Tragédia em Três Atos

Agatha Christie · Capítulo 24 de 29

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Tragédia em Três Atos

Capítulo II

A sherry party aconteceu na segunda-feira à noite. Todos os convidados compareceram. A srta. Sutcliffe, encantadora e indiscreta, correu o olhar ao redor e deu um riso travesso.

– Me sinto na própria sala de visitas da aranha, monsieur Poirot. E todas

nós entramos, as pobres mosquinhas.[1] Aposto que o senhor vai nos contar o resumo mais incrível do caso e então, de repente, vai me apontar e dizer: “Eis a criminosa!”. Todo mundo vai concordar: “Foi ela!”. E eu vou irromper em lágrimas e confessar, pois sou muito influenciável. Ah, monsieur Poirot, o senhor me assusta.

– Quelle histoire – exclamou Poirot. Às voltas com uma garrafa de cristal e taças, serviu uma dose de xerez e entregou a ela com uma reverência. – Esta é uma festinha amigável. Melhor nem começar a falar de assassinatos, derramamento de sangue e veneno. Là, là! Essas coisas estragam o paladar.

Entregou uma taça à austera srta. Milray, que viera em companhia de Sir Charles e permanecia em pé com uma expressão medonha no semblante.

– Voilà – arrematou Poirot ao terminar hospitaleiramente de servir todos os convidados. – Vamos nos esquecer da primeira ocasião em que nos encontramos. Vamos nos deixar envolver pelo espírito de festa. Comer, beber e ser feliz, pois amanhã a morte nos espera. Ah, malheur, mencionei morte outra vez. Madame – fez uma mesura à sra. Dacres –, com sua permissão, gostaria de lhe desejar boa sorte e parabenizá-la. Seu vestido é um encanto!

– À sua saúde, Egg – brindou Sir Charles.

– À nossa! – ecoou Freddie Dacres.

Todos murmuraram algo. Existia uma atmosfera de descontração afetada no ambiente. Todos pareciam determinados a aparentar descontração e alma leve. Só o próprio Poirot aparentava isso de modo natural. Falava pelos cotovelos, em tom alegre...

– Para o meu gosto, xerez é melhor do que coquetel... E mil vezes melhor do que uísque. Argh, uísque... Quel horreur! Beber uísque é arruinar completamente o paladar. Para apreciar os vinhos suaves da França, não se pode jamais... Ah, qu’est-ce qu’il y a...?

Um barulho estranho o interrompeu... Uma espécie de grito de alguém se engasgando. Todos os olhares se concentraram em Sir Charles que cambaleava, o rosto contraído por um espasmo. A taça caiu da mão dele no tapete. Ele deu alguns passos às cegas e então desabou inconsciente.

Depois de um breve silêncio estupefato, Angela Sutcliffe gritou e Egg deu um pulo à frente.

– Charles – gritou Egg. – Charles!

Cega de emoção, ela abriu caminho no meio dos outros que cercavam o corpo desfalecido. O sr. Satterthwaite a conteve delicadamente pelo ombro.

– Ai, meu Deus! – bradou Lady Mary. – Outro não!

Angela Sutcliffe ergueu a voz:

– Ele também foi envenenado... Que horror! Que coisa mais horrível, meu Deus...

E súbito deixou-se cair no sofá, em meio a soluços e risos convulsos – um som horrendo.

Poirot tomara as rédeas da situação. Ajoelhara-se ao lado do homem caído. Os outros se afastaram enquanto ele o examinava. Ele se ergueu, tirando mecanicamente o pó da calça na altura dos joelhos. Correu o olhar pelo grupo reunido. Silêncio absoluto, à exceção dos soluços abafados de Angela Sutcliffe.

– Meus amigos – iniciou Poirot.

Não conseguiu prosseguir, pois Egg vociferou na cara dele:

– Seu idiota! Seu idiota ridículo e teatral! Finge ser tão genial e maravilhoso, finge que é um sabichão. E deixa isso acontecer. Outro assassinato. Debaixo do seu nariz... Se não fosse o senhor e suas ideias brilhantes isso não teria acontecido... Foi o senhor que matou Charles... o senhor... Seu... seu...

Calou-se, incapaz de pronunciar as palavras.

Poirot assentiu com a cabeça séria e tristemente.

– É verdade, mademoiselle. Confesso. Eu matei Sir Charles. Mas eu sou, mademoiselle, um tipo especialíssimo de assassino. Mato... e ressuscito. – Virou-se e num tom de voz diferente, corriqueiro e contrito, declarou:

– Atuação soberba, Sir Charles, meus parabéns. Cai o pano.

Com uma risada, o ator levantou-se de um pulo e curvou-se em tom de deboche.

Desta vez foi Egg quem ficou de garganta engasgada.

– Monsieur Poirot... seu... seu... energúmeno.

– Charles – gritou Angela Sutcliffe. – Seu diabinho...

– Mas por quê...?

– Como...?

– Por quê?

Poirot ergueu a mão e obteve silêncio.

– Messieurs, mesdames. Peço desculpas a todos. Esta pequena encenação foi necessária para provar a todos aqui presentes e, de quebra, a mim mesmo, um fato que a minha razão me dizia ser verdade.

“Prestem atenção. Nesta bandeja de taças, coloquei numa das taças uma colher de chá de água pura. Essa água representava a nicotina. Estas taças são do mesmo tipo que Sir Charles Cartwright usa no seu bangalô e que Sir Bartholomew Strange tinha em Melfort Abbey. Como o cristal das taças é ricamente lapidado, uma pequena quantidade de líquido incolor é praticamente imperceptível. Imaginem, então, a taça de vinho do Porto de Sir Bartholomew Strange. Depois de colocada na mesa, alguém introduziu nela uma quantidade suficiente de nicotina pura. Isso pode ter sido feito por qualquer pessoa. O mordomo, a copeira ou qualquer um dos convidados que cruzasse pela sala de jantar ao descer as escadas. A sobremesa chega, o vinho do Porto é servido, a taça é cheia. Sir Bartholomew bebe... e morre.

“Hoje encenamos uma terceira tragédia... uma tragédia simulada. Pedi que Sir Charles encarnasse o papel da vítima, coisa que ele fez de modo magnífico. Agora vamos imaginar por um instante que isso não foi uma farsa, mas verdadeiro. Sir Charles está morto. Por onde a polícia começaria?”

A srta. Sutcliffe gritou:

– Ora, pela taça, é claro. – Ela acenou com a cabeça para o chão, no local onde a taça jazia depois de escorregar da mão de Sir Charles. – O senhor só colocou água, mas se tivesse sido nicotina...

– Vamos supor que fosse nicotina. – Poirot tocou de leve a taça com a ponta do sapato. – Acha que a polícia mandaria analisar a taça e que seriam descobertos vestígios de nicotina?

– Claro.

Poirot meneou a cabeça devagar.

– A senhorita se engana. Não seria descoberto nem sinal de nicotina.

Todos o fitaram.

– Sabe – sorriu ele – esta não é a taça da qual Sir Charles bebeu. – Com um sorrisinho contrito, ele puxou uma taça do bolso do casaco. – Esta é a taça que ele usou.

Prosseguiu:

– Sabe, é um exemplo simples da teoria da prestidigitação. A atenção não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. Para fazer meu truque de mágica, eu preciso que a plateia focalize a atenção noutro lugar. Ora, existe o instante exato. O exato instante psicológico. Quando Sir Charles cai como morto, todos os olhares se fixam no corpo inerte. Todo mundo avança e forma um círculo ao redor dele e ninguém, ninguém mesmo, presta atenção em Hercule Poirot. E é nessa hora que eu troco as taças e ninguém vê...

“Então, senhoras e senhores, provei que meu raciocínio estava certo... Houve um instante desses em Crow’s Nest, houve um instante desses em Melfort Abbey... E assim, nada foi detectado na taça de coquetel e nada na taça de vinho do Porto.”

Egg ergueu a voz:

– Quem fez a troca?

Com os olhos fitos nela, Poirot respondeu:

– Isso ainda falta descobrir...

– Não sabe?

Poirot deu de ombros.

De modo meio vago, os convidados deram sinal que estavam de saída. Transpareciam certa frieza de atitude. Estavam com a sensação de terem sido feitos de bobos.

Com um gesto, Poirot os conteve.

– Só um momento, por favor. Tenho mais uma coisa a dizer. Hoje, reconheço, representamos uma comédia. Mas a comédia pode ser encenada de verdade... E se tornar tragédia. Nas condições certas, o assassino pode atacar pela terceira vez... Agora me dirijo a todos aqui presentes. Se alguém souber de algo... Algo que possa ter alguma relação com esses crimes, eu imploro: fale agora. Guardar informações para si a esta altura dos acontecimentos pode ser perigoso... Tão perigoso que o resultado do silêncio pode ser a morte. Por isso volto a implorar: se alguém sabe de algo, por favor, fale agora...

Sir Charles teve a impressão de que o apelo de Poirot se dirigia à srta. Wills em especial. Mas seja lá para quem o apelo foi dirigido, não deu resultado algum. Ninguém se manifestou.

Poirot suspirou. Deixou a mão cair.

– Como queiram, então. Eu avisei. É o máximo que posso fazer. Lembrem-se: guardar silêncio é perigoso...

Mas de novo ninguém falou.

Os convidados se retiraram num clima meio constrangedor.

Egg, Sir Charles e o sr. Satterthwaite ficaram.

Egg ainda não perdoara Poirot. Sentou-se quieta, com as bochechas afogueadas e indignação nos olhos. Ela sequer dirigia o olhar para Sir Charles.

– Plano muito esperto, Poirot – elogiou Sir Charles.

– Espantoso – endossou o sr. Satterthwaite com um riso contido. – É inacreditável, mas não enxerguei o senhor fazendo a troca das taças.

– Por isso – explicou Poirot – que não pude contar a mais ninguém. A experiência só seria válida se todos fossem pegos de surpresa.

– Essa foi a única razão pela qual o senhor planejou isso... Para ver se poderia ser feito de modo despercebido?

– Bem, talvez não a única. Eu tinha outra coisa em mente.

– Sim?

– Eu queria observar a reação no rosto de uma pessoa quando Sir Charles caísse morto.

– De qual pessoa? – indagou Egg prontamente.

– Ah, isso é segredo.

– E conseguiu observar o rosto da pessoa? – quis saber o sr. Satterthwaite.

– Sim.

– E então?

Poirot não respondeu. Apenas balançou a cabeça.

– Não vai nos contar o que viu nele?

Poirot disse devagar:

– Vi uma expressão de incrível surpresa...

Egg inspirou fundo.

– Quer dizer – perguntou ela – que o senhor sabe quem é o assassino?

– Pode se expressar assim se for de seu agrado, mademoiselle.

– Mas então... mas então... o senhor sabe de tudo?

Poirot meneou a cabeça.

– Não... Ao contrário: não sei de nada. Afinal, eu não sei por que Stephen Babbington foi assassinado. Até descobrir isso, não posso provar nada, não posso saber de nada... Tudo depende disto: o motivo para a morte de Stephen Babbington...

Alguém bateu à porta, e o mensageiro do hotel entrou com um telegrama numa bandeja.

Poirot abriu. Sua expressão facial se alterou. Entregou o telegrama para Sir Charles. Espiando por cima do ombro de Sir Charles, Egg leu em voz alta:

Favor vir falar comigo de imediato pt

Tenho informações valiosas sobre morte de Bartholomew Strange pt

Margaret Rushbridger.

– A sra. De Rushbridger! – exclamou Sir Charles. – No fim das contas, estávamos certos. Ela tem algo a ver com o caso.

 

[1] Alusão à canção infantil “A aranha disse à mosca: ‘Esta é minha sala, quer entrar?’”, citada por Poirot em Os Quatro Grandes.