Um Defeito de Cor
Capítulo três
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Os palacetes se destacavam, brancos e grandiosos sobre gramados verdes e jardins coloridos, cercados por muitas árvores. Alguns morros tinham perdido os picos para dar lugar a um ajuntamento de construções ao longo de três ou quatro ruas que giravam em torno da praça central, onde sempre havia uma ou mais igrejas, pegamos uma ladeira ao lado da Ordem Terceira de São Francisco e descemos em direção ao Largo do Pelourinho. A ladeira era tomada por sobrados pintados com cores alegres e vibrantes, e o largo tinha construções magníficas: casarões enormes com suas coleções de janelas e varandas.
Passamos em frente à Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, que estava fechada e a Nega Florinda disse que, do contrário, teríamos entrado para rezar um pouco, já que aquele templo tinha sido construído por uma irmandade de pretos bantos.
Tomamos a primeira rua à direita e paramos em frente a um casarão de onde descemos por uma escada lateral que passava por vários andares da construção. Olhando da rua, dava para ver apenas o andar térreo, e nunca se poderia imaginar que a cada quinze lances de escada em descida, passava-se em frente a uma porta e uma janela, indicando que ali era uma moradia, embora estivesse grudada às outras como as contas de um colar jogado morro abaixo. Do outro lado das portas e janelas, formando um corredor, um muro acompanhava a descida
do terreno, e por cima dele dava para ver que as construções vizinhas também eram daquele jeito. Ao pé da escada, uns cinco ou seis andares abaixo, saímos em uma parte plana do terreno cheia de árvores frutíferas, onde já se encontravam trinta ou quarenta pessoas, a maioria mulheres. Mas havia alguns homens, o que tirou a dúvida da Nega Florinda sobre se os nossos remadores também poderiam participar daquele encontro, que já estava me deixando mais do que curiosa.
Agontimé
Boa parte do percurso foi feita em silêncio, talvez por causa do esforço para vencer o terreno acidentado, talvez porque estávamos imaginando o que aconteceria.
Tudo para mim tinha sido uma grande novidade, as construções, as pessoas, as roupas, a vida que parecia fluir melhor e mais alegre naquela cidade, muito maior do que eu jamais poderia imaginar, maior que Uidá e Savalu juntas. Assim que chegamos, procuramos lugar para nos sentar nas várias esteiras espalhadas pelo chão, e eu estava começando a rememorar as novidades daquela manhã quando ela entrou.
Durante todos os anos que se passaram até que eu a encontrasse novamente, tentei me lembrar do rosto daquela mulher ou de um detalhe que fosse, mas nunca consegui. Quando ela começou a falar, assim que também se sentou em uma esteira diante de nós, foi como se sumisse, como se fosse feita só de palavras, como se conseguisse se esconder por trás do sentido das palavras, fazendo com que elas tivessem uma força e uma presença muito maiores do que qualquer pessoa que eu tinha conhecido até então pudesse dar a elas. A mulher se apresentou a nós como Maria Mineira Naê e disse que em África tinha outro nome, Agontimé.
Foi então que eu percebi que estava frente a frente com a rainha de Abomé, sobre quem muitas vezes tinha
ouvido a minha avó falar, realçando a sua bondade com o povo e a dedicação aos voduns. Da história que ouvi em seguida, sou capaz de me lembrar de cada entonação da voz dela, de cada detalhe.
Assim como a minha avó, a Agontimé tinha saído de Abomé quando o rei Adandozan subiu ao trono do reino do Daomé. Ela tinha sido uma das esposas do rei Agongolo, morto havia vinte e cinco anos, em um mil setecentos e noventa e sete, um rei bom, justo e generoso, com quem teve um filho chamado Gakpé.
Quando o rei Agongolo pressentiu a proximidade da morte, consultou o oráculo sobre o que fazer quanto à sucessão, pois tinha um filho mais velho com a primeira esposa, chamado Adandozan, que, pelas leis, era quem deveria ser coroado.
Mas o Adandozan não era como o pai, muito pelo contrário, era frio, cruel, injusto e sanguinário, e o bondoso rei não queria ver seu povo governado por alguém assim. O oráculo disse que o Gakpé era o mais indicado para subir ao trono, pois tinha o caráter do pai e seria um excelente governante, mas ainda não tinha idade para isso. Então, o rei Agongolo resolveu confiar no oráculo e apareceu para o seu povo no mercado de Adjahito, em Abomé, para comunicar essa vontade.
Com o príncipe mais novo no colo e o mais velho ao seu lado, disse que, quando morresse, gostaria que o Gakpé fosse coroado e que Adandozan tomasse conta dele e do seu povo até que ele pudesse governar sozinho. A Agontimé disse que naquele dia pressentiu tempos muito difíceis, de grande tristeza para todos após a morte do rei Agongolo, o que de fato aconteceu. O Adandozan se instalou no trono e destruiu tudo que o pai tinha construído, a justiça, o respeito, e principalmente a fé, proibindo o culto aos voduns, que eram os espíritos dos antigos reis e de sua família - a família Danbirá, assim como o culto a Xelegbatá, o vodum mais temido pelos
reis. As filhas de Xelegbatá, como eram chamadas as sacerdotisas que o cultuavam para que ele não se enfurecesse e espalhasse a peste por todo o reino foram afastadas, como foi o caso da Agontimé.
A rainha Agontimé era conhecida em Abomé pelas histórias que contava sobre o seu povo e sobre a fé, a força e a importância dos ancestrais. Adandozan ficou com medo de que isto alimentasse as antigas crenças então proibidas e resolveu mantê-la isolada. Mais tarde, vendo que isso não mais bastava, ele a acusou de feitiçaria e a vendeu aos mercadores de escravos para que a levassem para longe do Daomé, fazendo o mesmo com várias pessoas da família real.
Era a primeira vez que isso acontecia na família dos reis do Daomé, o que causou muito espanto entre o povo, pois os reis anteriores faziam questão até de comprar seus soldados que eram capturados como escravos pelos povos inimigos. A caminho de Uidá, onde seria embarcada como escrava, triste e humilhada com sua nova condição, a Agontimé recobrou a fé quando passou por uma cidade chamada Savi. Junto a um riacho onde tinham parado para descansar, ela avistou um estranho pássaro que dava vários mergulhos nas águas muito limpas. Percebendo que aquele não era um pássaro comum, ela o saudou como o grande pescador das águas, ao que o pássaro agradeceu, mas disse que não estava pescando e sim procurando uma pedra que tinha perdido. A Agontimé comentou que talvez o lugar onde a pedra estava fosse revelado em sonho, e o saudou novamente.
O pássaro perguntou se ela sabia exatamente quem ele era e ela respondeu que o havia reconhecido como sendo um texossu (Texossus: assim eram chamado os filhos dos reis do Daomé que nasciam com algum defeito físico e eram jogados nas águas dos rios, para que lá vivessem e de lá ajudassem a proteger o seu povo. Todos
os reis tinham pelo menos um filho texossu.). Ele então revelou que não era apenas um texossu, mas sim Zomadonu, filho do rei Abaka e rei de todos os texossus, e que tinha aparecido para falar com ela sobre o destino que a esperava.
A Agontimé perguntou o que ele sabia e, sorrindo, ele disse que era o próprio destino dela e que ela deveria partir e cumprir seus desígnios em outras terras. Em Abomé, os texossus tinham sido humilhados com a proibição do culto, e isto determinou o destino deles e o da Agontimé, que não tinham mais nada a fazer naquele local. Zomadonu disse também que a ajudaria a encontrar um caminho no novo mundo, onde seriam celebrados os seus primos e irmãos texossus e os outros membros do clã real do Daomé.
A Agontimé ficou apreensiva com a responsabilidade, mas feliz, e perguntou se todos os reis, todos os texossus e seus parentes, mesmo os que tinham cruzado o rio da morte e sido varridos da memória dos homens, se todos eles também deveriam ser celebrados. Zomadonu disse que a celebração caberia apenas àqueles que podiam ser chamados de voduns e que, na nova terra, todos os voduns estariam sempre ao alcance das mãos da Agontimé, mas não seriam responsabilidade dela, que nunca poderia ou deveria tentar controlar suas idas e vindas.
Quanto aos texossus, eram espíritos locais, e ela encontraria outros na nova terra, e quanto aos reis, somente Zomadonu, estaria lá para recebê-la, e só falaria ou se calaria quando tivesse vontade, porque ele era o seu vodum. Completou garantindo à Agontimé que outros voduns apareceriam quando ela tivesse encontrado jarras para assentá-los e lugares para consagrá-los. Antes de saudá-la e sumir voando sobre as águas, ainda advertiu a Agontimé de que ela nunca deveria olhar para ele. Com a alma cheia de esperanças
e de fé em seu vodum, a antiga rainha Agontimé cruzou o mar e desembarcou como escrava no Brasil, na Bahia.
Foi na Ilha de Itaparica que ela teve o primeiro contato com os orixás e descobriu que na Bahia o seu povo era chamado de mina-jeje, ou só jeje, e que muitos deles tinham sido levados para o Maranhão. Na Bahia, os nagôs a aconselharam a não ficar muito tempo por ali, porque seus ancestrais não teriam força para conviver com os orixás deles, que já estavam assentados.
Quando contaram que no Brasil os minas-jejes não tinham um local para celebrar seus cultos, pois esperavam um sinal, foi que ela entendeu direito a sua missão, e por quem estavam esperando. A Agontimé não sabia o que fazer, mas nunca perdeu a fé no seu destino, no seu vodum. Durante muitos anos trabalhou nas fazendas de cacau e de algodão na Bahia, sendo depois vendida para uma fazenda de café em Minas Gerais, e passando mais tarde a trabalhar nas jazidas de Tijuco e Vila Rica. Sabendo que precisava arrumar um jeito de ir para junto do seu povo no Maranhão, aproveitou o trabalho nas minas e guardou para si uma parte do que encontrava, aprendendo com os outros escravos a esconder pó de ouro ou pequenas pedras nos cabelos, ou então a engoli-las quando ninguém estivesse olhando.
Depois de algum tempo, ela já tinha mais do que suficiente para comprar a própria liberdade e viajar para o Maranhão, onde construiria um convento para os voduns. Antes disso, passou novamente pela Nega Florinda, que estava sentada ao meu lado, contou que foi nesse tempo que a conheceu.
Da Bahia ao Maranhão, a Agontimé andou por matas, morou em quilombos e percorreu vilarejos, sempre à espera de um contato do seu vodum, sempre atenta a qualquer sinal. Até que, certa noite, pediu pouso em uma fazenda chamada Paraíso, onde acontecia uma festa de Bumba-meu-boi, um tipo de burrinha. Cansada de caminhar, ela se sentou à beira de um rio, e estava
observando de longe as pessoas dançando e cantando quando percebeu que alguém andava pela margem do rio, e reconheceu o andarilho como sendo o seu vodum.
Ao se lembrar da recomendação de nunca olhar para ele, ela o saudou de olhos baixos e ele a recompensou indicando o caminho a seguir e o lugar onde deveria erguer seu templo e estabelecer a casa de sua gente, a Casa das Minas.
Em tal Casa trabalhariam as vodúnsís africanas, as minas, como eram chamadas as escravas embarcadas na Costa da Mina, em África. Seguindo o Rio Itapecuru, a Agontimé chegou a São Luís do Maranhão, e com parte do ouro levado das Minas, desta vez as Gerais, no Brasil, ergueu o seu templo.
Providenciou as jarras necessárias aos assentamentos dos voduns e as encheu com água da fonte do Apicum, que foi consagrada a eles. Reservou os recintos da Casa para os voduns que foram chegando aos poucos, respeitando a hierarquia dos mais velhos para os mais novos e dos reis para os seus parentes, que escolhiam as suas esposas entre as vodúnsis, pois naquela Casa os voduns desceriam apenas nas mulheres.
Naquele dia, a Agontimé estava em São Salvador para ver se encontrava mais fiéis para seus cultos, a fim de que mais voduns pudessem se reunir na Casa, inclusive todos os texossus. Quando ela fez o convite, quatro mulheres que estavam na assistência se levantaram e disseram que estavam prontas a segui-la. A Agontimé perguntou se elas tinham recebido algum recado dos seus voduns e elas disseram que sim, que eles tinham aparecido em sonho e dito que esperassem por um sinal.
Eu também tive vontade de dizer que queria ir com ela, que se dispunha a comprar a alforria de quem ainda não fosse liberta, como era o caso de duas das quatro mulheres que se apresentaram. Mas, infelizmente, eu
não era uma das escolhidas e não tinha recebido recado algum. Eu me lembrei da conversa com a Nega Florinda sobre a minha missão ser outra, não relacionada aos voduns, e que eu deveria esperar pelo destino.
Antes de irmos embora, a Nega Florinda se aproximou dela e as duas se cumprimentaram com saudade, e fiquei surpresa quando a Agontimé me reconheceu como descendente de alguém que conhecia. Quando falei da minha avó e da sua morte, ela saudou em mim o vodum da minha avó e disse que eu tinha o sangue de uma grande mulher, de alguém por quem ela teve muita consideração e que tinha sido muito importante para ela.
Disse ainda para eu não me preocupar, pois também encontraria o meu caminho naquela terra, e que um dia eu fosse visitá-la em São Luís, na Casa das Minas.
Completou dizendo que. mesmo se eu não seguisse a religião dos voduns, gostaria muito de me falar sobre o que tínhamos deixado no Daomé. Depois, me deu de presente uma linda Oxum de madeira, quase igual à que a minha avó tinha em Savalu. Disse que era a deusa da fertilidade, da prosperidade, para que as minhas idéias e os meus atos encontrassem terrenos férteis para crescer vitoriosos. E que em algum momento, apesar de todos serem importantes, mas que em algum momento muito mais importante do que outros, Oxum muito me valeria.
A volta para Itaparica foi em silêncio, tranqüila, embora, no fim da tarde a cidade estivesse mais movimentada.
Havia muitas pessoas nas ruas, quase todas pretas, reunidas para batuques e danças ou para jogar capoeira.
Não sei quanto aos outros, mas eu quase não tive olhos para tudo aquilo, porque dentro de mim aconteciam coisas mais interessantes. A história da Agontimé fez com que eu tivesse certeza de que a minha situação não permaneceria para sempre como estava, que eu ainda seria liberta e ajudaria o meu povo. Assim como a Agontimé, eu arrumaria uma maneira de fazê-lo, mesmo
não tendo sido rainha. Não sabia como, nem o que fazer, mas tive fé nos Ibêjis, em Xangô e, principalmente, na minha Oxum, mas me lembrei também de Nana, de quem a minha avó sempre falava.
Havia muito tempo que eu não sentia a presença da Taiwo tão forte quanto naquele dia no barco, no meio do mar. O mar no qual tinha sido lançado o corpo dela era o mesmo que a apresentava de volta diante dos meus olhos, que sempre me deixavam em dúvida se eram mesmo os meus olhos ou os dela. Como se fosse sonho, vi a Taiwo caminhando sobre as águas, feliz, quase dançando.
A noite, antes de dormir, minhas companheiras de baia quiseram saber onde eu tinha passado o dia, mas eu não estava com vontade de explicar e disse que era segredo do meu povo, o mesmo da Nega Florinda, que estive com ela e mais não podia contar. Todas quiseram tocar a Oxum, para quem também arrumei um espaço no esconderijo sob a parede da senzala, cavando mais um pouco o buraco que já abrigava Xangô e os Ibêjis.
Faltava Nana, mas eu teria assim que pudesse.
Mudanças No domingo seguinte ao do encontro com a Agontimé, saí com a Felicidade e fomos encontrar o Belchior na nascente, onde os amigos dele já nos esperavam, com cachaça, mandioca cozida, bananas e liamba. Passamos um dia feliz, e fiquei mais feliz ainda porque vi que meus peitos estavam mais crescidos e uma penugem começava a surgir na minha racha, sinal de que logo viraria mulher, talvez graças à fertilidade concedida pela Oxum.
A Felicidade disse que tinha virado mulher aos onze anos, e eu já estava com quase doze. Lembro que não gostava mais do corpo de menina e queria ter peitos
grandes como os de Iemanjá e racha grande como a de Oxum. A Felicidade também tinha, e ela disse que logo se deitaria com o Belchior, assim que eles deixassem de ser irmãos de santo. Ele tinha conversado com os muçurumins, e ia virar um deles, para que pudessem se casar. Contei a ela que tinha viajado com alguns muçurumins, e que eles se casavam com muitas mulheres, com quantas pudessem sustentar, como também acontecia com muitos homens em África, de todas as crenças.
Ela comentou que no Brasil isto não acontecia, que podia até acontecer, mas não era comum, não que soubesse, e com o Belchior não seria assim. Ele ia virar muçurumim só para que pudessem ficar juntos, já que como filhos de Oxóssi não podiam. Talvez a Felicidade também se convertesse, ainda não sabia se seria preciso; o Belchior tinha ficado de perguntar aos muçurumins. Eu pedi a ela que falasse com o Belchior para ele me apresentar aos muçurumins, e ela respondeu que não podia, que eles não falavam com mulher alguma que não fosse a deles, só com homens.
Mas eu não era mulher de ninguém, nem filha de ninguém, nem mãe de ninguém, e, sendo assim, eles podiam falar comigo.
Não sei se o Belchior chegou a comentar alguma coisa, mas a partir daquele dia eu sempre dava um jeito de passar pelos muçurumins quando estávamos todos reunidos
no
terreiro
depois
do
trabalho,
e
cumprimentava dizendo salamaleco. No início eles abaixavam as cabeças e não respondiam, até que resolvi inventar que tinha um recado do Fatumbi. Eles me olharam e avisei que não precisavam se preocupar, que não tinham que pedir permissão a ninguém para falar comigo, porque ninguém era responsável por mim.
Então um deles perguntou como eu conhecia o Fatumbi e contei sobre as aulas, para depois me desculpar e dizer que não havia recado algum, que aquela tinha sido
a forma que encontrara para que falassem comigo.
Eles sorriram e disseram que se chamavam Talib e Erasto, e desde então respondiam ao meu cumprimento sempre que passavam por mim, deixando surpresas as outras pessoas, com as quais quase não conversavam.
Comigo também não conversavam, mas já me contentava com o cumprimento e admirava o jeito deles, sempre com um ar respeitável de quem não aceitava ser escravo e apenas viviam a situação como uma circunstância, uma fase, talvez até como um sacrifício a ser recompensado por Alá.
Certo dia, o sinhô José Carlos apareceu na fundição acompanhado do novo capataz, o Cipriano, um mulato alto, forte e bem novo, que ele contratara na cidade.
Parecia ser apenas uma visita de rotina, como todas as outras, mas ele ficou me olhando de uma maneira muito estranha. No fim da tarde, o Cipriano foi ter comigo, dizendo que na manhã seguinte eu iria para o engenho e não para o baleeiro. À noite, na baia, comemoramos a notícia, pois a Felicidade, a Rosa Mina, a Ignácia, a Liberata e a Policarpa também trabalhavam lá, e eu era a única que ficava separada delas durante o dia.
A sensação de estar entre amigos era boa, diminuindo a saudade e a vontade de estar em família. A Liberata tinha outro bom motivo para comemorar, pois no domingo que eu tinha passado em São Salvador, ao visitar a Verenciana e o recém-nascido, ela ficou sabendo que o sinhô José Carlos tinha aparecido por lá e prometido dar carta de alforria para ela também, para que pudesse cuidar da filha e do neto caso a Nega Florinda viesse a faltar, e que talvez alugasse para elas um espaço em alguma loja (Loja: Uma casa ou porão de casa, tipo cortiço, onde várias pessoas dividiam um mesmo espaço, na maioria pretos libertos ou de ganho), em São Salvador. A Liberata disse que só acreditaria quando tivesse as cartas nas mãos, mas que mesmo
assim já era alguma esperança.
O engenho estava começando a se preparar para receber a cana, o que sempre era motivo de comemoração na casa-grande e na senzala. Todos comentaram que naquele ano a festa seria ainda maior, porque a do ano anterior não tinha acontecido. Foi na época em que a sinhá Ana Felipa estava acamada, já botando sangue, e o sinhô José Carlos achou que não havia motivo para alegrias. Só aproveitou a presença do padre Notório para que ele benzesse a moenda, e mais nada. A Rosa Mina comentou que nunca mais houve festa como no tempo do pai do sinhô José Carlos, quando o engenho era maior e precisava de quase o dobro de pretos para mantê-lo funcionando.
Ela contou que tinha ouvido dizer que chegariam mais alguns, compra nova, porque na época da moenda havia muito trabalho para pouca gente, pois os mortos e inválidos não eram substituídos. Perguntei se havia muita morte entre os escravos do engenho e a Liberata respondeu que na nossa fazenda nem tanto, pois o sinhô nem era dos piores. Ele até nos alimentava bem e dava folga aos domingos, feriados e dias santos, mas na grande maioria das fazendas os senhores distribuíam apenas uma refeição por dia, se tanto, e os pretos tinham que aproveitar os dias de folga para tirarem o sustento, para arrumar um jeito de pelo menos se alimentarem o suficiente para trabalhar.
Faziam isso plantando em um pedaço de terra meado com o dono, colhendo para consumo próprio ou para vender nas feiras das cidades, onde também podiam vender o fruto de outras habilidades que tinham, como bordar, tecer cestos, chapéus e utensílios de palha.
Nessas fazendas não se vivia mais do que dez, quando muito quinze anos de trabalho, durante os quais os donos tiravam o máximo dos escravos, para valer o investimento. Nós, na Fazenda do Amparo, onde as
condições de vida eram melhores, podíamos durar muito mais do que isso, como a iaiá Belarmina, que se gabava de ter mais de cem anos.
Ela era chamada de iaiá por causa do respeito que todos tinham por ela, que tinha servido à avó do sinhô José Carlos e ajudado na criação da mãe dele, e que até por isso o chamava de sinhozinho. Ela e outros pretos do tempo em que o sinhô era criança. Na parte da fazenda que chamavam de engenho havia muitas outras coisas.
Algumas abandonadas, é verdade, pois eram do tempo do pai do sinhô José Carlos, que não tinha conseguido passar para o filho o gosto pelo trabalho e pelo lugar.
Mas
a
fazenda
quase
se
mantinha
sozinha,
principalmente no trato dos escravos. Perto da fundição havia um telheiro onde salgavam peixe e armazenavam mariscos, que comíamos junto com o feijão e às vezes o arroz comprados na capital, que ficavam no paiol, onde também eram guardados o milho e a mandioca, colhidos na fazenda durante quase o ano inteiro.
A mandioca era plantada nos corredores deixados para facilitar a colheita da cana. Depois de arrancada da terra, ela era descascada e ralada, e a massa grossa que se obtinha era colocada dentro de sacos feitos de palha, que ficavam pendurados sobre imensos tachos. Com o passar dos dias, a massa soltava um caldo de cheiro quase insuportável de tão pestilento, que era deixado apurando até o ponto certo de fazer goma e carimã.
O que sobrava dentro dos sacos era espalhado sobre enormes alguidares de barro para ser torrado enquanto era mexido e remexido com um rodo, para secar e torrar por igual, resultando na farinha que comíamos em quase todas as refeições. Para além da plantação de cana e mandioca, seguindo em direção ao interior da ilha, havia uma roça de algodão, que produzia quase o suficiente para as nossas roupas de trabalho.
O algodão era transformado em fios, que podiam ou não ser tingidos de azul com anil que também se plantava lá mesmo, e com os fios produziam-se tecidos em três teares, que ficavam em um barracão, ao lado da casa do engenho, onde trabalhavam algumas costureiras. Ou seja, não dávamos quase despesa alguma ao nosso dono e rendíamos muito, fazendo tudo aquilo funcionar em troca de lugar para dormir em uma baia e de comida que, aliás, era plantada, colhida, pescada, criada e feita por nós.
A botada
O engenho foi preparado para começar a moer em uma segunda-feira, e na semana anterior não tivemos folga.
Alguns feixes de cana foram cortados, foi providenciada lenha para quatro ou cinco dias de trabalho, e todas as instalações do engenho ficaram como novas, limpas, areadas, untadas, prontas para o início da moagem. Até mesmo o gado recebeu tratamento especial para ficar limpo e lustroso, livre dos carrapatos e de outros bichos que cresciam no couro duro.
No sábado à tarde, já estava tudo pronto quando o sinhô José Carlos, o capataz e os empregados apareceram para a vistoria, acompanhados de mais dois homens vestidos igual ao sinhô. Na noite anterior, a Esméria tinha dado uma escapada até a senzala, com a desculpa de apanhar algumas ervas de tempero na roça, e contou que a casa-grande estava cheia de visitas da capital, até um casal que parecia do estrangeiro, pela fala enrolada que quase ninguém entendia. Eles tinham chegado junto com o padre Notório, sem o seminarista Gabriel. Fiquei feliz com a notícia de que era possível que até a sinhazinha Maria Clara aparecesse.
Desde a partida, logo após a perda do último filho da sinhá, ela não tinha mais retornado à fazenda. Sabíamos dela pelo sinhô José Carlos, que ia algumas vezes la
visitá-la e comentava alguma coisa com a Esméria ou a Antônia, que contavam. Ele dizia que a sinhazinha já era uma moça e que estava até pensando em arrumar casamento para ela, pois seria bom que se casasse logo ao deixar o colégio. Seria bom revê-la, e eu também torcia para que o Fatumbi fosse chamado e, quem sabe, até me levasse novos livros, ou mais papel.
No domingo fomos acordados ainda mais cedo que de costume e vestimos as fardas novas que tinham acabado de distribuir. Quando o sol nasceu, já estávamos todos no terreno em frente ao engenho, esperando a comitiva da casa grande chegar para que fosse rezada uma missa ao ar livre, às seis horas da manhã o altar foi montado à sombra de três enormes mangueiras, sobre uma base de madeira coberta com tapetes que eu me lembrava de ter visto no corredor da casa-grande. Sobre eles foi colocada a mesa que ficava na biblioteca, coberta com uma toalha branca de renda que a sinhá Ana Felipa só usava quando recebia visitas, e enfeitada com vasos de flores, mais os paramentos necessários para a missa. A comitiva chegou assim que os primeiros raios de sol começaram a bater na coroa de folhas secas e amareladas da plantação de cana. Na frente estava o padre Notório, usando uma bonita batina castanha, com ricos bordados em dourado representando cachos de uva, cálices, ramos de trigo e pão.
Ele puxava a ladainha, com a mão direita apoiada sobre uma Bíblia que segurava com a esquerda, e estava acompanhado de dois meninos vestidos com batinas brancas. Um deles balançava o incensório, que ia deixando o pequeno cortejo envolto em uma névoa como as que cobriam a ilha de vez em quando, antes do amanhecer, dando ao grupo ares de aparição. Atrás dos meninos caminhava o sinhô José Carlos, segurando o chapéu de encontro ao peito e de braço dado com a sinhá Ana Felipa, que tinha um rosário de pérolas entre os dedos e a cabeça coberta por um véu preto.
Os dois eram seguidos por quatro homens, sendo que dois deles estavam acompanhados pelas esposas e pelos filhos, todos vestidos como se fossem a uma grande festa. Nem a sinhazinha nem o Fatumbi estavam entre eles, somente os pretos da casa-grande fechando o cortejo e vestindo suas fardas cor de vinho, seguidos por outros pretos que eu não conhecia, os escravos das visitas, também vestindo bonitas fardas. Eram tantos que por eles eu teria imaginado que o número de brancos fosse pelo menos o dobro.
Os pretos carregavam toda sorte de objetos para garantir o conforto dos seus senhores, como os bancos para se sentarem ao lado do altar, as almofadas e os tapetes para se ajoelharem sem sujar as roupas ou machucar os joelhos, os guarda-chuvas, caso o sol começasse a esquentar muito e atravessasse a copa das mangueiras, e os leques para espantar o calor. A missa foi dita em latim.
Todos nós prestávamos mais atenção nas visitas e nos seus pretos do que naquele falatório todo, pois, além de não ser sobre a nossa fé, ainda era professado em uma língua da qual nada entendíamos. Aquilo parecia não ter fim,
principalmente
porque
também
estávamos
pensando no almoço mais caprichado e na festa, que aconteceriam depois.
Quando o padre Notório finalmente acabou de dizer a missa, falou algumas palavras em português, para que nós entendêssemos, sobre a felicidade em que estavam no céu o Nosso Senhor Jesus Cristo, a Nossa Senhora e todos os santos e anjos por terem na terra almas generosas e devotas como as do sinhô José Carlos e da sinhá Ana Felipa, e que muito deveríamos agradecer e rezar todos os dias pela boa sorte de estarmos sob a guarda deles, irresponsáveis que éramos em seguir a fé católica por nossa própria conta. Depois, o sinhô José Carlos agradeceu a presença do padre e dos outros
amigos, perguntando então se a sinhá Ana Felipa queria dizer alguma coisa.
Ela disse que queria rezar um Pai-Nosso e uma Ave-Maria em português, para que pudéssemos acompanhá-la, novos católicos, ainda não sabedores do latim, que era a verdadeira língua da fé. Os que sabiam, rezaram; os que não sabiam, movimentaram a boca dizendo qualquer coisa, com medo de reprimenda e para que aquilo acabasse o mais rápido possível. O sinhô então pediu que o seguíssemos até o engenho e deu o braço à sinhá Ana Felipa, abrindo o cortejo. Com seu hissope, o padre Notório traçava cruzes no ar enquanto jogava água benta por todo o caminho, tendo antes jogado na direção da plantação de cana, considerando-a toda benzida.
Nós entrávamos na frente do padre para sermos benzidos também, mesmo não professando a religião dele, mas acreditando que aquela água pela qual tinham tanto respeito não nos poderia Fazer mal. A sinhá e o sinhô estavam contentes, imaginando presenciar uma verdadeira manifestação de fé, a conversão e a salvação dos seus pretos, todos parecendo civilizados em fardas limpas e novas, impressionando as visitas.
Enquanto o padre Notório aspergia as moendas dentro do barracão do engenho, alguns pretos buscaram as canas preparadas para inaugurar a botada, como era chamado o primeiro dia da moagem. A botada era feita com as canas mais bonitas, graúdas e suculentas, amarradas com laços de fita colorida e cada convidado recebeu um feixe. Empunhado pelo sinhô José Carlos, o primeiro feixe desapareceu entre os dois rolos de metal que giravam lado a lado e muito próximos, movidos pela força de dois pares de cavalos que puxavam o cabo de tração, fazendo jorrar o caldo da cana.
Nós aplaudimos e, um a um, os convidados repetiram o
gesto do sinhô antes de voltarem para a casa-grande, para a festa que esperava por eles. O Cipriano e os empregados soltaram rojões do lado de fora do barracão, anunciando que a nossa festa também ia começar. A Esméria parou do meu lado e contou que tinha passado três dias fazendo os mais variados tipos de quitandas e refeições, das que estavam no livro de receitas da sinhá. Tinha até louça nova para impressionar, segundo disse a sinhá, toda do estrangeiro.
O dia também reservou boas surpresas para nós; foi todo dedicado à festa, porque, na verdade, o engenho só começaria a trabalhar para valer na manhã seguinte. A primeira refeição que recebemos tinha até pão, luxo reservado apenas para a casa-grande. Nas outras duas refeições, além de feijão, arroz e farinha, ainda tinha carne verde, de vaca e de porco, e não de peixe ou de baleia moqueada, como de costume. Mas todos gostaram foi da cachaça, distribuída com fartura, e dos batuques, liberados desde que não atrapalhassem os festejos na casa-grande.
Mais tarde, quando havia canto e dança, um dos convidados do sinhô apareceu no terreiro acompanhado de três pretos fortes e vistosos, que ficaram ao lado dele durante todo o tempo em que esteve nos desenhando. O
branco ficou observando durante horas e passando o que via para enormes folhas de papel estendidas à sua frente, presas a um cavalete de madeira. Alguns dos homens do Cipriano, o novo capataz, ficaram de guarda, armados, sérios, mas logo também estavam bebendo e conversando animadamente entre eles, achando que um dia de festa não era um dia bom para se tramar uma fuga.
Músicas de África e os sons dos instrumentos, improvisados com troncos de árvores e cordas, sementes, búzios e mesmo pedras e areia, fizeram com
que eu me lembrasse de muitas coisas. Principalmente das festas na casa da Titilayo e na casa de cômodos para onde eu tinha me mudado com a minha avó e com a Taiwo, com a presença do homem que dizia orikis.
Perguntei à Rosa Mina se alguém ali dizia orikis e ela me apresentou o Claudino, um dos mais antigos escravos da fazenda, que tecia palha como ninguém. O Claudino disse que eu mesma podia fazer meus orikis se quisesse, pois um oriki é, acima de tudo, uma reza feita com o coração. Não o tipo de reza que os brancos nos faziam repetir mesmo que não sentíssemos ou entendêssemos o que estava sendo dito, porque muitas vezes o escravo era obrigado a aprender o Pai-Nosso e a Ave-Maria antes mesmo de aprender a falar português.
Um oriki é uma oração dita com sentimento, uma oração feita na hora, não só palavras bonitas, mas sentimentos bonitos, e que às vezes nem saem do jeito que deveriam sair, na hora em que a gente quer, mas somente na hora em que eles, os orikis, querem. O Claudino também disse que um oriki pode ser feito para qualquer coisa ou pessoa que despertem bons sentimentos, como bondade, alegria, amor, fé, paz, respeito ou compreensão, coisas que podemos sentir tanto pelos nossos orixás, pelos nossos heróis, pelos animais, pela vida e até mesmo pelos espíritos das plantas, do vento, do sol, da terra, da lua e das estrelas. Tudo é motivo para um oriki.
Devemos praticar bastante, mas sempre com o coração, nunca só com a razão, porque somente as palavras vindas do coração sabem orar. Prometi a mim mesma que tentaria, mas nunca o fiz com verdade.
A fuga
No meio da tarde, quando algumas pessoas dormiam pelo chão, embaladas pela cachaça ou pelo cansaço e até mesmo pela abundância de comida, eu estava em uma roda conversando e fumando liamba com a Felicidade, o
Belchior e outros pretos mais ou menos da nossa idade, quando achamos ter ouvido um barulho no lado norte da ilha. Não nos importamos muito, pois podia ser efeito do fumo, mas logo percebemos que outras pessoas também tinham ouvido, e os cães que se espreguiçavam pelo quintal depois de terem se regalado com os restos de comida também se levantaram e começaram a latir, correndo na direção do barulho. Logo os empregados se puseram em alerta, alguns tão ou mais bêbados que todos nós juntos, o que era perigoso por estarem armados e apontando na nossa direção, gritando para que permanecêssemos parados, para que não saíssemos da posição em que estávamos sentados, deitados ou agachados, independentemente do que acontecesse.
Segurei a mão da Felicidade e ficamos esperando a confirmação do que a maioria já parecia saber, pelo Murmurar de vozes avisando que era rebelião na Fazenda Nossa Senhora das Dores.
Alguns homens logo se puseram em posição de quem ia se levantar e sair correndo a qualquer momento, e eu também comecei a pensar nessa idéia, também fugiria se um grupo grande tomasse a iniciativa. De repente, vimos surgir do meio da mata, na direção do outro engenho, alguns grupos de pretos correndo de cães e de tiros, gritando palavras como liberdade, morte aos brancos e justiça. Eles se desviavam de onde estávamos, evitando os empregados que nos vigiavam.
Mas isto nem seria preciso, pois eles estavam mais preocupados em não permitir que fugíssemos do que em tentar recuperar os fujões alheios. Os grupos, de não mais que três ou quatro pessoas, passavam correndo em todas as direções, alguns seguindo direto para a mata que tinha continuidade do outro lado do nosso terreiro, outros correndo para a praia e outros na direção de onde ficava a nossa plantação.
A vigilância, que já tinha feito um cerco ao nosso redor,
com o capataz Cipriano dando ordens a seus homens para que não desviassem os olhos do terreiro, não foi capaz de evitar que, de vez em quando, um ou outro se levantasse e saísse correndo e gritando, como se o grito pudesse dar mais força às pernas ou desviar as balas que eram dirigidas a eles, o que funcionou em três casos. Entre os três que conseguiram fugir, um eu conhecia, era o Aprígio, de quem falavam que tinha o corpo fechado e que já estava tramando fuga havia um bom tempo.
Os outros dois eram um igbo, que eu não conhecia, e o Manuel Tupe, um pescador. A Felicidade segurava com força o braço do Belchior, não por medo, mas para que ele não tentasse fugir, pois estavam no chão os corpos de outros quatro homens que tinham falhado na tentativa. Não sabíamos se já estavam mortos, pois ninguém estava autorizado a se levantar para cuidar de preto fujão. Olhando para um deles, que tinha tombado perto de mim, o corpo caído de costas e se debatendo, meu peito foi ficando apertado com a visão do riozinho de sangue, ao mesmo tempo em que nascia uma revolta muito grande pela nossa condição.
Apesar da pouca idade, acho que foi naquele momento que tomei consciência de que tinha que fazer alguma coisa, pelos meus mortos, por todos os mortos dos que estavam ali, por todos nós, que estávamos vivos como se não estivéssemos, porque as nossas vidas valiam o que o sinhô tinha pagado por elas, nada mais. Algumas mulheres rezavam baixinho, olhei na direção do Erasto e do Talib, e eles também rezavam, com o teçubá entre as mãos. Os homens fuzilavam os empregados com olhares cheios de ódio, murmurando coisas que eu não conseguia ouvir, mas que, com certeza, eram promessas de vingança.
Os revoltosos continuavam a surgir de dentro da mata, bem como os cães e os capatazes correndo atrás deles.
Um preto fujão atirou contra um dos empregados da nossa fazenda, que caiu duro ao receber o inesperado golpe pelas costas. Instalou-se a confusão e um clima mais tenso ainda, como se a qualquer momento a situação fosse sair do controle, mas o Cipriano entendeu logo de onde o tiro tinha saído e ordenou que todos continuassem em seus postos com as armas apontadas para nós, e que só atirassem em quem tentasse fugir.
Ouvíamos ao longe gritos e estampidos, e às vezes alguns pretos comemorando; outras, os capatazes.
Torcíamos pelos rebelados, é claro, e o Cipriano tentava nos desestimular, dizendo que era muito difícil fugir da ilha, que os fujões, se não acabassem mortos ou aleijados seriam presos e castigados, o mesmo destino que seria dado a qualquer um de nós que se atrevesse a tentar. Eu acredito que muitos teriam tentado se não fosse dia de festa, se os revoltosos não nos tivessem encontrado depois de tanto comer, beber e dançar. Se fosse dia de trabalho normal e estivéssemos no engenho ou na fundição, munidos dos instrumentos de trabalho, foices e facões, se estivéssemos alertas.
Eu sabia que aquilo realmente poderia acabar muito mal para eles, mas achei bonito que todos se unissem para buscar o que queriam, mesmo que isso implicasse grande risco, mesmo que pudesse custar a vida. Depois da passagem de mais alguns homens a cavalo, a situação começou a se acalmar, e o Cipriano mandou que um dos homens corresse até a casa-grande para relatar o acontecido ao sinhô José Carlos e pedir ajuda para cuidar do capataz ferido. Fomos levados imediatamente para a senzala, com ordem de andar em fila, devagar e com os braços sobre a cabeça.
Quando entramos, as portas das baias e a porta principal da senzala foram trancadas. Passamos o resto do dia comentando o acontecido até que o sono nos vencesse, e cada um contou casos dos quais tinha participado ou dos
quais tinha ouvido falar, de escravos que tinham conseguido fugir sem jamais serem capturados, ou então da desgraça daqueles que não tiveram a mesma sorte.
De vez em quando ouvíamos uma pancada do lado de fora da senzala e uma voz mandando que nos calássemos, senão haveria castigo.
Eu queria saber notícias dos quatro homens que tinham levado tiro e a Policarpa comentou que eles não tinham a menor chance de sobreviver, e que se ainda estivessem vivos àquela hora, seria Por pouco tempo. Ninguém cuidava de preto fujão muito ferido, a não ser que ele pudesse sobreviver para ser castigado e dar o exemplo, o que era o caso dos baleados, que, se não fossem cuidados pelos orixás, não o seriam por mais ninguém.
Outros seriam comprados para substituí-los e pronto.
Nas condições em que tudo tinha acontecido, a morte seria um aviso para que ninguém mais tentasse fugir. No dia seguinte chamariam dois ou três pretos para abrir uma cova e jogariam os corpos lá dentro, apenas para que o cheiro não incomodasse, porque se fosse por consideração, deixariam que os urubus tomassem conta, como faziam com as carcaças das baleias.
A Rosa Mina disse que tínhamos que rezar para os fugitivos, o Manoel Tupe, o Aprígio e o João Angola, pois eles ainda tinham chances, mesmo pequenas, de escapar vivos. Provavelmente ficariam na ilha por algum tempo, esperando que a situação se acalmasse um pouco e a vigilância fosse afrouxada nos atracadouros, porque não se sabia de ninguém que tivesse conseguido fugir a nado. Teria que ser muito bom de braço para nadar até outras ilhas, o que não compensava por elas serem menores que a de Itaparica, o que facilitava a busca.
Nadar até a capital era mais difícil ainda, por causa da distância e da suspeita que provocaria.
Eles então deveriam ficar pelos matos durante algum
tempo e depois, aos poucos, tentariam arrumar barcos.
A Rosa Mina disse que na capital havia alguns pretos, forros ou fugidos de longe ou há muito tempo, que tinham meios de esconder os que fugiam em quilombos desconhecidos da polícia. Se a rebelião tivesse sido planejada com antecedência, até já poderiam ter barcos esperando por eles ou rondando a ilha durante a noite, quando era mais fácil escapar aos olhos atentos dos capatazes e capitães-do-mato.
Desde o encontro com a Agontimé eu tinha ficado curiosa para saber o que era um quilombo, como funcionava, o que tínhamos que fazer para morar em um. Ela tinha dito que era um lugar onde os pretos viviam livres e felizes, cuidando uns aos outros. A Felicidade disse que ela e o homem que escolhesse para viver fugiriam juntos para morar em um quilombo, e a Rosa Mina, sabendo sobre quem ela falava, disse que era para pararmos com aquela lengalenga, que não ia ter quilombo nenhum e que devíamos tentar levar a vida da melhor maneira, sonhando apenas com o possível. Ela acabou com a conversa dizendo que já era tarde, que estava muito cansada e seria melhor tratarmos de dormir, pois o dia seguinte começaria bem cedo e com muito trabalho, com o engenho voltando a funcionar.
Na manhã da segunda-feira, as portas da senzala foram abertas mais tarde que de costume, e do lado de fora, além do capataz e seus homens, estavam o sinhô José Carlos, o padre Notório e três das visitas, todos a cavalo e acompanhados de dois policiais. Estavam armados, e a primeira coisa que o sinhô falou foi que os policiais tinham ido até a fazenda para dar a notícia de que quase todos os fujões da Nossa Senhora das Dores já tinham sido capturados durante a noite e responderiam por seus atos.
Fez um enorme discurso sobre os pretos não serem de confiança, pois na nossa alma só tinha espaço para
ingratidão e a rebeldia, nunca estávamos satisfeitos com nada. Disse que ele mesmo sabia de senhores que mantinham seus pretos acorrentados o tempo todo e davam apenas ma refeição por dia e uma muda de roupa por ano, e eles tinham que trabalhar para os Seus donos e ainda conseguir tudo o mais de que precisavam, indo para lida todos os dias, de sol a sol, não guardando nem dia santo. Isso não acontecia conosco, e mesmo assim alguns achavam que não era suficiente e tentavam fugir do lugar onde tinham roupa, comida, um teto, consideração e a possibilidade de salvarem suas almas pagãs, educando-se na religião católica.
E que estes ingratos, no caso os três pretos que tinham conseguido fugir, logo seriam pegos e exemplarmente castigados para que se arrependessem, porque até a bondade e a paciência dele tinham limites, do nosso dono e provedor, que colocava o bem-estar dos seus escravos acima de qualquer outra preocupação. Quanto aos outros, os que tinham morrido, tinha certeza de que o diabo se encarregaria da lição merecida. Disse ainda que a moagem ia começar em seguida, conforme o planejado, porque a cana não podia esperar para ser colhida, e a única coisa que esperava de nós era um comportamento de gente, que servíssemos de exemplo para os pretos sem gratidão, que conseguíssemos ser superiores aos escravos do engenho vizinho, que não passavam de animais. Porque foi como animais que eles agiram e como animais estavam sendo caçados, pois, por onde passaram, tudo foi destruído.
Aproveitaram o santo domingo, que deveriam usar para honrar a Deus e cuidar de suas vidas, e promoveram uma barbárie imperdoável. Mataram gente da família do dono deles, destruíram móveis e instrumentos de trabalho, atearam fogo na casa-grande e no paiol, mataram trabalhadores que se sacrificavam para vigiá-los, e depois desembestaram pelos matos, como bestas e mulas que nunca tinham deixado de ser.
O sinhô José Carlos não se calava, indignado com o acontecido. Mas dava para perceber, no seu modo de falar sem encarar nenhum de nós, que sentia muito medo de que fizéssemos o mesmo, de que imitássemos os nossos vizinhos. Ele se esforçava para manter a voz firme e mostrar que era o dono, que mandava e tinha o controle da situação. Fez com que seguíssemos em silêncio até o engenho, inclusive os que cuidavam da pesca e da fundição, desativadas aquele dia. O trabalho do Cipriano e seus homens seria mais fácil se estivéssemos todos juntos, tanto para nos vigiar como para evitar que ajudássemos algum fugitivo que eventualmente rondasse a fazenda. Além da ameaça com o inferno, feita pelo sinhô José Carlos, nada mais foi dito sobre os baleados e ninguém teve coragem de perguntar, porque eles provavelmente estavam com vontade de descontar em alguém a raiva que sentiam pelo que tinha acontecido no engenho vizinho, pelos três pretos da nossa fazenda que tinham conseguido fugir e por todos os pretos que já tinham se rebelado e fugido antes, não importando onde nem quando. Um de nós que destoasse, que afrontasse mesmo sem ter esta intenção, seria castigado e tratado com toda a raiva acumulada.
Mas era o que dava vontade de fazer, pois eu percebia que em nós a raiva era ainda maior, era imensamente maior que a distância do Brasil até a África, algo pelo qual nem valia a pena se rebelar e descontar apenas naqueles brancos que estavam na nossa frente armados e com seus capangas, entre os quais havia inclusive alguns que já tinham sido escravos e que, depois de forros, se faziam de maiorais. Eu era muito nova mas já pensava nisto tudo, e pensava no que tinham me falado a minha avó, a Nega Florinda e depois a Agontimé sobre cada um de nós ter uma missão. Elas também tinham dito que a minha seria importante, e pedi a Oxum, a Xangô, a Nana e aos Ibêjis que me ajudassem a saber qual era, pois, fosse o que fosse, não seria mais difícil de cumprir do que viver como escrava pelo resto da vida.
O engenho