Tragédia em Três Atos

Agatha Christie · Capítulo 3 de 29

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Tragédia em Três Atos

Capítulo 3

Sir Charles fica intrigado

 

– Quer entrar um minuto, Satterthwaite? – perguntou Sir Charles, projetando a cabeça porta afora.

Uma hora e meia havia se passado. À confusão sucedera-se a paz. Lady Mary havia amparado a lacrimosa sra. Babbington e a conduzido para fora da sala e depois ao vicariato. A srta. Milray mostrara eficácia ao telefone. O médico local chegara e se encarregara de tudo. Uma janta simplificada fora servida e, logo após, por consenso geral, o grupo de convidados se recolhera a seus quartos. O sr. Satterthwaite batia em retirada quando Sir Charles o chamou pela porta da cabine do iate, onde a morte acontecera.

O sr. Satterthwaite entrou ali reprimindo um leve tremor ao fazê-lo. Era velho o suficiente para não gostar da imagem da morte... Pois em breve, talvez, ele próprio... Mas de que adiantava pensar nisso?

– Estou inteiro para mais uns vinte anos – murmurou convicto o sr. Satterthwaite com seus botões.

O único outro ocupante da cabine do iate era Bartholomew Strange. Balançou a cabeça em tom aprovador ao ver o sr. Satterthwaite.

– Bom amigo – disse ele. – Satterthwaite pode nos ajudar. Tem experiência de vida.

Um tanto surpreso, o sr. Satterthwaite sentou-se na cadeira de braços perto do doutor. Sir Charles caminhava para lá e para cá. Esquecera-se dos punhos semicerrados e parecia nitidamente menos naval.

– Charles não está gostando – comentou Sir Bartholomew. – Da morte do pobre velho Babbington, quero dizer.

O sr. Satterthwaite considerou o comentário infeliz. Quem, em sã consciência, esperaria que alguém fosse “gostar” do ocorrido? Ele se deu conta de que não devia levar as palavras de Strange ao pé da letra.

– Foi muito perturbador – ponderou o sr. Satterthwaite, escolhendo as palavras como quem tateia cautelosamente num ambiente escuro. – Muito perturbador mesmo – acrescentou com um calafrio reminiscente.

– Hum... sim, foi bastante desagradável – concordou o médico, a entonação profissional insinuando-se de repente na voz.

Cartwright estacou no meio da sala.

– Já viu alguém morrer daquele jeito antes, Tollie?

– Não – respondeu Bartholomew pensativo. – Nunca vi coisa parecida.

Pouco depois, acrescentou:

– Mas não vi tantas mortes quanto você supõe. Um neurologista não mata muitos pacientes. Ele os mantém vivos e obtém deles a sua renda. MacDougal já presenciou um número bem maior de óbitos do que eu, não tenho dúvida disso.

O dr. MacDougal era o médico mais importante em Loomouth, a quem a srta. Milray havia chamado.

– MacDougal não viu esse homem morrer. Ele já estava morto quando ele chegou. Baseou-se apenas no que pudemos relatar a ele, no que você pôde relatar. Alegou que foi uma espécie de ataque apoplético, que Babbington era idoso e que não andava bem de saúde. Isso não me satisfaz.

– Provavelmente não satisfaz a ele também – grunhiu o outro. – Mas um médico tem que dizer algo. Ataque apoplético é uma expressão boa... Não significa nada específico, mas satisfaz a curiosidade dos leigos. E, afinal de contas, Babbington era idoso e ultimamente andava mal de saúde. A mulher dele nos contou. Talvez sofresse de uma doença que não suspeitava.

– Aquilo foi um ataque ou um acesso típico, ou sei lá como vocês chamam?

– Típico do quê?

– De alguma doença conhecida?

– Se você tivesse estudado medicina – retorquiu Sir Bartholomew – saberia que dificilmente existe algo como um caso típico.

– O que afinal está sugerindo, Sir Charles? – indagou o sr. Satterthwaite.

Cartwright não respondeu. Fez um gesto vago com a mão. Strange deu uma risada tímida.

– Nem o próprio Charles sabe – observou. – É apenas o intelecto dele se voltando de modo natural às possibilidades dramáticas.

Sir Charles fez um gesto de censura, o rosto absorto e pensativo... Com ar distraído, balançou a cabeça de leve.

Uma esquiva semelhança atiçou o sr. Satterthwaite... Ficou pensando onde já vira gesto parecido... E então se lembrou: Aristide Duval, o chefe do Serviço Secreto, desvendando a emaranhada trama dos “Cabos subterrâneos”. No minuto seguinte, teve certeza. Sir Charles inconscientemente claudicava ao caminhar. Aristide Duval ficara conhecido como “O homem que claudicava”.

Sir Bartholomew continuou a aplicar um bom-senso cruel às suspeitas nebulosas de Sir Charles.

– Afinal, de que você suspeita, Charles? Suicídio? Assassinato? Quem ia querer matar um velho e inofensivo homem do clero? É fantástico. Suicídio? Bem, essa é uma possibilidade. A gente até pode imaginar um motivo para Babbington querer acabar com a própria vida...

– Que motivo?

Sir Bartholomew balançou a cabeça suavemente.

– Como adivinhar os segredos do cérebro humano? É só um palpite... Digamos que Babbington tenha descoberto que sofria de uma doença incurável... Câncer, por exemplo. Algo desse tipo poderia fornecer o motivo. Talvez desejasse poupar a esposa de assistir ao seu longo e penoso sofrimento. É só um palpite, é claro. Não há nenhum motivo concreto que nos leve a pensar que Babbington realmente quis acabar com a própria vida.

– Não era bem em suicídio que eu pensava – começou Sir Charles.

Bartholomew Strange de novo riu baixinho.

– Exato. Você não dá a mínima para o que é ou não provável. Quer emoção. Quer um veneno ultramoderno que não deixa vestígios nos coquetéis.

Sir Charles fez uma careta expressiva.

– Não tenho certeza se quero isso mesmo. Tollie, você não lembra? Quem misturou aqueles coquetéis fui eu.

– Ataque repentino de mania homicida, hein? Imagino que os sintomas estejam atrasados em nosso caso, mas antes da aurora todos estaremos mortos.

– Você está brincando, mas... – Sir Charles se calou, irritado.

– No fundo, não estou brincando – disse o médico.

A voz dele mudou. Soou séria e sensível.

– Não estou brincando com a morte do pobre velho Babbington. Estou é caçoando de suas ideias, Charles, porque... bem... porque eu não quero que você, de modo impensado, cause mal a alguém.

– Mal? – perguntou Sir Charles.

– Entende aonde eu quero chegar, sr. Satterthwaite?

– Tenho um palpite – respondeu ele.

– Não percebe, Charles – continuou Sir Bartholomew –, o quanto suspeitas ociosas podem ser maléficas? Essas coisas se espalham. A mais remota sugestão de crime, totalmente infundada, pode causar sérios problemas e sofrimentos à sra. Babbington. Já vi coisas assim acontecerem. Morte súbita, línguas de palmo e meio em ação, falatório correndo por toda a cidade, boatos cada vez mais escabrosos... E isso ninguém pode parar. Droga, Charles, não percebe o quanto isso seria cruel e desnecessário? Você só está dando rédeas à sua imaginação fértil e galopando numa raia totalmente especulativa.

O rosto do ator deixou entrever um olhar de indecisão.

– Não tinha pensado nisso – admitiu.

– Você é gente finíssima, Charles, mas deixa sua imaginação roubar a cena. Seja sincero: acredita mesmo que alguma pessoa, alguma pessoa no mundo ia querer matar aquele velho inofensivo?

– Acho que não – concordou Sir Charles. – Como você diz, é ridículo. Sinto muito, Tollie. Mas fique certo: não foi mero “jogo de cena” de minha parte. Tive mesmo a “intuição” de que algo estava errado.

O sr. Satterthwaite tossiu fraquinho.

– Posso dar uma sugestão? O sr. Babbington começou a passar mal pouco depois de entrar na sala e logo após tomar o coquetel. Casualmente notei o rosto dele meio contorcido enquanto bebia. Imaginei que tivesse feito uma careta por não estar acostumado com o sabor da bebida. Mas vamos supor que a ideia vaga de Sir Bartholomew esteja correta: o sr. Babbington por algum motivo desejou cometer suicídio. Isso me soa possível. Já a ideia de assassinato me parece completamente ridícula.

“Acho possível, embora improvável, que o sr. Babbington tenha colocado algo naquela taça sem que ninguém visse.

“Agora percebo que nada ainda foi tocado nesta sala. As taças de coquetel continuam exatamente onde estavam. Esta é a do sr. Babbington. Sei disso porque eu estava sentado aqui falando com ele. Sugiro que Sir Bartholomew mande analisar o conteúdo da taça... Isso pode ser feito sem alarde e sem provocar nenhuma ‘fofoca’.”

Sir Bartholomew levantou-se e pegou a taça.

– Certo – aceitou o médico. – Vou contentá-lo por enquanto, Charles. Mas aposto com você dez libras contra uma que não há nada nela a não ser o mais autêntico coquetel de gim e vermute.

– Fechado – disse Sir Charles.

E acrescentou com um sorriso tristonho:

– Sabe, Tollie, você é parcialmente responsável pelas rédeas frouxas da minha imaginação.

– Eu?

– Sim, com seu papo sobre crimes esta manhã. Você disse que esse detetive, Hercule Poirot, era uma espécie de petrel, que onde ele vai os crimes o perseguem. Daí ele chega e pouco depois acontece uma morte suspeitosamente súbita. Claro que logo pensei em assassinato.

– Será que... – começou o sr. Satterthwaite e parou.

– Sim – disse Charles Cartwright. – Também pensei nisso. O que acha, Tollie? Será que podemos perguntar a ele o que pensa disso tudo? Quero dizer, não seria contra a etiqueta?

– Boa pergunta – murmurou o sr. Satterthwaite.

– Conheço a etiqueta médica, mas o diabo que me carregue se eu souber algo sobre a etiqueta dos detetives.

– Não pega bem pedir a uma cantora profissional que cante num encontro social – ponderou o sr. Satterthwaite. – Será que podemos pedir a um investigador particular que investigue? Questão curiosíssima.

– Perguntar não ofende – falou Sir Charles.

Escutou-se um leve bater na porta, uma fresta se abriu, e o rosto de Hercule Poirot surgiu por ela, com uma expressão de quem se desculpa.

– Entre, homem – gritou Sir Charles alvoroçado. – Estávamos justamente falando no senhor.

– Não quero meter o nariz onde não sou chamado.

– De modo algum. Tome um drinque.

– Não, obrigado. Raramente bebo uísque. Mas aceito um cálice de xarope de frutas...

Xarope de frutas, entretanto, não fazia parte do rol de líquidos ingeríveis de Sir Charles. Após acomodar o convidado numa cadeira, o ator foi direto ao ponto.

– Vou falar sem rodeios – avisou. – Monsieur Poirot, estávamos justamente falando no senhor e... e... no que aconteceu hoje à noite. Diga-me, pensa que tem algo errado nisso tudo?

As sobrancelhas de Poirot se ergueram. Ele disse:

– Errado? Como assim, errado?

Bartholomew Strange esclareceu:

– Meu amigo enfiou na cabeça que o velho Babbington foi assassinado.

– E os senhores pensam que não. É isso?

– Queremos ouvir a sua opinião.

Poirot ponderou pensativo:

– Claro, ele adoeceu de repente... Muito de repente.

– É verdade.

O sr. Satterthwaite explicou a teoria de suicídio e sua própria sugestão de mandar analisar o conteúdo da taça de coquetel.

Poirot assentiu com a cabeça.

– Isso, afinal, não vai fazer mal a ninguém. Como avaliador da natureza humana, me parece extremamente improvável que alguém quisesse eliminar um inofensivo e simpático senhor de idade. E, a meu ver, a ideia de suicídio é ainda mais improvável. Mas a taça de coquetel vai nos contar a verdade.

– Em sua opinião, qual será o resultado da análise?

Poirot deu de ombros.

– Minha opinião? Só posso adivinhar. Está me pedindo para adivinhar o resultado da análise?

– Sim...?

– Então meu palpite é que só vão encontrar o resíduo de um soberbo martíni. – Fez uma reverência na direção de Sir Charles. – Envenenar um homem com um coquetel pinçado entre as muitas taças de uma bandeja... Ora, essa técnica seria muito, muito difícil. E se aquele velho e simpático clérigo quisesse cometer suicídio, não creio que o fizesse numa festa. Isso mostraria absoluta falta de consideração com os outros, e o sr. Babbington me pareceu uma pessoa de extrema consideração. – Fez uma pausa. – Esse, já que me perguntou, é o meu parecer.

Seguiu-se um instante de silêncio. Então Sir Charles encheu o peito e deixou escapar um suspiro profundo. Abriu uma das janelas e olhou para fora.

– O vento mudou de direção – constatou.

Saía de cena o detetive do Serviço Secreto; entrava o velejador.

Mas para o bom observador sr. Satterthwaite pareceu que Sir Charles ainda ansiava pelo papel que, no fim das contas, não conseguiu.