Tragédia em Três Atos
Capítulo II
– É, com esse nome eu não chegaria muito longe na carreira, concordo. Eu me lembro – prosseguiu Sir Charles sonhador – de ter brincado com a ideia, na época eu era jovem, de me chamar Ludovic Castiglione... Mas no fim acabei me contentando com uma aliteração britânica: Charles Cartwright.
– Sempre foi Charles?
– Sim, meus padrinhos e madrinhas assim me batizaram. – Ele vacilou e depois disse: – Por que você não diz Charles... e deixa de lado o “Sir”?
– Nada me impede.
– Fez isso ontem. Quando... quando você pensou que eu estava morto.
– Ah, naquela hora. – Egg tentou dar à voz um tom indiferente.
Sir Charles falou de chofre:
– Egg, de um jeito ou de outro esse negócio de assassinato já não parece mais real. Hoje, mais do que nunca, parece fantástico. Eu tinha intenção de desvendar o mistério antes... antes de dar outro passo. Sou supersticioso nisso, sabe... Vinculo o sucesso na resolução de problemas com... outro tipo de sucesso. Poxa, por que faço tantos rodeios? Encenei o amor no palco tantas vezes, mas na vida real o assunto me deixa tímido... Gosta de mim ou do jovem Manders, Egg? Tenho que saber. Ontem cheguei a pensar que era eu...
– Pensou certo...
– Meu anjinho impossível! – exclamou Sir Charles.
– Charles, Charles, não vai me beijar em pleno cemitério da igreja...
– Vou te beijar onde eu bem entender...
II
– Não descobrimos nada – constatou Egg mais tarde, enquanto aceleravam de volta a Londres.
– Tolice. Descobrimos a única coisa que vale a pena descobrir... Que me importa pastores e médicos mortos? Você é única coisa que importa. Sabe, minha querida, tenho trinta anos a mais que você... Tem certeza de que isso não importa?
Egg beliscou o braço dele suavemente.
– Não seja bobo... Fico pensando... Será que os outros descobriram algo?
– Tomara que sim – ponderou Sir Charles generoso.
– Charles... Você sempre pareceu tão interessado.
Mas Sir Charles não interpretava mais o papel do eminente detetive.
– Bem, era meu show à parte. Agora passei a vez para o monsieur Bigodudus. Agora o problema é dele.
– Acha que ele sabe mesmo quem cometeu os crimes? Ele afirmou que sabia.
– Provavelmente não tem a mínima ideia, mas ele tem que corresponder às expectativas de sua reputação profissional.
Egg permaneceu em silêncio. Sir Charles disse:
– Em que está pensando, meu bem?
– Estava pensando na srta. Milray. Pareceu tão esquisito o jeito dela naquele fim de tarde que comentei com você. Ela recém tinha comprado o jornal sobre a exumação e disse que não sabia o que fazer.
– Tolice – falou Sir Charles sorridente. – Aquela mulher sempre sabe o que fazer.
– Não estou brincando, Charles. Ela pareceu preocupada.
– Egg, meu docinho, o que me interessa as preocupações da srta. Milray? O que interessa além de nós dois?
– É melhor prestar atenção no trânsito! – exclamou Egg. – Não quero ficar viúva antes de ser esposa.
Os dois chegaram ao apartamento de Sir Charles a tempo de tomar o chá. A srta. Milray apareceu para recebê-los.
– Telegrama para o senhor, Sir Charles.
– Obrigado, srta. Milray. Também temos novidades – disse ele com um risinho nervoso e infantil. – A srta. Lytton Gore e eu vamos nos casar.
Depois de um breve silêncio, a srta. Milray disse:
– Ah!... Com certeza serão muito felizes.
Havia um traço estranho na voz dela. Egg percebeu-o, mas antes que pudesse formular sua impressão de modo preciso, Charles Cartwright tinha se virado para ela com uma exclamação súbita.
– Meu Deus, Egg, dê uma olhada nisso. É de Satterthwaite.
Estendeu o telegrama a ela. Egg leu e arregalou os olhos.