Tieta do Agreste
Quarto episódio
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
Meu confrade e crítico Fúlvio d’Alambert, a quem entrego as páginas escritas para correção gramatical, conselhos estilísticos e acentos, recriminou-me asperamente pelo uso e abuso de tais termos, por colocá-los na própria escrita literária, enfeando a linguagem, emporcalhando a frase. Por que tanto repetir palavras obscenas, por que voltar seguidamente ao maldito tema em copiosas referências àquilo que ele trata pudicamente de aparelho genital da mulher?
Mas pergunto eu: como não falar de coisa tão importante na vida do homem? Por que lhe dar nomes ásperos e agressivos, poluindo-lhe a beleza e a graça? Por que lhe negar os doces apelidos nascidos da língua grata do povo? Na mesa do bar, quando Aminthas, Fidélio, Seixas, o vate Barbozinha, o diligente Ascânio começam a discutir altas filosofias, a desovar conhecimentos em maratonas intelectuais, Osnar, chateado, a bocejar, protesta:
— Como vocês perdem tanto tempo discutindo essas besteiras, quando se pode falar de boceta, coisa adorável?
Osnar, afirma dona Carmosina, e nisso concordo com a sabichona, por vezes nos lava a alma.
Aproveito, aliás, a referência à malta do bilhar para responder a outra restrição feita pelo caro e meticuloso Fúlvio d’Alambert à presente narrativa. Chama-me a atenção para o fato de não ter sido o leitor informado da profissão de três dos quatro compadres de contínua presença nas páginas deste melodramático folhetim. De Osnar se sabe a condição invejável de cidadão apatacado, vivendo de rendas; e os demais? Falou-se da tendência a humorista de Aminthas, do fanatismo pelo som moderno e do parentesco com dona Carmosina, nada disso definindo profissão ou fonte de receita. Sobre Seixas, apenas referências às primas, um rol delas; de Fidélio, nada se conta, fugidio indivíduo. Concordo com a crítica, confesso o erro, dou a mão à palmatória. Tem razão o amigo Fúlvio d’Alambert ao apontar-me a grave lacuna, a falta de informação assim importante, direi mesmo fundamental: o meio de vida de certos personagens. A economia condiciona o mundo e dirige as ações humanas, ensina Marx aos seminaristas. Ou é o sexo, como aprendem em Freud? Confusão medonha. Aproveito-me dela para fornecer a informação, redimindo-me da negligência. São os três, Aminthas, Seixas e Fidélio, funcionários públicos. O primeiro, federal, os dois outros, estaduais. A par da condição de servidores da nação e do estado dos três rapazes, o leitor não mais os pensará desempregados, troca-pernas, boas-vidas. Troca-pernas, boas-vidas, de acordo; desempregados, não.
Chego por fim ao motivo único dessa minha intervenção. Desejo apenas informar os nomes dos cinco assinantes de A Tarde. São eles: Modesto Pires, o árabe Chalita, Edmundo Ribeiro, dr. Caio Vilasboas e seu Manuel Português. O sexto exemplar, como se sabe, vem, gratuito, para dona Carmosina, oferta da gerência. Após a publicação da “Carta ao poeta De Matos Barbosa”, a explosiva crônica de Giovanni Guimarães, o número de assinaturas passou de cinco a nove, dona Carmosina — ela sempre sai ganhando — embolsou polpuda comissão. Polpuda em termos de Agreste, naturalmente… Tudo no mundo é relativo, como diria Einstein, desconhecido dos seminaristas de Aracaju.
DA FORMOSA LEONORA CANTARELLI,
ESTENDIDA NA REDE, ENTRE CABRAS E BALEIAS, SOB UM SOL AZUL
A FORMOSA LEONORA CANTARELLI, ESTENDIDA NA
REDE, NA VARANDA da casa de Perpétua, recolhe o apressado beijo de despedida de Peto, cujas obrigações de torcedor, acrescidas do receio de sofrer castigo devido a imprudentes palavras, chamam-no ao bar onde, a partir das cinco, começa um torneio de bilhar disputado pelos melhores tacos da cidade. Peto não dispensa o beijo da prima quando chega e quando se despede. Leonora diverte-se com as manhas do garoto, a esperteza e os olhos astutos. Fora disso, terno e solícito, sempre às ordens das parentas paulistas, pronto para qualquer serviço. Pela tia Antonieta tem verdadeira idolatria, o que não o impede de brechar-lhe os decotes, de alegrar a vista nos detalhes expostos.
Após a partida de Barbozinha para a agência dos Correios Peto permanecera fazendo companhia a Leonora, narrando-lhe peripécias de pesca. Saíra rio abaixo naquela manhã, com Elieser, na lancha. O peixe mordia que dava gosto, carapebas enormes; o molinete e a vara trazidos de presente pela tia Antonieta para Cardo revelaram-se legais paca. Voltara com o samburá cheio de carapebas e robalos deste tamanho — marcava o tamanho com as mãos —, dera à tia Elisa, comeriam no jantar peixe pescado por ele, Peto, rei da isca e do anzol. Tia Elisa é legal no tempero, de se lamber os beiços. Bonita também, a mulher mais bonita de Agreste, para comparar-se com ela só mesmo Leonora.
— Entre a tia e a prima, o páreo é duro. Se eu tivesse de escolher, ficava com as duas.
As antenas sempre ligadas, Perpétua escuta ao passar, repreende:
— Que falta de respeito é essa, moleque? Isso é coisa que se diga? Quer ficar de castigo?
Peto capa o gato antes que a mãe decida mandá-lo fazer uma hora de banca ou o obrigue a acompanhá-la à igreja para a chatice das devoções vespertinas; no bar os campeões devem estar se reunindo. Pisca o olho para Leonora, rouba-lhe o beijo, e quando Perpétua o procura — cadê esse endemoninhado? — não lhe percebe nem o rastro. Queixa-se do filho mais moço enquanto explica a Araci como arear os talheres para deixá-los reluzindo; aproveita a presença da moleca para uma faxina geral, a casa anda um brinco.
— Esse menino me consome a vida. Ricardo não me dá trabalho mas Peto não sei a quem saiu. Parece filho de Tieta… — tapa a boca com a mão, arrependida, não vá a sirigaita contar à madrasta.
— É um menino ótimo — elogia Leonora.
— Você é que é boa, fecha os olhos para as bobagens dele. — Desaparece no quarto do oratório.
A sós, Leonora retoma os livros de autoria do poeta De Matos Barbosa, emprestados pelo autor: dois de versos, um de pensamentos filosóficos. Empréstimo feito debaixo de muitas recomendações. Tomasse cuidado pois ele possui apenas aqueles únicos volumes e as edições estão há muito esgotadas. De uma delas o exemplar vale hoje verdadeira fortuna, e ainda assim quem possui não quer se desfazer. Tiragem limitada, fora de comércio, ilustrada com dez gravuras de Calasans Neto, a cores e em preto-e-branco, financiada por amigos do poeta, fora vendida a subscritores quando a embolia o ameaçou de morte ou, pior, de mudez, cegueira, paralisia, cadeira de rodas. Com o produto da venda direta, obtivera dinheiro para pagar quarto particular em hospital e as contas de farmácia. Médicos, tivera dos melhores, de graça; quem, em Salvador, não conhecia e estimava o poeta De Matos Barbosa e sua mansa loucura?
Ao entregar os envelhecidos tomos, folheando com Leonora a bela edição dos Poemas de Agreste, revendo as ilustrações, Barbozinha filosofara sobre a vida, os caprichos do destino. Aquele fora o último livro que conseguira publicar. Recuperado porém marcado pelo derrame, a voz presa, o passo tardo, aposentado da função pública, partira para o voluntário exílio na placidez da terra natal, distante das portas de livraria, dos animados cafés e das tertúlias, das colunas dos jornais, do sucesso e do renome. Enquanto isso, daquelas primeiras cabras e baleias, talhadas na madeira há onze anos, para ilustrar poemas sobre os outeiros de Agreste e os cômoros de Mangue Seco, inesperadas baleias vindas do mar, em navegação no rio Real, cabras com dengues e meneios de mulher, alteando-se sobre as rochas, disparara o jovem gravador Calasans Neto — o caboclo Calá, um porreta, assim o trata e define o vate Barbozinha — para rápida e gloriosa carreira, hoje nome nacional, com exposições inclusive no exterior, em Nova Orleans e em Londres, sim senhora, minha gentil amiga. Assim é a vida, uns subindo, outros descendo a rampa, constata ele sem amargura: tendo vivido numerosas existências, encarnado tantas e tantas vezes, esses altos e baixos não o apoquentam. Muito menos agora quando o fraterno Giovanni Guimarães, glorioso e popular cronista de A Tarde, o retira do ostracismo para lhe entregar o estandarte da luta contra a poluição.
Compusera, em duas noites de inspiração e raiva, cinco Poemas da maldição para marcar com o ferrete candente da poesia a face podre dos vendilhões da morte. Viera com idéia de os ler para Tieta, musa eterna e singular dos livros publicados, braço e coração a sustentá-lo quando o raio o atingiu e o vate encontrou-se soterrado sob a humilhação da versalhada em louvor à Brastânio, aquela abjeção por ele produzida devido ao engano em que lamentavelmente incorrera em companhia de Ascânio, ambos inocentes vítimas da perfídia. Aproveitou para agradecer à encantadora sílfide ter destruído, nas chamas purificadoras, a cópia do corpo de delito, apagando-se assim, para todo o sempre, a lembrança da infâmia; os originais ele os havia igualmente transformado em cinzas.
Não encontrando Tieta, a ingrata não o informara da ida para Mangue Seco, declamou para Leonora dois dos cinco poemas redentores: os outros três, ele os considerava impublicáveis em jornais ou revistas, impróprios para recitativo, defesos a ouvidos inocentes. Para Tieta, viúva, íntima e velha amiga, musa permanente, se animaria a dizê-los. Para Leonora, não, pois retomando o estro de Gregório de Matos, ele, De Matos Barbosa, baixou o pau com vontade, em linguagem vigorosa e áspera, nos criminosos diretores da Brastânio. Em certos versos, como negros e brutos diamantes, cintilam palavrões — a imagem é do próprio Barbozinha.
A chegada de Peto, com o ruidoso entusiasmo de pescador bem-sucedido, apressou a partida do bardo para a agência dos Correios onde ia postar os poemas e longa carta para Giovanni Guimarães. Antes, porém, declamaria poemas e carta para a amiga Carmosina. Essa, se bem donzela, pode ouvir qualquer barbaridade, não se escandaliza.
Lá se foram, primeiro o poeta, cachimbo apagado, passo lento, ardente coração; depois o garoto, sem-vergonha e afetuoso, no espanto da primeira adolescência. Leonora contempla as gravuras, cabras e baleias, pedras e montes, a moça com o bastão e um estranho sol azul a nascer sobre as águas ribeirinhas, extravagância ou insolência do artista. Não a surpreendeu, porém, aquele sol azul, era-lhe familiar. Desde o desembarque em Agreste, Leonora se sentia cercada por uma atmosfera diáfana, em tons celestes, um mundo mágico, irreal, onde não cabe a maldade; nem a maldade nem a desgraça. Os lábios murmuram as duas estrofes do repudiado poema de Barbozinha, aquelas onde o vate se referiu a Ascânio Trindade, capitão da aurora.
Encurralado capitão, há dois dias e duas noites sem repouso, a face intranqüila, os olhos injetados, as marcas da insônia. Na primeira noite, quase mudo. Andando com Leonora em torno à praça, tomara da mão da moça e a prendera entre as suas, em busca de apoio e segurança. A crônica no jornal deixara-o doente. Pouco a pouco, talvez porque ela não houvesse feito comentário nem perguntas, ele falou do problema. O destampatório de Giovanni Guimarães deve possuir alguma base concreta — disse —, uma parcela de verdade mas ele, Ascânio, sem querer adiantar nenhuma afirmação, tem quase certeza de haver imenso exagero na exaltada diatribe do jornalista, resultante quem sabe de que obscuras razões. Alguma poluição há de decorrer da indústria de titânio, todas as fábricas poluem, umas mais, outras menos. Não acredita, porém, naquela apavorante história de perigo mortal para a flora e a fauna, para o rio e mar. De qualquer maneira, antes de tomar posição, devem esperar que a denúncia do jornalista se confirme ou se reduza, colocada nos devidos termos pelos especialistas competentes. Leonora suspendeu-lhe a mão e a beijou: Ascânio tem razão, é preciso esperar, talvez tudo isso não passe de tempestade em copo dágua.
Na noite seguinte, a da véspera, fora ainda mais difícil. Habitualmente, Ascânio arranja no decorrer do dia pelo menos dois ou três motivos para aparecer em casa de Perpétua, pedindo licença para entrar por um momento ou chamando Leonora à janela, ela dentro da sala, ele no passeio: um dedo de prosa, um sorriso, um beijo. Naquele dia, porém, não aparecera. Leonora tivera notícias, por dona Carmosina, da violenta discussão travada pela manhã na agência dos Correios. Depois, o comandante passou com dona Laura para buscar mãezinha e Ricardo mas não fez referência ao incidente. De Ascânio, nem sinal.
Após o jantar, na hora sagrada, ele chegou, sério e triste. Leonora esperava-o na porta, Ascânio não quis entrar nem mesmo para dizer boa noite a Perpétua. Atravessaram para o jardim da praça onde moças e rapazes namoram, circulando aos pares. Houve um tempo de silêncio, pesado, depois ele perguntou:
— Já soube?
— Da discussão? Já.
— Horrível. Perdi a cabeça, destratei o comandante, uma pessoa muito mais velha do que eu, um homem de respeito. Mas ele me acusou de desonesto.
— O comandante? Pensei que tivesse sido Carmosina.
— Ela só me xingou, no ardor da discussão, não tem importância. Mas o comandante falou que eu menti, que, estando a par dos planos da fábrica, nada disse, enganei todo mundo. Para ele, eu me revelei indigno da confiança depositada em mim. Não sei se isso é verdade, mas o resto é: menti, escondi o que sabia, procurei tapear os outros. Mas eu juro que só fiz isso para o bem de Agreste. O doutor Mirko, você sabe quem é, me pediu segredo pois nada estava ainda decidido e se a coisa viesse a público podia botar tudo a perder. Para mim, o interesse de Agreste passa por cima do que quer que seja.
Como o fizera na véspera, Leonora levou a mão de Ascânio aos lábios e a beijou. O rapaz sorriu, um sorriso tão triste que ela pôde medir quanto ele estava magoado e temeroso. Então, ali mesmo em plena praça, sob uma árvore, sem se preocupar com a presença dos casais de namorados, ela se deteve e, tomando-lhe do rosto, o beijou na boca. Para que ele e todos a soubessem solidária incondicional.
Na rede, admirando as gravuras, as altivas cabras, as pacíficas baleias, o grande sol azul, sonho e realidade, Leonora conta os minutos. Pela manhã, Ascânio mandara Leôncio com um recado: tem pela frente um dia muito ocupado com os problemas do calçamento da rua da entrada da cidade — Leonora se encontra a par do complô festivo, da projetada homenagem à Joana d’Arc do Sertão — mas se conseguir tempo passará a vê-la, a qualquer hora. Nos lábios de Leonora esvoaçam os versos de Barbozinha sobre o capitão da aurora.
Badala o sino da matriz anunciando cinco horas da tarde. O capitão da aurora está cercado de ameaças e perigos. Apenas ele ou ele e ela, o idílio de Ascânio e Leonora, o sol azul de Agreste? Onde a altivez, o entusiasmo, a certeza de triunfo do capitão Ascânio Trindade a comandar o progresso, derrubando os muros do atraso, acendendo esperanças no burgo morto e no peito de Leonora? Murcho, inquieto, triste, quase derrotado. Vencido ou vitorioso, pouco importa, meu amor.
Ei-lo que irrompe porta adentro, sem sequer pedir licença, de novo altivo, entusiasta, triunfante, nas mãos um maço de jornais, a notícia de asfalto próximo no Caminho da Lama e a placa com o nome da rua dona Antonieta Esteves Cantarelli (cidadã benemérita).
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DO CALÇAMENTO DA RUA, DA PLACA E DA MANCHETE NO JORNAL, QUANDO
ASCÂNIO TRINDADE REASSUME A
AMEAÇADA FUNÇÃO DE LÍDER, CAPÍTULO TODO EM FLASHBACK
ENCONTRA-SE ASCÂNIO TRINDADE NA ENTRADA DA
CIDADE, ENTRE A PRAÇA do Mercado e a curva da estrada, acertando com o mestre-de-obras Esperidião do Amor Divino detalhes do calçamento da rua, por onde fios e postes da hidrelétrica penetrarão em Agreste, quando a atrasadíssima marinete buzina — espantoso som! — e logo surge numa nuvem de poeira, aparição ao mesmo tempo familiar e surpreendente, fulgurante. Ao perceber o secretário da prefeitura, Jairo freia o veículo, ouvem-se guinchos e explosões, a marinete estremece, salta, dança, ameaça derrapar, desconjuntar-se, partir-se ao meio, estanca. O velho e indomável coração do motor prossegue descompassado a pulsar — Jairo não é besta de desligá-lo; quem garante que ele voltará a pegar? Naquele dia já lhe fez poucas e boas.
Até aquele momento, quando Jairo usou os freios provando-lhes não apenas a existência mas também a qualidade das peças de fabricação antiga, as de hoje não valem nada, o dia fora extremamente desagradável para Ascânio. Desde a primeira leitura da crônica de Giovanni Guimarães sua vida tem sido um pesadelo. A partir da conversa com dr. Mirko Stefano, o Magnífico Doutor — assim o designara a secretária executiva, a mesma que depois apareceu vestida de Papai Noel, na ocasião em que viera à frente do batalhão de técnicos —, até a explosão da crônica, Ascânio erguera maravilhoso, imenso castelo, prevendo sensacional futuro para Agreste e para ele próprio. As chaminés das fábricas construídas em Mangue Seco propiciam o progresso: estrada asfaltada, larga, quem sabe de duas pistas, quase auto-estrada, cidade modelo, no coqueiral, para operários e empregados, moderno hotel em Agreste em edifício de vários andares, comuna próspera e rica. A Brastânio, pioneira, abre o caminho para várias outras indústrias desejosas todas de se beneficiarem das condições ímpares do município. À frente de tudo isso, comandando, administrador competente, profícuo, incansável, pleno de idéias e capaz de executá-las, um estadista, Ascânio Trindade, prefeito de Santana do Agreste, ora marido, ora noivo da bela e virginal, virginal, não, da bela e cândida herdeira paulista Leonora Cantarelli. Por vezes prolonga o tempo de noivado, período de doçuras quando o desejo vai conquistando direitos e territórios corpo afora, pouco a pouco; por vezes casa logo, na urgência de enxergá-la no lar e de imaginá-la grávida, o ar angelical amadurecendo com o crescer do ventre.
Castelo de cartas, a explosão o levou pelos ares, a ele e à segurança do moço. Viu-se de súbito em meio a um vendaval igual aos que se abatem em certas ocasiões sobre Mangue Seco, arrancando coqueiros pela raiz, desfazendo as cabanas dos pescadores, revolvendo o oceano, levantando incríveis redemoinhos de areia, mudando a posição e a altura das dunas. Quando termina e a paz retorna, a paisagem modificou-se, lembra a anterior mas já é outra, diferente.
Ascânio recusa-se a aceitar as afirmações de Giovanni Guimarães sobre os malefícios resultantes da indústria de dióxido de titânio, apegando-se à condição do jornalista, leigo na matéria, incompetente a respeito de questões científicas. Mas, se for verdade o que ele assegura e denuncia, assessorado quem sabe por físicos e químicos? A crônica ressuma extrema segurança, como se o autor tivesse absoluta certeza de tudo quanto afirma. Tudo não, pois a própria dona Carmosina, apaixonada partidária do artigo, nele descobrira erro primário, relativo à cor da fumaça. Se errou nesse detalhe, pode ter Giovanni errado em todo o resto. Mas, se à parte a cor da fumaça, no restante ele tiver razão? Sendo assim tão perigosa essa indústria, mortal para os peixes, acabando com a pesca e os pescadores? A verdade é que atualmente há uma verdadeira mania de se ver poluição em toda parte, de se atribuir às chaminés das fábricas as desgraças do mundo.
Que posição deve ele tomar, em definitivo? Se ficar provado exagero de Giovanni Guimarães, o problema será de fácil solução. Mas se, ao contrário, os entendidos vierem em seu apoio? Romperá Ascânio com o Magnífico Doutor, recusando-lhe a autorização e as facilidades prometidas para a instalação da Brastânio no município ou enfrentará o perigo da poluição, considerando mais importante para o futuro de Agreste a transformação econômica da zona, a riqueza resultante da industrialização do que a escassa pescaria da reduzida colônia de Mangue Seco, a limpidez das águas, a beleza do rio? Como agir, que posição, que partido tomar? Abrir mão de tudo, dos projetos administrativos e dos sonhos de noivado e casamento, para garantir a permanência do clima puro, da beleza clara, da modorrenta paz? A que servem o céu puro, a água clara, a beleza, a paz? Bom lugar para esperar a morte; com o correr do tempo a frase do caixeiro-viajante torna-se repetido lugar-comum, verdade patente. Antes de enfrentar o perigo, sacrificar uns poucos pescadores — e com isso pôr fim ao contrabando na barra do rio Real, que há quase um século resiste às espaçadas incursões da polícia —, sujar as águas, em troca de riqueza, do movimento, do incontido progresso. São poucos e contrabandistas os pescadores de Mangue Seco; são numerosos, sérios e trabalhadores os do Arraial do Saco, do outro lado da barra, e a morte dos peixes, o envenenamento das águas atingirá toda a foz do rio, o mar em frente. Meu Deus, é de enlouquecer qualquer cristão ou marxista o contraditório universo das razões em causa. Ascânio, farto, exausto, os nervos em ponta, tenta liquidar o último argumento a perturbá-lo recordando que, localizados a praia e o Arraial do Saco em terras de Sergipe, o destino dos pescadores que ali vivem não é problema dele, administrador de município baiano. Não se convenceu.
A prova de que não se convenceu foi a decisão tomada na prefeitura, pela manhã, em relação ao indispensável calçamento do Caminho da Lama, na entrada da cidade, para as festas da inauguração da luz da hidrelétrica. Urge dar início ao trabalho, dentro de um mês os postes chegarão às ruas de Agreste e se acenderá a luz de Tieta. Por via das dúvidas, fazendo das tripas coração, Ascânio resolve deixar de lado as mirabolantes promessas do dr. Mirko Stefano e retomar o plano anterior, modesto calçamento de pedras — pedras sobrando no rio e nas colinas, a única coisa realmente barata em Agreste além de mangas e cajus — financiado pelos apatacados da terra; correrá a lista, mendigo público, mais uma vez.
Decidido mas esmagado, desabitualmente irascível e ranheta, mantém longa e difícil conversa com mestre Esperidião, acertando prazo e preço para a empreitada. Ascânio a deseja rápida e barata, Esperidião considera inaceitáveis as magras propostas do secretário da prefeitura, levando em conta sobretudo a limitação do tempo: deverá contratar quantidade de trabalhadores, entrar pela noite adentro trabalhando, e ainda assim vai ser dureza entregar a obra na data precisa. Terminam por ir ao local, examinar de perto.
Conseguem chegar por fim a um compromisso sobre o orçamento quando Jairo freia a marinete e a poeira sufoca Esperidião do Amor Divino, magricela e esporrento. Voltando a respirar, o mestre-de-obras reclama:
— Estão falando por aí em poluição, como se essa desgraçada marinete não estivesse acabando com os pulmões da gente há mais de vinte anos.
Jairo desce, segurando dois pacotes, descansado, indiferente às três horas de atraso, às paradas, à volubilidade do motor naquele dia de humor bastante instável:
— Duas encomendas para você, Ascânio. Essa, foi Canuto quem mandou. — Um embrulho largo, ainda na embalagem original, endereçado a Canuto Tavares por uma firma da capital.
Ao recebê-lo, Ascânio apalpa o pacote:
— Sei de que se trata. — Volta-se para Esperidião: — É a placa da rua. Chegou mais cedo do que eu esperava.
— Esse outro, foi Miroel, da agência de passagens, quem me deu, dizendo que era urgente. Parece ser coisa importante, veio no ônibus que faz a linha direta de Salvador a Aracaju. Parou em Esplanada, só para deixar esse troço. Está entregue. Rapidez e eficiência. — Ri.
Entrega, ri e fica à espera. Roído de curiosidade, aguarda a abertura dos embrulhos. O primeiro, como Ascânio previra, contém a placa para nova rua, com o nome de dona Antonieta em letras brancas sobre fundo azul. Jairo e Esperidião aproximam-se para admirá-la, Ascânio a encomendara na Bahia, em firma especializada, por intermédio de Canuto Tavares. O funcionário relapso da agência dos Correios e Telégrafos é uma espécie de correspondente de Agreste em Esplanada, a cujos préstimos Ascânio recorre com freqüência.
Apressada e decidida passageira, dona Preciosa, diretora do grupo escolar, levanta-se e toca a extraordinária buzina da marinete, espantando pássaros — Jairo não se enxerga: indiferente ao atraso enorme, ainda salta para conversar, quando estão, finalmente, na reta da chegada. O pacote, dirigido a Ascânio Trindade, Dinâmico Prefeito de Santana do Agreste, urgente, assim em maiúsculas e ainda por cima em vermelho, contém jornais e uma carta. Enquanto a poluição sonora da buzina põe calangos em fuga, Ascânio abre um dos jornais e seu rosto se descontrai, desaparecem a irritabilidade, a fadiga, a amargura, ao ler, em letras garrafais, manchete em primeira página: a brastânio desmascara um impostor e ao constatar, num relance, não ser outro o impostor desmascarado senão o cronista de A Tarde, Giovanni Guimarães.
Surgindo na porta da marinete, dona Preciosa ergue a voz ácida e ameaçadora, habituada a ralhar com meninos, reduzindo-os ao silêncio e à obediência, a verruga a tremer, indaga:
— O bate-papo vai demorar muito, Jairo?
— Já estamos indo, dona Preciosa. — Quem respondeu foi Ascânio, andando para a marinete, seguido por Jairo e Esperidião. Segura os jornais como quem segura ouro, pedras preciosas, remédio contra a morte.
DAS RAZÕES A FAVOR
IRRESPONDÍVEIS ARGUMENTOS, OS DE GIOVANNI
GUIMARÃES, NA OPINIÃO do vate Barbozinha, em conversa com Leonora. Não há mais o que discutir, disseram dona Carmosina e o comandante: o cronista de A Tarde pusera o preto no branco, os pontos nos ii. Não pensavam assim proprietários e diretores de outros jornais, a prova está em frente a Ascânio Trindade, sobre a mesa do prefeito. Exemplares de dois diários da capital nos quais, em fartas matérias, as opiniões negativas do articulista em sua “Carta ao poeta De Matos Barbosa” viram-se sujeitas a completa revisão, áspera crítica e desagradável confronto com as responsáveis declarações de cientistas de peso e de administradores conscientes de seus deveres.
Um desses jornais estampa a manchete agressiva, vista por Ascânio antes de embarcar na marinete onde, excitado, a releu, constatando a violência do tratamento aplicado a Giovanni: impostor, nem mais nem menos. A gazeta não levou em conta o renome do articulista, a simpatia e a consideração a cercá-lo.
Longo editorial, em negrita e corpo doze, canta loas à Brastânio, em frases e adjetivos junto aos quais os louvores de Barbozinha no excomungado poema empalidecem. No momento em que o governo do estado conclui as obras do Centro Industrial de Aratu, criando as condições para um surto novo na vida da Bahia, a localização na Boa Terra de uma indústria da importância da Brastânio, fundamental para o desenvolvimento do país, é a mais auspiciosa notícia do ano que termina, um inigualável presente de Natal à população do estado — afirma o artigo de fundo. Pode-se proclamar ter sido a Bahia contemplada com a sorte grande ao ser escolhida pela ilustre diretoria da empresa que se propõe aplicar em nosso estado capitais de vulto antes aqui desconhecido em se tratando de empreendimentos privados. Há quem fale, naturalmente, em perigo de poluição, mas os negativistas sempre existiram, em qualquer parte e ocasião, opondo-se ao progresso, pregoeiros da desgraça. São vozes isoladas e de duvidosa procedência, servindo a escusos interesses. Se, por simples curiosidade, nos detemos a examinar a biografia política dessas aves de agouro a grasnar infâmias, localizaremos de imediato ranço ideológico suspeito, a marca registrada de Moscou. Nesse tom, todo o editorial. Não cita o nome de Giovanni Guimarães mas está na cara.
Cita-o, porém, na entrevista concedida ao mesmo jornal, um dos “dinâmicos diretores da Brastânio — Indústria Brasileira de Titânio S. A., o jovem vitorioso empresário Rosalvo Lucena, economista de reputação nacional, diplomado pela Fundação Getúlio Vargas, da qual logo se tornaria professor, managerial sciences doctor pela Universidade de Boston”. Começou o titular de tantas excelências levando Giovanni na gozação, “ameno cronista sem nenhum conhecimento científico, deveria manter-se nos limites dos fúteis acontecimentos cotidianos, no comentário de casos de polícia e de vitórias e derrotas no futebol, ao que sabe, seus temas prediletos, não se metendo a dar palpite naquilo que ignora, transformando-se de cronista em impostor, tentando lançar a opinião pública contra um empreendimento de alto teor patriótico que significará para o Brasil economia de divisas, ampliação do mercado de trabalho, riqueza. Sobre o imaginado e inexistente perigo mortal que as fábricas da Brastânio representariam, segundo o odioso foliculário, melhor será ouvir a opinião de um técnico de competência indiscutível, o dr. Karl Bayer, nome familiar a todos quanto se interessam pelos problemas do meio ambiente”. Num retrato em três colunas Ascânio vê, no centro da página, o “dinâmico dr. Rosalvo Lucena, o ilustre cientista Bayer e o simpático dr. Mirko Stefano ao lado do nosso diretor quando da visita realizada à redação desta folha”.
O ilustre técnico, em texto extremamente científico e ininteligível, por isso mesmo de muita força de convicção, respondendo a três perguntas — por ele mesmo redigidas pois esses repórteres são uns analfabetos em matéria de problemas ecológicos —, liquidou o assunto. Com grande gasto de ilmenita, cloreto, Austrália, catalisador, pentóxido de vanádio, nécton e plâncton, efluentes, provou por a mais b não passar de balela toda essa conversa de perigo de poluição, de morte de peixes e contaminação das águas, “desprezível demagogia”. Quem há de duvidar, diante de tanta ciência?
No outro jornal, não menos entusiasta da instalação da Brastânio, “indústria de salvação nacional, primordial, fator de reerguimento da economia baiana”, o engenheiro Aristóteles Marinho, da Secretaria de Indústria e Comércio, deu sua penada a favor da empresa. Perigo nenhum, garante o técnico, despojado de termos difíceis e de efluentes, competência modesta se comparada à do germânico Bayer. Importante, porém, pois reflete o pensamento da administração estadual que, tendo, segundo ele, estudado acuradamente o assunto, levando em conta os interesses vitais da população, concluíra pela “perfeita inocuidade e pela extrema importância da indústria a ser implantada no estado pela Brastânio”. Termina afirmando que os baianos podem dormir descansados, o governo está vigilante e não permitirá ameaças às terras, às águas e ao ar nos limites da Bahia. Quando fala em governo, refere-se ao estadual e ao federal, “indissolúveis na defesa dos recursos naturais e da saúde do povo”.
Os jornais — alguns exemplares de cada um dos dois — vieram acompanhados de uma breve carta do dr. Mirko Stefano, dirigida ao caro amigo dr. Ascânio Trindade, na qual lhe informa ter a Brastânio contratado os serviços de uma empresa de viação e obras para realizar estudos e apresentar projeto para o alargamento e a pavimentação dos cinqüenta quilômetros da estrada a ligar Agreste a Esplanada. A mesma empresa asfaltará, por conta da Brastânio, a rua da entrada da cidade, conforme o prometido. Em breves dias, as máquinas e os técnicos chegarão. Não se refere nem aos jornais nem a Giovanni Guimarães.
REFLEXÃO DO AUTOR A PROPÓSITO
DE NOMES E TÉCNICOS
CANSADO DO ESFORÇO FEITO PARA MANTER INCÓLUME
MINHA PROPAGADA e prudente posição de narrador objetivo, evitando envolver-me na polêmica ao resumir e transcrever opiniões divergentes, expostas em crônicas, editoriais, tópicos e entrevistas, permito-me curta reflexão sobre nomes de família e maneiras de agir de técnicos fora de série, famosíssimos, cujas conclusões ditam lei. Faço-o no desejo de evitar ao leitor engano e confusão.
Em tempos bicudos, quando o livro se transforma em artigo de luxo em lugar de ser, como deveria, objeto de primeira necessidade igual ao pão e à água (aliás, também absurdamente caros, não existe mais nada barato a não ser aporrinhações e tristezas), não posso permitir que o leitor, tendo empregado seu rico dinheirinho na compra de exemplar deste empolgante e volumoso folhetim — duas qualidades intrínsecas aos bons folhetins —, seja levado a conclusões errôneas. O que poderia suceder se não for esclarecido de imediato detalhe referente ao cientista Karl Bayer, cuja entrevista a uma folha de Salvador teve o essencial de seu profundo conteúdo incluído em capítulo anterior. Sintetizado, pois sendo a entrevista longa e prenhe de ciência física, química, ecológica e quejandas, sua transcrição na íntegra não me pareceu recomendável. Para dizer a verdade, a ciência do dr. Bayer, de tão volumosa e maciça, torna-se maçuda e enfadonha. Deixemos, porém, esse detalhe de lado e falemos do nome de família do doutor, assunto primeiro desta reflexão. Bayer — sobrenome famoso, ostentado por Herr Professor Karl.
Famoso, conhecidíssimo, por isso mesmo dando facilmente lugar a confusões de perigosas conseqüências. Apresso-me assim a dizer que, até onde posso assegurar, não é o professor membro da família de nacionalidade alemã, proprietária de grandes indústrias e empórios químicos espalhados pelos quatro cantos do mundo. Nacionalidade significando, no caso, capital, capital social e de giro; em tempo de multinacionais, ainda mais do que o lugar do nascimento e o sangue, o dinheiro determina a nacionalidade.
Ao topar com Herr Professor Karl Bayer ditando regras no capítulo anterior, gritei aleluia, sonhei imortalidade acadêmica e prêmios literários (em pecúnia, se possível), pensando estivesse nosso folhetim cumulado de honra devido à presença entre a pobre humanidade de Agreste de um dos grandes do mundo, um Bayer. Nas páginas iniciais deste fiel relato das aventuras de Tieta, expressei a esperança de que, no decorrer da narrativa, nela surgisse, para glória de quem a redige (mal e porcamente), a figura de um magnata, de um dos verdadeiros donos da Brastânio. Um grande patrão, não um borra-botas qualquer, Magnífico Doutor, Managerial Sciences Doctor, Moço ou Velho Parlamentar, Sua Excelência, todos assalariados, ocupando altos postos, muito bem pagos, em certos casos pagos em divisas, mas nenhum deles um verdadeiro patrão. Ao ler o nome Bayer encimando a entrevista, pulsou-me disparado o coração, imaginando estar diante de um dos legendários reis da indústria mundial. Fatal engano: trata-se apenas de mais um testa-de-ferro, técnico reputado e alemão porém Bayer bastardo, não passando de simples coincidência.
Busco esclarecer o detalhe pois, segundo li alhures, estão os Bayer legítimos associados à indústria de dióxido de titânio em mais de um país. A transcrição da entrevista do Bayer espúrio poderia sugerir, por conseqüência, solerte e malévola intenção de caracterizar a existência na Brastânio de capitais germânicos, majoritários e colonizadores. Ora, o caráter nacional e patriótico da Brastânio tem sido repetidas vezes afiançado e eu não pretendo discutir tal afirmação. Nem retificá-la, nem ratificá-la. Mantendo-me à margem, apenas esclareço, cumprindo obrigação de autor imparcial, ser o Bayer da entrevista um Karl qualquer, técnico de renome e nada mais: não possui ações na companhia. Se os outros Bayer, donos de meio mundo, têm dinheiro e mandam na empresa, não sei nem desejo saber. Meta a mão em cumbuca quem quiser, não eu, macaco velho.
Evitando assim qualquer confusão no espírito do leitor, antes de retornar ao folhetim propriamente dito, gostaria de acrescentar uma palavra sobre a atuação desses capacitadíssimos técnicos, pagos a peso de ouro. Palavra de pouca valia por ser de leigo em matéria científica — mais leigo ainda do que o cronista Giovanni Guimarães, cujas boas intenções estão dando nesse bode todo — não obstante capaz, quem sabe, de revelar curiosa circunstância na aplicação dos incomensuráveis conhecimentos desses senhores cuja opinião, como se disse atrás e em seguida se provará, dita leis e orienta governantes.
O Herr Professor Karl Bayer foi categórico: nenhum perigo de poluição. Com isso liquidou os últimos escrúpulos de certos homens de governo aparentemente receosos da propalada capacidade poluidora da Brastânio. A segurança expressa pelo competente técnico não significa no entanto inflexibilidade; tudo no mundo depende de hora e lugar e de quantia em jogo. Amanhã Herr Bayer pode mudar de opinião, afirmar exatamente o contrário e nisso reside a grandeza (e a fortuna) dos técnicos fora de série.
Sou levado a essa conclusão lendo nos jornais notícia da chegada ao Brasil de outro técnico ilustre e infalível. Vem por conta de multinacional com matriz nos Estados Unidos negociar contrato de risco para prospecção de novos campos petrolíferos garantindo, no maior entusiasmo, possuir nosso subsolo incomensuráveis reservas do cobiçado ouro negro. Trata-se do mesmo competente especialista outrora contratado por governantes nacionais para tirar a limpo de uma vez por todas a existência ou não de petróleo no Brasil. Foi ele ainda mais categórico, explícito e peremptório em sua resposta negativa do que, na polêmica sobre a Brastânio, o conclusivo Bayer. Após meses de estudo, pesquisas, prospecções, banquetes, garantiu, sob palavra de honra, a total, absoluta ausência de petróleo no subsolo brasileiro: nem uma gota para remédio, na terra e no mar. Não passando toda e qualquer afirmação em contrário de agitação subversiva, a serviço de Moscou, merecedora de severa repressão. Embolsou régio pagamento e, se não me engano, recebeu de lambugem magna condecoração pelos serviços prestados ao Brasil. Sua opinião fez lei e vários indivíduos foram trancafiados no xadrez, entre os quais um certo Monteiro Lobato, escritor de profissão, teimoso brasileiro irresponsável a ver petróleo onde petróleo não havia; inexistência provada e comprovada pelo relatório de mister… Como é mesmo o nome do porreta?
O nome o leitor pode vê-lo nos jornais, onde brilha de novo, agora afirmando exatamente o contrário sobre a existência do petróleo no subsolo brasileiro, na terra e no mar, pago dessa vez por seus patrícios. No caso, nascimento e dinheiro coincidem para lhe dar a nacionalidade norte-americana, uma das melhores entre as atuais.
Quem sabe, com o passar do tempo, nosso Herr Professor Bayer mudará também de opinião. Quanto aos outros Bayer, os magnatas, a esses pouco importa se a indústria de dióxido de titânio polui ou não. Se polui, o faz bem longe deles, em ignotas terras da Bahia. A fumaça mortal, amarela ou negra, não os alcança, cabe-lhes apenas recolher os lucros do capital aplicado e das gorjetas pagas a sabichões e a excelências.
DA MORTE E DO BORDÃO
O VELHO ZÉ ESTEVES MORREU DE ALEGRIA, CONCLUI
TIETA ao tomar conhecimento dos detalhes finais. Caíra morto, envolto em riso quando, tendo fechado negócio para a compra da terra e do rebanho, voltou ao curral com Jarde Antunes e seu filho Josafá. Não fizera por merecer morte assim tão leve, segundo o comentário do genro, em cuja casa se realiza o velório. Astério murmura a medo aos ouvidos do amigo Osnar:
— Ruim como a peste. Botou fora tudo que tinha mas nem com a pobreza baixou a crista, vivia dando esporro em todo mundo. De repente, esse farturão. Tieta lhe satisfazendo todas as vontades e ainda por cima as cabras, deu nisso.
Conversam no passeio, a sala repleta. Pela janela, enxergam Tonha, numa cadeira ao lado do caixão. Ali sentada, obediente, silenciosa, às ordens do marido como durante toda a vida. Astério Simas conclui, olhando a sogra:
— Um carrasco. Perto dele ninguém levantava a voz. Nem Perpétua. — Retifica: — Só Antonieta. Dizem que desde menina.
Do outro lado do esquife, Perpétua leva o lenço aos olhos secos, arfa o peito em inexistentes soluços, enquanto na cozinha, assistida por dona Carmosina, Elisa prepara café e sanduíches para ajudar a travessia da noite.
Acontecera no caminho de Rocinha, em terras de Jarde Antunes, nas encostas de um morro, cabeços de capim ralo, figos-da-índia, penhascos, paisagem agreste e áspera, própria para os pés e os olhos de Zé Esteves, nativo daquele chão. O rebanho bem tratado, dando gosto ver. Zeloso, Jarde cuida pessoalmente dos bichos e da mandioca desde o raiar do sol. Seu pedaço de terra limita com a propriedade de Osnar, onde a mandioca, o milho, o feijão, as cabras, as ovelhas e os trabalhadores são administrados pelo compadre Lauro Branco, que com certeza o rouba nas contas mas lhe dá descanso e despreocupação, uma coisa pagando a outra e, ao ver de Osnar, por preço ainda assim barato.
Josafá, caboclo forte, de olhar arteiro, ouve o pai falando das cabras e do bode, sabe quanto lhe custa a decisão finalmente tomada, e se pergunta a razão por que homens como Jarde e Zé Esteves são de tal maneira apegados a uma terra sáfara e ingrata, de áridos outeiros carecas, a uns bichos ariscos. Ainda adolescente, a exemplo dos demais rapazes de Agreste, Josafá abandonara os pais e a casa de barro batido, rumando para o sul. Começara varrendo o armazém de seu Adriano, em Itabuna; em dez anos chegara a sócio e realizou o sonho de sua vida: adquiriu uma roça de cacau, pequena ainda, produzindo por volta de quinhentas arrobas, mas um bom começo. Isso, sim, valia a pena, lavoura de rico. Cultivar cacau era o mesmo que plantar ouro em pé para colher em barras, duas vezes por ano. Mandioca e cabras, labuta de pobretões.
Todos os anos, por ocasião das festas de Natal e Ano-Novo, Josafá, bom filho, visitava os pais. Há dois anos a mãe morrera e desde então tenta convencer Jarde a vender posse e rebanho e ir com ele para Itabuna; se não pode viver longe do campo, venha ajudá-lo na roça de cacau, nas terras fartas de Itabuna. O pai resistia, não desejando mudar de chão mesmo por outro mais fértil, cacau em lugar de mandioca, bois e vacas em lugar de cabras. Mas desta vez, ao chegar, Josafá ouve notícias das transformações e novidades de Agreste. Armou-se então de tais argumentos que Jarde não teve como contestá-lo, inclusive porque lhe fez ver ser ele, Josafá, proprietário de metade daqueles bens, herança da mãe. Fê-lo a contragosto mas não podia perder aquela oportunidade de ganhar um dinheiro realmente grande para aplicar em novas roças de cacau. Curvou-se o velho, na casa do sem-jeito.
Ao saber da decisão de venda, anunciada por Josafá no Bar dos Açores e transmitida ao sogro por Astério, Zé Esteves se pôs imediatamente a caminho, percorrendo os três quilômetros e meio a separar as terras de Jarde das ruas da cidade. O preço não lhe pareceu alto, apenas o pagamento tinha de ser à vista. De volta a Agreste, Zé Esteves contou e recontou o dinheiro escondido, pé-de-meia acumulado em cerca de doze anos, a partir do primeiro cheque enviado pela filha rica de São Paulo. Tem para pagar mais de metade mas ainda falta um bocado de dinheiro.
No mesmo passo, retornou à presença de Jarde e Josafá. Propôs entrar com a maior parte e completar o restante mês a mês. Josafá recusou: quer o dinheiro todo de uma vez, não se dispondo a financiar nem um tostão. Por que não pede à sua filha? Para ela não é nada, uma ridicularia — perguntou, enquanto o velho Jarde, calado, se retirava, deixando a conversa por conta dos dois. Foi ver as cabras sob o sol, por seu gosto morreria ali, nos outeiros calvos, perto dos bichos indóceis.
Pedir à filha, fácil de dizer, difícil de fazer. Zé Esteves coça a cabeça. Tieta, no pouco tempo que leva em Agreste, comprara a mansão de dona Zulmira, uma das melhores residências da cidade, onde ele e Tonha vão viver como lordes, mandara nela fazer obras — na opinião de Zé Esteves dispensáveis, onde já se viu em Agreste moradia com dois banheiros, cada qual maior? — adquirira terreno em Mangue Seco onde construía casa de veraneio, gastos enormes, um dinheirão e tudo pago no contado. Tieta não mede despesas para ter conforto; toca o bonde para a frente, exigindo o melhor: móveis, utensílios, banheiras mandadas vir da Bahia. Banheiras, imagine-se! Para que diabo? Essa gente do sul não sabe mais o que inventar.
Quando Tieta quer uma coisa, não discute, vai pagando. Mas Zé Esteves nunca soube que ela quisesse encostas de morro plantadas de mandioca, outeiros de figos-da-índia e pedras onde saltam cabras. Josafá deu-lhe prioridade até o dia seguinte. Não vendo outra solução, Zé Esteves almoça às carreiras, aluga o bote de Pirica, desce o rio para Mangue Seco.
— Por aqui, meu pai? Que foi que deu em vosmicê? — Tieta leva-o a ver a casinha quase pronta onde Ricardo, de brocha em punho, ajudando na caiação, lhe pede a bênção. O velho repara no neto: o corneta desasnou, nem parece o rato de sacristia do começo das férias.
Tieta prossegue, enquanto visitam a obra:
— Alguma novidade nos trabalhos da casa? Aperte seu Liberato, tome o exemplo de Cardo que botou o pessoal daqui para trabalhar a toque de caixa. Quero dormir em nossa casa em Agreste, antes de ir embora.
— E tu está querendo ir?
— Assim liguem a luz nova. Só espero a festa. Vim por um mês, vou passar quase dois. Já pensou?
— Para a festa tu tem de ficar pois foi tu, minha filha, quem botou essa luz em Agreste. A quem se deve agradecer o benefício?
Tieta sente por detrás do elogio, a agitação e o acanhamento do pai:
— A que veio, pai? Me diga.
— Quero tratar um assunto com você.
— Pois fale que eu lhe ouço.
— Aqui não — diz em voz baixa, apontando com os olhos Ricardo, os trabalhadores, a Toca da Sogra onde o comandante Dário, que o acolheu à chegada, está estirado na rede, lendo.
— Então venha comigo, vamos ver se vosmicê ainda tem pernas para subir um combro.
O minúsculo maiô deixa à vista mancha escura e recente na parte interna da coxa de Tieta, que explica: pancada de um caibro, ali, na obra. Ela e Ricardo, para dar o exemplo, trabalham de operários. Ouvindo a explicação, Ricardo sorri à socapa. Sorte o maiô cobrir a bunda, o ventre, o entrepernas. Recorda a voz da tia, entre gemidos:
— Doido, tu vai acabar me obrigando a andar de calças compridas aqui, na praia.
Também Tieta esconde um sorriso ao contar do caibro escapando-lhe das mãos. Adorado caibro, além dos lábios e dentes vorazes; a juventude, a areia e as ondas. Ah!, o amor na praia, na fímbria do mar, carícia de espumas. Anjo revel, terei forças para desprender-me de teus braços e partir?
Sob a canícula do começo da tarde, pai e filha sobem as dunas, em silêncio, ela pensando nas sublimes estrepolias de Ricardo, ele buscando a palavra precisa para colocar a premente questão. Resolve-se:
— Tenho um pedido a te fazer, minha filha.
— Peça, meu pai, que, se eu puder, atendo, vosmicê sabe.
— É a coisa que mais desejo no mundo mas tu tem sido tão boa comigo, tem me dado tanta satisfação que fico com medo de abusar.
— Ora, pai, deixe disso que vosmicê nunca foi dessas cerimônias. Quando vosmicê queria uma coisa só não pedia se pudesse tomar. Vá, peça.
Diante deles se abre passo a passo a paisagem violenta, fascinante e infinita. Naquele mar-oceano pai e filha temperaram a alma, crestaram a pele ao contato do vento de areia, cortante fio de punhal. O cajado, inútil no chão movediço, atrapalha mais do que ajuda na subida. O velho sente o esforço, já não possui a agilidade e a resistência de antes quando, atrás de raparigas, escalava os cômoros a correr e saltava sobre as pedras dos cabeços para segurar e montar cabras em cio, não lhe bastando a mulher jovem e bonita trazida dos roçados. Ainda assim avança sem se queixar do escaldante sol de verão, o pensamento no pedido e na resposta.
Lá em cima, depois de contemplar por um instante o panorama insólito, sentam-se sobre uma palma de coqueiro. Tieta se ajeita para encobrir outra mancha ainda maior. Felizmente a ventania varreu a marca dos corpos sobre a areia e na praia o mar lavou a lembrança noturna dos embates. Imagine vosmicê, pai, sua filha e seu neto na descaração. Assim como eu vi vosmicê se pondo nas cabras.
— Tu bem sabe, minha filha, que passei a vida criando cabras. Depois que tu partiu as coisas desandaram, acho que foi castigo de Deus — coça a cabeça, a areia incrusta-se nos cabelos brancos e crespos, duros capuchos de algodão — por minha ruindade te botando para fora de casa. Só pode ter sido.
— Não fale nisso, pai. Ninguém se lembra mais, esqueça também.
— Castigo, sim. Acabei perdendo tudo e se tu não tivesse vindo em meu auxílio, ia acabar mendigando porque se dependesse de Perpétua eu morria de fome e Elisa não tem onde cair morta. Tu me deu de um tudo mas, antes que Deus me chame, queria ainda ter uma alegria, além dessa de te ver, que eu não merecia.
— Pai, pare com essas galantezas, não são de seu feitio nem precisa me gabar tanto. Diga logo qual é essa alegria que vosmicê tanto deseja. Se eu puder, lhe satisfaço.
— Poder, você pode, não sei se vai querer. Como lhe disse, dou a vida por meio metro de terra e um casal de cabras. Um casal, três ou quatro, meia dúzia e já é demais, dá para ocupar meus dias.
— Se bem entendo, vosmicê quer ter outra vez uns alqueires de terra e umas cabeças de cabras, é isso?