Tieta do Agreste
Quinto episódio
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
— De minha parte, os senhores terão todo apoio. A instalação da Brastânio em Mangue Seco será a redenção de Agreste.
A frase merece o aplauso do Magnífico Doutor:
— Wonderful! Fine! Une trouvaille! Até parece uma frase minha. Não a esqueça, meu caro, vai ter de repeti-la em breve.
— Sim, esperamos ser úteis à sua região. Pensamos dar a maior cobertura, em todos os sentidos, às iniciativas que o senhor vier a tomar para levantar a economia e a cultura de Agreste. Infelizmente subsistem no Brasil grandes desníveis regionais, perduram ilhas de pobreza e atraso. Precisamos modificar rapidamente esse panorama, liquidar tais diferenças, entraves no caminho do desenvolvimento do país. — Bate com a mão na coxa de Ascânio num gesto amigável: — Homens como o senhor são preciosos para a comunidade. Nossa obrigação de idealistas é lhes dar todo o apoio de que venham a necessitar. Porque o senhor também é um idealista e o nosso ideal é comum, é o progresso!
Expressa essas brilhantes considerações, quase um discurso, com naturalidade, em tom de conversa mas de conversa convincente, ao mesmo tempo em que atende a uma loira e a uma morena, ambas de biquíni, cada uma sentada sobre os largos braços da cômoda cadeira de desenho moderno — design igualmente do citado Lev. A voz modulada e segura, a pronúncia clara, sem hesitação, não se modifica sequer ao reclamar do garçom a qualidade do uísque contido numa requintada garrafa de tons verdes, feita de reentrâncias e saliências. Tendo se servido e provado, Rosalvo Lucena deixa escapar educada porém viva indignação: uísque mais falsificado, que horror! Chama a atenção do Magnífico: é sempre assim, bebida servida em garrafa de cristal, semelhando escultura, bela e anônima não presta jamais, torpe engodo. Entre suas várias competências, o jovem tecnocrata inclui conhecimento profundo daquele sublime licor escocês, o único verdadeiro néctar dos deuses, em sua opinião. Da qual o dr. Mirko discorda: gosta de uísque mas prefere um vinho francês de qualidade, nada se compara a uma boa champanhota. Qual a opinião do amigo Ascânio? Não tem opinião formada, pouco sabe de uísque, menos ainda de champanha. Rosalvo Lucena devolve ao garçom o copo cheio e a garrafa verde:
— Jogue essa porcaria fora, companheiro, traga outro copo. Quanto à garrafa, diga ao barman para guardá-la para um bêbado qualquer, que não saiba distinguir uísque verdadeiro do falsificado. Quero scotch, e não esse vomitório. Traga-me uma garrafa de Chivas, fechada, para examiná-la e abrir aqui. E diga que vou me queixar ao maître dessa falta de respeito.
A tranqüilidade e a desenvoltura com que Rosalvo fala sobre o desenvolvimento do país e repudia o uísque conspurcado enchem Ascânio de admiração, culminando quando o ouve comentar:
— Repare, Mirko, com que prazer teu amigo Ismael saboreia essa zurrapa. Esse tem estômago para tudo. Repugnante!
Estômago e testa, pensa Ascânio, chifrudo antes de casar-se, ciente, sem dúvida, das distrações da noiva; quem sabe, conivente. Mais do que repugnante, abjeto!
O barman chega aflito, na mão a garrafa pedida, na boca desculpas humildes: se soubesse que era para a mesa do doutor… Afável e generoso, Rosalvo Lucena o despacha em paz, nada dirá ao maître.
Anima-se Ascânio e felicita o empresário pela entrevista magnífica com a qual arrasara o cronista de A Tarde, Giovanni Guimarães, possibilitando o esclarecimento da população de Agreste, afetada com a “Carta ao poeta De Matos Barbosa”. É que esse tal de Giovanni andara de visita à cidade, há alguns anos, fizera amizades, gozava de certo prestígio. Rosalvo responde, enquanto examina a garrafa de Chivas, antes de aprová-la e ele próprio abri-la, servir-se e servir ao Magnífico, a Ascânio e a uma das moças, a outra prefere Campari:
— Giovanni? Um bom rapaz, inteligente, engraçado, sabe escrever. Mas nunca passará de um jornalista provinciano, com seu empreguinho público e o salário de repórter. Não tem estofo para mais. Faltam-lhe ambição e idealismo. — Prova a bebida, repete o trago: — Isso, sim, é uísque. — Pousa os olhos em Ascânio, toca-lhe novamente a coxa para chamar sua atenção para a importância do que vai dizer: — Sem idealismo e sem ambição, meu caro, ninguém pode ir adiante. Um ideal elevado: ser alguém na vida, um construtor de progresso. Servido pela ambição. A ambição é a mola do mundo.
Disse e mamou, com satisfação de expert, um trago largo de uísque, degustando-o. Por detrás do balcão, agitando a coqueteleira, o barman sorri, pensa no valor das aparências. Para os simplesmente vaidosos, a retorcida garrafa de cristal, em tons verdes, sinal de alta consideração. Para os suficientes e orgulhosos, a simples garrafa original do Reino Unido, fechada, selada, lacrada, sinal de respeito ainda maior. Numa e noutra, para uns e outros, idêntico uísque falsificado da reserva do hotel, diferença apenas de preço. Também, que gosto e refinamento pode ter um bebedor de uísque? Nenhum, na opinião do barman.
Durante a curta hora em que permanecem bebericando e trocando idéias à borda da piscina, em cuja água azulada e transparente os corpos das mulheres eram visão amena e grata, Ascânio foi apresentado a uma quantidade de pessoas, todas de evidente importância, que paravam para cumprimentar Rosalvo Lucena e trocar uma palavra com o Magnífico Doutor, por vezes segredar-lhe ao ouvido. Sem falar nas moças, algumas delas certamente a serviço da Brastânio, pois Mirko as encarregava de tarefas diversas: telefonemas, reserva de mesa no Chez Bernard para um jantar de seis talheres naquela mesma noite, compra de discos de Caymmi numa das butiques. Ao apresentar Ascânio, o Magnífico não informava sobre o cargo por ele exercido na prefeitura de Agreste nem o dizia vindo de lá. Ressaltava, porém, sua condição de “dinâmico dirigente, de muito futuro, destinado a desempenhar importante papel na vida do estado, quiçá do país. Un vrai conducteur d’hommes”.
Palavras agradáveis de ouvir, embalam como um acalanto, traçam uma perspectiva, dão força e ânimo. Idealismo e ambição, dissera o jovem e vitorioso empresário. Idealismo, Ascânio sempre teve, a ambição nasce e cresce à borda da piscina.
Manhã de sol, ambiente cordial, a graça das mulheres, a inteligência dos companheiros de mesa, a bebida cara, isso, sim, é uísque. Já não se sente tão mísero joão-ninguém ao lado de Rosalvo Lucena. Que por sinal se despede, tem almoço marcado com alta figura da administração estadual:
— Em breve, nos veremos em Agreste.
— Lá estarei às suas ordens.
Ouve a murmurada ponderação do dr. Mirko Stefano quando Lucena se levanta:
— O homem é uma parada difícil, vá com cuidado. Dele depende muita coisa. Diga-lhe que a encomenda já está a caminho.
O Magnífico ainda se demora a saborear o uísque, a roda crescendo em torno dele. Apesar de ter pela frente une journée terriblement chargée, não se apressa, preza e desfruta tudo aquilo: o dia claro de sol, o movimento da gente ociosa no bar e na piscina, a visão dos corpos seminus, as moças se oferecendo, o mexerico e a adulação dos ávidos foliculários. Levanta-se, finalmente, assina a nota, marca um encontro com Ascânio para as quatro da tarde. Pat o acompanhará à sede da companhia:
— Temos muito a conversar. Bye-bye.
Enfim, pensa Ascânio, a esperada conversa, motivo de sua vinda. Pat aproxima-se, comboiando outra moça, morena magra, de busto saliente:
— Esta dondoca é Nilsa, neném. Acaba de ser nomeada tua secretária. Não posso te acompanhar hoje, é folga de Ismael na redação, só tem de entregar a coluna, o dia é dele. — Olha com ternura para o noivo que, tendo se servido do fundo da garrafa, voltara à piscina: — Você compreende, né? Nilsa fará as minhas vezes. Você vai gostar dela e ela de você, neném.
Nilsa ri muito, fala pouco, usa qualquer pretexto para exibir o seio farto. Propõe almoço frio, é mais rápido e não pesa no estômago. Não houve sesta, ela o acompanhou diretamente ao quarto. Ao despir a cueca, contemplando os seios de Nilsa, grandes, redondos, túmidos, e o pequeno ventre de espessa mata negra, Ascânio considera que o atraso na conversa que o trouxera à capital tinha suas compensações. Não fossem as saudades de Leonora, não se importaria de demorar mais alguns dias.
DAS CONTROVERTIDAS OCORRÊNCIAS DE MANGUE SECO, CAPÍTULO
NO QUAL SE TEM NOTÍCIA DE VIGOROSO MOVIMENTO DE MASSAS TRABALHADORAS (EM TERMOS) E POPULARES, FORNECENDO-SE ASSIM A ESTE FOLHETIM INDISPENSÁVEL CONOTAÇÃO REIVINDICATIVA E MILITANTE
A GENTE CORRE COM ELES DAQUI, NA PRIMEIRA VEZ
QUE APARECEREM, ameaçara o jovem seminarista Ricardo em conversa com Tieta, o comandante e o engenheiro Pedro Palmeira, referindo-se ao pessoal da Brastânio. A frase merecera solidário aperto de mão do engenheiro. Ricardo disse e cumpriu. Viram-no de batina, à frente da massa. Ele e Tieta que se divertiu às pampas. Era como se houvesse voltado à primeira juventude, quando escapulia dos outeiros, deixando as cabras entregues ao bode Inácio, e vinha, com algum parceiro, subir as dunas e se misturar à vida dos pescadores.
Ricardo cumpriu o prometido somente em parte, pois os primeiros enviados da Brastânio à região, após a peremptória jura, sobrevoaram a praia e o coqueiral em helicóptero, no dia fatídico da morte de Zé Esteves, armados de binóculos, máquinas fotográficas e de filmagem. Mesmo sendo um anjo do Senhor, na opinião praticamente unânime das mulheres de Agreste, em especial daquelas mais chegadas à prática do esporte incomparável, à frente das quais se coloca Tieta por ser quem melhor conhece as qualidades celestiais do sobrinho, ainda assim faltam-lhe asas, se bem lhe sobre o desejo de voar. Quem sabe, um dia o Senhor lhe concederá essa prerrogativa reservada aos anjos e arcanjos, premiando-lhe a vocação e a sinceridade.
Aquele aperto de mão marcara o início de crescente amizade entre o engenheiro e o seminarista; a diferença de idade — doze anos — não impediu que as relações se tornassem fraternas, consolidadas nos babas em companhia dos moleques da povoação; na travessia da barra para a pesca ao largo: Ricardo conseguira recuperar o molinete do qual Peto se apoderara; em longas conversas, algumas com frei Timóteo, no Arraial do Saco. Antigo dirigente universitário, Pedro atuara no Rio de Janeiro antes de formar-se, de entrar para a Petrobras e ser mandado para a Bahia onde lhe acontecera a felicidade de conhecer Marta e tê-la por esposa e, em conseqüência, a infelicidade de conhecer Modesto Pires e tê-lo por sogro. Sabe lá o que é isso, Cardo? Meu sogro é o atraso, o reacionarismo em pessoa. Há quem tenha o caralho na cabeça, me desculpe a expressão, seu Modesto tem na dele uma nota de mil cruzeiros. Pedro deleitara-se contando a Ricardo as heróicas trapalhadas das agitações estudantis pelas quais não perdera o interesse nem mesmo quando, formado, casado, pai de filhos, delas deixara de participar. De longe as acompanha, ajuda com dinheiro, assina protestos. Revela a Ricardo que até seminaristas comparecem às manifestações, envolvem-se em brigas com a polícia.
Iniciaram ampla campanha de esclarecimento junto às massas proletárias — classificação do engenheiro, antigo e dogmático redator de manifestos — ou seja a dúzia e meia de famílias de pescadores, composta por rudes homens do mar curtidos pela ventania e por moleques bons de nado, pesca e futebol na areia. Um deles, Budião, ponta-de-lança com pinta de craque, tendo disputado uma partida em Estância, integrando o combinado do Arraial do Saco, foi notado por um dirigente do Sergipe Futebol Clube que lhe propôs mudar-se para Aracaju. Mas, quem nasce em Mangue Seco não emigra, não sabe viver longe das vagas sem tamanho e da ventania desabrida.
A pregação ideológica do engenheiro, expondo problemas graves e profundos, imperialismo, colonialismo interno, poluição, ameaça mortal à fauna marítima, apodrecimento das águas a fazer da pesca atividade condenada a desaparecer; denunciando a existência de capitais estrangeiros majoritários na indústria de dióxido de titânio, em realidade entrave e não estímulo ao desenvolvimento do país, canalizando para o estrangeiro lucros imensos, empobrecendo o povo — nada disso, diga-se com tristeza mas a bem da verdade, causou maior impressão sobre a reduzida massa à qual ele se dirigia, patético, veemente e honrado. Ricardo vibrava, férias sensacionais: ruem muros diante dele, abrem-se caminhos, Deus o ilumina.
Deus o ilumina a ponto de ter sido um argumento de Ricardo, sobre o aterro necessário à construção da fábrica e das casas de operários, provocando o fim do mangue e dos caranguejos, o único a causar certo abalo na indiferença geral. A notícia da provável extinção dos caranguejos, base da alimentação dos habitantes — as mulheres iam pescá-los no coqueiral enquanto os homens remendavam as velas dos barcos e pitavam seus cachimbos de barro —, suscitou interesse e debate. De curta duração, porém, pois o velho Jonas, cuja palavra todos respeitam, observou:
— Como é que vão acabar com o mangue e os caranguejos? Não tem dinheiro no mundo que chegue para uma despesona dessa.
Balançando a cabeça em sinal de aquiescência, ouviram com atenção as explicações do comandante que renovou a gravidade da ameaça com palavras cruas: para ganhar dinheiro fácil, uns tipos sem entranhas queriam instalar no coqueiral uma fábrica de veneno, um veneno pior do que a estricnina, mata tudo, a começar pelos caranguejos.
— Caranguejo não morre fácil, não, seu comandante. Nunca ouvi falar que veneno matasse caranguejo. Qual o quê!
O que os decidiu a apoiar Ricardo e o engenheiro no projeto de correr dali o pessoal da Brastânio, quando novamente aparecesse, foi a conversa mantida por Jonas, Isaías e Daniel, os três chefes incontestes da pequena comunidade, com Jeremias, na escuna, fora da barra, em madrugada tempestuosa. O compadre — Jeremias era compadre de todos os chefes de família, em cada casa tinha um afilhado — lhes comunicou, pesaroso, que aquela secular atividade da qual viveram seus antepassados e agora viviam eles, os compadres e os afilhados, suas mulheres, os irmãos e irmãs, as tias e as avós, e mais um bocado de gente espalhada rio afora e nas cidades próximas, incluindo Elieser, estava ameaçada de findar-se ou melhor dito, deveriam as escunas e os navios procurarem outro ponto onde descarregar a mercadoria. Se a fábrica se instalar em Mangue Seco — e parece que termina por fazê-lo, pois nos outros lugares o povo se levanta e não permite enquanto aqui ninguém faz nada para impedir —, isso significa o fim do contrabando, pois desaparecerão as condições indispensáveis de segurança. Perderá Mangue Seco aquela situação ideal de isolamento, de praia desconhecida, um fim de mundo, própria para o desembarque e escoamento da muamba. Instalada a fábrica, o tráfico tornar-se-á impraticável.
Essa ameaça, sim, os decidiu. De quebra, perguntam ao compadre se é verdade que a tal indústria produz veneno capaz de matar caranguejos. Jeremias tem uma profunda cicatriz no rosto e fala sem tirar o cachimbo da boca. Homem melhor não pode haver, igual só mesmo o comandante, mas são diferentes os laços que ligam a gente de Mangue Seco a um e a outro. O comandante é bom amigo; o compadre é um deles, juntos arriscam a vida e a liberdade.
— Se mata caranguejo? Não vai sobrar nem um pra remédio. O titânio empesteia tudo, mata até cágado que é bicho teimoso demais pra morrer.
Jonas, o mais velho dos três, assegura:
— Faça caso não, compadre, a gente não vai deixar eles se meterem aqui. A gente já botou polícia pra correr, quanto mais esses come-merda.
Isaías, o do meio, concorda:
— O engenheiro e o padrezinho já tinham dito que a gente devia dar uma lição neles. Vamos dar. Fique descansado, não mude o rumo, lugar como esse o compadre não vai encontrar.
Daniel, o mais moço, recorda:
— Não esqueça o batizado do menino, compadre, vai ser pro mês. Nunca pensei que matasse os caranguejos. O comandante é homem sério, assim mesmo duvidei. Tenha medo não, compadre. Esse lugar, abaixo de Deus, só tem um dono, que é a gente. Essa areia e esse pedaço de água pertence a nós, não é de mais ninguém. O resto, quem quiser pode usar e abusar, em Mangue Seco só planta o pé quem não bulir com a gente.
Cabe a Jonas a última palavra. Ergue o cotoco de braço:
— Vá com Deus, compadre, e volte que nós damos fiança.
— Pois até o mês, meus compadres, vou sossegado. Abraços pras comadres e a bênção pros afilhados.
Noite ruim, o vento desatado, o mar raivoso, eles também: matar os caranguejos, onde já se viu? A escuna desaparece na escuridão, os barcos penetram em meio às vagas e aos tubarões. Por ali só eles passam, antes passaram os pais e os avós na mesma tarefa proibida. Na praia, silenciosos, os homens desembarcaram a mercadoria, guardaram-na bem guardada, à espera de Elieser e dos outros camaradas.
A equipe técnica da Brastânio chegou a Mangue Seco depois de uma travessia demorada, desagradável, em mar agitado e perigoso. Na foz do rio Real, a ressaca cresce em vagalhões, o vento faz redemoinhos na areia, transforma a geografia da praia. Tempo tão péssimo, os pescadores do Arraial do Saco não saíram para a pesca naquele dia. Na entrada da barra, houve um começo de pânico, sobretudo entre as mulheres.
Vieram em duas potentes lanchas, moderníssimas, traziam de um tudo, desde cinco grandes barracas de campanha até abundante lataria, fartura de comestíveis, de água mineral e refrigerantes, colares do Mercado Modelo para presentes ao gentio. Apesar do cansaço e do nervosismo, mesmo em condições atmosféricas tão desagradáveis, ao se encontrarem ante a paisagem de Mangue Seco, a visão dos altos cômoros enfrentando a fúria do oceano, a imensidão da praia estendendo-se de lado a lado da península, o coqueiral prolongando-se nas margens do rio, a perder de vista, sentiram-se pequenos e consideraram que pagara a pena vir. O céu coberto ameaçava chuva.
Parados os motores, as lanchas permanecem a certa distância da praia. Um dos passageiros salta na água que lhe bate na cintura, anda, chega ao chão de areia, dirige-se às choupanas de troncos e palmas de coqueiro, meio soterradas, propõe a Isaías ocupado a remendar uma vela rota no temporal da outra noite:
— Ô! Você aí! Você e os outros. — Os outros estão muito ocupados em não fazer nada, conversam sentados numa roda larga, picam fumo, cachimbam: — Venham todos ajudar a desembarcar umas coisas. Depressa.
Isaías olha, não responde. O velho Jonas levanta-se, pergunta:
— O moço é da fábrica?
Quase arrastado pelo vento mas vaidoso de sua condição, o galhardo concorda e reclama:
— Somos da Brastânio, sim. O que fazem aí parados? Vamos, dêem-se pressa.
Jonas examina as duas lanchas ancoradas próximas à praia, joguetes na maré bravia, calcula o número de passageiros, as mulheres quantas serão? Mulher é um perigo. O velho pescador coça a barba rala. Recorda outras ocasiões, quando a polícia ainda se atrevia. Em geral, em começo de governo, os políticos roncando honradez, agitando a lei: vamos acabar de vez com o contrabando! Faz tempo que desistiram. Também, onde encontrar soldados ou secretas dispostos a vir a Mangue Seco?
Método usado apenas em último recurso, há muito não o utilizam, por desnecessário. Os mais jovens sabem somente de ouvir dizer, vão se divertir. Quem gostava era o mascate, participara em mais de uma expedição.
— Isaías, prepare os barcos. Daniel, reúna o povo. Budião, vá correndo avisar dona Tieta, diga que eles chegaram. Fale também com Cardo e com o engenheiro. Não demore que o homem está com pressa. — Volta-se para o emissário dos viajantes: — Vá indo que a gente já vai.
Enquanto observa o homem da Brastânio marchando curvado contra o vento, felicita-se pela ausência do comandante, ocupado em Agreste. Um amigão, o comandante Dário. Fecha os olhos para as noturnas e clandestinas incursões, simula ignorar a presença de escunas, cargueiros e lanchas, o transbordo da muamba. Apesar, no entanto, da intransigente má vontade demonstrada para com a tal fábrica de veneno e a amizade que dedica ao povo de Mangue Seco, ainda assim talvez se opusesse à operação projetada, criando um problema dos demônios.
Não a praticam desde o acontecido com o sargento; nunca mais a polícia voltara, ainda bem. Agora tornou-se novamente indispensável, mas quando a decidiram Jonas recomendou a todos o maior cuidado. Tieta, o estudante de padre e o engenheiro ficarão na praia, não é coisa para eles.
Nem sequer para Tieta, tão disposta. Quando Jonas era o mais jovem dos três chefes, havia muitos e muitos anos, molecota atrevida, pastora de cabras nos outeiros de Agreste, Tieta costumava aparecer na praia, subindo os cômoros, sempre acompanhada, namoradeira como ela só; também, uma boniteza daquelas, tinha que ser. Em São Paulo dobrou a boniteza, se enfeitou, virou um pancadão, um pedaço de mulher. Antigamente, mocinha, andava sempre em companhia de homem feito, mais velho do que ela, agora está preparando o sobrinho para fazer dele um bom padre-mestre, cumprindo assim com a sua obrigação de tia.
Uma vez, tendo vindo se divertir na praia, coincidiu Tieta desembarcar no meio de uma briga feia: dois soldados, uns secretas e o delegado de Esplanada querendo apreender a mercadoria e encanar o velho receptador vindo de Estância. O acompanhante de Tieta, um almofadinha, ao saltar e deparar com o fuzuê, perdeu a animação e a cor, ficou de cera, enfiou o fogo no rabo e capou o gato, correu para o bote, se tocou a toda, sozinho, largando a namorada, coisa mais triste! Tieta nem ligou, olhou e riu, ergueu o cajado de pastora e se juntou aos pescadores, ajudando-os a botar a polícia para correr. Baixou o bordão no delegado, sem respeitar nem o revólver nem o apito com que ele transmitia ordens, uma novidade. Tieta não nascera em Mangue Seco mas merecia ter nascido. Quem sabe, Jonas será obrigado a levá-la para que ela cuide das mulheres.
Excetuando o fulano que fora convocar carregadores, os demais funcionários da Brastânio não chegaram a desembarcar. Formavam um grupo relativamente numeroso, umas vinte pessoas, entre as quais quatro mulheres: uma cartógrafa, duas secretárias e a esposa do chefe da equipe, robusta e romântica senhora, ciumentíssima, que se incorporara à caravana para não deixar o marido à mercê das secretárias, umas sirigaitas, e no desejo de tomar banho de mar em Mangue Seco. Desejo generalizado. Especialistas bem remunerados, técnicos competentes, vinham todos na doce esperança de unir o útil ao agradável: nas folgas do trabalho, o lazer na praia cuja fama corre na companhia, levada pelos que ali estiveram antes para os estudos preliminares. Passado o susto da travessia da barra, encontram-se animados e alegres.
— Quando fizer sol, vai ser um esplendor! — exclama, feliz, Kátia, a esposa.
Jamais se viu no mundo pessoas tão assombradas. A princípio não se dão conta exata do significado do que está acontecendo. A primeira visão foi surrealista: de longe, por entre coqueiros, surge correndo uma mulher vestida de calça e capa de borracha negra, dessas de marinheiro, na mão um cajado longo. Não ouvem o que ela grita, devido ao vento, mas sentem no bastão erguido um gesto de ameaça. Seguem-na um padre e um tipo de barbas. Em seguida, os pescadores: velhos, moços e meninos. Logo depois a surpresa transformou-se em medo, susto sem tamanho.
Na praia, dando um balanço nas lanchas, contando as quatro mulheres, Jonas decide trazer Tieta:
— Venha com a gente, dona Tieta. Não tenha medo.
— Está me desconhecendo, Jonas?
— Me desculpe, não falei por mal.
Ricardo vai seguir a tia, o engenheiro também. Jonas impede:
— Vocês dois, não. — Explica ao engenheiro: — Seu Modesto, se vier a saber, vai ficar fulo, doutor Pedro. É melhor que o senhor espere aqui, a gente cuida de tudo. — Diz a Ricardo: — O que nós vamos fazer não é do agrado de Deus, meu padrezinho. — Não propõe, ordena; nem parece o mesmo Jonas bonachão, caçoando com o seminarista na travessia para o arraial.
Pedro concorda, afasta-se. Por amor a Marta e aos filhos, quer viver em paz com o sogro. Mas Ricardo replica, a voz tão firme quanto a de Jonas:
— Quem lhe disse que não é do agrado de Deus? Deus lança o raio quando é preciso. Quem mais vai, sou eu.
Jonas coça a barba:
— Pois venha, mas depois não se queixe. Quem sabe, assim tu vai acabar sendo um bom padre-mestre.
Embarcam nos saveiros, alguns levam rolos de corda. Aproximam-se das lanchas, saltam na água, sujeitam passageiros e tripulação — dois marinheiros em cada lancha — numa rapidez inacreditável para quem os viu somente na praia, na indolência, e ignora as travessias noturnas. Aproveitam-se da surpresa, não chega a haver luta tal o susto e o medo. Jonas assume o comando de uma das lanchas, Isaías o da outra.
— Todas as mulheres, nessa lancha aqui — ordena Jonas. — Dona Tieta, fique de olho nelas. Ricardo, venha comigo.
As cordas servem para amarrar os pulsos dos homens, ligá-los uns aos outros, em duas fileiras, uma em cada lancha. Siderados, os funcionários da Brastânio protestam, reclamam, exigem explicações. Perguntas inúteis, inúteis os argumentos, as razões e ameaças. Ninguém parece ouvir. Apenas um jovem técnico em eletrônica, de olho numa das secretárias, tenta passar das palavras aos atos, demonstrar bravura para impressionar a moça: investe contra Isaías. É contido por Budião e pelo ponta-esquerda Samu (ruim de drible mas dono de um chute indefensável, um canhonaço) e amarrado aos outros. São levados para os passadiços onde ficam sob a guarda do pessoal mais jovem. Precisam sentir e ver bem de perto. Jonas dá o sinal de partida, as lanchas se movimentam lentamente, os saveiros acompanham.
Não tomam o rumo habitual da barra onde a arrebentação, mesmo quando muito forte em dias assim de mau tempo, não oferece maior perigo além do susto. Embicam em direção aos vagalhões, na esteira do contrabando. Fazem esse caminho nas noites de tráfico e o fizeram também conduzindo policiais de punhos atados. Um sargento perdera a cabeça de tanto medo, se soltara das mãos que tentaram retê-lo e se atirara na água, os tubarões o estraçalharam num minuto; o sangue durou pouco, varrido pelas vagas. Por isso Jonas mandara amarrar os homens uns aos outros em dois grupos, um em cada lancha, e colocou as quatro mulheres sob a ameaça do bastão de Tieta:
— Não se movam, cabritas, senão o pau vai cantar.
Nas lanchas, ouvem-se gritos, choros, pedidos de socorro, de piedade pelo amor de Deus. Indiferentes, os pescadores penetram por entre as ondas descomunais, atravessam no espaço mínimo onde elas se alteiam imensas e se rebentam furiosas contra as dunas. Encharcados, chegam com as embarcações onde só mesmo eles, os ali nascidos e criados, conseguem chegar. Eles e os tubarões.
Erguem os remos, silenciam os motores, estacionam na porta da morte. Lanchas e saveiros rodopiam, sobem e descem, ameaçam virar, emborcar, soçobrar, a duras penas os pescadores mantêm os lemes e o precário equilíbrio. Os vagalhões tentam atirar os barcos contra as montanhas de areia. Estão diante da morte. Da morte multiplicada, pois os vultos de chumbo se aproximam, sombras sob a água revolta. De repente um deles salta, não tem tamanho de tão grande, eleva-se no ar, a dois metros da lancha comandada por Isaías. Um grito uníssono e o choro das mulheres. Saltam mais três, juntos, e mais dois e outro mais, quantos serão? Abertas em fome as bocas monstruosas, exibindo os dentes pontiagudos, ávidos, sinistros. Jonas é cotó de um braço, não precisa contar como o perdeu, todos se dão conta. Ouvem e sentem o baque dos tubarões contra o costado das lanchas. Quanto tempo demoraram ali, diante da morte, face a face? Talvez apenas uns minutos, foi uma eternidade, espaço e tempo de pavor abissal e infinito.
Kátia grita para o marido: quero morrer contigo e desmaia nos braços de Tieta. Vários vomitaram e pelo menos dois fizeram feio, se borraram. Mesmo os mais valentes entenderam.
Lanchas e saveiros novamente em marcha, rompem os vagalhões, rumam para o largo, os tubarões os acompanham durante certo trecho, ainda na esperança; depois se vão. A chuva cai, começa a lavar o céu. Antes de devolver o comando da lancha e embarcar no saveiro, Jonas eleva a voz mansa e terminante de profeta pobre:
— Não voltem nunca mais e avisem aos outros.
A chuva lavou completamente o céu, amansou as ondas, a noite desce leve e cálida, noite para conversa sem compromisso, boas recordações e festejos. Reunidos em torno às choupanas, sentados na areia, emborcam uns tragos de cachaça. Não se referem ao acontecido, como se nada houvesse se passado. Apenas o engenheiro ri sozinho; contente, fortalecido em sua confiança nas massas: por um momento duvidara.
Daniel traz a harmônica, Budião é bom de bola e bom de dança; exibe-se com Zilda, sua prometida, nos passos do xaxado. O engenheiro rodopia com Marta. Pena seminarista não poder dançar, besteira, não é? Ricardo fita o céu, limpo de nuvens, pontilhado de estrelas: os caminhos do mundo estão abertos à sua frente, sabe do mal e do bem, atravessou a maldição e aprendeu a desejar. Ao lado de Tieta, atento à conversa com Jonas, sente o chamado que dela se evola e o cerca, exigente. Talvez por lhe restar pouco tempo em Agreste, pois partirá após a inauguração da luz nova, a tia o quer junto a ela, em permanência, noite e dia.
Jonas e Tieta recordam tempos passados. Histórias de conflitos com a polícia, detalhes, nomes, a valentia do mascate, lembra-se dele, dona Tieta? Era um macho. Na sombra dos cômoros, Tieta enxerga a figura do mascate, aspira na maresia seu cheiro forte de cebola e alho. Morrera de bala, na Vila de Santa Luzia, enfrentando os soldados.
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TERCEIRO EPISÓDIO DA ESTADA DE
ASCÂNIO TRINDADE NA CAPITAL
OU DA FORMAÇÃO DE UM DIRIGENTE A SERVIÇO DO PROGRESSO: ELEIÇÕES,
TRIBUNAL, INIMIGOS DO BRASIL,
AGENTES ESTRANGEIROS, ARTE E BETY, BEBÉ PARA OS ÍNTIMOS
NA SEDE DA BRASTÂNIO, ESPETACULAR, UM ANDAR
INTEIRO NUM DOS modernos edifícios da Cidade Baixa, temperatura primaveril, vidros reibam esfumaçados, uma deusa de peruca na mesa telefônica, Ascânio Trindade renova antigo conhecimento: Elisabeth Valadares, Bety para os amigos. Quando a deusa grega, tendo anunciado sua presença, indicou-lhe uma cadeira, ele não chegou a ocupá-la pois imediatamente Bety surgiu numa das portas. Demonstrando memória e eficiência, ela o recebe com efusiva simpatia:
— Alô, amor! Estou feliz de vê-lo aqui em nossa modesta tenda de trabalho. Venha comigo, o doutor o espera. E o lindo, como vai?
— O lindo?
— O varapau, aquele engraçado. Charmoso como ele só.
— Ah!, Osnar. Vai se roer de inveja quando souber que estive com você.
— Diga-lhe que mando um beijo e morro de saudades. — Fez um sinal a Nilsa ordenando-lhe esperar ali mesmo.
Sobre uma mesa de vidro, na sala do dr. Mirko Stefano, estende-se um grande desenho a cores, Ascânio reconhece a paisagem de Mangue Seco, as dunas, a foz do rio e o coqueiral. Parte do coqueiral desaparecera, substituído por imponente conjunto industrial, altas construções, da chaminé se eleva reduzida e alva fumaça. Entre a fábrica e as dunas, umas duas dúzias de residênclas amplas, com varandas e jardins, para os administradores, engenheiros e técnicos. Do outro lado, na direção de Agreste, uma pequena cidade, centenas de casas alegres, conjugadas duas a duas, todas iguais, moradias para os trabalhadores. Um ancoradouro moderníssimo, quase um porto, com grandes lanchas a motor. Deslumbra-se Ascânio com aquela visão do futuro. A voz afetada do Magnífico o traz de volta ao presente.
— Está vendo essa casa separada de todas, a mais perto da praia? É a minha. Aí irei descansar quando tiver tempo para o lazer. Adoro Mangue Seco, é o lugar mais bonito do mundo. Vai continuar a ser o mais bonito, sendo, igualmente, um centro de riqueza. C’est ça.
Senta-se à mesa de trabalho, aponta uma cadeira a Ascânio, em frente. Esfrega as mãos uma na outra, satisfeito:
— Pedi que viesse até Salvador para lhe transmitir pessoalmente a grande notícia, meu caro Ascânio. Permita-me que o trate por você, abandonando a cerimônia.
— Pois não, doutor Mirko.
— Nem doutor, nem senhor. Seu amigo Mirko Stefano, seu admirador. Mas vamos à notícia auspiciosa: a Brastânio decidiu em definitivo instalar em Santana do Agreste sua indústria de dióxido de titânio que, como você sabe, é uma das mais importantes entre quantas foram projetadas e criadas no país, nos últimos anos. Do ponto de vista do desenvolvimento nacional e da economia de divisas. Uma indústria benemérita. Benemérita!
A voz amaneirada faz-se categórica, a afirmação é uma resposta, esmaga dúvidas, ataques, condenação.
— A decisão foi tomada na reunião de diretoria que só terminou ontem ao fim da tarde. Mas como eu sabia por antecipação qual o resultado, apressei-me em pedir que viesse para conversarmos, acertarmos nossos relógios, c’est bien nécessaire. Confio que a espera não lhe tenha sido pesada.
— Ao contrário, muito agradável. Só tenho a lhe agradecer.
— Rien, mon cher. Tornaremos pública nossa decisão em poucos dias. Apenas terminemos uns últimos trâmites junto aos poderes estaduais, dos quais o doutor Lucena está se ocupando, nos dirigiremos à prefeitura de Agreste para dar conta oficialmente de nosso projeto e obter a necessária autorização. Devo acrescentar que me bati por sua terra, gostei muito de Agreste, sobretudo da praia. Outros centros, dotados de maior infra-estrutura, tentaram ganhar nossa preferência, oferecendo vantagens diversas, inclusive isenção de impostos. Não é o que nos interessa. Sendo uma empresa pioneira, a Brastânio preferiu uma zona mais distante, desamparada até agora, da qual seremos a alavanca do progresso. Como você disse muito bem: a Brastânio será a redenção de Agreste. Custa-nos mais dinheiro porém atingimos o nosso maior objetivo: servir.
Toca o botão de uma campainha, em cima da mesa, levanta-se, vem até Ascânio, estende-lhe a mão:
— Em sua qualidade de prefeito, ou de representante do prefeito do município de Santana do Agreste, receba minhas calorosas felicitações.
Ascânio põe-se de pé, o aperto de mão parece-lhe insuficiente, parte para o abraço. Bety surge, seguida pelo bói: bandeja de acrílico, vermelha, taças de cristal, escura garrafa de champanha. Vendo apenas duas taças, o Magnífico ordena uma terceira, corre o bói a buscá-la. Enquanto desarrolha a garrafa, com extremo cuidado, quase devoção, dr. Mirko, em seu elemento, esclarece:
— Dom Perignon. Conhece, certamente…
Teve vontade de dizer que sim, mas confessa:
— Não. Dessa nunca bebi. Uma vez provei uma chamada… Viúva…
— Veuve Clicquot.
A rolha salta no festivo ruído habitual, o Magnífico serve, entrega uma taça a Bety.
— Ela e eu fomos os primeiros a pisar em Agreste. Os descobridores.
— Houve quem pensasse que fossem marcianos, gente do espaço — conta Ascânio.
Riem, recordando o assombro do povo de Agreste. Bety tem boa memória:
— O lindo me perguntou se eu era marciana ou polaca. Uma graça.
— Boa gente — conclui dr. Mirko Stefano, erguendo a taça. — Bebo à prosperidade de Agreste e do homem valoroso que comanda seu destino, meu amigo Ascânio Trindade. Tchim-tchim.
Tocam-se as taças no brinde, sons de cristal. Assim é o riso de Leonora. Ela ficaria orgulhosa se estivesse ali, naquele momento, e modularia o verso do poema renegado de Barbozinha: Ascânio Trindade, capitão da aurora. Bety se aproxima e o beija nas faces: parabéns, amor. Depois, retira-se.
Dr. Mirko volta a servir, senta-se na borda da mesa, faz sinal para que Ascânio se acomode na cadeira. Expõe idéias e planos:
— Queremos que, quando entrarmos com nossa proposição, você já esteja eleito, se possível. Tratamos de apressar a data da eleição, doutor Bardi interessou-se pessoalmente, o Tribunal Eleitoral colocou em pauta, ontem doutor Bardi falou com amigos em São Paulo, por telefone, para garantir que a resolução fosse tomada sem falta na sessão de hoje — o tribunal se reúne uma vez por semana. Tudo certo, tudo ok. Pois não é que o juiz presidente resolveu ter um enfarte hoje de manhã e capotar? Resultado: não há sessão hoje, agora só na próxima semana. Mas, viaje descansado: daqui a oito dias teremos a data.
Serve novamente com delicadeza; o champanha lhe merece respeito e estima. Realmente aprecia e conhece:
— Bebo uísque quando estou em companhia de amigos, num bar, numa festa. Mas do que gosto mesmo é de champagne. — Jamais pronuncia “champanha”, parece-lhe um palavrão grosseiro. — Como Rosalvo lhe adiantou, seguiu uma equipe de técnicos para Mangue Seco. Ao mesmo tempo, estamos preparando toda a documentação necessária para requerer ao governo do estado e, em seguida, à prefeitura de Agreste, a autorização para dar início às obras. Pensamos em recrutar trabalhadores em toda a região, inclusive em Sergipe. Em breve, receberemos os estudos para a retificação e pavimentação da estrada que liga Agreste a Esplanada. Está tudo em marcha, mon vieux.
Olha através da taça, pensativo:
— Há quem se levante e proteste contra a instalação no país de uma indústria de dióxido de titânio, tachando-a de poluidora. Os motivos são vários, quase sempre inconfessáveis, mas os agentes estrangeiros que comandam essa campanha antinacional conseguem iludir e arrastar muitas pessoas honestas, que ficam alarmadas e se colocam contra nós. Não vou lhe dizer que a indústria de dióxido de titânio não polui. Polui, sim, tanto quanto outra qualquer, talvez um pouco mais. No entanto, ninguém se coloca contra uma fábrica de tecidos ou de eletrodomésticos. Mas, contra as indústrias fundamentais, os interessados em que continuemos subdesenvolvidos, dependentes, inventam os maiores absurdos. Dizem por exemplo que vamos destruir a fauna do rio e do mar. Não há nada disso. Teremos tubulações submarinas que levarão os rejeitos poluidores para lançá-los vários quilômetros adiante, onde já não oferecem nenhum perigo. Mandei preparar uma pasta onde todo esse problema da soi-disant terrível poluição da indústria de dióxido de titânio é completamente esclarecido, colocado nos devidos termos. Assim você ficará preparado para desmascarar os embusteiros e esclarecer os que se deixam enganar, todos os que tentam impedir o progresso agitando o fantasma da poluição. São Paulo não passaria até hoje de uma reles capital de província, se essa gente pudesse impor sua opinião. Você viu o Centro Industrial de Aratu. Que batalha, meu amigo, contra os imbecis! Por detrás dos imbecis, movendo os cordéis, os inimigos do Brasil. — Não esclareceu quais, não tendo ainda tomado o pulso político de Ascânio. Assim, se fosse de direita, pensaria na União Soviética, se fosse de esquerda, nos Estados Unidos.
O telefone soa, é Bety, do outro lado. O Magnífico Doutor ouve, desliga:
— Tenho de ir ao enterro do juiz. Não tenho jeito, vê a que você me obriga? — Ri, cordial: — Amanhã terminaremos esta nossa conversa. No hotel, na minha suíte, onde ninguém irá nos incomodar.
Ascânio abre a boca para falar, vacila, dr. Mirko o anima:
— Alguma coisa? Pode dizer, não se constranja. — No fundo do peito, uma esperança: quem sabe, ele vai pedir dinheiro?
Ascânio aponta o desenho sobre a mesa, maravilhosa visão do futuro:
— Se eu pudesse levar este trabalho para Agreste, seria ótimo. No jornal mural que coloquei na prefeitura tem um desenho de Lindolfo mas este aqui é um quadro, uma obra de arte, um monumento!
Bety é convocada por telefone: venha e traga Rufo. Assim Ascânio não reviu apenas a ruiva de mecha agora azul, reencontrou também o mancebo de cabeleira caindo nos ombros à Jesus Cristo, autor do desenho. Caloroso, felicitou-o, o senhor é um grande artista, e agradeceu-lhe em nome de Agreste. No dia seguinte, promete o Magnífico Doutor, ele receberá no hotel, junto com a documentação, a obra-prima devidamente acondicionada em tubo adequado.
Para o jantar Nilsa escolheu um restaurante situado no Solar do Unhão, lugar belíssimo, junto ao Museu de Arte Moderna, no qual se realizava o concorrido vernissage de uma exposição de fotos, gravuras, quadros, objetos; o pátio repleto de automóveis.
Quando terminaram de comer, Nilsa o levou a visitar a mostra, Ascânio sente um choque, o que é isso? Esperava ver paisagens; nus artísticos, naturezas-mortas, pinturas bonitas, arregala os olhos diante de fotos absurdas, imorais, gravuras representando igrejas deformadas e umas maluquices feitas com pedaços de objetos inúteis, parece mais um bric-à-brac: até uma latrina fora usada pelo artista. Artista? Sim, confirma Nilsa, é renomado, gozando do maior prestígio não apenas na Bahia, no país inteiro, com certeza ele já ouvira falar de Juarez Paraíso.
Nilsa o aponta, cercado de gente a festejá-lo, mulato alto, de barbas, em frente ao cartaz da exposição: a foto de imensa bunda nua de mulher, que coisa!
— Espie aquele ali, junto do banqueiro Celestino. É Carybé, vive dando entrevistas nos jornais contra a Brastânio, falando misérias. Mas que é um coroa enxuto, isso ele é. Só pinta negras.
Acompanha-o até o hotel, na porta deserta pendura-se no pescoço de Ascânio, despede-se com um chupão daqueles:
— Não fico porque não posso chegar em casa tarde e já passa das dez. Meus pais são muito severos, vivo num torniquete.
Num torniquete. Outros são os valores das palavras, Ascânio dá-se conta. Severidade, arte, noivado. Outros valores, outro mundo em cuja porta se encontra, pronto para atravessá-la com o pé direito. Por que aquela sensação incômoda, aquele sentimento obscuro, a persistir? Como se não entrasse pelos seus próprios pés, como se estivesse sendo conduzido. No quarto vazio, deplora a ausência de Nilsa, em seus grandes seios encontraria segurança. O telefone soa:
— Alô!
— Amor?
— Aqui, Ascânio Trindade.
— Por que não veio falar comigo na exposição, amor?
Reconhece a voz em desmaio de Bety, Bebé para os íntimos:
— Não vi, me desculpe. Posso lhe servir em alguma coisa?
— Pode, sim, amor. Estou falando da portaria e vou subir. Deixe a porta aberta.
DO HERDEIRO IMPREVISTO E
DE NOVA ENCOMENDA DE POEMA
AO VATE BARBOZINHA
APROXIMADAMENTE À MESMA HORA EM QUE OS
PESCADORES DE MANGUE SECO, com o apoio de Tieta e Ricardo e o fundamento ideológico fornecido pelo engenheiro Pedro Palmeira, expulsavam os técnicos da Brastânio, reuniam-se no cartório do dr. Franklin os diversos interessados nos terrenos do coqueiral. Encontro promovido pelo tabelião, atendendo a pedido do dr. Baltazar Moreira, adiado mais de uma vez devido à ausência do dr. Marcolino Pitombo a tramar em Esplanada, por fim aconteceu.
Na sala do cartório juntaram-se, após o almoço, os três advogados e seus clientes: dr. Marcolino Pitombo, ladeado por Jarde e Josafá Antunes, o velho sentado, abatido, o moço de pé, exultante; dr. Baltazar Moreira, a oferecer a melhor cadeira a dona Carlota Antunes Alves, cochichando com Modesto Pires; dr. Gustavo Galvão, por uma vez de paletó e gravata, recomendando calma a Canuto Tavares. Como se prolonga a demora de Fidélio, também convocado em sua condição de Antunes e pretenso herdeiro, resolvem começar a reunião, mesmo em sua ausência, estranho litigante, até aquele momento sem advogado a representá-lo. Exatamente para comentar tal procedimento, Marcolino Pitombo inicia os debates:
— Esse moço está fazendo uma jogada que não deixa de ser inteligente. Está esperando que cheguemos a uma solução para intervir. Podem escrever o que estou dizendo.
Lápis em punho, o robusto Bonaparte, convidado a secretariar a reunião e estabelecer a ata dos trabalhos, prepara-se para anotar a intervenção numa folha de papel almaço, mas o causídico o impede:
— Não vale a pena colocar isso na ata, meu filho.
Bonaparte obedece. Apesar de contraditório — escreva o que estou dizendo, não coloque isso na ata —, o velho é simpático e solta uns cobres. Os outros, uns pães-duros, uns canguinhas.
— Pergunto se, nesse caso, vale a pena tratar alguma coisa sem sua presença — prossegue dr. Marcolino, interessado em transferir a reunião para depois da volta do secretário da prefeitura, após ter com ele conversado e obtido a precisa informação sobre o local exato onde a Brastânio erguerá seus edifícios.
— Não vejo por que devamos ficar à sua mercê. Proponho que discutamos os problemas pendentes, sem esperar esse moço que me parece um leviano — declara dr. Baltazar Moreira do alto da papada, sorrindo ora para dona Carlota ora para Modesto Pires.
— Esse rapaz é serventuário da justiça, oficial do registro civil. Como tem muito pouco que fazer, passa o dia no bar quando não fica em casa ouvindo essa barulheira que os moços de hoje chamam de música. Não penso que ele vá aparecer. Mandei sondá-lo há dias a respeito dos terrenos, nem me respondeu. Não digo que seja mau rapaz, mas é um desses que não ligam para nada — informa o dono do curtume.
— Então, comecemos — diz dr. Franklin para ganhar tempo. — O senhor, doutor Baltazar, que pediu a reunião, abra a discussão dizendo o motivo que o levou a tomar essa iniciativa.
Dr. Baltazar Moreira tempera a garganta:
— Pois muito bem. Tendo me detido no estudo deste complexo assunto, cheguei à conclusão que se impõe um acordo entre as partes interessadas, ou seja, entre todos os pretensos herdeiros, os diversos descendentes de Manuel Bezerra Antunes, para que possamos ir juntos à justiça sem problemas, sem disputas entre nós.
— A idéia parece-me válida — apóia o dr. Galvão, a par da proposta e com ela de acordo desde a véspera, quando mantivera conversa reservada com dr. Baltazar. Repete os argumentos usados então pelo colega: — Afinal por que os herdeiros, tendo se desinteressado por completo dos terrenos durante todos esses anos, voltam-se agora para a defesa de seus interesses, para se integrarem na posse da herança? Por que existe um comprador valioso para essas terras, como é do domínio público, a Brastânio. Não é isso?
Dr. Baltazar Moreira aproveita para recuperar a palavra, afinal a idéia é sua e esse rapazola, mal saído da faculdade, está brilhando às suas custas. Ficara de apoiar e nada mais:
— Tem razão o doutor Gustavo. É diante desse comprador que temos de nos apresentar unidos, inteiramente de acordo. Se começarmos a lutar entre nós, teremos questão para muitos anos e a Brastânio, que não pode esperar, irá procurar noutra parte localização mais fácil para sua indústria.
— Por isso mesmo — interrompe dr. Marcolino Pitombo — não adianta nada discutir sem a presença de um dos herdeiros. Como saber sua opinião? Como conhecer seu pensamento?
Na porta do cartório, parado a ouvir sem que se dessem conta, o comandante Dário de Queluz eleva a voz:
— Vão saber agora mesmo, meus caros senhores. Boa tarde, doutor Franklin, permita-me tomar parte no debate.
Voltam-se todos, o comandante não sendo nem bacharel em direito nem Antunes, que faz ali e por que deseja participar da discussão? Dr. Marcolino Pitombo conhece a posição do comandante em relação à Brastânio: adversário militante da instalação da indústria de dióxido de titânio no município, anda exibindo pelas ruas o memorial das prefeituras de Ilhéus e Itabuna, publicado nos jornais do sul. Felizmente não sabe quem o redigiu — e o advogado arvora um sorriso, cordial, surpreso e perspicaz.
— O prazer será todo nosso, comandante, mas antes permita que por minha vez lhe pergunte em que qualidade deseja o senhor tomar parte nos debates?
Na face do dr. Franklin esboça-se também um sorriso, ele próprio lavrara o termo de opção de venda, não querendo deixar em mãos de Bonaparte assunto tão urgente, nem nas mãos, nem no conhecimento, pois Bonaparte anda muito amável com dr. Pitombo e tem chegado tarde em casa, mau sinal. Sorri igualmente o comandante Dário de Queluz:
— Na qualidade de herdeiro. Fidélio Dórea Antunes de Arroubas Filho concedeu-me uma opção de venda sobre sua parte no coqueiral, está registrada no cartório… — volta-se para dr. Franklin.
— É certo. Hoje pela manhã — confirma o tabelião.
— E posso desde já comunicar aos senhores que, de minha parte, não penso vender meus direitos, nem entrar em acordo, nem fazer sociedade, nada, três vezes nada. Agora, que já sabem, dêem-me licença, devo voltar para Mangue Seco. Passem bem, meus caros senhores.
Indo em busca de dona Laura e de Leonora, pára no bar onde a malta reunida ouve, entre gargalhadas e bravos, os detalhes do acontecido na reunião.
— Devem estar quebrando a cabeça para descobrir um jeito de deserdar Fidélio. Mas Franklin me disse, nos disse, aliás, hoje, de manhã, que de todos os herdeiros, Fidélio é o de linha mais direta, ele e Canuto Tavares. Não é isso, caro Fidélio?
Mesmo Seixas, apesar da decepção que a notícia causará ao coletor, pretendente à compra do terreno, se diverte. Diverte-se também Barbozinha que chega com novidades:
— Os jornais estão dizendo que as eleições para a prefeitura vão ser marcadas hoje.
O comandante já sabia, dona Carmosina mostrara-lhe o novo tópico de A Tarde reafirmando o interesse da Brastânio e a pressão sobre o tribunal. Despede-se, no começo da semana voltará, em companhia de Tieta, se tudo correr como ele espera.
O poeta senta-se, pede um trago de cachaça com limão, não anda com a garganta boa, precisa limpá-la. Pergunta:
— E as eleições, que me dizem vocês?
— Você é meu candidato… — responde Osnar.
— A prefeito? Deus me livre e guarde…
— Não. A padrinho de Peto na cerimônia do descabaçamento. Vai ser sábado. Nós queremos lhe pedir para escrever um poema para a festa.
Barbozinha amarra a tromba: voltam os amigos a gozá-lo por causa da versalhada para a Brastânio. Nada disso, bardo! Queremos apenas que Peto tenha tudo do melhor pois bem merece. Zuleika Cinderela, uma ceia sensacional, música e flores e uns versos que imortalizem o acontecimento. Desanuvia-se o rosto de Barbozinha: é um tema novo, um tanto escabroso mas que, tratado com delicadeza, pode resultar num soneto em cujos versos se misturem a malícia e a inocência, vai pôr mãos à obra. Cobra direitos autorais: