Tragédia em Três Atos

Agatha Christie · Capítulo 10 de 29

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Tragédia em Três Atos

Capítulo 5

No quarto do mordomo

 

– Que tal examinar o quarto de Ellis? – perguntou o sr. Satterthwaite, depois de degustar ao máximo o espetáculo do rubor de Sir Charles.

Sem demora, o ator aproveitou a oportunidade para mudar de assunto.

– Ótimo. Eu ia sugerir exatamente isso.

– Claro que a polícia já deve ter feito um pente fino.

– Ora, a polícia...

Com um gesto de desdém, Aristide Duval abanou a polícia para longe. Ansioso por esquecer seu embaraço momentâneo, lançou-se com vigor renovado em seu papel.

– A polícia não passa de um bando de trouxas – vaticinou impetuosamente. – O que procuravam no quarto de Ellis? Algo que provasse a culpa dele. Vamos procurar provas de sua inocência... Coisa bem diferente.

– Está absolutamente convencido da inocência de Ellis?

– Se estivermos certos sobre Babbington, ele deve ser inocente.

– Sim, e além do mais...

O sr. Satterthwaite não terminou a frase. Estava prestes a dizer que, se Ellis fosse um criminoso profissional desmascarado por Sir Bartholomew e que por esse motivo ele o havia assassinado, o caso inteiro ficaria insuportavelmente insípido. Bem a tempo, lembrou-se da antiga amizade entre Sir Bartholomew e Sir Charles Cartwright. Satterthwaite sentiu-se devidamente chocado pela falta de sensibilidade que por pouco não revelou.

À primeira vista, o quarto de Ellis não parecia oferecer muitas promessas de descobertas. Todas as roupas organizadas com asseio no armário, em gavetas ou em cabides. Por sinal, roupas de bom talhe, com etiquetas de diferentes alfaiatarias. Claramente refugos, presentes de ex-patrões. A roupa de uso diário se enquadrava no mesmo padrão. Botas engraxadas com esmero, guardadas com formas de sapatos em seu interior.

O sr. Satterthwaite pegou uma bota e murmurou:

– Tamanho 43.

Como não havia pegadas no caso, isso não parecia ser lá de muita ajuda.

Parecia óbvio, levando em conta a ausência do uniforme de mordomo, que Ellis o vestia no momento da fuga. O sr. Satterthwaite chamou a atenção de Sir Charles para esse fato extraordinário.

– Qualquer homem em seu juízo perfeito teria trocado de roupa e colocado um terno comum.

– Sim, isso é estranho... Meio ridículo, mas até parece que ele nem chegou a fugir... Tolice, claro.

Continuaram a vasculhar o quarto. Nenhuma carta, nenhum documento, à exceção de um recorte de jornal sobre como curar calos do pé e um parágrafo sobre o iminente casamento da filha de um duque.

Numa mesinha havia um bloco de papel mata-borrão e um frasco de tinta para caneta-tinteiro, daqueles que custam um centavo... Mas nem sinal de caneta. Sir Charles ergueu o mata-borrão na frente do espelho, sem resultado. Havia uma página bastante utilizada, uma mixórdia sem sentido, e os dois avaliaram que a tinta não era recente.

– Das duas, uma: ou ele não escreveu nenhuma carta desde que veio para cá, ou não removeu o excesso de tinta no papel mata-borrão – deduziu o sr. Satterthwaite.

– Esse mata-borrão não é recente. Ah, sim... – Com certa satisfação apontou um L. Baker quase indecifrável no meio dos borrões.

– Eu diria que Ellis não utilizou esse mata-borrão.

– Que coisa mais estranha, não é? – disse Sir Charles devagar.

– Como assim?

– Ora, um homem em geral escreve cartas...

– Não se ele for um criminoso.

– É, acho que você tem razão... Devia haver algo suspeito na conduta dele para fazê-lo escapulir como escapuliu. Mas isso não quer dizer que ele matou Tollie.

Os dois escrutinaram o assoalho, erguendo o tapete e examinando embaixo da cama. Não encontraram nada além de uma mancha de tinta ao lado da lareira. Decepcionante o despojamento do quarto.

Saíram um pouco desconcertados dali. O entusiasmo deles como detetives havia momentaneamente arrefecido.

Possivelmente passou pela cabeça deles que nos livros tudo parecia melhor coordenado.

Trocaram breves palavras com outros componentes da equipe de colaboradoras, novatas de semblante assustado que reverenciavam a experiência da sra. Leckie e de Beatrice Church, mas não veio à tona qualquer informação adicional.

Por fim se despediram.

– Bem, Satterthwaite – disse Sir Charles enquanto atravessavam o gramado –, nada o deixou intrigado... nada mesmo?

O motorista tinha sido instruído para apanhá-los no chalé da entrada da propriedade. O sr. Satterthwaite meditou. Não era seu estilo responder com pressa – em especial porque tinha a sensação de que seria a melhor que algo o tivesse intrigado. Confessar que a expedição toda havia sido perda de tempo não era uma ideia bem-vinda. Repassou na cabeça, um após outro, os depoimentos das empregadas: informações extraordinariamente escassas.

Como Sir Charles acabara de resumir, a srta. Wills bisbilhotara, a srta. Sutcliffe se perturbara, a sra. Dacres nem pestanejara e o capitão Dacres se embriagara. Nada de útil nisso, a menos que a fraqueza de Freddie Dacres revelasse a intenção de afogar no álcool uma consciência pesada. Mas Freedie Dacres, o sr. Satterthwaite bem sabia, embriagava-se com relativa frequência.

– E então? – repetiu Sir Charles, impaciente.

– Nada – confessou o sr. Satterthwaite com relutância. – Com uma exceção... É lícito supor, a julgar pelo recorte de jornal que achamos, que Ellis tinha calos nos pés.

Sir Charles abriu um sorriso amargo.

– Dedução bastante lógica. Mas será que... hã... nos leva a algum lugar?

O sr. Satterthwaite confessou que não.

– A única outra coisa... – começou e se calou.

– Sim? Vamos lá, amigo. Qualquer coisa pode ajudar.

– Achei um pouco esquisito o jeito como Sir Bartholomew brincou com o mordomo... Sabe, como a camareira nos contou. Não sei por quê, mas não parece uma coisa típica dele.

– Não é uma coisa típica – enfatizou Sir Charles. – Conheci Tollie muito bem, bem melhor do que você. Posso testemunhar que ele não fazia o tipo brincalhão. Nunca teria falado daquele jeito a menos que... Bem, a menos que por alguma razão ele não estivesse no seu normal naquela hora. Tem razão, Satterthwaite, este é um detalhe curioso. Mas aonde ele nos leva?

– Bem – começou o sr. Satterthwaite; no entanto, era evidente que a pergunta de Sir Charles era meramente retórica. Estava ansioso não para escutar a opinião do sr. Satterthwaite, mas para ventilar a sua.

– Lembra quando esse incidente aconteceu, Satterthwaite? Pouco depois de Ellis trazer uma mensagem telefônica. Acho que é uma dedução válida assumir que essa mensagem telefônica tenha sido a causa da hilaridade súbita e incomum de Tollie. Deve se lembrar que eu perguntei à camareira sobre o conteúdo da mensagem.

O sr. Satterthwaite assentiu com a cabeça.

– Era para dizer que uma mulher chamada sra. De Rushbridger tinha acabado de chegar na clínica – respondeu para mostrar que ele, também, prestara atenção naquele detalhe. – Não chega a ser particularmente empolgante.

– Não empolga mesmo. Mas, se nosso raciocínio estiver correto, essa mensagem deve conter algum significado importante.

– Sim, sim – murmurou dúbio o sr. Satterthwaite.

– Sem sombra de dúvida – frisou Sir Charles. – Temos que descobrir qual é esse significado. Algo me diz que tem a ver com algum tipo de código. Algo aparentemente inofensivo, mas na verdade com significado bem diferente. Se Tollie estivesse investigando a morte de Babbington, talvez isso tivesse relação com as investigações. Digamos, por exemplo, que ele tenha contratado um detetive particular para descobrir certo fato. Pode ter combinado que, se essa suspeita em especial fosse confirmada, o detetive ligaria e utilizaria essa expressão específica, que passaria despercebida à pessoa que desse o recado. Isso explicaria tanto sua alegria quanto o fato de Tollie ter perguntado se Ellis tinha certeza do nome... Afinal, ele próprio sabia que, na verdade, a pessoa não existia. Como a leve incerteza que a gente revela quando confirma uma informação que considera improvável.

– Acha que não existe essa tal de sra. De Rushbridger?

– Acho que temos que tirar isso a limpo.

– De que modo?

– Podemos ir até a clínica e perguntar à enfermeira-chefe.

– Ela pode estranhar.

Sir Charles deu uma risada.

– Deixa comigo – disse ele.

Os dois se desviaram do caminho de saída e rumaram à clínica. O sr. Satterthwaite comentou:

– E quanto a você, Cartwright? Algo lhe deixou intrigado em tudo isso? Digo, de tudo que conseguimos descobrir em nossa visita.

Sir Charles respondeu com lentidão.

– Sim, fiquei intrigado com uma coisa, sim... Mas que diabo, agora não consigo lembrar o quê.

O sr. Satterthwaite o encarou surpreso. O outro franziu a testa.

– Como posso explicar? Numa hora tive a sensação de que havia algo errado... Algo implausível... só que... não tive tempo de racionalizar o fato na hora. Então acabou ficando de lado.

– E agora não consegue se lembrar do que era?

– Não... só lembro que na hora eu pensei: “Que coisa mais estranha”.

– Foi quando interrogávamos as empregadas? Qual delas?

– Estou dizendo que não lembro. E quanto mais penso mais difícil é de lembrar. Se eu deixar quieto, talvez me venha de repente.

Dali a pouco estavam defronte à fachada da clínica cujo prédio era grande e moderno, separado do gramado da casa por uma cerca. Os dois atravessaram um portão, tocaram a campainha da frente e pediram para falar com a enfermeira-chefe.

Pouco depois ela surgiu. Alta, de meia-idade, rosto inteligente e jeito eficaz. Mostrou conhecer Sir Charles de nome, como amigo do falecido Sir Bartholomew Strange.

Sir Charles explicou que acabara de chegar do exterior e se horrorizara com a notícia da morte do amigo e com as terríveis suspeitas envolvidas. Por isso, viera até a casa para descobrir o máximo de detalhes possíveis. A enfermeira-chefe falou em termos comoventes sobre a perda que Sir Bartholomew representava ao pessoal da clínica e louvou sua destacada carreira na medicina. Sir Charles manifestou interesse em saber o que aconteceria com a clínica. A enfermeira-chefe explicou que Sir Bartholomew tinha dois sócios, ambos médicos competentes, um dos quais morava na clínica.

– Bartholomew tinha muito orgulho deste lugar, eu sei disso – comentou Sir Charles.

– Sim, os tratamentos dele eram famosos pela eficácia.

– Na sua maioria casos neurológicos, não é?

– Sim.

– Pois é... Conheci um sujeito em Monte Carlo que tinha um parente vindo para cá. Nome meio esquisito... Rushbridger... Rusbrigger... algo parecido.

– A sra. De Rushbridger, o senhor quer dizer?

– Isso mesmo. Ela está aqui agora?

– Ah, sim. Mas receio que não possa receber visita... Pelo menos por enquanto. Prescrição de repouso total. – A enfermeira-chefe abriu um sorriso zombeteiro. – Nada de cartas, nada de visitas empolgantes...

– Puxa vida, ela não está tão mal assim, está?

– Caso complicado de colapso nervoso: brancos de memória e grave exaustão nervosa. Mas com o tempo vamos curá-la.

A enfermeira-chefe sorriu de modo tranquilizador.

– Deixe-me ver... Se não me engano, Tollie, Sir Bartholomew, uma vez tocou no nome dela... Ela também era amiga dele além de paciente, não era?

– Acho que não, Sir Charles. Ao menos o doutor nunca tocou nesse assunto comigo. Ela acabou de chegar do Mar do Caribe. E foi muito engraçado, sabe. Rushbridger é um nomezinho complicado para as empregadas lembrarem... Então a arrumadeira, apalermada como só ela, veio e me disse: “A dona Mar do Caribe chegou”. Claro, imagino que “Madame Rushbridger” realmente soe como “dona Mar do Caribe”... Mas é pura coincidência ela ser recém-chegada do Caribe.

– Verdade... verdade... muito divertido. O marido veio junto também?

– Ele continua lá.

– Certo, certo. Vai ver estou confundindo ela com outra pessoa. O doutor parecia especialmente interessado no caso dela?

– Pacientes com amnésia são relativamente comuns, mas sempre despertam o interesse de um médico... As variações, sabe. É raro dois casos apresentarem semelhanças.

– Para mim são todos bizarros. Bem, enfermeira-chefe, obrigado. Foi um prazer ter essa conversinha com a senhora. Sei o quanto Tollie a admirava. Ele vivia falando na senhora – finalizou Sir Charles com certa falsidade.

– Ah, é bom saber. – A enfermeira-chefe ruborizou meio encabulada. – Que personalidade fascinante... Que perda irreparável para todos nós. Estamos completamente chocados. Abismados descreveria melhor. Assassinato! Quem é que ia querer matar o dr. Strange, eu me pergunto. É incrível. Aquele mordomo asqueroso. Espero que a polícia o capture. E sem motivo nem nada.

Sir Charles balançou a cabeça com tristeza; logo os dois se despediram e contornaram o caminho que os levou até o local onde o carro os esperava.

Para se vingar de sua quietude forçada durante a conversa com a enfermeira-chefe, o sr. Satterthwaite mostrou um animado interesse no local do acidente de Oliver Manders, assoberbando o zelador do chalé, sujeito bronco de meia-idade, com perguntas e mais perguntas.

Sim, aquele era o lugar em que o muro tinha sido atingido. O rapaz pilotava uma motocicleta. Não, ele não viu o acidente. Mas ouviu o estrondo e veio para conferir. O rapaz estava ali, exatamente onde os cavalheiros estavam agora. Ele não parecia machucado. Só olhava para a moto com olhar tristonho... E ela ficou destruída. Ele só perguntou qual era o nome do lugar. Ao escutar que era de Sir Bartholomew, disse: “Sorte é para quem tem” e se foi estrada acima, rumo à casa. Pareceu um moço distinto e muito calmo... Do tipo meio enfastiado. Como diabos ele conseguiu a proeza de se acidentar o zelador do chalé não entendia, mas de vez em quando as coisas dão errado mesmo.

– Foi um acidente inusitado – comentou pensativo o sr. Satterthwaite.

Lançou o olhar pela estrada larga e reta. Nada de curvas, nada de cruzamentos perigosos, nada que pudesse causar uma guinada súbita de um motociclista contra um muro de três metros de altura. Acidente inusitado.

– Em que está pensando, Satterthwaite? – indagou Sir Charles com curiosidade.

– Nada – respondeu o sr. Satterthwaite –, nada.

– É inusitado, com certeza – falou Sir Charles, que também fitou o local do acidente com uma expressão perplexa.

Embarcaram no veículo e zarparam.

A cabeça do sr. Satterthwaite estava a mil. A sra. De Rushbridger (a teoria de Cartwright não funcionou) não era uma mensagem codificada... Ela existia mesmo, era uma pessoa de carne e osso. Mas será que havia algum mistério por trás dessa mulher? Será que ela havia testemunhado alguma coisa, ou Bartholomew Strange tinha demonstrado aquela exaltação incomum só porque ela era um interessante caso médico? Apaixonar-se aos 55 anos (o sr. Satterthwaite já presenciara o fato muitas vezes) muda completamente o caráter de um homem. Isso poderia explicar o fato de Sir Bartholomew substituir o jeito arredio pelo espírito brincalhão...

Sua corrente de pensamentos foi interrompida. Sir Charles reclinou-se à frente.

– Satterthwaite – disse ele –, importa-se de voltarmos?

Sem esperar resposta, ele apanhou o tubo intercomunicador para falar com o motorista e deu a ordem. O carro reduziu a velocidade, e o chofer começou a manobrar numa viela adequada. Pouco depois o carro voltou à estrada principal, mas seguiu na direção oposta.

– O que houve? – quis saber o sr. Satterthwaite.

– Eu me lembrei – explicou Sir Charles – do que eu tinha achado estranho. A mancha de tinta no assoalho do quarto do mordomo.