Tieta do Agreste
Quinto episódio
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
A discutida propriedade do coqueiral, que trouxera à cidade o ilustre dr. Marcolino Pitombo com a bengala de castão de ouro, a astúcia e a envolvente simpatia, trouxe também o emproado dr. Baltazar Moreira e o galante dr. Gustavo Galvão, pelo qual suspiraram as moças do lugar.
Dr. Baltazar Moreira, gordo, respeitável papada, voz grave, estampa arrogante, veio de Feira de Santana a chamado de dona Carlota Antunes Alves — assim passara a se assinar, com nome completo. Quem diz dona Carlota quer dizer Modesto Pires, a quem ela se associara, não tendo dinheiro com que sustentar causa na justiça. A Escola Ruy Barbosa, onde aprendem as primeiras letras os filhos dos abastados, rende-lhe o necessário para viver e a prudente professora não se dispõe a negociar sua casa própria para pagar advogado. Alguns amigos apontaram-lhe o exemplo de Jarde e Josafá, que se desfizeram de terras e rebanho; ela, porém, manteve-se firme. Mas tendo sido procurada por Modesto Pires, entrara em acordo com o dono do curtume sobre despesas e lucros. Em caso de lucros, o usurário ficaria com a parte do leão; em troca, concorreria com as despesas. De qualquer maneira, para dona Carlota, bom negócio: aquelas terras semi-alagadas do coqueiral jamais lhe haviam rendido um único tostão. Nem ao menos sabia possuir direitos sobre elas. Fora o dr. Franklin — grato à professora paciente, capaz de interessar Bonaparte no abc e na tabuada e de lhe dotar daquela caligrafia extraordinária — quem a informara, exibindo-lhe a vetusta escritura. Não o houvesse feito, dona Carlota continuaria a ignorar.
Quanto ao dr. Gustavo Galvão, procedente de Esplanada, jovem e incrementado, camisa esporte, largas costeletas, com pouco tempo de formado, desembarcou em companhia de Canuto Tavares e a seu serviço pois o competente mecânico e relapso telegrafista também descende de Manuel Bezerra Antunes, para surpresa geral. Nem dr. Franklin, que sindicara em torno à família daquele famigerado Antunes da escritura, deparara com Canuto Tavares. Não obstante, descendente e dos bons, em linha direta e duplamente, pois era rebento da união de Pedro Miranda (Antunes) Soares com Deodora Antunes do Prado, primos entre si, ele falecido, ela ainda viva, residindo com o filho. Existia um irmão, gerente de uma sapataria na capital.
E o esquivo Fidélio, Antunes ele também, com indiscutíveis direitos, segundo o dr. Franklin, onde anda seu advogado? No incidente com Seixas, falara a verdade ao dizer que não tinha advogado. Quanto a conselheiro, não precisava pois já o possuía e excelente. Talvez devido à identidade de gosto musical e à admiração que Fidélio votava à inteligência sarcástica de Aminthas, este era o seu predileto na roda dos cinco amigos íntimos, diariamente juntos, havia muitos anos, no bar para os tacos, a cerveja, o trago de cachaça, o riso inconseqüente; na pensão de Zuleika para as noitadas com vitrola, dança e mulheres. Deste último e freqüente pouso desertara Astério após o casamento; muito de raro em raro, numa tarde de domingo, quando o vício aperta, surge por lá, às escondidas, em busca de um rabo em condições, traindo a esposa. Traição, realmente? Mesmo contra sua vontade e seus princípios, é na bunda de Elisa que ele pensa quando, no bordel, se esvai no traseiro da rapariga.
Os Mosqueteiros de Agreste, apelidara-os dona Carmosina, leitora de Alexandre Dumas na distante juventude; seu primo Aminthas era Aramis, cínico e cético. Mas Fidélio sabe que, por trás do humor sarcástico, da permanente dúvida, encontrará o amigo leal e de bom conselho. Assim, foi a ele que se dirigiu quando o problema colocado pelo sobrenome Antunes o agoniou fazendo-o perder o sono e um encontro com Ritinha. Com Ritinha o prazer é duplo pois ela é roliça e esperta e ao passá-la nos peitos Fidélio corneia ao mesmo tempo dois bestalhões: Chico Sobrinho e Lindolfo, um metido a nobre, o outro a galã.
A confusão começou exatamente quando Seixas, funcionário da coletoria, veio procurá-lo de parte de seu chefe, Edmundo Ribeiro, com uma proposta. Sabendo-o pobre, de minguado salário — não fosse ter quarto e comida de graça na casa da tia, o ordenado não chegaria para as apostas no bilhar e as farras na pensão de Zuleika —, incapaz portanto de enfrentar questão na justiça, o coletor candidatava-se a adquirir seus direitos de posse, sua parte na herança do coqueiral. Em se confirmando o interesse da Brastânio pela área, é claro. Desejoso de agradar o chefe benevolente e camarada que lhe permitia horário folgado na repartição, Seixas aconselhara o amigo a aceitar a oferta, insistira, não entendendo o porquê da resposta negativa. Ao saber, depois, da existência de novos interessados, Modesto Pires, dr. Caio Vilasboas, o primeiro propondo sociedade, o segundo compra imediata, preço baixo, dinheiro batido, uma coisa compensando a outra, Seixas atribuiu o aparente desinteresse de Fidélio — não quero saber dessa história de herança — a hábil jogada para levar os concorrentes a uma disputa capaz de elevar as propostas, deixando-o em posição de escolher depois a mais favorável. Magoou-se Seixas: não negava ao amigo o direito de defender seus interesses, aproveitando-se das leis da oferta e da procura. Mas por que esconder o leite, não lhe dizer a verdade? Se o tivesse feito, Seixas não apareceria diante de seu Edmundo Ribeiro com uma seca negativa e sim com a possibilidade de prosseguimento das negociações em novas bases. Como se vê, a provocação feita no bar não acontecera por acaso. Mesmo entre os Mosqueteiros de Agreste infiltravam-se os gases da Brastânio, afetando relações de amizade nascidas na infância, solidificadas no passar do tempo.
De natural enrustido, Fidélio não costuma falar a ninguém de seus assuntos e, agindo assim, sempre se dera bem. Sem cantar glórias, ia ganhando dos parceiros no bilhar, tendo chances de vencer o atual torneio, arrebatando de Astério o cobiçado título de Taco de Ouro. Sem jactar-se de dom-juan, comia as melhores; quando os outros descobriam a boazuda ele já a chamara a si, na discrição. Mas dessa vez não tinha jeito, recorreu a Aminthas, expôs o drama ao amigo. Procurou-o em casa, ouviu em silêncio parte de um tape de rock, não o deixou botar nova fita no gravador.
— Tenho um particular, um conselho a lhe pedir.
— Mande brasa.
— Outro dia você quis apostar com todo mundo, no bar, dizendo que garante que essa tal de fábrica nunca irá se estabelecer aqui. Tu está certo disso ou é mais uma brincadeira tua? Me diga a verdade.
— Por que você quer saber?
— Como tu sabe, tenho parte no coqueiral, pelo menos é o que o doutor Franklin garante e ele entende dessas coisas. Parece que estão botando questão na justiça: Josafá, dona Carlota, até Canuto Tavares. Cada um puxando a brasa pra sua sardinha. Eu estou de fora mas recebo todos os dias propostas para vender minha parte. Seu Modesto não quer comprar, quer se associar comigo, já está de meia com dona Carlota. Os que querem comprar são seu Edmundo Ribeiro e doutor Caio, sendo que o último paga à vista.
— Hum! Hum! Você quer saber qual o melhor negócio? Explique cada um detalhadamente para eu…
— O que eu quero saber é se a merda dessa fábrica vai vir para Mangue Seco ou não. Tu disse que tinha certeza que não.
— Agora entendo. Você quer saber porque, se a fábrica vier, você tem possibilidade de ganhar um dinheiro grande vendendo sua posse diretamente à Brastânio, correto? — Com um gesto, impede que Fidélio o interrompa: — Se não vem, você vende agora ao imbecil do doutor Caio e embolsa o dinheirinho, deixa para ele o pantanal. Aliás, nem isso. Deixa pra ele o hipotético direito à parte do pantanal. Correto? — Aminthas se sabe inteligente e gosta de demonstrá-lo.
— Não. Tudo ao contrário.
— Tudo ao contrário? Passei a não entender nada.
— Se eu tivesse certeza, mas certeza mesmo, que essa fábrica não virá nunca, como tu disse, aí podia vender a doutor Caio e esse dinheiro ia me servir demais, tu nem sabe. Mas, sem ter certeza, não vendo.
— E por quê? Para esperar e vender melhor, como eu já disse?
— Não, não vendo de maneira nenhuma. Não quero que essa fábrica se instale aqui e esculhambe tudo. — Toma fôlego, não está habituado a falar muito: — Tu sabe que eu não nasci aqui, nasci no Rio mas vim menino quando minha mãe voltou, viúva; o velho morreu por lá, coitado. Ele só pensava em juntar algum dinheiro para regressar, não deu tempo. — Fez uma pausa, o pensamento no pai, calado como ele, desterrado no Rio: — Daqui não quero sair a não ser a passeio. Tenho vontade de ir ao Rio, a São Paulo, conhecer o sul, se um dia tiver oportunidade. Ir e voltar, para isso ia me servir o dinheiro do doutor Caio. Mas prefiro perder qualquer fortuna para não deixar que filho-da-puta nenhum venha acabar com a praia de Mangue Seco. Quando me vejo lá, não sou um pobre empregadinho público, um merda, me sinto um homem, dono do mundo.
Aminthas coloca um tape no gravador, ouve o som de uma música brasileira, conhecida: “pescador quando sai nunca sabe se volta”; baixa o volume, a melodia persiste como um fundo musical. Estaria por acaso comovido?
— Pensar eu penso, que essa fábrica não se instalará jamais aqui. Para que isso viesse a suceder, seria necessário que não houvesse outro lugar no Brasil que oferecesse melhores condições. Agreste não tem nada, eles serão obrigados a fazer tudo. Por isso acho que não virão. Mas, ao mesmo tempo, tenho de convir que talvez Agreste seja, por essas mesmas razões, o único lugar do Brasil onde permitam que eles se instalem. Porque, Fidélio, essa tal de indústria de titânio acaba com tudo. Quem tem razão é Osnar: fede. Fede e apodrece.
— Quer dizer…
— Que se você pensa como eu e Osnar, então não venda, em vez de ir passear no Rio, vá à casa de Zuleika que lá também tem o que se ver. Tem uma novata, menininha, uma tal de Maria Imaculada…
— Já comi. É um tesouro.
Aminthas aumenta um pouco o volume do gravador, peixes e mar, jangadas enfrentando temporais.
— Me diga, Fidélio, você pensa mesmo assim, está disposto?
— Penso. Estou.
— Então, meu velho, vamos enfiar no cu desses advogados todos e estourar a merda dessa fábrica. Ouça.
Expôs seu pensamento, a idéia lhe ocorrera ouvindo a frase de Fidélio sobre Mangue Seco, a melodia e o verso sobre o mar, fonte de vida, onde os homens se elevam sobre os elementos. Fidélio escuta em silêncio, quando o amigo termina, diz apenas:
— Tu é um porreta. Só que o comandante está em Mangue Seco…
— Eu o vi hoje, no Areópago, conversando com Carmosina.
— Pois vou falar com ele agora mesmo.
Sai, satisfeito, mas em seu contentamento perdura uma ponta de tristeza, a sensação de quem vai abrir mão da única oportunidade de realizar projeto concebido e acalentado em estrito sigilo, jamais revelado a quem quer que fosse — dele nem dona Carmosina tem conhecimento. Projeto múltiplo e por isso mesmo caro, fora de qualquer possibilidade de concretização por quem recebe do Estado diminutos proventos, pouco mais do que o salário mínimo.
Trata-se de uma viagem ao sul para conhecer as grandes capitais, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, durante as férias. Viagem de turismo mas com objetivos precisos; o primeiro e principal, a aquisição de uma bateria das mais completas e um manual para aprender a utilizá-la. Quem sabe, um dia virá a tocar tão bem quanto Xisto Bom de Som, genro do coronel Artur da Tapitanga. Quando o percussionista, sobraçando Célia e os dois rebentos, aparece de visita ao sogro (em busca de numerário), Fidélio não desprega da fazenda. Uma vez em que o músico demorou e trouxe a bateria — um assunto de maconha dissolvera o conjunto Itapuã’s Kings levando o pistom e o violão elétrico ao xadrez —, Xisto, após lhe dar algumas explicações, permitira a Fidélio experimentar o vistoso instrumental. “Você leva jeito, bicho”, dissera, animando-o. Com a bolada oferecida por dr. Caio poderia comprar uma bateria, trazê-la para Agreste, e realizar-se, dando sentido à vida, sendo por fim alguém.
Durante a viagem, poderá assistir a um show de Vinicius, outro de Caetano e Gil, seus ídolos. E, para concluir a transa, tirar a limpo certos detalhes, empolgantes porém inadmissíveis, da célebre história da polaca de Osnar. Como até mesmo em Agreste se sabe, no Rio e em São Paulo sobram polacas, dando sopa nas pensões. O bolso abarrotado de dinheiro, Fidélio poderá se regalar com uma e, ao que parece, também com mais de uma, desbancando Osnar, rindo dele à socapa quando o amigo começar a contar vantagem:
— Quem não comeu uma polaca, nada sabe de mulher…
Imutável início da narrativa, prendendo a atenção geral. Se fizesse a viagem, ao voltar, iria ser diferente: Osnar contando, Fidélio rindo para seus adentros.
ONDE SE PRONUNCIA
A PALAVRA “IÁ”
— A ÚLTIMA INFORMAÇÃO QUE RECEBEMOS É UM
TANTO QUANTO PESSIMISTA.
A voz de Ângelo Bardi não revela inquietação ou temor. Acostumada ao mando, porém afável e cordial, conserva leve acento ítalo-paulista de filho de imigrantes nascido no Brás. Têmporas grisalhas, bem-posto, nem gordo nem magro, cinqüentão, o ar sobranceiro, a figura de Ângelo Bardi infunde confiança. Atento às suas palavras, Rosalvo Lucena, managerial sciences doctor, a quem os jornais qualificam de audaz e vitorioso empresário, parece um estudante recém-saído da universidade. Ângelo Bardi parece exatamente o que é, um magnata.
Estão sentados numa das pontas da grande mesa de reuniões, na sala à prova de som, climatizada, na sede da Indústria Brasileira de Titânio S. A. Além dos dois, o dr. Mirko Stefano e, na cabeceira, a presidir, o senhor idoso de cabelo cortado à escovinha e olhos baços.
Dr. Mirko chega a abrir a boca mas não a falar, pois, pedindo licença, Bety penetra na sala, seguida pelo bói que conduz uma bandeja com café, açúcar, três outros tipos de adoçantes, xícaras e colheres. Ela mesma serve, com graça e desenvoltura, um sorriso de quem está plenamente feliz por encontrar-se diante daqueles senhores. O de cabelo cortado à escovinha descansa os olhos baços no busto altaneiro da secretária executiva, na longa linha das pernas.
Precedida pelo bói, Bety retira-se em silêncio, sentindo nas ancas o peso em ouro dos olhos baços, fecha a porta. Então o Magnífico Doutor traduz a frase. Acontece um diretor de relações públicas ver-se obrigado a exercer funções de tradutor. Quando a reunião é de tal monta a ponto de não admitir a presença de qualquer estranho. Apenas os quatro.
— Não devemos nos impressionar demasiado — prossegue Ângelo Bardi. — Sem dúvida, as resistências a vencer são grandes, os homens vacilam. Creio no entanto que, se persistirmos, obteremos a localização desejada, a ideal. Talvez…
O dos olhos baços corta-lhe a frase com um gesto, olha para o dr. Mirko. O Magnífico traduz, palavra por palavra. Assim lhe foi ordenado: palavra por palavra. Outro gesto manda o magnata continuar. Diretor de relações públicas, vitorioso empresário, magnata, patrão, essa a escala.
— Talvez todas essas delongas não passem de uma tentativa para nos arrancar mais dinheiro, se bem eu pense que realmente existe quem se oponha. Sobretudo na área estadual.
Espera que a tradução seja feita antes de prosseguir: mesmo na voz blandiciosa de Mirko, parece-lhe rude o idioma, áspero a ouvidos latinos, viciados na sonora plasticidade da língua italiana.
— É preciso mais um empurrão, forte. Ou seja: mais dinheiro. Quero crer que por fim alcançaremos nosso objetivo.
Enquanto ouve a tradução, o dos olhos baços fita os três diretores em sua frente, um a um, repentina luz de aço nas pupilas. Pronuncia umas poucas palavras, o Magnífico traduz:
— É imprescindível que seja onde decidimos.
Pode-se traduzir murros, pedradas, metralha? A luz se extingue nos olhos baços. Ângelo Bardi volta a falar:
— De acordo, também acho. Devemos, contudo, estar preparados para qualquer emergência. Já concluímos que a zona cacaueira realmente não interessa. Quanto à região da foz do rio Real, apesar dos inconvenientes constatados nos relatórios, da falta de qualquer infra-estrutura…
O de cabelo à escovinha faz novo gesto, Bardi e Mirko obedecem, um se cala, o outro retoma a palavra, capaz e exato. Rosalvo Lucena ouve com tamanha inteligência que parece entender inclusive a tradução alemã. O magnata de São Paulo recupera a palavra:
— Eu dizia que a região do rio Real, apesar da falta de infra-estrutura, não pode ser ainda posta de lado. Já nos deram o sinal verde: lá podemos instalar a fábrica, não há objeções maiores.
Homem tão dotado — vindo do nada, pior, vindo do Brás, chegara ao topo —, não o é Ângelo Bardi para o estudo dos idiomas. Além do italiano familiar, aprendido em casa, fala francês, quem não fala?, o acento, aquela coisa. Adquiriu rudimentos de inglês, a duras penas; como tratar com os americanos sem conhecer a língua? Os gringos não falam nenhuma outra, não precisam; os demais que se esforcem em cima da gramática. Ângelo Bardi esforçara-se em cima da gramática e de uma raquítica miss Judy, ninfomaníaca, a professora. Alemão, tenham paciência, nunca conseguira aprender. Sorri ao pensar que em breve terá de tratar com os japoneses.
— A meu ver, devemos investir um pouco mais nessa perspectiva. Por dois motivos. Primeiro, porque talvez tenhamos, em último caso, de nos instalar mesmo na foz do rio Real. Se não conseguirmos ganhar a outra batalha; segundo, por se tratar de um movimento diversionista de grande utilidade. Enquanto falam sobre Agreste, e sobre Agreste poucos falam, esquecem, deixam em paz…
Não conclui a frase, para quê? Mirko a completará na tradução. Palavra tão bonita, digna de um verso, Arembepe. Mas na pronúncia do Von na cabeceira da mesa soa inflexível.
Nas duas línguas, o Magnífico Doutor pergunta aos três diretores:
— Isso significa que posso pôr em marcha minha proposição?
Ângelo Bardi responde por ele e por Rosalvo Lucena, que sorri, mudo, aprovativo e competente.
— De nossa parte, de acordo. Mas cabe a ele a decisão final. O tal rapaz já está na cidade, não?
— Desde ontem, no mesmo hotel que nós e Ele. — Sente-se a letra maiúscula quando o dr. Mirko Stefano pronuncia, respeitoso, o vocábulo “ele”. A voz volta ao normal: — Um bom hotel e de muito auxílio.
Depois de ouvir, palavra por palavra, a pergunta do Magnífico Doutor e a opinião dos dois diretores brasileiros, Ele, o de cabelo à escovinha, o de olhos baços, autoriza:
— Iá!
ONDE O AUTOR, NÃO SATISFEITO
COM A CRETINICE HABITUAL,
EXIBE ESTULTA VAIDADE
NÃO RESISTO À EMOÇÃO E INTERROMPO O RELATO PARA
PERGUNTAR: ouviram os senhores o que eu ouvi, naquela nobre língua? Áspera para os tímpanos delicados de Ângelo Bardi, habituado a la dolce vita, soa harmoniosa a meus ouvidos de autor inédito a lidar com acanhada humanidade de perdidos arraiais, incultos sertanejos, duvidosos pescadores. Soa e ressoa como heróica clarinada wagneriana, conclamando a conquista do mundo. Atrevo-me a pensar que um dos grandes da Europa, patrão de multinacional, herói de nosso tempo, desceu da grandeza onde habitualmente decide e comanda, para fazê-lo nas humildes páginas deste folhetim. Falou pouco, é verdade, mas ouviu com atenção. O pouco que falou foi definitivo, liquidou vacilações, esclareceu dúvidas.
Perdoem-me, necessito desabafar: encontram-se em festa estas páginas, cumuladas de honra, e eu me sinto realizado. Com personagem de tal grandeza, não há de me faltar editor. Sobretudo se o grande homem ainda voltar, em outro capítulo, com seu soberbo cabelo cortado à escovinha e a magnífica luz dos olhos baços. Se acontecer, o editor será até capaz de pagar-me direitos autorais, não que eu os exija: contento-me com ver o volume nas vitrines das livrarias. De coração ao alto, bandeiras despregadas, trombetas e clarins, eu o saúdo e aguardo em ânsia seu retorno.
Com esse único objetivo interrompi a narrativa: para comunicar aos senhores minha emoção, para que dela possam participar. Mas já que interrompi, aproveito o ensejo para responder a novas restrições assacadas contra este agora orgulhoso folhetim por meu colega e amigo Fúlvio d’Alambert.
Desta vez, protesta ele contra a ausência de Tieta, cuja figura anda desaparecida. Esqueço-me que seu nome figura no título, ocupando o alto da página; abandono regra comezinha da novelística ao abandoná-la. Personagem principal não pode ser relegada a segundo plano, ensina-me Fúlvio d’Alambert.
Da ausência de Tieta, não me cabe culpa e, sim, a ela própria. Enquanto a discussão sobre a Brastânio pega fogo em Agreste, a cidade infestada de advogados, dona Carmosina recolhendo assinaturas em patético memorial às autoridades, protestando com vigor e pânico contra a instalação de uma fábrica de dióxido de titânio no município; quando o comandante Dário, contrariando arraigados hábitos de verão, abandona sua vilegiatura em Mangue Seco para colaborar com a agente dos Correios convencendo os indecisos, Tieta permanece na praia, bem do seu, entregue à devassidão. Palavra forte, sei, mas que outra empregar para caracterizar relações ilícitas de tia quarentona (quarenta e quatro, pouco falta para cinqüenta) com sobrinho menor de idade?
Osnar afirma que o cidadão brasileiro alcança a maioridade sexual aos treze anos mas os discutíveis valores morais do troca-pernas não devem prevalecer sobre a moral corrente, cristã e ocidental — dizem-me, aliás, que os orientais, se por orientais entendemos socialistas, são extremamente puritanos, não admitem tais libertinagens nem nas praias nem na literatura. Não tendo o que contar sobre Tieta, além do deboche, lúbrico e terno, voraz e lírico, permaneceu ela um tanto à parte mas nem por isso deixou seu nome de ser citado pois, como constatou o comandante, em todas as conversas pergunta-se qual a posição assumida por dona Antonieta Esteves Cantarelli no debate em torno da instalação da indústria de titânio. Mais uma vez o comandante comprova a importância da palavra e do gesto de Tieta junto à vacilante maioria. Ao regressar a Mangue Seco, o bravo marujo pretende falar a sério com Tieta: venha assumir, minha boa amiga, seu posto de combate, chefiar a campanha, impedir o crime.
Aí ficam explicação e notícias, sirvam-se. Ah!, não me referi a um último (último mas não derradeiro) reparo de Fúlvio d’Alambert, crítico minucioso a quem nada escapa. Não perdoa o menor cochilo.
Reclama a propósito da descrição, páginas atrás, da chegada a Agreste do dr. Marcolino Pitombo. Reportando o bom conceito por ele expresso sobre a marinete de Jairo, escrevi que, atento ao som do rádio russo, o causídico elogiara a firmeza de caráter do aparelho. Sem esclarecer — aí o erro — o motivo do louvor. Que forte caráter é esse, do tal rádio, capaz de merecer gabo e admiração do ilustre advogado, um dos mais doutos personagens deste folhetim? Na opinião de Fúlvio d’Alambert, deixei o leitor no ar, desinformado.
Não seja por isso a reprimenda, aqui vai o esclarecimento. Tendo sabido que o rádio era de fabricação soviética, made in urss, curiosa coincidência despertou a atenção do velho bacharel. Ao retransmitir músicas de países do Terceiro Mundo, latino-americanas, brasileiras, sambas, tangos, boleros, rumbas, batuques, guarânias, o aparelho fazia-o com relativa limpidez e sonoridade. Tratando-se porém de melodias francesas, alemãs, italianas, inglesas, de nações desenvolvidas, o som piorava muito. Para tornar-se ininteligível, transformar-se em barulheira a doer nos ouvidos, intolerável estática, quando as estações de rádio obstinavam-se na difusão dos modernos rocks norte-americanos ou de qualquer outro som proveniente dos Estados Unidos.
Desterrado no sertão da Bahia, cruzando poeirento caminho de crateras e pedregulhos, a serviço da derradeira marinete do universo, mantinha-se fiel aos rígidos princípios antiimperialistas. Demonstrando, inclusive, se considerarmos a atual contingência política do mundo, acerbo sectarismo.
Mas que perfeição de som, que nitidez, que transparência quando uma estação de Ilhéus difundiu, no programa Cantigas Inesquecíveis, a canção intitulada “Olhos negros”. Popular melodia russa — se não sabem, informo —, tocou as entranhas do aparelho, recordando-lhe a nacionalidade, transportando-o de volta à romântica nostalgia das estepes. Mais límpido do que qualquer som estereofônico, o do rádio soviético, ressoando alto e puro no agreste sertão da Bahia — indomável caráter!
EPISÓDIO INICIAL DA ESTADA DE
ASCÂNIO TRINDADE NA CAPITAL OU DA FORMAÇÃO DE UM DIRIGENTE A SERVIÇO DO PROGRESSO: PISCINA, CENTRO
INDUSTRIAL E PATRÍCIA, DITA PAT
SOMENTE AO TÉRMINO DA ESTADA NA CAPITAL, NO
TERCEIRO DIA, por ocasião da última conversa com o Magnífico Doutor, quando um certo calor humano se fez presente por entre os eflúvios do conhaque, deixou Ascânio Trindade de sentir-se incômodo, possuído por uma vaga impressão de dependência, de não se encontrar em plena posse de sua liberdade. Sensação em realidade indefinível e sem razão aparente, devida talvez ao ambiente para ele completamente estranho. De súbito hóspede de hotel de luxo, convivendo com pessoas de um mundo desconhecido, desconcertante e envolvente com o qual jamais mantivera qualquer espécie de contato.
No primeiro dia, chegara a pensar que dr. Mirko Stefano o fizera vir com tamanha urgência apenas para lhe oferecer drinques e moças à beira da piscina. Desembarcara do jipe à noite, mais fatigado talvez das anedotas do engenheiro Quarantini do que da sacolejante travessia. Cumprindo sem dúvida ordens anteriores, o chofer o conduziu a um grande hotel, onde lhe entregaram um recado do Magnífico Doutor: ocupe os aposentos reservados em seu nome, amanhã nos veremos.
Realmente encontraram-se, meio-dia passado, quando Ascânio já se preparava para ir almoçar, depois de ter ficado toda a manhã à espera, primeiro no quarto, na expectativa do telefone; em seguida, trocando pernas no saguão e nas imediações: admirando as butiques, a galeria de arte e antigüidades, as tapeçarias de Genaro, o painel em cerâmica de Carybé, esculturas de Mário Cravo em fibra de vidro, os turistas de bermudas e camisas floradas; arriscando olhadelas ao bar e à piscina onde mulheres lindas, em provocantes duas peças, tomavam banho de sol, corpos à mostra.
Vira o Magnífico Doutor desembarcar de um dos dois imponentes carros negros para os quais se precipitaram bóis e porteiros, disputando bagagens e gorjetas. Dos automóveis desceram três outros passageiros, sumiram como que por encanto, com pastas e valises, num dos elevadores. Dr. Mirko permaneceu no hall, e se dirigia à recepção quando enxergou Ascânio. De braços abertos marchou em sua direção, efusivo, a lhe pedir desculpas por havê-lo abandonado:
— Um dia terrível. O aeroporto de São Paulo fechado, o avião só pôde sair depois das nove, ou seja, na hora em que devia estar pousando aqui. Venha comigo.
Enquanto andava, o Magnífico ia apertando mãos, acenando com os dedos, dizendo uma palavra a esse e àquele. Ao chegarem à borda da piscina, três indivíduos os acompanhavam. Um deles, cego de um olho, perguntou, num sussurro de conspirador:
— Quem chegou?
— Doutor Bardi.
— Sozinho? E os outros, quem são? Vi um grupo na recepção.
Mentira, pois os viajantes não haviam parado na recepção, entraram diretamente no elevador, Ascânio os acompanhara com os olhos desde a descida do automóvel. O Magnífico Doutor sorriu para o bisbilhoteiro, passou-lhe a mão no rosto, de leve, num gesto quase feminino:
— Indiscretozinho…
Todas as moças — pelo menos um certo número — em mergulhos ou expostas ao sol eram propriedade do Magnífico Doutor (ou da Brastânio, ninguém pode ser tão poderoso a ponto de possuir tão variada coleção de vedetes; uma grande empresa, talvez). Precipitaram-se para a mesa que ele ocupou. Os três aderentes contemplaram Ascânio, curiosos, à espera quem sabe de apresentação ou notícia, mas como o dr. Mirko esqueceu ou fez-se de esquecido, logo se entregaram a tarefas bem mais agradáveis: uísque e garotas. Bebiam com valentia, namoravam com rudeza, modos grosseiros, descorteses, na opinião de Ascânio. Jornalistas, os três, soube depois pelo próprio Magnífico. Mas as moças pareciam gostar dos palavrões e das propostas realistas.
Durou pouco o encontro, o doutor levantou-se, ocupadíssimo, deixando com os três vorazes a nova garrafa quase cheia e o mulherio.
— Amanhã ou depois terei notícias para vocês. Antes, nem uma palavra. Ninguém chegou, reina a paz na City e em Wall Street.
— E se A Tarde der o furo? — reclama o zarolho.
— Melhor, assim vocês terão notícia e desmentido.
Tomou Ascânio pelo braço, arrastando-o consigo até os elevadores. Obedecendo a um gesto seu, uma das moças os acompanhou.
— Hoje estarei reunido a tarde toda. A você posso dizer: reunião decisiva da diretoria. Somente no fim da tarde, antes do jantar, poderei lhe ver e lhe falar. Mas vou lhe deixar em boas mãos. Patrícia vai ficar às suas ordens, vai lhe servir de secretária e de chofer. Passeie, divirta-se. Antes do jantar, conversaremos. — Da porta do elevador, dirigiu-se à moça: — Cuide dele, Pat, com carinho. Um dia você se orgulhará de tê-lo acompanhado, de ter sido sua cicerone.
Patrícia sorriu e tomou posse de Ascânio:
— Almoçaremos aqui no hotel ou quer ir a um restaurante? Vou enfiar o cafetã, volto num segundo.
Patrícia também era loira mas não se parecia com Leonora. O verso do trigal maduro não se aplica a seus cabelos. Barbozinha não a compararia a uma sílfide. Bonita, sim, porém não aquela formosura única, incomparável, aquela distinção a denotar classe e família, filha de pai milionário e comendador do papa, nascida em berço de ouro, educada nos melhores colégios, flor da alta sociedade paulista. Elegância e finura reveladas não apenas no bom gosto dos trajes mas em cada gesto, na delicadeza, no recato, na graça infinita. Na boniteza chamativa de Patrícia há um quê de vulgaridade e em sua inegável gentileza transparece vestígio de serviço prestado, um toque profissional.
Depois do almoço, no luxuoso restaurante do hotel, Patrícia o deixou para que ele repousasse, tendo ela própria compromisso. Mas voltaria às três para levá-lo a passear ou às compras, conforme preferisse.
No fusca dirigido por Patrícia, Ascânio percorreu a cidade onde não punha os pés há mais de sete anos, agora cortada por novas avenidas, estendendo-se pela orla marítima, pululante de movimento, a população duplicada. Mudara demais nesses anos, transformara-se. Onde a velha urbe modorrenta dos seus tempos de universitário, vivendo das glórias do passado, da tradição de cidade histórica, célula mater, berço da nacionalidade e outras retóricas, capital de um estado de economia atrasada, agropastoril? Para definir a estagnação, a decadência da Bahia, Máximo Lima vociferava na faculdade:
— Não tem sequer fábrica de cerveja e em breve não terá nem mesmo ruínas antigas para mostrar.
Precisava ver Máximo antes de regressar, comentar com ele a transformação que ia atingir agora o longínquo município de Santana do Agreste. Para isso viera, para a grande decisão.
De moto próprio ou obedecendo ordens, após haver percorrido as novas avenidas, Patrícia dirigiu-se à rodagem e o conduziu ao Centro Industrial de Aratu, empreendimento tão badalado em todo o país, apontado como exemplo devido à infra-estrutura estabelecida à base de estudos de especialistas, planificada sob a direção de Sérgio Bernardes, nome famoso. Um imenso canteiro de obras, no qual algumas indústrias recém-instaladas começavam a produzir, enquanto muitas outras, em vias de instalação, levantavam blocos de fábricas.
Na véspera, Ascânio passara por ali no jipe mas, no escuro e no silêncio da noite, as grandes chaminés e as estruturas dos edifícios eram apenas vultos imprecisos. Agora, ele as via, as chaminés lançando fumaça, as estruturas crescendo em ritmo acelerado, um barulho de batalha. Na extensão de muitos quilômetros, enormes placas com os nomes das empresas anunciavam os produtos que estão sendo ou serão em breve manufaturados no pólo industrial de Aratu. Máquinas ciclópicas e centenas de homens removem toneladas de terra nas escavações, erguem paredes de tijolos e concreto, soldam e fundem metais brilhantes.
O fusca parou à margem da estrada. Ascânio, boquiaberto, sentiu a pressão da coxa de Patrícia contra a sua, desviou a vista das chaminés. A moça sorria:
— Mais adiante, no caminho para Camaçari, ficará a petroquímica. Um colosso, não é? — Uma afirmação, não uma pergunta.
Ascânio voltou-se para ela, os olhos brilhando de entusiasmo, Patrícia lhe ofereceu a boca. Ao beijá-la era como se beijasse a nova Bahia.
Retornaram pela orla marítima. Diante da beleza do mar e das praias, em terrenos anteriormente descampados, sucediam-se hotéis, restaurantes, bares, boates, clubes, residências faustosas e moderníssimas, um panorama novo e suntuoso. Pararam num bar. Alegre e sequiosa, Patrícia reclamou cerveja — de fabricação baiana com know-how dinamarquês, a melhor do mundo, esclareceu a informada cicerone —, comprou cigarros americanos. Quando Ascânio quis puxar a carteira para pagar a pequena despesa, ela já estendia uma cédula para o caixa, sem dar importância aos protestos do rapaz ofendido em seu amor-próprio masculino:
— Não seja machista, neném, isso caiu de moda e quem paga é a Brastânio.
Andaram até a praia, sentaram-se na areia, trocaram beijos.
— Você é um amor, neném.
Antes do jantar, aconteceu o anunciado contato com o dr. Mirko Stefano. Rápido e telefônico, porém extremamente cordial. O Magnífico continuava ocupadérrimo, pardon, mon cher ami, não ia poder reunir-se com Ascânio senão no dia seguinte, enquanto isso Pat se ocuparia dele. Quis saber como transcorrera a tarde, Ascânio contou-lhe a ida ao centro industrial, o impacto:
— Grandioso! Eu sabia que era uma realização importante, mas superou de muito a minha expectativa. É exaltante!
— Não é? Tudo aquilo ainda outro dia não passava de um matagal abandonado. Pior do que as praias de Agreste. Já imaginou como será o coqueiral de Mangue Seco muito em breve? Bem, divirta-se porque amanhã teremos muito que fazer. Esteja na portaria às dez em ponto da manhã, quero lhe apresentar a alguns amigos.
Patrícia deixara Ascânio na porta do hotel, fora em casa mudar de traje, iam jantar fora. Chegou tão chique a ponto dele sentir-se um pouco constrangido no batido e mal talhado terno azul, obra de seu Miguel Rosinha que corta e cose paletós e calças do coronel Artur da Tapitanga há mais de quarenta anos. Antes de saírem, Patrícia avisara que não se coçasse para pagar nenhum gasto, as despesas corriam por conta da Brastânio. Comeram num restaurante da orla, depois ela propôs uma boate onde dançaram de rosto colado até depois de meia-noite. As contas assombraram-no. Se lhe competisse pagar, não teria dinheiro suficiente, passaria vergonha.
Tendo estacionado o carro ao lado do passeio do hotel, Patrícia subiu no elevador junto com Ascânio, no quarto pediu-lhe que puxasse o zíper nas costas do vestido, um longo verde malva com aplicações de renda branca. De dentro dele saiu nuinha pois o tapa-sexo não tapava nada. Tinha um sinal de beleza no alto da coxa.
Depois da ducha, Pat o esperou na cama. Por conta da Brastânio, pensou o aprendiz de dirigente.
DA CAMPANHA DE ASSINATURAS
E DO PREJUÍZO QUE ADVÉM
DA AUSÊNCIA DE TIETA
O MEMORIAL, REDIGIDO POR DONA CARMOSINA COM A
ASSISTÊNCIA crítica porém útil de Aminthas, recolhe certo número de assinaturas, muito inferior contudo ao previsto e desejado pelos promotores da iniciativa. O comandante Dário veio expressamente de Mangue Seco, para ajudar, saiu pela rua de lista em punho, pondo em jogo o prestígio e a simpatia que o cercam. Sua presença concorre para a adesão de pessoas antes indiferentes ao problema: ouviram falar no assunto sem lhe conceder maior importância. Escutam a explicação do conterrâneo ilustre, portador de dragonas, aceitam a caneta:
— Se o comandante pede, não me furto.
Muitos, porém, se furtam, desaparecem à sua aproximação. A par do significado polêmico daquelas folhas de papel, somem das vistas do comandante ou claramente recusam-se a assinar, por se encontrarem convencidos das vantagens provenientes da instalação de uma grande fábrica nas vizinhanças da cidade, em terras do município. Os argumentos sobre os terríveis malefícios da poluição não os abalam nem comovem. Esperam, não sabem ainda de que maneira, obter proveitos, um lucro qualquer com a vinda da Brastânio; a palavra progresso significa com certeza melhoria de vida.
A grande maioria, não obstante, é composta de indecisos que se retraem. As duras frases do memorial onde predominam palavras assustadoras — podridão, crime e morte — são lidas, relidas, analisadas. Sucedem-se perguntas:
— Será mesmo assim? Nos jornais pregados na prefeitura, a gente lê coisa muito diferente.
O comandante argumenta, educado e paciente. Na agência dos correios, dona Carmosina explode com facilidade quando encontra resistência, olhares de dúvida, interrogações:
— Quer viver na podridão, no chiqueiro? Pois que viva!
— Não é bem isso, dona Carmosina, não se exalte. É que uns falam umas coisas, outros negam. A senhora é instruída, sabe o que diz. O comandante, que correu mundo, diz a mesma coisa. Já Ascânio, que ninguém pode negar ser devoto de Agreste e que não havia de querer um negócio tão ruim aqui, diz o contrário. Seu Modesto Pires, também. Dona Carlota, professora dos meninos, essa nem se fala. Fica braba, igual à senhora.
Tanto o comandante quanto dona Carmosina ouvem, da boca dos indecisos, a mesma repetida declaração:
— Sei não… Se pelo menos soubesse o que é que dona Antonieta acha disso tudo… Ela é uma pessoa competente, o lado onde ela estiver, esse deve ser o lado certo.
Não adianta dona Carmosina garantir pela posição de Tieta, o comandante Dário afirmar-se conhecedor do pensamento da viúva paulista, tendo chegado de Mangue Seco onde ela é sua hóspede. Desejam ouvir dito por ela:
— Ela ainda não falou nada. Vou esperar o que ela vai dizer.
Na agência dos Correios, os dois líderes principais da campanha dão um balanço no trabalho, contam as firmas recolhidas, o número lhes parece insuficiente prova da afirmativa contida no memorial: todo o povo de Agreste repudia a pretensão da nefanda indústria de dióxido de titânio. Sentem um começo de desânimo.
A idéia do memorial foi de dona Carmosina, partidária da ação. Bate-boca oral ou através dos murais, não conduz a nada. Aminthas, apesar do ceticismo habitual, aprovou e colaborou na redação. O comandante se encheu de entusiasmo, fez cálculos, tirou conclusões. Se recolhesse pelo menos mil assinaturas dentre os nove mil habitantes do município, levando em conta as crianças e a imensa maioria de analfabetos, poder-se-ia dizer que a quase totalidade das pessoas capazes de refletir sobre o problema tomara posição contra a Brastânio. Mas tinham coletado apenas pouco mais de uma centena de nomes, após um trabalho estafante. Nomes importantes, poucos. Os comerciantes, na previsão de bons negócios com a instalação da fábrica, reservaram-se. Padre Mariano declarara-se neutro, as funções de pároco não lhe permitindo tomar partido em tão melindroso assunto. Mas ele próprio perguntou:
— Não vejo aqui a assinatura de dona Antonieta Cantarelli. A assinatura dela deve abrir a lista, se o comandante deseja que o povo assine.
Barbozinha compõe poema sobre poema, já possui matéria para um livro que pretende publicar na capital, os Poemas da maldição, escreve cartas a Giovanni Guimarães mas como coletor de assinaturas é um fracasso. Em troca, dona Milu é de rara eficiência, até agora é seu o recorde da coleta. Imprevisto aliado, Osnar, de tocaia no botequim, faz um esforço. Tudo isso soma apenas cento e dezesseis nomes, trinta e sete obtidos por dona Milu. Para os mil previstos, uma derrota. O comandante balança a cabeça, preocupado:
— Minha boa Carmosina, não sei, não… Ou Tieta se decide a tomar a frente ou não iremos muito além disso. Volto amanhã para Mangue Seco, vou tentar convencê-la a vir nos ajudar. Não vai ser fácil: o Curral está pronto, ela quer gozar um pouco da casa que lhe deu tanto trabalho e custou um bom dinheiro. Inclusive me encarregou de levar a enteada comigo. Me toco com Laura e Leonora amanhã cedo, vou suplicar a Tieta que venha nem que seja por uns dias e diga a todo mundo, espalhe pela cidade inteira, que é contra a fábrica, que se a Brastânio se instalar em Mangue Seco nunca mais porá os pés aqui.
Dona Carmosina concorda, o sucesso da campanha depende de Tieta:
— Domingo apareço por lá para reforçar seu pedido. Penso que entre nós dois, vamos conseguir.
— É lamentável. Com tanto advogado aqui, o cartório cheio de gente, todo mundo julga que vai se fartar de dinheiro com a Brastânio. Até em Rocinha o preço da terra subiu, imagine.
— Estive matutando nessa história dos advogados e dos herdeiros do coqueiral e cheguei à conclusão que tem um lado bom: enquanto eles brigam, a fábrica não tem onde se instalar. Até que o caso se resolva…
— Não se iluda, minha boa Carmosina. Esses advogados vão entrar em acordo logo, logo, você vai ver. Os herdeiros se unem e encarregam Modesto Pires, que é o mais sabido de todos os que estão metidos nisso, de negociar a venda do coqueiral à Brastânio. E não poderemos fazer nada…
— Nesse caso, nem Tieta.
Mostra-se, à porta da agência, a figura bisonha de Fidélio. A ele, nem tinham pedido para assinar o memorial, pois o sabem um dos herdeiros das terras onde a Companhia Brasileira de Titânio S. A. cogita instalar sua indústria, um dos que têm possibilidade real de ganhar dinheiro.
— Boa tarde, dona Carmosina. Boa tarde, comandante. Queria trocar umas palavras com o senhor.
— Se é particular, vou lá pra dentro — declara Carmosina, morta de curiosidade.
— Que é particular, é, mas não para a senhora. — Devia ter pedido a Aminthas para acompanhá-lo. Calado de natureza, como há de se arranjar para expor assunto tão delicado? Não vá o comandante se ofender: — É sobre essa história do coqueiral em que estou metido, sou um dos herdeiros, penso que o senhor sabe.
Curva-se dona Carmosina no balcão, para ouvir melhor.
SEGUNDO EPISÓDIO DA ESTADA DE
ASCÂNIO NA CAPITAL OU DA FORMAÇÃO DE UM DIRIGENTE A SERVIÇO DO
PROGRESSO: AMBIÇÃO, IDEALISMO,
UÍSQUE E NILSA, A DOS PEITOS GRANDES
DE PRONTIDÃO DESDE AS NOVE E MEIA, À ESPREITA,
ASCÂNIO se aproxima quando o grupo sai do elevador. Apressado, um dos senhores passa diante dele, desaparece num dos dois automóveis negros. Ascânio jamais chegou a saber de quem se tratava, se diretor ou não da Brastânio, notando apenas, de relance, o cabelo cortado à escovinha como se usou há muito tempo atrás. Dr. Mirko Stefano apresenta-lhe os outros dois, ali mesmo, de pé. A cerimônia dura apenas um instante pois estão de partida para o aeroporto, em cima da hora.
— Doutor Ângelo Bardi, nosso diretor-presidente.
O magnata — evidentemente era um magnata — estende a mão, esboça um sorriso:
— É esse o nosso homem? Muito bem. — O sorriso se amplia, aprovativo, recomenda ao Magnífico: — Encarregue-se de que nada lhe falte, resolva de vez os problemas pendentes, veja essa história da eleição. Falei ontem por telefone com São Paulo. A essas horas, o Tribunal Eleitoral já deve ter recebido um telegrama. — Aperta novamente a mão de Ascânio: — Prazer. Passe bem.
O outro, ainda jovem — dr. Rosalvo Lucena, também diretor, um crânio, segundo dr. Mirko —, fica de vê-lo com mais tempo ao voltar do aeroporto para onde seguem todos, inclusive o Magnífico Doutor. Ascânio os acompanha até a porta, assiste à partida dos dois possantes automóveis negros.
Outra vez encontra-se no saguão suntuoso, sem saber o que fazer. Turistas saem para visitar as igrejas, o Pelourinho, gastar dinheiro no Mercado Modelo, bandos palradores e eufóricos, velhas espantosas, anciãos artríticos, balzaquianas indóceis, moças deslumbradas. Ascânio afunda numa das imensas poltronas de couro, dedica-se à leitura de um prospecto de propaganda do hotel, impresso em cinco línguas, fica sabendo que o design daquela poltrona e o dos demais móveis foram concebidos, sob encomenda, com exclusividade, por Lev Smarcevski — não sabe quem seja mas o nome do artista e a palavra design o impressionam. Relanceia o olhar em torno, enfia o prospecto no bolso, pensa exibi-lo no Areópago. Ultimamente nem tem comparecido à agência dos Correios. Para quê? Para ouvir desaforos de dona Carmosina? Vai estender a mão para um jornal quando Patrícia aparece — deixara-o por volta das oito, após café e ducha —, pendurada no braço de um dos três fulanos que, na véspera, estiveram bebericando com o Magnífico à beira da piscina. Dessa vez, houve apresentações:
— Doutor Ascânio Trindade, um amigo do doutor Mirko. Ismael Julião, o temido colunista dos grandes furos, com ele ninguém pode — declama, gaiata, conclui séria: — Meu noivo.
Estava Ascânio apertando a mão do rapaz, toma um susto. Noivo? Com certeza mais uma piada da jovem, mas Pat, muito romântica, encosta a cabeça no ombro do jornalista de barba por fazer, enfia-lhe os dedos na despenteada cabeleira e, como se adivinhasse a dúvida de Ascânio, comunica:
— Vamos nos casar daqui a pouco mais de um mês.
— Dois, benzoca. Depois do carnaval. — Adverte Ismael: — Lua-de-mel e carnaval, ao mesmo tempo, não dá pé.
— Carnaval, cada qual para seu lado — concorda Pat. — Ele é dos Internacionais, eu sou do Bloco do Jacu.
Ascânio não entende a graça nem ela explica, em compensação convida:
— Vá botar uma sunga e venha fazer um relax na piscina com a gente. Doutor Mirko não vai aparecer antes de meio-dia, isso se vier diretamente do aeroporto para aqui. Com ele, nunca se sabe.
— Je suis l’imprévisible! — O jornalista imita a voz afetada do diretor de relações públicas.
— É que eu não trouxe calção. — Ascânio tenta furtar-se ao convite.
— Por isso, não. Aqui alugam, venha comigo, vou lhe mostrar. — Pisca o olho para o noivo: — Te encontro no trampolim, carinho.
— É seu noivo, de verdade? — Ascânio ainda se imagina vítima de um gracejo.
— Havia de ser de mentira? Já tenho o vestido de noiva, presente do Magnífico. Ele trouxe do Rio, da Laís Modas, um barato! A grinalda é um luxo, só vendo.
— Véu e grinalda! — Nascida do espanto, a exclamação sai sem ele querer.
Pat ri, bem-humorada:
— Véu, grinalda e flores de laranjeira, ao som da marcha nupcial, adoro! Tu é um atrasado, neném, um careta. Um careta mas um pão, um pão doce. Ismael também é um pão, não acha? Um pedaço de mulato de ninguém botar defeito, hein? — Morde o beiço, ao elogiar os predicados físicos do rapaz: — E tem a cuca limpa, não é cafona como você. Nós estamos em 1966, neném. Ou a notícia ainda não chegou em tua terra? Precisas atualizar o calendário.
Na piscina, bom nadador, saltando do trampolim, mergulhando, Ascânio se distende em companhia de Patrícia e Ismael, os noivos do ano, na escolha natalina de Dorian Gray Júnior, o trêfego cronista social. Bom relax, a moça tinha razão e ele estava necessitando, tenso e inseguro desde o desembarque do jipe na porta do hotel. Aos poucos, começa a sentir-se à vontade, descontraído. Ali é como se todos se conhecessem de longa data. Participa de um grupo que brinca com enorme bola de plástico, conversa com um casal de jovens cariocas encantados com a Bahia, troca impressões com estranhos; acontece-lhe não entender certas locuções, uma frase inteira, mas ninguém repara, tratam-no de igual para igual, ele é parte daquele mundo em férias, rapaz rico e simpático.
Ismael sai da água, vai se estender numa chaise-longue. Patrícia nada em torno de Ascânio, provoca-o, busca afundá-lo, dá-lhe caldos, agarra-o pelos ombros e pelas pernas, monta-lhe no cangote, embola com ele, mergulha sob seu ventre. Manhã agradável.
— Doutor Mirko já chegou. Com o doutor Lucena — avisa Pat.
Levanta-se Ismael Julião, vai saudá-los, serve-se de uísque, dose dupla, volta à piscina, com o copo na mão. Patrícia o acolhe, noiva terna. Ascânio correra a mudar a roupa, reaparece de paletó e gravata. A um aceno do Magnífico, toma lugar à mesa.
Rosalvo Lucena, cujos títulos universitários e empresariais Pat lhe soprara ainda dentro d’água, pois seu dever era informá-lo, conquista Ascânio Trindade. Diante do tecnocrata, cuja fisionomia transpira segurança e autoridade, quase tão jovem quanto ele e no entanto empresário empreendedor e arrojado, Ascânio sente-se um joão-ninguém. O relax obtido na piscina desaparece, encontra-se novamente tenso e inseguro. Aquele, sim, era um líder, um vitorioso, digno da mão de Leonora Cantarelli, para tanto possuía merecimentos, títulos e postos. Títulos em latim e em inglês, aos trinta anos diretor da Companhia Brasileira de Titânio S. A., um portento! Não obstante a diferença de status a separá-los, Rosalvo Lucena o trata com cordialidade e consideração, amável e interessado.
— Mirko falou-me muito bem do senhor, disse-me de sua luta em prol do progresso do município de Agreste. Espero que possamos concorrer eficazmente para que suas idéias se transformem em realidade. Estou encarregado dos problemas técnicos e econômicos relativos à instalação de nossas duas fábricas integradas, muito em breve irei conhecer sua cidade e a praia tão falada, perto da qual, ao que tudo indica, se levantará nosso conjunto industrial. No momento, deve estar chegando lá uma equipe nossa, encarregada de objetivos precisos. Passamos da fase dos estudos para a da implantação do projeto.
— Está chegando? Hoje?
— Saíram hoje pela manhã, em duas lanchas grandes e velozes. Se ainda não chegaram, devem estar chegando. Levam todo o material necessário para acampar durante uns dias na praia, quantos forem necessários. Vão resolver todos os problemas relativos à localização não só da fábrica como das residências do pessoal técnico e administrativo e da vila operária. Investimento imenso, meu caro. É necessário escolher o local ideal. Parece ser aquele onde há uma espécie de lago e um córrego, mais ou menos no centro do coqueiral. — Sorri, contente de si: — Nunca estive lá mas é como se houvesse nascido ali, conheço tudo sobre Agreste e Mangue Seco, incluindo o contrabando. Um dos mais antigos entrepostos de contrabando do nordeste. Queremos trabalhar em estreita colaboração com o senhor e as demais autoridades do município.