Tragédia em Três Atos

Agatha Christie · Capítulo 22 de 29

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Tragédia em Três Atos

Capítulo 10

Oliver Manders

 

No escritório da empresa Speier & Ross, o sr. Satterthwaite pediu para falar com Oliver Manders e entregou o seu cartão.

Sem demora foi introduzido numa saleta onde Oliver estava sentado atrás de uma escrivaninha.

O rapaz se levantou e apertou a mão do visitante.

– Bondade a sua aparecer, senhor – disse ele.

A entonação com que falou insinuava:

– Sou obrigado a parecer simpático, mas no fundo acho sua visita uma chatice.

O sr. Satterthwaite, porém, não se amofinava com facilidade. Sentou-se, pensativo, assoou o nariz e, espiando por cima do lenço, disse:

– Leu as notícias de hoje de manhã?

– Quer dizer a nova situação financeira? Bem, o dólar...

– Não o dólar – disse o sr. Satterthwaite. – Morte. O resultado da exumação de Loomouth. Babbington foi envenenado... Nicotina.

– Ah, isso... Sim, eu vi. Nossa elétrica Egg vai ficar satisfeita. Ela sempre insistiu que era assassinato.

– Mas o assunto não lhe interessa?

– Meu gosto não é tão tosco. Afinal de contas, assassinato – ele deu de ombros. – Tão violento e sem arte.

– Nem sempre é sem arte – objetou o sr. Satterthwaite.

– Não? Bem, talvez não.

– Depende, não é mesmo, de quem comete o crime. Você, por exemplo, tenho certeza, se cometesse um crime seria de modo bastante artístico.

– Gentileza sua dizer isso – murmurou Oliver arrastando a voz.

– Mas francamente, meu caro rapaz, eu não fiquei nem um pouco convencido com aquele acidente que você forjou. Nem a polícia, pelo que estou sabendo.

Seguiu-se um instante de silêncio – e então uma caneta caiu ao chão.

Oliver disse:

– Vai me desculpar, mas acho que não entendi direito.

– Aquela sua encenação sem arte em Melfort Abbey. Tenho interesse em saber por que você fez aquilo.

Novo silêncio e logo Oliver disse:

– O senhor fala que a polícia... suspeita?

O sr. Satterthwaite confirmou.

– Parece meio suspeito, não acha? – indagou em tom agradável. – Mas talvez você tenha uma explicação lógica.

– Tenho uma explicação – mencionou Oliver devagar. – Se é boa ou não, não sei.

– Vai deixar que eu julgue?

Depois de uma pausa, Oliver disse:

– Fui lá do jeito que fui por sugestão do próprio Sir Bartholomew.

– O quê?! – gritou o sr. Satterthwaite estarrecido.

– Meio esquisito, não é? Mas é verdade. Recebi uma carta dele sugerindo que eu forjasse um acidente e solicitasse hospitalidade. Ele disse que não podia esclarecer seus motivos por escrito, mas que me explicaria assim que tivesse oportunidade.

– E ele explicou?

– Não, ele não explicou... Cheguei lá pouco antes do jantar. Não estive a sós com ele. No fim do jantar ele... ele morreu.

O enfado sumira dos modos de Oliver. Os olhos escuros fitavam o sr. Satterthwaite. Parecia estudar com minúcia as reações provocadas por suas palavras.

– Guardou essa carta?

– Não, eu a rasguei.

– Pena – comentou mordaz o sr. Satterthwaite. – E não contou nada à polícia?

– Não, tudo parecia tão... Bem, tão fantástico.

– É fantástico.

O sr. Satterthwaite meneou a cabeça. Teria Bartholomew Strange escrito a tal carta? Soava muito atípico. A história tinha um toque melodramático que destoava bastante do alegre bom senso do médico.

Levantou o olhar para o rapaz. Oliver continuava a encará-lo. O sr. Satterthwaite pensou: “Ele quer ver se eu engoli a história”.

E falou:

– E Sir Bartholomew não deu razão alguma para o pedido?

– Nem sombra.

– História extraordinária.

Oliver nada disse.

– E apesar disso você atendeu à solicitação?

Parte do enfado voltou a sua atitude.

– Sim, me pareceu um prato de sabor refrescante e especial para um paladar um pouco já saturado. Fiquei curioso, devo confessar.

– Não tem mais nada? – quis saber o sr. Satterthwaite.

– O que quer dizer, senhor, com não tem mais nada?

Nem o sr. Satterthwaite sabia o queria dizer. Deixou-se levar por algum instinto obscuro.

– Quero dizer – explicou ele –, não tem mais nada que possa... ser usado contra você?

Seguiu-se uma pausa. Então o rapaz deu de ombros.

– Imagino que seja melhor desabafar logo. Duvido que a mulher não dê com a língua nos dentes.

O sr. Satterthwaite parecia um ponto de interrogação.

– Foi na manhã seguinte ao crime. Eu conversava com aquela mulher Anthony Armstrong ou coisa que o valha. Puxei minha carteira e uma coisa caiu dela. Ela se abaixou para pegar e me devolveu.

– E essa coisa o que era?

– Infelizmente ela olhou de relance a coisa antes de me devolver. Era um recorte de jornal sobre nicotina... Relatava o veneno mortífero que ela era e assim por diante.

– Como veio a se interessar pelo assunto?

– Não me interessei. Imagino que devo ter colocado aquele recorte em minha carteira há algum tempo, mas não me lembro de ter feito isso. Coisa mais estranha, não?

O sr. Satterthwaite pensou: “Está querendo me enrolar”.

– Imagino – continuou Oliver Manders – que ela tenha contado à polícia?

O sr. Satterthwaite meneou a cabeça.

– Acho que não. Imagino que ela seja o tipo de mulher que gosta... Bem, que gosta de guardar as coisas para si. Uma colecionadora de informações.

Súbito Oliver Manders debruçou-se à frente.

– Sou inocente, senhor. Cem por cento inocente!

– Não sugeri que você era culpado – disse em tom meigo o sr. Satterthwaite.

– Mas alguém sugeriu... Alguém deve ter sugerido. Alguém colocou a polícia contra mim.

O sr. Satterthwaite meneou a cabeça.

– Não, não.

– Então por que o senhor veio aqui hoje?

– Em parte devido ao resultado de minhas... hã... investigações no local. – O sr. Satterthwaite falou em tom meio empolado. – E em parte devido ao conselho de... um amigo.

– Que amigo?

– Hercule Poirot.

– Aquele homem! – explodiu Oliver. – Ele voltou à Inglaterra?

– Sim.

– Por que ele voltou?

O sr. Satterthwaite se levantou.

– Por que os cães vão à caça? – retorquiu ele.

E, muito satisfeito com sua réplica mordaz, deixou a sala.