Tieta do Agreste
Quarto episódio
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
— E mais um bode, um bodastro bem inteiro, parecido com Inácio, tu te recorda dele? Nunca mais houve um bode igual aqui em Agreste.
— Se me recordo? Botei o nome dele em minha biboca: Curral do Bode Inácio. Ele não atendia a ninguém, nem a vosmicê, mas vinha comer na minha mão. Então, o pai quer ter terra e rebanho, de novo. A gente pode pensar nisso. Ou vosmicê já tem alguma coisa em vista e veio de trato feito?
— Ninguém pode lhe esconder nada, minha filha, você nasceu inteligente, saiu a mim. Elisa é tola, saiu a Tonha. Perpétua é enrolona e tratante…
O velho ri, riso encatarrado, de fumo de corda, cavo e grosso, satisfeito e cúmplice. A areia voa sobre eles, entranha-se nos cabelos anelados de Tieta, na crespa carapinha de Zé Esteves.
— Guardei todos os meses uma parte do dinheiro que tu mandava, tirando o bastante para o aluguel e para a comida, juntando o resto na idéia de um dia comprar uma nesga de terra e um par de cabras. O que juntei dá para pagar bem mais da metade do que Josafá está pedindo pela criação de Jarde. Mas ele quer tudo à vista, não fia nem um vintém. — Acrescenta, para animá-la: — Vendo o dinheiro vivo, é capaz de fazer uma redução.
— Quanto falta, pai?
Tieta pensa na maleta, entupida de notas quando desembarcou, agora quase vazia. Fizera despesas grandes em Agreste, comprara uma casa, construíra outra, adquirira móveis, encomendara na Bahia banheiras, latrinas e espelhos, ajudara meio mundo. Um pedaço de terra, cabras e um bode inteiro para alegrar os últimos anos da vida do velho Zé Esteves, dinheiro jogado fora. Não já lhe deu segurança na velhice, não vai tirá-lo do buraco em que vive para residir em casa confortável, para Agreste luxuosa? Ainda quer mais? Um abuso. Tieta não gosta de abusos nem é de desperdícios.
Reflete-se a aflição no rosto súplice do velho, ali parado, à espera da resposta, no alto das dunas de Mangue Seco, nas mãos o bordão do tempo em que possuía rebanho grande e impunha sua vontade às filhas baixando-lhes nas pernas e nas costas a taca de couro cru e aquele mesmo cajado de pastor. Ao senti-lo agoniado, Tieta recorda Felipe a lhe explicar quanto é mais profunda e pura a alegria de dar do que a de receber, quando, para satisfazer-lhe a fantasia e a vaidade, comprava-lhe caras e absurdas inutilidades. Felipe lhe ensinara o gosto singular de fazer os outros felizes. Se fosse necessário, descontaria um cheque com Modesto Pires, o dono do curtume se pusera às ordens para o caso dela vir a necessitar de dinheiro líquido.
— Pois vá e feche o negócio, pai.
Zé Esteves ficou mudo e por um átimo a face se lhe contraiu num ríctus doloroso, tanta alegria semelhando dor aguda. Empunha o bordão, num esforço levanta-se e desce das dunas com a filha ao lado, ela sorrindo contente ao vê-lo sem palavras. Andam juntos até a praia onde o barco de Pirica estava à espera. Antes de embarcar, o velho tenta beijar as mãos da filha mas Tieta não consente. O ruído do motor dando a partida foi abafado por outro muito maior: um helicóptero, vindo do mar, sobrevoa o coqueiral, tão baixo a ponto de se poder ver três pessoas na cabina, duas delas de binóculo examinando os arredores.
Ao chegar a Agreste, Zé Esteves não parou sequer em casa, tampouco na casa nova para ver o andamento das obras, nem no bar para contar do helicóptero. Do desembarcadouro saiu direto para a estrada de Rocinha, tomando pela terceira vez no mesmo dia o caminho das terras de Jarde. Apoiava-se no cajado, a subida das dunas deixara-lhe as pernas trôpegas e a respiração curta.
Antes de entrar no assunto, relatou a Jarde e Josafá a aparição da máquina voadora, os homens de binóculo especulando os terrenos do coqueiral de Mangue Seco. Josafá ouviu atento mas não comentou, Jarde disse:
— É o pessoal da tal fábrica que acaba com os peixes. Não soube?
Mas Zé Esteves nem respondeu, ocupado em regatear o preço com Josafá; obteve pequena redução. Acertados os detalhes — ainda naquela tarde mandaria Pirica novamente a Mangue Seco com um recado para Tieta por causa do dinheiro a completar — sem poder esconder a satisfação foi com Jarde e Josafá ver as cabras no cercado. Enquanto discutiram, haviam tomado uns tragos de cachaça para cortar o cansaço de Zé Esteves e desanuviar o rosto triste de Jarde.
No curral, voltou a admirar o pai do rebanho, bode novo e bonito, de avantajado porte e berro forte, de nome Seu Mé. Josafá puxou o animal pelos chifres para que Zé Esteves melhor o observasse. Ao comentar-lhe as trouxas, quimbas de respeito, o novo dono abriu na gargalhada, o homem mais feliz do mundo. Tão feliz que lhe faltou a respiração; não cabendo no peito a alegria, o coração falhou sob o peso imenso.
Rindo estava, rindo arriou no chão, a mão estendida para o bode, apontando-lhe os bagos; assim contara Jarde a Astério Simas ao lhe entregar o corpo do sogro.
Ia o velório em meio, entupida a pequena sala da casa de Astério, gente conversando na calçada, quando, acompanhada por Ricardo, pelo comandante Dário e por dona Laura, Tieta chegou de Mangue Seco onde a tinham ido prevenir.
— Teve o troço no meio da gaitada, nem sentiu. — Astério repete à cunhada os detalhes ouvidos de Jarde e Josafá.
— Morreu de alegria… — diz Tieta.
Naquela hora não sabia ainda da participação — indireta — da Brastânio na morte do velho Zé Esteves. Precedida pelo cunhado, anda para o caixão, se abraça com Tonha. As irmãs acorrem, alguém acorda Peto. Também Leonora se aproxima do grupo familiar e beija mãezinha.
Para os parentes de Agreste a morte de Zé Esteves é uma carta de alforria. Tieta, porém, reencontrara o pai há apenas um mês. Durante vinte e seis anos não o vira, dele não sofrera agravo desde a surra e a expulsão distantes e, nesses dias em Agreste, divertira-se com seus repentes, alegrando-se ao vê-lo chegar mascando fumo, ranzinza e implicante, mas ainda capaz de ambição, de projetos e de alegria, sabendo rir, insolente comandante de cajado em punho. Reconhecia-se no velho, tanto se pareciam pai e filha.
Astério enverga cara compungida, Elisa chora aos soluços, Perpétua enxuga os olhos com o lenço negro, clama aos céus a dor de filha inconsolável. Tieta não chora nem eleva a voz. Passa de leve a mão no rosto do pai, adusta face de pedra, escura. Das três irmãs, somente ela perdera bem precioso, ente querido, somente ela está órfã. Ela e Tonha, a desvalida Tonha.
Morrera rindo para o bode, feliz com suas novas cabras, em seu reconquistado pedaço de terra. Tieta se apodera do bordão abandonado a um canto da parede, anda para o passeio onde a conversa corre animada como convém a uma boa sentinela.
ONDE SE ENTERRA O VELHO ZÉ ESTEVES, LIVRANDO DE SUA RÚSTICA E INSOLENTE PRESENÇA AS APRAZÍVEIS PÁGINAS
DESTE EMOCIONANTE FOLHETIM
O ENTERRO DE ZÉ ESTEVES SERVIU PARA PROVAR O
PRESTÍGIO DE TIETA. Tivesse o velho batido as botas antes dela voltar à cidade, paulista, viúva e rica, e, além da família, talvez o acompanhamento não reunisse sequer uma dúzia de pessoas.
Devido à estada de Tieta transformou-se num acontecimento. Antes da saída do féretro, padre Mariano celebrou missa de corpo presente em casa de Elisa, rogando a Deus receber em seu seio aquela alma, amparando-a com sua infinita misericórdia. De muita misericórdia precisa a alma de Zé Esteves, pensa o padre enquanto pronuncia palavras de louvor e sentimento. Buscou qualidades do finado a elogiar e, não as encontrando, elogiou as filhas, possuidoras as três de virtudes peregrinas, citando a devoção de Perpétua, um dos pilares da paróquia, modelo de mãe católica, a modéstia de Elisa e seu devotamento ao marido, esposa exemplar e, por fim, os excelsos predicados de Antonieta, cujo “cônjuge portara, devido a méritos excepcionais, título e consideração do Vaticano, concedido pelo Pai da Cristandade, Sua Santidade o papa”, o que a fazia pessoa da Igreja. Com sua frutuosa visita, propiciara a Agreste benfeitoria de incalculável valor, a luz de Paulo Afonso, e à matriz concedera a nova instalação elétrica. Dera, ademais, heróica prova de dedicação e amor ao próximo, atirando-se às chamas, com risco de vida, para salvar de morte horrível uma pobre anciã. Pouco faltou para os assistentes aplaudirem a eloqüência do reverendo na exaltação das virtudes das irmãs Esteves, a Batista, a Simas e a Cantarelli, da última, as virtudes e os feitos.
A população compareceu em massa. Nas alças do caixão, além de Astério, os notáveis da cidade: o vate Barbozinha, Modesto Pires, o comandante, dr. Vilasboas, Osnar, Ascânio Trindade. Ascânio apresentara pêsames em nome do padrinho, coronel Artur de Figueiredo, prefeito em exercício que se deixara ficar na Tapitanga. Não comparece a enterro de velho. Morte e funeral de menores de sessenta anos não lhe fazem mossa. Mas falecimento de ancião deixa-o amofinado. Manda pedir desculpas às irmãs e a Astério, aparecerá depois para as condolências.
Do bolso de Ascânio, sobram as páginas dos jornais enviados pelo dr. Mirko Stefano. Pretende esfregá-los nas fuças do comandante, fazendo-o engolir o insulto, a acusação de desonestidade. Esfregar, engolir: força de expressão. Tais pretensões não implicam em violências físicas e sim em reparação moral. Segurando a alça do caixão, ajudando a depositar na cova o corpo de Zé Esteves, Ascânio Trindade estufa o peito, eleva e exibe o altivo penacho de capitão dos mosqueteiros de Agreste, D’Artagnan da aurora.
DA PRESSA E DA AMBIÇÃO DE
LUCRO, CAPÍTULO ONDE O COQUEIRAL SE VALORIZA
EM CASA, APENAS CHEGAM, ANTES MESMO DE
TROCAREM DE ROUPA, Tieta com urgência de tirar o vestido negro e quente, Perpétua, fazendo uma pausa nas lamúrias, afirma:
— Agora, temos de tratar da herança.
— Herança? — surpreende-se Tieta. — O velho não deixou nada.
— Não deixou? É o que você pensa. Todo mês ele encafuava o dinheiro mandado por você, menos um pingo de nada para a feira e o aluguel. Dava sumiço no resto. Nunca tirou um tostão para oferecer um presente a mim ou a Elisa, aos netos. Só fazia visita na hora do almoço ou do jantar, você não reparou? Deve ter muito dinheiro escondido.
Economia de mais de dez anos, uns doze, bolada respeitável. Para fazer o que, com tanto dinheiro? Perpétua se exalta ao contar, a voz desagradável, sibilante, ainda mais ríspida devido ao tema da conversa:
— Várias vezes perguntei a ele o que pensava fazer com esse dinheiro, me respondia que eu fosse me meter com minha vida. Aconselhei a colocar na Caixa Econômica ou a botar na mão de seu Modesto, rendendo juros. Não quis, não tinha confiança em ninguém, muito menos em banco. Penso que guardava sem necessidade — baixa a voz —, de ruim que era, Deus me perdoe.
— Tenha piedade, Perpétua. Não faz ainda uma hora que acabamos de enterrar o velho; antes de pensar nos defeitos dele, a gente deve se lembrar que era nosso pai.
Perpétua recua, não deseja desagradar Tieta:
— Você tem razão. Padre Mariano também diz que me falta o dom da misericórdia. Meu dever é estar chorando, eu sei. Mas, o que é que você quer? Quando penso no que a gente curtiu na mão dele… Tu é quem bem sabe.
— Sei, sim. Mas assim mesmo sinto a morte dele, era meu pai, tinha defeitos e qualidades, boas qualidades. Era franco e quando queria uma coisa sabia brigar para obtê-la.
— Qualidades? Te esconjuro. Mas morreu, acabou-se. Voltando ao que interessa, é preciso descobrir onde ele escondia o dinheiro. Talvez mãe Tonha saiba. Encontrando, a gente retira uma parte para as despesas feitas com a sentinela e o enterro, tu não estava, tive de pagar tudo; outra, para mandar dizer as missas de sétimo e de trinta dias. O resto se divide entre mãe Tonha e nós três. Metade para ela, metade para nós. Se alguém quiser outras missas que pague de seu bolso.
No receio de escandalizar a irmã rica, a tia generosa, anuncia soberba prova de amor filial:
— Eu mesma vou mandar rezar mais três: uma em meu nome, duas em nome de cada um dos meninos. E todos os anos, enquanto Deus me der vida, farei celebrar missa no dia da morte dele. — Não resiste e acrescenta: — Creio que isso é melhor do que inventar qualidades que o pai não tinha.
Tieta sente-se cansada e farta. Não adianta discutir, tempo perdido: nenhum argumento mudará a opinião de Perpétua. Retira-se:
— Vou trocar de roupa, tomar banho e dormir, estou exausta.
Portador do recado de Astério, Pirica viera encontrá-la à noite nos cômoros, em desatada festa com Ricardo. Sorte o comandante ter gritado para localizá-la. Pirica comenta a morte do velho, após dar a notícia:
— Indagorinha trouxe e levei ele no barco. Ia tão contente que até me deu um agrado.
Passara o resto da noite na sentinela, recebendo pêsames, repetindo as mesmas palavras, ouvindo histórias acerca de Zé Esteves, algumas engraçadas, outras bravias, do tempo de prosperidade. Depois, a manhã do enterro, metida naquele vestido apertado, feito para o clima de São Paulo, a caminhada para o cemitério, a encomendação do corpo, o desfile do povo em condolências, a volta melancólica. Tieta quer dormir, não pensar em nada, nem sequer em Ricardo, de repente sentindo-se estranha a Agreste. Rompera-se uma das amarras a prendê-la à terra natal e pela primeira vez desde que chegara teve realmente vontade de voltar para São Paulo.
Estava tirando a roupa para tomar uma chuveirada, cair na cama e dormir sem hora de acordar, quando, falando da sala de jantar, Perpétua anuncia-lhe a visita de Jarde e Josafá: queriam vê-la com urgência, motivo sério. Tieta enfia um robe de chambre e vem atendê-los, levando-os para a varanda. Perpétua fica por perto, rondando.
Sentam-se. Jarde roda o chapéu na mão, baixa os olhos deslumbrados com a visão do busto da paulista, mal coberto pelas rendas do desabiê. Josafá toma a palavra.
— Desculpe, dona Antonieta, a gente vir lhe incomodar numa hora tão ruim mas o assunto é urgente por isso nós não tivemos outro jeito, o pai e eu.
— É sobre a compra da posse?
— E do rebanho, sim senhora. Seu Zé Esteves disse que tinha falado com a senhora e que a senhora ia pagar o restante.
— Mas agora ele morreu.
— Por isso mesmo a gente está aqui. É que ele, quando voltou de Mangue Seco, depois de pedir um abatimento, que nós fizemos porque estávamos com pressa de fechar o negócio, deu logo uma parte do pagamento, de garantia, mais da metade. — Enfia a mão no bolso da calça, puxa um maço de dinheiro amarrado com uma fita cor-de-rosa desbotada, deposita-o numa cadeira ao lado de Tieta. — Está aqui o dinheiro que seu Zé Esteves deixou conosco, em confiança. Não quis receber papel nenhum…
— Maluco! — pensa Perpétua ao ouvir tal absurdo. Aproximara-se, apenas percebera o motivo da conversa: o velho comprando terras e cabras sem nada lhe dizer, na surdina, para isso economizara durante todos aqueles anos.
Jarde se distrai, os olhos fogem para o decote do robe, Tieta se compõe: tem de tomar cuidado devido às manchas escuras nos seios, nas coxas, na barriga; em todo o corpo a marca e o gosto dos lábios de Ricardo. Ali, naquela hora, recém-chegada do enterro, flagrando Jarde a lhe brechar o decote, conversando negócios, sente um frio de prazer a percorrê-la. Ao cansaço, mescla-se o desejo, uma doce lassitude. Josafá prossegue:
— A gente veio lhe trazer o dinheiro. Pena seu Zé Esteves ter morrido, ele queria a todo custo a roça e as cabras, ficou doido por Seu Mé.
Ante o olhar de Tieta, de incompreensão, explica:
— Seu Mé é o pai do rebanho, um bodastro de dar gosto.
Levanta-se, caboclo alto e disposto; Jarde o imita, ainda encabulado. Josafá lastima, antes de estender a mão na despedida:
— Para a gente, a morte de seu Zé Esteves também foi um golpe, a venda já estava feita, agora se desfaz. Vamos oferecer a seu Osnar, cuja propriedade é vizinha da nossa, só que a dele é um colosso, só perde para a do coronel Artur. Se seu Osnar não se interessar, vamos ter de nos mexer para conseguir comprador e quando a gente tem pressa, a senhora sabe como é…
— Por que corre tanta pressa, seu Josafá? Foi essa pressa, essa correria que abalou o coração do velho.
— Precisamos desse dinheiro, meu pai e eu, para contratar um advogado em Itabuna, doutor Marcolino Pitombo; não tem outro que se compare com ele em questão de litígio por posse de terra.
— O senhor está em questão por lá?
— Lá não. Aqui. Vou trazer doutor Marcolino a Agreste, é para isso que preciso do dinheiro e quero vender os roçados e o rebanho. Tenho alguma coisa em Itabuna mas preciso de um dinheiro maior, disponível, para contratar o doutor e trazer ele até aqui.
— Aqui? E por quê, se mal lhe pergunto?
— A senhora conhece o coqueiral de Mangue Seco, comprou um terreno na parte que é de seu Modesto Pires, seu Zé Esteves me disse. Sabe quem é o dono do resto, das terras que vão do Quebra Pedra até os limites de seu Modesto? Essas terras que agora a tal companhia quer comprar para botar a fábrica? Pois são da gente, de meu pai e desse seu criado.
— O coqueiral? Me disseram que ninguém sabe direito quais são os donos, ainda outro dia o comandante falou nisso.
— Se tem mais alguém com direito, não sei. Possa ser que sim. Se tem, que apareça, constitua advogado como eu vou fazer e apresente as provas porque eu vou apresentar as minhas. Herança antiga, dona Antonieta, consta dos livros do cartório. Só que meu pai e meu avô nunca ligaram, quem dava valor ao coqueiral, mais mangue do que terras? Eu mesmo só vim ligar importância agora, aqui chegando. Meu pai me falou na história da fábrica, lembrou que esses terrenos são da gente. Assuntei o zunzum, soube que os engenheiros andam por lá. Ontem mesmo seu Zé Esteves me disse que tinha um helicóptero voando por cima dos coqueiros, que ele e a senhora tinham visto.
— É verdade. O senhor precisa mesmo andar depressa porque tem muita gente graúda interessada no coqueiral.
— E não havia de ter, com os alemães querendo comprar?
— Os alemães?
— Foi o que eu ouvi dizer em Itabuna, eles andaram sondando por lá também; procurando lugar para a fábrica no rio Cachoeira mas houve uma grita danada, e ainda está havendo, porque diz que esta tal de fábrica acaba com tudo que é peixe e marisco e bota veneno no ar. Até eu assinei um papel protestando contra essa idéia deles se instalarem ali. Mas aqui, eu sou a favor. Lugar bom para uma fábrica dessas, não tem lavoura que pague a pena e cabra é um bicho que não morre mesmo.
— Cabra pode ser que resista. Mas os peixes se envenenam e morrem, a pescaria se acaba.
— Ora, dona Antonieta, em Mangue Seco o que tem é meia dúzia de preguiçosos, vivendo do contrabando. Com a instalação da fábrica vão ser operários, aprender a trabalhar, vão virar gente.
— Mas no Saco a pesca é o único sustento do povo. E lá a colônia de pescadores é grande.
Josafá ri, matreiro, pela boca e pelos olhos astutos, repete em voz alta o argumento que Ascânio Trindade pensara sem ousar dizer:
— O povo do Arraial do Saco? Mas isso é lá com os sergipanos, o Saco fica do outro lado da barra, eles que se arranjem. Por mim, quero é vender meus terrenos aos alemães. Nós temos um papel.
Estão conversando de pé, Jarde não resiste, espicha os olhos para as rendas do negligê, pele mais bonita, redondos úberes de cabra feita. Josafá mete a mão no bolso interno do paletó, tira a carteira e dela uma folha de papel amarelado, estende a Tieta. Uma carta velhíssima, a tinta desbotada, onde há referências às terras na beira do rio, no rumo do mar, pertencentes à família Antunes.
— Antunes em Agreste, que eu saiba, só eu e meu pai, não existem outros. Fui saber no cartório, doutor Franklin me disse que o nome de Manuel Bezerra Antunes, meu tataravô, está lá, na escritura. Com a história da fábrica, tem não sei quantos se dizendo dono. É por isso que vou constituir advogado, entrar logo com uma ação de posse. Para isso preciso trazer doutor Marcolino; para questão de terra não há igual a ele. Começou a carreira como advogado do coronel Basílio, já pensou?
— Coronel Basílio? Não sei quem seja.
— Um bambambã lá do sul do estado, desbravador de matas, homem valente e direito. Teve uma questão de terras que nem à bala resolveu. Pois doutor Marcolino, novinho ainda, deslindou o caxixe, ganhou na justiça, de cabo a rabo. Imagine agora que está velho e cuidou durante a vida inteira desses enredos. É para trazer ele que preciso vender os outeiros e as cabras. Depois, negocio o coqueiral com os alemães, compro roça de cacau.
— Já entendi.
Antes de apertar a mão que Josafá lhe estende, de tocar a ponta dos dedos de Jarde, Tieta demora um segundo pensativa, pergunta:
— Essas suas terras são vizinhas das de Osnar, não foi isso que o senhor disse?
— Exatamente. São pegadas uma na outra, a propriedade dele e a nossa.
— Ouça, seu Josafá. Se o senhor não encontrar comprador até amanhã pela manhã, volte aqui para falar comigo.
— Se a senhora pensa em comprar, não procuro mais ninguém.
— Seu Josafá, vim ontem de Mangue Seco quando soube da morte de pai, não dormi um minuto a noite inteira, cheguei do cemitério ainda há pouco. Não gosto de tomar resolução sem pensar. Não lhe prendo: se encontrar comprador, pode vender. Se não encontrar, venha me ver amanhã cedo e eu lhe digo o que decidi.
— Se tratando da senhora, dona Antonieta, vou esperar, não falo com ninguém antes de ter sua resposta. Para mim, aqui, em Agreste, acima da senhora, só Sant’Ana. Em Itabuna me contaram da luz da hidrelétrica, quase não acredito, parece milagre. Aqui soube do incêndio, benza Deus!
O aperto de mão, forte e caloroso, do caboclo franco e decidido. A ponta dos dedos de Jarde, baixando a vista. Tão rica, tão heróica, quase santa e que pedaço de mulher.
Perpétua acompanha-os até a porta. Volta, a voz ainda mais acre:
— Então era para isso que o velho escondia o dinheiro, para comprar terras e cabras. Na idade dele, maluquice! — toma do maço de dinheiro, sopesa-o. — Vivia passando miséria, comendo na casa dos outros, com essa dinheirama toda guardada. E tu ia pagar o resto, dar essas terras a ele, por quê?
— Porque quando ele queria uma coisa, queria por cima de tudo. Igual a mim, Perpétua. Igual a você, nós somos iguais. Tenho saudades dele.
— Por isso tu vai comprar o rebanho e a terra de Jarde? Ou tu vai te associar com ele e Josafá nos terrenos do coqueiral? É isso, não é?
Tieta deixa a pergunta sem resposta, dirige-se ao quarto. Perpétua a observa de costas, andando, o passo firme, as ancas em meneio, indiferente à opinião dos demais, recorda-se do pai na força da idade. Cabrita louca, violento bode, os dois da mesma raça caprina e demoníaca, comprazendo-se em pasto de iniqüidades. Iguais os três, afirmara Tieta. Perpétua balança a cabeça, discordando. Na ambição talvez, duros e obstinados como as pedras dos outeiros de Agreste. No mais, imensa distância a separá-la deles, a distingui-la. É uma senhora, recatada viúva, serva de Deus. Em seu devoto peito cabem saudades apenas do major, inesquecível poço de virtudes, tão garboso ao envergar a farda de gala ou o pijama de listas amarelas.
O pensamento ainda no major, de repente estremece: e o relógio Omega, de ouro, trazido de São Paulo por Tieta, presente para o pai? De ouro, relógio e pulseira, valiosos. Vira quando Astério o retirara do pulso do velho. Esquecera-se de falar sobre isso. É preciso vendê-lo para dividir o dinheiro. A não ser que Tieta o queira guardar, recordação do pai. Nesse caso, deve pagar a parte da viúva e das órfãs.
Outra vez a lembrança do major: bonitão, galhardo militar, em seu pulso forte iria bem relógio assim, de qualidade, combinando com a farda de gala ou com o pijama de listas amarelas. Metido no pijama, um homem e tanto; nunca mais haverá outro.
DOS RITOS DA MORTE E DAS
AFLIÇÕES DA VIDA
NO FIM DA TARDE DAQUELE 31 DE DEZEMBRO,
REPOUSADA, Tieta vestiu-se discretamente e, após conversar em casa com Osnar e no curtume com Modesto Pires, tomou de dona Carmosina na agência dos Correios e Telégrafos e com ela dirigiu-se à casa de Elisa. Do balcão da loja onde demora na esperança de algum freguês retardatário para a derradeira compra do ano, Astério as vê passar, adivinha-lhes o destino: vão fazer companhia a Elisa, consolar mãe Tonha. Lança um olhar em direção do Bar dos Açores, hoje não tem direito à diversão costumeira; ainda bem que as partidas decisivas do campeonato de bilhar que designará o Taco de Ouro de l965 foram adiadas devido à morte do velho Zé Esteves, sogro de um dos quatro semifinalistas: Astério Simas, José da Mata Seixas, Ascânio Trindade e Fidélio Dórea A. de Arrobas Filho. Logo no último dia do ano: haviam previsto uma bramota comemorativa para festejar o campeão. Há três anos Astério detém o cetro, arrebatado a Ascânio Trindade cujas obrigações na prefeitura o trazem afastado da mesa de bilhar, aparecendo apenas uma tarde ou outra. Ultimamente, salva-se uma alma do purgatório quando ele empunha taco e giz: ao cargo somou-se o namoro para deixá-lo sem tempo para o esporte. Astério suspira: adiada a disputa, suspensa a festa, o demônio do velho até depois da morte o persegue e chateia.
Elisa atira-se nos braços da irmã, em renovada tribulação. A morte deve ser honrada, o sentimento dos parentes do defunto, proclamado em ais e soluços, lágrimas e lamentos, sinais de dor visíveis e constatáveis. Assim se demonstra a consideração dispensada ao finado, em provas públicas de afeto e saudade. Além e acima da mágoa e da dor, situam-se os ritos da morte, obrigatórios, dos trajes negros ao clamor das carpideiras.
Num canto da sala, silenciosa, apagada, de repente velha sem idade, mãe Tonha, os olhos vermelhos. Apesar de todo o despotismo, Zé Esteves fora tudo o que possuíra. Ele a tirara da casa dos pais, roceiros pobres e, sendo homem de posses, um senhor da cidade, com terras e cabras, quase um coronel, a desposara após havê-la derrubado nos matos. Casara no padre e no juiz quando podia tê-la abandonado de bucho cheio, ao deus-dará; assim costuma acontecer em Agreste com freqüência e impunidade.
Junto ao marido Tonha viveu, silenciosa e obediente, quase trinta anos. Tomando esporros, sofrendo maus-tratos, ouvindo xingos, mas tendo calor de companheiro a acalentá-la, rude mão de amparo, e vez por outra um beijo, uma carícia, o fogo do bode velho persistindo no vício até à véspera da morte. Zé Esteves gabava-se de feitos de cama e se alguém punha em dúvida tamanho vigor em sua idade, apelava para o testemunho de Tonha:
— Estou mentindo, mulher? Diga pra ele.
Piscava o olho, ria o grosso riso de fumo de corda, cuspindo negra cusparada. Tonha baixava a vista, um sorriso fugaz, entre envergonhado e afirmativo.
A chegada de Tieta e dona Carmosina aciona o aparelho da aflição, mergulha a sala em trevas. Ao vê-las, Tonha levanta-se, rompe em soluços. Elisa a acompanha, passa dos braços da irmã para os da amiga e protetora. Tonha repete, em monótono cantochão:
— Que vai ser de mim, agora?
Tieta prende a madrasta contra o peito, em silêncio, antes de reacomodá-la na cadeira e sentar-se a seu lado, junto à mesa:
— Fique descansada, mãe Tonha, nada há de lhe faltar. Vosmicê vai morar com Elisa e Astério e todo mês eu mando um dinheirinho para suas despesas.
Tonha tenta lhe beijar a mão, igual a Zé Esteves na hora de embarcar no bote de Pirica, em caminho da morte. Houvesse Tieta nascido de seu ventre e não seria filha melhor, mais dedicada. Pouco tempo Tonha a tivera em sua companhia, dois anos se muito; eram então da mesma idade, duas adolescentes.
— Quando o velho me botou para fora de casa — lembra Tieta —, na hora que eu estava arrumando minha trouxa, vosmicê me deu um dinheiro, pensa que me esqueci? Se não fosse por vosmicê e por mãe Milu eu saía daqui para enfrentar o mundo sem um vintém furado.
Tinham as duas a mesma idade naquela madrugada da partida de Tieta na boléia do caminhão. Tieta a tratava de vosmicê e de mãe, exigência do velho ranzinza. Agora o faz de moto próprio, já não são da mesma idade; moça, louçã e vistosa, a alegre viúva do comendador paulista; velha e definhada, magra e sofrida, a viúva do arruinado criador de cabras, encolhida na desolação do vestido barato e negro, de chita.
— Agora prestem atenção, vamos conversar uns assuntos. Deposita em cima da mesa o maço de dinheiro recebido de Josafá, reduzido da parte de Perpétua e do pagamento das despesas feitas e das missas a rezar. À vista do dinheiro, Elisa estanca o choro, Tonha olha, curiosa:
— São as economias do velho — diz Tieta.
Tonha reconhece a fita cor-de-rosa ainda a atar o pacote:
— Até tinha me esquecido. Você encontrou dentro do colchão, não foi? Ele fez um buraco no pano, todo mês botava mais, amarrado com essa fita, embrulhado num pedaço de jornal. Me fez jurar, pela alma de minha mãe, nunca dizer nada a ninguém. Todo dia tirava para ver; acordava de noite, se punha a contar.
— Foi pai quem retirou antes de morrer, daqui a pouco explico para quê. Antes, quero dar a vosmicê a sua parte.
— Minha parte?
— Metade do dinheiro que ele deixou é seu, é da esposa. A outra metade é das filhas, Perpétua, Elisa e eu. Paguei a Perpétua as despesas que ela fez com o funeral: caixão, cova, padre, os gastos com a sentinela, os guaranás e os sanduíches. Já dei também a parte dela, o que está aí é o que sobrou. — Com a minúcia de quem está habituada a fazer contas, a manobrar crédito e débito, informa sobre o total do pé-de-meia, o montante das despesas, as divisões feitas e quanto cabe a Tonha e a cada irmã. Conta as notas sujas e gastas, muitas vezes manuseadas, entrega uma parte à viúva. — Esse dinheiro é seu, mãe Tonha, não dê a ninguém, guarde para alguma necessidade urgente. Depois que se vender o relógio, vai ter um pouco mais.
Separa o resto em dois montes, sua cota e a de Elisa, deixa-os sobre a mesa, ignorando a mão estendida da irmã:
— Um momento, Elisa, ouça primeiro o que eu vou dizer. O pai morreu quando tinha acabado de fechar negócio com Jarde Antunes para comprar a terra e o rebanho dele, uma propriedade que não é grande mas, pelo que sei, é muito bem cuidada e dá uma boa renda. Faz divisa com a fazenda do Osnar. O velho me pediu para completar o pagamento, queria ter um pedaço de terra e umas cabras. Acho que não era tanto pelo lucro, era mais pela satisfação. Gostava dos bichos e gostava de ter importância.
— Se gostava… — concorda dona Carmosina até então ouvinte silenciosa. Para ela, a existência de dinheiro escondido por Zé Esteves não constituíra surpresa.
— Sabia disso, Elisa? Dessa compra?
— Astério me contou, seu Jarde disse a ele.
Tieta estende a mão, afaga os cabelos da irmã, quem lhe dera possuir aquela crina negra.
— Então, ouça: o preço que Jarde e Josafá estão pedindo pela propriedade é bem convidativo, eles precisam de dinheiro contado. Até seu Modesto Pires achou barato e Osnar me aconselhou a fechar o negócio sem discutir. — Assume um ar executivo, acostumada a lidar com dinheiro, a resolver negócios. — Meu plano é o seguinte: juntamos as duas partes, a tua e a minha, eu boto o que falta e compramos para tu e Astério, a escritura passada em nome de vocês. Para não continuarem a viver nesse aperto, contando os níqueis. Com a loja e o criatório, vai dar de sobra. A propriedade dá uma boa renda e ainda por cima é vizinha da de Osnar, ideal para Astério. Estou ajudando os meninos de Perpétua, quero ajudar vocês também. Com a morte do velho, quando a casa ficar pronta, vocês vão morar lá, com Tonha. Era o que eu queria dizer. — Na voz, aquela satisfação provinda da alegria de dar, de concorrer para melhorar a vida da irmã e do cunhado.
— Feliz de quem possui uma irmã como você, Tieta. Você é a maior. Coração de ouro igual ao seu, não existe — exalta-se dona Carmosina, comovida; a amiga cresce em seu conceito a cada dia.
Elisa, porém, guarda silêncio, os olhos fixos no chão. Certamente emocionada a ponto de não saber como expressar sua gratidão. Num esforço, começa a falar, sem suspender a cabeça, nervosa, gaguejante:
— Carmosina tem razão, tu é boa demais, Tieta. Antes de te conhecer, em pensamento eu te imaginava uma fada e tu é mesmo. — Levanta a vista e pousa em dona Carmosina a lhe pedir apoio para o que vai dizer: — Agradeço muito o que tu quer fazer por mim e por Astério, a compra da roça e a casa para morar de graça. — Uma pausa para tomar fôlego e coragem. — Mas não aceito. O que eu quero te pedir é outra coisa, até tinha conversado com Carmosina para ela falar contigo…
Uma sombra cobre o rosto de Tieta, sabe de antemão o que Elisa deseja:
— Tu não precisa de intermediário para falar comigo. Diga o que é que quer. — Faz-se distante e fria.
Elisa eleva os olhos medrosos para a irmã poderosa e rica. Decide-se, a voz vibra na sala:
— Só quero uma coisa: ir contigo para São Paulo. Quero que tu me leve, arranje um emprego para Astério, me…
Não consegue concluir a frase, Tieta a interrompe, brusca:
— Tu quer ir para São Paulo. Fazer lá o que, me diga? Botar chifre em teu marido? Ser puta?
O soluço irrompe do peito de Elisa, as lágrimas saltam-lhe dos olhos. Estremece como se houvesse levado uma bofetada, cobre o rosto com as mãos. Esses soluços, essas lágrimas nada têm de comum com as choradas há pouco, na obrigação do nojo, no ritual da morte. É um pranto sincero, verdadeiro, produto de duro e inesperado golpe, de um desgosto real, de um sonho roto. Arreia a cabeça sobre os braços, na mesa, geme baixinho num choro de criança, os cabelos se espalham.
Ergue-se Tieta, aproxima-se da irmã mais moça, dezessete anos mais moça. Levanta-a, toma-a nos braços e a consola. Beija-a nas faces, limpa-lhe as lágrimas, acaricia-lhe os cabelos, chama-a de Lisa, de minha filha, a voz doce e terna, maternal:
— Não chore, Lisa, minha filha. Se nego, é para teu bem. Lá não ia prestar para vocês. Ruim para ti, pior para Astério. Um dia, eu te prometo, quando for fazer uma viagem, me badalar de férias, mando buscar vocês para irem passear comigo. Tu sabe que quando eu prometo, cumpro. Mas agora, o que tu vai fazer é ajudar teu marido na loja, que ele precisa de tempo livre para o criatório. — Levanta a voz de novo: — E nunca mais me fale em ir para São Paulo. Nunca mais.
Dona Carmosina não pode conter a emoção, enxuga os olhos miúdos com um lencinho bordado. Tonha assiste, apalermada, sem conseguir entender aquela confusão. Tieta, deixando Elisa, vem abraçá-la, repetindo, ao despedir-se, a recomendação sobre o dinheiro:
— Guarde seu dinheirinho com cuidado. Não empreste nem dê a ninguém. Nem a Elisa, nem a Astério, nem a Perpétua, mesmo que lhe peçam. Eles não precisam. — Acena para dona Carmosina: — Vamos, Carmô?
Ainda afogada na decepção, Elisa volta a se abraçar com Tieta, no desejo, quem sabe, de arriscar uma última súplica apesar da proibição terminante. Não chega a fazê-lo. Passos ressoam no corredor, Astério entra na sala, estranha o desespero da esposa, crescendo em choro convulso, em altos soluços à sua aparição. Qual a causa desse pranto ardente, de ais tão sentidos? Pela morte do velho não há de ser.
— Aconteceu alguma coisa? — já lhe arde o estômago.
Dona Carmosina explica:
— Elisa está chorando de contente e agradecida. Tieta vai comprar uma fazenda para vocês.
DA IMAGEM DE TIETA REFLETIDA NO
ESPELHO EM NOITE DE ANO-NOVO
O ENTERRO DO VELHO ZÉ ESTEVES, A CONVERSA COM
PERPÉTUA sobre herança, com o mesquinho complemento do relógio, a pungente cena com Elisa refletem-se na face de Tieta, sentada diante do espelho, limpando a pele, sozinha no silêncio da casa e da rua. Partiram todos para o Te Deum na matriz. O mundo de Agreste, aparentemente simples e pacífico, revela-se mais difícil e convulso do que o mal-afamado universo do meretrício onde ela se movimenta entre putas, rufiões, cáftens, gigolôs, patroas de randevus, desde a partida na boléia do caminhão há vinte e seis anos. Mais fácil defender-se e comandar no Refúgio dos Lordes. Lá, os sentimentos, como os corpos, estão expostos. Aqui, a cada passo, ela tropeça em simulação, engano e falsidade; ninguém diz tudo o que pensa nem demonstra por inteiro seus desígnios; todos encobrem algo por interesse, medo ou pobreza. Mundo de fingimento e hipocrisia, em acirrada luta por ambições tacanhas, minguados interesses.
Às nove horas, ao toque do sino da igreja, toque de recolher para a maioria da população, a luz do motor extinguiu-se, voltando no entanto a funcionar às onze, iluminando a cidade para a passagem do ano, as comemorações da igreja e da prefeitura, o Te Deum e os fogos. Quando as filhas de Modesto Pires ainda eram solteiras, vindas em férias do colégio de freiras na Bahia, havia baile em casa do dono do curtume. Hoje, unicamente na pensão de mulheres de Zuleika Cinderela a festa se prolonga pela madrugada, iniciando-se após o Te Deum e o foguetório pois as raparigas, sendo filhas de Deus e cidadãs da comuna, comparecem à igreja e à praça, para render graças ao Senhor e aplaudir com entusiasmo o capenga Leôncio, coadjuvado pelo moleque Sabino, no fulgor do espetáculo pirotécnico, com rojões, morteiros e foguetes, encerrando-se aquela modesta maravilha com uma única porém sensacional chuva de prata.
Depois do jantar, juntaram-se visitas na varanda: coronel Artur da Tapitanga, dona Milu, dona Carmosina, o vate Barbozinha, além de Elisa e Astério, do inconformado Peto, de meias e sapatos, roupa limpa, e de Ascânio Trindade, cuja presença, de tão constante, perdera a condição de visita. À luz das placas conversaram sobre o velho; o coronel e dona Milu recordaram acontecidos antigos, dona Carmosina bordou comentários inteligentes. Esgotado o assunto principal, falaram da chuva e do bom tempo, ou seja: comentaram a prenhez de Sátima Farath, filha de seu Abdula e dona Soraia, levantinos de ferrenhos hábitos feudais, mantendo a filha única e atrativa trancada a sete chaves e de repente descobrindo-a de barriga inchada de quase quatro meses, produto das últimas chuvas de setembro, e se referiram a seu próximo casamento com Licurgo de Deus, modesto e retinto empregado para todo o serviço do armarinho, sem outro dote além da escura beleza de homem, do riso claro, da doçura dos modos, sendo o inesperado matrimônio um jubiloso acontecimento do bom tempo do verão. Exercendo a arte sutil de comentar a vida alheia, esquadrinharam o armarinho procurando saber onde se dera o fato principal, se em cima ou embaixo do balcão, entre botões, agulhas, dedais e fitas, remexeram nas finanças dos Farath e saudaram com simpatia a sorte do moleque Licurgo, a comer quibe cru em prato de ouro, imagem de dona Carmosina encerrando a discussão sobre o local do feito. Por duas vezes, o tema da poluição e da Brastânio aflorou aos lábios da agente dos Correios e do secretário da prefeitura mas, ameaçando polêmica, não obteve seguimento na conversa infensa a debates por ocorrer ao mesmo tempo em visita de pêsames e em noite festiva. Quando a luz voltou, todos partiram para a igreja. Cansada, Tieta preferiu ficar, desejosa de solidão, nunca pensara pudesse a morte do pai afetá-la tanto.
Sozinha em noite de Ano-Novo, numa casa vazia! Não acreditaria, se lhe contassem. Enquanto dona Olívia viveu, antes de se reunir com ela e com os filhos para o reveion, Felipe vinha, infalível, ver Tieta, trazendo-lhe um presente, quase sempre jóia de preço. Morta a esposa, rompia o ano em companhia da rapariga, em boate de luxo, onde, às felicitações e aos votos de feliz Ano-Novo, sucedia-se alegre carnaval. Na animação da champanhota e dos brindes, a renovada ternura.
Ainda há um ano, a noite começara de idêntica maneira, numa boate elegante. Discutiram finanças e recordaram os dias iniciais daquela irremediável (adjetivo de Felipe) ligação. De lembrança, ele lhe ofertara a escritura de ampla loja no andar térreo do edifício Monteiro Lobato — homenagem do empresário ao escritor paulista com quem convivera —, prédio monumental no centro da cidade, em rua de intenso comércio. Como obter maior renda? Alugando a loja ou nela instalando butique grã-fina, de luxo? Com a butique, naturalmente, se pudesse ficar à frente do negócio. Mas onde arranjar tempo, se o Refúgio a ocupava o dia inteiro? Melhor alugar, aconselhara Felipe, embolsando, sem trabalho nem preocupação, invejável bolada mensal.
Enternecida, Tieta lembrou o dia em que o conhecera, recém-chegado da Europa. Na véspera, madame Georgette lhe dissera: “Demain tu connaîtras le vrai patron du Nid, monseigneur le prince Felipe”. Também Felipe se recordava. Madame Georgette informara: “Une petite mulâtresse, comme vous les aimez; ancienne bergère de chèvres, fraîche, tendre mais aussi sauvage comme un chevreau”. Ficou a taquiná-la, enquanto dançavam, ameaçando casar-se ou amigar-se com menina bem moça, velho coroca necessita de broto novinho. Velho coroca? Tão rijo ainda, ainda bom de cama, o aplomb de sempre, uma resistência de cavalo. Ao beijá-la, na hora da meia-noite, falou da irremediável, definitiva e maravilhosa aventura que era a ligação deles dois:
— E se eu te dissesse que tu foste a única mulher que amei em minha vida?
A partir dessa frase mudara de sentido aquela convencional noite de Ano-Novo, para fazer-se inesquecível noite de amor. Apenas finda a gritaria, as felicitações e votos, ele a tomara pela mão, levando-a embora. Apesar de dona Olívia estar morta e enterrada havia seis anos, pela primeira vez Felipe convidou Tieta a visitar o palacete na avenida Paulista. De sala em sala a conduziu, sob o reflexo dos burilados lustres de cristal, pisando tapetes persas, encandeando os olhos nas alfaias de ouro e prata, nos objetos de arte, colocados sobre os móveis negros, nos quadros dos mestres modernos, Picasso, Chagall, Modigliani, cujos nomes ela aprendera ouvindo-os da boca dos ricaços, no Refúgio, seguidos sempre da cifra astronômica com a qual reduziam-lhes a beleza a investimento. Uma riqueza diferente, pesada, nobre, quase solene, desconhecida para Tieta. Habituada ao luxo, ao convívio dos grandes das finanças e da política, todavia se sentiu enleada. Ao vislumbrar a grandiosidade do outro lado da vida de Felipe, não entende por que ele se prendera a uma simples pastora de cabras.
Dispensada a criadagem para festejar a noite de augúrios, o palacete estava vazio como hoje está a casa de Perpétua, onde um dia Tieta dormiu com Lucas e agora dorme com Ricardo. Felipe exibiu-lhe a adega, as prateleiras de garrafas, os rótulos ilustres, escolheu o champanha — champanha, não, le meilleur champagne du monde, ma belle — pondo a garrafa a gelar num balde de prata. Buscou as taças mais finas e raras da Boêmia. Assim carregados, penetraram na alcova; deitados no leito do casal beberam e se amaram. Velha cepa, bom vinho, Felipe compensa com erudita sabedoria a diminuída violência. De começo intimidada, Tieta recupera-se lentamente, numa estranha emoção: pela primeira e única vez na vida sente-se esposa.
Somente então, deitada ao lado de Felipe no leito colonial da alcova do palacete da família Camargo do Amaral, deu-se conta da exata significação do sentimento a ligá-la ao milionário comendador do papa. Ainda há pouco parecera-lhe absurda aquela ligação na qual interesse, amizade, compreensão, desejo e prazer se misturavam. Sobre os lençóis de cambraia de dona Olívia, entendera enfim o significado da palavra amor, tão gasta e repetida, tão jogada fora na agonia das paixões e dos rabichos. Amor, sim, singular e exclusivo.
Muitas paixões, tantas, tão diversas. Passageiras ou renitentes, todas impetuosas, possessivas. As da menina-moça ávida de homens; abrindo-se nos esconsos do rio, nos altos dos cômoros de Mangue Seco, as da mulher-dama em trânsito do sertão para São Paulo. Durante o tempo longo de Felipe, rapariga às ordens, despesas por conta dele, sua propriedade pessoal, o pijama sob o travesseiro, os chinelos aos pés do leito, repetidas vezes se apaixonara, a cabeça virada, doidinha. Nunca, porém, deixara de ser a terna amante, companheira e amiga do poderoso cinqüentão — quando o conheceu, Felipe completara quarenta e nove anos, aparentava quarenta — a envelhecer nos seus braços.
Desconfiaria Felipe das aventuras da protegida, desvairados xodós? Tieta jamais recebera homem no Nid d’Amour, nem madame Georgette permitiria tal leviandade, tampouco no Refúgio dos Lordes, desde o dia em que ele comunicara a decisão de mantê-la com exclusividade. Encontrava-se com os eventuais amantes em apartamentos, garçonieres ou em randevus bem mais modestos. Apesar das precauções tomadas, Felipe, experiente e arguto, devia dar-se conta do fogo a consumi-la, exibindo-se no brilho dos olhos, no nervosismo dos gestos, no assanhamento na cama pois, quanto mais enrabichada por outro, com maior ardor e ofício a ele se entregava como a compensá-lo.
Jamais Felipe demonstrara a menor suspeita. Nos últimos meses, porém, quando os sinais da velhice começaram a lhe marcar a face bem tratada, mais além da fleuma e da sobranceria, Tieta percebera ou pensara perceber uma ponta de tristeza no olhar do comendador, ao senti-la vibrante e incontida. Para não magoá-lo cuidou de reservar-se, controlando a ânsia e o apetite. Para não magoá-lo ou porque, de tão presa ao marchante, sentia-se menos necessitada?
Por ocasião da morte de Felipe achou-se tão sozinha e perdida, a ponto de romper a jura feita na hora da partida de Agreste — nunca mais porei os pés aqui — e vir buscar segurança e forças, renovar o gosto de viver, no meio da família, no chão onde nascera e se criara, nos outeiros a tanger cabras, aprendendo ser a vida dura prova, nos cômoros de areia fazendo-se mulher sob o peso do mascate com cheiro de alho e de cebola. Buscava respiração de ar puro, visão de céu límpido, noite de estrelas inumeráveis, banho de luar. Fugitiva da poluição de São Paulo, do deprimente comércio do Refúgio, da ausência de Felipe, inútil pijama, abandonados chinelos.
Nessa outra noite de Ano-Novo, tão diversa da última, sozinha em casa da irmã mais velha, diante do espelho, Tieta se interroga: valera a pena vir?
Sim, valera a pena, apesar do fingimento e da hipocrisia, da ambição e das discórdias da família Esteves, escondidos sob o manto da modéstia e da paz. Fosse apenas pelo encontro com Ricardo e já teria pago o sacrifício da viagem. Puro, inocente, franco, sem malícia, sem maldade, íntegro. Nada nele era dúbio, nem palavras, nem pensamentos, nem gestos. Seu menino, seu menino de ouro. Nunca antes se apaixonara por um adolescente, quase uma criança. Preferira sempre homens mais idosos, agora morre e renasce por amor a um rapazola.
Está na igreja o seu dividido menino, metade dela, metade de Deus. Vestido de coroinha, a batina negra, a sobrepeliz branca, a estola vermelha, envolto em incenso, anjo mais revel! A bruaca da Edna, montada nos chifres do marido, espichara a vista prenhe de cobiça, mordera os beiços na intenção do lindo querubim. Vai morrer de fome a peste, pois ele nem sequer percebera a tesão a maltratá-la pois não tem olhos, riso na boca ou pensamento na cabeça senão para a tia sabidória que colheu a flor da donzelice do sobrinho e lhe ensina o bom da vida.