Um Defeito de Cor
Capítulo três
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
proveito do serviço que ia fazer para o meu dono. Falou para eu me lembrar da Verenciana, que estava liberta e a quem nada faltava.
O sinhô José Carlos nos esperava em uma cabana um pouco além da fundição, onde eram guardados alguns instrumentos de trabalho e papéis antigos. Com uma das mãos o Cipriano bateu na porta, que estava apenas encostada, e Com a outra me empurrou para dentro. O
sinhô José Carlos estava sentado a mesa logo em frente à porta, levantou os olhos por breves instantes e voltou abaixá-los para os papéis que lia, assim que entramos, dizendo que o Cipriano podia sair e esperar do lado de fora.
O capataz me olhou como se dissesse novamente para eu me comportar, como se àquela altura eu ainda pudesse fazer algo diferente, e acho que deve ter percebido tanta revolta no meu rosto que suas feições logo mudaram. Antes de sair e fechar a porta, ele relutou, e parecia estar deixando ali dentro uma filha a quem tentasse dizer que a vida era assim mesmo e seria ainda mais difícil se tentasse resistir, mas que, de qualquer maneira, ficaria esperando do lado de fora.
Acho que ele já tinha vivenciado aquela situação algumas vezes, parecendo acostumado com ela, e não consegui deixar de pensar na Verenciana, nas muitas outras que já tinham estado ali com vontade de fazer algo mais do que simplesmente esperar, mas sem saber o quê, pois, afinal, espera-se que nos conformemos com o fato de que a vida é mesmo assim.
Quando o sinhô ouviu a porta se fechar, ficou de pé e me olhou de cima a baixo, da mesma maneira como tinha acabado de estudar os papéis, sem pressa. Talvez, como eu, tenha se lembrado da primeira vez que me examinou, no mercado de São Salvador. Naquele dia, eu tinha feito graça, corrido, pulado balançado os braços e mostrado os dentes, porque queria ser escolhida. O meu
instinto de sobrevivência precisava que ele me escolhesse para que eu não definhasse naquele mercado, à espera de alguém que achasse que eu valeria os réis que pediam por mim.
A posse
O sinhô José Carlos perguntou se havia pouco tempo que eu tinha tomado banho e se nunca mesmo tinha me deitado com homem. As duas respostas foram sim, num balançar de cabeça, e então ele mandou que eu tirasse a roupa enquanto observava. Além do cômodo onde ele estava trabalhando, um escritório com uma secretária, um armário com algumas pilhas de papel amarelado e outros objetos, e muitas coisas jogadas pelos cantos, a casa ainda tinha um quarto, onde ele mandou que eu entrasse.
Caixas e mais caixas subiam pelas paredes, iluminadas por um lampião que pendia do teto, a única claridade em todo aquele ambiente, já que não era possível ver uma única janela, talvez coberta por aquela quinquilharia toda. No chão havia uma esteira grande coberta com uma colcha incrivelmente branca para aquele lugar, limpa, bonita, sobre a qual ele me mandou deitar. Foi quando ouvimos um barulho, e ele com as calças arriadas até o meio das pernas, foi até a porta que dava para o escritório e ficou quieto por alguns segundos, e eu me lembrei do Lourenço. Como o sinhô não sabia que ele tinha me seguido, e como não ouvimos mais nada durante um bom tempo, ele acabou de tirar as calças por cima das botas e estava desabotoando a camisa quando ouvimos o baque seco.
O sinhô José Carlos chamou pelo Cipriano, mas quem entrou foi o Lourenço que o empurrou para um canto antes que ele tivesse qualquer reação, e depois me puxou pelo braço, fazendo com que eu me levantasse da esteira com tanta rapidez que mal tive tempo de juntar a
saia e a bata jogadas ao lado. Abraçadas roupas, fui quase carregada para fora do casebre, de onde saímos tropeçando no Cipriano, caído logo à entrada com a arma na mão e um corte sangrando na cabeça.
Corremos mata adentro até um local onde o Lourenço achou seguro para eu me vestir, e onde me disse que o Cipriano estava apenas desacordado. Tinha verificado e ele ainda respirava. Disse também que logo começariam a nos procurar e que precisávamos pensar depressa sobre o que fazer. O Lourenço decidiu que eu deveria voltar para a casa-grande e agir como se nada tivesse acontecido, e me perguntou se não tinha acontecido mesmo. Se fosse interrogada, eu deveria dizer que não sabia de nada e nem tinha visto para onde ele fugiu depois de me abandonar na mata. Ele não tinha outra alternativa a não ser a fuga, depois de ter agredido o Cipriano e o sinhô José Carlos. Se o pegassem, provavelmente ficaria dias no tronco, ou coisa pior. O
que nós não sabíamos era que o destino já tinha se decidido por coisa pior.
Como o Lourenço tinha sugerido, fiz grande esforço para agir normalmente, mas não consegui esconder da Esméria, para quem contei tudo. Ela tinha sentido falta do Lourenço e perguntou se eu sabia dele. Aos outros eu disse que não sabia de nada, fingindo estar triste por ter sido abandonada pelo noivo às vésperas do casamento. A Esméria me aconselhou a agir assim, achando que era o melhor a fazer.
Ela também disse que rezaria muito por ele, que, se fosse esperto, já teria dado um jeito de deixar a ilha, pois logo o sinhô José Carlos, o Cipriano e quantos homens fossem necessários estariam examinando cada pedaço de mata. Naquele mesmo dia, com uma atadura na cabeça e a mando do sinhô José Carlos, o Cipriano recolheu mais cedo os pretos da senzala grande, armou e orientou todos os seus homens e pediu reforços à
guarda da vila para saírem à procura de um preto fujão e perigoso, que tinha atentado contra duas vidas, inclusive a do dono. Aproveitando a confusão na casa-grande, fui para a senzala e me peguei com os orixás, pedindo a eles que estivessem com o Lourenço, que o protegessem, que livrassem o seu caminho das armadilhas e fechassem o seu corpo contra os ataques dos inimigos. O Lourenço tinha feito certo. Tentou deixar a ilha indo até o ancoradouro da vila à procura de um barco em que pudesse partir para qualquer lugar, mas o sinhô José Carlos também pensou nessa saída, e antes do meio da tarde voltaram com ele para a fazenda, soltando rojões e dando vivas.
O Lourenço tinha as mãos amarradas com uma corda puxada pelo Cipriano de cima de um cavalo, as costas nuas e sangrando nas marcas de chibata. O sangue escorria como rios estreitos e vermelhos sobre o leito preto, manchando as calças, que logo foram tiradas. A ordem do sinhô José Carlos foi de colocá-lo no tronco e dar cinqüenta chibatadas, tomando cuidado para que não morresse, pois no dia seguinte tinha planos melhores para ele. Não tive coragem de ficar olhando, nenhum de nós da casa-grande teve.
Fomos cuidar dos afazeres enquanto pensávamos em alguma coisa boa na qual ainda acreditávamos, talvez a liberdade, talvez a possibilidade de vingança, talvez a fuga para um quilombo, a volta à África ou ainda um encontro com os parentes há muito perdidos. Passei a noite em claro e acho que tive uma visão, muito real para ser apenas um sonho, na qual a Taiwo estava chorando, e eu sabia que era por mim. Muitas vezes isto nos tinha acontecido; quando uma era castigada e não chorava, por orgulho ou para causar raiva em quem tinha aplicado o castigo, a outra chorava por ela, e desde a manhã eu não tinha conseguido derramar uma lágrima sequer. E também foi sem chorar que, na manhã seguinte, fui levada pelo Cipriano, através do mesmo
caminho, em direção à cabana, com o aviso de que era melhor para mim que ninguém mais estivesse nos seguindo, ou ele não se responsabilizaria pelo que poderia acontecer.
Ao chegarmos à cabana, percebi que não estávamos sozinhos. O sinhô José Carlos estava no cômodo de entrada, em pé e de costas para a porta, olhando sem qualquer interesse para os papéis que amarelavam na estante. Vindas do quartinho, ouvi vozes de pelo menos três pessoas diferentes, sendo que alguns homens saíram de lá assim que foram chamados pelo Cipriano, passando pela sala com as cabeças baixas e os olhos varrendo o chão.
O sinhô José Carlos perguntou se eu achava que ia conseguir escapar e nada respondi, nem mesmo olhei para ele, porque eu achava que sim, que depois do acontecido ele não ia mais insistir. Mas, além disso, da insistência, ele conseguiu ser muito mais vingativo do que eu poderia imaginar, ao entrar no quarto e dizer que a virgindade das pretas que ele comprava pertencia a ele, e que não seria um preto sujo qualquer metido a valentão que iria privá-lo desse direito, que este tipo de preto ele bem sabia o tratamento de que era merecedor.
Dizendo isso, me buscou na sala e me levou para o quarto, segurou o meu queixo e fez com que eu olhasse para o canto onde estava a pessoa a quem ele se referia quando falava de um preto sujo qualquer. Ou o que restava do Lourenço.
Quando percebeu a minha presença, o Lourenço ergueu os olhos, e o que pude ver foi a sombra dele, os olhos vazios mostrando o que tinha por dentro: nada; Enquanto que, por fora, tinha a pele preta toda nua e coberta por crostas de sangue e cortes feitos pelo fio da chibata. Senti vontade de pegar o Lourenço no colo e cantar para ele a noite inteira, como a minha avó tinha feito com a minha mãe e com o Kokumo.
Eles estavam mortos, tal como os olhos do Lourenço, observando a raiva com que o sinhô José Carlos me derrubou na esteira, com um tapa no rosto, e depois pulou em cima de mim com o membro já duro e escapando pela abertura da calça, que ele nem se deu ao trabalho de tirar. Eu encarava os olhos mortos do Lourenço enquanto o sinhô levantava a minha saia e me abria as pernas com todo o peso do seu corpo, para depois se enfiar dentro da minha racha como se estivesse sangrando um carneiro. Não me lembro se doeu, pois eu estava mais preocupada com o riozinho de sangue que escorria do corte na minha boca, provocado pelo tapa, e me lembrava da minha mãe debaixo do guerreiro, em Savalu, desejando que ela, o Kokumo e seus amigos aparecessem naquele momento e nos levassem, a mim e ao Lourenço, para brincar com eles, mesmo sem sermos abikus. Mas eles não apareceram, e nem mesmo consegui ter uma visão dos olhos da Taiwo sorrindo para mim. Havia apenas os olhos do Lourenço, que não choravam o que eu também não conseguia chorar.
O único movimento que ele conseguia fazer era o do peito subindo e descendo no esforço da respiração, dificultada pelo pesado colar de ferro que tinha preso ao redor do pescoço, de onde saíam várias estacas pontudas de mais ou menos vinte polegadas de comprimento e que, mesmo com ele deitado, mantinham a cabeça e metade do tronco afastados do chão, em uma postura bastante desconfortável, na qual ele era obrigado a ficar olhando para nós.
Eu queria morrer, mas continuava mais viva que nunca, sentindo a dor do corte na boca, o peso do corpo do sinhô José Carlos sobre o meu e os movimentos do membro dele dentro da minha racha, que mais pareciam chibatadas.
Eu queria morrer e sair sorrindo, dançando e cantando,
como a minha mãe havia feito. Era assim que eu imaginava os minutos seguintes e, pode ser por isso, por causa desse delírio, que durante muito tempo duvidei do que os meus olhos viram em seguida. Só acreditei de verdade alguns anos depois, quando reencontrei o Lourenço e, de certo modo, como podia, ele confirmou tudo.
O Lourenço tinha conseguido chorar e, ao perceber isso, o sinhô José Carlos o chamou de maricas e perguntou se estava chorando porque também queria deitar com um macho como o que estava se deitando com a noivinha dele. Foi então que tirou o membro ainda duro de dentro de mim, mesmo já tendo acabado, chegou perto do Lourenço e foi virando o corpo dele até que ficasse de costas, em uma posição bastante incômoda por causa do colar de ferro. Passou cuspe no membro e possuiu o Lourenço também, sem que ele conseguisse esboçar qualquer reação ou mesmo gritar de dor, pois tinha a garganta apertada pelo colar.
Eu olhava aquilo e não conseguia acreditar que estava acontecendo de verdade, que o Lourenço, o meu Lourenço, o meu noivo, também tinha as entranhas rasgadas pelo membro do nosso dono, que parecia sentir mais prazer à medida que nos causava dor. O monstro se acabou novamente dentro do Lourenço, uivando e dizendo que aquilo era para terminar com a macheza dele, e que o remédio para a rebeldia ainda seria dado, que ele não pensasse que tudo terminava ali. O sinhô José Carlos então se vestiu e gritou para o Cipriano, perguntando se o castrador de porcos já tinha chegado.
O Cipriano respondeu que sim, que já estava tudo preparado.
Um velho que eu nunca tinha visto na ilha, que talvez fosse da capital, entrou carregando uma faca com a lâmina muito vermelha, como se tivesse acabado de ser forjada, virou o Lourenço de frente, pediu que dois
homens do Cipriano o segurassem e cortou fora o membro dele. Eu olhava e via tudo como num sonho. Se o sentido da visão não era o mais confiável, os que captavam os sons e os cheiros eram, e durante muito tempo a lembrança que tive do Lourenço foi a de um grito abafado e agoniado, seguido de um chiado e o cheiro de carne queimada.
A última coisa que ouvi antes de sumir de mim foi o sinhô comentando que aquilo não era nada, que o Lourenço ia sobreviver e que no tempo do pai dele era muito comum ter escravos capados, que os próprios pretos faziam isso em África, onde alguns homens eram capados para que ficassem mais dóceis e delicados para as tarefas de casa. E o pior é que sei que isso é verdade, pois muitas vezes em África, principalmente em Abomé, vi e ouvi os tais capados, os únicos homens que podiam entrar nas dependências destinadas às esposas de um rei.
A vingança
De todo o resto que aconteceu depois, só tomei consciência quatro ou cinco meses mais tarde, quando meu filho começou a se mexer dentro da minha barriga.
Foi só na hora em que ele se mexeu que entendi que estava viva e queria continuar viva. Se não por mim, pelo menos por ele, a quem imediatamente comecei a chamar de Banjokô, "sente-se e fique comigo", para prevenir, caso fosse um abiku, como eu já pressentia.
Pelo menos consegui prolongar um pouco o tempo que ele passou comigo, embora nem sempre eu tenha querido isso.
Sei de muitas mulheres que, ao se saberem pejadas e conscientes de que a única vida que poderiam dar aos filhos era a que elas próprias tinham, na escravidão, preferiam que não nascessem. Acho que a Esméria chegou a falar comigo sobre uma beberagem, mas não
tive condições ou força para decidir, como se não fosse comigo. E quando o tempo passou e eu senti o meu filho se mexendo, já não tinha mais coragem de negar a ele a possibilidade de pelo menos tentar fazer a própria vida ser melhor do que a minha.
Durante todo aquele tempo, antes que ele se mexesse, muitas coisas aconteceram e passaram por mim como se fossem uma porção de histórias de pessoas que eu conhecia vagamente, mas que não me diziam respeito.
Histórias que me contavam como quem está fazendo uma criança dormir. E era apenas isto que eu queria, já que não tinha conseguido morrer. Dormir, dormir e dormir. Na primeira noite depois que o Cipriano me levou carregada e me jogou sobre uma esteira na senzala pequena, mandando a Esméria cuidar de mim, sonhei com a minha avó.
Eu me lembro das gargalhadas dela, reais e descaradas como nunca foram, e acho até que acordei por causa delas. No sonho eu a vi em todos os lados, em Savalu, em Uidá, em um lugar que não conheci, mas que imaginei ser Abomé, no navio e até mesmo na ilha, onde ela nunca esteve. Os lugares se sucediam atrás dela como em um espelho, e ela ficava parada, gargalhando, enquanto tecia um enorme tapete com o desenho de uma cobra que já estava quase completa, só faltando um pedaço do rabo.
Nos dias seguintes, a Esméria me falou do Lourenço, dizendo que ele estava bem e sendo tratado na senzala grande pela Rosa Mina e o Valério Moçambique. Tempos depois, ela me contou uma história que achei fazer parte do sonho que tive com a minha avó, e que só soube que era verdade meses depois, no dia em que o meu filho se mexeu e eu e ele nos sentimos vivos. Ela contou que já havia alguns dias que o sinhô José Carlos e a sinhá Ana Felipa tinham voltado a dormir em quartos separados, mais ou menos quando ele fez aquilo comigo e com o
Lourenço.
Não sei como não me incomodei com os barulhos na noite em que ela disse que a Antônia entrou correndo na senzala chamando o Cipriano, porque tinha acontecido alguma coisa com o sinhô José Carlos. Ele estava gritando muito e não deixava que ninguém entrasse no quarto, nem mesmo a sinhá. Depois se soube que, no meio da noite, o membro dele fora picado por uma cobra que tinha se alojado entre as cobertas. Pelo menos era do que se suspeitava, porque, embora não fosse comum encontrar cobras dentro de casa, elas eram abundantes na ilha, e de vez em quando acontecia de uma se esconder em algum canto. A Antônia jurou que não havia nada na cama quando foi verificar se o quarto estava de acordo para que o sinhô se deitasse, que ela tinha até alisado as cobertas sem sentir volume algum.
Durante os dias que se seguiram, a Esméria me levava notícias dele, e acho que ela estava sempre sorrindo, que lhe dava certo prazer o rumo que as coisas foram tomando. Eu me lembro de ouvi-la dizendo que o sinhô José Carlos gritava de dor dia e noite, que já tinham feito todos os chás que conheciam, passado todas as pomadas, chamado boticário e médico da capital, todos hospedados na casa-grande e confabulando sobre o melhor tratamento a seguir. Mas nada adiantava, e quem tinha visto dizia que ele estava piorando em vez de melhorar. Somente os homens podiam entrar no quarto, porque o sinhô José Carlos não conseguia vestir roupa ou cobrir o membro, nem que fosse com o mais fino lençol.
O Sebastião, uma das companhias mais constantes, disse que o membro aumentava de tamanho a olhos vistos, chegando a atingir o tamanho e a forma de uma abóbora pequena, avermelhada e coberta de pontos purulentos.
Do lado de fora do quarto, onde muitas vezes a Esméria ou a Antônia ficavam esperando que alguém abrisse
para receber panos limpos, pomadas, ungüentos ou água quente, dava para sentir o cheiro de carne apodrecendo e ouvir os gemidos do sinhô, que definhava muito depressa, já que não conseguia dormir e comia muito pouco. Às vezes ele delirava, com febre alta, e falava coisas que eram impossíveis de compreender direito fora do quarto, atrás da porta ou debaixo da janela, onde sempre havia alguém à espera de notícias que seriam espalhadas entre os pretos. A Esméria contou que, nos últimos dias, até o médico e o boticário já não agüentavam mais o cheiro de podridão, de merda e de sangue que impregnava a roupa de cama, mesmo sendo trocadas pelo menos três vezes ao dia. O sinhô José Carlos teve alguma melhora quando começaram as sangrias com os cortes feitos a navalha ou com uma espécie de lesma, as sanguessugas, para que dessem vazão ao sangue ruim e envenenado que circulava no membro dele. Durante algumas horas isto proporcionava um pouco de alívio ao sinhô, e era quando ele queria saber notícias da fazenda.
Fora do quarto, a vida seguia normalmente, e a sinhá Ana Felipa parecia mais feliz que de costume. Era ela quem, ajudada pelo Fatumbi e por mais dois homens da capital, cuidava de tudo para que o engenho não parasse de moer e para que a pesca das baleias pudesse ser retomada, visto que os dias começavam a esquentar e logo elas estariam de volta à baía, onde namoravam, cruzavam e cuidavam dos filhotes.
Dentro do quarto, tudo o que era possível já tinha sido feito. O médico e o boticário não entendiam o que estava acontecendo, pois nada do que faziam surtia efeito, e diziam que aquele era um caso que desafiava todo o conhecimento da ciência e que, talvez, somente no estrangeiro houvesse recursos suficientes para tratar o sinhô José Carlos. Para piorar a situação, o veneno começou a se espalhar pelo corpo, deixando-o tão inchado quanto o membro, que, enfim, apodreceu de
vez. Até o padre Notório, o seminarista Gabriel e mais dois padres chegaram à fazenda para organizar turnos de reza envolvendo todos os que estavam na casa, inclusive os doutores e os pretos. A qualquer hora do dia ou da noite havia alguém rezando, ajoelhado em frente ao oratório da sala, iluminado por velas que eram trocadas antes de se apagarem. Como as rezas também de nada adiantaram, a sinhá Ana Felipa mandou buscar a sinhazinha, que chegou à fazenda acompanhada de mais dois médicos e um boticário.
A Esméria comentou que até sentiu pena do sinhô José Carlos e desejou que ele morresse logo, dando fim a uma agonia que só aumentava. A Antônia tinha a mesma opinião, e passou a acrescentar algumas ervas que ajudavam a morrer aos chás que ele bebia. Mas até mesmo as ervas que faziam efeito rápido em outras pessoas pareciam anuladas pelo veneno da cobra. A Esméria e a Antônia também queriam se ver livres do sinhô porque, como ninguém mais agüentava ficar no quarto fechado com ele exalando mais fedores que as carcaças de baleia, elas foram escaladas para se revezarem como acompanhantes.
Entravam cobrindo o nariz com lenço encharcado em água de cheiro, a situação estava ficando insuportável, e ainda tinham que agüentar a fúria do sinhô, que, nos primeiros dias, não queria aceitar mulheres no quarto e atirava nelas o que tivesse à mão, até mesmo merda fresca, acabada de fazer. Elas evitavam olhar para ele, que já tomava quase toda a cama de tão inchado, além de deformado e apodrecendo.
Conforme se espalharam as notícias sobre a gravidade da doença, muitos senhores de engenho e comerciantes com quem ele tinha negócios na capital, apareceram para visitá-lo. É claro que não foram recebidos, e ficaram na sala conversando com a sinhá sobre receitas de remédios, ungüentos, banhos e rezas infalíveis, todos
imediatamente testados, sem dar resultado algum.
Enquanto o sinhô apodrecia na cama, eu delirava na esteira da senzala, e às vezes tinha a impressão de que o Fatumbi também me visitava, colocava uma mão sobre a minha testa, a outra sobre a minha barriga, e ficava longo tempo falando coisas na língua arrevesada que ele conhecia, tiradas dos livros de rezas muçurumins ou da própria cabeça. Nesses dias eu me sentia um pouco melhor, mas o melhor para mim era dormir sempre mais.
Acho que eu passava dias e dias dormindo, para então acordar e pedir à Esméria que me contasse histórias.
Com a confusão na casa-grande, nas horas em que não estava no quarto do sinhô José Carlos, ela dava um jeito de ficar sempre ao meu lado. Foi então que eu soube que a vida na casa-grande estava se tornando cada dia mais movimentada, todos esperavam para qualquer momento a morte do sinhô José Carlos. A sinhá Ana Felipa tinha voltado a vestir preto, e para que não a maldissessem depois, para que não dissessem que ela não tinha feito o possível, mandou chamar mais médicos na capital.
Já eram muitos, e todas as tardes depois da sesta, quando cada um deles já tinha feito uma visita ao quarto do sinhô e quando os amigos, vizinhos e conhecidos apareciam para prestar solidariedade, eles se reuniam na sala e confabulavam, ao redor de muita comida e bebida. Tanta, que já tinham sido levadas para a cozinha mais quatro pretas da senzala grande, e todo dia faziam chegar compra de mantimentos da capital.
Cada um dos doutores e boticários apresentava sua visão da enfermidade e a defesa de um possível tratamento, obtendo a concordância ou a discordância dos companheiros e da platéia atenta, que, sem saber nada sobre aquelas ciências, ficava impressionada com um ou outro doutor somente por causa da eloqüência das suas apresentações de defesa de certo diagnóstico ou tratamento. A Esméria disse que eles só queriam se
exibir e usavam as palavras mais difíceis que conheciam, se calhar até inventadas, Para
Que nem mesmo seus colegas entendessem o que estavam falando. Quando conseguiam convencer, eram aplaudidos pela platéia, que apoiava ou não a opinião do doutor, conforme tivesse gostado ou não do discurso. Os ruins de fala eram logo vaiados e nem chegavam ao final da conferência, que era como eles chamavam aquele palavreado todo, conferência. Uma tarde, quando a platéia começava a chegar, foi informada de que não haveria conferência porque o sinhô José Carlos estava nas últimas horas e, além dos doutores, os padres também estavam no quarto, a fim de garantir que ele tivesse uma boa passagem.
A morte Na última tarde de vida do sinhô José Carlos, a Esméria esteve comigo o tempo todo, pois não seria de nenhuma ajuda a presença dela no quarto. O que foi um grande alívio, pois ela já não agüentava mais ficar tomando conta do moribundo, fechada no quarto onde a escuridão era apenas disfarçada pela luz de duas ou três velas que não conseguiam vencer a densa fumaça dos vários incensos que os padres acendiam com dois propósitos, o religioso e o de disfarçar a fedentina.
A Esméria contou que, no final, o corpo dele inchou tanto que a pele mais parecia papel, de tão fina, e se rompia facilmente para dar vazão a um líquido viscoso e purulento misturado com sangue, e eram tantas rachaduras que não havia emplastro que vencesse. Ela se detinha nesses pormenores como se quisesse salientar o sofrimento dele para que eu me sentisse vingada, e continuou narrando o que devia estar acontecendo dentro do quarto, que ela sabia por ter acompanhado as últimas horas do sinhô pai do sinhô José Carlos.
Mas, ao contrário do filho, ele teve uma morte tranqüila e na idade certa para as pessoas morrerem, que é somente quando ficam velhas. Todos os enterros de ricos eram iguais, e a Esméria descreveu o do pai como se fosse o do filho.
Como os padres que já estavam na casa não tinham levado o material necessário, a mando da sinhá, o capataz foi buscar mais alguns padres na capital, que logo chegaram pela praia junto com um orador.
Desembarcaram no atracadouro da fazenda e seguiram em procissão, a do viático, que leva a confissão ao enfermo. Muitos deles estavam vestidos com sobre-peles e estola roxa, carregando a cruz, a caldeira de água benta, o livro de ritual e o livro das palavras de Deus, além da âmbula com os santos óleos.
A Esméria não sabe dizer quantos padres, mas eram muitos, todos que a sinhá se dispôs a pagar para melhor encomendar a alma do seu defunto. Assim tinha acontecido no caso do sinhô pai, assistido por mais de cem padres e ajudantes, e até mesmo por dois bispos.
Na frente da procissão seguiu um dos bispos, levando a santa comunhão e coberto pelo palio carregado por seis padres. Perto do primeiro bispo, um pouco mais atrás, o outro carregava a santa cruz que, assim que entrasse no quarto do moribundo, seria dada para que ele beijasse.
Eles eram seguidos de perto por mais um padre, que agitava sem descanso uma campainha, dois que carregavam incensórios e vários outros que não tinham funções definidas, exceto fazer vista.
Todos estavam protegidos por duas imensas filas laterais formadas por pessoas carregando tochas acesas e um pequeno batalhão de soldados de verdade ou vestidos como se fossem, com as armas apontadas para o chão em sinal de respeito. Por último, havia mais guardas tocando tambores e uma banda de músicos pretos com instrumentos de sopro e de percussão. Ainda hoje eu me
lembro exatamente da descrição desse cortejo, porque a ouvi como se estivesse acontecendo na minha frente, com todas as imagens e os sons. Eu via tudo, os padres, as roupas que eles usavam, os objetos que carregavam, ouvia a música dos guardas e da banda de pretos como se estivesse caminhando ao lado da procissão e prestando atenção a cada detalhe, guiada pela voz da Esméria.
Ela também contou que o caminho por onde eles passaram estava demarcado até a entrada da casa, atapetado com folhas de pitangueira, de louro, de canela e de laranjeira. A procissão foi recebida na casa iluminada por dezenas de velas e lanternas, às quais ainda se juntaram as tochas que acompanhavam a procissão e os convidados, que seguiram rezando atrás dos padres ou saíram sozinhos de suas casas ou fazendas.
Na chegada à casa, a banda continuou tocando do lado de fora, para que o espírito do moribundo acreditasse que havia um concerto de anjos tocando para ele, fazendo com que as portas do céu se abrissem para bem recebê-lo. Os padres acreditavam que assim a alma ia embora mais depressa, aliviando o sofrimento do doente.
Depois dessa negociação com a alma aconteceu a salvação e a encomendação, e, no caso do sinhô José Carlos, a defesa. Sobre a salvação e a encomendação, a Esméria contou que, primeiro, o moribundo beijava a Santa Cruz e reconhecia Deus como seu único Senhor e Salvador, e em nome dele se arrependia de todos os pecados dos quais se lembrava.
Os que tinha esquecido, ou mesmo os que não sabia serem pecados, eram purificados com o ato de passar os santos óleos sobre a boca, o nariz, os olhos, as orelhas e as mãos do moribundo, já que é por intermédio dessas partes do corpo que uma pessoa pode pecar. E só então, livre de todos os pecados, o moribundo pode receber a
hóstia, para que a alma suba aos céus acompanhada do corpo e do sangue do Cristo dos brancos.
Isso tudo foi a Esméria que me contou naquele dia; sobre a defesa, para que a alma fosse logo descansar no reino dos céus, eu aprendi mais tarde, quando trabalhei na casa do padre Heinz, um estrangeiro que tinha muitos livros e, entre eles, um chamado método de ajudar a bem morrer. Esse livro explica que a hora da morte, para um católico, é a hora na qual acontece uma grande guerra e a alma precisa ser defendida como se estivesse em um tribunal. Os padres são os instrutores militares e os advogados, capazes de salvar almas que tinham pecado uma vida inteira, ou então, caso não fossem bons defensores, de arruinar o futuro de almas que podiam ser consideradas quase santas na Terra. São os padres que orientam as almas, dizendo como elas devem agir para vencer as forças do mal que, na hora da morte, tentam levá-las para o inferno.
As mais poderosas armas do cristão, segundo o livro, são os sacramentos, que fortalecem e deixam a alma mais esperta que o mais cruel dos inimigos, o mais ardiloso deles, o mais demoníaco.
Só bem preparada e fortalecida, a alma pronta para desencarnar pode vencer esse inimigo, protegida por um poderoso e invencível exército de anjos comandado pelo arcanjo Gabriel. Como instrutor militar, o padre se vale dos sacramentos, e como advogado usa as palavras, porque não basta afastar o demônio, também é preciso fazer com que a alma seja aceita por Deus.
Como na maioria das vezes o doente não está em condições de fazer a própria defesa, é o padre quem deve falar de suas boas ações e aos seus bons sentimentos. Eu nunca soube quem teve a difícil tarefa de interceder pelo sinhô José Carlos, mas não deve ter sido fácil sem o uso de omissões e mentiras frente Àquele que tudo vê. Ou talvez o sofrimento pelo qual
passou nos últimos meses tivesse feito com que ele se arrependesse das maldades, tudo era possível. A Esméria não sabia sobre isso da defesa da alma, pela qual o pai do Sinhozinho não tinha passado, mas a Antônia contou que, para o sinhô José Carlos a pedido da sinhá Ana Felipa, tudo foi feito, e ele morreu logo em seguida, no fim da tarde. O enterro teve que ser providenciado rapidamente, na manhã seguinte, pelo estado em que já se encontrava o corpo.
Triste também deve ter sido a tarefa de quem teve que lavá-lo, perfumá-lo e vesti-lo com a mortalha da Irmandade da Santa Casa da Misericórdia, à qual ele pertencia e que cuidava para que todos os seus membros, senhores endinheirados e importantes, tivessem uma morte digna da vida que tinham levado.
Para anunciar a morte, contratou-se imediatamente, tanto na capital como na ilha, um bando de carpideiras, que, chorando e lamentando como se fossem a viúva, espalharam a notícia por todos os cantos.
A Esméria contou que antes de escurecer a casa já estava cheia de pessoas para o velório, muitas da capital e até mesmo do Recôncavo, pois alguns conhecidos de lá tinham se posto a caminho um pouco antes da morte, quando receberam a notícia do que poderia acontecer.
Não era o caso dos irmãos do sinhô José Carlos, que só apareceram dois dias depois de o corpo ser enterrado e dele só viram a lápide na capela da fazenda. Desde que o sinhô adoecera, a capela tinha passado por uma grande reforma para deixá-la como nova, pois a sinhá Ana Felipa nunca tinha sido tão devota quanto a mãe do sinhô, que se refugiava lá dentro várias horas por dia, acompanhada das escravas mais próximas, e a mantinha sempre limpa, arejada e enfeitada com flores e velas.
A festa
O defunto foi preparado por especialistas, pessoas que
sabiam como fazer, pois se fizessem algo errado, corriam o risco de morrer logo em seguida. A Esméria contou que essas pessoas costumavam até falar na orelha do defunto, pedindo colaboração quando o corpo estava muito duro ou muito mole, e que a maioria dos defuntos ajudava, a não ser os que achavam que não tinha sido boa a sua hora. Aí precisavam brigar e tratá-lo com braveza, como se trata uma criança desobediente.
Chamando o defunto pelo nome, mandavam que dobrasse o braço, levantasse a perna, virasse de lado e, por fim, fechasse os olhos para o mundo e os abrisse para Deus. Nisto as cerimônias tinham algumas semelhanças com as realizadas em África, como mais tarde eu vou contar.
Dias depois do enterro, quando despertei, o Fatumbi contou que tinha escrito quase duzentos convites para a cerimônia. Pedi para ver e ele disse que eu podia ficar com um, que trago guardado até hoje, não por gosto, mas para confirmar a morte daquele monstro:
“D. Ana Felipa Dusseldorf Albuquerque de Almeida Carvalho Gama e D. Maria Clara Andrade de Almeida Carvalho Gama imploram fazer sciente a V. Sa. que o Criador foi bondoso o bastante para chamar à Sua eterna glória seu amado marido e pai, Senhor José Carlos de Almeida Carvalho Gama, e que seu corpo há de ser dado à sepultura amanhã às nove horas da manhã na capela da Fazenda do Amparo, e para que seja por ato de piedade o eternamente brilhantado roga assistência de V. Sa. para o acompanhamento, que sairá da mesma fazenda acima citada."
Foram essas as palavras que seguiram por todas as maneiras possíveis, levadas por pretos a pé, de barco e a cavalo, a todas as fazendas vizinhas e casas importantes da capital, além de a Irmandade da Santa Casa da Misericórdia também ter despachado ofício para todos os associados e ter mandado dobrar o sino da Sé e de
outras freguesias importantes.
Ainda à noitinha, e principalmente de manhã, foram muitos os barcos, as corvetas, os botes e outros tipos de embarcação que aportaram na ilha cheios de convidados, que ficaram comendo e bebendo o tempo todo, lamentando a perda de tão ilustre figura, como achavam. Aportou também um barco com muitas amigas e freiras do convento da sinhazinha Maria Clara, e alguns navios que estavam ancorados na baía deram salvas de canhão em homenagem ao morto, que deviam ter julgado pessoa de grande monta, pelo imenso tráfego entre o continente e a ilha.
A casa-grande e a capela foram rapidamente armadas, pois, dias antes, a empresa responsável já tinha mandado um representante para a ilha com tudo que precisavam. A sinhá não queria ser pega de surpresa, sem poder dar ao marido um enterro memorável, como é de costume às viúvas que muito lamentam a perda dos seus senhores e provedores. Na entrada da casa e da capela foram estendidos os panos fúnebres, e mesmo que ali não fosse passagem de ninguém para lugar algum, estava lá na varanda, para quem quisesse ver, o pano preto decorado em dourado, significando que o defunto era casado.
A casa, pelo menos nos lugares onde os convidados circulavam, foi toda forrada de boas fazendas, veludos, baetas, belbutinas e galões caros e elegantes, e ainda foram colocados cortinados frisados e armados com varas para esconder as paredes. Muitas flores por todos os lados, encomendadas ou enviadas por amigos e entidades, na forma de ramadas ou coroas. As velas eram da melhor qualidade, do reino, das que não soltavam muito cheiro, pois esse já ficava a cargo dos incensos colocados na sala de sentinela, principalmente perto do defunto.
Mesmo assim não foram de grande eficácia, porque no meio da noite o cheiro começou a constranger os presentes, que amiúde levavam ao nariz lenços em bebidos em colônias, próprias ou das que a casa manteve à disposição. Como também ficaram à disposição todos os tipos de bebidas e quitandas, sendo que de madrugada foi servida uma sopa e, ao amanhecer, uma farta mesa de desjejum foi armada no quintal. Muitos dos pretos da senzala grande foram escolhidos para ajudar e corriam de um lado para outro atendendo às mais diversas solicitações da sinhá e dos convidados. As rezadeiras não deixaram o pé do caixão, construído sob medida para o corpo disforme e inchado do sinhô que ficou completamente fechado lá dentro e tão pesado que até mesmo seis dos pretos mais fortes tiveram dificuldade para carregá-lo. A Esméria explicou que não era muito comum usar caixões durante o velório, que o morto ficava sobre uma tarimba armada na sala, mas naquele caso não teve jeito. Havia também água benta em uma bacia de prata colocada ao lado do corpo, para que as pessoas pudessem saudá-lo.
Algumas senhoras choraram, as mais sensíveis e as que imaginavam uma triste vida para viúva tão nova, mas a Esméria contou que a sinhá Ana Felipa estava altiva, bonita e tranqüila, vestida de preto, dizendo a todos que a cumprimentavam que tinha sido um alívio para o sinhô José Carlos, que muito sofrera com a terrível armadilha preparada pelo destino, que para ele tinha sido melhor ir para perto de Deus Pai, e sofriam apenas os que ficavam, como era o caso dela.
Quando acabava de falar, ela expulsava sabe-se lá de onde uma lágrima furtiva, que logo tratava de enxugar, demorando-se mais do que o necessário com o lenço preto cobrindo o canto dos olhos. A sinhazinha às vezes chorava, às vezes ria timidamente ao lado das colegas, sendo logo repreendida pela sinhá ou por uma das freiras. A Esméria disse que, na verdade, ela estava mais
triste com a partida do pretendente para Portugal, por causa das brigas que estavam acontecendo em São Salvador entre os brasileiros e os portugueses, do que com a morte do pai. Disse também que a sinhazinha tinha perguntado por mim e se contentou com a explicação de que eu não estava bem-disposta, mas quis saber sobre o casamento, que a Esméria disse não ter acontecido, nem o meu nem o de ninguém, por causa da doença do sinhô José Carlos.
A Antônia depois me contou outros detalhes que escaparam à Esméria. Acho que para conversar comigo, mesmo que eu não reagisse ou respondesse, foi o jeito que elas encontraram para me deixar feliz e me manter viva, como se aquilo tudo fosse um grande castigo pelo que eu e o Lourenço tínhamos passado. Sobre o Lourenço elas quase não falavam, nunca soube se a pedido dele, mas saí da fazenda sem termos nos encontrado e achei que ele quisesse assim. Aproveitando um momento em que poucas pessoas estavam na sala com o defunto e usando uma tradição dos brancos, a Antônia se aproximou do caixão e sussurrou no ouvido do sinhô José Carlos um recado para Omolu, o orixá das doenças para que ele fosse em meu socorro e no do Lourenço. Ela me contou isso
soltou uma gostosa gargalhada, dizendo que os brancos acreditavam que as almas recentemente desligadas de um corpo ainda não enterrado ouviam os recados que os vivos queriam que levassem às almas do Além, dando notícias, rogando socorro em situações difíceis e até mesmo pedindo que ajudassem na vingança contra algum desafeto. Repetiu o gesto nos dois lados do caixão, para não ter erro, porque, com ele fechado, ninguém tinha certeza da posição dos pés do sinhô, se tinham ficado mesmo virados para a porta, como é o certo. A Antônia disse que adorou imaginar o sinhô José Carlos confabulando com Omolu, pedindo por mim e pelo Lourenço, e que ainda ganhou algum dinheiro com aquela confusão toda. Acontece que, enquanto o morto permanece na casa, não é de bom-tom a família se recusar a atender qualquer tipo de pedido ou deixar de dar esmola.
A Antônia contou isto ao Tico e ao Hilário, que chamaram alguns conhecidos para que entrassem vezes seguidas na fila que se formou diante da porta da casa.
Apareceram mendigos, pretos forros ou abandonados, escravos de outros senhores que não tinham onde cair mortos, mulheres que faziam má vida e todo tipo de gente que não seria bem recebida nos arredores das casas-grandes ou dos solares, mesmo em cerimônias fúnebres. O Cipriano e seus homens, com um saco de moedas, tratavam de despachá-los para que não fossem importunar a sinhá e os convidados com pedidos de outros gêneros, visto que se conhecia história de gente que teve que dar até casa. Recusar pedido de ajuda podendo ajudar é desrespeito muito grande com o morto. Dias depois, quando partíamos para a capital, a Antônia me deu alguns réis dos quais o Tico e o Hilário tinham ficado com metade, encarregados de repartir com os pedintes.
Depois que todos os convidados já tinham se servido do desjejum, a sinhá e a sinhazinha se despediram do morto e começaram a se preparar para o período de nojo. Elas, assim como qualquer parente próximo do sinhô, não deviam fazer parte do cortejo, pois acreditava-se que a alma poderia cair na tentação de segui-las de volta para casa. Teve início então a cerimônia de despedida, com a preparação da banda de música e a montagem da procissão que, no caso do sinhô José Carlos, andou poucos minutos até a capela.
Armou-se de novo uma fila igual à do viático, acrescida dos demais convidados e todos seguiram para a capela, onde foi rezada uma missa de corpo presente e foi feito o sepultamento ao lado dos corpos dos pais e da
primeira esposa sinhá Angélica. A sinhá Ana Felipa e a sinhazinha trataram de se recolher, e algumas pretas da senzala grande foram chamadas para varrer e limpar a casa colocando todas as cadeiras viradas em cima da mesa, para que o morto não encontrasse lugar para se sentar, caso resolvesse voltar para casa, livrando-se também de todos os objetos de uso exclusivo ou de estimação do sinhô, para que ele não pudesse ficar tentado a revê-los.
A casa permaneceu fechada por oito dias, nenhuma janela foi aberta e nenhuma lamparina foi acesa, para que o morto não se guiasse por sua luz, e a porta da frente foi deixada semi-aberta para facilitar a saída, caso ele ainda insistisse em ficar. Elas também não receberam nenhuma visita, a não ser as que tinham alguma função relativa ao momento, como as modistas, que trataram de vestir todos com roupa preta, inclusive os escravos da casa e os funcionários, e algumas pessoas que a sinhá recebia porque precisavam da assinatura dela, sem adiamento, nos papéis dos negócios da capital.
Os irmãos do sinhô José Carlos também apareceram, mas ficaram apenas um dia e tomaram o caminho de volta para o Recôncavo. E foi quando a vida estava começando a se normalizar, coisa de um mês e meio depois, que meu filho se mexeu dentro de mim e eu voltei a dar razão de nós dois.
A vida
Na primeira vez que cruzei com a sinhá dentro da casa, com a bata estufada pela barriga de mais de cinco meses, ela apenas me olhou sem dizer nada. Na tarde do mesmo dia, mandou me chamar na varanda e perguntou se era dele eu fiz que sim com a cabeça, sem coragem de levantar os olhos, com vergonha do meu estado e com medo da reação dela, depois do que eu tinha visto acontecer à Verenciana. Ela nada disse, apenas que era para eu procurar a iaiá Belarmina e dizer que tinha
permissão para fazer roupas novas para mim, em que coubesse a minha barriga.
Depois daquele dia, muitas vezes ela andava atrás de mim pela casa, quando me via fazendo algum esforço para realizar um trabalho, chamava o a Esméria ou a Antônia para que tomassem o meu lugar. Uma noite, ao me recolher, encontrei um colchão de palha e uma manta nova ao lado da esteira. Quando fui agradecer, pediu que eu a seguisse até o quarto dela e lá disse que queria colocar a mão sobre a minha barriga, mas que eu não contasse a ninguém, pois não queria saber de mexericos e nem de ciúmes entre os pretos. A sinhazinha nem chegou a me ver pejada, pois tinha voltado para a capital assim que se passaram os oito dias de nojo fechado, e fiquei imaginando o que ela faria quando soubesse que teria um irmão. Torto, mas um irmão. A sinhá Ana Felipa tinha mudado muito desde a morte do sinhô José Carlos e apesar do nojo, estava muito mais alegre e bonita, e algumas vezes eu a peguei sorrindo, coisa que nunca tinha visto antes. De vez em quando ela abria o piano da sala e tocava alguma coisa, mesmo isso não sendo permitido a viúva tão fresca. Meu filho se mexia dentro da barriga e eu dava um jeito de parar perto da porta e ficar escutando. Um dia ela me viu e disse que eu podia entrar, passando a me chamar para acompanhá-la em todas as ocasiões, desde a novidade que eram as caminhadas pela praia até as tardes de bordado na varanda, onde ela mesma fez um manto para o meu filho.
Durante as manhãs, eu continuava ajudando na cozinha, enquanto ela despachava no antigo escritório, mobiliado de novo e mais arejado, com cores menos tristes. Eu era quase feliz ao sentir o meu filho crescendo e se mexendo dentro de mim, e nessas horas tentava esquecer quem era o pai. A Esméria, a Antônia, a Maria das Graças, o Sebastião e até mesmo o Tico e o Hilário não deixavam que eu trabalhasse muito e separavam coisas gostosas À
para eu comer. Às vezes eu sonhava com a Taiwo ou com a minha avó felizes, sorrindo para mim, e em muitas ocasiões até me pegavam no colo.
Eu fui a primeira entre os escravos a saber que nos mudaríamos. A sinhá Ana Felipa disse que tinha vendido a fazenda e tudo o que se encontrava dentro dela, inclusive os pretos da senzala grande, e estava comprando um solar na capital, para onde levaria apenas as coisas de uso pessoal e os pretos da senzala Pequena, pois nós não tínhamos entrado na negociação.