Tieta do Agreste
Quarto episódio
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
Empapada de suor, dona Carmosina chega ao fim da crônica de Giovanni Guimarães. Escuta ao longe a voz de dona Milu conversando na porta com uma vizinha. Lê as últimas linhas: “Ergue a voz, poeta, toma da lira e desfere um grito de protesto, defende a paz e a beleza de teu rincão de sonho, desperta a cólera do povo e impede que a poluição se instale sobre colinas e praias, desça ao fundo das águas, cubra de negro o céu diáfano de Agreste”. A crônica termina repetindo a mesma grave, tenebrosa advertência do começo: “Teu paraíso está ameaçado de morte, poeta!”.
Dona Carmosina, as mãos trêmulas, o coração descompassado, levanta-se, esquecida da gripe, veste-se às carreiras e, sem dar qualquer explicação a dona Milu, além do aviso: volto logo, sai porta afora, o jornal em punho, em busca de Barbozinha. A essa hora da tarde o poeta costuma estar no bar, peruando o jogo de bilhar ou a partida de gamão entre Chalita e Plínio Xavier. Mas quem ela encontra no começo da rua da Frente é o comandante Dário que pergunta ao avistá-la:
— Onde vai assim correndo, minha boa Carmosina? — aproximando-se constata a alteração da amiga, lembra-se de que ela devia estar na cama, se assusta. — Sucedeu alguma coisa?
Dona Carmosina estende-lhe o jornal:
— Leia.
Ali mesmo, parado no meio da rua, o comandante devora a crônica. Interrompe a leitura, pragueja:
— Com mil demônios!
DE NOVA E DISCRETA CONVERSA NO
ELEGANTE AMBIENTE DO REFÚGIO DOS LORDES, DISCRETA APESAR DA
GROSSURA (EM TODOS OS SENTIDOS) DE SUA EXCELÊNCIA
— MEUS CAROS, O QUE VOCÊS ESTÃO PLEITEANDO É DE
LASCAR. O que eu devia fazer, era mandar meter vocês na cadeia.
Assim falou, para começo de conversa, Sua Excelência. Havia retirado o paletó; a rapariga nua, sentada sobre suas pernas, brincava com os suspensórios negros que sustentavam as calças do eminente estadista, resguardando-lhe as banhas da barriga. No rosto avelhantado de Sua Excelência, placas vermelhas. Os olhos astutos, os gestos lassos, a voz arrastada, a vulgaridade e a prepotência.
O Magnífico Doutor não responde, apenas sorri, espera que as meninas acabem de servir as bebidas e se retirem. Uma delas lembra Bety, toda ruiva, desperta-lhe o apetite. Quem sabe, ao fim da entrevista.
Tampouco o Velho Parlamentar se sente confortável na presença das raparigas. Nada tem contra elas nem contra o fato de estarem nuas, o Velho Parlamentar freqüenta a casa há séculos, habituê desde os tempos de madame Georgette, quando o atual Refúgio dos Lordes ainda se chamava Nid d’Amour. Gosta de raparigas e de vê-las nuas, não existe melhor colírio para vista cansada, segundo afirma. Mas tudo tem sua hora e seu lugar e se o lugar é adequado para o nu artístico, o assunto não o é para ouvidos estranhos, não se devendo misturar alhos com bugalhos.
Uma das nudistas apóia-se no elegante guarda-chuva negro de propriedade do Velho Parlamentar. Educado em Oxford, o Velho Parlamentar adquiriu hábitos e feições de lorde inglês: alto e magro, bem escanhoado, bigode branco e altivo, traje cortado em alfaiate londrino, roseta na lapela, a aparência fleumática. Os modos populacheiros de Sua Excelência certamente lhe desagradam. Sua Excelência é o oposto de um lorde inglês e não fora a posição alcançada — pobre São Paulo! — dada de mão beijada por Vargas nos tempos da outra ditadura, posição renovada e mantida à custa dos mais variados e discutíveis recursos e alianças, jamais lhe seria permitida a entrada em círculo tão distinto e reservado.
Tendo Sua Excelência falado em cadeia, o Velho Parlamentar permite-se tossir, para adverti-lo da inconveniência de tratar assuntos de monta, de altos interesses e patrióticas ilações, na presença de garotas de indiscutível graça e tentador apelo mas decididamente impróprias para a ocasião e o elevado debate socioeconômico. Pigarreia com cautela, a medo: Sua Excelência, impulsivo, ao ser interrompido, por vezes reage com ofensiva brusquidão. Costuma tratar os auxiliares diretos, secretários, oficiais de gabinete, de ladrões — empregando aliás termo próprio pois o são e como! — e não respeita nem idade provecta nem mandato parlamentar dos correligionários, sobretudo agora com o Poder Legislativo tão por baixo.
Ao ouvir o tímido pigarro, Sua Excelência faz uma careta, a pique de abrir a boca para dizer o que pensa do Velho Parlamentar e de sua mania de prudência e discrição, mas se contém. De fato, o gracioso gesto da menina sentada em suas pernas, a lhe massagear sabiamente o cangote, é incompatível com reunião de trabalho: um estadista nem sequer num randevu pode se entregar ao necessário relax. Tratará de fazer a conversa concreta e breve. Com uma palmada no doce traseiro, desaloja a menina e a despede, recomendando:
— Esperem no quarto. — Sorri para a outra, a picante ruiva que despertou o interesse do Magnífico Doutor, a seguir a cena, conformado. Nem tudo na vida são flores, não é mesmo? Muitas ruivas existem por aí. Seja tudo pelo bem da pátria!
Saem as raparigas, garrido séquito, deixando as garrafas e os copos servidos. Uísque daquela marca não existe no palácio dos Campos Elíseos, somente encontrado no Jockey Club e no Refúgio dos Lordes. Sua Excelência saboreia, conhecedor:
— Isso, sim, é uísque, o resto é porcaria. Mando comprar do melhor, os ladrões compram uísque falsificado, embolsam o troco. Devia meter todos na cadeia. Vocês também. A diretoria inteira.
O Audacioso Empresário, orgulhosa e árdega juventude, saído de famosa escola de administração e economia onde hoje dita conferências, após brilhante curso de executivo nos Estados Unidos, competentíssimo tecnocrata, um dos cérebros mais bem-dotados da nova geração, ameaça abrir a boca para replicar mas o Magnífico Doutor o impede com um gesto quase imperceptível. Se ele protestar, vai pôr tudo a perder: assusta-se o testa-de-ferro pago também para evitar impensadas gafes dos senhores diretores, técnicos formidáveis, políticos desastrados. Não são do ramo, como diz Sua Excelência, quando se refere aos empresários e — muito em particular — aos militares.
Ao ver Sua Excelência sorrir, baixando os suspensórios, num gesto bonacheirão, parecendo um caipira, o Audacioso Empresário reconhece a experiência e a habilidade do Magnífico Doutor; para tais missões, imbatível em esperteza e tino. Sua Excelência inicia a cobrança:
— O senador pode dizer o trabalho que tivemos.
O Velho Parlamentar, tranqüilizado com a retirada das moças, mas sempre contido como compete a um britânico (“seu ar britânico, sua elegância londrina”, definira um cronista parlamentar que lhe devia pequenos favores), concordou com um aceno de cabeça e reforçou a afirmação de Sua Excelência:
— Uma trabalheira.
Sua Excelência ia falando e despindo-se ao mesmo tempo, as meninas à espera no quarto:
— O senador pode dizer também quanto tivemos de gastar…
Um gesto apenas, mas significativo, do Velho Parlamentar para demonstrar a enormidade da quantia despendida. Sua Excelência, de camisa e cuecas, a cinta dobrada sob o volume da barriga, levanta o copo, os demais o acompanham no brinde:
— Hoje ninguém faz favores de graça, tudo é muito arriscado. Na situação atual ninguém pode se considerar seguro. — Conta nos dedos: — Trabalho, dinheiro e risco. Muito risco. Apesar disso obtive a autorização para o funcionamento da indústria de vocês. Mas, já sabem: vão poluir longe daqui, São Paulo não agüenta mais tanta fumaça. — Os olhos gananciosos passam do Magnífico Doutor para o Audacioso Empresário. — Outro não conseguiria, só mesmo eu. Sabem o que isso significa?
— O país há de agradecer a Vossa Excelência — pronuncia afoito e ingênuo o Audacioso Empresário.
— O país uma porra! — impulsivo, como se sabe, Sua Excelência. Fita o Audacioso Empresário: esse sujeitinho pretende por acaso gozá-lo? Desaparece a figura de caipira bonachão, ergue-se novamente o maioral, senhor de baraço e cutelo, aquele que põe e dispõe.
Imóvel, britânico, o Velho Parlamentar pousa o olhar confiante no Magnífico Doutor cuja voz melíflua, em tom menor porém audível, coloca a gratidão em seus devidos termos:
— O país e a Brastânio, Excelência. O Natal das crianças pobres de São Paulo a quanto subiu? Recorda-se, Excelência?
O Audacioso Empresário estremece ao ouvir a quantia absurda. Quer falar, obter uma redução, mais uma vez o gesto quase imperceptível do Magnífico Doutor o retém: com Sua Excelência não paga a pena pechinchar, é perigoso; a concessão da licença ainda não foi publicada e certamente não o será antes de tudo estar em ordem, a maquia depositada no banco, na Suíça, como nos folhetins sobre vendas de armas e poços de petróleo. Adianta-se o Magnífico Doutor, numa pergunta cuja resposta conhece:
— Como sempre?
— Exato.
Ao sair pela porta que leva ao quarto onde as duas moças o aguardam, resignadas, Sua Excelência, dirigindo-se ao Magnífico Doutor, aponta o Audacioso Empresário:
— Mudo, ele é melhor do que falando. Quando abre a boca, caga tudo. Mas você, no dia que deixar esses ladrões, me procure, tenho colocação para você no meu gabinete.
Apressada, uma das raparigas volta à sala em busca da roupa de Sua Excelência. Apenas ela fecha a porta, o Velho Parlamentar eleva o guarda-chuva e pigarreia. O Magnífico Doutor entende, estende a mão para a pasta. Não pergunta o custo do Natal dos pobres do Senado, acertara preços e valores com o Jovem Parlamentar, no início da longa e custosa operação, ali mesmo, no Refúgio dos Lordes.
Abre a pasta, preenche um cheque (ao portador, naturalmente). Para cada situação, um lance, para cada parceiro, uma gorjeta, mais gorda ou menos gorda, sempre ponderável. O Magnífico Doutor pensa em termos de gorjeta, gorjeta é o que se dá a um criado mesmo se ele enverga esmôquingue, fraque ou casaca. Excitante partida de xadrez. Algumas vezes, raras, terminando em escândalo, em processo. Em xadrez, medíocre jogo de palavras. Suspende os ombros: no Brasil, ao que se lembre, nunca. De qualquer maneira, há sempre um risco a correr quando se deseja gozar a vida ao máximo. Além de ser estimulante diversão, empregar a inteligência que Deus lhe deu a mover as peças: a calhordagem de Sua Excelência, a hipocrisia do Velho Parlamentar, a presunção do Audacioso Empresário. Tudo perfeito, não fora ter perdido a ruiva, jogada suja de Sua Excelência.
O Velho Parlamentar embolsa o cheque, depois de constatar-lhe o montante: apenas o combinado, nem um centavo a mais, corretos porém avaros. O rosto impassível não demonstra a decepção. Afinal, quem se empenhou, correndo risco, foi Sua Excelência, por isso mesmo recebe aquela imensa bolada, em divisas, a salvo na Suíça. Belo país a Suíça, longe todavia da perfeição da Inglaterra. Vai levantar-se — há uma menina, uma só, a mais novinha de todas, a esperá-lo — quando o Magnífico Doutor coloca outra questão, abrindo inesperadas perspectivas:
— Sua Excelência retirou-se antes que pudéssemos tratar do problema da localização…
— Em São Paulo, já sabem, não pode ser. Aliás, em todo o sul.
— Já nos decidimos pela Bahia. O problema é onde, na Bahia… — o Magnífico Doutor expõe os dados do que ele chama de “pequeno porém importante detalhe”.
O Velho Parlamentar permite-se sorrir britanicamente, no fleumático rosto de lorde uma nuança de satisfação. Ah!, os poderosos e necessitados empresários terão de pagar caro, desta vez não tratam com a sôfrega inexperiência do Jovem Parlamentar. Preço elevado, sirs. Para começar, pela informação confidencialíssima, ainda circunscrita aos altos escalões: consta que estão pedindo a cabeça de Sua Excelência. Falam em cassação, nada mais nada menos. Sim, exatamente por corrupto. Depois, o estabelecimento de novos contatos para resolver o “pequeno porém importante detalhe”, importante e grande problema, nem pequeno, nem detalhe, God save the King!
Tudo tratado com discrição e finura, entre cavalheiros. Sua Excelência é um grosso, um porcalhão, um asco, o oposto de um lorde.
DE ASCÂNIO TRINDADE ENTRE A CRUZ E A CALDEIRINHA
NO AUGE DA DISCUSSÃO, FALTO DE ARGUMENTOS,
IMPRENSADO contra a parede, Ascânio Trindade perde a cabeça, abandona a amabilidade habitual e, mandando para o inferno o respeito devido à situação social, patente e idade dos interlocutores, grita para quem queira ouvir, no Areópago e na rua:
— Não é porque o comandante tem uma casa em Mangue Seco e quer gozar sozinho as delícias da praia que Agreste vai fechar as portas ao progresso. Não será por causa de meia dúzia de privilegiados que recusaremos as indústrias que desejam se instalar em nossa terra. Agreste se redimirá, doa a quem doer.
Quase um discurso, sem falar na exaltação. Criatura de entusiasmo fácil mas de trato lhano e convivência agradável. Patriota às voltas com quiméricos projetos para reerguer o decadente burgo, abarrotando de cartas as seções de turismo dos jornais da capital, Ascânio reunira até então a estima, o apoio e os aplausos unânimes de seus conterrâneos.
O apoio e o aplauso dos importantes, pela cordialidade e deferência com que os acolhe quando têm algo a tratar na prefeitura e pelo esforço desprendido em prol de Agreste. Secretário da prefeitura há seis anos, Ascânio realizara milagres, entre os quais o de colocar em dia o recebimento dos impostos municipais, pequenos, poucos e, ainda por cima, sistematicamente sonegados. Enfrentando o compadrio dos prefeitos, o total desinteresse do tesoureiro Lindolfo Araújo, galante presença a enfeitar o próprio da municipalidade, funcionário relapso e nulo, a relutância de comerciantes e fazendeiros mal-acostumados, Ascânio conseguira pôr ordem nas magras finanças da prefeitura, sem se atritar com ninguém — contado não se acredita.
A estima dos pobres, da cidade e do interior, pela atenção que dispensa a cada um dos numerosos e atrapalhados problemas trazidos ao chefe da comuna, em realidade a seu preposto, na esperança de solução ora simples, ora difícil, quando não impossível. Reivindicações, reclamos, queixas, desavenças, brigas de vizinhos, cercas movidas durante a noite modificando limites e rumos de sítios e posses, animais invadindo terreno alheio, um mundo de mesquinhas questões próprias à vida de um município paupérrimo, na maioria pessoais, sem nada a ver com a administração pública. Nem por isso Ascânio deixa de escutá-las e, freqüentemente, de resolvê-las. Faz as vezes de prefeito, conselheiro e juiz, solucionando litígios, reconciliando desafetos, esclarecendo dúvidas, conduzindo ao casamento relutantes sedutores responsáveis pelo ventre inchado de incautas ou apressadas tabaroas, chega a receitar remédios para soltura dos intestinos, prisão de ventre e barriga-d’água. Ouve com atenção infindáveis lengalengas de roceiros a propósito das manhas de um maldito jegue ou das desventuras de um setuagenário abandonado pela mulher e pelos filhos, sozinho a lavrar árido e ingrato pedaço de terra. Sendo, quando preciso, veterinário e agrônomo.
Para os assuntos de atendimento impossível, encontra uma palavra de ânimo, de consolo. Se bem o cargo de secretário da prefeitura lhe especifique limitado número de obrigações, o fato de Ascânio funcionar como representante ou substituto permanente do prefeito não lhe deixa tempo livre. Sobretudo aos sábados quando infindável romaria demanda a sede do executivo municipal, durante e depois da feira. Ele atende a todos, sem exceção.
Assim age sem nenhum interesse pessoal, gratuitamente, sem nada pedir em troca. Não pede porém recebe. Recebe consideração e víveres. Tratam-no de doutor, não porque houvesse cursado três anos de faculdade, mas por considerarem-no como tal, sapiente, sem particularizarem o título concedido, doutor disso ou daquilo. Doutor, simplesmente. Trazem-lhe pequenos presentes, mesmo quando não necessitam consultá-lo.
Vale a pena vê-lo ao fim da tarde dos sábados, a caminho de casa onde, pitando o cachimbo de barro, a velha Rafa o espera: leva matalotagem com que se alimentar durante a semana. Dádivas trazidas pelos roceiros e sitiantes, farto e variado mafuá: pernis de porco e de cabrito, gordos capões — cevei bem cevado para o senhor mandar fazer uma canjinha e ganhar sustância, explica a velha vendedora de puba e mandioca —, olorosas jacas, cachos de bananas amarelecendo, raízes de inhame e aipim — aipim-cacau, doutor, mole de desmanchar na boca, garante o caboclo risonho e desdentado —, a fina farinha de mandioca, beijus molhados em leite-de-coco, quiabos, maxixes, chuchus e jilós, tudo escolhido para o moço paciente e bondoso. Fartura de mantimentos, servindo a quatro casas pois Ascânio divide carnes, farinha, espigas de milho, frutas, raízes e legumes com o capenga Leôncio e o sonhador Lindolfo — um dia se armará de coragem e embarcará na marinete de Jairo para enfrentar em Salvador os microfones de uma estação de rádio ou as câmeras da televisão — o qual, por sua vez, reparte a cota que lhe coube com a família do amigo Chico Sobrinho, em cujo lar acolhedor janta aos sábados e almoça aos domingos.
É necessário levar em conta, para explicar o destempero de Ascânio, que, a partir da tarde anterior, quando a notícia da crônica de Giovanni explodiu na cidade, sua vida não tem sido fácil. Encheram-lhe o saco, essa a expressão justa.
Jamais a popularidade de A Tarde atingira índices tão altos na região. Todos queriam tomar conhecimento da crônica, onde encontrar exemplares do jornal? Habitualmente, o único à disposição do público é o de propriedade de seu Manuel, colocado sobre o balcão do bar, folheado pelos fregueses, lido por Aminthas e Fidélio. Nessa tarde, disputado quase a tapa, andou de mão em mão antes de sumir misteriosamente. A conselho de Aminthas, seu Manuel, baseado nas leis da procura e da oferta, tentara cobrar aluguel pelo empréstimo da gazeta, provocando revolta geral. O mesmo Aminthas propôs, em revide, a imediata socialização de todo o estoque de bebidas do bar, castigo para a ganância do mondrongo. A atmosfera, entre jocosa e inquieta, participava do pânico e da galhofa.
Quantas vezes, naquele fim de tarde e princípio de noite, Ascânio tivera de repetir a mesma explicação: parecia-lhe prematuro qualquer julgamento. Prematuro e injusto pois somente conheciam — quando conheciam — os argumentos do jornalista adversário da Brastânio, fazendo-se necessário, antes de expressar opinião, de tomar partido, conhecer também as razões dos diretores e técnicos da empresa.
À noitinha, quando se dirigia para o encontro sagrado com Leonora, na porta da casa de Perpétua — costumavam andar em volta da praça, de mãos dadas —, caiu-lhe em cima o poeta De Matos Barbosa, exaltado, empunhando um exemplar de A Tarde, cedido pelo árabe Chalita, um dos cinco privilegiados assinantes. Durante horas, à tarde, Ascânio fugira dele, sabendo-o em lastimável estado de ânimo.
A princípio, o vate se considerara desmoralizado para sempre, coberto de opróbrio devido ao poema perpetrado em louvor da monstruosa indústria denunciada à nação por seu querido e grande amigo Giovanni Guimarães, excelso cronista, em carta aberta dirigida a ele, De Matos Barbosa, poeta e filósofo, através das colunas ilustres de A Tarde. Honra imensa apenas superada pela desonra ainda maior resultante dos repudiados alexandrinos. Por sorte, a criançada enlouquecida com os brindes — brindes vagabundos, diga-se de passagem, abaixo da crítica, umas merdolências, qualificava o bardo, um tanto quanto tardiamente — havia impedido a audição dos renegados versos, ouvidos e aplaudidos no entanto pelos amigos presentes à tertúlia em casa de Perpétua.
Correra para junto de Tieta ao ver-se envolto em vergonha e ela, a rir e pilheriar, levantara-lhe o ânimo, reerguendo-o das cinzas, levando-o a superar o abatimento e a partir para outra. Refeito vinha informar a Ascânio, a quem não culpa pelo terrível qüiproquó, na certa tão inocente das criminosas intenções da Brastânio quanto ele próprio que, atendendo ao grito de alerta de Giovanni Guimarães, convertera a lira em arma de combate e estava produzindo a toque de caixa uma série de poemas satíricos e coléricos, à maneira de Gregório de Matos, os Poemas da maldição, com os quais pensa concorrer de maneira decisiva para impedir a concretização dos maléficos planos da excomungada Brastânio, arrancando a máscara, expondo a hipocrisia e a vileza dos criminosos diretores. Pelo próximo correio, enviará a Giovanni, para publicação em A Tarde, os primeiros poemas. Desfraldara a bandeira da guerra. Quanto à execrável composição anterior já não existe: Barbozinha destruíra os originais e desejava pedir a Leonora o favor de queimar em fogo purificador a cópia feita logo após a leitura.
Cansado, em atraso para o encontro com Leonora, Ascânio não tentou demovê-lo da denúncia poética, seria perder tempo e latim. Prometeu-lhe a destruição da cópia mas não o enganou: reservava sua opinião sobre o assunto para quando possuísse maior soma de informações. Mais informações, para quê? Inúteis, fossem quais fossem, considerou o poeta, diante dos argumentos de seu excelso amigo Giovanni Guimarães, irrespondíveis.
Nesse estado de ânimo, após uma noite de mal dormir, com pesadelos onde admirou arranha-céus magníficos erguidos nas dunas de Mangue Seco e reconheceu cardumes de peixes mortos, sem possuir ainda argumentos com que enfrentar e refutar as afirmações do cronista, Ascânio ouviu a leitura do malfadado artigo na íntegra, como se não o houvesse lido e relido na véspera. Ainda mais funéreo na voz encatarroada de dona Carmosina, entrecortada de tosse e de sarcásticos e corrosivos apartes; dela e do comandante. Ao terminar, dona Carmosina lhe oferece uma cópia datilografada, fizera três: uma para ele, outra para o comandante, a terceira para qualquer emergência.
A princípio, cauteloso, disse que ia tirar o assunto a limpo, não podendo devido a uma simples crônica, mesmo assinada por Giovanni Guimarães, condenar projeto assim vital para a comunidade: a implantação em terras do município de fábricas de uma indústria cuja importância é inegável. No distante e abandonado coqueiral, em Mangue Seco, em terras desabitadas, sem nenhuma espécie de serventia.
Distante e abandonado? Sem qualquer serventia? Cresceu a indignação do comandante: para Ascânio os pescadores de Mangue Seco não existiam, nem eles nem os cidadãos de Agreste que possuíam casas de veraneio na praia.
Impacientou-se Ascânio. Não se referira à praia de Mangue Seco e sim ao coqueiral. O projeto da Brastânio — ele vira plantas e desenhos — localizava-se bem mais abaixo e mais para dentro e não ao lado da praia. Mesmo se alguma poluição pudesse haver — e não existe indústria sem poluição — não atingiria nem os pescadores nem os veranistas.
Pouco a pouco, curiosos foram se juntando na porta e no passeio da agência, a ouvir o empolgante debate. Dona Carmosina, animada com a presença de público, retrucou com cerrada argumentação, superando as ânsias da gripe: não se trata de uma indústria qualquer, de tolerável porcentagem de poluição. Estava em jogo a produção de dióxido de titânio, Ascânio sabe por acaso o que isso significa? Convidou-o a ler o artigo publicado em O Estado de S.Paulo, a sentença do juiz Viglietta, o comandante guardara o recorte. Uma fábrica situada no coqueiral não somente atingiria a praia, tornando impraticáveis a pesca e o banho de mar, como destruiria a povoação de Mangue Seco ao envenenar as águas e o ar, transformando, como escrevera o juiz italiano na corajosa sentença, o oceano numa lata de lixo.
Ascânio revidou já esquentado, reduzindo às devidas proporções os evidentes exageros de dona Carmosina. Para começar, disse, não existe em Mangue Seco nenhuma povoação de pescadores, apenas um aldeamento composto de meia dúzia de casas de desocupados a serviço do contrabando, puníveis por lei se a lei fosse cumprida. Os veranistas não passavam de quatro ou cinco casais, a maioria preferindo ir para o Arraial do Saco onde o banho de mar não oferece perigo e existe muito mais conforto, inclusive armazém e igreja. Quanto ao volume da poluição, compete aos técnicos opinar e não a um simples jornalista sem categoria científica.
De tão ofendida, dona Carmosina curou-se da gripe: Giovanni Guimarães, ficasse Ascânio sabendo, não era um simples jornalista e sim um grande jornalista, homem probo e culto, com um nome a zelar. Ascânio andava pela faculdade quando ele ali estivera em inesquecível visita, por isso não o conhece. Dona Carmosina não admite que se tente diminuir-lhe a figura, pôr em dúvida a capacidade e a honradez de um amigo sincero de Agreste. Reafirmou, veemente, sua disposição, a dela e a do comandante, de lutar por todos os meios contra o que haviam passado a denominar de “a fumaça da morte”, que, aliás, conforme esclarece, douta e precisa, a própria dona Carmosina, é amarela e não negra, nisso Giovanni se enganara.
Logo se arrependeu do desastrado exibicionismo pois Ascânio montou no erro do jornalista, apontado por quem? Por um adversário? Não. Por sua maior admiradora e amiga. Se até a cor da fumaça ele desconhece, imagine-se o resto. Onde melhor prova da incapacidade científica de Giovanni, ótima pessoa, agindo de boa-fé, acredita Ascânio, mas em matéria científica um perfeito ignorante? Não basta ser autor de crônicas brejeiras…
A história da cor da fumaça provocou risos, Ascânio marcara um ponto. Dona Carmosina ficou uma fúria. Ao apegar-se a detalhe sem importância, em meio à volumosa massa de dados concretos apresentada por Giovanni em sua crônica, Ascânio age de forma desonesta. Acusou, repetindo violenta e ofensiva:
— Você está sendo desonesto! — Soletrava a palavra rude: — De-so-nes-to!
Ao ver do comandante, havia pior. Apontou algo que lhe parecia imperdoável atitude de Ascânio: sabedor, há muito, dos projetos da Brastânio, devido à sua condição de secretário da prefeitura, escondera-os da população, mentira, referindo-se a planos turísticos, fazendo-se assim cúmplice do crime projetado. Atitude que lhe parecia realmente pouco compatível com o exercício de um cargo de confiança. Uma traição à comunidade.
Foi demais. Levantando-se, Ascânio despejou o saco cheio até a borda, lançou as citadas frases sobre a meia dúzia de privilegiados e as delícias que o comandante deseja gozar sozinho, tentando egoisticamente impedir o progresso do município, a instalação da indústria redentora. Estende o braço e o dedo:
— O progresso de Agreste passa por cima seja do que for, seja de quem for! — afirmação solene e agressiva.
Atravessa por entre os curiosos, dirige-se para a prefeitura. Aminthas, espectador mudo e aparentemente respeitoso, define a frase e a situação:
— Uma declaração de guerra! — Volta-se para Osnar: — Começou a guerra da fumaça, mestre Osnar. Em que batalhão você se alista? No da fumaça amarela ou no da fumaça negra?
Osnar não ri, apenas abana a cabeça, aquele assunto não lhe agrada.
ONDE O COMANDANTE DÁRIO DE
QUELUZ RECRUTA VOLUNTÁRIOS
AO LEME DA CANOA A MOTOR, COMANDANTE DÁRIO
ESPERA QUE TIETA conclua a leitura da crônica de Giovanni Guimarães. Ele e dona Laura passarão em Mangue Seco o Ano-Novo e as festas de Reis. Tieta e Ricardo aproveitam a condução e a companhia: vão dar o empurrão final nas obras do Curral do Bode Inácio, certamente atrasadas devido ao Natal, qualquer pretexto serve aos praieiros para não trabalhar. Tieta deseja inaugurar a biboca — assim a designa — antes da volta para São Paulo, marcada para imediatamente após a instalação da luz da hidrelétrica; não pensara prolongar por tanto tempo a estada. Viera por um mês, terminará passando dois; para quem tem negócios a cuidar, um absurdo. Para o Curral, mandou fazer em Agreste uma cama larga, colchão de lã de barriguda: nela se despedirá de Ricardo quando chegar a hora de partir. Por intermédio de Astério encomendou cadeiras e mesas dobradiças, camas de campanha; comprou redes na feira. Para os hóspedes: o velho e mãe Tonha, as irmãs, os sobrinhos, os amigos que utilizarão o Curral em sua ausência.
A primeira reação de Tieta, após a leitura, deixou o comandante alarmado. Devolvendo-lhe as páginas datilografadas, ela comentou:
— Há um dinheirão a ganhar, comandante, nesta história.
— Dinheirão a ganhar?
— Não foi o senhor mesmo quem me disse que essas terras do coqueiral não têm dono, são devolutas?
— Não é bem assim. Donos elas têm, mas quais são ninguém sabe direito. Modesto Pires comprou uma parte, a que era do pessoal do povoado. Foi ele quem me disse não ter comprado mais devido à confusão, o coqueiral tem não sei quantos donos, o que é o mesmo que não ter nenhum.
— Pois então: a gente compra esses terrenos para vender ao pessoal da companhia. Compra por um, vende por dez, por dez ou vinte. Felipe era um craque nessas operações.
— Deus me livre, Tieta. Não quero ganhar dinheiro à custa da desgraça de minha terra.
— Comandante, se a gente não pode impedir, se não tem jeito a dar, pelo menos ganha um dinheirinho. Quando Ascânio começou com essa história de turismo, eu pensei em comprar terrenos por aqui.
— Primeiro, eu não tenho com que comprar um gato morto; segundo, vai ser a maior dificuldade localizar os donos; terceiro — fez uma pausa antes de enunciar: — não vou cruzar os braços, Tieta, vou partir para a briga. Sou o homem mais pacato do mundo, mas essa gente não vai poluir Agreste sem meu protesto. Isso não.
A canoa pesada, impelida pelo motor de pouca força, desce o rio sem pressa. A voz apaixonada do comandante conquista a atenção de Ricardo. A princípio, o seminarista seguira a conversa de ouvido distraído, o pensamento vagando na correnteza. Esses dias em Agreste, as festas de Natal, deixaram lembranças e marcas tênues mas persistentes. Ficaram-lhe na cabeça, fazem-se presentes e ele encontra sabor em recordá-las. Pela primeira vez, dera-se conta do interesse com que, na rua e na igreja, certas mulheres o fitavam. As moças, debruçadas nas janelas, seguiam-no com os olhos, quando passava de batina, indo ajudar padre Mariano na missa ou quando atravessava a praça, short e camiseta, a caminho do rio. Cinira mordia os lábios ao vê-lo, suspirava; dona Edna, essa nem se fala; comia-o com os olhos mesmo na vista do marido. Na festa dos brindes de Natal, Ricardo sentira o contato das ancas redondas de dona Edna abalroando-o, na confusão. A lembrança mais pertinaz e grata, porém, é a de Carol, semi-escondida atrás da janela, segurando a cortina e sorrindo para ele, os lábios abertos, carnudos, os olhos úmidos. Ao percebê-lo vindo no passeio, Carol retirara-se da janela para melhor poder espiá-lo e para lhe sorrir — coisas defesas ao seu estado de amásia do ricalhaço. Mais moça e mais escura que a tia, possuía o mesmo busto farto, idênticos quadris, poderosos e maneiros, igual exuberância de carnação, quem sabe a mesma alegria?
Em Agreste, Ricardo não se demorara a pensar naqueles meneios e sorrisos, lábios mordiscando-se, ancas em navegação sutil. Desfaziam-se na fumaça do incenso. Retornam na canoa, e no espelho do rio ele enxerga faces e gestos, não lhe desagradam. À noite terá Tieta nos braços, sobre as dunas, como da primeira vez. Na presença do comandante e de dona Laura, eram tia e sobrinho comportados. Ela dormia na cama de solteiro, ele na rede. Nas areias, no alto dos cômoros, porém, sumia o parentesco, o vento levava os ais de amor para o outro lado do oceano. Há pouquíssimos dias começara tudo aquilo, parecia uma enormidade de tempo, pois Ricardo, nesse ínterim, fizera-se outro. Quantos dias? Quantos anos? Curioso que jamais se houvesse sentido tão próximo de Deus, tão convicto da vocação sacerdotal. Por quê? Ao dizê-lo a frei Timóteo, o franciscano não percebera contradição no caso, ao contrário.
— Você pôs à prova sua vocação. Agora, está em paz consigo mesmo.
Ricardo emerge desses pensamentos para escutar a veemente declaração do comandante, a voz em crescendo:
— Vou brigar e quando eu brigo é de verdade.
— Pensa que vale a pena, comandante? — ceticismo na interrogação de Tieta.
— É o que eu também pergunto — intervém dona Laura, preocupada.
— Mesmo que não sirva de nada, não vou deixar que destruam Mangue Seco sem que eu proteste.
A canoa corta a água, margeando o rio que se alarga à aproximação da foz. A paisagem ganha em beleza, avista-se ao longe o oceano, a correnteza torna-se mais rápida, a embarcação mais leve. A voz do comandante baixa de tom mas conserva o acento de paixão, busca convencer:
— Escute, Tieta, pense no que vou lhe dizer. Se eu abrir a boca em Agreste para protestar, não vou conseguir nada, é a pura verdade. Vão me ouvir porque me respeitam, alguns ficarão de acordo, ninguém fará nada. O mesmo acontece com Barbozinha, não vai adiantar nada ele escrever tanta poesia. Talvez A Tarde publique algum poema, qual a serventia? Nenhuma. É capaz até que haja quem venha se divertir à custa dele, acusando-o de vira-casaca: primeiro elogiou, chamou os homens da companhia de Reis Magos, depois, quando seu nome apareceu no jornal, mudou de lado. Você sabe como é a língua do povo.
— Coitado de Barbozinha! Está tão magoado. Quando soube da crônica, ficou feito doido, disse que estava desmoralizado, me deu um trabalhão…
— Foi atrás de Ascânio, está aí o resultado.
— Ascânio não tem culpa, ele também não sabia nada dessa tal… Como é mesmo o nome?
— Brastânio.
— Falaram em progresso, mandaram brindes, Ascânio vibrou, podia acontecer o mesmo com qualquer um.
— Não nego. Ascânio meteu na cabeça que tem de reerguer o município, repetir a administração de seu avô que foi o melhor intendente de Santana do Agreste no tempo da carochinha. Botou luz na cidade, calçou as ruas, construiu o ancoradouro, o sobrado da prefeitura. Basta ouvir falar em progresso, Ascânio fica maluco, com isso pode botar a perder tudo quanto nós temos: o clima, a beleza, a paz. Uma coisa eu lhe digo, Tieta: meu voto ele não terá para prefeito.
— Não diga isso, comandante. Ascânio, com o amor que tem a Agreste, pode fazer muita coisa boa…
— … e muita coisa ruim. Antes, eu não duvidava da honradez de Ascânio. Mas ele praticou um ato muito feio.
— E qual foi?
— Ele sabia dos planos dessa gente, viu as plantas, os projetos, estava a par de tudo e calou a boca, ficou tapeando todo mundo com histórias de turismo…
— O coitado não sabia do perigo da tal indústria… Parece que é o fim, não é? Pelo que diz o jornal…
— Se é… Não pode haver nada pior. Vamos dar por certo que ele não soubesse do perigo. Mas como explicar que continue a defender a Brastânio mesmo depois do artigo de Giovanni Guimarães? Hoje mesmo, de manhã, na agência dos Correios, ele disse as últimas a mim e à Carmosina. Conheço o mundo, Tieta, aprendi que a pior coisa para um homem é a ambição do poder. Não há honradez que resista.
Aponta para os cômoros de Mangue Seco que surgem em meio à arrebentação, erguidos diante do mar; do embate com os vagalhões eleva-se uma cortina de água. A voz do comandante, ardente:
— Já pensou, tudo isso coberto pela poluição? O progresso é uma boa coisa mas é preciso saber que espécie de progresso. — Pousa os olhos em Tieta. — Voltando ao que eu dizia: se formos apenas eu, Barbozinha, Carmosina, uns dois ou três mais, a protestar, pouco vai adiantar. Mas se você, Tieta, se juntar a nós, levantar a voz, tomar a frente, aí a coisa muda…
— Eu? Por quê?
— Porque, para o povo de Agreste você é a tal. Com razão: a luz da hidrelétrica, a velhinha salva no incêndio, sua figura, a bondade, a franqueza, seu amor à vida. Para a gente de Agreste, depois da Senhora Sant’Ana, está você. O que você diz faz lei. Não se deu conta disso?
— Sei que gostam de mim, sempre gostaram. Quem me botou para fora de Agreste foi o velho, com medo da língua das beatas, não foi o povo. Gostam de mim, mas daí… Por que hei de me meter, me diga comandante? Adoro minha terra, penso vir acabar meus dias aqui, quando a idade chegar. Mas, daí a me meter numa briga dessas…
— É sua obrigação, permita que eu lhe recorde. Você diz que adora Agreste e é verdade: comprou casa na cidade, está construindo outra em Mangue Seco, só lastimo que não fique de vez, sem esperar a velhice. — Sorriu para Tieta com amizade. — Você já pensou que, se cruzar os braços agora, quando quiser voltar, nada disso existe, acabou tudo, Mangue Seco virou um esgoto da fábrica de titânio? Já pensou no motivo por que nenhum país do mundo quer essa indústria em suas terras?
Tieta não responde, os olhos fixos na paisagem que vai se ampliando diante dela, a imensidão do mar de Mangue Seco. Sua terra, seu princípio, ali começou. Nos outeiros de Agreste, pastoreando cabras, nas dunas de Mangue Seco, coberta pela primeira vez. Sua terra? Seu começo, sim. Sua terra, porém, é São Paulo, a cidade imensa, afarista, poluída, solitária. Lá estão plantados seus interesses: o negócio rendoso, o mais fechado e caro randevu do Brasil, o Refúgio dos Lordes, os apartamentos, a loja no andar térreo, um dinheirão mensal, cada vez maior, por que há de se envolver com as encrencas de Agreste? Antes foi Tieta, a pastora de cabras, a soltar o berro de desejo nos cômoros de Mangue Seco. Agora é madame Antoinette, patroa de raparigas, cafetina a serviço de milionários. Nada lhe cumpre fazer ali, nesses confins do mundo. Se poluírem as águas e os céus de Agreste, a beleza de Mangue Seco, tant pis.
Na voz do comandante, uma súplica desesperada:
— Só você, com seu prestígio, pode salvar Agreste.
Endurece a face de Tieta, madame Antoinette. Nada mais tem a fazer em Agreste, é tempo de retornar a São Paulo. Visitou a família, desfrutou da paz da terra, beneficiou os seus e a comunidade, atendeu aos pobres, basta. Nada mais lhe cumpre fazer, repete para si mesma.
Apenas deixar que as águas corram. Um dia voltará e, se valer a pena, retirada dos negócios, velha e respeitável senhora, ali passará os últimos anos de sua vida. Bom lugar para esperar a morte, dizia o caixeiro-viajante responsável pela surra e pela expulsão. Não fosse para vê-la e tê-la nos braços, nos esconsos do rio, fugiria do caminho que conduz aos infelizes limites de Agreste. Tinha razão: isso aqui só serve para se esperar a morte, clima de sanatório, tranqüilidade e paz, paisagem incomparável. Vai responder um não redondo ao comandante quando uma dúvida a atravessa: será que no mundo já não se tem direito à existência de um lugar, um único que seja, bom para nele se esperar a morte?
— Se você disser não, Tieta, acabou-se Agreste, é o fim de Mangue Seco.
Antes que ela abra a boca, a voz de Ricardo chega do fundo da canoa, imperativa:
— A tia vai dizer sim, comandante. Não vai deixar que arrasem Mangue Seco. Senão, por que havia de fazer o Curral do Bode Inácio?
Tieta volta-se, seu menino cresceu, de repente virou homem-feito. Num espanto o escuta, acento decidido, inflexível:
— Li o artigo do jornal, comandante, seu Barbozinha me mostrou. A tia não vai deixar que acabem com os peixes e com os pescadores. Nem ela, nem eu. Se achar que eu sirvo para alguma coisa, pode contar comigo, comandante.
DA INAUGURAÇÃO DA BOLSA DE
IMÓVEIS EM MANGUE SECO, QUANDO
O JOVEM SEMINARISTA RICARDO
DESATA O NÓ GÓRDIO
EM MANGUE SECO, O DIA ESPLÊNDIDO DE SOL, A
IMENSIDÃO DO MAR, as dunas de areia, o infindo coqueiral, aparentemente a paz mais completa. Aparentemente, constataram pouco depois.
Acompanhados pelo comandante — dona Laura ficara na Toca da Sogra com Gripa, nas arrumações —, Ricardo e Tieta examinam os progressos da construção da pequena casa de veraneio. O comandante sorri ante o espanto da tia e do sobrinho: não esperavam encontrar o telhado pronto e terminado. Os operários não folgaram na semana de Natal, fosse pela fama, fosse pelo dinheiro de Tieta, pelas duas coisas juntas e sobretudo pela assistência do comandante que substituíra Ricardo no controle das obras e lhes quisera fazer uma surpresa. Enquanto Tieta coberta de ungüentos e Ricardo de cuidados permaneciam em Agreste, ele oferecera aos trabalhadores a cervejada comemorativa da cumeeira e prometera em nome da apressada proprietária um bom agrado se antes do Ano-Novo o telhado estivesse colocado. Agora falta apenas cimentar o chão, pintar as paredes, aplicar as portas e janelas e cercar o terreno onde, numa esquina, o providencial e habilidoso comandante Dário havia fincado na areia o tronco em que gravara o singular nome da casa de veraneio de Tieta. Dali se vê a Toca da Sogra e o Nosso Cantinho, a ampla e confortável vivenda de Modesto Pires. Distante da praia, nas margens do rio, avista-se a casa do dr. Caio Vilasboas, cercada de varandas, sem nome a designá-la.
Estão acertando com os mestres pedreiro e carpina o andamento dos trabalhos finais, quando aparece o engenheiro Pedro Palmeira. Vestido apenas com uma sunga de banho, queimado de sol, um filho escanchado no pescoço. Rapagão jovial, de prosa animada e riso fácil, bom companheiro de veraneio — disputa peladas na praia com os moleques e os pescadores jovens, carteia animado biriba, após a sesta, com a esposa, o comandante e dona Laura —, naquela tarde parece preocupado. Sua primeira pergunta, mesmo antes de desejar bom dia, revela o motivo:
— Leram a crônica de Giovanni Guimarães? Que me dizem? — Pousa o menino no chão.
— Estamos ameaçados do pior — responde comandante Dário.
— Não é mesmo? Hoje estive discutindo com seu Modesto sobre isso. Ele pensa de maneira diferente da minha, vê um dinheirão a ganhar.
Escondendo um sorriso, Tieta olha para o comandante a lembrar-lhe o começo da conversa na canoa. O rapaz, esgaravatando a areia com um talo de palha de coqueiro, prossegue:
— Foi desagradável. Evito conversar sobre certos assuntos com seu Modesto, nossos pontos de vista raramente coincidem. Mas hoje não pude evitar, foi chato. — Corre a retirar o filho que mergulha nas sobras da massa de reboco. — Marta terminou chorando, seu Modesto, quando se exalta, não escolhe palavras. Para ele, o dinheiro passa antes de tudo. Antes dos valores fundamentais que estão ameaçados pela poluição da Brastânio, a isso não dá importância.
Tieta sente-se corar. Não pensara ela também, antes de tudo, no dinheiro a ganhar? Não propusera ao comandante a aquisição das terras à margem do rio onde a fábrica pretende se instalar para revendê-las com lucro? Fizera-se necessário o comandante falar em paz, em beleza, no clima de sanatório, na felicidade do povo para que ela refletisse e pensasse naqueles outros valores, maiores — fundamentais, no dizer do engenheiro barbudo e preocupado —, o direito à saúde, à beleza, à paz, a um lugar bom para esperar a morte. Somente após Ricardo, seu menino de ouro, de ouro e diamantes, proclamar, em nome deles dois, militante solidariedade à causa de Agreste, ela se decidira.
— Seu Modesto interrompeu o veraneio, foi para Agreste, futucar no cartório as escrituras antigas para tirar a limpo a quem pertence o coqueiral.
— Não vai ser fácil descobrir. Uma vez, ele já andou querendo saber, quando comprou a parte que pertencia aos pescadores e pensava fazer um loteamento. Não conseguiu nada.
— Porque desistiu, comandante. Como o loteamento não foi para a frente, ele desistiu. Mas agora disse que não volta sem ter descoberto quais são realmente os proprietários — informa o genro. — Pelo que ele soube por um dos técnicos da Brastânio que apareceram por aqui, antes de eu ter chegado, o local ideal para a fábrica, aliás as fábricas pois são duas, interligadas, fica um pouco mais abaixo dos terrenos dele, nas margens do rio. O tal cara queria saber a quem pertenciam para informar os diretores com vistas a negócio. Seu Modesto fez boca-de-siri, é claro.
— Se andaram se informando na cidade devem estar certos que o coqueiral pertence aos pescadores ou que não tem dono, é o que todo mundo pensa em Agreste.
— Seu Modesto me disse que comprou toda a área de propriedade dos pescadores.
— É verdade.
— Agora quer o resto, para revender à Brastânio. A essas horas, deve estar no cartório, infernando doutor Franklin.
Entretidos na conversa, não repararam na aproximação do austero dr. Caio Vilasboas. No veraneio, o médico abandona o formalismo habitual, despe-se do colarinho duro, passa o dia de pijama e, se é obrigado a sair de casa, acrescenta o guarda-pó azul que usa quando toma a marinete de Jairo. Ao passar por eles, cumprimenta mas evita parar, leva pressa, anda em direção à praia. Seguem-no com os olhos, curiosos.
— Será que tem alguém doente? — preocupa-se o comandante ao ver o médico desviar o rumo para as casas dos pescadores. — Doutor Caio nunca vem por essas bandas.
O engenheiro palpita:
— Não será outro candidato a comprar o coqueiral? Pensando que pertence aos moradores?
— É isso, não é outra coisa, você acertou em cheio. A corrida está começando. Sabe, doutor Pedro, na canoa eu vinha dizendo a Tieta que a gente precisa reagir, protestar, impedir essa monstruosidade.
— De acordo, mas de que jeito? Como diz Giovanni Guimarães, o pessoal do cacau tem força política, o do Recôncavo também. Mas aqui todo mundo vai achar que pode ganhar dinheiro com a instalação da fábrica.
— Se Tieta tomar a frente, o povo fica do nosso lado.
O engenheiro concorda, sorri para Tieta:
— Isso é verdade. Seu Modesto diz que o povo botou dona Antonieta no altar, junto da Senhora Sant’Ana. E teve por quê.
O ruído de um motor, descendo o rio.
— É o barco de Pirica — reconhece o comandante.
O barco enfrenta a arrebentação, traz um passageiro. Olho de marujo, comandante Dário o identifica:
— Edmundo Ribeiro, por aqui? Não me diga que…
O coletor, acompanhado do filho Leléu, desembarca na praia, em frente às cabanas para as quais se encaminha, os pés afundando na areia. O engenheiro completa a frase do comandante, deixada pelo meio:
— …veio em busca dos proprietários do coqueiral, sim, senhor. Com certeza.
— Mais um. Vai ser uma loucura. Temos de fazer alguma coisa, logo.
— O que é que se pode fazer? — pergunta o barbudo: — Se fosse em Salvador, a gente mobilizava os estudantes, ia aos jornais, ameaçava com uma passeata. Mas aqui…
O comandante coça a cabeça, pensativo. Protestar, sim, era indispensável. Mas, como? Que diabo podiam fazer mesmo com Tieta à frente, obtendo o apoio do povo?
— Fazer o quê? — também Tieta deseja saber.
Vestido de calção de banho, descalço, torso nu, cor de bronze, parecendo mais um jovem pescador do que um levita do santuário, Ricardo volta a se fazer ouvir, voz sem apelação:
— No dia que esses sujeitos aparecerem de novo em Agreste ou em Mangue Seco, a gente bota eles pra correr.
— Hein? — exclama o comandante antes de explodir de entusiasmo.
— Cardo! — exulta Tieta voltada para o sobrinho, seu menino, bode inteiro e macho, bodastro.
— Toque aqui — o engenheiro estende a mão ao seminarista.
Por entre a meia dúzia de choupanas, os vultos do dr. Caio Vilasboas e do coletor Edmundo Ribeiro cruzam-se, inaugurando a bolsa de imóveis na praia de Mangue Seco.
ONDE O AUTOR, UM SACRIPANTA,
A PRETEXTO DE FORNECER
DISPENSÁVEL INFORMAÇÃO, DEFENDE-SE DE SEVERAS CRÍTICAS
NÃO, NÃO PENSEM QUE QUERO ME METER NA BRIGA
RECÉM-INICIADA, quem sou eu? Já defini minha posição de completa neutralidade, narrador objetivo e frio, expondo fatos concretos. Não venho tampouco comentar a visível mudança operada na maneira de ser do moço Ricardo. Apenas, mais uma vez constato a influência de uma perfumada e gostosa — como direi? —, de um perfumado e gostoso favo de mel, inebriante rosa negra. Transforma gelo em fogo, carneiro em leão, seminarista devoto em estudante subversivo e arruaceiro.
Outro dia, escandalizado, meu amigo e companheiro de lides literárias, Fúlvio d’Alambert (José Simplício da Silva, bancário, na mediocridade da vida civil e burguesa; se por acaso já forneci essa explicação, aqui a repito, antes ser acusado de redundante do que de omisso), revelou-me que, em certos seminários, atualmente, os estudantes lêem e analisam Freud e Marx e não o fazem para negá-los, refutando-lhes as heréticas teorias, denunciando-os à polícia política à falta da Santa Inquisição; uma vale a outra. Muito ao contrário, comentam-lhes os escritos entre elogios e aplausos. Não obstante a presença de frei Timóteo no corpo docente, penso que os alunos do seminário de Aracaju não conheciam Marx e Freud nos idos de 1965 — data tão próxima, ainda ontem, parecendo contudo distante passado ante as transformações do mundo; ocorrem elas com tal rapidez que o tempo é jogado para trás, o presente se reduz a breve, fugaz instante. O encontro com os hippies, as repetidas conversas com frei Timóteo, uma e outra coisa concorreram para a inesperada evolução do jovem mas, em definitivo, o que o fez outro, virando-o pelo avesso, foi a olente rosa negra, o suculento favo de mel onde sequioso e faminto mergulhou e renasceu.
Emprego muito a propósito as imagens acima, rosa negra, favo de mel, metáforas destinadas a evitar palavras exatas e justas, seja por pernósticas, incompletas e feias as que não ofendem o pudor: vagina e vulva, por exemplo, terríveis palavrões; seja por criticáveis e condenadas as que exprimem com vigor, exatidão e poesia, a doçura, a graça, o calor, a eternidade, a perfeição: xoxota, xibiu, boceta. No texto anterior — ai de mim! —, utilizadas e repetidas.