ter namorado com Dário aqui em Mangue Seco. Quando vim, já tínhamos dez anos de casados.
— Foi nossa segunda lua-de-mel… — lembra o comandante.
— Moça educada, essa… se vê logo que é de boa família — elogia dona Aída.
Pensativa, acompanhando com os olhos as duas sombras, Tieta retorna à conversa:
— Leonora? Um amor de criatura. Está saindo da fossa, de uma decepção tão grande que lhe abalou a saúde. Um patife, de quem foi noiva, só queria o dinheiro dela. Felizmente, me dei conta a tempo. Mas a pobre sofreu demais, uma crise terrível, não dormia, não comia, acabou anêmica. Por isso trouxe ela comigo para curar-se nos ares de Agreste.
— Agiu certo, aqui ela vai se refazer em dois tempos. Não há como leite de cabra para levantar as forças de um vivente — aprova Modesto Pires.
— O mais curioso é que ele também teve uma desilusão medonha. Não ouviu falar, dona Antonieta? — pergunta dona Aída.
Antonieta conhece a história tintim por tintim mas não quer furtar a dona Aída o prazer do relato, das minúcias e dos comentários:
— Não, senhora.
— Não? — admira-se dona Aída no cúmulo da satisfação: — Pois eu lhe conto.
DO PRIMEIRO BEIJO EM FRENTE
À COSTA DA ÁFRICA,
CAPÍTULO DE UM ROMANTISMO ATROZ COMO NÃO SE USA MAIS
SENTAM-SE NO ALTO DA DUNA, DIANTE DELES O
OCEANO.
— Obrigada — diz Leonora.
— De quê?
— Do luar. Não foi você quem encomendou?
— Ah! — descontrai-se um pouco. — Gostou? Não lhe disse que são Jorge é meu chapa?
— Obrigada também por ter vindo.
Um calor no peito de Ascânio, a emudecê-lo. Os ruídos da festa na povoação vêm morrer no embate das vagas contra os cômoros. Qualquer assunto serve para vencer a mudez:
— Festa de aniversário de Jonas, o chefe da colônia de pescadores. É maneta, o tubarão comeu-lhe o braço esquerdo.
— Tem tubarões aqui?
— No mar aberto, demais. Às vezes chegam até a praia. São ousados e vorazes. Qualquer descuido, é a morte.
Não é hora de lembrar a morte, talvez por isso retornam à contenção, ao retraimento, à timidez. Os dois em silêncio, reduzidos a furtivos olhares, ainda assim tão bom! A lua fincada no céu, feita de encomenda, exclusiva para eles. Luar de namorados, próprio para se falar de amor. Isso é o que Ascânio pretende dizer. Ensaia a frase, morre-lhe nos lábios, finalmente explica:
— Do outro lado fica a África.
— A África?
Ele aponta com o dedo, indica na distância:
— Do outro lado do mar.
—Ah!, sim. A África, eu sei. — Não quer deixar o diálogo morrer. — Teve muito trabalho hoje?
Não é de geografia nem de problemas de administração que desejam se ocupar. Mas onde o ânimo para as palavras ardentes, a declaração de amor ainda usada pelos namorados em Agreste?
A mesma coisa de todos os sábados: pedidos para consertar caminhos, limpar as fontes, fazer pequenas benfeitorias, um mata-burros, um pontilhão. Leonora não pode imaginar a falta de recursos em Agreste. Já foi município rico, noutros tempos. Quando o avô de Ascânio era prefeito.
— Ouvi dizer que você vai ser o novo prefeito.
— Penso que sim. Sabe por quê? Porque ninguém quer o posto. Mas eu aceito. Vou lhe dizer uma coisa, se quiser me chame de visionário. Tenho confiança, penso que tudo vai mudar e Agreste voltará ao que foi. Não suporto ver minha terra nessa pasmaceira.
— É bom ter confiança, sonhar. Você é louco por sua terra.
— Sou, sim. Quero que ela saia do marasmo em que afundou. Hei de conseguir. — Toma alento, está embalado, disposto. — A vida é engraçada. Não faz um mês, eu não tinha mais fé em nada, nem esperança. Escrevia cartas aos jornais, reclamava ao governo, mas não acreditava em resultados. Agora tudo me parece fácil. Depois que…
— Depois quê?
— Que vocês chegaram. Tudo mudou, ficou alegre. Até eu.
— Por causa de mãezinha, onde ela chega, espanta a tristeza. É a pessoa melhor do mundo.
— Devido a ela também. Mas para mim…
Leonora aguarda, lateja-lhe o coração, descompassado. O vento traz farrapos de risos, sons de harmônica, o nome de Arminda gritado no forró. A voz de Ascânio rompe-se num lamento:
— Eu era um morto vivo, não achava graça em nada. Vou lhe contar, se permitir. Ela se chama Astrud.
Para que contar? Quem não sabe em Agreste? Dona Carmosina, romântica como Leonora, recitara as cartas para ela e Tieta, suspirara os detalhes tristes. Revoltara-se Leonora com o procedimento da fingida. Tieta apenas rira, não era de sentimentalismos, de amor se vive, não se morre, não é mesmo, Barbozinha? Ascânio não esperou o consentimento. Leonora escuta e mais uma vez se emociona.
Os estudos na Bahia, o noivado, a doença do pai, a carta anunciando a ruptura e o próximo casamento. Por que continuara a jurar amor quando já nos braços de outro? Dando-lhe o que jamais consentira a Ascânio nem ele sequer solicitara pois a supunha inocente, angélica, santa. Um bobo alegre. Dissera a dona Carmosina, confidente, boa amiga a sofrer com ele:
— Nem que um dia desembarque da marinete de Jairo a mulher mais bela, a mais doce e pura…
Afirmara pois não supunha possível tal milagre. Aconteceu, no entanto. A mais bela, a mais doce, a mais pura das mulheres. Desembarcada da marinete de Jairo.
Ergue-se Leonora. De frente para o mar, os olhos na distância onde o luar se dissolve na noite. Levanta-se também Ascânio, ia completar: a mais bela, doce e pura das mulheres, ademais rica, por quê? Pobre secretário da prefeitura de Santana do Agreste, soldo mesquinho, ai! Por que tão rica?
Não chegou a falar de pobreza e riqueza. Trêmula, os olhos úmidos, Leonora se aproxima, toca-lhe a face com a mão, oferece-lhe os lábios. Desce a correr, na boca o gosto do primeiro beijo. Foge por entre a lua e as estrelas, feliz e desgraçada.
Ascânio não tenta segui-la, está fincado ali, quando sair vai conquistar o mundo. Ah!, um dia chegará diante dela e lhe dirá: não tenho para o luxo mas ganho para o sustento, vim te buscar. A lua desaparece na lonjura, no caminho do mar para as costas da África.
DE COMO PERPÉTUA NEGOCIA
A AJUDA DE DEUS PARA O TRIUNFO DE SEUS PLANOS DIABÓLICOS
ANIMA-SE A PRAIA DE MANGUE SECO, NO DOMINGO, com
a chegada de uma quantidade de amigos sob o comando de dona Carmosina, espantosa e inconsciente no maiô lilás. Até Perpétua se animara a acompanhar o grupo, o vestido negro, o luto fechado. Dona Milu desparrama alegria: não vinha a Mangue Seco há mais de seis meses. Não por falta de convite, observou o comandante Dário. É verdade: convites não faltam e sobra o tempo, com a idade o que falta é disposição. Riem da mentira: não existe pessoa tão disposta; os anos passam, mãe cada vez mais serelepe, confirma dona Carmosina.
Na lancha, Barbozinha tirara o paletó e a gravata, expusera-se ao vento apesar do reumatismo. Certa noite subira os cômoros com Tieta, declamando versos escritos para ela, reunidos depois no livro Poemas de Agreste (De Matos Barboza, Poemas de Agreste, Ilustrações de Calasans Neto, Edições Macunaíma, Bahia, 1953), formando a primeira parte do volume, intitulada “Estrofes do mar bravio”, o mar bravio, a arrebentação de Mangue Seco e o corpo aceso da livre pastora na chama do desejo. Duas gloriosas noites de amor e poesia, breves, transitórias. Os deveres de funcionário municipal obrigaram-no a retornar à capital. Ela prometera esperá-lo, sempre prometia. Alguns meses passados, carta de Agreste dava-lhe notícia da partida de Tieta. Somente agora, vinte e sete anos depois, alquebrado e reumático, voltara a vê-la, mais formosa ainda, opulenta, livre pastora, mar bravio. Viúva, ele solteiro. Não casara, teria sido por causa de Tieta? Espera recitar-lhe nas dunas, ao luar, o grande poema que em seu louvor vem de escrever. Nele a proclama estrela-d’alva, sendo ele obscurecido astro de bruxuleante luz. Se unissem os seus destinos, no entanto, renasceria o poeta, sol irrompendo do mar de Mangue Seco. Escolhera o estilo condoreiro, bom para declamação.
Vieram Aminthas e Osnar, Fidélio e Seixas, comboiando Astério. O som moderno invade Mangue Seco, substituindo a harmônica de Claudionor das Virgens enquanto o trovador curte, em sono agitado, o pileque da véspera. Onde está Ricardo? No primeiro momento, cercada, abraçada, beijada, Antonieta não se deu conta da ausência do sobrinho. Mas, diminuída a confusão pergunta:
— E Cardo, cadê ele?
— Não pôde vir. — Explica Perpétua, contrafeita: — Padre Mariano foi realizar casamentos e batizados em Rocinha, vai duas vezes por ano, em junho e em dezembro, levou Ricardo que mandou lhe pedir a bênção, ele lhe adora. Mas, sendo seminarista, teve de ir com o padre.
Tieta não responde nem comenta mas Perpétua percebe-lhe a decepção no franzir dos lábios e se alegra: a irmã rica sente falta do sobrinho, está se apegando aos meninos. Ainda bem.
— Todos ao mar! — o comandante ordena e é obedecido.
Calções, maiôs, biquínis desfilam diante da reduzida população de Mangue Seco. Ao contrário dos habitantes de Agreste, os pescadores não se escandalizam com a incontinente exibição de coxas e barrigas, bundas e umbigos. Ali, os meninos de catorze e quinze anos cortam as ondas nus, os corpos de bronze.
Única a não cumprir a ordem do comandante — até dona Milu suspende a saia e vai banhar os pés no mar —, Perpétua busca na praia, embaixo dos coqueiros, sombra defendida do sol e do vento. Tira do bolso da saia o terço, começa a passar as contas. No tempo do major todos os anos vinha à praia, no verão. Vestindo decente traje de banho, enfrentava os perigos do mar; o major tomava-a nos braços a pretexto de lhe ensinar a nadar, mãos indiscretas, arteiras. Deleites passados, não voltarão. Cabe-lhe agora pensar nos filhos, no futuro dos meninos. Viúva, é mãe e pai, cumpre-lhe lutar. Os dedos nas contas do terço, os lábios na oração, o pensamento nos planos concebidos, em via de execução.
Devota exemplar, incapaz de faltar a uma obrigação religiosa, missa, bênção, confissão, a santa comunhão, as procissões, zeladora-chefe da matriz, tesoureira da congregação, Perpétua espera contar com a compreensão e a ajuda do Senhor para atingir os calculados fins. Seu plano exige eficaz proteção de Deus e inocente colaboração dos meninos. A de Peto não lhe tem faltado. De onde está, Perpétua enxerga o filho nadando em torno da tia. Assim, com perseverança e gentileza, se conquista o coração, o amor de parenta rica.
Tentara discutir com Ricardo, trazê-lo, mas o rapaz a derrotara, apoiado nas necessidades do reverendo; Vavá Muriçoca, o sacristão, amanhecera doente, não podia montar. Perpétua ficou sem argumentos, olhando o filho de batina no lombo do burro. Ainda mais do que ela, Ricardo merecia a proteção divina, tão piedoso e temente a Deus.
Queria os filhos, os dois, ao lado da tia o maior tempo possível. Arquitetara complicado plano com o fim de obter que a irmã fizesse dos meninos seus herdeiros únicos, adotando-os, se a medida legal se revelasse necessária. Precisa saber com certeza, projeta ida a Esplanada para se aconselhar com dr. Rubim.
O tempo é curto, torna-se urgente a ajuda de Deus para tocar o coração de Antonieta, para encaminhá-la à decisão correta. Fazendo obrigatória a involuntária colaboração de Ricardo e Peto. Depende de Deus e deles transformar a estima da parenta em ternura maternal. Agradem a tia, não deixem ela sozinha, recomenda. Ajuda-me, Senhor!, implora. O tempo é curto.
Antonieta não determinara a duração da temporada em Agreste mas evidentemente sua demora não passará de mês e meio, dois meses; deve voltar para reassumir o controle de seus negócios e já uns dez dias são decorridos. Pouco a pouco, com astúcia e paciência, Perpétua conseguira tirar da irmã várias informações sobre o estado de suas finanças. Ficou a par dos quatro apartamentos e do andar térreo no centro da cidade, alugados cada um dos cinco por uma fortuna mensal — casa de aluguel barato somente em Agreste.