Tragédia em Três Atos

Agatha Christie · Capítulo 8 de 29

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Tragédia em Três Atos

Capítulo 3

Qual deles?

 

Andando pela calçada, Sir Charles interpelou:

– Alguma ideia, Satterthwaite?

– E você? – respondeu o sr. Satterthwaite. Preferia se pronunciar no último momento possível.

Estilo oposto ao de Sir Charles, que comentou com ênfase:

– Eles estão errados, Satterthwaite. Totalmente errados. Encasquetaram com o tal do mordomo. O mordomo sumiu... Logo, o mordomo é o assassino. As coisas não se encaixam. Não se encaixam mesmo. Não podemos desconsiderar a outra morte... Aquela que aconteceu na minha casa.

– Ainda é da opinião de que as duas estão conectadas?

O sr. Satterthwaite fez a pergunta, mas na sua cabeça já a respondera no afirmativo.

– Meu caro, elas têm que estar conectadas. Tudo aponta para isso... Temos que encontrar o fator de interseção... Alguém presente nas duas ocasiões...

– Sim – concordou o sr. Satterthwaite. – E essa tarefa não vai ser tão simples como aparenta à primeira vista. Temos muitos fatores de interseção... Já notou, Cartwright, que praticamente todas as pessoas presentes no jantar de sua casa estavam presentes aqui?

Sir Charles concordou.

– Claro que notei... E percebe o que se deduz desse fato?

– Não sei se entendo onde você quer chegar, Cartwright.

– Por Deus, homem, imagina que é coincidência? Que nada. Isso foi intencional. Por que todas as pessoas presentes na primeira morte foram convidadas à segunda? Por mero acaso? Nem pensar. Foi um plano... um estratagema... de Tollie.

– Ah! – exclamou o sr. Satterthwaite. – Sim, é possível.

– Só pode ser isso. Não conhecia Tollie tão bem como eu, Satterthwaite.

A paciência era uma de suas virtudes. Guardava as ideias para si e sabia esperar o momento certo para as coisas. Nesse tempo todo que o conheci, ele jamais manifestou julgamento ou opinião de modo impensado.

“Analise por este ponto de vista: Babbington é assassinado, sim, assassinado, não vou medir palavras nem fazer rodeios, numa noite em minha casa. Tollie me ridiculariza gentilmente por minhas dúvidas no caso, mas durante o tempo todo alimenta suas próprias suspeitas. Não comenta sobre elas, não é o seu estilo. Mas sem alarde, na cabeça dele, vai montando uma teoria. Não sei que bases concretas ele tinha. Não pode, creio eu, ter sido uma teoria contra uma pessoa específica. Ele acreditava que uma daquelas pessoas era responsável pelo crime e concebeu um plano, alguma espécie de experiência para descobrir quem era essa pessoa.”

– E quanto aos outros convidados, os Eden e os Campbell?

Sir Charles deu de ombros – um gesto estrangeiro, afetado. Encarnava Aristide Duval, aquele esplêndido cérebro do Serviço Secreto. Começou a puxar o pé esquerdo ao caminhar.

– Como é que vamos saber? Não sou mago. Não posso fazer adivinhações. Mas existia um plano... Deu errado, pois o assassino era mais esperto do que Tollie pensava... Ele atacou primeiro...

– Ele?

– Ou ela. Veneno é uma arma mais feminina do que masculina... Bem mais.

O sr. Satterthwaite ficou calado. Sir Charles continuou:

– E então, não concorda? Ou está do lado da opinião consensual? O mordomo é o nosso homem. Ele é o culpado.

– Qual é a sua explicação sobre o mordomo?

– Não pensei nele ainda. No meu ponto de vista, ele não importa. Posso sugerir uma explicação.

– Por exemplo?

– Bem, digamos que a polícia esteja certa até certo ponto. Ellis é um criminoso profissional, cúmplice, digamos, de uma quadrilha de ladrões. Ellis consegue o cargo com credenciais falsas. Então Tollie é assassinado. Qual é a situação de Ellis? Um homem é morto, e na casa há um conhecido da polícia cujas impressões digitais estão na Scotland Yard. Nada mais natural que tivesse se alarmado e fugido.

– Pela passagem secreta?

– Passagem secreta que nada. Ele deu o fora enquanto um daqueles guardas palermas que vigiavam a casa tirava uma soneca.

– Com certeza parece mais provável.

– Bem, Satterthwaite, qual é o seu ponto de vista?

– O meu? – indagou o sr. Satterthwaite. – Ah, é o mesmo que o seu. Desde o começo. O mordomo me parece uma pista falsa e desastrada. Acho que Sir Bartholomew e o coitado do velho Babbington foram mortos pela mesma pessoa.

– Um dos convidados?

– Um dos convidados.

Seguiu-se um silêncio breve, e logo o sr. Satterthwaite perguntou despreocupado:

– Qual deles acha que é?

– Ora, Satterthwaite, como é que eu posso saber?

– Claro que não pode – observou o sr. Satterthwaite com timidez. – Só pensei que talvez tivesse uma ideia, sabe... Nada científico nem fundamentado. Só um simples palpite.

– Bem, eu não... – Pensou por um minuto e então explodiu: – Sabe, Satterthwaite, quando a gente começa a pensar, parece impossível que algum deles tenha feito.

– Imagino que sua teoria esteja certa – cismou o sr. Satterthwaite. – Quanto à definição do círculo de suspeitos, quero dizer. Temos que levar em conta que existem certas exclusões definitivas. Você, eu e a sra. Babbington, por exemplo. O jovem Manders também está descartado.

– Manders?

– Sim. Chegou à cena do crime por acidente. Não havia sido convidado, nem era esperado. Isso o elimina do círculo de suspeitos.

– A dramaturga também... Anthony Astor.

– Não, não. Ela estava lá. Srta. Muriel Wills, de Tooting.

– É mesmo... eu tinha me esquecido que o nome dela era Wills.

Franziu o cenho. O sr. Satterthwaite tinha talento para ler o pensamento das pessoas. Estimou com razoável exatidão o que se passava na cabeça do ator. Quando o outro verbalizou, o sr. Satterthwaite mentalmente se deu um tapinha no ombro.

– Tem razão, Satterthwaite. Não creio que ele tenha convidado apenas pessoas de quem ele definitivamente suspeitava... Afinal de contas, Lady Mary e Egg estavam lá... Ele queria encenar uma reprise do primeiro caso, talvez. Suspeitava de alguém, mas queria que outras testemunhas confirmassem essa suspeita. Algo nessa linha...

– Nessa linha – concordou o sr. Satterthwaite. – A esta altura só nos resta fazer suposições gerais. Ótimo. As Lytton Gore estão fora disso. Você, eu, a sra. Babbington e Oliver Manders estamos fora disso. Quem sobra? Angela Sutcliffe?

– Angie? Meu bom amigo. Ela é amiga de Tollie há décadas.

– Então restam apenas os Dacres... De fato, Cartwright, você suspeita dos Dacres. Não custava ter aberto o jogo quando eu perguntei.

Sir Charles olhou para o amigo. O sr. Satterthwaite tinha um ar ligeiramente triunfante.

– Não que eu suspeite deles... – explicou Cartwright devagar. – Só parecem mais possíveis do que os outros. Não os conheço muito bem, para começo de conversa. Mas ninguém neste mundo vai me convencer de que Freddie Dacres, que não faz nada além de frequentar os hipódromos, e Cynthia, que gasta o tempo desenhando e fabricando vestidos nababescos, teriam vontade de eliminar um adorável, insignificante e idoso pastor...

Meneou a cabeça e logo seu rosto se iluminou.

– Tem a tal srta. Wills. Esqueci-me dela outra vez. O que será que ela tem que a gente a toda hora esquece dela? É a criatura mais abominavelmente despercebida que já vi.

O sr. Satterthwaite sorriu.

– Desconfio que ela personifique o arcaico verso de Robert Burns: “A

chiel’s amang ye taking’ notes”.[1] Desconfio que a srta. Wills passe o tempo todo tomando notas. Por trás daqueles óculos, brilham olhos vivos. Vai descobrir que todo e qualquer detalhe interessante nesse caso foi observado pela srta. Wills.

– Acha mesmo? – indagou Sir Charles em tom de dúvida.

– O próximo passo – ponderou o sr. Satterthwaite – é almoçar. Depois vamos até Melfort Abbey ver o que conseguimos descobrir no local.

– Está bastante envolvido nisso, Satterthwaite – constatou Sir Charles, com um sorriso nos olhos.

– A investigação criminal não é novidade para mim – explicou o sr. Satterthwaite. – Certa vez, quando meu carro quebrou e tive que passar a noite numa remota estalagem...

Não conseguiu prosseguir.

– Eu me lembro – pronunciou Sir Charles em sua voz de ator alta, clara e bem impostada – de quando eu excursionava em 1921...

Sir Charles venceu.

 

[1] “Um sujeito entre vocês fazendo anotações”. (N.T.)