Tragédia em Três Atos

Agatha Christie · Capítulo 7 de 29

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Tragédia em Três Atos

Capítulo 2

O mordomo desaparecido

 

No gabinete do chefe de polícia, Sir Charles e o sr. Satterthwaite foram convidados a se sentar. Bochechas coradas, vozeirão de caserna e modos cordiais, o coronel Johnson havia recebido o sr. Satterthwaite com todas as demonstrações de alegria, claramente encantado pela oportunidade de conhecer o famoso Charles Cartwright.

– Minha mulher é viciada em teatro. Ela é uma de suas... Como é mesmo que os americanos falam? Fãs. Isto mesmo: fãs. Eu também gosto de uma boa peça... Ou melhor, boa e decente. Hoje em dia eles levam ao palco cada coisa... Uma pouca vergonha!

Sir Charles, seguro de sua integridade moral a esse respeito – ele nunca participara de peças “ousadas” –, deu uma resposta adequada com todo o seu jeito cativante. Quando disseram o motivo da visita, o coronel Johnson contou-lhes prontamente tudo o que sabia.

– Amigo de vocês, é mesmo? Uma pena... Uma pena. Sim, ele era muito benquisto por aqui. A clínica dele é bem conceituada, e a opinião era unânime: Sir Bartholomew era um sujeito de primeira categoria, além de estar no topo, profissionalmente falando. Amável, generoso e popular. O último homem no mundo que esperaríamos ser assassinado... E esse caso tem toda a cara de ser assassinato. Não há nada que sugira suicídio, e parece fora de questão qualquer possibilidade de se tratar de acidente.

– Satterthwaite e eu recém chegamos do exterior – explicou Sir Charles. – Só tivemos acesso a fragmentos aqui e ali nos jornais.

– E, como seria de esperar, os senhores desejam saber de todos os detalhes. Bem, vou lhes contar em que pé estão as coisas. A meu ver, não há dúvida de que o mordomo é a pessoa que temos que procurar. Ele era recém-contratado... Sir Bartholomew estava com ele há apenas quinze dias, e logo depois do crime ele some, desaparece como num passe de mágica. Isso parece meio suspeito, não? Que tal?

– Para onde ele foi? A polícia não tem pistas?

O rosto naturalmente vermelho do coronel Johnson ficou ainda mais vermelho.

– Negligência nossa, devem estar pensando. Diabos, eu admito, até parece. Lógico que nossa gente estava de olho nele e em todos os demais na casa. Ele respondeu a nossas perguntas de modo bastante satisfatório e nos passou o nome da agência de empregos de Londres que lhe conseguiu o trabalho. Ao que consta, Sir Horace Bird foi seu último empregador. Depoimento educado, sem sinal de nervosismo. Depois, num piscar de olhos, ele some... Mesmo com a casa vigiada. Chamei a atenção dos meus subordinados, mas eles juram que sequer piscaram os olhos.

– Extraordinário – disse o sr. Satterthwaite.

– Acima de tudo – observou Sir Charles, pensativo –, parece estupidez. Até onde ele sabia ninguém suspeitava dele. Ao fugir, chamou atenção para si.

– Exato. E sem esperança de escapar. A descrição dele já foi divulgada. É só uma questão de dias para que seja capturado.

– Esquisito – comentou Sir Charles. – Não entendo.

– Ah, o motivo está bem claro. Perdeu o controle. Ficou com medo.

– Quem tem controle para cometer assassinato não saberia se controlar depois?

– Depende. Não é de hoje que conheço esses criminosos. São uns covardes. Sentiu que a gente suspeitava dele e saiu de fininho.

– A polícia checou as informações que ele forneceu sobre si?

– Lógico que sim, Sir Charles. Isso é trabalho básico de rotina. A agência de empregos londrina confirma a declaração. Ele tinha apresentado uma elogiosa carta de recomendação de Sir Horace Bird. O próprio Sir Horace está na África Oriental.

– Então a carta de recomendação pode ter sido falsificada?

– Exato – assentiu o coronel Johnson, abrindo um sorriso para Sir Charles, com o ar do professor que felicita o aluno inteligente. – Enviamos um telegrama para Sir Horace, é claro, mas pode levar um tempo antes de obtermos a resposta. Está em pleno safári.

– Quando o mordomo sumiu?

– Na manhã seguinte à morte. Havia um médico presente no jantar, Sir Jocelyn Campbell, uma espécie de toxicologista, pelo que entendi. Ele e Davis, o médico local, concordaram sobre o caso, e de imediato nossa gente foi chamada. Interrogamos todos naquela noite. Ellis, esse é o nome do mordomo, recolheu-se ao quarto dele como de costume e, na manhã seguinte, ninguém sabia de seu paradeiro. A cama nem estava desfeita.

– Escapuliu no meio da madrugada?

– É o que parece. Uma das hóspedes, a srta. Sutcliffe, a atriz... Vocês a conhecem, talvez?

– Muito bem, na verdade.

– A srta. Sutcliffe nos deu um palpite. Sugeriu que o homem saiu da casa por uma passagem secreta. – Assoou o nariz meio sem jeito. – Parece coisa de Edgar Wallace, mas ao que consta existe um túnel secreto. Sir Bartholomew se orgulhava dele e o mostrou para a srta. Sutcliffe. O túnel vai dar nas imediações de uma tapera, a uns 800 metros de distância.

– Essa seria uma explicação possível, com certeza – concordou Sir Charles. – Mas será que o mordomo sabia da existência dessa passagem?

– Aí está o xis da questão, é claro. Minha esposa diz que os empregados sempre sabem de tudo. Acho que ela sabe do que está falando.

– Lemos que o veneno usado foi nicotina – mencionou o sr. Satterthwaite.

– Isso mesmo. Esse veneno não é comum, acredito... Raro, até. Se a pessoa é fumante inveterada, como no caso do doutor, isso tende a complicar as coisas. Quero dizer, ele bem podia morrer envenenado por nicotina de modo natural. Mas, claro, foi tudo muito repentino para se enquadrar nessa hipótese.

– Como ela foi ministrada?

– Não sabemos – admitiu o coronel Johnson. – Esse é o ponto mais frágil do caso. Conforme as provas médicas, a ingestão ocorreu pouco antes da morte.

– Eles estavam bebendo vinho do Porto, não é?

– Sim. À primeira vista, tem-se a impressão de que o veneno estava no vinho do Porto. Ledo engano. Analisamos a taça dele, continha apenas vinho do Porto e nada além disso. Não sobrou vinho nas outras taças, é claro, mas todas estavam numa bandeja na copa, ainda não lavadas, e nenhuma continha algo que não devia. Quanto ao que ele comeu, foi o mesmo que todos os demais. Sopa, linguado na grelha, faisão, lascas de batata assada, suflê de chocolate e torradas com ovas de arenque. A cozinheira trabalhava para ele há quinze anos. É, parece que não há como ele ter ingerido a nicotina, mas o fato é que ela estava no estômago dele. É um problema sério.

Sir Charles voltou o olhar ao sr. Satterthwaite.

– A mesma coisa – disse com a voz exaltada. – Igual à outra vez.

Ele se virou ao chefe de polícia com ar de desculpas.

– Deixe-me explicar. Houve um falecimento em minha casa na Cornualha...

O coronel Johnson demonstrou interesse.

– Já ouvi falar no caso. Quem contou foi a moça, a srta. Lytton Gore.

– Sim, ela estava lá. Ela contou ao senhor?

– Contou, sim. Estava obcecada com essa história. Mas, sabe, Sir Charles, não creio que haja fundamento nessa tese. Não esclarece a fuga do mordomo. Por acaso o seu mordomo também desapareceu?

– Não tenho mordomo, só copeira.

– Não poderia ser um homem disfarçado?

Ao lembrar da silhueta elegante e nitidamente feminina de Temple, Sir Charles abriu um sorriso.

O coronel Johnson também sorriu, como quem se desculpa.

– Só uma ideia – disse ele. – Mas não posso dizer que ponho muita fé na tese da srta. Lytton Gore. Se não estou enganado, a morte em questão foi a de um pastor idoso. Quem é que ia querer eliminar um velho pastor?

– É justo esse detalhe que nos deixa mais perplexos – disse Sir Charles.

– Acho que vão descobrir que não passa de uma coincidência. Podem acreditar: o mordomo é o culpado. É bem provável que ele seja um criminoso de ficha corrida invejável. Foi um grande azar não conseguirmos pegar suas impressões digitais. Um datiloscopista tentou coletá-las no quarto do mordomo e na copa, mas não teve sucesso.

– Se foi o mordomo, qual motivo o senhor sugere?

– Isso, é claro, é uma de nossas dificuldades – admitiu o coronel Johnson. – Uma hipótese: o sujeito se empregou lá com a intenção de roubar, e Sir Bartholomew o pegou em flagrante.

Sir Charles e o sr. Satterthwaite permaneceram num silêncio polido. O próprio coronel Johnson pareceu notar que a ideia não era plausível.

– Até onde sabemos, só podemos teorizar. Assim que John Ellis estiver preso e soubermos sua identidade, se já tem ou não ficha na polícia... Bem, daí o motivo vai se tornar claro como água.

– Imagino que a polícia já tenha investigado os papéis de Sir Bartholomew?

– Bem observado, Sir Charles. Demos toda a atenção a essa abordagem. Vou apresentá-lo ao superintendente Crossfield, o encarregado do caso. Policial de suprema confiança. Fiz questão de salientar, e ele concordou rápido comigo, que a profissão de Sir Bartholomew talvez tivesse conexão com o crime. Um médico fica sabendo de muitos segredos profissionais. Os documentos de Sir Bartholomew estavam todos arquivados e etiquetados com esmero. A secretária dele, a srta. Lyndon, mostrou um por um a Crossfield.

– E não havia nada neles?

– Nada de sugestivo, Sir Charles.

– Deram por falta de algo na casa... Prataria, joias, coisas assim?

– Absolutamente nada.

– Quem estava hospedado na casa?

– Tenho uma lista. Hum... onde ela está? Acho que Crossfield está com ela. Por falar nisso, ele deve estar chegando a qualquer minuto para fazer o relatório. – Naquele instante soou uma campainha. – Deve ser ele.

Encorpado e maciço, o superintendente Crossfield tinha fala lenta, mas olhos azuis argutos.

Cumprimentou o oficial superior e foi apresentado aos dois visitantes.

Talvez se o sr. Satterthwaite estivesse sozinho achasse mais difícil deixar Crossfield à vontade. Crossfield torcia o nariz para cavalheiros londrinos – amadores que vinham da capital “dar palpites”. Com Sir Charles, porém, o assunto era diferente. O superintendente Crossfield cultivava uma reverência infantil pelo glamour do palco. Assistira a duas peças com Sir Charles no elenco, e a empolgação e o enlevo de ver ao vivo e a cores esse ídolo do teatro o tornaram amigável e falante como nunca.

– Assisti a uma peça sua em Londres, senhor, assisti mesmo. Fui à capital com a patroa. O dilema de Lord Aintree... esse era o título da peça. Ficamos lá nas últimas fileiras, pois o teatro estava lotado. Duas horas na fila para garantir lugar. Mas a patroa nem reclamou. Ela só dizia: “Tenho que ver Sir Charles Cartwright em O dilema de Lord Aintree”. Foi no teatro Pall Mall.

– Bem – disse Sir Charles –, já me aposentei dos palcos, como sabe. Mas ainda conhecem meu nome no Pall Mall. – Sacou do bolso um cartão e escreveu umas palavras nele. – Entregue isto ao pessoal da bilheteria na próxima vez que o senhor e a sra. Crossfield forem passear na capital. Eles vão conseguir dois dos melhores lugares da plateia.

– É muita bondade sua, Sir Charles, muita bondade mesmo. A patroa vai ficar toda agitada quando eu contar a ela.

Depois disso, o superintendente Crossfield ficou maleável como cera nas mãos do ex-ator.

– Caso bizarro. Nunca antes em toda a minha carreira eu tinha visto um caso de envenenamento por nicotina. Nem o dr. Davis.

– Eu acreditava que se tratava de um tipo de doença causada por excesso de tabagismo.

– Para dizer a verdade, eu também, senhor. Mas o médico diz que o alcaloide puro é um líquido inodoro e que poucas gotas dele são suficientes para matar um homem de modo quase instantâneo.

Sir Charles assobiou.

– Substância potente.

– Verdade, senhor. Mas tem uso amplo, por assim dizer. Existem preparados para pulverizar roseiras. E, claro, pode ser extraído das folhas do fumo.

– Roseiras – comentou Sir Charles. – Ora, onde é que eu já ouvi...?

Franziu a testa e em seguida balançou a cabeça.

– Alguma novidade a relatar, Crossfield? – indagou o coronel Johnson.

– Nada de definitivo. Temos relatos de que Ellis foi visto em Durham, Ipswich, Balham, Land’s End e uma dúzia de outros lugares. Temos que peneirar as informações para ver quais são úteis. – Ele se virou aos outros dois. – Quando se divulga a descrição de um homem procurado, ele é visto por alguém em toda a Inglaterra afora.

– Qual é a descrição do homem? – quis saber Sir Charles.

Johnson puxou um papel.

– John Ellis: estatura mediana, digamos, 1 metro e 68, ligeiramente corcunda, grisalho, suíças pequenas, olhos escuros, voz rouca, dente de cima faltando, visível quando sorri, sem marcas nem características especiais.

– Hum... – murmurou Sir Charles. – Muito vago, à exceção das suíças e do dente; as primeiras já devem ter sido cortadas e não se pode confiar que ele vá sair sorrindo por aí.

– O problema é – explicou Crossfield – que as pessoas não sabem utilizar os olhos. Tive uma dificuldade danada para arrancar as descrições mais incertas das empregadas lá em Abbey. É sempre a mesma coisa. Peço a descrição do mesmíssimo homem e o que ouço? Magro, alto, baixo, robusto, estatura mediana, atarracado, esguio... De cada cinquenta pessoas, uma presta atenção, e olhe lá.

– Superintendente, lhe convence a tese de que Ellis é o culpado?

– Por que outro motivo ele fugiu, sir? Desse fato ninguém pode escapar.

– Esse é o maior empecilho – falou Sir Charles pensativo.

Crossfield virou-se ao coronel Johnson e relatou as medidas que haviam sido tomadas. O coronel assentiu com a cabeça e, em seguida, pediu ao superintendente a lista de empregados e convidados presentes em Melfort Abbey na noite do crime. A lista que foi entregue aos dois novos investigadores era composta pelos seguintes nomes:

MARTHA LECKIE – cozinheira

BEATRICE CHURCH – camareira-chefe

DORIS COKER – primeira camareira

VICTORIA BALL – segunda camareira

ALICE WEST – copeira

VIOLET BASSINGTON – auxiliar de cozinha

(Toda a equipe acima trabalhava para o falecido há algum tempo e demonstrou bom caráter. A sra. Leckie trabalhava para ele há quinze anos.)

GLADYS LYNDON – secretária de Sir Bartholomew, 33 anos de idade, no cargo há três anos, incapaz de informar o motivo provável.

Convidados:

LORDE E LADY EDEN – Cadogan Square, 187.

SIR JOCELYN e LADY CAMPBELL, Harley Street, 1256.

SRTA. ANGELA SUTCLIFFE, Cantrell Mansions, 28, S.W.3

CAPITÃO e SRA. DACRES, St John’s House, 3, W.1. (sra. Dacres é a estilista dona da empresa Ambrosine Ltda., Bruton Street.)

LADY MARY e SRTA. HERMIONE LYTTON GORE, Rose Cottage, Loomouth.

SRTA. MURIEL WILLS, Upper Cathcart Road, 5, Tooting.

SR. OLIVER MANDERS, Speier & Ross, Old Broad Street, E. C. 2.

– Hum… – murmurou Sir Charles. – A representante de Tooting foi omitida pelos jornais. E o jovem Manders também estava lá.

– Ao que tudo indica isso foi mera casualidade, – explicou o superintendente Crossfield. – O rapaz bateu num muro perto de Melfort Abbey, e Sir Bartholomew, que pelo que pude depreender o conhecia superficialmente, convidou-o para passar a noite.

– Que falta de cuidado – comentou Sir Charles com animação.

– Foi mesmo, senhor – disse o superintendente. – Na verdade, imagino que o moço não conseguia fazer o quatro, como o pessoal diz. É difícil de entender por que ele ia bater naquele muro se estivesse sóbrio.

– Só um pouquinho alegre – disse Sir Charles.

– Alegria etílica, a meu ver, senhor.

– Bem, muito obrigado, superintendente. Vê inconveniente em fazermos uma visita a Melfort Abbey, coronel Johnson?

– Claro que não, meu caro. Mas tenho lá minhas dúvidas se o senhor vai descobrir muito mais do que contamos.

– Tem alguém lá ainda?

– Só a equipe de empregados – informou Crossfield. – Os convidados partiram logo depois do inquérito, e a srta. Lyndon voltou para Harley Street.

– Podemos, talvez, falar com o doutor... hã... Davis, também? – sugeriu o sr. Satterthwaite.

– Boa ideia.

Conseguiram o endereço do médico e, depois de agradecerem calorosamente ao coronel Johnson pela cordialidade, foram embora.