Tragédia em Três Atos

Agatha Christie · Capítulo 9 de 29

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Tragédia em Três Atos

Capítulo 4

O depoimento dos empregados

 

Não poderia haver cena mais tranquila do que os terrenos e as dependências de Melfort Abbey avistados pelos dois homens ao sol de setembro. Partes da construção, uma antiga abadia, eram remanescentes do século XV. A casa principal tinha sido restaurada e recebera uma nova ala. Da entrada não se enxergava o prédio da clínica, que tinha seu próprio terreno.

Sir Charles e o sr. Satterthwaite foram recebidos pela sra. Leckie, a avantajada cozinheira. Vestia um decoroso vestido preto e se mostrou triste, mas conversadeira. Já conhecia Sir Charles e na maior parte do tempo se dirigiu a ele.

– Senhor, eu tenho certeza de que vai entender o que isso significa para mim. A morte do patrão e tudo mais. Polícia por tudo que é lado, bisbilhotando aqui e ali... Acredita que eles tiveram a petulância de olhar até nas latas de lixo? E dê-lhe pergunta! Era pergunta que não acabava mais! Ah, nunca imaginei que viveria pra ver uma coisa dessas... O doutor, um cavalheiro tão pacato como ele era, e nomeado Sir Bartholomew, puxa, quanto orgulho sentimos naquele dia, como Beatrice e eu bem lembramos, ela que trabalha aqui quase há tanto tempo quanto eu, só dois anos menos. E o tipo de pergunta que aquele policial fazia! Policial, sim, pois eu é que não vou chamá-lo de cavalheiro. Depois de me acostumar a lidar com os modos dos verdadeiros cavalheiros, aprendi a distinguir o joio do trigo. E o tal sujeito, sei lá se ele era ou não superintendente – a sra. Leckie fez uma pausa, tomou fôlego e se desenredou do emaranhado de palavras no qual tinha se enrolado. – Perguntas, a isso que me refiro, sobre todas as meninas da casa, todas boas moças, todas, sem exceção. Não que eu vá garantir que a Doris levante de manhã na hora certa. Tenho que bater nessa tecla pelo menos uma vez por semana! Já a Vickie tem tendência a ser impertinente, mas, vá lá, dessa mocidade não se pode esperar treinamento. Se depender das mães delas, então, já viu. Mas são gente boa, e nenhum superintendente da polícia vai me convencer a dizer o contrário. “Sim”, eu disse a ele, “o senhor perde o seu tempo se acha que eu vou falar mal das minhas meninas. São boas moças, são sim, e ficar sugerindo que elas têm algo a ver com assassinato, puxa vida, que coisa mais repulsiva.”

A sra. Leckie fez uma pausa.

– Já o sr. Ellis, bem... daí o caso é diferente. Não sei nada sobre o sr. Ellis, nem ponho a mão no fogo por ele. Foi trazido de Londres e era um estranho aqui. Veio substituir o sr. Baker, que estava de férias.

– Baker? – indagou o sr. Satterthwaite.

– O sr. Baker trabalha como mordomo de Sir Bartholomew há sete anos. Ele ficava em Londres a maior parte do tempo. Lá na Harley Street. Lembra dele, senhor? – Ela apelou para Sir Charles, que assentiu com a cabeça. – Sir Bartholomew sempre o trazia até aqui quando dava uma festa. Mas Sir Bartholomew disse que Baker andava mal de saúde, por isso deu a ele dois meses de férias com tudo pago num hotel à beira-mar, lá perto de Brighton. O doutor era mesmo generoso. Por isso ele contratou provisoriamente o sr. Ellis. E por isso, como já expliquei ao superintendente, eu não ponho a mão no fogo pelo sr. Ellis. Se bem que ele andou dizendo que trabalhou em famílias tradicionais. E com certeza o jeitinho dele até que era bem distinto.

– Não descobriu nada... estranho sobre ele? – indagou Sir Charles, esperançoso.

– Bem, é esquisito o senhor falar justamente isso, porque eu descobri e não descobri, se é o que senhor me entende.

Sir Charles a mirou com um olhar encorajador, e a sra. Leckie prosseguiu:

– Não sei dizer exatamente o quê, mas tinha alguma coisa...

“Depois do acontecido é fácil ser profeta”, pensou o sr. Satterthwaite. Por mais que desprezasse a polícia, a sra. Leckie não era imune à sua influência. Sendo Ellis o principal suspeito, era natural que a sra. Leckie tivesse notado algo.

– Pra começo de conversa, ele era quietão. Educado e cavalheiro. Como eu já disse, ele estava acostumado a trabalhar em casas grã-finas. Mas era discreto e passava a maior parte do tempo livre no quarto dele. Não sei direito como descrever... Ele era, ou melhor, tinha algo nele...

– A senhora chegou a suspeitar que... ele não era um mordomo de verdade? – sugeriu o sr. Satterthwaite.

– Ah, ele tinha experiência sim, senhor. As coisas que ele sabia... e sobre pessoas conhecidas na sociedade, também.

– Por exemplo? – induziu Sir Charles amável.

A sra. Leckie tornou-se vaga e evitou se comprometer. Ela é que não ia ficar repassando fofocas do hall dos empregados. Uma coisa dessas seria um atentado ao seu senso de retidão.

Para deixá-la à vontade, o sr. Satterthwaite disse:

– Talvez possa nos descrever a aparência dele.

O rosto da sra. Leckie se iluminou.

– Claro que sim, senhor. Um tipo respeitável. Suíças e cabelo grisalho, meio corcunda, já ganhando barriga... Ele me disse que andava preocupado com isso. Mãos bem trêmulas, mas não pelo motivo que o senhor está pensando. O sujeito mais abstêmio que já vi, ao contrário de muita gente que conheço. Tinha as vistas sensíveis. Ardiam quando a luz batia nelas. Em especial luzes fortes. Lacrimejava muito. No meio dos empregados ele usava óculos, mas trabalhando não.

– Nenhuma característica especial? – perguntou Sir Charles. – Cicatriz? Dedos quebrados? Marcas de nascença?

– Não, senhor, nada desse tipo.

– É... As histórias de detetive superam a vida real – suspirou Sir Charles. – Na ficção, sempre há uma característica inconfundível.

– Faltava um dente de cima – lembrou o sr. Satterthwaite.

– Acho que sim, senhor, mas eu nunca notei.

– Como estava o humor dele na noite da tragédia? – indagou o sr. Satterthwaite, de um modo ligeiramente livresco.

– Bem, realmente, não sei dizer. Eu estava ocupada, sabe, lá na minha cozinha. Eu não tinha tempo para ficar notando as coisas.

– Não tinha, não, é verdade.

– A notícia de que o patrão tinha morrido pegou a gente de surpresa. Chorei sem parar, e Beatrice também. As mais novas, é claro, ficaram um pouco agitadas, mas muito nervosas. O sr. Ellis, como seria natural, não ficou tão perturbado como a gente, pois trabalhava aqui há pouco tempo, mas se comportou com bastante consideração e insistiu que Beatrice e eu bebêssemos um cálice de vinho do Porto para nos recuperarmos do choque. E pensar que durante todo o tempo o bandido era ele...

A sra. Leckie não conseguiu mais falar, e os olhos dela faiscaram de indignação.

– Ele sumiu naquela noite, pelo que sei.

– Sim, senhor. Ele se recolheu na mesma hora que nós, mas de manhã não estava no quarto. Por isso a polícia suspeitou dele, é claro.

– É, grande estupidez da parte dele. Tem ideia de como ele saiu de casa?

– Nem a mínima ideia. Parece que a polícia ficou de tocaia a noite toda e disse que não viu ninguém saindo. Mas policiais são humanos como todo mundo, apesar de se acharem os tais, que podem ir entrando na casa de um cavalheiro para bisbilhotar.

– Ouvi comentários sobre uma passagem secreta – mencionou Sir Charles.

A sra. Leckie fungou.

– Isso é o que a polícia diz.

– Existe a tal passagem?

– Já ouvi falar nela – concordou a sra. Leckie, precavida.

– Sabe onde ela começa?

– Não, não sei. Passagens secretas são muito interessantes e tal, mas é o tipo de assunto que a gente não estimula na ala dos empregados. As moças se enchem de ideias imaginativas. Podem pensar em escapulir desse jeito. Minhas moças saem pela porta dos fundos e entram pela porta dos fundos! Assim, sabemos exatamente em que pé está.

– Excelente, sra. Leckie. Sabedoria não lhe falta.

A sra. Leckie se encolheu ao sol da aprovação de Sir Charles.

– Será – continuou ele – que podemos fazer só umas perguntinhas às demais empregadas?

– Claro, senhor. Mas elas não vão lhe dizer mais do que eu.

– Ah, sei disso. Estou menos interessado em Ellis do que no próprio Sir Bartholomew... Como ele se comportou naquela noite e assim por diante. Sabe, ele era meu amigo.

– Sei, senhor. Entendo perfeitamente. Tem a Beatrice e a Alice. Ela atendeu a mesa, é claro.

– Sim, eu gostaria de falar com Alice.

A sra. Leckie, entretanto, acreditava piamente na hierarquia por antiguidade. Beatrice Church, a camareira-chefe, foi a primeira a aparecer.

Alta, magricela, lábios apertados e aparência agressivamente respeitável.

Depois de umas perguntas sem importância, Sir Charles conduziu a conversa ao comportamento dos convidados na noite fatal. Todos ficaram terrivelmente perturbados? O que disseram ou fizeram?

Uma leve animação tomou conta de Beatrice. Ela, como é comum, também sentia um deleite sanguinolento por tragédias.

– A srta. Sutcliffe ficou muito abalada. Dama amabilíssima. Já se hospedou aqui outras vezes. Ofereci-me para trazer um cálice de conhaque ou uma boa xícara de chá, mas ela nem quis ouvir falar. Contudo, aceitou uma aspirina. Disse que sabia que não ia conseguir dormir. Mas dormia como criancinha na manhã seguinte quando levei para ela o primeiro chá.

– E a sra. Dacres?

– Não creio que nada nesse mundo possa perturbar aquela mulher.

Pela entonação de Beatrice, ela não gostava de Cynthia Dacres.

– Só parecia ansiosa para ir embora, ela. Disse que seria ruim para os negócios. Ela é uma famosa estilista em Londres, o sr. Ellis nos contou.

Uma famosa estilista, para Beatrice, significava “globalização”, e ela menosprezava a globalização.

– E o marido dela?

Beatrice fungou.

– Acalmou os próprios nervos à base de conhaque. Ou os agitou ainda mais, depende do ponto de vista.

– E quanto a Lady Mary Lytton Gore?

– Uma simpatia de senhora – falou Beatrice, enternecendo o tom. – Minha tia-avó trabalhou com o pai dela no Castelo. Bonita quando jovem, sempre ouvi dizer. Pode ser pobre, mas a gente percebe que tem pedigree... Sempre atenciosa, sem causar problema e falando de modo gentil. A filha dela é uma boa moça também. Não eram amigas chegadas de Sir Bartholomew, é claro, mas ficaram muito aflitas.

– A srta. Wills?

Um pouco da aspereza de Beatrice retornou.

– Não saberia dizer, senhor, o que é que a srta. Wills achou de tudo aquilo.

– Mas o que você achou dela? – indagou Sir Charles. – Vamos Beatrice, seja humana.

Um sorriso inesperado insinuou-se meio à força nas impassíveis bochechas de Beatrice. Havia algo suplicantemente colegial na atitude de Sir Charles. Ela não era imune ao charme que cativara com tanta intensidade, noite após noite, as plateias noturnas.

– Sinceramente, senhor, não sei o que espera que eu diga.

– Só o que você pensou e sentiu sobre a srta. Wills.

– Nada, senhor, nada mesmo. Ela não era, é claro...

Beatrice titubeou.

– Vá em frente, Beatrice.

– Bem, ela não era exatamente da mesma classe dos outros. Não era culpa dela, eu sei – prosseguiu Beatrice em tom afável. – Mas ela fez coisas que uma dama de verdade não teria feito. Ela se intrometeu, se é que o senhor me entende, ficou bisbilhotando por aí.

Sir Charles esforçou-se para obter mais detalhes sobre essa afirmação, mas Beatrice ficou em cima do muro. A srta. Wills bisbilhotara, mas, solicitada a dar um exemplo específico da bisbilhotice, Beatrice pareceu incapaz de fornecê-lo. Apenas repetiu que a srta. Wills se meteu onde não era chamada.

Por fim, os dois desistiram, e o sr. Satterthwaite disse:

– O jovem sr. Manders chegou de modo inesperado, não foi?

– Sim, senhor, ele sofreu um acidente... Bateu no muro perto do portão do chalé. Alegou que teve sorte por ter acontecido justo aqui. A casa estava cheia, é claro, mas a srta. Lyndon improvisou uma cama para ele no pequeno gabinete.

– Todo mundo ficou surpreso ao vê-lo?

– Ah, sim, claro que sim.

Convidada a opinar sobre Ellis, Beatrice manteve-se neutra. Quase nem tinha conversado com ele. Pegou mal fugir do jeito que ele fugiu, mas não conseguia imaginar um motivo pra ele querer machucar o patrão. Ninguém conseguia.

– Como é que o doutor se comportou? Parecia ansioso para a festa? Tinha algum plano na cabeça?

– Parecia especialmente alegre. Sorria consigo mesmo, é verdade, como quem está bem-humorado. Inclusive escutei ele brincando com o sr. Ellis, coisa que nunca fez com o sr. Baker. Em geral, ele era meio direto com os empregados. Sempre amável, mas de poucas palavras.

– O que ele disse? – quis saber o sr. Satterthwaite, avidamente.

– Ai, agora não lembro ao certo, senhor. O sr. Ellis trouxe um recado telefônico, e Sir Bartholomew perguntou se ele tinha certeza de ter pego os nomes corretos, e o sr. Ellis disse que tinha certeza absoluta... Falando com o maior respeito, é claro. Então o doutor deu uma risada e falou: “Você é um bom sujeito, Ellis, um mordomo de primeira. Não acha, Beatrice?”. E eu fiquei tão surpresa, senhor, com o jeito como o patrão falou comigo, bem diferente do que o de costume, que fiquei sem saber o que dizer.

– E Ellis?

– Ele fez um olhar de censura, como se não fosse o tipo de coisa com a qual estava acostumado. Formal como só ele.

– Qual era a mensagem telefônica? – indagou Sir Charles.

– A mensagem, senhor? Ah, era da clínica. Sobre uma paciente recém-chegada de viagem.

– Lembra o nome?

– Um nome esquisito, senhor – vacilou Beatrice. – Sra. De Rushbridger... algo parecido.

– Ah, sim – disse Sir Charles de modo apaziguador. – Nomezinho complicado de guardar certo pelo telefone. Bem, muito obrigado, Beatrice. Agora talvez possamos conversar com Alice.

Quando Beatrice saiu da sala, Sir Charles e o sr. Satterthwaite compararam ideias numa troca de olhares.

– A srta. Wills bisbilhotou, o capitão Dacres se embebedou, a sra. Dacres não mostrou emoção alguma. Alguma coisa de útil? Quase nada.

– Quase nada mesmo – concordou o sr. Satterthwaite.

– Vamos apostar todas as nossas fichas em Alice.

Recato balzaquiano em olhos negros, Alice não escondia o prazer em falar.

Ela mesma não acreditava que o sr. Ellis tivesse algo a ver com o caso. Muito cavalheiro para isso. A polícia insinuou que ele não passava de um vigarista ordinário. Alice tinha certeza de que ele não era nada disso.

– Tem certeza absoluta de que ele era um mordomo honesto e comum? – perguntou Sir Charles.

– Comum não. Não era igual a nenhum outro mordomo com quem eu já trabalhei antes. Tinha um estilo diferente de trabalhar.

– Mas você não acha que ele envenenou seu patrão.

– Ah, senhor, não vejo como ele pode ter feito. Eu estava atendendo a mesa com ele, e ele não poderia ter colocado nada na comida do patrão sem que eu tenha visto.

– E a bebida?

– Ele passou com a bandeja e as taças de vinho. Primeiro o xerez, com a sopa, e depois o vinho branco do Reno e o vinho tinto de Bordeaux. Mas o que é que ele poderia fazer, senhor? Se tivesse qualquer coisa no vinho ele teria envenenado todo mundo. Ou todos que o tomassem. Só tem um detalhe: o patrão não tomou algo que ninguém mais tomou. A mesma coisa com o vinho do Porto. Todos os cavalheiros e algumas senhoras tomaram vinho do Porto.

– As taças de vinho foram retiradas numa bandeja?

– Sim, senhor, eu segurei a bandeja e o sr. Ellis colocou as taças ali. Depois, levei a bandeja até a copa, e lá estavam elas, quando a polícia chegou para examiná-las. A bandeja e as taças de Porto ainda estavam na mesa. E a polícia não encontrou nada.

– Tem certeza de que o doutor não comeu nem bebeu algo que ninguém mais experimentou?

– Não que eu tenha visto, senhor. Para ser sincera, tenho certeza de que não.

– Nada que um dos hóspedes tenha dado a ele...

– Ah, isso não, senhor.

– Sabe algo sobre uma passagem secreta, Alice?

– Um dos jardineiros tocou nesse assunto. Termina no meio da floresta onde tem umas ruínas antigas. Mas eu nunca vi acesso nenhum a essa passagem aqui na casa.

– Ellis nunca mencionou nada sobre isso?

– Ah, nem pensar, ele não sabia nada disso, tenho certeza.

– Quem realmente você acha que matou seu patrão, Alice?

– Não sei, senhor. Não consigo acreditar que alguém tenha feito isso... Tenho a impressão de que deve ter sido uma espécie de acidente.

– Hum... Obrigado, Alice.

– Não fosse pela morte de Babbington – observou Sir Charles logo que a moça se retirou da sala –, nós poderíamos elegê-la como suspeita. Mocinha bonita, de prontidão junto à mesa. Não, a coisa não fecha. Babbington foi assassinado; e, afinal, Tollie nunca espichava o olho para moças, por mais bonitas que fossem. Não era o estilo dele.

– Mas ele tinha 55 anos – observou o sr. Satterthwaite pensativo.

– Por que diz isso?

– É a idade em que um homem perde completamente a cabeça pelas jovens... Mesmo que nunca tenha perdido antes.

– Puxa, Satterthwaite, eu... hã... estou quase chegando aos 55.

– Eu sei – disse Satterthwaite.

E ante o olhar suave e divertido do amigo, os olhos de Sir Charles baixaram.

Evidentemente, ele corou...