Tragédia em Três Atos

Agatha Christie · Capítulo 25 de 29

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Tragédia em Três Atos

Capítulo 12

Um dia em Gilling

 

I

Logo se seguiu uma acirrada discussão. Um guia com os horários dos trens foi posto em cima da mesa. Foi decidido que seria melhor pegar um trem matutino do que ir de carro.

– Até que enfim – disse Sir Charles – vamos esclarecer este detalhe do mistério.

– E a seu ver, qual é o mistério por trás dessa mulher? – perguntou Egg.

– Não tenho ideia. Mas é certo que vai nos dar uma luz no caso Babbington. Se Tollie reuniu aquele pessoal de propósito, como eu tenho certeza absoluta de que fez, então a “surpresa” que ele comentou que preparava aos convidados tinha algo a ver com essa tal De Rushbridger. Podemos partir desse pressuposto, não acha, monsieur Poirot?

Poirot balançou a cabeça com ar perplexo.

– Este telegrama complica as coisas – murmurou. – Mas temos que ser rápidos... Extremamente rápidos.

O sr. Satterthwaite não via razão para tanta pressa, mas concordou com polidez.

– Certo. Vamos pegar o primeiro trem da manhã. Hum... ou melhor, será que é necessário todos irem?

– Sir Charles e eu combinamos uma investigação em Gilling – lembrou Egg.

– Podemos adiar isso – ponderou Sir Charles.

– Podemos adiar coisa nenhuma – objetou Egg. – Não precisa de uma comissão de quatro pessoas para ir até Yorkshire. É patético. Invasão em massa. Monsieur Poirot e o sr. Satterthwaite vão a Yorkshire enquanto Sir Charles e eu vamos a Gilling.

– Prefiro investigar o mistério da sra. De Rushbridger – alegou Sir Charles com um quê de tristeza arrependida. – Sabe, eu... hã... Já falei com a enfermeira-chefe antes... Já me intrometi, por assim dizer.

– É justo por isso que não deve se envolver agora – argumentou Egg. – Contou um monte de mentiras e agora que essa sra. De Rushbridger caiu em si você vai se expor como um grande mentiroso. É bem mais importante me acompanhar até Gilling. Se o objetivo é conversar com a mãe da srta. Milray, ela vai se abrir mais para você do que se abriria a qualquer outra pessoa. É o patrão da filha dela, e ela vai ter confiança em você.

Sir Charles mirou o rosto brilhante e sincero de Egg.

– Eu vou a Gilling – decidiu. – Você tem toda a razão.

– Sei que tenho razão – disse Egg.

– Esplêndida combinação no meu ponto de vista – atalhou Poirot de repente. – Como bem disse a mademoiselle, Sir Charles é de longe a pessoa mais adequada para interrogar a sra. Milray. Quem sabe ela não vai contar fatos bem mais relevantes do que aqueles que vamos descobrir em Yorkshire?

Ficou estipulado esse plano de ação. Quinze para as dez da manhã seguinte, Sir Charles passou de carro para apanhar Egg. Poirot e o sr. Satterthwaite já haviam partido de Londres de trem.

A manhã começara encantadora: ensolarada e com um agradável frescor no ar. Egg sentiu a alegria tomar conta de si à medida que se aventuravam pelos vários sinuosos atalhos que Sir Charles do alto de sua experiência havia descoberto ao sul do rio Tâmisa.

Por fim, no entanto, os dois rodavam suavemente na pista da rodovia Folkestone. Após atravessarem Maidstone, Sir Charles consultou o mapa, saiu da rodovia e minutos depois serpenteavam numa estradinha no meio da paisagem rural. Perto de quinze para o meio-dia enfim chegaram à sua meta.

Gilling: um vilarejo esquecido pelo mundo. Igreja velha, casa do pastor, duas ou três lojinhas, uma fileira de chalés, três ou quatro novas casinhas de aluguel a preços baixos e uma bela praça arborizada.

A mãe da srta. Milray morava numa pequena casa em frente à igreja, mas do outro lado da praça.

Enquanto Sir Charles estacionava o carro junto ao meio-fio, Egg perguntou:

– Por acaso a srta. Milray sabe que você vai visitar a mãe dela?

– Ah, sim. Ela escreveu para deixar a velha de sobreaviso.

– Acha que foi uma boa ideia?

– Minha querida, por que não seria?

– Sei lá... Mas você não a trouxe junto.

– Para falar a verdade, achei que ela podia me deixar acanhado. Ela é tão mais eficaz do que eu... Ela provavelmente tentaria conduzir a conversa.

Egg caiu na risada.

Logo descobriram que a sra. Milray destoava da filha de um modo quase risível. Filha severa, mãe meiga; filha angulosa, mãe redonda. A sra. Milray mais parecia um colossal nhoque largado numa poltrona convenientemente posicionada para que pudesse, da janela, espiar tudo que acontecia no mundo lá fora.

Não escondeu a agradável empolgação pela chegada dos visitantes.

– É muita bondade sua, Sir Charles, estou certa disso. Ela fala muito no senhor, a minha Violet. – Violet! Nome particularmente incongruente para a srta. Milray. – Nem sabe o quanto ela o admira. Ela comenta o quanto é interessante trabalhar para o senhor durante todos esses anos. Quer se sentar, srta. Lytton Gore? Vai me desculpar por eu não me levantar. Faz muitos anos que minhas pernas perderam a utilidade. É a vontade de Deus e não me queixo. Só digo que a gente se acostuma com qualquer coisa. Talvez queiram comer ou beber algo depois da viagem?

Sir Charles e Egg disseram que ela não precisava se incomodar, mas a sra. Milray não lhes deu atenção. Bateu palmas de um jeito oriental, e logo apareceu chá com biscoito. Enquanto eles mordiscavam e bebericavam, Sir Charles entrou no assunto da visita.

– A senhora deve ter escutado, sra. Milray, tudo sobre a trágica morte do sr. Babbington, o ex-vigário aqui de Gilling?

O nhoque gigantesco assentiu vigorosamente com a cabeça.

– Sim, é verdade. Li tudo sobre a exumação no jornal. E não consigo imaginar quem é que pode tê-lo envenenado. Sujeito bondoso, sabe. Todo mundo gostava dele... E dela, também. E dos filhos deles e tudo o mais.

– Sem dúvida, é um grande mistério – comentou Sir Charles. – Andamos meio desanimados. Na verdade, nossa esperança é que a senhora talvez possa nos contar algo que ajude a esclarecer essa história.

– Eu? Mas não vejo os Babbington... Deixe-me ver... Tem mais de quinze anos.

– Sei, mas há quem pense que um fato do passado ajude a explicar a morte dele.

– Não vejo como. Levavam uma vida bem pacata... Sempre muito humildes, coitados, e com toda aquela filharada para criar.

A sra. Milray parecia disposta a lembrar do passado, mas suas lembranças lançavam pouca luz ao problema que eles tentavam solucionar.

Sir Charles mostrou a ela uma ampliação de uma foto que incluía os Dacres, um retrato antigo de Angela Sutcliffe e uma imagem meio indistinta da srta. Wills num recorte de jornal. A sra. Milray examinou todos os itens com intenso interesse, mas sem sinais de reconhecimento.

– Eu estaria mentindo se dissesse que lembro dessas pessoas... Claro, faz muito tempo. Mas este lugarejo é pequeno. Pouca gente vai e vem. As mocinhas da família Agnew, as filhas do médico... Todas casadas e espalhadas mundo afora. O médico atual é solteiro. Não faz muito divide o consultório com outro médico, mais jovem que ele. As solteironas Cayley, que sentavam no banco da frente da igreja, morreram todas já faz muitos anos. E os Richardson... Quando ele morreu, ela se mudou para o País de Gales. Isso sem falar no pessoal aqui mesmo do vilarejo, é claro. Mas por aqui as coisas não mudam muito. Violet, imagino, pode lhe contar tanto quanto eu. Ela era mocinha na época e ia seguido na casa do pastor.

Sir Charles tentou sem sucesso visualizar a srta. Milray na pele de uma moça.

Perguntou se a sra. Milray não se lembrava de alguém chamado Rushbridger, mas o nome não evocou quaisquer reações.

Por fim eles se despediram.

O próximo passo: enganar o estômago na padaria. Sir Charles sugeriu comerem bifes numa espelunca de beira de estrada, mas Egg frisou que comendo por ali eles poderiam tomar conhecimento de alguma fofoca local.

– E uma vez na vida você pode comer ovo quente com broinha escocesa – disse ela inflexível. – Homens são tão chatos quando o assunto é comida.

– Sempre achei tão deprimente comer ovo quente – disse Sir Charles submisso.

A atendente falava pelos cotovelos. Tinha lido sobre a exumação nos jornais e ficado devidamente empolgada por se tratar do “antigo pastor”.

– Eu era criança na época – explicou ela. – Mas me lembro dele.

Ela não pôde, entretanto, contar-lhes muita coisa sobre ele.

Depois do almoço improvisado, eles foram até a igreja para examinar os registros de nascimentos, casamentos e mortes. Outra vez nada pareceu promissor nem sugestivo.

Saíram caminhando sem pressa pelo cemitério junto à igreja. Egg lia os nomes nas sepulturas.

– Que nomes bizarros – disse ela. – Olha só, tem uma família inteira de Stavepenny e aqui tem uma Mary Ann Sticklepath!

– Nenhum tem o nome mais bizarro que o meu – murmurou Sir Charles.

– Cartwright? Não tem nada de bizarro nesse nome.

– Eu não quis dizer Cartwright. Cartwright é meu nome artístico, e no fim acabei adotando-o oficialmente.

– Qual é seu nome verdadeiro?

– Não posso contar. É meu segredo macabro.

– É assim tão terrível?

– Nem tão terrível como cômico.

– Ah... me conte, vá.

– Nem pensar! – disse Sir Charles irredutível.

– Por favor.

– Não.

– Por que não?

– Você ia rir na minha cara.

– Eu? Que esperança.

– Você não conseguiria conter o riso.

– Ah, por favor, conte, vá. Conte, conte, conte!

– Nossa, mas que criatura mais persistente você é, Egg. Por que tanta curiosidade?

– Porque você não quer me contar.

– Sua menininha adorável – disse Sir Charles com as estruturas um pouco balançadas.

– Eu não sou menininha.

– Não é? Fico imaginando.

– Me conte – sussurrou Egg suavemente.

Um sorriso cômico e pesaroso estorceu a boca de Sir Charles.

– Tá bom, lá vai. O sobrenome de meu pai era Caretta.

– Sério?!

– Seriíssimo.

– Hum... – murmurou Egg. – É um pouquinho catastrófico. Passar a vida toda sendo Caretta...