Tieta do Agreste
Quinto episódio
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
— Outro trago, Manu, por conta do soneto.
EPISÓDIO FINAL DA ESTADA DE ASCÂNIO TRINDADE NA CAPITAL OU DA FORMAÇÃO DE UM DIRIGENTE A SERVIÇO DO
PROGRESSO: O ANEL DE COMPROMISSO
RESERVADA PERMANENTEMENTE PARA ELE, MESMO
QUANDO SE DEMORA no sul, a suíte do dr. Mirko Stefano não é um frio apartamento, habitação impessoal de hotel para breve estadia. Sente-se em toda parte, em cada escaninho, a presença do homem cordial, civilizado — o bon-vivant, como ele próprio se classifica.
Pontual, às nove horas, Ascânio empurra a porta semi-aberta, ouve um resto de frase na voz amaneirada do Magnífico:
— …culpa sua, eu lhe avisei que o homem é parada.
Fisionomia preocupada, o diretor de relações públicas da Brastânio, vestido apenas com um robe de chambre de seda negra, e corte oriental, lembrando um quimono de campeão de judô, conversa com dr. Rosalvo Lucena diante da bandeja com os restos do café, do mamão, do suco de grapefruit. Os rostos sérios se distendem, abrem-se em sorrisos.
— Desculpem ter entrado sem bater, a porta estava aberta.
Há um breve momento de indecisão, durante o qual Ascânio observa e compara os dois manda-chuvas da Brastânio. Dr. Rosalvo Lucena, pronto para a manhã afanosa no escritório, veste-se com esportiva elegância, como exige sua posição: calça cinza, blazer azul, camisa e gravata combinando, alegres. Ainda não chegou à seriedade dos ternos do dr. Bardi, à condição de magnata. À vontade no roupão japonês, os pés descalços, dr. Mirko Stefano não parece um homem de negócios e sim um maduro galã de televisão, desses pelos quais as mocinhas se apaixonam. Dois homens de peso, na opinião de Ascânio: simpatiza com Mirko, deseja parecer-se com Rosalvo.
— Fez muito bem em entrar, deixei a porta aberta de propósito. — Mirko aponta uma poltrona. Precisa chamar a atenção do garçom para fechar a porta cada vez que entre ou saia, o serviço nesses novos hotéis ainda deixa muito a desejar.
Rosalvo Lucena, antes de retirar-se, repete para Ascânio, que lhe bebe as palavras, argumentos gastos na véspera, sem resultado, no almoço com a prestigiosa figura da administração estadual. Toda a zona se beneficiaria com o estabelecimento da fábrica: asfalto, pistas duplas, mercado de trabalho, especialização de mão-de-obra, formação de novos técnicos, escola para filhos de trabalhadores, assistência médica, vila operária, comércio, empregos bem remunerados para especialistas.
Tudo isso acontecendo numa área morta, utilizada apenas para o ócio de uns poucos privilegiados, transformando-a em centro vital para a economia da região. Suprimiu, é claro, qualquer referência à candente questão da proximidade com a capital, pois não era o caso, não havendo por que falar ao representante da longínqua Agreste do ponto nevrálgico, fator da inabalável intransigência do ilustre companheiro de almoço: ali, jamais! Acrescentou, em troca, o problema da falta de infra-estrutura da zona de Mangue Seco e das despesas decorrentes, imensas. A Brastânio as assumirá de coração leve, por dever patriótico.
Dever patriótico, uma zorra! — pensa Rosalvo enquanto recita seu apurado texto para Ascânio, babado de admiração. Se o Velho Parlamentar não obtiver sucesso em suas démarches, o que bem pode suceder apesar do otimismo do dr. Bardi, eles serão obrigados a enfrentar os problemas colocados pela localização em Agreste: em matéria de perspectiva, puta que os pariu! Sorri para Ascânio:
— Falei ontem a seu respeito a uma alta figura da administração, homem de força política. Disse-lhe de seu valor.
Despede-se, sabe que Ascânio viaja naquela tarde:
— Penso que só nos veremos agora em Agreste. Boa viagem e ganhe essa eleição. Já foi marcada a data, Mirko? — cobra ao Magnífico.
— Só para a semana. O juiz presidente empacotou ontem. Enfarte fulminante. Estive no enterro.
O sorriso cortês de Rosalvo Lucena cresce em riso zombeteiro:
— Cada qual carrega sua cruz, meu velho.
Acena da porta, vingado, bate-a com força para fechá-la bem e recordar a Mirko que deixá-la aberta é uma imprudência. Cada qual com suas leviandades e com seus recalques.
— Que deseja beber? — pergunta o Magnífico após digerir a batida da porta.
— Acabei de tomar café, não quero nada, não precisa se incomodar.
— Também eu venho de tomar café. Para depois do café, para começar bem o dia, nous allons prendre une goutte de Napoléon, une fine, mon cher, você me dirá.
Em cima de uma mesa, variedade de garrafas. Escolhe uma delas. Que diabo é Napoléon, une fine, pergunta-se Ascânio, tem muito o que aprender. Os copos grandes, bojudos, o esclarecem: isto ele conhece, são copos para conhaque. Mas nunca imaginou que o líquido doirado, colocado ao fundo, deva ser esquentado com as mãos. Com uma das mãos, aliás, pois com a outra o Magnífico cobre a boca do copo para evitar que se evole o aroma da bebida. Canhestro, Ascânio copia-lhe os gestos. O doutor destapa o copo, aproxima-o das narinas, aspira o olor, quelle délice! Ao imitá-lo, Ascânio entontece: as emanações do álcool penetram-lhe nariz adentro. Completa a gafe quando, emborcando num trago o conteúdo do copo, engasga-se, tosse; vá ser forte assim no inferno! Forte mas delicioso, de quanto lhe deram a beber nesses dias, incluindo a champanha, prefere o conhaque. O doutor volta a servi-lo, não comenta nem ri, não viu nem ouviu. Ascânio agora saboreia em pequenos goles como o faz o mestre do bem-viver.
— Veja, Ascânio: as obrigações de meu cargo levam-me a tratar com uma infinidade de pessoas, uma súcia por vezes difícil. Dou-me bem com todo mundo, é do meu temperamento e do meu ofício. Mas, no meio dessa máfia, de quando em quando deparo com alguém que me chama a atenção pelo talento, pela força interior, pela qualidade, pela fibra. Conheço os homens, não me engano, sei distinguir os que valem a pena, mesmo numa rápida convivência. Desde que conversamos pela primeira vez, na prefeitura de Agreste, me fixei em sua personalidade: aí está um homem de verdade, un vrai homme, disse para meus botões. Naquela ocasião, ainda não tínhamos decidido escolher Agreste: ao contrário, nossas vistas estavam voltadas para o sul do estado, uma área entre Ilhéus e Itabuna, no rio Cachoeira: estrada, porto de mar, facilidades, as autoridades locais oferecendo mundos e fundos. Tomei uma decisão: se não nos instalarmos em Agreste, vou convidar esse moço para vir trabalhar conosco, na Brastânio. Ele tem fibra e competência.
Aspira o conhaque, duplo prazer, paladar e olfato. Ascânio modesto, agradece:
— Bondade sua.
— Disse para mim mesmo: se ele permanecer aqui, nessa terra decadente, sua flama se extinguirá, estiolada. Não posso permitir que isso aconteça, vou convidá-lo a vir colaborar conosco onde estivermos. Mas, tendo nos decidido, felizmente, por Mangue Seco, creio que a prefeitura de um município industrial, poderoso, rico, pode ser o primeiro passo para a brilhante carreira política de um jovem homem público.
Nos eflúvios do conhaque Ascânio embarca nas palavras inspiradoras, inicia a marcha. O Magnífico Doutor toma da garrafa, a hora não é a mais própria mas a circunstância exige. Prossegue abrindo o caminho, despertando a ambição. Carreira política ou empresarial, pois, se após exercer a prefeitura de Agreste, Ascânio preferir trocar a administração pública pela empresa privada, o convite que não chegou a ser feito permanece de pé: haverá sempre um posto de comando para ele na Brastânio. Homens inteligentes e trabalhadores existem muitos, homens capazes de comandar, são poucos.
Parecendo-lhe chegada a hora, oferece:
— Por isso mesmo, quero lhe dizer que estou, que estamos às suas ordens. Se necessita de alguma coisa, é só dizer, não guarde reserva, não se sinta acanhado, somos amigos.
— Basta a confiança que deposita em mim. Espero poder honrá-la.
— E para a eleição? Para a campanha eleitoral? A Brastânio gostaria de concorrer para as despesas da campanha eleitoral.
— Agradeço mas não é preciso. — Finalmente, encontra alguma coisa de que se ufanar: — Não haverá campanha eleitoral. Serei candidato único, isso é coisa acertada. Meu padrinho, o coronel Artur de Figueiredo, já decidiu e o povo todo está de acordo. Posso lhe dizer, sem vaidade: serei eleito unanimemente. Não preciso de ajuda, muito obrigado. E assim é melhor, ninguém vai poder dizer que apóio a Brastânio por interesse pessoal. Depois, se tudo der certo, se meu sonho se realizar, talvez venha precisar de sua ajuda. Por ora, não.
Aquela conversa, a última, a mais longa e íntima, transpôs os limites da indústria e do município para entrar pela vida pessoal de Ascânio:
— Falou em sonho. Adoro sonhar, qual o seu sonho?
Pouco habituado à bebida, um tanto eufórico devido ao conhaque e à estima e admiração demonstradas pelo Magnífico Doutor, Ascânio faz-lhe confidências, cita o nome de Leonora, exalta-lhe a beleza, lastima-lhe a fortuna, obstáculo antes intransponível. Agora, quem sabe, prefeito do município industrial e próspero, com o caminho aberto em sua frente, encontrará coragem para lhe falar.
— Ascânio, caríssimo, além de tudo você é um homem de bem. Vai assumir um compromisso comigo: de volta a Agreste seu primeiro gesto será pedir a mão dessa moça em casamento. Pedir a mão, já não se usa nos dias de hoje. Simplesmente comunique a ela que vocês vão se casar. Por que não no dia da posse? — Levanta o bojudo copo onde o conhaque brilha, ouro e brasa. — Bebo à felicidade dos noivos.
Ainda bebem à felicidade dos noivos quando o telefone toca. O doutor atende:
— Está de pé, é claro. Daqui a cinco minutos, mando levá-lo aí.
Desliga, explica a Ascânio:
— É um jornalista nosso amigo, o mesmo que fez aquela entrevista com o doutor Lucena, que tanto lhe agradou. Ele gostaria de ouvir você sobre Agreste e as perspectivas que a cogitada instalação da Brastânio abre para a região. Se você não vê inconveniente, de nossa parte não temos nada a opor. Assim, você começa a se projetar.
— Inconveniente nenhum. Com prazer.
— Vou mandar lhe levar à redação do jornal. Quando voltar, me encontre na piscina. Almoçaremos juntos.
Está Ascânio na porta da suíte, saindo, quando o Magnífico lhe recorda:
— Não deixe de repetir aquela frase de ontem, uma beleza! “A Brastânio é a redenção de Agreste!” Deixou-me com inveja, mon vieux.
Na redação, o jornalista, o mesmo indivíduo zarolho que no primeiro dia queria obter informações a todo transe, ao ouvir a frase, pergunta:
— Foi Mirko quem lhe soprou essa manchete, não foi?
Ascânio não se ofende, até se sente orgulhoso:
— A frase é minha mas ele disse que gostaria de tê-la pensado.
— Não há quem possa com Mirko, é a velhacaria em pessoa. Outro dia me enrolou, a mim e aos colegas, escondeu a vinda do alemão, mas A Tarde foi na pista e deu o furo. — Suspende os ombros: — Também de que ia adiantar se ele me dissesse? Falava com o homem aí — aponta a porta da sala encimada por uma placa: direção — e não saía nada. Quem pode, pode.
Tudo aquilo era latim para Ascânio, não deu trela. Um fotógrafo bateu chapas enquanto conversavam. Respondeu a duas ou três perguntas — no meio de uma delas soltara a frase —, o repórter se deu por satisfeito:
— Já tenho o suficiente, o resto deixe por minha conta. Vou aproveitar o carro, dar uma espiada nas fêmeas na piscina, tomar um scotch com o salafrário do Mirko.
No carro, informa-se:
— Me diga uma coisa: o mulherio, nessa tal praia de sua terra, vale a pena? Dá muita paulista por lá? — Brilha o único olho são, cúpido: — As turistas de São Paulo, meu chapa, já desembarcam do avião abanando o rabo.
Ascânio tem vontade de meter-lhe a mão na cara:
— Em todo lugar, que eu saiba, existem vagabundas e mulheres direitas. As paulistas que eu conheço são honestas e decentes.
A voz zangada, quase de briga, alarma o jornalista:
— Que é isso, bicho, não quis ofender sua parentela. Me refiro a umas quengas que aparecem dando sopa por aqui. Não me leve a mal.
Num dos grandes carros negros, após o almoço, o Magnífico Doutor e Bety o acompanham até à estação rodoviária. Ascânio dormirá em Esplanada, em casa de Canuto Tavares e, se a marinete de Jairo se comportar, no dia seguinte, antes da uma, verá Leonora e lhe dirá: eu te amo e quero me casar contigo. Oferecendo-lhe o braço, a caminho do ônibus, Bety se aperta contra ele, carinhosa. Parece ter apreciado a noite passada em sua companhia, se bem a ela tivessem cabido quase todas as iniciativas. Ao contrário do que pensa Osnar, não é preciso dormir com nenhuma polaca para se saber o que é mulher.
Antes do abraço de despedida, dr. Mirko Stefano, diretor de relações públicas da Companhia Brasileira de Titânio S. A., retira do bolso um saquinho de veludo negro, onde está impresso em letras douradas o nome da Casa Moreira, joalheiros e antiquários de fama e preço:
— A Brastânio pede licença para oferecer o anel de compromisso que amanhã você colocará no dedo de sua noiva, a quem espero ter o prazer de conhecer dentro de poucos dias quando voltar a Agreste.
No ônibus, Ascânio não resiste, desata o cordão, abre o saquinho, retira pequeno estojo que contém antigo anel de ouro com roseta de diamantes, em cuja parte interna tinham sido gravadas as letras L e A, trabalho fino, peça de gosto e de valor, digna de Leonora. Anel de compromisso.
DE COMO OS DIRETORES DA BRASTÂNIO RECORDAM UM PROVÉRBIO
NOS ESCRITÓRIOS DA BRASTÂNIO, NA SALA DO DR.
ROSALVO LUCENA, o chefe da equipe enviada a Mangue Seco apresenta relatório e ameaça demitir-se. Conhecido como Aprígio, o Imperturbável, pela calma com que sempre enfrentara os mais árduos problemas profissionais e os ciúmes violentos da esposa, louvado pela lhaneza do trato, já não é o mesmo homem, perdeu a famosa contenção, tremem-lhe as mãos e a voz ao descrever os fatos:
— No comando da horda de assassinos vinha uma louca furiosa, brandindo um bastão. Foi ela quem tomou conta das mulheres, na lancha. Juro, doutor Lucena, que pensei que iam nos matar, me preparei para morrer. Entreguei a alma a Deus.
— E como era essa megera?
— Até que não era feia mas corria, gritando: Fora! Fora com os envenenadores! Ela, o padre e o barbudo. O padre é um rapazola, penso que ainda não diz missa. O barbudo me lembrou um engenheiro que eu conheço, mas como ficou na praia, não pude tirar a limpo, com certeza não era quem eu pensei. O resto, uns esfarrapados, um bando de criminosos.
— Quantos? Muitos?
— Quantos? Não sei. Uns trinta ou mais, contando com os meninos. Parecia gente da idade da pedra. Tivemos de ficar de pé, no passadiço; foi horrível. Só de me lembrar, fico outra vez doente.
Uma das secretárias, à beira da piscina, gozando oito dias de licença-prêmio, refazendo-se do susto, confidencia ao Magnífico Doutor:
— Tinha um que até… O que segurou Mário José e lhe deu um tranco — referia-se a Budião — era um doce. Não adiantou nada rir para ele, queria era acabar com a gente. Nos matar. — Lembrando, estremece: — A mulher apontava os tubarões com o cajado. Fechei os olhos para não ver.
Apesar do traumatismo — jamais voltaria a ser o mesmo —, o chefe da equipe reconhece:
— Não queriam nos matar, no fim eu me dei conta. Só nos assustar. Mas deixaram claro que, de outra vez, não vão ficar na ameaça. Em minha opinião, doutor Lucena, não se pode construir seja o que for nesse lugar. A não ser que, antes, se mande a polícia… A polícia, não… Força do exército para terminar com esses bandidos, com todos eles, sem deixar nenhum. Ameaçaram nos atirar aos tubarões. Kátia desmaiou, ainda guarda o leito, diz que nunca mais irá ao banho de mar.
A outra secretária, pobrezinha, linda e vibrátil, um feixe de nervos, na cama um torvelinho, passou três noites acordada: se adormecia, voltava a ver os tubarões saltando em torno à lancha. De tão impressionada, aderiu à religião dos Hare Krishna.
O chefe da equipe conclui:
— Se for para voltar a Mangue Seco, doutor Lucena, prefiro apresentar minha demissão agora mesmo.
Dr. Rosalvo Lucena e dr. Mirko Stefano escutaram de ânimo forte a espantosa narrativa, as lamentações e os relatórios, não por acaso ocupam cargos de direção numa companhia da grandeza da Brastânio. Tais reações de desagrado não chegam a surpreendê-los, são as primeiras mas não serão as últimas, certamente. Pedem aos participantes da espaventosa peripécia que falem do caso o menos possível, recomendam silêncio, impõem segredo. Ainda assim a notícia transpirou, repercutiu na imprensa.
Em A Tarde, apresentada sob um ângulo simpático: colérica e vigorosa reação popular contra a ameaça de poluição da praia de Mangue Seco que, pela beleza da paisagem e amenidade do clima, é patrimônio a ser defendido e preservado a todo custo. Nota redigida pelo próprio Giovanni Guimarães. Não lhe bastando o comentário, enviou um telegrama de felicitações ao poeta De Matos Barbosa. Num outro jornal, os fatos eram apontados como prova da extensão e periculosidade da rede subversiva instalada no país, sob comando estrangeiro, agindo em recantos os mais distantes, para impedir o progresso da pátria.
Virou manchete e editorial num semanário de cavação, dirigido por conhecido picareta, o combativo Leonel Vieira. Referiu-se ele à importância da instalação da indústria de dióxido de titânio mas acentuou-lhe os inconvenientes, o alto teor de poluição, prometendo voltar ao assunto no próximo número com novas informações, provindas diretamente de Agreste, para onde estava seguindo um repórter do vibrante hebdomadário.
Não foi necessário enviar repórter aos confins do sertão, pois o Magnífico Doutor forneceu ao caro e simpático Leonel Vieira todas as informações necessárias sobre a indústria de dióxido de titânio, cheque, uísque e senhoritas. Acalmou-lhe inclusive os melindres ideológicos pois, como foi antes referido, para gasto e renda em certos círculos, o impávido Vieira arrota esquerdismo bastante radical. Voltou ao assunto, conforme prometera, dando magnífico exemplo de honorabilidade jornalística aos seus (poucos) leitores. De posse das novas informações teve a coragem cívica de confessar de público o engano cometido e repudiar o aleive levantado contra a Brastânio, cuja instalação no estado iria contribuir para o progresso, a independência econômica do Brasil e para a formação do proletariado baiano.
Os drs. Mirko Stefano e Rosalvo Lucena, o Magnífico Doutor e o Managerial Doctor, estabelecem o balanço da situação. De São Paulo, em repetidas chamadas telefônicas, o diretor-presidente Ângelo Bardi informa sobre entraves surgidos em Brasília. As resistências provêm sobretudo das autoridades baianas, dispostas a ceder prazerosamente quando se fala em Agreste e Mangue Seco, lonjuras sem ressonância nem campeões, intransigentes quanto a Arembepe, próxima, visível, evidente, conflitual. Em defesa de Agreste, além de Giovanni Guimarães, levantam-se apenas um poeta sem maior renome e meia dúzia de pescadores. Mas nas trincheiras de Arembepe tomam posição de combate artistas e escritores de projeção nacional, turistas e hippies; e, pesando na balança das influências bem mais do que todo esse folclore, o prestígio das empresas proprietárias de vastos e valiosos loteamentos iniciados e à venda na extensa área: com a Brastânio a espalhar seus gases venenosos, os preços altíssimos dos terrenos descerão a zero.
Apesar de depositar confiança nos efeitos salutares do novo subsídio posto à disposição do Velho Parlamentar, o diretor-presidente louva, em telefonema urgente, a precaução tomada na última reunião, por proposta de Mirko. Não somente pelo desvio da atenção dos jornais e do público mas porque devem encarar a possibilidade de que não lhes reste finalmente outra opção além de Mangue Seco. Por isso mesmo recomenda o envio a Agreste de um advogado capaz, para estudar a situação das terras onde, caso não tenham mesmo jeito, erguerão as fábricas. Pelo visto, não se sabe a quem pertence o coqueiral, é tempo de tirar a limpo os detalhes desse assunto. Por via das dúvidas.
Dr. Mirko Stefano, familiar da vida baiana, lembra ao dr. Lucena o nome de um professor da faculdade de direito, não tanto pela cátedra ou pelo título mas pela sagacidade demonstrada em casos igualmente confusos e difíceis, dr. Hélio Colombo. Catedrático, chefe de importante escritório de advocacia, aceitará deslocar-se para Agreste, viagem chata e cansativa? Rosalvo duvida, não vá ele enviar um ajudante qualquer. Mirko esclarece: por dinheiro, dr. Colombo vai até à puta que o pariu quanto mais a Agreste. Colocará um carro à sua disposição e, para dar à viagem certo encanto, uma secretária para acompanhá-lo e tomar notas, ou seja, tomar na bunda. Conversando assim informalmente, os dois diretores da Brastânio permitem-se certa liberdade de linguagem. O Magnífico Doutor chega ao extremo de deixar de lado as citações em várias línguas para referir, a propósito dos acontecimentos de Mangue Seco e da repercussão na imprensa, um provérbio nacional (ou português?), a seu ver de perfeita aplicação: enquanto o pau canta no lombo do vizinho, folgam as nossas costas. Enquanto se ocupam de Mangue Seco, esquecem a existência de Arembepe.
Numa coisa estão de acordo, eles, diretores, e o apavorado chefe da equipe — caso se vejam obrigados a implantar a indústria em Mangue Seco, antes de tudo será necessário limpar a área da imunda ralé que a ocupa, terminando de vez com aquele covil de contrabandistas, coito de bandidos. Uma operação pente-fino da qual não escape nem um único marginal ou subversivo, a começar pelo tal padreco: a Igreja está se transformando num viveiro de terroristas, seu Mirko! Rosalvo Lucena encerra o balanço:
— Sem esquecer os meninos. Aprígio me contou que os moleques eram os piores, assanhavam os tubarões. Ademais, estavam nus, cada galalau enorme, com tudo à mostra. Lombrosianos, assim me disse Aprígio.
O Magnífico Doutor sorriu seu bom sorriso, amável e descontraído:
— Não se preocupe, meu caro Rosalvo. Se nos instalarmos em Mangue Seco, meninos e tubarões vão durar pouco, sumirão nos efluentes…
DE COMO ASCÂNIO TRINDADE,
PALMILHANDO VERSOS DO POETA
BARBOZINHA, EMBARCA NA ESTEIRA
FULVA DE UM COMETA, CAPÍTULO DE
UM ROMANTISMO MAIS QUE ATROZ
— SILENTE E LÍVIDO
A LUA VELEJA DO OUTRO LADO DO MUNDO OU
DESCANSA NO FUNDO DO MAR: no negrume da noite, os cômoros são brancos vestidos de noiva cravejados de estrelas refletidas do céu de Mangue Seco; assim escrevera Barbozinha num dos Poemas de Agreste, recordando o encontro com Tieta. Límpido manto de areia, teu vestido de núpcias, grinalda de estrelas, é desfolhada rosa, noiva dissoluta, abscôndita lua negra — versos antigos, bons de recitativo em festas de outrora. Leonora os lera naqueles dias agoniados quando Ascânio ficara como doido e o sonho ameaçara ruína e término. Para ilustrar o poema de De Matos Barbosa, Calasans Neto fincara uma lua negra no abismo do mar, traçara nas dunas um caminho de estrelas para a bem-amada. Um sol azul, uma lua negra, dias e noites de Leonora.
No rio, ruído do motor de popa do barco de Pirica:
— É ele, mãezinha, o coração me diz. — Leonora levanta-se, precipita-se para a porta do Curral do Bode Inácio.
Chegara na véspera, com o comandante e dona Laura, atendendo ao recado de mãezinha: venha ajudar na arrumação. Apesar de alérgica ao cheiro de tinta fresca, Tieta, de tão apressada, mudara-se com as portas verdes ainda recém-pintadas. Exibe com orgulho cada cômodo: um ovo, o meu barraco, mas uma graça, não é? Sala, dois quartos, banheiro; agasalhante, tem de um tudo, até geladeira movida a querosene. Tieta não fez conta de dinheiro, mandou buscar do bom e do melhor. No domingo, algumas pessoas amigas virão para o almoço e o banho de mar. Os ritos da morte, tão severos em Agreste, não permitem festa de inauguração: apenas uns quantos dias decorreram após o enterro de Zé Esteves, que Deus o tenha em sua guarda. Deus ou o diabo?
Tieta anda até a porta, abraça Nora pela cintura:
— Aproveita a ocasião, cabrita. Eu vou bater um papo com o comandante e dona Laura. Se tu está apaixonada de verdade, como tu diz, segura teu bode pelos chifres, arreia as ancas; está chegando o dia da gente ir embora. Toma tento para não subir no mesmo combro que Pedro e Marta, é hora do casal estar lá em cima, dando a deles. Não perdem uma noite.
Abandona Leonora ali, parada, some no escuro em direção à Toca da Sogra onde brilha a luz de acetileno dos lampiões marítimos do comandante. Apóia no bordão, não o larga desde a morte do velho. Ricardo partira para Agreste, deixando-a carente. As noites de sábado para domingo pertencem a Deus. Depois da confissão, à tarde, com frei Timóteo, no Arraial do Saco, abstinência total, nem um beijo para remédio. Somente na volta, domingo, após a missa. Naquele sábado, porém, ele viajara antes da hora habitual, embarcando pela madrugada na canoa de Jonas. Deve chegar a Agreste a tempo de comparecer à missa comemorativa do aniversário de Peto, leva presentes de Tieta e Leonora, além de se ter comprometido a ajudar padre Mariano, ela não sabe exatamente em que espécie de cerimônia, não é entendida em coisas de religião.
A sociedade estabelecida entre Tieta e a Santa Madre Igreja para gerir o emprego do tempo de Cardo, bem comum, começa a afetá-la. No auge da paixão, desvairada e possessiva, ela o exige a cada instante, sabendo quanto é breve o prazo que lhe resta junto a seu menino. Capricho igual a esse, xodó tão forte, jamais sentiu em toda a vida, rabicho de cabra velha por cabrito ainda cheirando a leite. Ah!, se a Senhora Sant’Ana aceitasse cedê-lo em regímen de dedicação integral, durante aqueles poucos dias, menos de um mês, em troca de uma benfeitoria qualquer na matriz! Na família Esteves, como se comprova, mercadejar com o Céu torna-se um hábito. Sem possuir os merecimentos de Perpétua, Tieta estaria disposta a pagar caro o direito a essas últimas noites de sábado para domingo, a essas breves horas em que Ricardo cumpre obrigações de levita do Templo.
Afastam-se os passos de Tieta, aproximam-se os de Ascânio. Excitada e trêmula, Leonora aguarda — silente e lívida, tu me aguardavas, escrevera o vate Barbozinha no verso para Tieta, ah!, os poetas sabem do exposto e do oculto! Se Ascânio a aceitar de criada ou amásia, ela jamais partirá de Agreste, mãezinha retornará sem companhia. Mesmo sendo puta sabe cuidar de uma casa, é fanática por limpeza, cozinha razoavelmente, desde menina lava a própria roupa, lavou e engomou a de Cid Raposeira, remendou-lhe calças e camisas. Rafa precisa descansar, o próprio Ascânio diz que a velha mãe-de-leite está caduca, esquece as coisas, cochila o dia inteiro. O vulto surge entre os coqueiros, na mão um tubo enorme:
— Nora!
— Ascânio, meu amor!
O abraço estreito, o beijo ardente, não mais roçar de lábios tímidos, rola no chão o canudo. Rolam estrelas no céu, as estrelas do vate Barbozinha iluminando o caminho para os cômoros. Leonora oferece o braço a Ascânio, aponta com os olhos a massa alvadia das dunas:
— Vamos?
— O tempo de guardar isso aí. Depois te mostro. — Pega o tubo no chão, entrega a Leonora que o leva para a sala. Beijam-se novamente, antes de sair andando entre as estrelas.
Na marinete, horas antes, Ascânio anunciara triunfante:
— Não vai tardar e essa trilha infame será uma das melhores da Bahia e do Brasil. Duas pistas largas de asfalto, mão única, na prática uma auto-estrada.
Impressionados, os passageiros pedem detalhes, ele os fornece, precisos. A cbep — a Companhia Baiana de Engenharia e Projetos, a que asfaltou o Caminho da Lama, sabem qual é, não? — está ultimando os estudos para a aprovação final pela Brastânio. Ascânio regressa da capital trazendo o progresso na pasta negra de couro, moderna e cara, e no comprido e grosso canudo de metal. A pasta, presente do dr. Rosalvo Lucena, depositada com um cartão gentil na portaria do hotel, guarda os materiais enviados pelo Magnífico Doutor, documentação exaustiva. No tubo, o desenho do decorador Rufo, aquele monumento! A voz de Ascânio adquiriu vigor e clareza, sílabas bem pronunciadas, palavras escolhidas e corretas. Todos sentem a modificação ocorrida: o esforçado jovem secretário da prefeitura, de pequenos empreendimentos e sonhos irrealizáveis, transformou-se, é um executivo realista e dinâmico. Na capital, tratando com homens de grande capacidade e grande coração, amadurecera.
Quem sabe, por não lhe agradar a notícia sobre a próxima pavimentação da estrada, a marinete de Jairo, apelidada por alguns maldizentes de Mula do Lamaçal, entrou em pane, uma daquelas. Quando por fim chegaram a Agreste, caía o crepúsculo, hora romântica. Na porta da casa de Perpétua o seminarista Ricardo, de batina, relógio de pulso, no dedo anel de jade, risonho, informou estar a prima Leonora em Mangue Seco. Sem sequer dizer até logo, Ascânio partiu à procura de condução.
Andam em silêncio para os cômoros, de mãos dadas, rindo um para o outro. Perscrutando-lhe a face envolta em sombra, Ascânio tenta compará-la com Pat, Nilsa, Bety. Impossível! Não apenas por ser Leonora infinitamente mais bela, sobretudo porém pela imensa distância moral a separá-la daquelas piranhas. Piranhas, assim o jornalista Ismael Julião se referira ao mulherio reunido na beira da piscina; nem parece ser noivo de uma delas. Tipo repugnante, cabe razão ao dr. Lucena.
A face de Leonora reflete pureza, fidalguia, sentimentos nobres. Percebe-se de imediato a família de bons princípios, a educação primorosa. As outras, coitadas, o que podem ser senão… piranhas, para não aplicar a palavra torpe e exata. Em nenhum momento, naqueles dias e noites tão movimentados, Ascânio considerou estar traindo Leonora ao ir para a cama com Pat, Nilsa e Bety. Em Agreste, ao menos duas vezes por semana, comparece à pensão de Zuleika Cinderela para descarregar o corpo numa quenga qualquer. Não se trai a amada, aquela que se escolheu para esposa, deitando-se com mulher-dama. Mulher-dama, piranha ou puta, sinônimos. Amor e cama são coisas diferentes, uma não tem o que ver com a outra, assim como Leonora nada tem em comum com aquelas desvairadas da Bahia, as três suas conhecidas e as demais, entre as quais Astrud. Astrud, sim, igual a Pat, Nilsa e Bety; pior ainda, por hipócrita. Agora, já nenhuma Astrud pode enganá-lo. Ascânio é outro, aprendeu a distinguir.
Sempre de mãos dadas e a sorrir, iniciam a subida do cômoro mais alto, os pés enterram-se na areia. Leonora tropeça numa palma de coqueiro, vacila, tomba, tenta reerguer-se, Ascânio a levanta nos braços, leve corpo alado, sílfide — os poetas acertam sempre, não erram nunca. Nos braços a conduz. Leonora encosta-se em seu peito, rosto contra rosto, as respirações se cruzam e se confundem.
Ao depositá-la de pé, no alto, beijam-se diante do abismo tenebroso e deslumbrante. Ali, em noite de lua cheia, ela roçara os lábios em seu rosto, quando Ascânio contara da traição de Astrud. Na noite sem lua a paisagem é ainda mais densa de mistério, imensa e obscura. Quando se desprendem do beijo, ela recorda, voz de cristal:
— Do lado de lá fica a costa da África. Não me esqueci. Só que a lua que encomendei para hoje não chegou, são Jorge não é meu chapa.
Sentam-se diante do mar em fúria querendo romper e penetrar a terra. Tão grande emoção, pequeno riso, medroso. Feliz, Ascânio emudece; no entanto, pensara as frases, escolhera cada palavra. Leonora pergunta:
— Correu tudo bem?
— Tudo. Muito bem. Depois te conto, tintim por tintim. — Decide-se: — Agora quero te falar de outra coisa, de nós.
Leonora o interrompe, de repente aflita, o olhar na distância do oceano, infinitamente triste, roto o cristal da voz:
— Ascânio, tem uma coisa que eu quero te dizer, tenho de te dizer.
Ele tapa-lhe a boca com a mão, rápido. Tudo menos isso. Sabe o que Leonora deseja contar, não pode permitir que ela própria confesse o acontecido. Não quer ouvir de sua boca a narrativa, seria o pior dos sofrimentos. Se é necessário reabrir e revolver a chaga apenas fechada, deve caber a ele o sacrifício:
— Não diga nada, eu já sei de tudo.
— Sabe? Quem lhe contou?
— Dona Carmosina. Dona Antonieta disse a ela para me pôr a par. Para ver se eu desistia.
— Contou tudo? — Saltam as primeiras lágrimas.
— Tudo. Como o canalha de teu noivo te enganou, abusou de tua inocência. Lembras da viagem que fiz para Rocinha? Foi naquela ocasião. Mas o plano não surtiu efeito. Para mim o que aconteceu não tem importância. Eu te considero tão pura quanto a Virgem Maria.
As lágrimas escorrem pela face de Leonora, pranto silencioso. Ascânio as enxuga com beijos, exige:
— Só te peço uma coisa: nunca mais falaremos sobre isso, nem uma palavra. Está bem?
Afirma que sim com a cabeça. Ia lhe dizer outra coisa, contar a verdade, mas agora, diante do que acaba de ouvir, cadê coragem para falar? Irrompe o soluço. Ascânio o apaga com um beijo.
Um som distante, de onde vem? Do cômoro vizinho, entrevisto na sombra? Mal se enxerga, mas se ouve cada vez mais distintamente doce gemer e pedaços de frases partindo-se no vento: ai, meu Pedro, meu amor… Ascânio perscruta a noite, Leonora esboça um sorriso, usa o pretexto para romper o confuso círculo de enganos:
— É o engenheiro com a mulher. Mãezinha me contou: todas as noites.
— Vale a pena ser casado… — inveja Ascânio.
— Ascânio, aconteça o que acontecer, não pense nunca que eu quis te enganar. Jamais tive outro amor em minha vida. Antes de te conhecer não sabia o que era amar.
Quando ele, grato, se curva para beijá-la, Leonora o aconchega nos braços e, num gesto inesperado, o prende com as pernas, fazendo-o deitar-se sobre seu corpo. Pega teu bode pelos chifres, arreia os quartos, aconselhara mãezinha. Ascânio ainda tenta desprender-se, teme perder a cabeça e abusar de tanta inocência e confiança, fazendo por amor o que o canalha fizera por ignóbil cálculo. Mas ela o mantém seguro, corpo contra corpo, ele sente os seios, as coxas, o ventre, custa-lhe conter-se. Leonora murmura:
— Me perdoa não ser como pensaste. Vem, sou tua. Ou não me queres? — Escorrem novamente as lágrimas.
— Ai, se te quero!
Intensificam-se os suspiros no cômoro vizinho. A ventania, cúmplice, levanta a barra do vestido de Leonora, ela se abre. Diante da costa da África Ascânio a teve e, no lugar do hímen perdido, tocou a fulva esteira de um cometa. Pela primeira vez na vida Leonora se entregou por puro amor, sem mescla de qualquer outro sentimento, bom ou ruim. Chora e ri. Foi cabrita desmamada, chiva batida pela vida. Naquele fim de mundo, em frente à costa da África, faz-se mulher, completa e feliz como quem mais o seja ou tenha sido. Possui um sol azul e uma lua negra.
Misturam-se os ais de amor, evolando-se dos cômoros. Manto nupcial de branca areia, grinalda de estrelas, noiva dissoluta, rosa desfolhada. Faltam as forças a Leonora. No horizonte nasce o sol azul, no abismo do mar desaparece a lua negra, as lágrimas se apagam, acende-se o riso. Ai, amor, agora, sim, posso morrer.
ONDE O AUTOR SE DESMANDA EM
INESPERADA LOUVAÇÃO — HÁ DE TER SUAS RAZÕES PARA FAZÊ-LA,
COM CERTEZA
MUITO SE TEM FALADO ACERCA DE PATRIOTISMO E DE
PATRIOTAS NESTE folhetim. No particular, torna-se indispensável reparar grave injustiça e devo corrigi-la com urgência antes de introduzir os leitores na animada (e única) pensão de mulheres da vida situada em Agreste, cuja direção e propriedade Zuleika Cinderela assegura com delicadeza e eficiência.
Louvou-se com justiça o desprendimento do comandante Dário de Queluz, abandonando gloriosa carreira nos buques de guerra da armada por amor às belezas, ao clima e à tranqüilidade de Agreste. Cantaram-se loas aos poemas dedicados pelo aplaudido vate Gregório Eustáquio de Matos Barbosa ao torrão natal, em cuja paisagem se inspirou; noticiou-se a importância para a cidade de seu retorno, abalado pela doença, portador de inestimável patrimônio: o sucesso, a fama, a recordação de amizades ilustres, os exemplares dos livros publicados. Traçaram-se amplas considerações em torno do apego de Ascânio Trindade ao município pobre e atrasado que ele deseja rico e progressista; morto o pai, poderia ter retornado à faculdade e, após a formatura, desenvolver-se pelo sul — não lhe faltam qualidades, reconhecidas inclusive pelos diretores da Brastânio. Foram lembrados nomes do passado, feitos e merecimentos.
Não se falou no entanto na dedicação, no devotamento incondicional a Santana do Agreste de Zuleika Rosa do Carmo, a Cinderela, à qual tanto devem a cidade e o município. Não somente seu nome deixou de figurar entre os dos patriotas comprovados, como sua presença nas inumeráveis páginas deste folhetim é raridade, quase sempre citação casual. Uma vez, foi vista na igreja, rodeada de raparigas, na noite de Ano-Novo; no bar, os quatro amigos beberam à sua saúde, não o fazendo Astério por ausente e bem casado. Foi tudo. Injustiça das maiores, busco compensá-la.
Não houvesse ela permanecido em Agreste, desprezando ofertas diversas e vantajosas, não uma ou duas, muitas, o que seria da alegria desse perdido burgo? Que restaria aos jovens (e aos menos jovens) além das cabras? Algumas catraias asquerosas mendigando no beco da Amargura, no Buraco Fundo, nos cantos perdidos.
Citei a pensão de Zuleika na relação dos centros culturais de Agreste. Por tê-lo feito, mereci áspera crítica de Fúlvio d’Alambert, rigoroso na literatura e na moralidade. Mas pergunto: onde tomam contato com a civilização dos grandes centros e se educam os tabaréus vindos das plantações e sítios de Rocinha, aos sábados, para a feira? Onde encontrar, em permanência, perfume e graça, música e baile, namoro e galanteio, tertúlia, canto, recitativo, um tango no rigor dos floreados, além da teoria e prática da sexualidade, ciência tão em voga nos tempos atuais?
Bem mais tristes e solitários seriam os dias e as noites de Agreste, sobretudo as noites, se Zuleika, tentada pela avidez de dinheiro, seduzida pelo fausto, houvesse partido em busca de fortuna e renome nacional, para o que contava com os atributos necessários, físicos e morais. O cotidiano de Agreste não se caracterizaria pela boa convivência, a discórdia não teria esperado pela Brastânio para estabelecer seu reino. Zuleika Cinderela distribui aprazimento e cordialidade entre o povo, sendo inclusive responsável pela harmonia de vários casais — não fossem as raparigas a oficiar na pensão, muitos maridos teriam desertado do lar em busca de plagas mais evoluídas.
Desde cedo, Zuleika recusou convites. De donas de pensão de Esplanada, Mata de São João, Caldas do Cipó, Dias d’Ávila, Feira de Santana, Jequié, Itabuna, Aracaju e Salvador, todas oferecendo boas condições pois ela era uma tentação de garota, um azougue. Apelidaram-na Cinderela por ter chegado da cozinha da Fazenda Tapitanga, onde o coronel Artur exercera o direito de pernada antes dela completar catorze anos. Quando mulher-feita, estabelecida com a pensão, não lhe faltaram tampouco lucrativas propostas para transferir a centros mais populosos e adiantados sua capacidade de empresária e administradora: poderia enriquecer.
Igual ao comandante, a Barbozinha, a Ascânio, revelou-se irredutível patriota. Jamais admitiu a idéia de deixar Agreste, sabendo-se não apenas querida mas indispensável. Não lhe cabia quase sempre a delicada tarefa de iniciar os meninos de boa família? Pais conscienciosos, atentos à educação dos filhos varões, depositavam nas mãos de Zuleika Cinderela o futuro dos herdeiros, colocando-os aos seus cuidados, por vias travessas de parentes e amigos, suplicando-lhe ocupar-se deles, fazendo-os homens íntegros e inteiros. Por bondade e apetite, iniciava também alguns moleques, de graça. Pequena de estatura, grande de alma.
Quando, aos onze anos de idade, levado por um primo, Osnar a procurou, ela cumprira vinte e já conquistara fama de especialista na matéria. Hoje, tendo atravessado com garbo a casa dos cinqüenta, se contasse os cabaços que desfolhou no curso da existência, proclamaria um recorde. Não ostenta mais o viço de mocinha, a turbulência juvenil; fez-se pausada, mas a desenvoltura é a mesma, maior a gentileza e conserva aquele primor de corpo bem-feito, a sensualidade irresistível, as marcas da bexiga esvanecendo-se no rosto sempre em festa.
Houvesse justiça no mundo, não estivessem os cidadãos de Agreste amarrados à hipocrisia dos preconceitos, Zuleika e seu modelar estabelecimento teriam sido há muito proclamados de utilidade pública. Mas a vida é um repositório de injustiças — repita-se aqui esta verdade, juntando mais um lugar comum aos tantos outros que se acumulam nas deslustradas páginas deste folhetim.
DOS ESPONSAIS DE PETO
NUNCA O TINHAM VISTO ASSIM TÃO LIMPO, SÉRIO E
ELEGANTE MAS, por estranho que pareça, ninguém tirou pilhéria nem o levou na gozação, a não ser seu Manuel:
— Espera lá, Peto! Vais fazer primeira comunhão? Já passaste da idade. Ou vais casar?
Osnar interrompeu o português:
— Não sabes, almirante, que hoje é o aniversário do sargento? Oferece-lhe uma Coca-Cola, pelo menos.
— Aniversário? Pois toque lá, meus parabéns. E ordene a bebida que quiser.
Realmente, estava irreconhecível o desleixado Peto. O cabelo por uma vez assentado à força de brilhantina; gastara uma latinha inteira, o singular odor supera o cheiro dos cigarros e charutos. Relógio no pulso, pálida lembrança da tia que te estima Antonieta, camisa nova e novidadeira: estampados na fazenda, em vermelho e azul, lêem-se os nomes das capitais e das cidades mais importantes do mundo, com os votos e um beijo da prima Leonora — presentes trazidos pelo irmão, entregues na hora do almoço comemorativo —, sapatos lustrados e calças compridas, as primeiras; finalmente a mãe se convencera. Mesmo ao torcer por tio Astério na partida amistosa contra Seixas, Peto o faz com certa contenção de quem já não é criança irrefletida.
Quando o sino da matriz toca as nove badaladas fatais e as luzes se apagam, enquanto seu Manuel trata de acender os lampiões, Osnar faz um sinal e Peto sai discretamente, vai esperar na praça. Se alguém reparou, fez que não viu, a conversa prossegue animada; caso tio Astério o procure, Aminthas dirá que ele já foi para casa.
Alcançando-o na praça, Osnar busca encorajá-lo:
— Não tenha medo, sargento.
— Quem falou em medo? Estou na minha.
No escuro, Osnar sorri. Todos repetem o mesmo, ele também garantira estar tranqüilo quando acompanhara o primo Epaminondas, que Deus haja. Dentro do peito, o coração em descompasso.
Antes de penetrar no sendeiro, avistam o pessoal saindo do Cine Tupy, único lugar iluminado da cidade além das nove e por pouco mais: possui motor próprio.
— Hoje o padre foi ao cinema — diz Osnar, enxergando uma batina.
— É o padre não. É Ricardo. Foi com mamãe. O filme trata de negócio de religião. Deve ser ruim pra burro.
Para não despregar de Osnar, Peto faltara a uma sessão de cinema pela primeira vez em três anos. A confiar nos elogios feitos durante o almoço pelo padre Mariano, um careta, a película deve ser de amargar; filme, ao ver de Peto, se não tem tiro e sacanagem, não presta. De qualquer maneira vai assisti-lo amanhã, na matinê.
Marcham em direção oposta à entrada da cidade, encaminhando-se para as bandas da Jaqueira, onde, entre árvores em centro de terreno, discreta, localiza-se a pensão de Zuleika Cinderela.
Na rotina da pensão, sábado é um dia especial, o de maior movimento. Pela tarde, até o começo da noite, freqüentam-na os feirantes. Entram na sala, sentam-se para esperar ou escolher mulher, pedem uma cerveja ou um conhaque, contam e recontam o dinheiro, por vezes níqueis amarrados na ponta de um lenço. Alguns são fregueses certos dessa ou daquela, outros preferem variar. A clientela rural dura até às sete, nunca vai além das sete e meia. A partir das nove, nove e meia, após o cinema, começam a chegar os moços da cidade. Sábado é dia festivo, noite de dormir tarde, de vitrola e dança, de farto consumo de bebida. Entre as sete e meia e as nove e meia há um tempo quase morto; as raparigas jantam, descansam, algumas vão ao cinema.
A sala está praticamente vazia quando Osnar e Peto aparecem na porta. Numa das mesas, duas mulheres conversam; noutra, Leléu cochicha com uma falsa loira por quem anda de rabicho. Uma jovenzinha vai saindo, cruza com eles na entrada:
— Boa noite, seu Osnar. Tu é Peto, não é? Já ouvi falar.
— Onde vai, Maria Imaculada? — A pergunta inclui surpresa e reprovação.
— Vou ali, já volto, seu Osnar. Conte comigo.
Na sala, Osnar dirige-se a Neco Suruba, garçom imemorial, entrou no emprego molecote, está de cabelos brancos.
— Cadê Zu?
Uma das mulheres adianta a resposta:
— Dona Zuleika está tomando banho, não vai tardar.
Tanto ela quanto a colega sorriem para Peto e o examinam. O cheiro de brilhantina faz-se sentir, familiar; os feirantes usam da mesma marca, vendida em latinhas pequenas. Barata e forte.
— Recebeu a encomenda? — Osnar volta a dirigir-se a Neco.
— Está na geladeira. — Além do bar, somente a residência de Modesto Pires e a pensão de mulheres da vida possuem geladeiras (a querosene) na cidade.
Apenas sentam-se na mesa onde estão as duas mulheres, Zuleika Cinderela entra na sala e com ela um aroma bom de sabonete e água-de-colônia a suavizar o cheiro poderoso da brilhantina. Os sapatos de salto alto aumentam-lhe a estatura, cabelos escorridos de índia, corpo bem torneado, convidativo; anel e pulseira de fantasia, um vestido azul-hortênsia, solto e decotado, com bolsos brancos; toda ela é limpeza e dengo. Vem direto para Peto, seu sorriso é um dom do céu que ela distribui:
— Boa noite, Peto, seja bem-vindo. Quer tomar alguma coisa? Meus parabéns pelo aniversário. Tenho um presente guardado para você. — Pisca o olho.
Como Peto recusa a oferta de bebida, ela lhe estende a mão e o convida com um leve gesto de cabeça. Osnar e as duas mulheres seguem a cena, a loira de Leléu voltou-se para ver. Peto levanta-se, sente a curiosidade a rodeá-lo. Osnar pede cerveja.
Fechada a porta do quarto, Zuleika toma do lampião pendurado na parede, coloca-o sobre a mesinha-de-cabeceira, junto à cama, assim ela pode enxergar melhor. Peto está de pé, os olhos baixos. São os dois da mesma altura, ou quase.
— Tu é bonito como o quê! Já te vi na rua, muitas vezes. Sempre pensava: quando é que ele vem me ver? — Doce e terna: — Pedi a Osnar: traga ele aqui para festejar o aniversário.
Desabotoa a camisa nova do menino:
— Quanto nome de cidade. Paris, Roma. O papa vive aqui. Ganhou de presente?
Peto confirma com a cabeça, quase diz: de minha prima, mas se contém a tempo. Zuleika enfia a mão por baixo da camisa aberta, acaricia o peito e as costelas magras, aproxima-se mais e beija Peto atrás da orelha antes de lhe tomar a boca. Quando o solta, Peto arranca os sapatos, Cinderela retira-lhe a camisa, ajuda-o a arriar as calças compridas. Peto as segura para que não caiam no chão de tijolos e se sujem: calças compridas, as primeiras. Sacudindo os pés, Zuleika livra-se dos sapatos, encosta-se em Peto, desce a mão pelo corpo do menino, abre-lhe a cueca, toca-lhe os bagos, brinca com eles:
— Rola mais linda. — Na mão a toma e afaga, devagar, oferecendo ao mesmo tempo a boca para o beijo.
Afasta-se, volta-se de costas:
— Puxe o zíper de meu vestido, amorzinho.
O zíper descendo, o corpo nu surgindo diante dos olhos de Peto. Com um movimento de ombros, Zuleika se desprende do vestido, o menino pode vê-la toda, como é bonita!
— Tu me acha bonita?
— Demais.
— Está com vontade?
— Nem pergunte.
— Vem.
Sobe para a cama, faz lugar para Peto. Estão deitados de lado, olhando-se. Ele estende a mão, meio sem jeito, toca-lhe o seio. Menor que o da tia, maior que o de Leonora, diferente dos dois, redondo, parece uma broa saída do forno. Zuleika suspira ao toque: cada gesto tímido, cada avanço, é um prazer divino.
— Me diga: é mesmo a primeira vez?
— Com mulher, é, sim.
— Andou botando em algum menino?
— Só na cabra.
— Em Negra Flor, não foi?
— Foi nela, sim.
Bicha safada, ordinária. Peto é o terceiro, entre recentes, a lhe contar da cabra. Mais uma vez Negra a precedera.
— Com mulher é diferente, tu vai ver.
Muda de posição, agora de barriga para cima, abre as pernas, os olhos de Peto pousam-se na senda de pêlos negros. A mão de Zuleika Cinderela vai buscá-lo.
— Vem, meu macho, traz essa rola gostosa para comer sua mulherzinha.
Beija-o ternamente, acaricia-o de manso, faz com que ele a monte, suspende o ventre para facilitar o abraço, mete a língua dentro da orelha de Peto e murmura:
— Que gostoso! Sou capaz de me enrabixar contigo.
Cruza as pernas sobre as costas do menino:
— Mete, enfia tudo.
Mantendo-o preso entre as coxas, beija-o no rosto e na boca, remexe as ancas, oferece-lhe o seio; xoxota de chupeta, especial para rola em crescimento, morde e afaga. Precisa conseguir que ele aprenda e goste, sinta quanto é bom, se faça macho inteiro e íntegro, para isso o confiaram a ela. Ao mesmo tempo Zuleika, a velha Cinderela, se embriaga de prazer, saboreia e degusta o cabaço do menino. Não pode haver na vida ou na eternidade prazer que a esse se compare.
— Goze comigo que estou gozando.
A vitória obtida cada vez, o debutante acabando junto com ela, no mesmo instante, no mesmo grito, renascendo na mesma hora da morte.
Quando Peto, orgulhoso e feliz, sai do quarto e entra na sala, estrugem aplausos, frenéticos. Casa cheia, ocupadas todas as mesas, presente a malta do bar, seu Barbozinha, o árabe Chalita com uma meninota sobre os joelhos, o moleque Sabino, sócio na Negra Flor, a quem Zuleika, uma semana atrás, descabaçara por prazer, sem que ninguém pagasse. Por Peto, quem paga é Osnar, regiamente. Entre os demais reuniram dinheiro para a festa.