Tieta do Agreste

Jorge Amado · Capítulo 3 de 10 · parte 2/5

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Tieta do Agreste

Segundo episódio

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

Ninguém pense ter sido Tonha esquecida, por madrasta. Além do rádio, ganha saia e blusa, trazidas por Tieta; um colar azul e lilás, lembrança de Leonora. Nem sabe agradecer, limpa os olhos, faz tanto tempo do último presente, uma fivela para prender os cabelos, comprada pelo velho na feira. Ainda usa, em sua mão as coisas duram.

Para dona Carmosina, colar, pulseira e anel de fantasia, galanteza de conjunto. Gosta mesmo? Tieta quer saber. Adoro. Adorou também a caneta esferográfica com cargas de diversas cores: obrigada, Nora, considere-me sua amiga para sempre. Para dona Milu fazer paciência, uma caixa com dois baralhos, de plástico, laváveis e um xale italiano para a cabeça. Até a pequena Araci, da porta da cozinha a espiar, ganhou um broche, bijuteria em forma de coração para o vestido dos domingos. Uma vez na vida outra na morte, vai à matinê.

Um ostensório para a igreja, venha ver, Perpétua. Acha que o padre vai gostar? Se vai gostar, que pergunta! Custódia mais bela, deve ter custado os tubos. Não foi barato mas não foi também todo esse dinheiro. Para remir os meus pecados… — Tieta ri, joga a cabeça para trás, Ricardo não pode imaginá-la pecadora. Que santa reúne a alegria e a devoção?

Pronto, acabaram-se os presentes. Ainda não, falta o porta-retrato de prata onde Perpétua colocar a fotografia do major envergando a farda de gala da polícia militar. A viúva perde a fala, faz um gesto, Ricardo entende, vai buscar o retrato guardado a sete chaves na escrivaninha. Agora, emoldurado em prata sobre a mesa, o perene sorriso (o bestial sorriso do major no dizer de Aminthas, metido a humorista), a fisionomia franca, só falta o vozeirão. Perpétua fita longamente o falecido: o esposo fizera-lhe todas as vontades e dois filhos. Tieta conseguira comovê-la, uma lágrima brota dos olhos gázeos, a primeira lágrima genuína chorada por ela após o pranto pela morte do major. Perpétua amolece, eleva a voz sibilante:

— Ele era bom demais. Eu não pensava mais em casar, muito menos num marido como ele. Minha natureza é… — procura a palavra: — …ríspida. Padre Mariano diz que eu não sei o que seja misericórdia. Antes de casar com Cupertino, só pratiquei o mal pensando fazer o bem. Quero que você, Antonieta, me…

Dona Carmosina arregala os olhos miúdos. Perpétua vai pedir perdão à irmã, fato inaudito. Mas Tieta corta a frase:

— Isso tudo já passou, Perpétua. Eu também não mereci o homem bom que tive e fez de mim o que sou hoje. Não demonstro mas sinto demais a falta dele. Pena que o major tenha morrido sem dar tempo da gente se conhecer. Mas ficaram os filhos. — Estende os braços: — Venham cá, meus amores, beijar essa coroa que é a tia de vocês.

De batina, tão engraçado e sem jeito, o mais velho. O mais novo, matreiro, esperto, um azougue. O beijo de Ricardo apenas roça-lhe as faces, o do pequeno é cálido, já tem malícia.

 

DO CAMISOLÃO, DA CAMISOLINHA,

DO JARRO COM ÁGUA E DA ORAÇÃO

 

PAGARA A PROMESSA AINDA NO SEMINÁRIO, NA

SEMANA DOS EXAMES, após receber carta de Perpétua com as novidades: a tia gozando saúde e os projetos de viagem. Morte houvera mas do comendador, antes assim. Durante sete noites, Ricardo macerara os joelhos sobre grãos de milho, obtidos na despensa, e adquirira o hábito de rezar uma salve-rainha pela saúde da tia anciã, de tão velhinha avó.

A vida é um alforje de surpresas, afirma d. José nos sermões dominicais, sobra-lhe razão. Ricardo ficou abobado quando vislumbrou tia Antonieta na porta da marinete, de anciã e avó não tinha nada. Nem parecia viúva, não pusera luto. Cabeleira loira, saindo do turbante, rolando nos ombros, o corpo apertado na blusa vermelha, na calça jean, a despertar exclamações. Não apenas o brado, o viva de Bafo de Bode, indecência! Ricardo ouvira igualmente o comentário de Osnar, em voz baixa, destinado a Aminthas:

— Que pedaço de mulher ela virou! Que ubre! Cabrona! — Elevava a voz: — Uma fruta madura, capitão Astério, parabéns pela cunhada. — Osnar distribuía patentes militares entre os amigos. Seu Manuel era almirante. Dona Carmosina, coronela da artilharia pesada.

Engraçado: não ficara nem desiludido nem frustrado com a brusca mudança da imagem concebida — surpreende-se Ricardo a pensar enquanto retira a batina, veste o camisolão, ajoelha-se para recitar as orações e bendizer o Senhor que fizera a tia adivinhar o presente desejado. Escondera a vara de pesca para impedir fosse Peto o primeiro a usá-la, o irmão não tem o menor respeito pela propriedade alheia, um anarquista. Reza a salve-rainha pela saúde da tia, merecedora.

Estende-se na rede. Da alcova, a luz acesa ilumina o corredor em frente ao gabinete, tia Antonieta fora ao banheiro. Em lugar de uma velhinha, de uma avó, uma verdadeira tia, alegre, flamante — e ele a imaginara mais idosa do que a mãe. Um absurdo. Ricardo a ouvira dizer a idade a Barbozinha: quarenta e quatro, meu poeta. Aqui não posso esconder, todos sabem. Fazem vinte e seis anos que fui embora, acabara de completar dezoito. Em São Paulo confesso trinta e cinco, pareço mais?

A mãe, ele sabe, diminui a idade. Devota e exigente, não admite mentiras e, no entanto, na hora de revelar a idade… A verdadeira está na certidão de casamento, trancada ali na escrivaninha junto com as escrituras das casas, a patente do pai, a caderneta militar, os louvores nas ordens de serviço. A tia não precisa negar porque é bonita. Bonita não é bem o termo, Ricardo procura a palavra certa: bonitona. Nela tudo é grande e vistoso. Com que santa se parece? Com nenhuma das conhecidas, nem santa Rita de Cássia, nem santa Rosa de Lima. Tia Elisa, quando melancólica, recorda santa Maria Madalena. A mãe sempre de luto é santa Helena com traje negro de viúva e véu de cinzas. Mas a força a desprender-se da tia, qual delas a possui? Apenas chegou e imediatamente passou a comandar. Por ser rica e generosa, sim, certamente, mas não só por isso. Há algo mais, indefinível, a impressionar Ricardo, a impor-se, não sabe explicar o que seja. Ele a enxerga cercada por um halo luminoso, como certos santos. Santa? Pela bondade, pela grandeza da alma, mas ela exibe outros atributos, carnais. Humanos, não carnais, palavra maldita, os pecados carnais, pagos com as chamas do inferno durante a eternidade.

Passos no corredor, e a tia de volta do banheiro. A precedê-la, chega o perfume, o mesmo dos envelopes, desprendendo-se a cada passo, anunciando-lhe a presença próxima. Ainda bem que o padre confessor lhe disse não haver pecado em perfume de velha tia. Velha? Madura.

Fruta madura fora a expressão usada por Osnar para classificá-la. Na hora confusa do desembarque, Cardo achara todo o palavreado do boa-vida uma falta de respeito. Mas agora, ao ouvir os passos da tia, ao sentir-lhe o perfume, a comparação com uma fruta madura, rica de sumo, na plenitude da força, parece-lhe correta, não vê desrespeito, despropósito, pecado. Desrespeito compará-la com as cabras, isso sim. Osnar não tem salvação.

Antonieta conduz o jarro esmaltado cheio de água. Nas sombras do corredor pisa a ponta do robe longo, tropeça, vacila, vai cair. Ricardo acorre a tempo de sustê-la e tomar do jarro, levando-o para a alcova.

— Obrigada, meu bem. — Com um sorriso gaiato, mede o sobrinho, enorme no camisolão de dormir: — Você ainda dorme de camisolão?

— No começo do ano, vou passar para a divisão dos maiores e dormir de pijama… — explica orgulhoso. — Mas mãe só vai comprar quando eu for pro seminário.

Por baixo do penhoar semi-aberto, a curta camisola cor-de-rosa mais revela do que esconde as graças da tia, Ricardo desvia aos olhos, pousa o jarro na argola do lavatório.

— Traga o lavatório para aqui e bote um pouco de água na bacia — pede Antonieta, sentada ante o espelho da penteadeira, cremes diversos em sua frente, vidros com líquidos coloridos, algodão, um exagero de frascos e potes. Tia Elisa não tem nem a metade, a mãe não se pinta desde a morte do pai.

Derrama a água, toma o rumo da porta. A tia observa-lhe os movimentos:

— Vai embora sem me pedir a bênção?

— A bênção, tia. Deus lhe dê boa noite. — Dobra o joelho: — Obrigado pela vara de pesca.

— Assim, não. Aqui perto e com um beijo.

Cardo beija-lhe a mão, ela toma-lhe do rosto e o beija em cada face. O perfume sobe dos seios. Mesmo sem querer, Ricardo os vislumbra, ou os adivinha sobrando da camisola. Ubre, dissera Osnar.

Deita-se na rede, a luz permanece acesa no quarto da tia a desfazer a maquiagem, entra uma réstia no gabinete pela fresta da porta. Ricardo, de sono fácil — apenas cai na cama e os olhos se fecham —, hoje não consegue adormecer. Estranha a rede, quem sabe? Confusão igual à do desembarque quando viu a tia na porta da marinete, o oposto da imagem concebida na hora do anúncio da morte. O melhor é rezar. Desce da rede, ajoelha-se, cruza as mãos, Padre nosso que estais no céu. O pensamento em Deus, louvado seja.

ONDE PERPÉTUA, CUNHADA ATENTA,

CUIDA DA ALMA DO COMENDADOR

ENQUANTO TIETA E LEONORA,

EM ELEGANTES MODELOS TRANSPARENTES, EMPOLGAM O BURGO E ASCÂNIO

TRINDADE EXPLICA O PROBLEMA

DA LUZ ELÉTRICA

 

PELA MANHÃ, DURANTE O CAFÉ-GORDO — INHAME,

AIPIM, FRUTA-PÃO, banana cozida, cuscuz de puba mandado por dona Milu; como manter a linha e não engordar? — Perpétua comunica os horários da missa pela alma do comendador e da entronização, a missa no sábado, às oito horas, a entronização no domingo, às onze. Antonieta se alarma: se não contiver a irmã mais velha, passará a temporada de férias na igreja, adeus projetos de praia, de passeios.

— Missa? Já mandamos rezar, em São Paulo, na igreja da Sé. De sétimo dia, de mês. Várias.

— Isso não tem importância, quanto mais melhor para a alma dele. Como é que a gente ia ficar se não mandasse celebrar nem uma missa? Eu, Elisa, o velho? O que o povo havia de dizer? Um comendador do papa, um nobre da Igreja, ainda hoje padre Mariano repetiu: temos de cuidar da alma dele. Fez uma carrada de elogios a você. Por causa do hostiário.

— Você já esteve com o padre, hoje? A que horas?

— Não perco a missa das seis. Nem eu nem Ricardo, quando está aqui. É ele quem ajuda.

Ricardo aproveita e pergunta se pode tirar a batina, botar o calção, ir até o rio, experimentar o molinete. Antonieta adianta-se:

— Pode, sim, meu filho. Vá brincar. E só volte na hora do almoço.

— Obrigado, tia. — Sai rápido antes que a mãe proteste.

— Uma graça, esse teu filho estudante de padre, ainda não me acostumei. De dia de batina, de noite de camisolão. Tamanho homem, Perpétua! Vou comprar um par de pijamas para ele.

— Vai começar a usar quando voltar para o seminário. Fiz uma promessa à Senhora Sant’Ana: se, um dia, Deus me desse um filho, ele seria padre. Ricardo foi o primeiro, pusemos o nome do avô, do pai do major. Gosta de estudar, tem temor a Deus, estou contente com ele.

Tieta volta ao assunto da missa:

— Que droga! Eu tinha pensado passar o fim de semana em Mangue Seco, mostrar a praia a Leonora, ver se escolho um terreno para comprar. Ia combinar hoje com o comandante, ele nos convidou quando chegamos.

— Eu também vou, tia. — De calção, segurando os pés-de-pato e a máscara de mergulhador, Peto espera o irmão.

— Este sábado não vai dar jeito. Você não pode faltar na missa. Nem na entronização, foi você quem me deu o Sagrado Coração. Já pensou? São coisas santas, mais importantes do que praia e banho de mar — força Perpétua.

Antonieta controla-se, engole o mau humor. Também, que idéia a sua, vir carregada de troféus religiosos, ela que nunca fora de missa e sacristia! Culpa de Carmosina: Perpétua tem uma Santa Ceia na sala de jantar, se você trouxer um Coração de Jesus para a sala de visitas, a beata vai ficar maluca de contente. Não esqueça uma lembrança para a matriz, padre Mariano só faltou lhe canonizar no sermão em que fez seu epitáfio. Foi atrás dos conselhos de Carmô, o resultado é esse: um porre de igreja. Chegou sonhando com a praia de Mangue Seco, merda! Engole também o palavrão.

De short, à mostra as longas pernas, as modeladas coxas, a blusa amarrada sob os seios, o umbigo de fora (ai, esses costumes de São Paulo, os meninos vão perder a virgindade dos olhos! Perpétua toca com os dedos as contas do terço no bolso da saia), Leonora sorri, acalma Tieta:

— Vamos à praia noutro dia, mãezinha. Dona Perpétua tem razão, a missa é mais importante. — Sorri para Perpétua: — Mãezinha veio falando em Mangue Seco a viagem toda. Mas a missa é sagrada.

Muito bem, assim fala uma boa filha, mesmo sendo paulista, pouco atenta ao rigor do luto, aos prolongados ritos da morte, obrigatórios e rígidos em Agreste. Se Leonora se vestisse com decência, Perpétua só encontraria elogios a lhe fazer. Que necessidade tem de exibir o umbigo, que beleza existe num umbigo, pelo amor de Deus? Quem sabe, Peto poderia responder pois o olho apreciador vai e volta, das coxas para o umbigo, para a barriga de bilha, torneada.

— Tem razão, Nora. Continuo cabeçuda como uma cabra velha. Quando quero uma coisa não vejo nada em minha frente. Iremos a Mangue Seco no fim da outra semana.

Conduzidas por Ricardo — vista a batina, acompanhe sua tia — foram à tarde conhecer a casa de Elisa. Barraco de pobre, mana, caro só o aluguel. Caro? Se fosse em São Paulo… Lá, para começar, só os multimilionários moram em casas, os demais vivem atulhados em apartamentos ou apodrecem em cortiços, sardinhas em lata. Em compensação, cada apartamento mais maravilhoso, não é? O de vocês, conte… Fica para depois, com tempo, agora precisamos ir. Não antes de comer uma fruta, um doce, tomar um cálice de licor senão me ofendo. Doce de araçá, raramente se faz, delicioso! Licor de jenipapo. O que eu vou engordar, meu Deus! Gulosa, de volta aos sabores da infância, Tieta repete a dose.

Na rua, encontram Ascânio Trindade. Por acaso ou de propósito, deixou ele a prefeitura às moscas? Querem ir aonde? Tem um passeio bonito: ali adiante o rio se alarga e forma pequena bacia, reduto das lavadeiras, lugar lindo, chama-se bacia de Catarina, nome certamente posto por um literato, antepassado de Barbozinha. Ou por ele mesmo noutra encarnação. Hoje não, tem de visitar a agência dos Correios, prometeram a Carmosina. Vão ao Areópago? Ao quê? Areópago, é o apelido que Giovanni Guimarães, um jornalista da capital, botou na agência dos Correios quando esteve em Agreste: ali se reúnem os sábios. Gozado! Leonora aberta em riso, cristal a romper-se nas ruas de Agreste.

Breve parada na porta do cinema para dizer boa tarde ao árabe Chalita — ainda se lembra de mim? Quem pode te esquecer, Tieta? Sorvete de mangaba, Leonora não conhece, vai ver o que é bom. Hoje é de graça, oferta da casa: o árabe se cobra lavando a vista em Tieta e na moça. Regala-se com a visão de mil e uma noites sob o transparente tecido dos modelos, iluminados por um raio de sol. Combinação, anágua? Isso não se usa mais, peças de museu. Sutiã? Para quê, se os seios são firmes, não precisam de armação de entretela a sustentá-los? Calçola? Minúsculo tapa-sexo e basta. Viva a civilização e voltem sempre, suplica o árabe progressista.

Nas janelas, solteironas e mocinhas debruçam-se para enxergar melhor, observando cada passo, cada gesto, comentando os trajes. Você tinha coragem de usar? Eu? Acho que não. Pois eu teria, se mamãe deixasse. Tieta trouxe para Elisa uma minissaia mas ela ainda não se atreveu a estrear. Alvoroço no bar, a matilha nas portas, brechando. Até seu Manuel larga o balcão, também é filho de Deus. Leonora acha graça em tudo, soltos, o riso e os cabelos; Ascânio recolhe pela rua pedaços de cristal, recorda um verso ouvido não sabe onde: loira como um trigal maduro. Fica sabendo do adiamento da visita a Mangue Seco e é convidado para a missa pela alma do comendador. Tieta deixa-o à vontade:

— Se não quiser, não vá. Essa história de missa de finado, só por obrigação. Aliás, Felipe tinha verdadeiro horror a tudo que cheirasse a morte, defunto, cemitério, missa de sétimo dia. Pelo meu gosto ia a Mangue Seco. Mas Perpétua faz questão, paciência.

Ascânio não aprova nem desaprova, nessas divergências de opiniões entre as irmãs não dá palpite, mas quanto a ir à missa, isso com certeza:

— No próximo sábado? Comparecerei, sem falta. Já estarei de volta.

— Vai viajar? — surpreende-se Leonora.

— Para onde? — interessa-se Tieta.

— Vou a Paulo Afonso tratar do problema da luz elétrica. Estão colocando luz da hidrelétrica nos municípios de toda essa zona do estado, só deixaram de fora três cidades, uma delas é Agreste, uma discriminação sem justificativa, no meu entender. Estou vendo se consigo que voltem atrás e nosso município entre na relação dos beneficiados. Mandei ofícios para meio mundo, sem resultado. Alguns nem tiveram resposta. Decidi falar pessoalmente com o diretor da usina. Numa conversa cara a cara, quem sabe eu o convenço e boto abaixo essa injustiça.

— Vai demorar? — a pergunta de Leonora é um pedido: não demore, volte logo, estou à espera. Assim dizem os olhos.

— Não, só dois dias. Pego a marinete amanhã, amanhã mesmo me toco de Esplanada para Paulo Afonso. Fico lá o dia de depois de amanhã, quinta-feira estou de volta. Talvez com uma boa notícia para Agreste.

— Gosto de gente decidida como você — apóia Tieta: — Vá, brigue e convença o homem, traga essa luz que Agreste bem precisa.

— Vai conseguir! — exalta-se Leonora: — Vou ficar torcendo.

— Se eu já estava disposto a brigar, agora nem se fala.

Sente-se Ascânio armado cavaleiro andante, partindo para o campo de luta sob a inspiração de sua Dulcinéia. Ao voltar vitorioso, tendo convencido os frios e distantes diretores e técnicos da importância histórica e das possibilidades turísticas de Agreste, difícil tarefa, árdua batalha, colocará aos pés de Leonora o troféu conquistado: a refulgente luz da hidrelétrica em substituição à bruxuleante iluminação atual devida ao motor instalado por seu avô Francisco Trindade, quando intendente, no tempo do onça.

Leôncio, ex-soldado da polícia militar, ex-jagunço, atualmente paisano e capenga — um tiro casual na zona, há vários anos —, funcionário municipal, pau pra toda obra, de faxineiro a moço de recados, de guardião a jardineiro, surge na esquina, arrastando a perna: reclamam a presença de Ascânio na prefeitura.

— Me desculpem, preciso ir, sei de que se trata. Até logo.

— Até quinta, não é? Fico esperando — diz Leonora, os doces olhos.

— Quinta, sim. Mas, se me permitem, passo hoje à noite em casa de dona Perpétua para me despedir.

— Não precisa pedir licença, venha sempre que quiser — convida Tieta.

— Venha mesmo. Sem falta — reforça a moça.

Na esquina da praça, Ascânio volta-se, Leonora levanta a mão, acena, ele responde. Tieta se diverte:

— Já conquistou a prefeitura, hein, cabrita? Rapaz simpático.

— Um amor… — resume Nora, a voz de enleio.

 

DA POLUIÇÃO E DOS OBJETOS

NÃO IDENTIFICADOS,

CAPÍTULO MUITO INCREMENTADO

OU A VISITA AO AREÓPAGO

 

NA PORTA DA AGÊNCIA DOS CORREIOS E TELÉGRAFOS,

dona Carmosina estende as mãos em boas-vindas:

— Entrem, meninas, estava esperando.

Comandante Dário levanta-se para cumprimentar as paulistas, logo volta à leitura da notícia na primeira página de A Tarde, comenta indignado:

— Não é possível que o governo vá permitir esse absurdo. Os diretores de uma fábrica igual a essa, igualzinha, para produzir dióxido de titânio, foram condenados à prisão, na Itália. O juiz, um macho, meteu todos no xadrez.

— Fábrica de quê? Me explique, comandante.

— Estou lendo na gazeta que acaba de ser constituída no Rio de Janeiro uma empresa para montar uma fábrica de dióxido de titânio no Brasil. Uma monstruosidade.

— Por quê? Troque em miúdos.

— É a indústria mais poluidora que se conhece. Basta lhe dizer que só existem seis fábricas desse tipo em todo o mundo. Nenhuma na América, nem do Norte, nem do Sul. Nenhum país quer essa desgraça em seus limites.

— É assim?

Dona Carmosina intervém:

— Traga o recorte do Estado para Tieta ler. O Estado de S.Paulo, jornal de sua terra — ri da pilhéria —, publicou um artigo contando que um juiz da Itália condenou os diretores de uma fábrica dessas à cadeia por crime de poluição.

— Por crime de poluição? É o que se precisa fazer em São Paulo: meter um bocado de gente no xadrez antes que a cidade acabe.

— O pior — acrescenta o comandante — é que o jornal já adianta que as autoridades não vão permitir a instalação da fábrica no sul do país. Querem situá-la no nordeste. É sempre assim: o que é bom, fica no sul. Para o nordeste sobra o refugo.

— É que em São Paulo, comandante, a poluição já está de uma forma que ninguém suporta mais.

— Onde iremos parar? Felizmente, nosso pequeno paraíso privado, Agreste, está longe de tudo isso…

Leonora aproveita para o elogio:

— Mãezinha sempre me falava que aqui era bonito à beça mas não pensei que fosse tanto. É uma coisa!

— Você ainda não viu nada… — dona Carmosina se inflama. — Agreste, em matéria de paisagem, não perde nem para a Suíça. Me fale depois de ir a Mangue Seco.

— Quando vão a Mangue Seco? Ficarão conosco, na Toca da Sogra, eu e Laura fazemos questão — oferece o comandante.

— Muito obrigada. Aceito, até comprar terreno, levantar minha palhoça. Vai ser logo, logo — responde Tieta. — Tínhamos pensado ir nesse sábado, passar o domingo. Mas Perpétua encomendou uma missa para Felipe e vai entronizar o Sagrado Coração de Jesus na sala.

— Tieta trouxe um Sagrado Coração para Perpétua que é um colosso. Pode ser que na Bahia tenha outro igual mas eu duvido — conta dona Carmosina.

— Verei hoje à noite, penso ir com Laura fazer nossa visita de boas-vindas. Quanto a Mangue Seco, a casinha está às ordens quando quiserem. Lá, todo dia é dia de domingo.

O grupo aumenta com a chegada de Aminthas e Seixas. Os olhos gulosos varam a transparência dos longos cafetãs das duas elegantes. Seixas só falta babar. Aminthas pergunta ao comandante:

— Mestre Dário, que história é essa que está correndo por aí? Me disseram que apareceu um disco voador em Mangue Seco, todo mundo viu.

— Eu soube, os pescadores me contaram. Alguns garantem ter visto um objeto estranho e ruidoso sobrevoando a praia e o coqueiral. Pensei que fosse um avião mas eles juram que não, já viram passar muitos aviões, não iam se enganar.

— Devem ser os amigos de Barbozinha vindos do outro mundo para visitar nosso poeta. Ele diz que se comunica com todo o espaço, pela telepatia.

— Você brinca com Barbozinha mas ele é sincero em tudo que diz. Acredita piamente nessas coisas — atalha dona Carmosina.

— Um homem tão inteligente — lastima Seixas.

— Para mim — diverte-se Aminthas — o que os pescadores viram foi o reflexo de alguma lancha de contrabando… essa história de disco é pura tapeação.

— Não — contesta Dário. — Os pescadores não são tolos e por que haviam de querer me enganar? Estou farto de saber do contrabando e, quando acontece, é à noite. Alguma coisa eles viram e ouviram. O quê, não sei, mas bem que podia ser um disco voador. Ou você não acredita na existência deles? Eu acredito. Não nos espíritos de Barbozinha mas em seres de outros planetas. Por que só na Terra há de se encontrar vida e civilização?

A pequena Araci chega correndo:

— Dona Antonieta, sinhá Perpétua mandou chamar vosmicê e a dona moça. Seu Modesto está lá com dona Aída, pra visitar.

— Que pena, a prosa estava gostosa. Vamos, Leonora. Apareçam à noite. Até logo, comandante. Carmô, não falte.

Descem o degrau do passeio, lá se vão rua afora. O sol poente ilumina as duas mulheres, lambe-lhe os corpos e os revela doirados e desnudos, como se a luz do crepúsculo houvesse dissolvido o vaporoso tecido dos cafetãs, fascinante moda importada das terras de sonho e fantasia onde nasceu Chalita.

 

DE VISITAS E CONVERSAS,

ONDE LEONORA EXPRIME

INESPERADO DESEJO

 

A SALA DE VISITAS CHEIA, À NOITE. A PEDIDO DE TIETA,

Peto encomendara no bar volumoso carregamento de cerveja, guaraná, Coca-Cola. A tia Antonieta é o novo ídolo de Peto, desbancou os mocinhos do cinema, os heróis das histórias de quadrinhos. Sabino quebra uma pedra de gelo no quintal, enviada por Modesto Pires, do curtume. Na beira do rio, o moleque Sabino foi o único que conseguiu pescar com a vara nova, utilizando o molinete. Trouxe os peixes para Tieta e lhe pediu a bênção. Cardo e Peto vieram carregados de pitus.

A prosa se estende sem compromisso ao sabor dos assuntos mais diversos, a partir da sensação causada pelas modas de São Paulo, as perucas, a transparência dos tecidos, as calças justas, as sandálias.

Perpétua é contra cafetãs transparentes, calças coladas modelando bundas, comprimindo ancas, shorts exibindo coxas, blusas amarradas sob os peitos, umbigos de fora, condena a devassidão que vai pelo mundo:

— Podem me chamar de atrasada. Moça solteira, moderninha, vá lá que use… — extrema concessão a Leonora. — Mas mulher casada, não acho decente. Viúva, muito menos, Antonieta que me desculpe. Se eu fosse Astério, não ia deixar Elisa usar a tal minissaia que você deu a ela.

— Você encruou no passado, mana. — Antonieta desata em riso.

— Agreste inteiro vive no passado — Ascânio Trindade culpa a pasmaceira, responsável pela língua das beatas. — Até mesmo um homem viajado como o comandante é contra o progresso. Quando eu falo em turismo para reerguer a economia do município, ele fecha a cara.

— Contra o progresso, vírgula, amigo Ascânio. Não confunda as coisas. Sou a favor de tudo que seja útil a Agreste mas sou contra tudo que venha roubar nossa tranqüilidade, essa paz que não tem preço que pague. Não tenho nada contra a minissaia desde que a pessoa a usá-la tenha condições para isso. Numa mulher de certa idade já não cai bem.

— Por exemplo? — desafia dona Carmosina.

— Cito o exemplo de duas lindas senhoras aqui presentes: Laura e Antonieta. No meu entender, já passaram da idade.

Dona Laura nunca pensou em minissaias mas ameaça o marido, bem-humorada:

— Não sabia que você era tão entendido em minissaia, Dário! Até parece que já viu muitas… Pois eu vou tomar a de Elisa emprestada e saio desfilando por aí, você vai ver.

— Para mim não é uma questão de idade e, sim, de físico. Minissaia não vai com meu corpo, com minhas abundâncias — lastima-se Tieta.

Barbozinha, a fumar literário cachimbo, quase sempre apagado, consola:

— Tens o tipo clássico, Tieta. A beleza suprema, Vênus, era assim. Não suporto esses esqueletos que andam exibindo os ossos. Não me refiro a você, Leonora. Você é uma sílfide.

— Obrigada, seu Barbozinha.

— Infelizmente, meu poeta, ninguém pensa mais como você. És meu único eleitor. — Tieta volta-se para Ascânio — Turismo, em Agreste? Acha possível?

— E por que não? A água é medicinal, os exames já foram feitos, Modesto Pires mandou as amostras para o genro que é engenheiro da Petrobras. Os resultados foram formidáveis, tenho cópia na prefeitura se quiser ver. Modesto Pires está estudando a possibilidade de engarrafamento. O clima é o que se vê, cura qualquer doença. Em matéria de praia, onde mais bonitas?

— Isso é verdade, praia igual à de Mangue Seco não vi em lugar nenhum. Copacabana, as praias de Santos, nem chegam perto. Mas daí… Enfim, não digo nada, não quero pôr água fria em suas esperanças. É preciso, porém, muito dinheiro, muito mesmo…

— Já disse a Ascânio: deixe Mangue Seco em paz enquanto a gente viver… — resume o comandante.

— Vou comprar um terreno lá, fazer uma casinha de veraneio. Um dos motivos de minha viagem foi esse: adquirir terreno em Mangue Seco e uma casa aqui na cidade, quero terminar meus dias em Agreste. Enquanto não vier de vez, pai e Tonha ficam morando na casa, tomam conta. Vim por isso e para tirar esta pobre da fumaceira de São Paulo — aponta Leonora. — Anêmica como é, naquela podridão.

— É verdade, Tieta, o que os jornais dizem? Que a poluição em São Paulo está ficando intolerável?

— Uma coisa medonha. Tem lugares, nas zonas mais afetadas, onde as crianças estão morrendo e os adultos ficando cegos. A gente passa dias e dias sem enxergar a cor do céu.

— Com tudo isso, era lá que eu queria viver — desafia Elisa.

Tímida, Leonora contradiz, a voz mansa:

— Pois eu adoraria viver aqui. Se pudesse, não saía daqui nunca mais. Aqui eu respiro, vivo, sonho. Lá não, lá se trabalha noite e dia, dia e noite. Trabalha e morre.

Ascânio tem vontade de pedir bis: repita essas palavras, são favos de mel. Ah!, se ao menos ela fosse pobre…

Tão embevecido a contemplá-la, nem toma conhecimento do debate acalorado e filosófico, empolgante, travado entre dona Carmosina, Barbozinha e o comandante Dário sobre o objeto não identificado, visto pelos pescadores quando sobrevoava as dunas de Mangue Seco e o coqueiral sem fim. Barbozinha se exalta, em explicações esotéricas, enquanto o comandante exibe vasta cultura de ficção científica e dona Carmosina fala em ilusão coletiva, fenômeno corriqueiro. O corte da luz, às nove horas, o badalar do sino da matriz mandando o povo ordeiro para a cama, interrompe a discussão, todos se põem de pé, em despedida. Mas Tieta rompe a tradição:

— Nada disso, não são horas de ninguém dormir. Vamos conversar. Perpétua, mande acender as placas. Onde já se viu dormir a essa hora? Ainda bem que o nosso jovem prefeito vai trazer a luz de Paulo Afonso. Para acabar com esses horários de galinheiro. Vamos tomar mais uma cervejinha, um refrigerante. A prosa está tão boa…

Rejubila-se Ascânio, prefeito ainda não, apenas provável candidato. Volta a sentar-se. Mas o comandante e dona Laura preferem deixar a continuação da conversa para o dia seguinte e levam dona Carmosina, vão acompanhá-la até em casa. Do bar, chegam Astério, Aminthas, Osnar.

— Cuidado, prima, para o lobisomem não lhe pegar — recomenda Aminthas a dona Carmosina.

— Se assunte, malcriado.

Elisa e Peto acompanham o grupo dos sonolentos, de má vontade. Elisa arvora ar de vítima, melancólica; Peto pensa em fugir mais tarde em busca de Osnar. Prometeu levá-lo à caça, não cumpre o prometido.

Tieta convida os dois compadres:

— Entrem, não fiquem aí na porta. Venham tomar um gole de cerveja.

Osnar e Aminthas são notívagos, aceitam. Ricardo acabou de acender e colocar lampiões de querosene na sala. Perpétua ordena-lhe:

— Cardo, vá dormir. Já passou da hora.

— Boa noite para todos, com a graça de Deus. A bênção, mãe.

Perpétua dá-lhe a mão a beijar, o rapaz dobra o joelho em ligeira genuflexão.

— A bênção, tia.

— Venha aqui para eu te abençoar. Nada de beija-mão. Meu beijo, quero no rosto. Dois, um de cada lado.

Agarra com as mãos a cabeça do sobrinho enfarpelado na batina, beija-o nas duas faces, beijos estalados, deixam a marca do batom.

— Meu padreco!

Também Perpétua se despede:

— Boa noite. Fiquem à vontade. A casa é sua, Tieta.

Tão gentil, nem parece a mesma, irreconhecível.

— Tieta está domando a fera… — confia Osnar a Aminthas enquanto as irmãs trocam abraço e beijo. — Você já tinha visto dona Perpétua beijar alguém?

— Perpétua não beija, oscula — retifica Aminthas.

 

INTERREGNO ONDE O AUTOR, ESSE

PILANTRA, EXPLICA SUA POSIÇÃO

OPORTUNISTA

ENQUANTO ASCÂNIO TRINDADE SE APAIXONA,

ENQUANTO Elisa e Leonora sonham uma com São Paulo outra com a paz de Agreste, aproveito para referir-me à notícia publicada nas colunas de A Tarde, lida pelo indignado comandante Dário. Pobre nordeste!, exclamou o bravo marujo ante a possibilidade da poluidora indústria estabelecer-se em nossas plagas onde já temos seca e latifúndio, o hábito da miséria, o gosto da fome e as famosas trevas do analfabetismo antes tão citadas hoje esquecidas: não se falando nelas talvez desapareçam na luz dos tempos novos. Jogar sobre tudo isso dióxido de titânio parece-lhe um exagero antipatriótico. Opinião dele, da qual, como se verá, há quem discorde, muitos e importantes personagens, alguns tão poderosos que me apresso a esclarecer minha posição: sou neutro. Contaram-me o caso quando aqui cheguei, eu o passo adiante, sem opinar.

Assim, por exemplo, a empresa referida na notícia e no comentário do jornal pode ser a mesma que deu lugar a tanta discussão, dividindo o povo em dois campos, mas pode não ser ela, e sim outra, pois nunca ficou completamente esclarecida a origem da sociedade nem a dos diretores, dos patrões verdadeiros. Como sabemos, o dr. Mirko Stefano não passa de um testa-de-ferro a comandar relações públicas e privadas, assinando cheques, abrindo garrafas de uísque em rodas alegres, na gentil companhia de permissivas e agradáveis dondocas, acendendo esperanças e ambições, amaciando, passando vaselina para permitir mais fácil penetração de idéias e interesses.

Saiu uma notícia no jornal, em sua divulgação não tenho a menor responsabilidade, não transcrevo sequer o título registrado pela sociedade em causa, nem o dela nem o de nenhuma outra. Se a fabricação de dióxido de titânio faz economizar divisas aos cofres da nação e cria mercado de trabalho para uns quinhentos chefes de família — quinhentos vezes cinco são duas mil e quinhentas pessoas vivendo da empresa —, como acusar de falta de patriotismo quem em tal indústria coloca seu dinheiro e aqueles a apoiar suas pretensões? Para provar-lhes o patriotismo e o desinteresse, argumentos não faltam, de todos os tipos e para todos os gêneros, inclusive aquele a convencer o nosso ardente Leonel Vieira, plumitivo cuja integridade ideológica exigiu que o cheque viesse acompanhado de razões sólidas. A fábrica ajudará a formação do proletariado, classe que, amanhã, bandeiras reivindicativas em punho, exigirá a posse do poder. Um teórico do talento de Leonel Vieira não pode desprezar tal argumento. Como se vê, de todos os tipos e para todos os gêneros. Sem dióxido de titânio não há progresso.

Não faltam igualmente razões aos que se opõem, pois na fumaça, nos gases expelidos, no dióxido de enxofre pairam a destruição e a morte. “A presença de so2 na atmosfera fabril é altamente danosa à saúde dos operários e dos habitantes que estão dentro do raio de diluição do gás”, assim leu o comandante no comentário do jornal. Morte para a flora e para a fauna, morte para as águas e para as terras. Pequeno ou grande, é o preço a pagar.

Não que eu fique indeciso: fico neutro, coisa muito diferente. Não me meto na briga, quem sou eu? Desconhecido literato nas restauradas ruas antigas da Bahia, hoje atrações turísticas, enfermo a buscar saúde no clima do sertão, não me cabem conclusões. Nesse interregno, nessa pausa na narrativa da chegada a Agreste de Tieta e de Leonora Cantarelli, enquanto Ascânio discute em Paulo Afonso, antes da missa pela alma do comendador, nesse interregno, repito, quero apenas colocar aqui uma afirmação que, em geral, se inscreve no início dos livros de ficção: toda semelhança é mera coincidência. Sem esquecer outro lugar-comum: a vida imita a arte. Falta-me arte, certamente, mas não estou disposto a responder a processo por crime de calúnia ou a ser agredido por um pau-mandado de Mirko Stefano, melífluo e untuoso, quase sempre. Colérico e violento, se preciso.

 

NOVO FRAGMENTO DA NARRATIVA,

NA QUAL — DURANTE A LONGA VIAGEM DE ÔNIBUS LEITO DA CAPITAL DE SÃO

PAULO À DA BAHIA — TIETA RECORDA E CONTA EPISÓDIOS DE SUA VIDA À BELA LEONORA CANTARELLI

 

— FUI GULOSA, GULOSA DE HOMENS, QUANTO MAIS

MELHOR. Pai tinha muitas cabras, bode inteiro só um, Inácio. Eu era cabra com vários bodes, montada por esse ou por aquele, no chão de pedras, em cima do mato, na beira do rio, na areia da praia. Para mim, prazer de homem, só isso e nada mais: deitar no chão e ser coberta. Na mesa do velho, sempre a mesma coisa, feijão, farinha, carne-seca. Quem primeiro me ensinou os pratos finos, os que aumentam a gula em vez de saciá-la, foi Lucas, na cama do finado doutor Fulgêncio.

Jovem médico em busca de trabalho, dr. Lucas de Lima bateu-se para Agreste ao saber do falecimento do dr. Fulgêncio Neto. A viúva o hospedou na alcova pois nunca mais ali dormira, desde a morte do marido. Mostrou-lhe o gabinete, as notas do meticuloso clínico sobre cada cliente. Antigamente, antes de Judas descalçar as botas em Agreste, contaram-se até cinco médicos exercendo na cidade, ganhando bom dinheiro, construindo casas e pecúlio. Foram morrendo com o lugar, sem substitutos. Ficara dr. Fulgêncio, sozinho, no lombo do cavalo, no banco da canoa, tantas vezes de noite. A simples presença do ancião com a maleta preta bastava para aliviar dores e curar enfermos. Remédios simples e poderosos: óleo de rícino, Maravilha Curativa, Saúde da Mulher, Emulsão de Scott, Bromil, chá de sabugueiro. Aplicados com economia: o melhor remédio eram as águas e o ar de Agreste, a brisa do rio, o vento do mar. Dona Eufrosina mandara buscar as malas do doutor na pensão de dona Amorzinho. Não iria deixar um colega do marido pagando hospedagem. Cozinhou para ele galinha de parida, prato preferido do dr. Fulgêncio, escalfado de pitu com ovos, carne-de-sol com pirão de leite. Na falta de doentes, os petiscos, os doces, as frutas.

Nem Tieta o segurou ali, naquele mundo saudável e agonizante. Talvez ficasse se a natureza, o rio, o mar, a praia selvagem significassem alguma coisa para ele. Outra, sua paisagem: notívago, boêmio nos castelos e cabarés da capital. Médico em Agreste não pode ser solteiro, deve ter esposa, constituir família, não tem direito a freqüentar casa de mulher-dama, a entregar-se à farra.

— Lucas tinha medo da língua das xeretas, todas de olho nele, dia e noite. Querer me agarrar, ele queria. Mas não na beira do rio, nem arriscar uma fugida a Mangue Seco. Quando eu soube que dormia na alcova, na cama do doutor Fulgêncio, ri e disse: deixe a janela aberta. Saltar janela sem ser vista, sem fazer barulho, era comigo.

Quando Lucas se deu conta, Tieta estava na cama, estendida no colchão de lã de barriguda, afundando. Mole, não tinha a solidez do chão. Ela se abriu para ser montada.

— Pra ser coberta, outra coisa não sabia. Quando ele veio com os dedos me tocar, com a boca me beijar o corpo inteiro, a lâmina da língua e o hálito quente, quis impedir, sem entender. Com ele aprendi, na cama do doutor e dona Eufrosina, os molhos e os temperos, e soube que homem não é apenas bode. Com ele virei mulher. Mas penso que até hoje há em mim uma cabra solta que ninguém domina.

Nem mesmo Tieta o reteve. Quando no meio da noite ela chegou, deu com a janela fechada. Lucas beijara a face maternal de dona Eufrosina, vou-me embora enquanto é tempo. Apesar de Tieta, engordara quilos e começava a gostar daquela pasmaceira, fugiu antes que fosse tarde.

— Já não fui a mesma, diferente a minha gula. Não demorou, veio o caso do caixeiro-viajante; quando ele apareceu rondando a casa, Perpétua pensou que fosse por ela, a infeliz. Logo se deu conta, seguiu meus passos. O velho me quebrou no pau e eu fui embora, só queria reencontrar Lucas em qualquer parte da Bahia. Não vi ele nunca mais, em troca fiz a vida no interior, vida de rapariga, em Jequié, em Milagres, em Feira, por aí afora. Eu te digo que escola de verdade é casa de mulher à-toa no sertão. Aí, sim, se aprende o ofício. Quebrei a cabeça nesse mundéu até que me toquei pro sul, cansada de sofrer. Queria a boa vida, comer do bom e do melhor, beber champanha, provar as iguarias do homem. Não feijão e carne-seca.

— Quem me dera o feijão e a carne-seca, um filho, um casal. Era tudo o que eu queria — disse a bela Leonora Cantarelli.

— Cada qual carrega seu castigo, nem as cabras são iguais em seu desejo, quanto mais as criaturas. Conheço cabra e gente, posso te dizer.

 

DA INSÔNIA NO LEITO DE DONA

EUFROSINA, POVOADA DE EMOÇÕES;

SENTIMENTOS E MEMÓRIAS

 

NA PRIMEIRA NOITE, VENCIDA PELO CANSAÇO DA

VIAGEM de marinete, rude prova, das emoções da chegada, após retirar a maquiagem, Tieta arriara na cama e dormira de um sono só, reparador. Há quantos anos não se recolhia às nove da noite? Ainda mocinha, já atravessava a madrugada nos escondidos de Agreste.

Na segunda noite, porém, quando por volta das onze as últimas visitas despedem-se, Tieta prossegue acesa, sem sono. Na porta, ela e Leonora renovam os votos de êxito a Ascânio na missão cívica a conduzi-lo a Paulo Afonso.

— Vá e vença… — deseja Tieta.

— E volte… — acrescenta Leonora.

Aminthas declara-se pessimista sobre os resultados: luz da hidrelétrica? Bobagem, nem pensar. Terra esquecida dos políticos, município de eleitorado ralo, sem prestígio, sem um chefe capaz de falar grosso, de influir na diretoria, de manobrar junto ao presidente da empresa e das autoridades federais, Agreste está destinado a continuar com a escassa luz do motor — enquanto o motor ainda funciona. Depois, voltaremos aos fifós e placas, prevê, em alarmante presságio. Ascânio merece todos os louvores, sujeito retado, não se dá por vencido. Mas não tem prestígio político, força junto aos grandes, essa a verdade. Não é mesmo, Ascânio? De fato, concorda o secretário da prefeitura. Nem por isso deixará de tentar.

— Me perdoem, senhoras e senhores, mas eu sou contra essa luz de Paulo Afonso, forte, brilhante, iluminando as ruas a noite inteira — proclama Osnar. — Um desastre para os pobres caçadores noturnos, vai afugentar a caça…

— Que caça? — quis saber Leonora.

— Descaração de Osnar, minha filha. Com caça ele quer dizer mulher, esses debochados ficam procurando mulher nas ruas…

— A caça já é vasqueira, imagine com essa iluminação toda…

Em risos se separam, Barbozinha declamando farrapos de poemas de amor, de sua autoria, compostos todos, segundo diz, para uma única musa, adivinhem quem? Tieta eleva os olhos para os céus, põe a mão sobre o coração, suspira, gaiata. Perdem-se as visitas na escuridão.

Despede-se também Leonora:

— Estou morta de sono. Boa noite, mãezinha, estou adorando.

— Ainda bem. Tinha medo que você se chateasse.

No quarto, Tieta abre a janela sobre o beco, espia a noite, o céu de estrelas. Nos tempos de moça, sabia o nome de todas elas e gostava de fitá-las na hora do amor, quando o leito era o capim da beira do rio. Durante quantas noites pulara aquela janela para encontrar Lucas?

Apaga o lampião, deita-se, cadê o sono? Ali está ela, outra vez em Agreste, em busca da moleca Tieta, pastora de cabras. Andara longo caminho, pisara pedras e cardos, rompera os pés e o coração, antes de começar a subir, a ganhar, juntar e aplicar dinheiro sob a orientação de Felipe, a ter propriedades e a ser senhora de seu nariz. Durante todos esses vinte e seis anos, imaginara a volta a Agreste, sonhara com esse dia.

Recorda o embaraço do desembarque, aflora-lhe aos lábios um sorriso: a família de luto fechado, ela ostentando blusa e turbante vermelhos, Leonora em delavê azul, esposa e filha sem coração, desnaturadas. Ao chegar em casa, dissera em brusca explicação: para mim luto se carrega é no peito, coisa íntima; a dor da ausência não se exibe, nem a saudade; assim eu penso mas cada um deve pensar como quiser e agir de acordo. Fim de papo, Perpétua. Zé Esteves apoiara em virulenta língua de sotaque: muito bem dito, minha filha, luto não passa de hipocrisia; eu só botei essa roupa preta para não ser tachado de cabra ruim, mas se nem conheci o teu finado por que havia de pôr luto? Só porque era rico? Fosse ou não da boca para fora, a própria Perpétua concordara: cada qual pensa à sua maneira e age de acordo. A dela era o respeito aos costumes antigos; vestida de negro porque com a morte do major — Deus o tenha em sua guarda! — perdera o gosto pela vida. Mas não criticava Antonieta, respeitando seu ponto de vista; não sendo nenhuma ignorante sabe que em São Paulo ninguém liga para esses hábitos do passado.

Pobre Perpétua! O que já engoliu de sapos de ontem para hoje! Faz visível esforço para mostrar-se atenciosa, tolerar a invasão de sua casa, a violação de tantos preconceitos. Antonieta não pode imaginá-la casada; pena não tê-la visto com o marido. Como se comportava? Precisa perguntar a Carmosina. Beijavam-se em público? Certamente, não. Percebera Aminthas segredando a Osnar que Perpétua não beija, oscula. Ao major, oscularia ou, perdida a tramontana, aplicava-lhe uns chupões? Na cama, como seria? Não passavam, sem dúvida, nos embates noturnos, do clássico papai-e-mamãe. Ou passariam? Nesse particular, o impossível acontece, Tieta pode dar testemunho. Devia ser algo monumental, Perpétua embolada com o marido naquela cama, sobre o colchão de lã de barriguda.

Tieta ri baixinho, imaginando Perpétua de pernas abertas por baixo do major, visão insólita. Esquecendo-se de que, se não fosse a rápida passagem de Lucas por Agreste, tampouco ela provaria ali outro gosto de homem além do trivial. Acontecera também naquela cama de casal, de dona Eufrosina e do dr. Fulgêncio, louca coincidência. Durara pouco, algumas noites tão-somente, todas elas por inteiro de delírio. Pela janela aberta penetrava o céu de mil estrelas. No seu xibiu nascia a estrela da manhã.

Quando pela primeira vez pulou a janela, invadiu o quarto, subiu na cama e suspendeu a saia, era uma cabra em cio, faminta de homens, ignorante de tudo o mais. Lucas entendeu e riu. Vou te ensinar a amar, prometeu e ensinou do a ao zê, passando pelo ipsilone.

— Não sabe como é, o ipsilone? É o melhor de tudo, vou lhe mostrar.

No correr da vida tão vivida, Tieta não voltara a encontrar quem conhecesse a prática sensacional do ipsilone; a muitos ensinara, trunfo irresistível. Nas ruas da Bahia, procurara Lucas, inutilmente. Indagou de muitos: Conhece doutor Lucas? Lucas de quê? Não tivera curiosidade de perguntar, sabia-o apenas médico e bom de cama. Ninguém pôde lhe informar.

Educara-se em curso intensivo naquele leito de dona Eufrosina, onde depois Perpétua e o major dormiram e fizeram filhos. Burro como um toco de pau, escrevera Carmosina na carta sobre os presentes, a propósito do falecido cunhado. Se o major fosse vivo, você podia trazer para ele uma cangalha, ia-lhe bem. Curto de inteligência mas bem-dotado de físico, um tipão: moreno carregado na cor, passo militar, e que apetite! Capaz de traçar Perpétua, carne de pescoço! Tanta moça dando sopa em Agreste, qualquer delas feliz se arranjasse casamento, fosse com ele ou com quem fosse, desde que vestisse calças, e o obtuso escolhe, prefere, leva ao altar a beata Perpétua, aquele estrepe, donzela encruada, cara de prisão de ventre. Mais estranho ainda, foram felizes e o luto que ela enverga, fechado e exposto, nada tem de hipócrita, reflete sentimento verdadeiro, dor profunda.

Deus tivera pena dos meninos, contara Carmosina na carta relatório, de tanta utilidade: saíram ao pai na parecença e no caráter, alegres, cordiais, simpáticos, da mãe herdaram somente a inteligência. Perpétua pode ter todos os defeitos, mas não é tapada, sabe raciocinar e agir, poço de ambição.

Tieta pensa nos meninos, gosta dos dois. Quando decidira a viagem, pensava que iria se apegar ao pequeno de Elisa, adorava crianças. Mas esse morrera, Carmosina explicara na carta o motivo do silêncio da irmã — a culpa é sobretudo minha, melhor dito da pobreza; sem a ajuda mensal, Elisa se encontraria privada de quase tudo, mentiu sob conselho meu. Tieta perdoara mas não esquecera. Sobraram os dois de Perpétua: no leito perseguindo o sono, a tia com os sobrinhos.

O pequeno, um malandro, malicioso, sabidíssimo. Não tira os olhos dela e de Leonora, medindo as coxas desnudas, bispando nos decotes as curvas dos seios. Ainda não atingiu a idade mas para isso haverá limites rígidos, realmente?

Em troca, Ricardo é exemplo de recato e pudicícia, vive desviando a vista, com medo de pecar, violentado coroinha. Coroinha, não, seminarista, destinado ao serviço de Deus. Tamanho corpanzil e de camisolão! Tieta recorda e morde os lábios.

Um frangote, não chegou ao ponto exato. Se fosse mulher, estaria de pito aceso, homem tarda mais, sobretudo se lhe enfiam uma batina, capam-lhe os bagos com o temor de Deus, ameaçam-no com as chamas do inferno. O pequeno vai desarnar cedo, é um corisco; o destino de Ricardo é permanecer donzelo, que maldade!

Fosse mais taludo, a tia lhe ensinaria o que é bom. Está, porém, ainda muito verde. Tieta jamais gostou de homem jovem, preferindo-os sempre mais velhos do que ela. Bode bom de cabra é aquele que tem idade e experiência.

 

DA TRISTE VOLTA DO CAVALEIRO

ANDANTE, ESCORRAÇADO,

E DOS TELEGRAMAS ENVIADOS POR

TIETA MOTIVANDO COMENTÁRIOS,

HIPÓTESES E APOSTAS — PRECEDIDOS, VOLTA E TELEGRAMA, DO DIÁLOGO

ENTRE OSNAR E DR. CAIO VILASBOAS

QUE POR FRASCÁRIO E INÚTIL NÃO

DEVIA FIGURAR EM OBRA LITERÁRIA

PRETENSAMENTE SÉRIA

TIETA E LEONORA AGUARDAM A CHEGADA DA

MARINETE na agência dos Correios. Esperar a marinete, assistir ao desembarque dos passageiros, é das mais excitantes diversões de Agreste. Quando o atraso é grande, a espera torna-se por vezes enfadonha mas, em compensação, não se paga nada. Há sempre um grupo de vadios rondando a porta do cinema onde Jairo estaciona o glorioso veículo. Outros ficam de tocaia no bar, os ilustres batem papo com dona Carmosina.

Continuar: parte 3 de 5