Tieta do Agreste

Jorge Amado · Capítulo 6 de 10 · parte 5/5

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Tieta do Agreste

Quarto episódio

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

Voltará após o Te Deum e os fogos, acompanhando Perpétua e Leonora. Ao pensar na pseudo-enteada, Tieta balança a cabeça, descontente.

Trouxera-a consigo para lhe proporcionar uma trégua na vida sem alegria, limpar-lhe os pulmões com o ar saudável de Agreste, abrir-lhe em riso a boca amarga. Fizera bem? Tudo indica que sim pois ela anda feliz, parece outra. Mas, e depois? É preciso fazer com que Leonora e Ascânio se decidam a ir aos barrancos da bacia de Catarina, inaugurando as grutas sob os chorões. A data da partida se aproxima, Leonora necessita e merece deitar com um homem por amor, até agora só o fez por ofício ou engano. Tieta terá de cuidar desse problema, resolvê-lo. Na próxima semana, o Curral do Bode Inácio estará pronto para ser habitado, ocasião propícia para levar o casal a Mangue Seco, onde, no deslumbramento da noite marítima e mágica, naufragam escrúpulos e timidez, que o diga Ricardo.

Antes, porém, precisa convencer Ascânio a abandonar essa infeliz idéia de abrir as portas de Agreste à tal fábrica de dióxido de titânio, capaz de envenenar o ar puro, de ofuscar a limpidez do céu, capaz de degradar o rio e o mar, terminando com os peixes e os pescadores. Contrabandistas? Sempre o foram mas não existem marujos mais valentes e audazes do que os de Mangue Seco, enfrentando os tubarões e as vagas do mar em fúria. De súbito imensa piedade, incomensurável ternura a invade, esquece agravos, fingimentos, mentiras familiares. Gente pobre, pobre e adorável gente de Agreste! Todos lhe querem bem, sem exceção, os bons e os ruins. Fizeram-na heroína e santa enquanto ela não passa de uma reles puta, pior ainda, de patroa de randevu, cafetina, exploradora de putas.

Diante do espelho, Tieta se prepara para a cama. Perfuma-se, embeleza-se para Ricardo. Na véspera não o teve; entre o gabinete e o quarto, no corredor, a lembrança do pai e avô, recém-falecido e enterrado. Mas hoje ela espera seu menino. Luto de xibiu é curto, segredou-lhe de passagem.

Ao regressar a São Paulo já não haverá Felipe. A prosa incomparável, o riso divertido, a prudência e a audácia, o saber sem medidas. Foge dessa ausência definitiva para a fugaz ausência de Ricardo. Pouco falta para o rapaz vir a seu encontro na cama de dona Eufrosina e do dr. Fulgêncio, de Perpétua e do major Cupertino. Ali os dois casais se deram e se possuíram, também ela e Lucas, quando o jovem médico lhe revelou os requintes do prazer, as loucas e absurdas regras do ipsilone. Nada se compara, porém, às noites de Tieta e Cardo, o fogo do sobrinho adolescente, a ardida fogueira da tia em plena madurez.

Virá após o Te Deum e o foguetório; deve esperar na rede que Perpétua e Leonora se recolham e durmam para somente então cruzar numa passada o corredor e vir aninhar-se em seu regaço. Tieta chega à janela aberta sobre o beco, dali não enxerga a matriz mas distingue o distante rumor das rezas. O povo de Agreste agradecendo a Deus. Também ela deveria fazê-lo mas nunca foi chegada a orações e missas, pouco sabe de religião. Padre Mariano, interesseiro e adulador, declara que ela, Tieta, viúva de comendador do papa, é parte integrante da Igreja de Roma. Devido a Felipe, reverendo? Não era seu marido, apenas seu marchante, ilícita relação. Talvez devido a Ricardo, levita do santuário, menino de Deus, seu menino. Ligação pecaminosa também, padre, em Tieta tudo é espúrio, tudo é farsa.

Volta ao espelho, examina o rosto em geral alegre, nesse instante melancólico. Como acusar os demais de hipocrisia e fingimento? Ela, a viúva Antonieta Esteves Cantarelli, não passa de uma invenção, de uma intrujice armada peça a peça. Em Agreste houve Tieta, pastora de cabras, cabra ela própria, em cio. Em São Paulo, existe, famosa e rica proxeneta, madame Antoinette, francesa da Martinica. Antonieta Esteves Cantarelli não existe.

Será que não existe, que não serve para nada? Ricardo lhe fizera desprezar o lucro de um bom investimento nos terrenos do coqueiral para sair em defesa do clima, do céu, das águas de Agreste, dando realidade e vida a Antonieta Esteves Cantarelli, ao lhe dar uma causa e uma bandeira. Seu menino. Sorri para a imagem no espelho, nem triste nem cansada.

Despe a camisola, estende-se nua na cama para esperá-lo, vestida apenas com as marcas roxas dos lábios e dos dentes de Ricardo e vagos vestígios das queimaduras. Estará dormindo quando ele entrar, acordará em seus braços, juntos romperão o Ano-Novo. Com atraso e sem champanha, detalhes de pouca importância se comparados à ternura e ao desejo desmedidos. Acenderão os fogos da madrugada para saudar o Ano-Novo e, na barra da manhã, em homenagem, praticarão o ipsilone duplo. O duplo, não o simples. Para executá-lo como devido, na exatidão das regras absurdas, loucas e no entanto rígidas e inalteráveis, necessita-se de matrona experiente de cama, da máxima competência, e de adolescente ávido de gozo. Ou vice-versa, um veterano de mil batalhas e uma recruta apenas púbere. Em qualquer dos casos, no desvario da paixão.

 

ONDE, NESTA ALTURA DA NARRATIVA, APRESENTA-SE PERSONAGEM NOVA,

MAIS UMA PUTA, POR SINAL, NUM LIVRO EM QUE JÁ EXISTEM TANTAS

 

NA MESMA HORA EM QUE TIETA ESTENDE-SE NUA NA

CAMA PARA esperá-lo a dormir, Ricardo, por entre a fumaça do incenso, vê pela primeira vez Maria Imaculada e leva um susto. Muito moça, ainda menina, não deve passar dos quinze anos. Vestido de organdi azul-celeste, branca flor nos cabelos crespos, jasmim-do-cabo, cheia de corpo, os olhos duas brasas, a boca a sorrir. A sorrir para ele.

Durante a cerimônia festiva do Te Deum, muito do agrado do seminarista devido à pompa e ao júbilo das vestes e dos cânticos, Ricardo sentira-se cercado pela admiração e pela cobiça de pelo menos três mulheres, todas lhe parecendo de interesse. Próximas do altar, uma na primeira fila da direita, outra na primeira fila da esquerda, Cinira e dona Edna.

Na primeira fila da direita e nos limites do barricão das vitalinas, sentada no banco, Cinira revira os olhos, abre a boca súplice e ameaça desmaiar ante a visão divina, quando ele se adianta portando o incensório. Na primeira fila da esquerda, ajoelhada no pequeno e baixo genuflexório, ao pé de Terto que não parece ser mas é seu marido de papel passado, dona Edna, magra e nervosa mas não a desprezível bruaca das injúrias de Tieta, os olhos de verruma, morde os lábios, arrisca acenos. Ah!, se pudesse pegá-lo num canto da sacristia e cobri-lo de beijos! Ricardo atravessa em frente ao altar, detém-se à direita e à esquerda, ante a semivirgem e a adúltera, na direção e na intenção de uma e de outra e lhes envia o aroma do incenso, quase uma mensagem.

Gostaria de poder atravessar a nave e chegar aos últimos bancos, num dos quais, contrita e recatada, Carol, os olhos postos no altar, segue cada passo, cada gesto do altivo coroinha. Tendo Modesto Pires voltado para Mangue Seco, para o seio da família, ela necessita ser duplamente discreta, vigiada que é pela população, amásia do ricalhaço. Não podendo ir até onde Carol se encontra, Ricardo ergue bem alto o incensório e o agita no ar, a fitá-la sorrindo, ofertando-lhe olorosa nuvem de fumaça branca. Percebe ela a significação do gesto? Provavelmente, pois baixa os olhos e coloca a mão aberta sobre o coração, comprimindo o seio arfante.

Ricardo percorre com os olhos a nave da matriz completamente cheia. Quantidade de mulheres sentadas ou ajoelhadas. Ao fundo, de pé, os homens, exibindo roupas domingueiras, à exceção de uns poucos maridos mais ciosos e devotos, postados próximo às esposas; Terto, por exemplo, que assim prova aos incrédulos ser o feliz consorte da apetitosa dona Edna. Em face do altar, Perpétua e Peto ajoelhados lado a lado em vistosos genuflexórios que exibem placa de metal com os nomes dos proprietários: dona Perpétua Esteves Batista e major Cupertino Batista, para que neles não se dobrem joelhos estranhos e indignos. Nem a honra de substituir o pai comove Peto, fazendo-o contrito e satisfeito. Queria estar entre os homens, ao fundo ou, melhor ainda, no átrio animado de comentários, Aminthas destilando veneno, Osnar alardeando patifarias.

Ricardo esconde um sorriso ao ver o irmão a se coçar, irrequieto, a cara de desgosto, de infinita chateação. Detalha os bancos onde o mulherio reza. De pé, junto à parede, quase ao fundo, reconhece Zuleika Cinderela, algumas vezes a vira na rua, fazendo compras. Meia dúzia de raparigas a seu redor, nenhuma delas ousara sentar-se, grupo isolado, à parte. Foi então que Ricardo pousou a vista em Maria Imaculada e a reconheceu pois não era outra senão a tia Antonieta mocinha, como se por milagre da Senhora Sant’Ana houvesse voltado à adolescência quando, segundo ela mesma lhe contara, ia encontrar-se com namorados na beira do rio, na sombra dos chorões, cabrita árdega. A face aberta e franca, o fulgor dos olhos, o corpo esbelto mas não magro, os anéis dos cabelos negras serpentes, a boca de gula.

Olhando para ele e rindo. Ricardo ergue mais uma vez o turíbulo, acompanhando o gesto do padre Mariano a abençoar, dá um passo em frente querendo ir ao encontro da inesperada aparição para a dádiva do incenso.

Terminada a cerimônia, todos tomam o caminho do ancoradouro onde Leôncio e Sabino já se encontram com os fogos e as achas de madeira, acesas. Demora-se Ricardo na sacristia a retirar a sobrepeliz e a estola, ajudando Vavá Muriçoca e padre Mariano na limpeza e arrumação dos objetos do culto. O padre estranha: dona Antonieta não comparecera ao Te Deum, por quê? Não estava se sentindo bem, ainda no abalo da morte do pai, explica Ricardo.

— Pessoa distinta e generosa, pilar da Igreja — define o reverendo. — Leve para ela a bênção do Senhor que eu lhe envio.

Ao dar a mão a beijar ao seminarista, recorda-se:

— Nunca mais você veio se confessar, qual o motivo?

— Estive em Mangue Seco esse tempo todo, tenho me confessado no Arraial do Saco com um professor do seminário que está veraneando lá.

— Qual?

— Frei Timóteo.

— Está em boas mãos, nas mãos de um santo.

Na esquina da praça, embuçada na sombra da mangueira, Maria Imaculada espera. Ricardo não se surpreende, adivinhando-a próxima; ao cruzar a porta da sacristia a buscara com a vista. Ao se encontrarem frente a frente, fitam-se sorrindo, ela pergunta:

— Já está livre, bem?

— Vou ter de encontrar a mãe e a prima no ancoradouro.

— Também vou pra lá.

Estava vazia a praça, apenas por detrás da igreja o vulto do padre, recolhendo-se à casa paroquial. Vavá Muriçoca partira apressado, antes de Ricardo, para não perder nem um único foguete. Andam uns passos em direção às margens do rio. Apenas deixam a rua e penetram no escuro, ela lhe estende os braços. Ricardo a acolhe, prendem-se num beijo e nele permanecem. O gosto da tia mas outro perfume, cheiro agreste de mato. Ricardo toca-lhe o seio e o modela na mão: um dia será igual ao de Tieta, quando de todo se formar no correr do tempo; agora é fruta verde, ubre de cabrita. As bocas se separam num suspiro para novamente se fundirem, ela amolece nos braços de Ricardo.

— Tenho de ir.

— Demore mais um pinguinho só, bem.

Abrem-se em oferenda os lábios da menina:

— Me beije de novo, bem.

Bocas de fome e sede e o roçar da língua. A mão de Ricardo desce do botão do seio para as ancas recentes, altaneiras proas de barco em começo de navegação; ao chegar ao porto de destino alcançarão a grandeza da bunda da tia. Sucedem-se os foguetes, explodem morteiros e rojões.

— Preciso ir. Como a gente faz para se ver?

— Amanhã te espero, bem, quando a luz apagar.

— Onde?

Ela ri, gaiata:

— Tu é aprendiz de padre, não pode ir em casa de dona Zuleika. Vou esperar no mesmo lugar de hoje.

O beijo de despedida, prolongado na saudade, sob o foguetório. Os dentes da menina marcam o lábio do seminarista, ai.

— Doeu, bem? Perdoe, Ricardo.

— Tu sabe meu nome?

— Sei, mas tu não sabe o meu. — Ri novamente, vitoriosa.

— E como é que tu se chama?

— Maria Imaculada, bem.

— Feliz entrada de ano, Imaculada.

Parte correndo e ali a deixa na feliz entrada de Ano-Novo. Volta-se na curva do caminho a tempo de vê-la coberta e iluminada pela chuva-de-prata. Até amanhã, meu bem.

 

DA IMPORTÂNCIA DO SOBRENOME

ANTUNES E DA PROMOÇÃO DE ASTÉRIO A POSTO DE MAJOR

— ESTOU VIRANDO O MAIOR FREGUÊS DE SEU

CARTÓRIO, doutor Franklin — pilheria Tieta ao cumprimentar o tabelião, na tarde do dia 2 de janeiro. Chega acompanhada de Astério para ali encontrar-se com Jarde e Josafá.

— Será que a senhora também quer saber se é herdeira das terras do coqueiral? Quase meia cidade já desfilou nesta sala nos últimos dias pedindo para examinar os livros antigos, tive de trancá-los no cofre com medo que rasurassem as folhas ou as rasgassem. Nunca vi uma coisa assim em toda minha longa vida de tabelião.

— Olhe que sua pergunta não deixa de ter propósito, doutor. Não vim ver se meu nome está nos livros mas estou comprando uma propriedade dos Antunes, do velho Jarde e do filho Josafá, para minha irmã e meu cunhado, e eles estão vendendo por causa dessa questão do coqueiral.

Dr. Franklin, a par do assunto, concordou num aceno de cabeça enquanto sorria para Astério: felizardo, beneficiando-se da cunhada milionária, presente de terras e cabras, bendito seja! O mundo é assim: uns nascem empelicados, de bunda para a lua, encontram o prato feito, a papa dada na boca. Para os demais, é o que se vê e sabe.

— É, o nome dos Antunes consta dos livros, eu disse a Josafá, mas avisei logo que ele não está sozinho, tem muita gente…

— Antunes aqui, em Agreste, seu doutor Franklin, nunca ouvi falar que houvesse outros, fora de mim, de meu pai e de minha falecida mãe que Deus haja.

Interrompendo o tabelião, ressoa na porta a voz potente de Josafá. Atravessa o batente, Jarde a reboque:

— Nós temos um papel, lhe mostramos e foi o senhor mesmo quem falou do nome nos livros. Telegrafei para Itabuna ao meu advogado, ontem de manhã, assim dona Antonieta me deu sua palavra. Fui incomodar dona Carmosina em casa dela no dia de ano. Comigo é assim, na rapidez, na cadência grapiúna, não é essa leseira daqui. Lá, se o fulano dormir no ponto, quando acordar está sem sua roça de cacau. Tomara que a fábrica venha logo, para mudar esses usos daqui, para dar pressa no povo.

— Você teve foi sorte de dona Antonieta manter a palavra dada por José Esteves. Não fosse assim, muito havia de penar para conseguir comprador e, se conseguisse, o negócio ia se arrastar na malemolência de nossa batida descansada.

O tabelião retira os óculos, limpa-os no lenço, sem pressa, tem todo o tempo do mundo diante de si, prossegue:

— Vou lhe dizer uma coisa, meu amigo. Pode ser que, com a vinda dessa indústria tão falada, meu cartório, que é um dos menos rendosos do estado, aumente o movimento e eu ganhe um pouco mais de dinheiro, de que bem preciso. Contudo, prefiro que essa tal de Brastânio não se instale aqui. Li o artigo de A Tarde, a carta ao nosso poeta, me arrepiei todo. Antes já tinha ouvido falar na poluição causada pelas fábricas de titânio, o comandante me contou do acontecido na Itália, na Itália ou na França, não me lembro mais. Prefiro nossa cadência, devagar e sempre, a água pura, o bom peixe, os usos daqui. — Repondo os óculos, faz um gesto com a mão para impedir qualquer réplica, terminara com aquele assunto: — Vamos à vaca-fria: Bonaparte, tome nota. Escritura de compra e venda da propriedade de nome…

— Vista Alegre… — murmura Jarde, taciturno. No cartório não tem sequer o consolo da visão das mamas de dona Antonieta, opulentas nas rendas abertas do quimono.

Josafá retira do bolso pequena agenda de capa azul, dita medidas, demarcações, datas, números, entrega as públicas-formas do inventário dos haveres de dona Gercina da Mata Antunes, reduzidos aliás a um único bem, a Vista Alegre, plantação de mandioca e milho, criatório de cabras. Bonaparte, filho do dr. Franklin, cabeçorra e baixote, uma pipa de banha, escrivão juramentado, anota os dados, recebe os documentos. Dr. Franklin marca a data da assinatura e do pagamento para daí a três dias; feliz ou infelizmente, caro Josafá, Bonaparte não lavra um termo de compra e venda na cadência grapiúna. Tieta paga o sinal, Josafá trouxe o recibo pronto: a filha sabe onde pisa, não é como o velho tonto a largar dinheiro em mãos alheias recusando comprovante. Tieta guarda o papel, dirige-se ao tabelião:

— Minha presença não vai mais ser necessária pois a escritura é passada em nome de Astério e Elisa, são eles que têm de assinar. Me toco amanhã para Mangue Seco, estou dando a última demão de cal na choupana que construí.

— Ouvi falar. Bonaparte, que é muito de Mangue Seco, me disse que dos milagres que a senhora praticou aqui, nesses poucos dias, e foram vários, o maior de todos foi a rapidez com que levantou essa casa de veraneio. Botou aquela gente da praia, preguiçosa como quê, na cadência do nosso Josafá, a de Itabuna.

— De Itabuna, doutor? A cadência de dona Antonieta é a de São Paulo, com ela é a jato. — A risada forte de Josafá.

— Devo a meu sobrinho Ricardo, ele tomou a frente, tacou fogo no pessoal, um menino que vale seu peso em ouro. A ele e ao comandante Dário, um amigão.

Ainda bem que Bonaparte não vale seu peso em ouro, seria soma considerável; nem por isso é mau rapaz, apenas não quer nem pode correr. E para que correr? — pergunta-se o tabelião.

Em passadas largas, aberto em riso, Osnar invade o cartório à frente da malta do bilhar, Aminthas, Seixas e Fidélio, e de quebra seu Manuel:

— Cadê o fazendeiro? Capitão Astério, agora que você é proprietário de terras e criador de cabras, eu lhe promovo a major.

Cercam o amigo e companheiro, o campeão, o Taco de Ouro — manterá o título no atual torneio? Jarde e Josafá despedem-se, Josafá aperta a mão de Tieta:

— Fique sabendo, dona Antonieta, que tive muito prazer em lhe conhecer pessoalmente. Se tem uma pessoa direita em Agreste, é a senhora. Com a senhora é pão pão, queijo queijo.

— É verdade — concorda dr. Franklin. — Dona Antonieta é um exemplo de bondade e correção. Mas antes de sair, Josafá, ouça a resposta a uma pergunta que vou fazer aqui a nosso amigo Fidélio. — Retira os óculos, volta-se para os rapazes em torno a Astério: — Fidélio, como é mesmo seu nome?

— Fidélio de Arroubas Filho.

— O nome completo, por favor.

— Fidélio Dórea A. de Arroubas Filho.

— E o A o que é?

— Fidélio Dórea Antunes de Arroubas Filho.

— Obrigado — agradece o tabelião e, brandindo os óculos, se dirige a Josafá, que espera parado na porta. — Está vendo, Josafá? Outro Antunes. Ainda tem mais: dona Carlota Alves… Sabe quem é? A diretora da escola particular. Ela não assina mas também é Antunes. Pelo lado da mãe.

Josafá não se altera, solta uma risada de quem nada teme:

— Uns Antunes que nem usam o nome. Não são como meu pai e eu, Jarde e Josafá Antunes, só e com muita honra!

Para não expor publicamente seu maior trunfo, controla a vontade de repetir alto e em bom som o nome e as manhas do advogado a quem telegrafara e com cujo concurso espera contar: dr. Marcolino Pitombo, especialista máximo em litígios de terras na região cacaueira, famoso em Itabuna e Ilhéus desde tempos imemoriais, quando Uruçuca se chamava Água Preta e Itajuípe era a famigerada vila de Pirangi, onde se matava gente por um dê cá aquela palha. Dr. Marcolino Pitombo ganha no direito e, se necessário, no caxixe.

Grapiúna esperto, Josafá está certo de obter-lhe a aquiescência pois, sabendo-o sergipano, em atenção à idade avançada e ao lugar de nascimento do causídico, mandara pôr à sua disposição passagens aéreas de Ilhéus a Aracaju e vice-versa. Agreste encontra-se mais próximo da capital de Sergipe do que de Salvador, menor quilometragem a enfrentar de carro. Josafá irá receber o advogado em Aracaju, assim, além dos honorários, dr. Marcolino ganhará provas de consideração e, de lambujem, visita gratuita aos parentes e à terra natal.

Pensa em tudo, o diligente Josafá. Jarde pensa apenas nas cabras, em Seu Mé e nos entrevistos ubres de dona Antonieta, preciosos haveres perdidos para sempre.

 

ONDE, COM A CHEGADA DO PROGRESSO, INSTALA-SE EM AGRESTE UM JORNAL

MURAL; COM BREVE NOTÍCIA SOBRE A COMPOSIÇÃO E O COMPORTAMENTO DA TORCIDA NO CAMPEONATO DE BILHAR

 

NÃO CONSEGUIRA ASCÂNIO TRINDADE ESFREGAR OS

DOUTOS ARGUMENTOS de Herr Professor Karl Bayer nas fuças do comandante, fazendo-o engolir o insulto e oferecer reparação. Comboiando dona Laura, o exaltado marujo, após o enterro de Zé Esteves, saíra diretamente do cemitério para a canoa. Rompe o ano com os pescadores de Mangue Seco, fazendo honra à saborosa moqueca de cação e arraia com a qual os moradores lhe retribuem a ceia de Natal. Delicados, rigorosos ritos de amizade, exigem estrita observância.

Enquanto aguarda a ocasião de exibir entrevistas e editoriais ao comandante, Ascânio pensa na melhor maneira de levar o desmascaramento do cronista de A Tarde à população abalada com a leitura da “Carta ao poeta De Matos Barbosa”, seguida do incontrolável disse-que-disse incentivado pela diabólica dona Carmosina e pelo vate Barbozinha elevado aos píncaros da glória. Nem a morte de Zé Esteves, com a pompa do enterro de primeira classe, conseguira diminuir a comoção provocada pelo dramático grito de alerta lançado por Giovanni Guimarães.

Aqueles que conheciam o jornalista pessoalmente, tendo privado com ele durante sua recordada visita a Agreste, tomavam de imediato partido a seu favor, saíam em missão de catequese, aliciando os demais, levantando a opinião pública contra a Brastânio. Ascânio quebra a cabeça: como colocar ao alcance da população os artigos e as declarações, as páginas esclarecedoras dos jornais, pondo a questão em pratos limpos, demonstrando o exagero da crônica, a inexistência de perigo maior, nada além da poluição normal, reduzindo às suas verdadeiras proporções o problema da instalação da fábrica de titânio — afinal que espécie de merda era esse tal de dióxido de titânio? Procurara informar-se na entrevista do professor Bayer, não conseguira. Tudo quanto sabe refere-se à importância do produto, indispensável ao desenvolvimento pátrio, e isso basta. Precisa levar a verdade a todos, convencê-los das vantagens da Brastânio, do que ela significa em termos de riqueza e de progresso para o Brasil e para Agreste. Como fazê-lo?

Sair mostrando os jornais pessoa por pessoa, impraticável. Deixá-los no Bar dos Açores, à disposição dos fregueses, não resolve, pois somente uma parte dos habitantes, intelectualmente ponderável, numericamente desprezível, os lerá, sem contar o perigo das gazetas sumirem ou serem rasgadas, destruídas. Convocar o povo para lhes dar conhecimento do conteúdo da matéria publicada, em praça pública, numa espécie de leitura coletiva? Idéia tentadora mas complicada, difícil e perigosa. Em se tratando da Brastânio, os pobres — e os outros também, conforme experiência anterior — poderiam pensar em nova distribuição de brindes e não os recebendo, se decepcionarem, saindo o tiro pela culatra.

Por fim, recordando os tempos da faculdade, decide-se pelo jornal mural, exposto na prefeitura. Pela primeira vez, em vários anos de sinecura (mal paga), o tesoureiro Lindolfo revela-se de real utilidade. Habilidoso proprietário de uma bateria de lápis de cor, colou os recortes e, em vistosas letras, reproduziu as principais afirmações das entrevistas e dos editoriais, tudo encimado por um dístico indo de uma extremidade a outra da cartolina: a brastânio é progresso e riqueza para agreste! Culminando a obra de arte, desenhou enorme fábrica no centro de um panorama de felizes cidadãos empunhando festivas bandeirolas e de prodigiosas benfeitorias: arranha-céus, vila operária, hotel magnífico, cinema digno da capital, ônibus luxuoso e moderníssimo. Primitivo ou primário, ao gosto e à cultura do freguês, o painel de Lindolfo ocupa a base da cartolina; entre ele e o elogio da Brastânio, os recortes esclarecedores.

Penduram o jornal mural na parede da sala do andar térreo onde se reúne o conselho municipal quando dá na cachola do coronel Artur da Tapitanga convocá-lo. Urge, aliás, fazê-lo, pois certamente vai ser necessário que os vereadores aprovem o pedido de instalação da Brastânio no município. Ascânio conta como certa a apresentação do requerimento pela empresa, dando por descontado o resultado dos estudos efetuados pelos técnicos. Se a Brastânio não fosse se estabelecer em Mangue Seco, por que iriam os diretores contratar companhia de terraplenagem para traçar planos de alargamento e pavimentação da estrada que liga Agreste a Esplanada?

Nem sequer a insolente declaração de dona Carmosina, feita após a leitura dos jornais — na falta do comandante, Ascânio esfregara entrevistas e artigos nas fuças da agente dos Correios —, alterou as convicções, o entusiasmo e o bom humor do secretário da prefeitura, em estado de euforia desde a chegada da carta e dos materiais enviados pelo Magnífico Doutor. Vazia de argumentos com que refutar a ciência de Herr Professor e o patriotismo dos proprietários das gazetas, dona Carmosina contentara-se em afirmar, categórica e depreciativa:

— Tudo isso não passa de matéria paga. Está na cara. É preciso ser muito tolo ou muito safado para não ver.

Tão eufórico, o progressista Ascânio, a ponto de cobrir Leonora de beijos quando lhe exibiu os jornais e a placa da rua Antonieta Esteves Cantarelli, em fogoso descontrole. Cobriu Leonora de beijos, modo de dizer, sapecou-lhe quatro ou cinco beijos nas faces, não passou daí o fogoso descontrole, ainda assim imprevisto em quem vive a se cuidar para não parecer cínico aproveitador, da mesma indigna casta do vilão que a enganara e seduzira. Ao vê-lo em tal contentamento, ressuscitado, Leonora sente vontade de sair pela rua cantando Aleluia, para saudar o renascido sol dos namorados.

Refletiram-se euforia e veemência na brilhante atuação de Ascânio no campeonato de bilhar. Apesar do pouco treino — ultimamente abandonara por completo a verde mesa dos brunswicks — estava fazendo boa figura, colocara-se entre os quatro semifinalistas. Nas quartas-de-final, conseguira derrotar Osnar em sensacional partida, enquanto Fidélio, jogador calmo e ardiloso, batia o impulsivo Leléu. Permaneceram na disputa apenas Astério, Seixas, Fidélio e Ascânio, que convida Leonora para assistir às próximas partidas:

— Venha torcer por mim. Todo mundo tem torcida, menos eu.

Realmente, para a fase decisiva do torneio anuncia-se a presença no Bar dos Açores de numeroso e inabitual público feminino. Somente em ocasiões excepcionais as mulheres freqüentam o bar de seu Manuel, em geral abandonado à clientela masculina. A presença de moças e senhoras obriga a incômodo controle de linguagem e gesticulação, transformando a atmosfera do recinto, habitualmente debochada, sem eias nem peias. Para o campeonato anual de bilhar, porém, quando é proclamado o Taco de Ouro do ano, tornou-se tradição o gracioso desfile de esposas, noivas, namoradas, parentas e admiradoras dos disputantes.

Elisa, por exemplo, não falta. Elegantíssima, aparenta ar distante e indiferente como se comparecesse apenas para cumprir dever de esposa incentivando Astério. Em realidade aproveita a ocasião para sentir o odor pecaminoso do bar onde, na parede principal, entre garrafas de bebidas, foram coladas as folhas de um calendário de mulheres nuas, loiras, nórdicas, morenas, orientais, mulatas, uma para cada mês, oferta de Aminthas ao amigo Manuel, lusitano viúvo, lúbrico e esteta, conforme se lê na dedicatória. Segundo Osnar, o sargento Peto comeu as doze, uma a uma, na punheta. Ele e seu Manuel.

Comparecem as primas de Seixas, rebanho garrido e alegre. Dona Edna não perde uma só partida, nem mesmo agora quando seus campeões já se encontram fora do páreo: o moço Leléu, que mais parece seu marido, e Terto que, como se sabe de sobejo, sendo esposo de papel passado, não convence. Derrotados os dois, vacila dona Edna na escolha de um novo predileto entre os quatro semifinalistas. Talvez se decida por Astério, para aperrear Elisa, metida a esnobe e a rainha da elegância — elegância de segunda mão, de vestidos usados, de refugos.

Vacilam igualmente algumas outras espectadoras. A maioria, porém, constitui a imbatível torcida de Fidélio, animadíssima, formada por donzelas de diferentes idades, indo de jovens alunas do colégio de dona Carlota (Antunes) Alves à quase solteirona Cinira. Calado, enrustido, na aparência um monge e cheio de admiradoras: um tipo surpreendente esse Fidélio A., ou seja Antunes.

Ascânio estende o convite a Tieta. Ela recusa: acertada a escritura da propriedade de Jarde e Josafá, pouco lhe resta a fazer em Agreste. No dia seguinte, sem falta, irá para Mangue Seco. Não vai pela manhã porque prometera a dona Milu almoçar com ela. Imediatamente depois enfrentará o solão do começo da tarde na lancha de Elieser, levando Ricardo consigo para a arrancada final na construção do Curral do Bode Inácio: a pintura e o pavimento.

— Torneio de bilhar? Não, meu filho, prefiro o banho de mar na praia e o banho de lua nos combros de Mangue Seco. — Espreguiça-se a prelibar tais delícias. — Ademais, quero gozar de minha biboca antes de ir embora.

— Ir embora? Só depois da inauguração da luz, não se esqueça. — De tão eufórico, Ascânio solta a língua: — Estou preparando uma surpresa para a senhora.

— Para mim? Diga logo o que é.

— Me desculpe, dona Antonieta, mas não posso. Penso que a senhora vai gostar.

Gostaria, isso sim, que ele perdesse o acanhamento e agarrasse Leonora, levando-a para a cama. O jeito é empurrá-lo, precipitando os acontecimentos.

— Mais uns dias e a biboca estará pronta, mando buscar Nora para ficar lá, comigo.

— Para ficar em Mangue Seco? — empalidece Ascânio, treme-lhe a voz, de súbito esvaziado de euforia e entusiasmo.

Exatamente como previra Tieta. Em Mangue Seco, no fim da semana, ela tirará da cabeça quente do rapaz a funesta idéia de permitir a instalação no coqueiral de indústria recusada em todas as partes do mundo, rechaçada com horror, ameaça mortal para o clima e as águas de Agreste. Em troca, o colocará no leito de Leonora, o leito mais suntuoso do mundo, as dunas de Mangue Seco, livres da poluição.

— Venha você também, o Curral é pequeno mas se dando um jeitinho cabem as cabras e os bodes.

DE COMO DEUS ATENDE A

UM PEDIDO SACRÍLEGO

 

AINDA BEM QUE DEUS VEIO EM SEU AUXÍLIO, O DEUS

DOS NAMORADOS, atualmente o preferido de Ricardo, segundo tudo indica. E o fez de forma aparentemente violenta, a ponto de se poder considerar, em julgamento apressado, cruel e injusta a ação da Divina Providência. Para logo constatar-se a precisa sabedoria da medida posta em prática. No caso, vale a pena repetir o refrão popular, citado por dona Milu a propósito da expulsão de Tieta: Deus escreve certo por linhas tortas.

Refletia o esforçado aprendiz de padre e de homem sobre a empreitada em que se metera, buscando maneira de resolvê-la, saindo airosamente da difícil encruzilhada, trilhando caminhos a conduzi-lo primeiro aos braços juvenis de Maria Imaculada, depois aos balzaquianos de Tieta. Não via jeito, beco sem saída.

Na noite passada, ao voltar dos fogos, acompanhando a mãe e Leonora, quando reinou silêncio na casa, transpusera o corredor e tocara o corpo nu da tia. Com os primeiros beijos, Tieta acordou e o prendeu nos braços, cingindo-lhe a cintura:

— Cabrito!

— Minha cabra!

Disse cabra com o pensamento na cabrita a pedir: me beije de novo, bem. A voz desfalecendo em dengue ao tratá-lo de bem, e ele se esvaindo ao ouvi-la pronunciar. Se pudesse, contaria a Tieta: hoje te encontrei, tia, no tempo de antanho, molecota, de tocaia sob a mangueira, no escuro. Me perdoa mas preciso saber como era teu gosto de pastora, sem perfume francês, sem cremes nem ungüentos, sem perucas, negligês, colares de ouro, anéis de brilhantes, quando cheiravas a jasmim-do-cabo e vestias organdi azul-celeste.

Naquela noite, rompendo com atraso o Ano-Novo, Ricardo conheceu o singular prazer de possuir uma mulher pensando noutra. Melhor ainda do que o ipsilone duplo, executado por Tieta, com sua colaboração, quando a primeira claridade da manhã penetrou pela janela aberta. Foram três no leito de dona Eufrosina e do dr. Fulgêncio: ele, Tieta e Maria Imaculada.

Como fazer para ir ao encontro da menina quando, às nove da noite, a luz se apagar? Mesmo nas soarês de visitas demoradas, não tinha pretexto para tocar-se rua afora, a mãe não fazia concessões em matéria de horários. Pensou em mil desculpas, inventou dezenas de razões, todas inconsistentes. O tempo passando e ele sem saber como agir. Disposto a inventar qualquer mentira, fosse qual fosse. Aliás já mentira à tia naquela manhãzinha, pois ela notara a marca da mordida e o interrogara. Mordera-se ele próprio, ao cobri-la de beijos e dentadas na hora extrema do ipsilone duplo.

Por cúmulo do azar, além do inevitável Ascânio, a rodear a praça com Leonora, e do vate Barbozinha, na varanda a mentir para Tieta e Perpétua, nenhuma outra visita aparecera. Ao soar das nove, Ascânio trará Leonora de volta; descerão a rua, juntos, ele e Barbozinha. Perpétua se recolherá para as orações noturnas. Tendo acenado da porta o último adeus, Leonora beijará Tieta desejando-lhe boa noite. Então a tia, após a longa toalete — demora o tempo da irmã e da enteada se entregarem ao sono —, deitar-se-ia para gozar a boa noite em companhia dele, Ricardo.

Espia o relógio, falta pouco mais de meia hora para as nove e ele nada inventa, capaz de lhe permitir a escapada. Uma angústia atroz o possui, daqui a pouco Maria Imaculada estará atrás do tronco da mangueira, a esperá-lo. Largando a gramática da língua portuguesa em que se recolhera para melhor pensar, Ricardo eleva o pensamento a Deus numa súplica desesperada e ímpia: Ajudai-me, Senhor Deus, nesse terrível transe!

Tiro e queda pois em seguida soam passos na calçada, ouve-se a voz do padre Mariano a chamá-lo pelo nome:

— Ricardo! Ó Ricardo! Já está dormindo?

Acorre Perpétua a receber o reverendo, querendo saber o motivo da visita e do apelo. Motivo triste, cara filha: levar a extrema-unção à velha Belarmina, viúva de seu Cazuza Bezerra, paroquiana muito da igreja, andando a passos firmes para os noventa anos. Acometida por um banal resfriado há poucos dias, piorara inesperadamente, tivera uma vertigem. Estando dr. Caio ausente, a veranear, foi chamado a atendê-la seu Aloísio Melhor, substituto eventual do facultativo devido à sua condição de dono da Farmácia Santana, laço comercial e único a ligá-lo à medicina. Ao vê-la largada na cama e não tendo conseguido encontrar-lhe o pulso, o boticário mandara um recado urgente ao pároco: a anciã agonizava sem sacramentos. Vavá Muriçoca, metido a fogueteiro, queimara a mão na véspera, ao soltar um rojão; o reverendo vinha em busca de Ricardo para o exercício da caridade, ajudando a velhinha a morrer em paz com Deus. Obrigado, Senhor!, agradece o beneficiário em pensamento, enfiando a correr a batina sobre o short. Afinal, dona Belarmina já vivera quase um século.

Viverá alguns anos mais, com certeza, pois a visão do padre e do seminarista conduzindo os santos óleos para a extrema-unção pregou-lhe tal susto que de estalo lhe curou gripe e desmaio. Levanta-se lépida e para provar saúde, de camisola de algodão com florinhas azuis bordadas na gola, executa uns passos de dança e mostra a língua para o farmacêutico, o demônio da velha. Esclerosada, sim, agonizante, uma ova!

Apagavam-se as luzes quando o farmacêutico, o padre e Ricardo abandonaram a casa de dona Belarmina que os conduziu até a porta:

— Seu Aloísio, quando quiser agourar alguém, vá agourar sua mãe!

Acompanhando o reverendo à igreja para guardar os santos óleos e a água benta, Ricardo percebeu Maria Imaculada atrás da Mangueira e foi visto por ela. Ainda levou o padre à casa paroquial, ouvindo-o trancar a porta. Na rua da Frente, Ascânio e o poeta se distanciam. Veio então.

— Você é tão bonito de batina, bem.

Ricardo está leve e feliz, Deus lhe dera o bom pretexto sem causar mal a ninguém, apenas a caminhada noturna de padre Mariano, obrigação do ofício de pastor.

Maria Imaculada não veste organdi azul-celeste, está de saia negra e blusa estampada mas traz nos cabelos, como ontem, jasmins-do-cabo e na boca o mesmo riso fresco e claro. Foram se beijando pelo caminho; ao chegar à beira do rio, vendo-o indeciso, ela o toma pela mão e o conduz ao mais recôndito esconderijo sob os chorões na bacia de Catarina. Deitou-se, abriu a blusa, suspendeu a saia, nada por debaixo, apenas o corpo arrepiando-se ao correr da brisa.

— Vem depressa, bem, que estou com frio.

Ricardo empunha a batina, desabotoa o short, Maria Imaculada ri:

— Tu vai me santificar, bem.

Juntos voltam para a praça. Ricardo, rindo à toa, toca-lhe o rosto, beija-lhe os olhos, enfia a mão nos crespos cabelos, guarda no bolso da batina o jasmim-do-cabo. Despedem-se ao lado da mangueira.

— Amanhã venho de novo lhe esperar, bem. Na mesma hora.

— Amanhã vou para Mangue Seco.

— Vai demorar lá, bem? — a voz ansiosa.

— Sábado estou aqui, tu pode me esperar.

— Não deixe de vir senão vou morrer de tristeza.

— Venho como sem falta. Até sábado, Imaculada.

— Espere mais um pouquinho, bem. Me beije outra vez.

No melhor do beijo, surge um vulto na praça. Ricardo se desprende, Maria Imaculada dissolve-se na escuridão. Caindo de bêbado, Bafo de Bode se aproxima, vem da beira do rio, fala aos arrotos mas o faz em voz baixa, evitando os gritos costumeiros. Não em respeito ao sono dos demais e, sim, porque também ele tem seus protegidos:

— Castigue o pau, padreco, e viva Deus que é nosso Pai.

 

ONDE O AUTOR INFORMA E DOUTRINA SOBRE SUSCEPTIBILIDADES REGIONAIS, CITA NOMES FAMOSOS NO MUNDO DAS LETRAS E DAS ARTES, BUSCANDO

CERTAMENTE COM ELES MISTURAR-SE, COM OCASIONAL REFERÊNCIA

ÀS ELEIÇÕES PARA A PREFEITURA

DE AGRESTE

 

EM MOMENTO CRÍTICO, QUANDO AINDA CARECIDO DE

RESPOSTAS POSITIVAS às questões colocadas com o anúncio da próxima instalação da Brastânio no coqueiral de Mangue Seco, ao pensar na população do Saco, arraial de pescadores ameaçados em sua atividade, Ascânio Trindade recusara tomar conhecimento do problema, recordando a posição geográfica do povoado, erguido na margem esquerda da foz do rio Real, no estado de Sergipe. Em voz alta, Josafá Antunes proclamou o mesmo raciocínio regionalista em conversa com Tieta: os sergipanos que se cocem.

Coçaram-se, pois A Tarde, em quadro na primeira página, reclama a atenção dos leitores para candentes matérias impressas no corpo do jornal, referentes ao perigo da poluição: notícia sobre as anunciadas eleições para a prefeitura de Santana do Agreste, telegrama do senhor Raimundo Souza, prefeito do município de Estância, no estado de Sergipe, e entrevista de “Carybé, artista de fama internacional que tanto tem elevado o nome do Brasil no estrangeiro”.

Sobre as eleições, breve grifo na coluna de Notas Políticas: circulam rumores segundo os quais a prioridade consentida na pauta dos trabalhos do Tribunal Eleitoral para a marcação da data do próximo pleito para a escolha do novo prefeito de Agreste deve-se à manobra da Brastânio, interessada em colocar à frente da comuna, onde pretende instalar a indesejável e condenada indústria de dióxido de titânio, homem de sua inteira confiança.

O telegrama do prefeito de Estância ressuma indignação: “O ignóbil projeto da Brastânio de situar suas fábricas em Mangue Seco significa inqualificável ameaça para o litoral sul de Sergipe, para os bravos e honrados pescadores e toda a ordeira e laboriosa população do Arraial do Saco, para a rica fauna piscatória da região, do mar e dos rios, o Piauí e o Piauitinga, que se juntam para formar o rio Real, pouco acima de Estância, município cuja ecologia e economia serão violentamente afetadas assim como as dos municípios vizinhos, tanto os de Sergipe quanto os da Bahia, estados irmãos, cujas vozes e forças devem se unir em defesa da integridade do meio ambiente”.

Não fosse o prefeito de Estância conhecido por sua fina educação, poder-se-ia pensar que, ao classificar de honrados os pescadores do Arraial do Saco, agisse na oculta intenção de opor sua honesta atividade à faina ilegal de contrabando exercida pela duvidosa colônia de Mangue Seco. De idêntica maneira, colocando o acento sobre o fato dos projetos da Brastânio ameaçarem igualmente a sã ecologia dos dois estados, apelando para as relações fraternas que devem unir os membros de nossa vacilante federação, sobretudo quando vizinhos, tem-se a impressão de que o autor do telegrama responde com acerba crítica ao pensamento de Ascânio Trindade e à frase infeliz de Josafá Antunes. Não tinha conhecimento, porém, o eficiente e popular prefeito de Estância nem da cínica declaração de Josafá, muito menos do desesperado recurso de Ascânio, que não chegara a se expressar em palavras. Devemos atribuir tais intenções, se em verdade existiram, a velhas queixas sergipanas contra certa tendência colonialista dos baianos, verdadeira ou não.

Ao transcrever das colunas de A Tarde o enérgico protesto do digno prefeito de Estância, não posso perder a ocasião de render pública homenagem aos seus méritos. Disseram-me ser ele proprietário de tradicional indústria de charutos, infensa a qualquer tipo de poluição, fabrico de trato artesanal onde as folhas do tabaco são enroladas sobre as coxas das exímias operárias, ganhando perfume e sabor especiais. Quem sabe, tratando-o bem como aqui o faço, receberei algumas caixas do estimado produto. Em tempo de magros direitos autorais, preciosa oferta.

Quanto à entrevista daquele a quem a redação do jornal, num desparrame de elogios, trata de pintor notável, de fama internacional, fazendo-lhe, ao que me consta, justiça à obra vasta e bela é, como se depreende do texto, a segunda por ele concedida a propósito da Brastânio e o faz na qualidade de “baiano ilustre e de proprietário de encantadora e rústica vivenda de veraneio em Arembepe”. Começa por se referir a uma primeira entrevista quando, antecipando-se a Giovanni Guimarães, condenara indignado a “Brastânio, monstruosa ameaça à praia de Arembepe, a toda a orla marítima da capital, à população trabalhadora, aos peixes e mariscos, ao mar de Iemanjá”. A referência fetichista denota a estreita ligação do artista com os candomblés, num dos quais concederam-lhe um posto, não sei se de babalorixá ou de iaô. Na segunda entrevista, felicita-se e felicita o povo da cidade da Bahia pelo fato de que, ante a onda de protestos provenientes de todo o país, inclusive de admiradores da beleza de Arembepe do porte de Rubem Braga e Fernando Sabino, a Brastânio parece ter renunciado ao propósito inicial de “cavar em Arembepe seu esgoto de fezes mortais”. Vitória considerável mas, nem por isso, a luta contra a empresa deve sofrer solução de continuidade, prosseguindo para impedir que a “indústria assassina se instale em terras da Bahia ou em qualquer outra parte do território brasileiro”.

Entrevista retada, de repercussão garantida, devido à projeção e popularidade do senhor Carybé. Aliás, se até aquele momento apenas Giovanni Guimarães, o prefeito de Estância e o poeta De Matos Barbosa, em dois poemas publicados no Suplemento Literário do mesmo jornal, haviam elevado a voz em defesa de Agreste, do rio Real, da costa de Mangue Seco, dos municípios vizinhos, os protestos contra a instalação da fábrica em Arembepe sucediam-se cada vez mais numerosos.

Praia de pescadores conhecida pela abundância e qualidade da fauna marítima, pela extrema beleza da paisagem, pela quieta e pitoresca aldeia de casario alegre, celebrada em reportagens e artigos no sul do país, tendo servido mais de uma vez de cenário para filmes, proclamada em certo momento e por curto tempo capital dos hippies da América Latina, como lembrou certa feita o comandante Dário, Arembepe teve inúmeros campeões a defender-lhe a beleza e a paz, todos eles importantes, a começar pelo egrégio pintor acima citado.

Por coincidência, trata-se do mesmo dúbio personagem que já cruzou as páginas deste folhetim com o aleivoso intento, coroado de êxito, de adquirir a preço vil, ao ingênuo padre Mariano, a imagem em madeira da Senhora Sant’Ana, obra de santeiro do século xvii, de inestimável valor.

Na ocasião, a quantia paga parecera enorme ao pacato reverendo, que entregou de mão beijada a carcomida santa ao espertalhão. Pobre cura sertanejo! Encheu-se de remorso, anos depois, quando dona Carmosina lhe mostrou numa revista do Rio fotografias em vários ângulos da imagem restaurada, “peça maior na notável coleção de mestre Mirabeau”. Somente então deu-se conta do logro e desde aquele dia passou a existir um segredo tumular entre ele e a agente dos Correios e Telégrafos. Se bem pouco afeita à Igreja, proclamando-se ao mesmo tempo agnóstica, incrédula e atéia, prometeu dona Carmosina dar fim ao exemplar da revista e esquecer o incidente, sensível à ignorância artística de um humilde sacerdote perdido nos confins-de-judas.

Aproveito para contar haver dona Carmosina respondido ao mural de Ascânio Trindade, pendurado na parede da sala do conselho municipal na prefeitura, com outro, maior e ainda mais chamativo, com frases tiradas de todas as matérias aqui citadas e da crônica de Giovanni Guimarães, tudo em letras garrafais. Completado com macabra ilustração: a fumaça amarela saindo das chaminés da Brastânio, pavorosa mancha de dióxido de enxofre a degradar para sempre o azul do céu, os efluentes gasosos; rio de peixes mortos no esgoto podre onde escorrem os detritos assassinos do sulfato ferroso e do ácido sulfúrico, os efluentes líquidos — dona Carmosina sabe tudo sobre o dióxido de titânio e sua produção. O coqueiral de Mangue Seco reduzido à mísera tapera onde uma população de mendigos agoniza asfixiada.

Obra de arte igualmente primitiva ou primária, nada fica a dever à do tesoureiro Lindolfo; ao contrário, a supera pois, ao realizá-la, o artista usou tintas de aquarela e não simples bateria de lápis de cor. Trabalho de Seixas, amador que, nas horas vagas deixadas pelo bilhar e pelas primas — e pela repartição, acrescentamos, onde ele faz diário ato de presença —, pinta seus quadrinhos em segredo para evitar a gozação da malta. Segredo, é claro, do conhecimento de dona Carmosina.

Colocado entre as duas portas de entrada do Areópago, o jornal mural de dona Carmosina, em cujo centro estão a crônica de Giovanni Guimarães, os dois Poemas da maldição do vate Barbozinha, glória local, e o retrato do pintor Carybé, glória nacional, é muito mais lido e comentado do que o de Ascânio Trindade, posto na sala da câmara municipal — a freqüência de público às duas repartições não admite termo de comparação. Na prefeitura aparece apenas quem tem assunto a tratar, pedido a fazer; ali se vai exclusivamente por necessidade ou obrigação. À agência dos Correios vai-se por necessidade e prazer, para bater papo, ouvir os notáveis em erudito cavaco, informar-se do que ocorre pelo mundo, as poucas alegrias, as desgraças tantas, os perigos inúmeros.

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