Tragédia em Três Atos

Agatha Christie · Capítulo 17 de 29

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Tragédia em Três Atos

Capítulo 5

Divisão da mão de obra

 

– Como vê, o peixe subiu à tona e beliscou a isca – disse Hercule Poirot.

O sr. Satterthwaite, que acompanhara com os olhos a porta se fechando atrás dos outros dois, teve um sobressalto ao se virar para Poirot. O detetive sorria com um quê de deboche.

– Sim, sim, não adianta negar. Mostrou-me intencionalmente a isca naquele dia em Monte Carlo. Não é verdade? Mostrou-me o parágrafo no jornal. Desejava atiçar meu interesse... que eu decidisse me ocupar do assunto.

– É verdade – confessou o sr. Satterthwaite. – Mas achei que tinha fracassado.

– Não fracassou, não. O senhor é um avaliador sagaz da natureza humana, meu amigo. Eu estava padecendo de tédio... Eu não tinha, nas palavras da menininha que brincava perto de nós, “nada pra fazer”. O senhor surgiu no exato instante psicológico. E, falando nisso, quase sempre o crime também depende desse exato instante psicológico. O crime e a psicologia andam de mãos dadas. Mas, voltando à cena, este crime é muito intrigante... Ele me deixa completamente perplexo.

– Qual dos crimes? O primeiro ou o segundo?

– Só há um... O que chamamos de primeiro e segundo crime são apenas duas faces do mesmo crime. A segunda face é simples... Tanto no motivo quanto nos meios adotados...

O sr. Satterthwaite cortou a fala de Poirot.

– Com certeza os meios apresentam igual dificuldade. Não se encontrou veneno no vinho, e a comida foi consumida por todos.

– Não, não, é completamente diferente. No primeiro caso, a impressão que temos é a de que ninguém poderia ter envenenado Stephen Babbington. Sir Charles, se quisesse, poderia ter envenenado um de seus convidados, mas não um deles em especial. Temple talvez pudesse ter escorregado algo na última taça da bandeja... Mas a taça do sr. Babbington não foi a última. Não, o assassinato do sr. Babbington parece tão impossível que eu ainda sinto que talvez seja impossível... Que no fim das contas ele morreu de morte natural... Mas isso nós vamos saber em breve. O segundo caso é diferente. Qualquer um dos convidados, ou o mordomo, ou a copeira, poderia ter envenenado Bartholomew Strange. Nenhuma dificuldade nisso.

– Não vejo como... – iniciou o sr. Satterthwaite.

Poirot atalhou:

– Vou provar isso ao senhor qualquer hora dessas com uma pequena experiência. Agora vamos pular para uma questão mais importante. É crucial, o senhor vai perceber, tenho certeza, pois tem bom coração e sutil inteligência, que eu não assuma o papel de estraga prazeres.

– Quer dizer... – começou o sr. Satterthwaite, com um sorriso incipiente.

– Que Sir Charles tem que assumir o papel de protagonista! Ele está acostumado a isso. E, além do mais, é isso que outra pessoa espera dele. Não estou certo? A mademoiselle não gostou nada de meu interesse no caso.

– Puxa, monsieur Poirot! É como dizem: quando estamos indo, o senhor já está voltando.

– Ah, isso salta aos olhos! Tenho natureza muito sensível. Gosto de facilitar casos de amor, não de dificultá-los. Você e eu, meu amigo, temos que trabalhar juntos nisso... para a honra e a glória de Charles Cartwright, não é mesmo? Quando o caso estiver solucionado...

– Se é que vai ser... – observou timidamente o sr. Satterthwaite.

– Será! Eu não me permito fracassos.

– Nunca? – indagou o sr. Satterthwaite investigativo.

– Já aconteceu – reconheceu Poirot com dignidade – de em breves períodos eu ter sido meio lento. Não percebi a verdade com a rapidez que podia ter percebido.

– Mas nunca fracassou totalmente?

Pura e simples curiosidade motivava a insistência do sr. Satterthwaite.

– Eh bien – disse Poirot. – Uma vez. Tempos atrás, na Bélgica. Mas vamos deixar isso para lá...

O sr. Satterthwaite, com sua curiosidade (maligna) satisfeita, apressou-se em mudar de assunto.

– Certo. O senhor dizia que quando o caso estiver solucionado...

– Sir Charles vai receber os méritos. Isso é fundamental. Sou apenas um grãozinho de areia na imensidão da praia – ele estendeu os braços. – Aqui e ali, de vez em quando, vou dizer uma palavrinha, uma insinuação, nada mais. Não ambiciono honra nem renome. Já tenho todo o renome de que preciso.

O sr. Satterthwaite avaliou-o com interesse. Divertia-se com a ingênua arrogância, o colossal egocentrismo daquele homem. Mas não cometeu o engano de considerar aquilo apenas orgulho vão. Ingleses costumam ser modestos quanto àquilo que sabem fazer bem e às vezes se orgulham de coisas que fazem mal; latinos, porém, sabem apreciar suas próprias capacidades. Se são inteligentes, não veem motivo algum para esconder o fato.

– Eu gostaria de saber – disse o sr. Satterthwaite –, tenho grande interesse em saber... O que exatamente o senhor almeja nesse caso? É a empolgação da caça?

Poirot meneou a cabeça.

– Não, não é só isso. Como o chien de chasse, eu farejo o cheiro no ar, fico alvoroçado e, depois que estou no rastro, não consigo largá-lo. Tudo isso é real. Mas tem mais... É... como direi? Uma obsessão por descobrir a verdade. Em todo o mundo não existe nada tão curioso, nem tão interessante e tão bonito quanto a verdade...

Às palavras de Poirot seguiu-se um breve silêncio.

Logo ele pegou o papel no qual o sr. Satterthwaite copiara cuidadosamente os sete nomes e os leu em voz alta.

– Sra. Dacres, capitão Dacres, srta. Wills, srta. Sutcliffe, Lady Mary Lytton Gore, srta. Lytton Gore e Oliver Manders. Sugestivo, não?

– O que tem de sugestivo?

– A sequência em que os nomes aparecem na lista.

– Não vejo nada de sugestivo nisso. Só tomamos nota dos nomes sem nos preocuparmos com qualquer sequência.

– Exato. A lista começa com a sra. Dacres. Disso eu deduzo que ela é considerada a pessoa mais provável de ter cometido o crime.

– Não a mais provável – objetou o sr. Satterthwaite. – A menos improvável expressaria melhor.

– E uma terceira explicação expressaria ainda melhor. Ela é talvez a pessoa que todos vocês prefeririam que tivesse cometido o crime.

Impulsivo, o sr. Satterthwaite abriu a boca, mas, ao notar o suave deboche nos olhos verdes e brilhantes de Poirot, mudou a frase que ia dizer.

– Fico me perguntando... Talvez esteja certo, monsieur Poirot. Inconscientemente isso pode ser verdade.

– Eu gostaria de lhe perguntar uma coisa, sr. Satterthwaite.

– Com certeza, com certeza – respondeu o sr. Satterthwaite compassivo.

– De tudo que me foi contado até aqui, concluo que Sir Charles e a srta. Lytton Gore foram juntos interrogar a sra. Babbington.

– Sim.

– O senhor não os acompanhou?

– Não. Três pessoas teria sido um exagero.

Poirot sorriu.

– E também, talvez, suas propensões o tenham levado a outro lugar. Tinha, como se costuma dizer, outro alvo na mira. Aonde foi, sr. Satterthwaite?

– Tomar chá com Lady Mary Lytton Gore – informou o sr. Satterthwaite com seriedade.

– E qual foi o tema da conversa?

– Ela foi amável a ponto de me contar uma parte dos problemas do começo de sua vida conjugal.

Repetiu o conteúdo do relato de Lady Mary. Poirot balançou a cabeça em tom compreensivo.

– Isso é tão comum na vida... A jovem idealista que não dá ouvidos a ninguém e se casa com um cafajeste. Mas falaram sobre algo mais? Não falaram, por exemplo, em Oliver Manders?

– Para falar a verdade, sim.

– E o que descobriu sobre ele?

O sr. Satterthwaite repetiu o que Lady Mary havia lhe contado. Depois acrescentou:

– Por que achou que tínhamos falado nele?

– Porque o senhor foi lá por alguma razão. Foi, sim, não adianta protestar. O senhor deseja que a sra. Dacres ou o marido dela tenham cometido o crime, mas acredita que foi o jovem Manders.

Apaziguou os protestos do sr. Satterthwaite.

– Sim, sim, o senhor é o recato em pessoa. Tem suas ideias, mas gosta de mantê-las em segredo. Eu me solidarizo com o senhor. Também faço o mesmo...

– Não suspeito dele... Isso é ridículo. Eu só queria saber mais sobre ele.

– É a isso que me refiro. Ele é sua escolha instintiva. Sabe, eu também me interesso por aquele jovem. Eu me interessei por ele desde a noite do jantar aqui, pois eu percebi...

– Percebeu o quê? – indagou ansioso o sr. Satterthwaite.

– Percebi que pelo menos duas pessoas, talvez mais, encenavam um papel. Uma delas era Sir Charles. – Poirot sorriu. – Encenava o oficial da Marinha, não estou certo? Perfeitamente natural. Um excelente ator não para de interpretar só porque se aposentou dos palcos. Mas o jovem Manders também estava encenando. O papel dele? O do rapaz entediado e indiferente... Mas, na verdade, não estava nem entediado nem indiferente: e sim com os sentidos bem aguçados. Por isso, meu amigo, ele chamou a minha atenção.

– Como sabia que ando meio intrigado com ele?

– Por inúmeros detalhes. O senhor mostrou interesse naquele acidente que acabou levando-o a Melfort Abbey naquela noite. Depois preferiu não ir junto com Sir Charles e a srta. Lytton Gore visitar a sra. Babbington. Por quê? Porque desejava seguir uma linha de investigação particular, ainda não estudada. Foi até a casa de Lady Mary para descobrir fatos sobre alguém. Quem? Só podia ser alguém com conexões locais. Oliver Manders. E então, detalhe revelador, o senhor colocou o nome dele no fim da lista, depois das duas pessoas que em sua opinião realmente são as menos suspeitas, Lady Mary e mademoiselle Egg. Fez isso porque ele é seu cavalo azarão e deseja guardá-lo para si próprio.

– Puxa vida! – exclamou o sr. Satterthwaite. – Sou mesmo esse tipo de gente?

– Précisément. Tem opiniões e observações argutas e prefere guardar para si os resultados. O que pensa das pessoas só lhe diz respeito. Não revela aos quatro ventos.

– Acredito... – começou o sr. Satterthwaite, mas foi interrompido pela volta de Sir Charles.

O ator entrou com passadas animadas e saltitantes.

– Brr... – disse ele. – Que noite traiçoeira.

Serviu um copo de uísque com soda e ofereceu aos outros.

O sr. Satterthwaite e Poirot recusaram a oferta.

– Bem – disse Sir Charles –, vamos esmiuçar nosso plano de operações. Cadê a lista, Satterthwaite? Ah, obrigado. Muito bem, monsieur Poirot, dê seu parecer de conselheiro, por gentileza. É hora de pôr a mão na massa. Como vamos dividir o trabalho pesado?

– Qual é a sua sugestão, Sir Charles?

– Bem, podemos dividir por pessoas... Divisão da mão de obra, que tal? Primeiro, temos a sra. Dacres. Egg parece bem interessada em assumir essa missão. Parece pensar que alguém tão perfeitamente vestida não vai receber tratamento imparcial de meros representantes do sexo masculino. Não deixa de ser uma ideia bem interessante abordá-la pelo âmbito profissional. Assim, caso seja necessário, Satterthwaite e eu podemos usar outro artifício depois. Em seguida, temos o capitão Dacres. Conheço alguns de seus companheiros que frequentam as corridas de cavalo. Imagino que eu possa me encarregar disso. A terceira da lista é Angela Sutcliffe.

– Essa também parece ser tarefa sua, Cartwright – ponderou o sr. Satterthwaite. – Conhece-a muito bem, não é mesmo?

– Sim. Por isso mesmo prefiro que outra pessoa se responsabilize por investigá-la... Em primeiro lugar – ele sorriu pesaroso –, eu posso ser acusado de não me esforçar o suficiente, e em segundo lugar, bem... ela é minha amiga... entendem?

– Parfaitement, parfaitement... É natural que fique cheio de dedos. É mais que compreensível. O nosso bom Satterthwaite o substituirá nessa missão.

– Lady Mary e Egg... Elas não contam, é claro. E quanto a Oliver Manders? A presença dele na noite da morte de Tollie foi acidental; ainda assim, imagino que devemos incluí-lo.

– O sr. Satterthwaite vai investigar o jovem Oliver Manders – disse Poirot. – Mas eu acho, Sir Charles, que o senhor pulou um nome da lista. Faltou a srta. Muriel Wills.

– Pulei mesmo. Bem, se Satterthwaite vai investigar Manders, eu me encarrego de investigar a srta. Wills. Combinado? Alguma sugestão, monsieur Poirot?

– Não... Acho que não. Vou aguardar com interesse os resultados.

– Claro... Dizer isso é chover no molhado. Outra ideia: se conseguirmos fotos dessas pessoas, podemos usá-las em nossas pesquisas em Gilling.

– Esplêndido – aprovou Poirot. – Eu tinha uma coisa para dizer... Ah, sim, o seu amigo, Sir Bartholomew, ele não bebia coquetéis, mas apreciava vinho do Porto?

– Sim, ele tinha especial predileção por vinho do Porto.

– Me parece esquisito que ele não tenha sentido nenhum sabor estranho. A nicotina pura tem um gosto bem marcante e desagradável.

– Não se esqueça – lembrou Sir Charles – de que provavelmente a nicotina não estava no vinho do Porto. O conteúdo das taças foi analisado em laboratório.

– Ah, sim... que bobagem a minha. Mas seja lá como ela tenha sido administrada, a nicotina tem gosto extremamente desagradável...

– Não sei se isso teria alguma importância – ponderou Sir Charles devagar. – Tollie teve uma gripe fortíssima na última primavera e ficou com os sentidos do paladar e do olfato prejudicados.

– Ah, sim – murmurou Poirot pensativo. – Isso pode ser uma explicação. Simplifica bastante as coisas.

Sir Charles aproximou-se da janela e olhou para fora.

– Que vendaval. Vou mandar buscar suas coisas, monsieur Poirot. O Hotel Rosa e Coroa até quebra o galho para artistas entusiásticos, mas acho que o senhor vai preferir higiene apropriada e uma cama confortável.

– O senhor é extremamente gentil, Sir Charles.

– Não é gentileza nenhuma. Vou providenciar isso agora mesmo.

Ele saiu da sala.

Poirot dirigiu-se ao sr. Satterthwaite.

– Posso fazer uma sugestão?

– Sim?

Poirot inclinou-se à frente e disse em voz baixa:

– Pergunte ao jovem Manders por que ele forjou um acidente. Conte-lhe que a polícia suspeita dele... E veja como é que ele se sai dessa.