Um aprendiz de ciência

Carlos Chagas Filho · Capítulo 8 de 15 · parte 2/2

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Um aprendiz de ciência

V - Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

Realizei duas viagens mais longas. Quando fui a uma reunião do Comitê da Organização Pan-Americana de Saúde, aproveitei para visitar alguns dos laboratórios da costa nordeste dos Estados Unidos. Devo acentuar a visita que fiz a Detlev Bronk, em Filadélfia, ao laboratório de Newton Harvey, em Princeton; ainda, ao Instituto de Macromoléculas, de Ephraim Katchalsky, em Brooklyn, e ao Centro Médico da Universidade de Columbia, no qual trabalhava David Nachmanson, com o qual estabeleci uma amizade muitas vezes tumultuada por discordâncias científicas. Na Universidade de Harvard visitei o Centro de Pesquisas Biomédicas. De cada uma dessas visitas, que se prolongavam às vezes por mais de três dias, tirei enorme partido. Foi uma experiência muito válida para o desenrolar da minha atividade científica, já que um dos grandes fatores de impedimento da pesquisa em nosso país era a distância que nos separava dos grandes centros de ciência do hemisfério norte e, também, de certos países distantes do hemisfério sul, como a Austrália e a Índia. Isto torna muitas vezes inviáveis, ainda hoje, nossos projetos de pesquisa, nos quais a troca de informações é sempre um fator valioso de progresso. A distância junta-se, ainda, a incompreensão da importância da ciência para o desenvolvimento social, o que é um dos traços da "incultura" nacional.

A outra viagem, do maior interesse para os trabalhos que se desenvolviam no Instituto de Biofísica, me levou a permanecer quase dois meses no Istituto Superiore di Sanità, onde, na companhia de Daniel Bovet, familiarizei-me com os despolarizantes de membranas, alguns dos quais, por isso mesmo, têm ação curarizante. Pude, assim, comparar a eletrogênese do Torpedo com a do Electrophorus electricus (L.).

A participação na Primeira Conferência Geral da Associação Internacional das Universidades, de cujo primeiro conselho fiz parte, permitiu-me, pela comparação que pude fazer entre os vários modelos universitários de todo o mundo, alargar a minha idéia do que deva ser realmente uma universidade, preocupada, de um lado, com os problemas nacionais, e atenta, do outro, com o que se passa nas universidades de outros países. Isto é condição indispensável para que se possa contribuir para a cultura nacional.

O desenvolvimento científico do Instituto de Biofísica fez-se não só pelo interesse que os jovens e menos jovens que o procuraram — e ainda o procuram — tinham pelo conhecimento científico, quanto pelo estabelecimento quase-obrigatório do tempo integral, com o qual se desenvolveu a ciência nos países de proeminência científica e na época já implantado na novel Universidade de São Paulo (USP). Escrevi "quase-obrigatória" porque, em alguns casos, raríssimos, permiti atividades fora do instituto, mas que eram de interesse para nossa instituição. A acumulação de funções era a conseqüência dos baixos salários oferecidos aos professores e pesquisadores.

Para resolver o problema dos membros do Instituto de Biofísica e da comunidade científica em geral tomei duas iniciativas, ao longo do tempo. A primeira foi a solicitação feita à Fundação Rockefeller de bolsas complementares para os pesquisadores da universidade. A fundação aceitou imediatamente a proposta, concedendo as bolsas pedidas. Essa iniciativa foi, entretanto, interrompida pela própria fundação, devido ao protesto pela extrema lentidão com que, dentro da universidade, eram repassados os montantes já concedidos pela organização americana aos beneficiários. A atitude da Fundação Rockefeller foi a natural conseqüência do grande protesto feito por um dos beneficiados, inclusive por meio dos jornais.

A segunda iniciativa que tomei foi a de solicitar ao presidente do Dasp, Luís Simões Lopes, que aquela organização, que dominava o cenário administrativo do país, determinasse o meio pelo qual as instituições universitárias e científicas pudessem estabelecer, para seus quadros, o sistema de trabalho em tempo integral. Luís Simões Lopes aceitou, com entusiasmo, a minha proposta, que não chegou a termo devido às várias denúncias de que membros do corpo docente não compareciam aos seus laboratórios, por dias a fio. O problema, entretanto, foi resolvido inicialmente com a criação do Conselho Nacional de Pesquisas, no qual, sob a direção de Álvaro Alberto, foram criadas as bolsas de complementação, que exigiam atividade em tempo integral. Pena que essa medida não tenha sido tomada no momento em que foi promulgada a Constituição de 1938 e a proibição de qualquer tipo de acumulação tivesse afastado de suas atividades muitos de nossos melhores pesquisadores, os quais não tiveram compensada, por um aumento de vencimentos, a perda parcial de seus rendimentos.

A necessidade do tempo integral custou muito a ser aceita pelas políticas governantes. Lembro-me de uma reunião havida em Washington, em março de 1962, como parte do Programa de Boa Vizinhança, idealizado por John F. Kennedy. Éramos vinte e um representantes dos países das Américas Latina e do Norte. A proposta de adoção do tempo integral mereceu contestação da maior parte dos delegados presentes, manifestando-se a favor da mesma, abertamente, somente os representantes da Argentina e do Brasil, os dois únicos cientistas do grupo, ele físico e eu biologista. No Brasil, a primeira instituição a adotar o tempo integral foi a Universidade de São Paulo, a começar pela Faculdade de Medicina — para seus departamentos básicos —, e a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, fundada logo depois de criada a USP. A Fundação Rockefeller desejou estabelecer o tempo integral para as cadeiras básicas da Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil. Não o fez porque nenhum dos professores visados prontificou-se a exercer a sua atividade em tempo integral.

As dificuldades para manter o quadro do Instituto de Biofísica em tempo integral, antes da criação do CNPq, foram obviadas na Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil pela compreensão de Aluisio de Mello Leitão, com a criação das disciplinas fisiologia comparativa e bioquímica, entregues a pesquisadores do Instituto de Biofísica, entre os quais Aristides Azevedo Pacheco Leão, a primeira, e a segunda, a Maury Miranda. Isto só foi possível porque a nova Constituição passou a permitir a acumulação de uma função docente com outra da mesma característica, ou com uma função técnica.

Sempre pensei que o tempo integral fosse o fertilizador de uma carreira científica. Elevado por concurso a ocupar uma cátedra na Faculdade de Medicina, malgrado dificuldades materiais, recusei sempre aceitar funções definitivas fora dos locais onde exercia a minha atividade de professorpesquisador. Assim é que não aceitei participar de concursos para outras cadeiras e nem mesmo exercer atividades clínicas, dentro de minha competência, na biofísica médica. Entretanto, convidado por Joaquim da Costa Ribeiro, não me neguei a ser diretor do Setor de Biologia do Conselho Nacional de Pesquisas, do qual Costa Ribeiro era diretor científico. Minha aceitação, todavia, foi condicionada a que toda a minha atividade fosse exercida na Praia Vermelha, excetuadas as ocasiões nas quais reuniões me obrigariam a ir à sede do conselho, na avenida Marechal Câmara, ou naquelas a que fosse obrigado a visitar instituições de pesquisa situadas fora do Rio. Nestas iria com o fim de verificar suas condições de trabalho e a sua adequação à solicitação de auxílio formulada.

Afastei-me, parcialmente, do instituto, em circunstâncias que até hoje dilaceram o meu coração. Como já contei, em uma certa manhã de novembro de 1940, precisamente no dia 8, Evandro pereceu num desastre de avião, em plena enseada de Botafogo. Em conseqüência, fui indicado por Getúlio Vargas, a pedido dos colaboradores de meu irmão, para assumir a direção do Serviço de Estudo das Grandes Endemias (Sege), que ele criara no Instituto Oswaldo Cruz.

A história desse serviço não foi ainda exposta de maneira suficiente e, assim, ouso descrevê-la rapidamente. Evandro Chagas, livre-docente de medicina tropical e pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz, notou esmorecimento nos trabalhos realizados sobre doenças tropicais em nosso país. Procurou Guilherne Guinle que, na sua benemerência, prometeu patrocinar o projeto de meu irmão. Este obteve, ainda, a promessa de cooperação da Força Aérea Brasileira. Munido desses dois apoios, Evandro começou a verificar as condições nosológicas do país, percorrendo-o do Norte ao Sul. Em cada local em que o avião pousasse, Evandro convocava a classe médica e as autoridades para a realização de uma obra sanitária conjunta. Muitas vezes a sua ação se estendia a áreas vastíssimas. Assim é que repetiu, em 1939, o inquérito sanitário da Bacia Amazônica que meu pai fizera em 1910, visitando todos os locais que haviam sido examinados e constatando, apenas, pequena variação nos índices perquiridos e entre os valores observados por Chagas e os que ele obtivera. Sua presença teve ainda a conseqüência de entusiasmar alunos das faculdades de medicina e jovens de todas as regiões que visitou. Evandro foi, sem dúvida, um grande portador da mensagem da ciência a serviço do homem. Numerosos foram os postos de atendimento a doentes portadores das mais variadas moléstias infecto-contagiosas. Leishmanioses, visceral e tegumentária, esquistossomose, malária e doença de Chagas, além de outras, foram alvo do interesse do Serviço de Endemias. Assinale-se o posto que esse serviço manteve em Bambuí, onde, em menos de um mês, foram vistos mais casos agudos de doença de Chagas do que aqueles que nosso pai vira durante os dois anos em que esteve em Lassance. Quero, ainda, acentuar o entusiasmo com que, até hoje, cinqüenta anos depois de sua morte, o nome de Evandro é reverenciado.

Os colaboradores de Evandro Chagas, continuando a sua obra, deram vastíssima contribuição à patologia tropical, bastando citar Emmanuel Dias e Lobato Paraense, entre muitos. Evandro tinha as características que melhor marcam o verdadeiro cientista: o total despojamento de bens materiais, uma profunda obsessão pelo trabalho científico que realizava, uma genuína curiosidade por tudo aquilo que ocorre na natureza e um apegado desejo de servir a seu país.

Os dois anos em que permaneci como diretor do Sege foram de atividade exauriante. Chegava ao hospital às oito e meia da manhã para estar na Praia Vermelha às quatorze horas. Praticamente todos os dias passava tempo variável no Dasp, pois minha função principal era inserir o serviço, ou pelo menos os seus técnicos, no quadro das atividades federais, para o que encontrei o apoio de Gustavo Capanema, ministro da Educação e Saúde, Luís Simões Lopes, presidente do Dasp, e Cardoso Fontes, diretor do Instituto Oswaldo Cruz. A verba despendida por Guilherme Guinle, na ocasião, era de quatrocentos contos de réis por mês, e foi, para mim, uma satisfação comunicar ao grande benemérito a transferência do serviço de sua responsabilidade para passá-la ao governo federal.

Esgotei-me, realmente, nessa atividade cheia de preocupações e de responsabilidades. Não sei como adquiri uma infecção pulmonar que foi sanada pelo emprego intravenoso de Gadusan e, com a minha ida, em 1942, para a Granja das Margaridas, a duas léguas de Barbacena, pequena propriedade rural pertencente ao meu cunhado Virgílio de Mello Franco. Cheguei a Barbacena com acessos de febre alta todas as tardes, mas também com a curiosidade de conhecer Georges Bernanos, cujos livros me haviam impressio-nado fortemente e que ali fixara residência num sítio denominado Cruz das Almas. A primeira vez que o vi foi na Igreja Matriz de Barbacena, onde me parecia estar vituperando num português de difícil compreensão o religioso que estava dentro do confessionário. Achei estranhíssimo o tato e só mais tarde, quando melhor conheci Bernanos, vim a compreendê-lo. Era um dos seus momentos de ira, nos quais a razão estava, na maioria das vezes, ao seu lado.

Alguns dias mais tarde, sentado na sala de estar na Granja das Margaridas, ouço o tropel de ferraduras batendo no cascalho. Aproximei-me da porta e vi, descendo de um belo alazão, o próprio Georges Bernanos. Era um homem fascinante, cabeça de extraordinária força, o perfil marcadamente delineado e os revoltos cabelos grisalhos completavam a figura excepcional desse escritor que trazia a poesia na alma e o ardor do combate pela boa causa no coração. A irradiação da sua personalidade não era de nenhum modo atingida pela deformação física de seu corpo, conseqüência de um acidente de motocicleta ocorrido durante a guerra. Recebi essa visita, diariamente, durante os quase cem dias que passei nas Margaridas. A princípio, as visitas eram seguidas de um aumento de minha temperatura, em razão da veemência das posições de Bernanos e a minha discordância de certos conceitos por ele defendidos. As divergências eram mínimas e o acordo perfeito em relação às questões principais do dia. Assim, por exemplo, quanto à guerra que se desenrolava no Velho Continente ou na condenação do marechal Pétain, assunto no qual a ira de Bernanos não tinha limites. Também em relação aos problemas sociais de nosso tempo e, do mesmo modo, nas questões religiosas, nas quais a sua posição era mais agressiva do que a minha. Esmiuçando a memória, não encontro em Bernanos, já amadurecido após sua vivência na guerra da Espanha, nenhum traço do pensamento "mauraussiano", ou o eco de um camelot du roi. Bernanos completou, em mim, o desenvolvimento cultural que se iniciara com a leitura, entre outros, de Mauriac, Green, Proust, Faulkner, Dostoievski e dos poetas ingleses. Mais do que isso, Bernanos deu-me uma nova concepção da Igreja, muito mais livre e compreensiva do que aquela que a severidade dos padres de Oliveira e da Igreja do Largo do Machado me haviam imposto. Creio que o conceito de religião, para Bernanos, se encontre definido, em parte, em um apólogo incluso em carta que me mandou. Assim dizia:

Em uma certa ilha isolada habitavam três ermitãos já de idade

avançada. Encontravam-se os três na praia quando viram que,

lançado ao mar de um navio ancorado a distância, para eles se

dirigia um pequeno bote. Chegado à praia, dele saltou um

prelado acompanhado de dois ou três serviçais. Aproximou-se

deles e perguntou: "Que fazeis, sozinhos, nestas paragens?"

Os três eremitas responderam-lhe em uníssono: "Rezamos,

Excelência." "Bela coisa", respondeu-lhes o prelado. "Vamos

então rezar juntos o Pater." Os três entreolharam-se e, no fim

de algum tempo, disseram ao bispo que não o sabiam de cor.

"Não seja por isso", respondeu-lhes o bispo. "Vamos ensiná-lo a

vocês." Logo depois de terminado o ensinamento, o prelado

voltou ao navio. Antes que este partisse, o prelado os viu

andando sobre as águas e aproximando-se da nave.

Preocupado, perguntou-lhes o que poderia fazer por eles.

Responderam-lhe que voltasse a lhes ensinar o Pater, pois

haviam esquecido o que tinham aprendido pouco antes.

Na carta que me escreveu, Bernanos atribui o apólogo a Tolstói. Procurei encontrá-lo numa edição das obras completas desse autor. Em vão.

Os arroubos anti-semitas de Bernanos não atravessaram com ele o oceano. Por esse prisma tive com Bernanos vários entreveros. Impensadamente, como ele mesmo me disse, em sua crônica semanal, atacou a comunidade hebraica porque um grande professor israelita, da PUC, escrevera um artigo em defesa do marechal Pétain. Não aceitei os seus argumentos, puramente passionais, sentindo-me até atingido, pois meu laboratório abrigava um certo número de cientistas hebreus, nacionais ou aqui exilados, e entre estes René e Sabine Wurmser, com os quais, algumas semanas depois, Bernanos estabeleceu laços de amizade que perduraram até o seu desaparecimento. Creio que a convivência de Bernanos com os Wurmser apagou de sua alma essa nódoa discriminativa.

Durante os meses que passei em Barbacena, o Laboratório de Biofísica, naturalmente, não me saía do pensamento. No correr do último mês, com o meu restabelecimento assegurado, comecei a pensar em como deveria administrar o laboratório, mais tarde transformado em instituto universitário, como já disse, por meio do decreto-lei n° 8.393, de 17 de dezembro de 1945. Cheguei à conclusão de que, como diretor do instituto, algumas regras gerais deviam me conduzir. Em primeiro lugar, colocar o mérito científico acima de qualquer outra consideração, tal como parentescos, influência política e outras quaisquer; outra norma seria a de prestigiar os jovens que mostrassem marcante vocação científica, criando, para tanto, unidades de trabalho que deveriam dirigir; procurar, o mais possível, o intercâmbio entre os vários setores do instituto, através da criação de programas de pesquisa que exigissem a colaboração de pesquisadores de áreas de formação diversas; estabelecer contatos com as instituições de fora e de dentro do país e, para tanto, promover simpósios de alto nível, com a participação de pesquisadores do instituto e de instituições estrangeiras; procurar atrair para o nosso convívio somente jovens de indubitável tendência científica e, além do mais, mostrar a necessidade de o pesquisador ensinar, organizando a vida institucional de modo que seja ele um participante de suas atividades de ensino, sem barragem do tempo destinado à pesquisa, levando-se em conta que a universidade "é uma instituição de pesquisa, e, porque pesquisa, ensina"; e considerando, ainda, que o ensino bem elaborado é uma fonte enriquecedora de conhecimentos do próprio pesquisador.

A criação de inúmeras unidades de pesquisa no Instituto de Biofísica foi conseqüência de fatores diversos. Um deles, a necessidade de introduzir em nosso meio uma tecnologia física que os laboratórios de biologia do hemisfério norte já estavam usando. O outro, a necessidade de dar oportunidade a jovens que, à medida que os meses passavam, em maior número vinham procurar o instituto. A princípio eram, todos eles, estudantes de medicina, mas, logo a seguir, vieram os de outras unidades da universidade, particularmente da Faculdade de Filosofia. O Instituto de Biofísica tornara-se, assim, um pólo de interesse científico para os jovens do Rio de Janeiro. A dispersão, mais aparente do que verdadeira, criticada por muitos e, até mesmo, por participantes dos nossos quadros, era a conseqüência da necessidade de dar ao nosso campo de estudos a flexibilidade indispensável à obtenção de resultados significativos. A biofísica deve ser definida como uma disciplina conjuncional que dá o baseamento às demais disciplinas biológicas e estabelece entre elas laços de compreensão e de interpretação, situando-se, assim, distante do conceito primitivo que admitia ser ela, no máximo, o estudo das aplicações dos conhecimentos e da tecnologia da física, dissociada da análise do fenômeno biológico, fundamento do ser humano.

Uma das características da atividade do instituto foi a sua continuidade. Sábados e domingos, ou dias feriados, nunca foram motivo para meus companheiros deixarem de ir ao casarão cor-de-rosa da Praia Vermelha. Esse regime, que na ocasião era uma exceção, não foi fácil de ser estabelecido. Lembro-me da dificuldade que tive em obter as chaves do grande edifício da Faculdade de Medicina, onde se alojava o instituto, cujas portas abriam-se às oito horas da manhã, para se fecharem às dezessete horas.

Um admirável funcionário era o guardião da faculdade e nela habitava em uma pequena série de cômodos. Tornara-se um amigo desde os meus tempos de calouro, mas custou a aceitar a nova medida que, naturalmente, o preocupava, pois, além de perturbar o seu repouso, permitiria a um indesejável, que se apossasse da chave, penetrar no edifício. Esse fato arrefeceu nossa amizade, que, só muito mais tarde, veio a se restabelecer.

Os anos que se seguiram foram de crescimento constante e de produção científica apreciável. A partida de Sabine e René Wurmser, obrigados a sair do Brasil com destino a Londres, deixara um vazio, mas este foi compensado pelo entusiasmo com que o jovem grupo de pesquisadores que me cercava enfrentava, dia e noite, suas tarefas e dificuldades de toda ordem e que tantas vezes perturbavam a marcha dos trabalhos. Na organização administrativa do instituto tive a ajuda de Manuel da Frota Moreira, que a ela se dedicou integralmente, e também de nossa secretária Ana Maria Leão Teixeira, a Donana, como a chamamos. Quero assinalar, novamente, o quanto devo a dois auxiliares, técnicos de laboratório ou serventes, Augusto da Silva e Wilton Batista de Paula. Augusto era um grande conhecedor de anatomia humana e dava cursos de recuperação para os estudantes de medicina. Era um extraordinário mestre em dissecar peças anatômicas e foi quem realmente me ensinou o que se chamava, então, anatomia operatória, disciplina na qual tive "distinção", graças exclusivamente aos seus ensinamentos. Foi assim, com surpresa, que o recebi quando, logo depois de nomeado professor, pediu para ir trabalhar comigo. Ponderei-lhe que no Instituto de Biofísica não poderia ele ter turmas de alunos para ensinar anatomia, que certamente muito o auxiliavam na vida. Disse-me ele que manteria pequenos cursos na Escola Hanemaniana, mas que desejava, realmente, trabalhar comigo. Nada o demoveu e, assim, pude contar com a sua inestimável colaboração até a sua morte. Nunca soube como ajudá-lo e nem pude lhe manifestar a minha gratidão pelo seu gesto de simpatia e amizade.

Volto a focalizar Hertha Meyer que, exilada por Hitler, fora trabalhar em Turim com Giuseppe Levi. Posteriormente, pois de novo perseguida pelas leis raciais do fascismo, viera para o Brasil, onde já se encontrava sua família. Aqui obteve colocação no laboratório de fabricação de vacinas antiamarílicas, mantido pelo Instituto Oswaldo Cruz em cooperação com a Rockefeller Foundation. Informado de sua presença naquela instituição por Eudoro Villela, convidei-a, como já assinalei, para vir dirigir nosso Laboratório de Cultura de Tecidos, até então sob a responsabilidade de João Machado, que o instalara. Hertha Meyer desenvolveu notável atividade no instituto. Deu início ao cultivo contínuo do Trypanosoma cruzi em culturas de tecidos, trabalho que alguns anos antes havia sido apenas iniciado por Kofoid, nos Estados Unidos. A essa linha de pesquisa, Hertha Meyer deu admirável contribuição pelo número de trabalhos publicados, comunicações a congressos e, até mesmo, por um filme de oito milímetros premiado pela qualidade do trabalho realizado, no qual vê-se a penetração do parasito numa célula, sua transformação em amastigota, a eliminação de formas flageladas oriundas da multiplicação dos corpúsculos leishmaniformes, e a entrada dos tripanossomas metacíclicos em células não parasitadas. A microcinematografia permite observar todas as etapas do ciclo do tripanossoma no interior das células parasitadas. Esse trabalho foi feito graças à doação ao instituto, pela Organização Mundial de Saúde, de uma instalação Zeiss de microfilmagem. Hertha Meyer se destacou, ainda, por sua capacidade de formação de pesquisadores e técnicos especializados. Foi com a colaboração de Hertha Meyer que Pita Levi-Montalcini conseguiu identificar, de maneira definitiva, o Fator de Crescimento de Nervos (NGF). Assim aconteceu: recebi, um dia, uma carta de Levi-Montalcini perguntando-me se, com o patrocínio da Fundação Rockefeller, poderia ela vir ao Brasil trabalhar com Hertha Meyer, que conhecera no período da perseguição anti-semita, no laboratório de Giuseppe Levi. Naturalmente, aquiesci ao pedido. Alguns meses depois, trazendo consigo dois camundongos portadores de nódulos de sarcoma de Rous, Montalcini chegou ao Brasil para começar a trabalhar, o que fez no dia seguinte. Colocando em cultura um gânglio embrionário e um pedaço do referido sarcoma, a experiência foi positiva em vinte e quatro horas. Numerosíssimos eram os dendritos que brotavam do gânglio. A experiência testemunha que, numa preparação na qual o sarcoma não fora colocado, mas somente o gânglio, este não indicou crescimento de nenhum dos seus componentes. Ficou assim provada a existência do Fator de Crescimento de Nervos.

Além do estudo do Trypanosoma cruzi em cultura de tecidos, Meyer realizou, também com a mesma precisão, o estudo do Toxoplasma gondii, assim como das formas extracelulares de alguns plasmódios. Essa linha suscitou grande interesse pois, na ocasião, os exércitos das forças aliadas, combatendo no Pacífico, faziam face à terrível epidemia de paludismo. Três fatores agravaram a situação. Primeiro, a quantidade de quinina era extremamente limitada pela falta de produção adequada; em segundo lugar, os anofelinos transmissores já mostravam resistência aos inseticidas usuais; do mesmo modo, os plasmódios, à quinina. Enfim, a idéia de uma vacina era mítica. Seria possível desenvolver uma produção maciça de plasmódios que permitisse estudos imunológicos destinados à produção de uma vacina? Era a pergunta que os imunoparasitólogos faziam a si mesmos. Durante duas semanas, o Instituto de Biofísica foi visitado pelo professor Keith Porter, do Departamento de Bioquímica de Harvard, que desejou conhecer in loco a realidade desse caminho.

Eduardo Penna Franca fora enviado aos Estados Unidos como bolsista do CNPq para se aperfeiçoar no estudo da aplicação de radioisótopos à biologia e à medicina. Voltando ao Instituto Oswaldo Cruz, não teve esta nobre instituição condições de fornecer-lhe o material necessário ao desenvolvimento das técnicas com que se familiarizara na América. Passado um longo período e como o conhecia bem, pois fora eu quem opinara para sua bolsa no CNPq, achei que poderia convidá-lo para o Instituto de Biofísica. Penna Franca a ele se integrou e teve participação definitiva no estudo da ação biológica das areias monazíticas do Espírito Santo, detalhada adiante, e na determinação das características radioativas do tório e urânio nos minerais do morro do Ferro, no planalto de Poços de Caldas. Deve-se a ele a determinação da poluição radioativa da atmosfera em conseqüência das explosões nucleares no Pacífico-produzidas experimentalmente pela França -, trabalho anteriormente citado, bem como o desenvolvimento da área de biofísica ambiental do instituto, o qual tornou-se um dos primeiros laboratórios latino-americanos especializados em radioecologia. Agora dirigido por Wolfgang Pfeiffer, nele estuda-se a contaminação por mercúrio nos garimpos da Bacia Amazônica, mercúrio este utilizado para amalgamar o ouro retirado do fundo da corrente e encontrado, não só nos animais domésticos e selvagens, como também nos seres humanos, em concentrações que chegam aos limites da periculosidade. A Penna Franca coube, também, a criação de clínicas de medicina nuclear, no Rio de Janeiro, voltadas para o diagnóstico e a terapêutica de disfunções tireoidianas.

Numerosas têm sido as linhas de pesquisa que utilizam isótopos radioativos. Começaram, as mesmas, com dificuldades que pareciam insuperáveis, com o estudo da fosforilação do ATP e, logo a seguir, com aquele da formação do colóide tireoidiano e sua indução pelos fármacos competentes. Coube a Antônio Couceiro a obtenção, por microextração, de quantidades mínimas do colóide de folículos vivos.

Alberto Barbosa Hargreaves, bioquímico, veio, também do Instituto Oswaldo Cruz, enriquecer nossos quadros. Com Manoel da Frota Moreira, que foi, por assim dizer, o vice-diretor do instituto até a sua ida para chefiar a Divisão Técnico-Científica do CNPq e, mais tarde, tornar-se secretário-executivo da Fundação Universitária José Bonifácio, Hargreaves determinou o conteúdo em sais minerais e em elementos orgânicos do sangue do Electrophorus electricus, o que permitiu a larga experimentação que veio a se fazer com porções do órgão elétrico perfundidas.

Aida Hasson Voloch veio, com Maury Miranda, completar o grupo de bioquímicos do instituto.

Maury Miranda foi, possivelmente, o jovem pesquisador de maior criatividade científica que conheci e um dos mais brilhantes jovens que vieram ao meu encontro. Disse-me Guzmán-Barron, com quem Maury Miranda estagiou, ser ele uma das inteligências científicas mais significativas que ele jamais encontrara, dizendo-me ainda que, a qualquer momento que Maury quisesse, poderia trabalhar em sua equipe, nas melhores condições que eram oferecidas a um pesquisador de renome, nos Estados Unidos. Nele a grande intuição era, entretanto, prejudicada pela imensa curiosidade que, se não disciplinada, leva certamente a uma dispersão de esforços e a uma descontinuidade na atividade laboratorial.

Aida Hasson Voloch, formada em química, tornou-se de imediato uma força ativa no instituto, aprendendo com rapidez técnicas ainda não conhecidas e vivenciando, como próprias, todas as preocupações e dificuldades que caracterizam o cotidiano de uma instituição científica. No seu trabalho de pesquisa encontra-se a precisão do detalhe, que é a própria ética da investigação, e a simplicidade do traçado experimental, que é a estética do mesmo. Aida Hasson participou, desde a sua entrada para o instituto, da pesquisa sobre o Electrophorus electricus (L.). E ela hoje uma profunda conhecedora dos mecanismos que o animal utiliza para defesa e ataque e para outras atividades biológicas. Aida Hasson Voloch, ao estudar a bioquímica do peixe-elétrico, tem posto em prática várias técnicas até então não utilizadas em nosso meio. Seu principal esforço tem sido o de caracterizar o receptor da acetilcolina. A importância do órgão elétrico para esta pesquisa nasceu de uma experiência de curarização do Electrophorus electricus na qual demonstrei que, enquanto a curarização muscular (dose-dependente) é de curta duração — podendo chegar até a vinte minutos nas doses utilizadas —, o desaparecimento da descarga pode durar até vinte e quatro horas. Tal fato indica a retenção no órgão elétrico do curare injetado endovenosamente, e permite admitir a existência de uma substância — o receptor — capaz de apreender a acetilcolina, agente transmissor do impulso nervoso ao efetuador, no caso o órgão elétrico. A notícia científica que mandei para a Comptes Rendus de l'Académie des Sciences de Paris foi publicada com muita lentidão porque foi boicotada por um professor de grande notoriedade, Louis Lapicque, que pensava que o trabalho pudesse trazer problemas para a aceitação da sua teoria da "cronaxia". A participação da acetilcolina na descarga elétrica foi por mim demonstrada em trabalho no qual se vê que a concentração de acetilcolina em um órgão diminui proporcionalmente ao número de descargas provocadas. Inversamente, com a diminuição da freqüência de excitação, o processo de destruição desse transmissor se modifica, reduzindo-se de forma progressiva. Foram também investigadas as principais enzimas do órgão elétrico, seja por técnicas bioquímicas correntes, do que se ocupou Aida Hasson e seu grupo, seja por citoquímica, pesquisa esta iniciada por Antônio Couceiro, de um lado, e Anna Francisca Falcato Ribeiro, de outro. O órgão elétrico é um bom modelo experimental para o estudo da desnervação. Esse processo tem sido utilizado para estudar, em diferentes planos, a desagregação molecular e as disfunções conseqüentes à desnervação. Um dos campos também abertos à investigação é o da determinação da origem embrionária do órgão, cuja similitude com os músculos bilaterais de outras espécies é o primeiro indício de uma matriz embrionária comum aos órgãos elétricos — sobretudo o principal — e aos músculos. Para esse estudo, Vivaldo Moura Neto e o seu grupo têm usado, principalmente, a caracterização do citoesqueleto através de uma observação comparativa entre os vários órgãos do poraquê e músculos de órgãos de outros espécimens animais. Vivaldo Moura Neto é uma das aquisições mais ou menos recentes do Instituto de Biofísica. Formado na UERJ, obteve o seu mestrado no Instituto de Química da UFRJ e o doutorado na Universidade de Paris, depois de quatro anos de freqüência no Collège de France e no Institut Pasteur. Introduziu em nosso meio o estudo do citoesqueleto, tornando-se, em pouco tempo, um dos melhores especialistas no assunto em toda a América Latina. Ao lado das suas qualidades de pesquisador, Vivaldo Moura Neto junta a de orientador pela sua comunicabilidade, especialmente com os jovens, tendo sido numerosas as teses realizadas sob sua orientação, nos poucos anos que tem de trabalho no Instituto de Biofísica.

A idéia de usar uma espécie biológica como modelo tem sido levada ao campo da parasitologia, sendo que, utilizando-se principalmente técnicas imunológicas, foram determinadas características reacionais, principalmente de cepas de tripanossomas e leishmanias. Tal idéia tem como objetivo a possibilidade de serem determinadas raças de alto poder imunogênico e pequena atividade patogênica. Entre outros pesquisadores que se ocupam desse assunto, quero citar Mécia Maria de Oliveira e Júlio Scharfstein.

O Setor de Neurobiologia, que em princípio tem como linha determinante a depressão alastrante, teve um despontar de grande repercussão: a publicação de um mapa estereostático do cérebro do gambá — Didelphis marsupialis. Em edição magnífica, esse trabalho, aplaudido por todos os eletrofisiologistas que estudam didelfídeos e outros animais marsupiais, foi realizado por Carlos Eduardo da Rocha Miranda e Eduardo Oswaldo Cruz. Outras atividades importantes no campo da fisiologia cerebral foram também conduzidas pelo grupo de especialistas do Instituto de Biofísica, entre eles Roberto Lent, Raphael Linden, Leny Cavalcanti etc. Mais recentemente, ficou demonstrado por Ricardo Gattass e colaboradores que a excitação visual traz, no local tecidual de sua ação, uma modificação do metabolismo. O caso estudado é o da citocromo oxidase.

O instituto esteve sempre muito próximo do Departamento de Farmacologia e numerosos foram os trabalhos publicados em conjunto por componentes dos dois centros. Foi associado ao professor Lauro Sollero, titular de farmacologia da Faculdade de Medicina, que empreendi uma iniciativa que a muitos pareceu leviana. Tendo sido um dia chamado pelo presidente do Jockey Club Brasileiro, Francisco Eduardo de Paula Machado, para me empenhar na solução do problema do doping em cavalos de corrida, que fazia com que muitos fármacos escasseassem nas prateleiras das drogarias do Rio de Janeiro, aceitei o desafio, bem sabendo que ia me por em contato com grupos de importância social, mas sem a aceitação do que lhes pudesse causar prejuízo. Convidei Aida Hasson e Lauro Sollero para me ajudar na tarefa. Aceito o convite, iniciamos com experimentos em um cavalo cedido por Paula Machado. Decidi, de imediato, que em vez de pesquisar produtos anormais na saliva, que é um mau concentrador de produtos eliminados, utilizaria, para isso, a urina. Na determinação da existência ou não de fármacos neste humor, utilizou-se a cromatografia em papel. Para minha surpresa, e examinando-se somente a urina do primeiro colocado em cada páreo e de um outro animal sorteado, foram doze os casos de doping que encontramos no primeiro mês de exames. Um dos primeiros animais dopados era de propriedade de uma figura do mais alto padrão econômico. Não satisfeito com os resultados, resolveu aliciar jornalistas especializados que, durante vários meses, publicaram um artiguete contra mim — cientista tupiniquim — no Diário da Noite. Chegou esse proprietário amuado, até mesmo, a instalar um laboratório para o qual chamou um professor assistente da Faculdade de Farmácia de Paris, a fim de demonstrar o erro do método que empregávamos. Essa viagem não chegou a se realizar graças à intervenção do diretor daquela faculdade, professor René Fabre, que mostrou ao jovem assistente a exatidão e as vantagens do método utilizado no Rio de Janeiro. A polêmica exauriu-se quando um grupo de bioquímicos ligados ao turfe, na Flórida, aqui veio, por conta própria, e considerou que o método empregado era mais do que válido.

Mais recentemente, o instituto enriqueceu-se com a integração, ao seu quadro, do professor Edson Xavier de Albuquerque, o qual tem estudado, cuidadosamente, a comunicação intercelular, para isso usando técnicas extremamente avançadas. Entre outros resultados, assinalo o estudo do mecanismo de ação de metais pesados na comunicação interneuronal.

As técnicas modernas foram sendo introduzidas, pouco a pouco, na rotina do instituto, quando do retorno do exterior de muitos dos nossos pesquisadores, onde se haviam familiarizado com as mesmas. Assim, por exemplo, a técnica de estudo de comunicação intercelular trazida por um de nossos mais antigos investigadores, Gilberto de Oliveira Castro, depois de sua permanência nos Estados Unidos.

Outra atividade do instituto resultou da minha participação no United Nations Scientific Committee on the Effects of Atomic Radiation, organizado pelas Nações Unidas por solicitação do governo da Índia, tendo em vista as explosões de Hiroshima e Nagasaki, e os testes com bombas de hidrogênio na estratosfera, realizados pelos Estados Unidos e pela URSS. Um dos aspectos do efeito das ações ionizantes estudado foi a freqüência de alterações cromossômicas em pilotos de vôos supersônicos, o que também acontece nos sobreviventes do massacre de Hiroshima e Nagasaki. Indicou-se, também, a importância que teria o conhecimento da reação cromossômica às radiações que se observam nas regiões ricas em materiais naturalmente radioativos. O governo da Índia iniciou vasto inquérito sobre a situação dos habitantes do Kerala, onde se encontra população numerosa vivendo sobre terras de alta atividade radioativa natural. As zonas de areias monazíticas do litoral do Espírito Santo foram, também, apontadas como fontes de estudo desse interessante aspecto da ecologia. Decidi então criar uma missão de estudos em Guarapari, chefiada por Eduardo Penna Franca. Essa tarefa foi precedida de vários seminários preparatórios, organizados por Crodowaldo Pavan, A. Cordeiro e Merril Eisenbud, da Universidade de Nova York. Da apresentação feita, verificou-se, também, a necessidade, para acompanhamento do início dos trabalhos feitos nas zonas de areias monazíticas, de uma unidade de genética humana, à qual se ligariam os trabalhos sobre o desenvolvimento de larvas de Rhynchosciara americana, realizados, então, por Maury Miranda. Para chefiar a unidade de genética foi convidado, como já disse, José Carlos Cabral de Almeida, que se tornou, em pouco tempo, um geneticista humano de grande realce. Estudos de campo mostraram, na região de Guarapari, um incremento estatisticamente significativo de modificações cromossômicas. Entretanto, a relativa escassez populacional efetiva, na época, e a ausência de um registro confiável das características mórbidas da população, uma população variável, pois que o sítio era, essencialmente, uma estação de vilegiatura, tornaram impossível obter uma avaliação correta dos efeitos somáticos dessa radiação natural. O mesmo estudo realizou-se na Índia, na China e em outros países com radioatividade natural elevada.

Na mesma ocasião, organizei, no nosso instituto, cursos sobre a aplicação de radioisótopos em biologia e medicina. O primeiro deles contou com a colaboração do professor J.D. Cooper e, posteriormente, foi administrado por Eduardo Penna Franca. Esses cursos contaram com a participação de estudantes de todo o Brasil, da América Latina, de Portugal e de Moçambique. Ao mesmo tempo, propus que o Hospital dos Servidores do Estado criasse o cargo de "físico-hospitalar", sendo que, para o mesmo, foi aproveitado Joaquim Pedro de Andrade, que fora aluno do primeiro curso de medicina nuclear.

Firmino Torres de Castro veio do Instituto Oswaldo Cruz, tendo começado a colaborar com pesquisadores do Instituto de Biofísica em 1955 e, finalmente, depois de sua passagem do Ministério da Saúde para o da Educação, ingressou definitivamente em nossos quadros, em 1971. Com sua mulher Jacy Faro de Castro — também pesquisadora do Instituto de Biofísica —, deu início à série de trabalhos sobre bioquímica de eucariotos, particularmente de tripanossomídios, trabalhando principalmente com o Trypanosoma cruzi. Sua larga erudição e grande compreensão humana tornaram-no, rapidamente, um líder. Firmino Torres de Castro é um pesquisador de grande visão no âmbito da biologia de microorganismos vista através das técnicas e dos conceitos que caracterizam a biologia molecular.

No período inicial da vida do Instituto de Biofísica, afastei-me de sua direção quando fui eleito diretor da Faculdade de Medicina, cargo que aceitei embora sabendo das imensas dificuldades e da multiplicidade de preocupações que o mesmo comportava. Sentia que o instituto já havia adquirido vida própria, e a ação do diretor havia sido facilitada pela maturidade de Manoel da Frota Moreira e de meus primeiros companheiros no Instituto de Biofísica.

Manoel da Frota Moreira, esplêndido administrador, muito preciso e vigoroso na defesa dos seus pontos de vista, inicialmente serviu à instituição como monitor. Logo depois de graduado em medicina, foi passar dois anos na Universidade de Harvard trabalhando em um de seus departamentos mais respeitáveis. Tornou-se, assim, um especialista em análise de gases no sangue. Mas a sua característica principal era o seu apego ao instituto. Pouco a pouco foi sendo forçado a se distanciar da pesquisa de laboratório, tendo sido solicitado a participar do grupo diretor do CNPq. Seu conhecimento da ciência brasileira e de nossos problemas tornou-o interlocutor indispensável daqueles que adquiriram responsabilidade na administração científica do Brasil. Por suas excepcionais qualidades, Frota Moreira, na sua condição de diretor-executivo, deu o encaminhamento necessário para que a Fundação Universitária José Bonifácio pudesse prestar à Universidade Federal do Rio de Janeiro uma extraordinária contribuição. Manoel da Frota Moreira fez parte do grupo inicial do Instituto de Biofísica, junto com Tito Enéas Leme Lopes.

Tito Enéas Leme Lopes era inspetor de leite em Guaratinguetá quando, aprovado em concurso, eu o chamei para assistente, conforme já relatei. Escolha feliz pela soma de contribuições por ele dada ao crescimento de nossas atividades. Intelectual de capacidade invulgar, leitor insaciável de livros científicos e literários, era um didata de surpreendente exuberância. A essas qualidades aliava-se uma atitude franca perante a vida e um riso contagiante. Predominava em sua personalidade, entretanto, uma intensa curiosidade que, ao mesmo tempo que lhe dava uma cultura extensíssima, tirava-lhe a concentração indispensável a um pesquisador, que, para realizar a sua tarefa, precisa ter uma linearidade de objetivos que o leva à resposta da questão formulada no planejamento de seu projeto de pesquisa.

A José Moura Gonçalves coube a formação técnica de grande parte dos jovens estudantes que procuraram o instituto. Tendo participado do Congresso de Bioquímica, em Estocolmo, permaneceu durante algum tempo nos Estados Unidos, no National Institutes of Health, com Jesse Greenstein, de onde trouxe para o nosso campo de trabalho a cromatografia em papel. Essa técnica foi, logo de saída, de extrema utilidade na determinação de alguns elementos bioquímicos do órgão elétrico. De muita competência no setor teórico e na realização experimental, coube a Moura Gonçalves instalar o aparelho de eletroforese livre ou eletroforese de fronteira móvel (métodos descritos por A. Tiselius) e, dentre suas várias contribuições, cite-se a determinação dos componentes proteicos do veneno crotálico. Estudando venenos de cobras de vários pontos do país, mostrou que existem entre os mesmos diferenças na composição proteica dos seus venenos, embora as espécies morfologicamente sejam as mesmas, obtendo, assim, uma prova bioquímica de diferenças específicas conseqüentes a prováveis modificações ambientais. A eletroforese livre foi uma das várias técnicas postas em uso contínuo no instituto e a microscopia eletrônica outra delas.

Com o crescimento da utilização do microscópio eletrônico em biologia, tomou-se uma necessidade a sua integração aos trabalhos realizados no Instituto de Biofísica. Alguns anos depois de terminada a guerra, a General Electric apresentou ao público de São Paulo e do Rio o seu microscópio de mesa. Vários foram vendidos em condições muito favoráveis, nas duas cidades. O representante daquela companhia foi procurar-me, oferecendo ao instituto condições excepcionais de compra. Recusei o pedido, porque o microscópio de voltagem fixa não serviria às nossas finalidades. Resolvi então organizar um curso sobre "microscopia eletrônica aplicada à biologia", que ficou sob a responsabilidade de Keith Porter, o qual convidou para participar do ensino Hernandez-Morán, especialista venezuelano então terminando o seu estágio em Estocolmo e, logo a seguir, fundador do Instituto Venezolano de Investigaciones Científicas (Ivic), construído com os maiores detalhes estruturais, em Caracas.

Os integrantes brasileiros orientadores do curso foram Hertha Meyer, do Instituto de Biofísica, e Raul Dodsworth Machado, do Instituto de Óleos do Ministério da Agricultura e grande especialista em óptica instrumental, como já dito, que mais tarde veio a se integrar ao nosso instituto. Em tratativas com a companhia Philips, consegui preço excepcional e, também, o estágio de Hertha Meyer nos laboratórios de Eindhoven, tendo seguido, mais tarde, para os Estados Unidos, onde percorreu várias unidades de eletro-microscopia. Também o técnico Fernando Barbosa Hargreaves, irmão do pesquisador Alberto Hargreaves, visitou esses laboratórios dos Estados Unidos.

Outra técnica que se desenvolveu com rapidez, no instituto, foi a da utilização de circuitos de ampliação eletrônica para a determinação de potenciais de ação ou qualquer outra atividade elétrica celular. A primeira instalação, em 1939, foi feita da maneira seguinte: havia eu voltado da Europa, onde freqüentara, principalmente, o laboratório do Instituto Marey, na França, no qual trabalhavam Alfred e Denise Fessard, e, posteriormente, na Inglaterra, no Departamento de Fisiologia da Universidade de Cambridge, em período de curta duração. Esses dois estágios permitiram-me conhecer as técnicas empregadas por E. Adrian, que utilizava, ainda, um galvanômetro de oscilação mecânica, e Brian Mathews, A. Huxley e Richard Keynes, que empregavam, para a análise dos potenciais obtidos, o oscilógrafo de raios catódicos. Resolvi construir, subsidiado por Guilherme Guinle, um aparelho destinado ao registro de potenciais de ação de nervos periféricos. Despreparado eu mesmo, procurei saber, de casa em casa, quem seria capaz de fazê-lo. Qual não foi o meu espanto quando os mais bem informados indicaram-me um mesmo nome, Gustavo Corção, que mais tarde atingiria a fama como escritor, pensador chestertoniano, e católico muito polemizado pelos "donos da verdade". Na ocasião, Corção trabalhava na firma Corção, Cardim & Cia., de seu irmão, num grande galpão na rua do Lavradio, e, três vezes por semana, lecionava pelas manhãs, no Instituto Militar de Engenharia. Nessas manhãs, terminada a sua tarefa, vinha ele ao nosso laboratório para conversar e discutir, em primeiro lugar, os problemas criados por minha encomenda e, logo depois, questões de religião, filosofia e política, nas quais a força de sua argumentação, antigo membro do "Partidão" que fora, muitas vezes me deixava atônito. Como eram agradáveis essas manhãs, continuadas depois por um duradouro almoço num pequeno restaurante da avenida Mem de Sá, onde se concluía o debate que recomeçaria nos almoços subseqüentes. Uma vez, indo da Praia Vermelha para a cidade, uma obstrução no asfalto fez com que meu velho Ford jogasse mais do que o habitual. Em conseqüência, saltou do porta-luvas meu livro de missa. Corção abaixou-se para pegá-lo e, pouco adiante, perguntou-me se eu era católico. A minha afirmativa, disseme ele que estava a caminho da franca conversão. Nesse dia, a conversa ao almoço versou problemas de religião. Em certo momento, verifiquei que a minha pequena formação católica não podia dialogar com a forte curiosidade intelectual de Corção. Disse-lhe que ele precisava conhecer um amigo, líder da mocidade católica, Alceu de Amoroso Lima. A aceitação de Corção levou-me ao telefone e fez com que Alceu marcasse um encontro com o meu amigo para almoçarem no Restaurante do Lido. Alguns dias depois, encontrei-me com Corção e por ele soube que o encontro havia sido, na verdade, um desencontro total de idéias. Alguns anos mais tarde, eu os vi na porta da Livraria Garnier, em plena confraternização. Creio que a reconciliação foi feita por intermédio dos monges do Mosteiro de São Bento, cuja missa dominical era do hábito de Alceu e começara a ser freqüentada por Corção. O relacionamento de Corção com a Igreja fizera-se anteriormente. Havia ele sido encarregado de receber o "sinal eletromagnético" vindo do Vaticano para iluminar a recém-inaugurada estátua do Cristo Redentor, no Corcovado. Diz-se que na hora aprazada os emissores do Vaticano não chegaram à estação de recepção, no Rio. Corção decidiu, por si mesmo, iluminar o Cristo no momento esperado.

A vida no instituto continuou em plena ascensão e raras eram as semanas em que não iam me ver rapazes e moças, em geral estudantes de medicina, que desejavam trabalhar em ciência. Aprovados em entrevista comigo, encaminhava-os a um dos pesquisadores para aprenderem as técnicas habituais do laboratório. Isto garantia um primeiro aprendizado do método quantitativo, o qual era seguido de um pequeno trabalho de laboratório. Não posso dizer do número de jovens que foram nos procurar. Muitos, dentre eles, tornaram-se, depois do estágio no Instituto de Biofísica, excelentes profissionais.

Continuei, também, a realizar colóquios, seja para conhecimento de técnica, seja para a abertura de novas estradas de conhecimento. Tendo, em uma das minhas viagens, tomado ciência de novos métodos da microscopia óptica, organizei um colóquio de uma semana sobre microscopia, estrutura celular e novos métodos. Entre os convidados, contei com a presença de Hernandez-Morán, Frey-Wissing e Maurice Wilkins, a quem foi outorgado, posteriormente, o Prêmio Nobel, conjuntamente com Watson e Crick, sobre seus trabalhos relativos à estrutura cristalográfica do ácido nucleico.

Para comemorar o 25° aniversário do instituto, em 1962, organizei, sob os auspícios da Unesco, uma reunião sobre "perspectivas da biofísica", que contou com a presença de Severo Ochoa, Daniel e Filomena Bovet-Nitti, M. Florkin e John Eccles. Essas reuniões, que contavam sempre com a presença de cientistas mais ou menos jovens de todo o Brasil, serviam não só para ilustrar o conhecimento dos meus companheiros de trabalho como, ainda, para fazê-los conhecer pessoalmente cientistas com os quais poderiam, posteriormente, realizar estágios de graduação ou doutoramento.

Um colóquio sobre mecanismos de curarização, realizado com a participação do Museu Nacional, veio logo a seguir. Foi essa instituição que deu início às pesquisas levadas avante, no Brasil, sobre os curares. Nelas trabalharam Louis Couty e João Batista de Lacerda, o qual, com a sua contribuição sobre a propriedade curarizante de uma única substancia, a delta-tubocurarina, retirada do Strichnus triplinervis, acabou com a proposição de A. von Humboldt de que seriam necessários, de conformidade com os procedimentos indianos, extratos de pelo menos duas plantas amazônicas para a produção de um verdadeiro curare. A linha iniciada por Batista de Lacerda tomou possível a análise elementar de um curare, obtida por Paulo Carneiro nos laboratórios de Gabriel Bertrand, no Instituto Pasteur de Paris. Nesse colóquio tomou parte, também, Darcy Ribeiro, que apresentou o seu admirável livro A arte plumária dos índios da Amazônia, recebido com a maior admiração pelos vários antropólogos presentes.

Uma das reuniões mais bem-sucedidas realizou-se como simpósio satélite da V Conferência Internacional de Fisiologia, que teve lugar em Buenos Aires, em 1939. O simpóáo, organizado pelo instituto, versou sobre a "bioeletrogênese", nele tendo sido apresentados os trabalhos feitos no instituto sobre a produção de eletricidade pelo Electrophorus electricus(L.) e os mecanismos de curarização do órgão elétrico dessa mesma espécie animal, e contou com a presença dos melhores especialistas do momento. Citem-se, dentre eles, David Nachmanson, John Eccles e Richard Keynes. Todos os trabalhos do simpósio foram publicados em forma de livro pela Editora Elsevier e apresentaram à comunidade internacional atividades realizadas em nosso país e até então mal apreciadas.

Nessa linha de realizações devem ser assinalados o já citado colóquio sobre a tireóide, organizado por Luiz Carlos Lobo, e um outro, que teve a finalidade de fornecer à comunidade científica do país dados importantes sobre o progresso que se desenrolava no domínio da microscopia óptica. Nesta, as lentes habituais nos microscópios são substituídas por espelhos refletores, donde a denominação, também usada, de "microscopia de reflexão". Do instituto tomou parte, com o brilho de sempre, Raul Dodsworth Machado.

A atividade do instituto no terreno da pesquisa continuou a se desenvolver, e o número de jovens que o procuravam, na Praia Vermelha, crescia de ano para ano, muito embora o Instituto de Biofísica não estivesse em condições de receber todos os que desejavam dar início à sua formação científica. Esse interesse pelo instituto justificava-se, a meu ver, por sua localização na Praia Vermelha, onde parte do curso básico de medicina era dado, e, ainda, pela vizinhança da Faculdade de Farmácia e da Escola de Química. Junte-se a este, o fato de que a população de cientistas que se formava no Instituto de Biofísica era bastante moça, e, assim, mais próxima desses mesmos jovens.

O corpo de pesquisadores/docentes cresceu sensivelmente nestes últimos anos, pois a universidade enfim compreendeu não ser necessária a existência de uma vaga para a obtenção da titularidade, mas simplesmente disposição interna que permita a sua criação e seu preenchimento, mediante concurso, por especialistas, muitos dos quais vindos de outras universidades ou centros de pesquisa. Em conseqüência, o número de nossos pesquisadores docentes passou de quatro para cinqüenta e quatro, em cinqüenta anos, todos eles realizando pesquisas e atividades docentes no nível de graduação e pós-graduação. Até dezembro de 1997, o nosso quadro de docentes permaneceu dentro dos valores históricos dos últimos quinze anos, vale dizer, de oitenta e cinco a noventa. Repete-se, assim, o que é norma nas universidades de grande qualificação intelectual.

As principais atividades de pesquisa continuaram centralizadas na bioeletrogênese do órgão elétrico, na depressão alastrante, na interação de parasitos com células em cultura, ao mesmo tempo que se desenvolviam estudos sobre enzimas e a histoquímica passou a ter uma participação destacada nos trabalhos realizados.