Tragédia em Três Atos

Agatha Christie · Capítulo 27 de 29

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Tragédia em Três Atos

Capítulo 13

Sra. De Rushbridger

 

Antes de pegar o trem, Hercule Poirot e o sr. Satterthwaite haviam entabulado uma breve conversa com a srta. Lyndon, secretária do falecido Sir Bartholomew Strange. A srta. Lyndon demonstrara ser bastante solícita, mas não tivera nada de relevante para contar. No livro de pacientes de Sir Bartholomew, só havia registros puramente profissionais sobre a sra. De Rushbridger. Sir Bartholomew nunca comentara nada sobre ela exceto em termos médicos.

Os dois homens chegaram à clínica por volta do meio-dia. A funcionária abriu a porta agitada e com as faces coradas. O sr. Satterthwaite logo mandou chamar a enfermeira-chefe.

– Não sei se ela vai poder atendê-los hoje – alegou a moça hesitante.

O sr. Satterthwaite puxou um cartão e escreveu algumas palavras nele.

– Por gentileza, leve isto a ela.

Foram introduzidos numa pequena sala de espera. Cinco minutos depois, a porta se abriu, e a enfermeira-chefe entrou. A aparência dela destoava do jeito animado e eficaz de costume.

O sr. Satterthwaite se ergueu.

– Espero que a senhora se lembre de mim – começou ele. – Estive aqui em companhia de Sir Charles Cartwright pouco depois da morte de Sir Bartholomew Strange.

– Sim, é verdade, sr. Satterthwaite, claro que eu me lembro; e Sir Charles perguntou sobre a coitada da sra. De Rushbridger, e isso parece uma coincidência e tanto.

– Deixe-me apresentá-la ao monsieur Hercule Poirot.

Poirot fez uma mesura, e a enfermeira-chefe respondeu distraída. Ela prosseguiu:

– Não entendo como é que os senhores receberam um telegrama dela. Tudo parece muito misterioso. Com certeza, não tem ligação alguma com a morte do coitado do doutor. Deve haver um louco à solta... É a única maneira que consigo explicar isso. A polícia vir aqui e tudo o mais. Tem sido realmente terrível.

– A polícia? – indagou o sr. Satterthwaite, surpreso.

– Sim, desde as dez horas estão aqui.

– Talvez pudéssemos falar com a sra. De Rushbridger agora – sugeriu o sr. Satterthwaite. – Já que ela solicitou a nossa vinda...

A enfermeira-chefe o cortou.

– Ai, sr. Satterthwaite, então o senhor não sabe!

– Sabe o quê? – interpelou Poirot bruscamente.

– A coitada da sra. De Rushbridger está morta.

– Morta? – gritou Poirot. – Mille Tonnerres! Isso explica tudo. Sim, isso explica tudo. Eu deveria ter percebido antes... – Ele se interrompeu. – Como foi que ela morreu?

– É bastante misterioso. Uma caixa de bombons chegou para ela, bombons de chocolate com licor, pelo correio. Ela comeu um... O gosto devia ser horrível, mas ela foi pega de surpresa, imagino, e o engoliu. Depois, não fica bem cuspir a comida fora.

– Oui, oui, e se um líquido corre de repente em nossa garganta, é difícil.

– O fato é que ela engoliu e pediu ajuda. A enfermeira veio correndo, mas ninguém pôde fazer mais nada. Dois minutos depois estava morta. Então o médico solicitou a presença da polícia. Eles vieram e examinaram os bombons. Toda a primeira camada de bombons, a mais de cima, tinha sido envenenada. Os de baixo estavam normais.

– E o veneno empregado?

– Acham que é nicotina.

– Sim – disse Poirot. – Outra vez nicotina. Que golpe! Que golpe audacioso!

– Chegamos tarde demais – disse o sr. Satterthwaite. – Agora nunca vamos saber o que ela queria nos dizer. A menos que ela tenha confidenciado a alguém? – Lançou um olhar indagador à enfermeira-chefe.

Poirot meneou a cabeça.

– Não vai descobrir nenhuma confidência, por mais que procure.

– Não custa perguntar – ponderou o sr. Satterthwaite. – Uma das enfermeiras, quem sabe?

– Vá em frente e pergunte – mencionou Poirot, sem cultivar muita esperança.

O sr. Satterthwaite se virou para a enfermeira-chefe, que logo mandou chamar as duas enfermeiras, a que cuidava da sra. De Rushbridger durante o dia e a do turno da noite. Porém, nenhuma delas acrescentou quaisquer informações às já fornecidas. A sra. De Rushbridger nunca havia mencionado a morte de Sir Bartholomew, e elas sequer sabiam da remessa do telegrama.

Por solicitação de Poirot, os dois homens foram conduzidos ao quarto da morta. Chegando lá, se depararam com o superintendente Crossfield, que havia sido encarregado do caso, e o sr. Satterthwaite apresentou-o a Poirot.

Então os dois se aproximaram da cama e ali ficaram, de pé, velando a falecida. Em torno de quarenta anos, cabelos morenos, rosto pálido. O rosto dela não transparecia paz – ainda revelava as agonias da morte.

O sr. Satterthwaite murmurou devagar:

– Pobre alma...

Olhou de soslaio a Hercule Poirot. O pequenino belga trazia uma expressão esquisita no rosto. Algo naquela expressão fez o sr. Satterthwaite estremecer...

O sr. Satterthwaite disse:

– Alguém sabia que ela estava prestes a contar algo e a matou... Ela foi morta para impedir que falasse...

Poirot assentiu com a cabeça.

– Sim, é isso mesmo.

– Foi assassinada para impedir que nos contasse o que sabia.

– Ou o que ela não sabia... Mas não vamos perder mais tempo... Temos muito a fazer. Temos que evitar novas mortes. Temos que tomar as medidas necessárias.

O sr. Satterthwaite perguntou mordido pela curiosidade:

– Isso se encaixa com a sua ideia da identidade do assassino?

– Sim, se encaixa... Mas me dei conta de uma coisa: o assassino é mais perigoso do que eu pensava... Todo cuidado é pouco.

O superintendente Crossfield os seguiu quando eles se retiraram do quarto e ficou sabendo sobre o telegrama que tinham recebido. O telegrama fora enviado da agência de correios de Melfort. Descobriu-se que o texto havia sido levado por um garoto. A agente postal se lembrou do caso, pois a mensagem a havia deixado interessada, já que mencionava a morte de Sir Bartholomew Strange.

Depois de um almoço frugal na companhia do superintendente e da remessa de um telegrama para Sir Charles, a investigação foi recomeçada.

Às seis horas daquela tarde, o garotinho que levou o telegrama foi encontrado. De boa vontade fez seu relato. Recebeu o telegrama da mão de um maltrapilho. O tal homem contou que tinha recebido o telegrama da “dama louca” da “casa no parque”. A tal mulher teria jogado o papel pela janela, envolto em duas meias-coroas. O sujeito ficou com medo de se envolver em algum negócio ilícito e, como estava indo para o lado contrário, deu ao garoto uma das moedas de prata e disse que ele podia ficar com o troco.

Uma busca seria empreendida para localizar o homem. Nesse meio-tempo, nada mais havia a fazer, e Poirot e o sr. Satterthwaite voltaram a Londres.

Os dois chegaram à capital perto da meia-noite. Egg tinha voltado para a casa dos parentes, onde a mãe também estava hospedada, mas Sir Charles fez questão de recebê-los para discutirem a situação.

– Mon ami – começou Poirot –, vá por mim. Só uma coisa vai resolver esse caso: as pequenas células cinzentas do cérebro. Ficar vasculhando a Inglaterra de cima a baixo, esperar que esta ou aquela pessoa nos revele o que queremos saber... Todos esses métodos são amadores e ridículos. A verdade só pode ser vista de dentro para fora.

Sir Charles interpelou, cético:

– O que quer fazer, então?

– Quero pensar. Peço 24 horas... Só para pensar.

Sir Charles balançou a cabeça com um sorrisinho.

– É pensando que vai descobrir o que essa mulher nos diria se estivesse viva?

– Acredito que sim.

– Não acho provável. Em todo caso, monsieur Poirot, faça as coisas à sua maneira. Tente vislumbrar a solução desse mistério, porque eu não consigo. Desisto e confesso. Além do mais, tenho coisas mais importantes a tratar.

Se ele ansiava ser questionado, não satisfez a sua expectativa. De fato, o sr. Satterthwaite ergueu os olhos com uma expressão alerta, mas Poirot permaneceu absorto em pensamentos.

– Bem, vou indo – disse o ator. – Ah, só uma coisinha. Estou muito preocupado com... a srta. Wills.

– O que é que houve com ela?

– Desapareceu.

Poirot fitou-o perplexo.

– Desapareceu? Para onde?

– Ninguém sabe. Fiquei meditando depois de receber seu telegrama. Como comentei naquela ocasião, algo me dizia que aquela mulher sabia de algo que não tinha nos contado. Achei que podia dar a última cartada para tentar arrancar o segredo dela. Pego meu carro e vou até a casa dela... Chego lá por volta das nove e meia... E peço para falar com ela. Ao que consta, ela saiu de casa hoje pela manhã... Veio a Londres passar o dia... Pelo menos foi isso que ela deixou dito. O pessoal da casa recebeu um telegrama à tardinha dizendo que ela não voltaria por alguns dias e que não era para se preocuparem.

– E estavam preocupados?

– Fiquei com a impressão que sim. Sabe, ela não levou bagagem.

– Estranho – murmurou Poirot.

– É. Parece que... ah, sei lá. Estou meio inquieto.

– Eu a avisei – disse Poirot. – Avisei a todos. Vocês lembram que eu disse a eles: “Falem agora”.

– Sim, sim. Acha que ela, também...?

– Tenho minhas ideias – observou Poirot. – Por enquanto prefiro não discuti-las.

– Primeiro, o mordomo, Ellis. Agora, a srta. Wills. Onde está Ellis? É incrível que a polícia não tenha conseguido capturá-lo.

– Não procuraram o corpo dele no lugar certo – retorquiu Poirot.

– Então concorda com Egg. Acha que ele está morto?

– Ellis nunca mais será visto... vivo.

– Meu Deus – explodiu Sir Charles. – É um pesadelo... É tudo tão incompreensível.

– Não, não. Ao contrário: é racional e lógico.

Sir Charles fitou-o surpreso.

– Acha mesmo?

– Com certeza. Sabe, meu intelecto é metódico.

– Não entendo.

Sem esconder a curiosidade, o sr. Satterthwaite também tinha os olhos fixos no pequenino detetive.

– Que espécie de intelecto eu tenho? – quis saber Sir Charles, um tanto doído.

– Intelecto de ator, Sir Charles. Criativo, original, sempre enxergando valores dramáticos. O sr. Satterthwaite aqui tem intelecto do frequentador de teatro: observa as personagens e tem a percepção da atmosfera. Mas eu, bem, eu tenho o intelecto prosaico. Só enxergo os fatos, sem quaisquer ornamentos nem holofotes.

– Então vamos embora e o deixamos pensando?

– Essa é a minha ideia. Por 24 horas.

– Boa sorte, então. E boa noite.

Enquanto saíam juntos, Sir Charles disse ao sr. Satterthwaite:

– Esse sujeito se acha.

Falou isso com bastante frieza.

O sr. Satterthwaite sorriu. O papel principal! Então era isso. Ele comentou:

– O que quis dizer com ter coisas mais importantes a tratar, Sir Charles?

No rosto de Sir Charles brotou a expressão acanhada que o sr. Satterthwaite conhecia tão bem de tanto comparecer aos casamentos na Hanover Square.

– Bem, na verdade, eu... hã... bem, Egg e eu...

– Estou feliz em saber – antecipou o sr. Satterthwaite. – Meus parabéns.

– Claro que sou bem mais velho que ela.

– Ela não acha... E ela é a pessoa indicada para julgar.

– É muita bondade sua, Satterthwaite. Sabe, eu tinha enfiado na cabeça que ela estava apaixonada pelo jovem Manders.

– Fico me perguntando por que você pensava isso – ponderou o sr. Satterthwaite de modo inocente.

– O que importa – disse Sir Charles com firmeza – é que ela não está...