Tieta do Agreste

Jorge Amado · Capítulo 7 de 10 · parte 5/5

Páginas do PDF

Tieta do Agreste

Quinto episódio

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

As mulheres vêm uma a uma e o beijam na boca. A falsa loira o chama de pitéu, outra de doce-de-coco, a novinha, que saíra e voltara, o trata de cunhado, cada qual mais louca e linda. Peto senta-se ao lado de Aminthas, recende a brilhantina e a fêmea.

Osnar labuta com a rolha da garrafa de champanha — champanha nacional, é evidente, pois estamos na pensão de Zuleika Cinderela, em Agreste, e não no Refúgio dos Lordes, de madame Antoinette, em São Paulo. O poeta De Matos Barbosa estufa o peito, pigarreia para limpar a voz, retira do bolso uma folha de papel e, em meio ao silêncio mais absoluto e respeitoso, declama o “Soneto do himeneu”, composto para a ocasião, uma beleza! Neco Suruba traz o bolo de aniversário e casamento.

Zuleika Cinderela, ainda encharcada de prazer, exige uma cópia do soneto, manda que coloquem um tango na vitrola e volteando no vestido azul sai a dançar com Barbozinha, rostos colados, as coxas entrelaçando-se naqueles passos floreados e difíceis. Peto, apaixonado, acompanha os volteios da dança, morto de ciúmes.

 

DE COMO O SEMINARISTA RICARDO,

PONDO À PROVA (INTENSAMENTE) SUA VOCAÇÃO, COMETE UMA IMPRUDÊNCIA

 

AO RETIRAR A ALVA E A ESTOLA, NO DOMINGO, APÓS A

MISSA, padre Mariano observa Ricardo movimentando-se na sacristia, transmitindo ordens a Vavá Muriçoca, opinando sobre o inventário encomendado pela arquidiocese:

— Você hoje não comungou, Ricardo. Por quê?

— Ontem à noite eu pequei, padre, e não tive tempo de me confessar. Discuti com seu Modesto Pires, fiquei com raiva, desfeiteei ele…

— Desfeiteou seu Modesto Pires? Você? — boquiaberto, o reverendo balança a cabeça, incrédulo.

O seu protegido transformou-se durante as férias em Mangue Seco. Ao chegar dos exames, ainda era um meninão, de físico avantajado, risonho e afável, preocupado apenas com a pesca e a bola de futebol, quando não estava em casa fazendo banca ou na matriz, ajudando. De repente, virara um rapagão, sempre risonho, afável, porém com outros modos e outro ar, interessando-se por assuntos sérios, vibrando indignado contra a instalação da fábrica de dióxido de titânio, atrevendo-se a discutir com Modesto Pires e a criticá-lo. Que bicho o teria mordido?

— Disse o que pensava dessa fábrica e dos que são a favor dela. Cometi o pecado da ira, padre.

Ao responder, comete o pecado da mentira. Trocara realmente umas palavras com Modesto Pires mas sem chegar ao insulto. Ao desrespeito, certamente: menos pela agressiva conversa na rua do que pela discreta atividade no cinema; ao lembrar-se, sente um arrepio de prazer. Aconteceram pecados, sim, a impedir a comunhão, porém à tarde e à noite, os da carne; na torre da igreja, no escuro do cinema, nas ribanceiras do rio. O padre sente a transformação ocorrida mas não sabe quanto mudou o compasso da vida de seu pupilo. Envolvido num turbilhão de acontecimentos, Ricardo põe à prova sua vocação, atravessa um caminho de luz e trevas. Ah!, padre, não queira saber que bicho o mordeu!

— Tem se confessado com frei Timóteo? Ele continua seu diretor espiritual?

— Sim, padre. Está passando o verão no arraial.

— E como vai esse santo varão? Sempre delicado de saúde?

— Diz que na praia tem melhorado.

— Deus o conserve. É um luminar da Igreja.

Padre Mariano repete o que ouve dizer em Aracaju e em Salvador. Todos louvam as virtudes e o saber do frade, mesmo quando discordam de suas teses. Ricardo aprova o elogio com entusiasmo, por sabê-lo merecido. Frei Timóteo lhe revelou a existência de realidades e problemas sobre os quais padre Mariano nunca lhe falara, certamente por jamais ter refletido sobre eles. Deu-lhe nova compreensão dos deveres do sacerdócio, cujos limites não se restringem às obrigações do culto, cumpridas com rigor pelo pároco de Agreste. Aproximara-o de Deus.

No seminário Ricardo concebera um Deus terrível e abstrato, desligado da vida e dos homens, a quem se é obrigado a servir para não sofrer as penas do inferno durante a eternidade. O Deus de frei Timóteo participa da vida, compreende os problemas dos homens, ente familiar e concreto, amorável. As palavras das orações, repetidas no seminário, soavam ocas; agora, ele aprendeu sua significação real, com o franciscano. Amantíssimo coração, por exemplo: Deus é amor e paz, disse-lhe o velho monge. Quando Ricardo se julgara indigno de continuar aspirando ao sacerdócio por haver pecado, o frade aconselhara:

— Você ainda tem tempo de sobra para provar sua vocação, antes de se decidir. Se o mundo se impuser, escolha outro ofício, sirva a Deus como um simples cristão, nem por não usar batina e não dizer missa, será menor seu merecimento. Caso sua vocação permaneça viva e você a sinta como uma exigência interior, então prossiga de batina, cumpra seu destino e a lei de Deus. Mas nunca tenha medo, não fuja, não se esconda nem se negue. Amantíssimo é o coração de Deus.

Ricardo falara a frei Timóteo do engenheiro Pedro, materialista e ateu, a dissertar sobre as injustiças sociais, os crimes da burguesia e do capitalismo, a necessidade de transformar a sociedade.

— Também ele serve a Deus, pois deseja a justiça e felicidade dos homens. — Sorrira o velho. — Mesmo os que dizem não crer em Deus, podem servi-Lo, desde que amem os homens e trabalhem por eles. Por que não traz o seu amigo aqui? Gostarei de conhecê-lo.

No Arraial do Saco, Ricardo vive horas exaltadas acompanhando as conversas do engenheiro com o frade. Pedro, impetuoso, sincero e entusiasta, nega a existência de Deus e da alma, em inflamado discurso. O franciscano viera do tumulto e da ânsia do mundo para a meditação na cela do convento, disserta com voz mansa e usa imagens poéticas. Todavia, Ricardo descobre parecença e parentesco entre os dois, pontos de convergência, um objetivo comum: a preocupação com o ser humano. Busca passagem por entre contradições e coincidências, dispõe-se a sujeitar sua vocação às necessárias provas, a não se negar às discussões e aos atos. No momento certo, decidirá. Não antes, porém, de elucidar todas as dúvidas.

Na lancha, na noite dos tubarões e do medo, ao lado de Jonas, sentira quanto custa comandar, sobretudo se o preço do dever é a crueldade e a violência. Jonas é um homem bom e jovial, no entanto, naquela hora extrema, a face do pescador fizera-se sombria e implacável. Por onde passam os caminhos que conduzem à alegria e à justiça? Vendo os homens e as mulheres em pânico, os tubarões à flor da água, vendo a tia, Jonas, Daniel, Isaías, Budião, pessoas de bondade comprovada, empunharem a morte para defender a vida, Ricardo sacudiu os últimos freios, tomou a rédea nos dentes, decidido a galopar por conta própria, livre de peias.

Acumula no peito, em pressa e confusão, palavras, idéias, acontecimentos. Tudo começou com a chegada da tia, há um mês e meio, se muito. No ponto da marinete, Ricardo aguardara o desembarque de uma anciã, mais que tia, avó, viúva em pranto e luto. Rezara por sua saúde, os joelhos sobre os grãos de milho, pagando promessa. Da marinete descera uma deusa. Ao mesmo tempo, imagem de santa e cabra de ubre farto, no dizer de Osnar, o boca-suja. Santa e cabra, como pode ser? Assim é.

Muita coisa sucedera desde então. Da primeira noite nos cômoros com Tieta, subindo aos céus, baixando aos infernos, até aquela tarde de tempestade em meio às vagas e aos tubarões, ameaçando os apavorados funcionários da Brastânio, quando cumpriu duro dever de cidadão, obrigação tremenda. No Te Deum, abrindo as portas do Ano-Novo, sob o peso dos olhares das mulheres, enxergara Maria Imaculada. Um vínculo se rompera, formara-se outro anel, início de uma cadeia. Muita coisa em pouco tempo, a exaltação da vida, o horror da morte.

Outras experiências são mais fáceis, ai, são deleitosas! A senda da prova passa entre mulheres. A tia acendeu uma fogueira em seu peito, o incêndio se alastra, como apagá-lo? Não basta Tieta, não basta Maria Imaculada, pois a brasa queima e se inflama apenas Ricardo percebe um olhar molhado de desejo, a insinuação de um sorriso. Não sabe negar-se, não pensa negar-se. Por que fugir depois do que lhe foi dado ver e fazer?

Viera de Mangue Seco pela manhã devido ao aniversário de Peto mas na intenção da noite livre, inteira para Maria Imaculada. Perpétua reduzira as comemorações a um almoço, para o qual convidara apenas padre Mariano, além de Elisa, Astério e mãe Tonha. Ao padre, queixara-se da ausência de Tieta e Leonora mas o fizera da boca para fora. Estivessem elas em Agreste, Perpétua seria obrigada a reunir em casa um mundo de gente, a começar pela antipática da Carmosina; um despesão. Assim, tudo correra pelo melhor. Tieta e Leonora não compareceram mas enviaram os presentes por intermédio de Ricardo. A tia rica dera novamente prova de generosidade e afeto para com os sobrinhos: o relógio ofertado a Peto mereceu encômios e considerações do pároco:

— Um presente régio, dona Perpétua. Dona Antonieta é mão-aberta e adora os sobrinhos. Seus filhos estão com o futuro garantido. Não duvido que venham a ser — baixou a voz pois Elisa e Astério estavam chegando — herdeiros privilegiados.

Iluminaram-se os olhos de Perpétua, Deus o ouça, padre, e abençoe suas palavras. Espera a volta da irmã para uma conversa séria sobre o futuro dos meninos. Tieta não possui herdeiros diretos e, entre sobrinhos e enteados, tem a obrigação de preferir aqueles em cujas veias corre sangue igual ao seu, sangue dos Esteves. O perigo é a sirigaita da Leonora, mãezinha para cá, mãezinha para lá, mais que enteada, quase filha. Não obstante, Perpétua confia no adjutório do Senhor, pagador correto. Tinham estabelecido um trato, está chegando a hora do Senhor cumprir a sua parte.

Terminado o almoço, após dois dedos de prosa, o padre se retira, Ricardo o acompanha. Não mentira quando falara a Tieta em compromisso com o reverendo. Prometera ajudá-lo no inventário dos bens da paróquia, exigido pela arquidiocese. O cardeal anda preocupado com sucessivos roubos nas igrejas, desvios de valiosas peças de imaginária, de ricos objetos do culto; em certos casos, com a cumplicidade de padres e sacristãos, segundo murmurações e denúncias. Padre Mariano enrubesce ao recordar a carcomida madeira, a carunchosa imagem de Sant’Ana, vendida não, trocada, por um punhado de cruzeiros, com o excomungado pintor, fariseu a fingir-se devoto. Nem por ter empregado toda a quantia na matriz, tostão por tostão, sente-se limpo de culpa.

Na sacristia, padre Mariano que, indiferente ao calor, comeu e bebeu (vinho do Rio Grande do Sul) como um padre-mestre digno desse nome, aponta as gavetas das cômodas e diz a Ricardo:

— As alfaias estão aí, as velharias na torre. Nossas estimadas e piedosas zeladoras irão retirando e separando as peças, você as anotará nessa folha de papel. Dos outros objetos, já estabeleci a lista. Eu vou terminar a leitura do breviário, em casa, volto daqui a pouco.

Ricardo conhece essas leituras do breviário, na espreguiçadeira: duram cinco minutos. A sesta, porém, pode se prolongar até a hora do ângelus. Quanto a Vavá Muriçoca, domingo à tarde, ninguém conta com ele antes da bênção, e olhe lá. Das zeladoras estão presentes três, movimentando-se junto às gavetas: dona Milita, dona Eulina e a sobrinha desta última, Cinira, um pé no barricão, o outro no ar, pronto a se erguer para facilitar. Facilitar, o quê? Ora o quê!

Enquanto as duas velhotas retiram as peças e as separam, Cinira, vendo Ricardo à espera, pergunta-lhe, o olhar dolente, se não quer começar por fazer a relação das velharias, acumuladas na torre. Ela pode ajudá-lo. As velharias, segundo a circular da arquidiocese são os bens mais preciosos, merecem cuidado, atenção e prioridade. Ótima idéia, dona Cinira.

— Cinira, só. Não sou nenhuma velha para você me tratar de dona.

— Pois vamos, Cinira.

Foram. Ela na frente, ele atrás com papel e lápis. Altos degraus de pedra conduzem à torre. Ricardo admira as coxas fortes de Cinira, revestidas de excitante penugem azulada; retarda cada passo para observar melhor. No depósito, exíguo reduto, mal podem se mover. Curva-se Cinira para recolher uma peça — velhos castiçais, imagens partidas, obolário em desuso —, roça em Ricardo. Tocam-se, queiram ou não. A cada movimento encontram-se encostados um no outro e de repente — como aconteceu? — viram-se abraçados, as bocas grudadas. Cinira suspira, amolece, Ricardo a sustém. Foi ela quem encaminhou a mão do seminarista para as partes; suspende o pé e o pousa sobre o obolário, formando com a perna um ângulo propício. No hábito do armazém de Plínio Xavier, somente quando geme e prende o grito, enfia o braço sob a batina para pedir a bênção ao padre-mestre.

Separam-se em silêncio, terminam de estabelecer a pequena lista de objetos em desuso. Na escada, ela ainda avança a boca para um beijo de despedida. Assim começou a maratona.

Tendo tempo livre antes do encontro com Maria Imaculada, Ricardo acompanha a mãe ao cinema. Um acontecimento, a ida de Perpétua ao cinema sucede de raro em raro, quando o filme é recomendado pelo Santo Ofício, como esse, história de uma freira norte-americana, recentemente canonizada. Durante o almoço, padre Mariano enfatizara:

— Não percam. Não deixe de ir, dona Perpétua. É um espetáculo digno, uma lição de virtude. Assisti em Salvador, em companhia do cônego Barbosa, da Conceição da Praia.

Quando entram, a sala está lotada. Apenas duas cadeiras vagas. Uma ao lado direito de Modesto Pires, habitualmente reservada, na sessão dos sábados, para dona Aída. A outra, duas filas atrás, ao lado esquerdo de Carol — à sua direita senta-se a empregada, cão de guarda — permanece quase sempre desocupada. Nenhuma mulher digna de respeito a ocupará jamais; os homens bem gostariam de fazê-lo mas cadê coragem para enfrentar o desagrado do ricalhaço e o falatório do povo?

Acomoda-se Perpétua na vizinhança do dono do curtume que a acolhe com cortesia, levantando-se para lhe dar passagem. Senta-se Ricardo junto de Carol cujo olhar se mantém distante e indiferente. Modesto Pires observa com o rabo do olho: um seminarista não chega a ser um homem, não há perigo. Muito pior é quando aparece algum forasteiro e, vendo a cadeira dando sopa na vizinhança da gloriosa mulata, logo a ocupa. Com as piores intenções.

Apagam-se as luzes, a sessão começa com a projeção de um cinejornal atrasado de meses. Ricardo sente a ponta de um sapato tocar-lhe o pé. O toque se repete, se afirma, encostam-se os sapatos. Depois as pernas. Macia compressão, calor suave; tudo a medo, em movimentos mínimos, uma gostosura. Os olhos na tela, Carol movimenta-se na cadeira, imperceptivelmente: juntam-se os joelhos. Termina a projeção das Atualidades da Semana, acendem-se as luzes, Modesto Pires espicha o olho, Carol está encolhida na cadeira, ao lado da acompanhante, afastada ao máximo do rapazola de batina. Inicia-se o filme e tudo recomeça, pouco a pouco, devagar, pé, perna, joelho. Em certo momento, pela metade do filme, Carol deixa cair o leque, abaixa-se e, ao recolhê-lo, tímida e atrevida, desliza a mão sob a batina, acaricia a perna de Ricardo que se arrepia todo. Prazer sem nome, desejo sem tamanho, emocionante novidade, um quase nada, delicadeza e contenção, toques sutis, temerosos, suavíssimos. Com Cinira fora violento, quase feroz.

Apenas o filme termina, Carol parte, seguida pela empregada, sem olhar para ninguém, enquanto Modesto Pires acompanha Perpétua e Ricardo durante um quarteirão. Queixa-se de estar sozinho em Agreste, longe da família, cuidando do assunto do coqueiral que se arrasta, se eterniza. Ainda não chegaram a um acordo, devido às artimanhas do tal advogado de Josafá, uma raposa, e a maluquice desse imbecil de Fidélio que cedeu seus direitos logo a quem? Ao comandante:

— Um absurdo, dona Perpétua: existem pessoas que são contra a instalação em nosso município de uma grande indústria que só nos trará riqueza. O comandante é um deles, nem parece homem viajado.

Perpétua eleva os olhos para o céu, em mudo apoio à revolta do ilustre cidadão, mas Ricardo, imprudente, envolve-se na conversa:

— Riqueza? Vai trazer poluição, isso sim. Miséria.

Modesto Pires, ante tanto atrevimento, fecha a cara, engrossa a voz:

— Não se meta no que não é de sua competência, jovem.

Devido ao engenheiro e a Carol, motivos diversos mas ambos poderosos, Ricardo não tolera o dono do curtume:

— Se vierem poluir Mangue Seco, a gente toca eles de lá a pontapés. — Não conta que já o fizeram nem como; prometera guardar segredo.

— Oh! — Modesto Pires só falta cair de quatro.

Perpétua estranha o filho:

— Ricardo, que é isso? Respeite seu Modesto.

— A tia…

— Cale-se!

— Essa mocidade, dona Perpétua, anda de cabeça virada. Até os seminaristas, nunca pensei… — Modesto Pires vai curar os melindres ofendidos na cama de Carol.

Perpétua começa a passar um sabão em Ricardo mas ele lhe explica, rindo-se por dentro, que nada fez senão repetir palavras da Tia Antonieta, ainda mais revoltada contra a tal fábrica do que o próprio comandante. Colocada entre duas riquezas, Perpétua resolve manter-se neutra mas recomenda ao filho não discutir com pessoas merecedoras de respeito e acatamento devido à idade e à posição social. Por falar na tia: Tieta não demonstrou em nenhum momento intenção de levá-lo para São Paulo? A tia? Já falou nisso, sim. Ricardo não esclarece quando ela o fez. Na cama, nua, desfalecendo em seus braços, a voz exangue: sou capaz de praticar uma loucura e te levar comigo para São Paulo, meu cabrito!

Apenas Perpétua apaga a luz da placa, Ricardo abre a janela da alcova, pula para a rua. Junto à mangueira, Maria Imaculada espera:

— Tu demorou, bem. Pensei que não vinha mais. Logo hoje que estou com pressa.

— Com pressa?

Compromisso na pensão, obrigatório: dona Zuleika exige a presença de todas as raparigas numa festa que dá naquele dia, já deve ter começado. Ri, gaiata:

— Uma festa de família, bem. Quem mais devia estar lá era tu se não fosse usar batina. Não posso demorar: tem jeito não, bem.

Ricardo viera de Mangue Seco na intenção de passar a noite inteira com Maria Imaculada. Uma noite completamente livre, sem necessidade de voltar correndo para junto de Tieta. Concebera um plano audaz: fazê-la saltar a janela da alcova, possuí-la sem pressa na mesma cama larga, sobre o fofo colchão de barriguda onde se deleita com a tia quando estão em Agreste. Descobrindo na extrema juventude do corpo, na ousadia do comportamento da pequena rapariga, traquinas, meiga e atrevida, aquela outra Tieta, pastora adolescente a correr cabras e homens nos outeiros e barrancos; ainda hoje recordada no burgo apesar do respeito devido à paulista rica, viúva de comendador do papa, com prestígio e dinheiro a rodo. Petulante e ávida pastora a desafiar os preconceitos, a viver sua vida sem peias, sem rédeas, sem medo. Um dia, surrada e expulsa.

Passara a semana sonhando com o corpo da menina, revendo nas exuberâncias atuais de Tieta as formas apenas nascentes de Maria Imaculada. Na intenção de regalar-se com ela até o raiar do dia, chegara de Mangue Seco e a encontra ocupada, tendo de voltar para a festa. Maldita festa!

Debaixo dos chorões, foi o tempo de se estender sobre Imaculada, sentir os seios recentes, as ancas redondas, a curva do ventre. Com o coração pesado, sem alegria, com raiva da festa, dos fregueses da pensão, com ciúmes daquele que a levará para a cama. Na noite do sábado de comemorações, os dois filhos de Perpétua, os dois sobrinhos de Tieta, conheceram o travo do ciúme, sentiram vontade de morder os punhos, de rebentar caras de homens e esbofetear mulheres, vontade de chorar.

Com sofreguidão e raiva, retendo lágrimas, assim a teve.

— Tu hoje está demais, bem. Vai me matar de gozo.

Compõe a saia, foge a rir, propõe:

— Amanhã posso ficar a noite todinha, se tu quiser. Hoje mais não, bem.

Ricardo perde a cabeça, marca encontro para o dia seguinte, à mesma hora, ao apagar das luzes, sob a mangueira. Maluquice, pois prometera à tia regressar a Mangue Seco logo após a missa de domingo. Tieta o espera, indócil, dona atual de cada minuto e de cada gesto seu. Sobram-lhe apenas as obrigações de seminarista, os compromissos com a igreja. Por sorte, o inventário ainda não está concluído. Falta muito pouco mas serve como desculpa.

Por dona Carmosina manda um bilhete. Não pode abandonar padre Mariano naquela emergência, sozinho com a trabalheira enorme do inventário, tarefa da maior urgência, o cardeal marcara prazo. Mas, na segunda-feira, sem falta, logo cedinho embarcará de volta. Assinou: seu sobrinho que a adora e tem saudades, Cardo.

O PICANTE DIÁLOGO NO BARCO DE

PIRICA ENTRE A CARENTE E A MAIS

CARENTE AINDA

 

NO ANCORADOURO, APENAS DONA CARMOSINA E ELISA

TOMAM assento no barco de Pirica. Ricardo, coitado, preso aos deveres de seminarista, ficara a ajudar padre Mariano no inventário. Os demais convidados irão mais tarde, com Astério, na lancha de Elieser: Barbozinha, Osnar, Aminthas, Seixas e Fidélio, o benemérito Fidélio. Que gesto digno teve esse rapaz, Elisa! Também dona Milu, às voltas com um parto, será da corriola se a criança nascer a tempo. Astério saiu de madrugada para a Vista Alegre, domingo é dia de contas, ele passa a manhã na roça. Os demais, ah!, os demais, minha filha, dormem, cansados da noite de farra. Farra monumental, nem queira saber o motivo.

— Ah! Me conta, Carmô!

Ninguém pode com Carmô! São apenas nove horas da manhã ela já tem pleno conhecimento do que aconteceu na véspera à noite, das bandalheiras ocorridas na madrugada, dos maus passos dos boêmios. Enquanto o barco parte e Pirica se entrega ao controle do motor e do leme, dona Carmosina descreve para Elisa detalhes picarescos da festa da iniciação de Peto na pensão de Zuleika Cinderela.

— Peto? Mas se ontem ele completou treze anos, uma criança… — Elisa não crê em seus ouvidos.

— Exatamente. Aos treze anos, o cidadão brasileiro alcança a maioridade sexual, segundo Osnar. — Dona Carmosina ri, com gosto; esse Osnar, ai, é o único mas, que pena!, não adianta suspirar por ele. — Aminthas passou lá em casa para avisar que virão na lancha, a tempo para o almoço. Estava chegando da festa, imagine você, por volta das seis e meia. Me contou tudinho. Zuleika é especialista, foi ela quem papou toda a rapaziada de Agreste. — Pronuncia a palavra papou com inveja e gula.

Elisa anda triste, sorumbática, dona Carmosina esforça-se para fazê-la sorrir, tentando interessá-la na vida da cidade. O assunto picante consegue despertar a atenção da bela e melancólica esposa de Astério que aproveita para satisfazer antiga curiosidade.

— Astério também?

— Todos, ao que parece.

— Astério não é homem dessas coisas. Às vezes conta casos dos outros que ouve no bilhar. Não passa disso. Garanto que nunca foi de freqüentar a pensão…

— Astério? Então, tu não sabe? — dona Carmosina pergunta e ela mesma responde:— Como tu há de saber se eu nunca te contei e nenhuma outra ia te contar? Teu marido foi de morte, minha filha, um farrista famoso.

— Farrista famoso, Astério? Tenha paciência, Carmô, não acredito.

— Não? Pois trate de acreditar. Famoso na pensão e fora dela, minha filha. E ainda por cima tinha seus particulares. Sabe como era o apelido dele no tempo de solteiro? De teu maridinho?

— Qual? Me diga. — Na face e na voz de Elisa transparece uma nota de vivacidade a romper por fim a indiferença e a amargura.

— Não vá se zangar, hein! Astério era conhecido pelo nome de Consolo do Fiofó das Vitalinas. Sugestivo, não é?

— Como é? — entre pasmada e sorridente. — Consolo? Por quê? Vamos Carmô, me explique.

Suspicaz, dona Carmosina perscruta, com os olhos miúdos, a face da amiga e protegida. Será que Elisa realmente não está a par do apelido, das inclinações e proezas de Astério ou se faz de inocente?

— Não me diga que não sabe das preferências sexuais de teu marido. Afinal tu está casada com ele há mais de dez anos.

— Preferências? Juro que não sei do que você está falando. Se tu se refere a coisas que dizem que alguns homens e mulheres fazem, posso garantir que comigo nunca teve disso. Quando acontece, é sempre igual, no jeito de fazer menino. Até tem um nome…

— Papai-e-mamãe, é a posição clássica. Osnar diz que é a dos bobocas. Esse Osnar… — Gosta de repetir o nome, rima predileta de seus versos.

Na voz de Elisa reponta uma queixa, uma carência:

— Ainda assim, quando lhe dá vontade.

— Pois se não sabe, fique sabendo, minha filha, que teu marido era famoso por… — apesar de estarem sozinhas, Pirica atento ao leme, aproxima a boca do ouvido de Elisa para lhe comunicar as comentadas predileções de Astério.

— Na bunda? Meu Deus! Nunca soube disso… — Volta-lhe a vivacidade no impacto da estupefaciente revelação, súbita descoberta de navegador perdido ao avistar terra longínqua e ignota. — Nunca me passou pela cabeça. Nem acredito.

Na cama, nas noites de fornicação, na hora final, a mão do marido roça-lhe as ancas, a medo; somente agora Elisa empresta significação e valor ao hesitante gesto. Dona Carmosina sente vontade de lhe revelar que, por ocasião do noivado e do casamento, a cidade unânime atribuíra à forma suntuosa e exuberante dos quadris de Elisa a desvairada paixão de Astério. Mas conteve-se pois seu objetivo é animar a amiga, fazê-la reviver, superando a decepção sofrida, e não lhe fornecer novos motivos de desgosto e revolta contra Agreste. Retorna aos detalhes da festa de Peto:

— Aminthas me contou que a festa foi um barato. Barbozinha, velho sem-vergonha, fez um soneto louvando as qualidades de Zuleika, a papa-meninos. Barbozinha é um poeta de verdade, enfrenta qualquer tema e se sai bem de todos. — Elogia com uma ponta de inveja; a construção de um verso custa esforço e vigília a dona Carmosina, enquanto Barbozinha, com a maior facilidade, rima jovem canhestro com anjo destro, pudicícia com malícia, coloca o cabaço (de Peto) no regaço (de Zuleika).

Mas Elisa permanece na surpresa da revelação dos destemperos (ou temperos) do marido:

— Farrista e ainda por cima tarado. Em casa, todo o contrário.

— Tu é a esposa dele, Astério te respeita. Assim age um bom marido.

Não escapa a dona Carmosina o muxoxo de desagrado a marcar o lábio de Elisa, demonstração de desprezo e repúdio aos hábitos do sertão. Com o que, se dá por convencida: Astério jamais usara Elisa por detrás como certamente desejaria fazê-lo. Mais forte que o desejo, impunha-se a lei não escrita mas gravada dentro de cada um. Esposa é a dona da casa, a mãe dos filhos, com quem se cumpre os deveres matrimoniais na contenção e no respeito. Para o prazer, os requintes, os desvarios, estão as putas na pensão de Zuleika. Não é por acaso que Elisa se sente frustrada e sonha ir-se embora. Em São Paulo, terra civilizada, os hábitos são outros, o código feudal não prevalece. Quem sabe, lá Astério aprenderia que esposa é mulher igual a qualquer outra, na cama deseja incontinência de macho e não respeito de marido. Caso não aprendesse, então…

Mas Tieta é sábia, adivinha as intenções mais recônditas, e boa irmã, boa cunhada, defende o lar e a tranqüilidade de Elisa e de Astério. Cabe a Elisa conformar-se, buscar motivo de alegria na residência nova e confortável, para a qual se mudará no dia seguinte, na segurança dada pelas terras e cabras da Vista Alegre, não se enterrar no desgosto, reencontrar o equilíbrio. Mirar-se no exemplo dela própria, Carmosina.

Muito maiores são seus motivos para sentir-se carente, frustrada, amarga, odiando os homens e a vida. Nem sequer o limitado prazer concedido às esposas pelos maridos respeitosos, nem esse teve. Nem marido, nem noivo, namorado ou amante. Virgem, incólume, total e completamente. Não mereceu palavras de amor, nem ousadias. Ninguém a quis, ninguém lhe pediu nem lhe propôs. Contudo, não vive em desespero, supera a carência, a solidão, ama a vida, tem amigos, sabe rir. Elisa retorna do silêncio e do muxoxo:

— Como era mesmo o apelido? Consolo…

— …do Fiofó das Vitalinas… Dizem que Astério comeu o rabo de uma quantidade de beatas. Atrás do balcão da loja. Vivia entre o balcão e a casa de Zuleika, consolando.

À dona Carmosina não consolara, tratando-a sempre com deferência. Bem podia tê-lo feito, não faltara ocasião. Ancas magras, murchas nádegas, bunda chulada, Carmosina, ai, não lhe acendera o vício. Nem o dele, nem o dos outros; falam que Osnar é bom de língua, ela sabe apenas por ouvir dizer. Tão injustiçada, não perdeu, no entanto, o gosto da vida.

Conseguiu fazer Elisa rir, esquecer a decepção, retornar às conversas distraídas, sair do poço onde afundara. Mas ela, dona Carmosina, no barco de Pirica, sente de súbito imensa solidão, a ausência de qualquer esperança. Esperança de homem, mais nenhuma. Mas ainda assim continuará a defender Agreste contra a poluição e a consumir as noites em cima do caderno e do dicionário buscando novas rimas para desejo, fúria, amor, Osnar.

Muda de assunto, desfia outro tema apaixonante:

— Fidélio se revelou um homem de bem. Graças a ele, os bandidos da Brastânio não poderão comprar o coqueiral. Não ligou para o dinheiro, recusou as ofertas, passou procuração ao comandante. Rapaz direito e, ainda por cima, bonitão!

 

DO ASFALTO SOBRE

OS CARANGUEJOS

RICARDO FALTARA-LHE NO MOMENTO EM QUE MAIS

PRECISAVA DE ARRIMO e consolo, quando o triunfo teve sabor de desastre e tudo pareceu perdido. Somente na voracidade e na ternura do adolescente Tieta poderia ter encontrado conforto para a decepção do dia frustrado, domingo de desapontos e malogros — a sombra da Brastânio projetou-se sobre a inauguração do Curral do Bode Inácio e a poluiu.

A morte de Zé Esteves reduzira a planejada festa de arromba a discreta comemoração, almoço de poucos convidados, os íntimos, banho de mar e prosa amena. Nem por isso Tieta a desejou e previu menos grata e exaltante. Após os dias de tormenta, o sol iluminou o esplendor de Mangue Seco, jamais esteve a paisagem tão bela, o ar tão puro, a paz tão completa. Durante todos aqueles anos de exílio, Tieta sonhara possuir nas dunas de Mangue Seco pequeno chão de casa, nele erguer cabana onde repousar. A morte de Felipe apressara o projeto. Viera aflita em busca de seus começos, ao reencontro da pastora de cabras, da adolescente árdega e feliz. Em menos de dois meses recorrera todos os caminhos e atalhos, não faltando a boa briga ao lado dos pescadores, a travessia dos tubarões, face a face com a morte, o ranger de dentes e os ais de amor na exaltação das noites de cio, empernada sobre os cômoros. Não somente erguera a almejada biboca como o fizera cumulada de ternura e gozo, amassando barro, areia e carícias a quatro mãos. A festa de inauguração do Curral do Bode Inácio — marco do êxito da viagem, do vitorioso retorno da pequena pastora amaldiçoada e expulsa, signo da paz reconquistada — ela a deseja perfeita de alegria pura e simples, o dia no calor da amizade, a noite no fogo da paixão.

Alegria bem pouca existiu, a amizade viu-se sujeita a duras provas e a noite foi de ausência. Contentes como devido, apenas Leonora e Astério.

Ao regressar dos cômoros, exultante, Leonora caíra nos braços de Tieta, rindo e chorando:

— Quer ver uma pessoa feliz, mãezinha? Olhe para mim… Segui seu conselho… Se morresse hoje, não me importava.

— Não seja tola. Como é que Barbozinha diz? De amor não se morre, se vive. Volte com Ascânio para Agreste, aproveite as últimas noites. Na beira do rio tem uns recantos de primeira, mas tome cuidado. Não esqueça que sou uma viúva honesta e você, uma filha de família. Aproveite o mais que puder, cabrita, faça sua reserva de saudade. Tu não sabe quanto é bom sentir saudade. É disso que tu precisa.

Leonora continuou exultante domingo afora porque, quando Ascânio retirou o desenho de Rufo do tubo de metal para expô-lo sobre a mesa, ela ainda dormia e não tomou conhecimento da discussão com Tieta.

Também Ascânio deitara-se eufórico na rede armada na varanda para Ricardo. Tardara a adormecer, refletindo sobre o sucedido nos cômoros. A certeza de ser amado pela mais bela e perfeita das mulheres fazia-o sentir-se invencível, capaz de conquistar o mundo. Para colocá-lo aos pés de Leonora. Acordou com o nascer do sol, correu para a praia, nadou, rindo sozinho. Na povoação, procurou notícias da equipe de técnicos que, segundo anunciara dr. Lucena, teria vindo para Mangue Seco há alguns dias. Equipe numerosa, não podia passar despercebida. Não obteve, porém, nenhuma informação. Jonas, pitando o cachimbo de barro, apontou para o mar com o cotoco de braço:

— Fez um tempo de cão. Por aqui não arribou ninguém. Ou perderam o rumo ou arrepiaram carreira.

— Talvez estejam no arraial.

— Capaz.

Ao voltar, avista Tieta à porta do Curral. Conta obter a boa vontade da madrasta de Leonora para seus projetos matrimoniais ao inaugurar a placa da rua Antonieta Esteves Cantarelli, em breve. Mas a adesão da milionária à causa da Brastânio, ele pode obtê-la hoje mesmo, naquela manhã, naquela hora, fazendo-a admirar a obra de arte do decorador Rufo. Habitando em São Paulo, viúva de industrial, possuindo ela própria ações de fábricas, dona Antonieta será certamente sensível àquela “deslumbrante visão do futuro”, como mais uma vez classifica o chamativo desenho a cores. Apoio fundamental, o da madrasta de Leonora. Arrastará toda a população, dona Carmosina e o comandante ficarão falando sozinhos. Quanto ao vate Barbozinha, quem dá atenção aos poetas? Recebe um choque com a inesperada reação de Tieta:

— Como você se atreve a me mostrar essa porcaria no dia em que estou inaugurando minha biboca em Mangue Seco? Projetos e plantas só servem para enganar os trouxas. — Percorre com a vista o panorama de edifícios, chaminés, casas e estradas. — Que horror! Se você gosta mesmo de Agreste, como eu penso, Ascânio, largue esse troço de mão, dê graças a Deus pelo que temos, parece pouco mas é muito.

— Me admira que a senhora diga isso, a senhora que obteve a ligação da luz da hidrelétrica…

— Luz é uma coisa, poluição é outra. Você é inteligente, sabe que se essa indústria arranjasse outro lugar onde se instalar, não viria para esses confins. Se espera que eu lhe ajude na empreitada, fique sabendo que sou contra. Não conte comigo.

Ascânio tenta argumentar, repete frases do Magnífico Doutor e de Rosalvo Lucena mas Tieta corta-lhe a palavra:

— Não perca seu latim, não vai me convencer. Gosto muito de você mas gosto ainda mais de Agreste, adoro Mangue Seco.

— Minha maneira de amar Agreste é outra, dona Antonieta — na voz o acento empresarial de Rosalvo Lucena —, sou um administrador, tenho responsabilidades públicas…

— Pois fique com suas responsabilidades, eu fico com minha opinião. E guarde seus quadros e discursos para Agreste. Hoje é um dia muito especial para mim, não quero saber de brigas e discussões, quero muita alegria. Vá passear com Leonora, ela ainda não foi ao Saco, mal conhece Mangue Seco. Mostre tudo a ela, aproveite antes que seja tarde, sobra pouco tempo, Ascânio. — Pensa em Ricardo, murmura: — Muito pouco…

Estabelece-se novamente uma trégua, a derradeira. Os rostos não se desanuviam, no entanto. Tieta conserva na retina a paisagem de aço e concreto traçada no desenho: os edifícios das fábricas, as chaminés, as residências de técnicos e administradores, as casas dos operários, e, mais longe, nas proximidades dos cômoros, a suntuosa vivenda, reservada sem dúvida para os diretores da indústria. O cimento armado substituíra os coqueiros, o mangue desaparecera sob o asfalto da estrada vinda de Agreste. As choupanas tinham sumido, a povoação deixara de existir, em lugar das canoas, embarcações carregadas com tonéis. Extintos, os caranguejos e os pescadores.

Junto com a controversa visão do futuro, Ascânio enrola a euforia e a suficiência com que iniciara a pregação matinal sobre os méritos da Brastânio. Ao falar do pouco tempo a ser bem aproveitado, dona Antonieta se refere à instalação da fábrica, com as inevitáveis mudanças na paisagem de Mangue Seco, ou à iminência do regresso dela e da enteada a São Paulo? Os postes da hidrelétrica já alcançaram terras do município, dona Antonieta tem razão, é curto o tempo para tanta coisa a fazer.

Tieta se ocupa com o café quando ouve o ruído do motor do barco de Pirica. Larga o hóspede sozinho, sai correndo para a praia, ao encontro de Ricardo:

— Leonora está acordando, ela cuida de você.

Do barco descem dona Carmosina e Elisa, Ricardo não veio. Tieta recebe e lê o recado do “sobrinho que a adora e tem saudades”, amassa o pedaço de papel, atira-o na areia. Esforça-se para acompanhar o transbordante alvoroço de dona Carmosina entregue à minuciosa narrativa do sensacional acontecimento da véspera, a festa de aniversário de Peto na pensão de Zuleika, a iniciação. Noutra oportunidade, a notícia teria sido motivo para longa conversa de comadres, entremeada de riso e de malícia. Merece apenas um comentário quase desinteressado:

— Descabaçaram o moleque? Já não era sem tempo. Vivia brechando as coxas da gente.

Pouco lhe interessa o sucedido com Peto. Importa-lhe, sim, o outro menino, o que ela iniciara nos cômoros, o seu, àquela hora na sacristia da matriz anotando rol de sotainas e imagens. Por que não largou o inventário nas mãos do padre e das beatas? Como pode estar ausente no dia da festa de inauguração do Curral, da casa que os dois haviam construído, amassando juntos o barro das paredes? Não sabe que a cama nova, com o colchão de lã de barriguda, espera para ser também ela inaugurada? Tieta nunca imaginara pudesse vir a ter ciúmes de templos e altares, cerimônias e orações, coisa mais ridícula! Dona Carmosina a arrasta para a Toca da Sogra, em busca do comandante.

Na cozinha, dona Laura dirige a preparação do almoço, Elisa vai ajudá-la. Na varanda, dona Carmosina e o comandante reclamam o imediato regresso de Tieta a Agreste para colaborar na coleta de assinaturas contra os projetos da Brastânio. O comandante, acordado desde as cinco da manhã, avistara Ascânio na povoação, soubera que ele andara perguntando por uma caravana de técnicos da Brastânio que devia estar a chegar. Numerosa, segundo dissera, seria o começo da invasão.

— Pedi a Ascânio e peço a você que hoje evitem discutir sobre esse negócio da fábrica. Para não estragar minha festa.

— Está bem, prometemos não discutir mas você promete voltar para Agreste. Precisamos de você lá — diz o comandante.

— Me concedam pelo menos uns dias em minha biboca. Me deu um trabalhão e custou um dinheiro aloprado.

— Não podemos perder nem um minuto, Tieta. Se você não tomar a frente, não vai se obter nada. Tudo depende de você.

— Tudo o quê? Vocês fazem que eu me sinta uma criminosa. Afinal quem sou eu para impedir que instalem aqui essa maldita fábrica?

— Quem é você? Como diz Modesto Pires, você é a nova padroeira de Agreste. Abaixo de Deus, o povo só confia em você — sentencia dona Carmosina.

— Ninguém adora mais Mangue Seco do que eu. No verão, pouco apareço em Agreste. — Há um laivo de censura na voz do comandante. — Mas exatamente porque sou doido por isso aqui, estou disposto a ficar na cidade o tempo que for necessário. É lá e não aqui que se pode fazer alguma coisa de concreto.

— Quem lhe disse, comandante? — Tieta considera os amigos em silêncio, baixa a voz. — Se alguma coisa se fez, capaz de surtir algum efeito, foi aqui, em Mangue Seco. Não devia contar, prometi segredo. De qualquer maneira, mais dia menos dia, vão saber.

— O quê? — impaciente, dona Carmosina.

— A tal equipe que Ascânio anda procurando…

Ouvem estarrecidos a espantosa aventura. Dona Carmosina põe a mão sobre o peito para conter o coração:

— Sinto até palpitações. Estou arrepiada.

Comandante Dário, homem da lei e da ordem, recomenda:

— Faz de conta que você não me disse nada.

Tieta tenta sorrir mas não há alegria em seu sorriso. Recorda o desenho exposto sobre a mesa e a segurança na voz de Ascânio: esse é um assunto definitivamente resolvido, dona Antonieta. De que adianta ir para Agreste, debater contra a Brastânio? Tieta sabe que não tem como impedir o estabelecimento da indústria de dióxido de titânio no coqueiral de Mangue Seco. Problemas dessa relevância são discutidos e decididos nos altos escalões, entre os grandes, o resto não conta. Quantas vezes Felipe obtivera, com manobras, dinheiro e prestígio, passar por cima das leis e do interesse dos demais, da imensa maioria? No Refúgio dos Lordes, na tranqüilidade das salas reservadas, realizavam-se encontros onde eram tratados e obtidos gabaritos de prédios, localização de fábricas, concessões de cartas patentes, favores os mais diversos, negociatas de todos os tipos. Ai, comandante, de nada vão adiantar notícias nos jornais, memoriais, sonetos de maldição, protestos de pobres-diabos de Agreste. Nem mesmo os tubarões no mar revolto, Carmô, nem mesmo eles impedirão o fim dos caranguejos e dos pescadores, o fim de Mangue Seco. Resta-lhes somente aproveitar os últimos dias, bem poucos. Chega a abrir a boca para dizer tudo isso mas se contém. Para que entristecer os amigos, ainda por cima em dia de festa? Promete ir para Agreste o mais depressa possível.

Osnar, Aminthas, Seixas e Fidélio desembarcam da lancha de Elieser mortos de cansaço, à hora do almoço. Depois buscam a sombra dos coqueiros para a sesta. Mais cansado ainda, o vate Barbozinha. Já não tem saúde para atravessar noites em claro, a beber e a dançar. Trouxera os originais dos Poemas da maldição mas nem os retira do bolso; não encontra ambiente para recitativo.

— Por que Ricardo não veio? — pergunta Tieta a Astério que se aproxima, acompanhado de Elisa. Dos convidados é o único em forma, bem dormido, bem-humorado, satisfeito da vida.

— Estava na igreja, com o padre e as zeladoras. Ocupado não sei em quê. Passei lá para saber se Perpétua vinha, ela disse que não, mas mandou lhe avisar que um dia desses vai aparecer com padre Mariano para benzer a casa. Por falar em casa, queria lhe comunicar que amanhã eu e Elisa nos mudamos.

Decidira não esperar a conclusão das obras mandadas executar na antiga residência de dona Zulmira. A pintura e os arremates seriam feitos com eles dentro de casa, apressando mestre Liberato. Mais uma vez agradece à cunhada e benfeitora e pergunta:

— Quer ocupar logo seus aposentos ou vai continuar hospedada com Perpétua?

— Fico por lá mesmo. Tenho alergia a pintura fresca. Ando de estômago embrulhado por causa do cheiro da porta e da janela do Curral, imagine um casarão daqueles. Também pelos poucos dias que vou passar em Agreste, não paga a pena mudar. De outra vez que venha, me hospedo com vocês. — Se deixasse a casa de Perpétua, como fazer para dormir com Ricardo as últimas noites, as derradeiras?

De cabeça baixa, calada, esgravatando a areia com um talo de coqueiro, Elisa acompanha o diálogo. O silêncio da irmã irrita Tieta:

— Tu não tem nada a dizer, Elisa? Não está contente?

Elisa estremece:

— Estou contente, sim, mana. Não havia de estar?

— Então, por que faz essa cara de enterro?

— Elisa, coitadinha, anda assim desde a morte do velho. Ainda não se refez… — explica Astério.

Tieta desvia os olhos da irmã para o cunhado; pela segunda vez naquele domingo vai abrindo a boca mas arrependida a fecha sem nada dizer: simpatiza com o pobre coitado e a verdade quase sempre é cruel, apenas fere e magoa. Domingo azarado. A festa mais parece sentinela de defunto.

Na hora do regresso, quando os convidados se dirigem para o embarque, observando Tieta parada na praia, o rosto sério, Leonora larga o braço de Ascânio, vem correndo:

— Eu fico com você, mãezinha, não vou lhe deixar aqui sozinha.

A resposta é brusca:

— Por que não? Que bicho vai me morder? — logo abranda a voz, toca os loiros cabelos da moça, úmidos de salitre. — Não seja tola, cabrita. Vá e aproveite, aproveite bem. Não se preocupe comigo. Daqui a pouco Ricardo chega, assim acabe de ajudar o padre. De companhia, basta ele.

Também o comandante e dona Laura se despedem.

— Lhe espero em Agreste, Tieta. Vá logo.

As embarcações cortam as vagas da barra, distanciam-se no rio. Carregando caçuás borbulhantes de caranguejos, as mulheres da povoação marcham na fímbria do mar. A noite se avizinha, imensa.

 

A RIVAL DE DEUS

 

A AUSÊNCIA DE RICARDO DOÍA-LHE NO CORPO INTEIRO,

DA PONTA DOS PÉS aos fios dos encaracolados cabelos, em cada músculo, por dentro e por fora. Vazia e necessitada, sem jeito.

Pensara que jamais voltaria a sentir ânsia tamanha, desejo a roer as carnes, aflição a esmagar o peito. Sucedera uma vez, muitos anos antes, quando Lucas partira, fugindo de Agreste, sem deixar aviso nem endereço. Ao chegar, esfuziante, para a festa no leito de dona Eufrosina e do finado dr. Fulgêncio, na cálida maciez do colchão de lã de barriguda, deparara com a janela do quarto fechada sobre o beco e a paixão da adolescente deslumbrada e ávida. Derrotada, perdida, demorara a espiar por entre as frestas da veneziana, buscando a sombra de um vulto; o ouvido encostado às tábuas, tentando perceber uma respiração. Quantas horas permanecera ali parada, na noite morna, junto à janela, antes de arrastar-se enferma para a primeira solidão? Roída de desejo, querendo tê-lo e não podendo. Não voltara a suceder. Dali em diante, fora sempre ela a não comparecer, a faltar ao encontro, a ausentar-se, a trancar janela e porta. As portas do corpo e do coração.

Branco lençol de cambraia, colchão de barriguda encomendado em Estância, largo estrado propício aos embates extremos, cheiro de tinta fresca, tudo novo em folha para a festa de inauguração. Tieta velou, insone, na noite longa de não acabar, ouvindo a ventania sobre os cômoros e a arrebentação das vagas, outra vez sozinha e sem jeito, querendo ter e não podendo. No gozo de orações, cerimônias, afazeres de sacristia, Ricardo a esquece e abandona. Amante de tempo dividido, de coração dividido entre ela e Deus.

Não imaginou Ricardo dormindo com outra mulher, nada sabia de Maria Imaculada, acreditara piamente na desculpa rabiscada no bilhete entregue por dona Carmosina, no inventário dos bens da paróquia. As mulheres rondavam o seminarista, é certo, ela se dera conta. Despudorada, dona Edna não se preocupa sequer em esconder o jogo, ninfomaníaca, puta reles! Em se tratando de cama, porém, Tieta sente-se segura.

Homem algum, por mais inconstante ou mulherengo, a deixara por outra. Lucas fora o único a tomar a iniciativa de romper. Aos demais, sem exceção, ela abandonara apenas sentira os primeiros sintomas de cansaço, evitando o cortejo de brigas, rogos, acusações, mentiras e tristezas dos fins de romance. Ia-se embora abruptamente, apenas comprovava a sensação de fastio. Para conservar íntegra a recordação da aventura, para ter saudades, quanto mais, melhor. Paixões, rabichos, chamegos, xodós, rápidos ou prolongados, românticos ou lascivos, não passam, todos eles, de perecíveis aventuras, o que não os impede de ser cada um deles, em certo momento, o amor exclusivo, único, definitivo e imortal.

Ricardo é o amor único e exclusivo, definitivo e imortal, nunca teve outro, nem terá. Precisa dele ali, naquele instante, imediatamente e sem falta. O desejo roendo as carnes, o orgulho machucado. Nem por considerar fora de cogitação, por impossível, qualquer enredo de cama, nem por isso Tieta se sente menos abandonada e ofendida. Vazia e necessitada, atravessou a noite mais longa de sua vida, aquela que deveria ter sido a mais alegre e plena.

Quando, por fim, adormeceu, teve um pesadelo atroz. Sob o céu negro, no mar podre, cemitério de peixes e caranguejos, boiavam destroços do Curral do Bode Inácio e das choupanas dos pescadores. Na extinta linha do horizonte, vislumbrou Ricardo, glorioso arcanjo, e lhe estendeu os braços, tentando escapar da morte. Indiferente, ele se afastou na esteira de Deus, deixando-a debater-se, condenada. Onde existira antes o esplendor paradisíaco da praia de Mangue Seco, crescera uma paisagem paulista de fábricas, cortiços de concreto, ferro e aço, fumaça e morte.

OceanofPDF.com