Tragédia em Três Atos

Agatha Christie · Capítulo 20 de 29

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Tragédia em Três Atos

Capítulo 8

Angela Sutcliffe

 

– Ora, ora, veio como amigo ou investigador? Tenho que saber.

Sentada numa cadeira de espaldar reto, o cabelo grisalho arrumado de modo elegante e as pernas cruzadas, a srta. Sutcliffe relanceou um par de olhos debochados ao interlocutor. O sr. Satterthwaite admirou a perfeição dos esguios tornozelos e dos pés calçados com requinte. A srta. Sutcliffe fascinava as pessoas; em especial, porque raramente levava algo a sério.

– Não é uma pergunta impertinente? – provocou o sr. Satterthwaite.

– Meu querido, é mais do que pertinente. Veio aqui por conta de meus belos olhos, como dizem os franceses de modo tão galanteador, ou veio aqui, seu malcriado, só para me sondar sobre assassinatos?

– Como pode duvidar de que a primeira alternativa é a certa? – indagou o sr. Satterthwaite com uma tênue mesura.

– Não só posso como devo – respondeu a atriz com ímpeto. – O senhor é uma daquelas pessoas que à primeira vista é mansinha, mas na verdade chafurda em sangue.

– Não, não.

– Sim, sim. A única coisa que ainda não me resolvi é se ser considerada assassina em potencial é insulto ou elogio. No fim das contas, acho que é elogio.

Empinou de leve a cabeça numa inclinação petulante e abriu aquele sorriso lento e feiticeiro que nunca falha.

O sr. Satterthwaite pensou com seus botões: “Que criatura adorável”.

Em voz alta disse:

– Tenho que admitir, minha cara, que a morte de Sir Bartholomew Strange desperta bastante o meu interesse. Como talvez a senhorita já saiba, antes disso eu já estive às voltas com assuntos policiais...

Fez uma pausa em tom modesto, talvez desejando que a srta. Sutcliffe demonstrasse conhecimento sobre suas atividades. Mas ela se limitou a perguntar:

– Me diga uma coisa... Tem algo de verdade naquilo que a mocinha disse?

– Que mocinha, e o que foi que ela disse?

– A mocinha Lytton Gore. Aquela que se derrete por Charles. Esse Charles é impossível... ele vai conseguir conquistá-la! Ela acha que aquele bondoso velhote da Cornualha também foi assassinado.

– O que a senhorita acha?

– Bem, sem dúvida aconteceu bem igualzinho... Ela é uma moça inteligente, sabe. Mas me conte... Charles gosta dela mesmo?

– Imagino que sua opinião sobre o assunto seja mais válida que a minha – ponderou o sr. Satterthwaite.

– O senhor chega a ser cansativo de tão discreto! – exclamou a srta. Sutcliffe. – Enquanto eu – ela suspirou – sou horrível de tão indiscreta...

Ela o mirou e piscou.

– Conheço Charles como a palma da mão. Conheço os homens como a palma da mão. Ele parece dar sinais cabais de quem quer se acomodar. Ultimamente adquiriu uma postura virtuosa. Num piscar de olhos vai estar com família e recolhendo esmolas aos domingos na igreja... Essa é a minha opinião. Como os homens ficam sem graça quando decidem se acomodar! Perdem todo o charme.

– Às vezes me pergunto por que Sir Charles nunca se casou – comentou o sr. Satterthwaite.

– Querido, ele nunca mostrou nem sinal de querer casar. Não era o que se costuma chamar de “casadouro”. Mas sempre muito atraente... – Soltou um suspiro. Um tênue brilho divertido aflorou no olhar dela enquanto mirava o sr. Satterthwaite. – Ele e eu já fomos... Ora, por que negar o que todo mundo sabe? Foi delicioso enquanto durou... E continuamos ótimos amigos. Imagino que seja por isso que a menina Lytton Gore me olha daquele jeito feroz. Ela suspeita que eu ainda tenha uma tendresse por Charles. Será? Talvez sim. Mas pelo menos ainda não escrevi minhas memórias divulgando detalhes de todos os meus casos, como a maioria de minhas amigas parece ter feito. Se eu fizesse isso, a moça não ia gostar. Ficaria escandalizada. Moças modernas se escandalizam com facilidade. A mãe dela não ficaria nem um pouco escandalizada. Não há como escandalizar de verdade uma dócil vitoriana. Falam tão pouco, mas sempre pensam o pior...

O sr. Satterthwaite se contentou em dizer:

– Acho que está certa em suspeitar que Egg Lytton Gore desconfia da senhorita.

A srta. Sutcliffe franziu a testa.

– Não tenho bem certeza se não sinto um pouco de ciúmes dela... Nós mulheres somos gatas malévolas, não somos? Miamos, ronronamos e arranhamos...

Deu uma risada.

– Por que Charles não veio me interrogar sobre o caso? Muito cheio de dedos, imagino. Deve pensar que sou culpada... Sou culpada, sr. Satterthwaite? O que pensa agora?

Levantou-se da cadeira e estendeu a mão.

– “Nem todos os perfumes da Arábia vão purificar essa mão delicada...”

Ela interrompeu a encenação.

– Não, eu não sou Lady Macbeth. Meu negócio é comédia.

– Também parece existir certa falta de motivo – ponderou o sr. Satterthwaite.

– Verdade. Eu gostava de Bartholomew Strange. Éramos amigos. Eu não tinha motivo para eliminá-lo. Pela amizade que eu tinha com ele, quero participar ativamente na caça ao assassino. Diga-me em que posso ajudá-lo.

– Imagino, srta. Sutcliffe, que não tenha ouvido nem visto nada que possa ter relação com o crime?

– Nada que eu já não tenha contado à polícia. O grupo de convidados recém tinha chegado, sabe. A morte dele aconteceu logo na primeira noite.

– O mordomo?

– Eu mal prestei atenção nele.

– Algum comportamento estranho por parte dos convidados?

– Não. Claro que aquele rapaz... Como é mesmo o nome dele? Manders. Ele apareceu de modo meio inesperado.

– Sir Bartholomew pareceu surpreso?

– Sim, acho que sim. Ele me disse pouco antes do jantar que aquilo era um incidente bizarro. “Novo método de bater em portões”, descreveu. “Só que”, ele completou, “foi no meu muro que ele bateu, não em meu portão.”

– Sir Bartholomew estava de bom humor?

– De ótimo humor!

– E o que me diz da tal passagem secreta que a senhorita mencionou à polícia?

– Acho que partia da biblioteca. Sir Bartholomew prometeu me mostrar... Mas, é claro, o coitado morreu antes.

– Como esse assunto veio à tona?

– Comentávamos sobre a recente compra dele... Uma escrivaninha de nogueira. Perguntei se o móvel tinha uma gaveta secreta. Contei que eu adorava gavetas secretas. É uma das minhas paixões ocultas. Ele disse: “Não, que eu saiba não temos gavetas secretas. Mas temos uma passagem secreta”.

– Ele não mencionou uma paciente dele... uma tal de sra. De Rushbridger?

– Não.

– Conhece um lugarejo chamado Gilling, em Kent?

– Gilling? Gilling, não, não conheço. Por quê?

– Bem, a senhorita já conhecia o sr. Babbington, não conhecia?

– Quem é o sr. Babbington?

– O homem que morreu, ou foi morto, em Crow’s Nest.

– Ah, o pastor. Tinha me esquecido do nome dele. Não, eu nunca tinha visto ele antes. Quem lhe contou que eu o conhecia?

– Uma fonte segura – afirmou o sr. Satterthwaite com ousadia.

A srta. Sutcliffe achou aquilo muito divertido.

– Meu velho querido, eles acham que eu tive um caso com ele? Diáconos às vezes são levados, não são? Por que é que vigários não podem ser? O hábito não faz o monge. Mas tenho que limpar a memória do coitado. Eu nunca o vi antes.

E o sr. Satterthwaite teve que se contentar com essa declaração.