Um Defeito de Cor

Ana Maria Gonçalves · Capítulo 5 de 12 · parte 3/4

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Um Defeito de Cor

Capítulo três

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

O dia foi de muitas novidades e muitas chicotadas sem motivo. Meu trabalho era simples, fazer as fôrmas de barro onde o caldo da cana descansava antes de endurecer e ser triturado para virar açúcar. Naquele primeiro dia eu não pude observar direito o funcionamento do engenho, que me fascinou, mas nos dias seguintes a situação foi se acalmando, e aos poucos fiquei conhecendo cada etapa.

Na plantação, a cana estava estalando de madura, a casca lisa, seca, coroada com folhas que eram separadas para alimentar o gado. Abraçando-se à cana já sem as folhas, um homem cortava o pé rente ao chão usando uma foice. Logo atrás dele havia sempre uma mulher que amarrava feixes com doze canas, sendo que cada lote de cinqüenta feixes dava uma mão de cana. Mais ou menos a cada três mãos tinha-se um carro, como era chamada a quantidade de cana que cabia no carro-de-boi que transitava entre os corredores da plantação e o engenho, recolhendo o trabalho do dia. O Talib, que era mestre-de-açúcar, disse que cada carro produzia um pão de açúcar, que pesava mais ou menos quatro arrobas. O nosso engenho, que não era dos maiores nem dos menores, moia de nove a dez carros de cana por dia, recém-cortada ou, no máximo, cortada de véspera, para não ressecar.

Os cavalos faziam um grande esforço para movimentar a moenda, principalmente nas primeiras passagens, quando a cana ainda estava dura e suculenta e precisavam ser substituídos várias vezes por dia. Apenas uma pessoa fazia o trabalho de alimentar a moenda, por onde a mesma cana passava pelo menos vinte vezes, até restar apenas o bagaço, que servia para alimentar o fogo das caldeiras.

O caldo da cana caía no cocho, uma tina de madeira

ligada à bica, também de madeira, que o levava até o parol, um grande tacho que ficava enterrado no chão até a boca. Neste tacho eram colocados alguns produtos para embranquecer o caldo, que então era baldeado para uma pia, e dela seguia através de um canal até cair na primeira caldeira, chamada caldeira de receber. De lá seguia para a caldeira de cozer, passando depois por seis tachas, sendo que a última delas era chamada de bacia, onde o caldo, já bastante grosso e muito reduzido em relação à quantidade que tinha entrado, era batido até o ponto de ser testado.

O teste era feito pegando-se um pouco da mistura entre dois dedos, que eram afastados lentamente, de modo que o fio que se formava entre eles deveria se partir antes que a distância atingisse uma polegada. O

responsável por esse teste era o Talib, e ele tinha que ser muito bom para que o açúcar não desandasse. Se o ponto fosse aprovado, a massa era novamente batida até esfriar e ser colocada dentro de potes de barro chamados de pão de açúcar ou fôrma.

Eram necessários muitos destes potes, acho que tínhamos uns trezentos, pois quase sempre eles se partiam e tinham que ser substituídos.

Esse era o meu trabalho, cuidar dos potes, ajudando a fabricar potes novos ou remendando os que ainda podiam ser aproveitados. Apesar de o trabalho ser fácil, era também muito sério, pois a qualidade do pote era importante para fazer um bom melaço, em um processo chamado de purga. A Ignácia era uma ótima purgadeira e disse que, assim que fosse possível, ia me ensinar o trabalho, pois as boas purgadeiras eram muito valorizadas e seu ofício era mais respeitado do que muitas outras ocupações dentro de um engenho, exceto a de mestre-de-açúcar e o contra-mestre, o que sabia regular a força do fogo nas caldeiras de cozer, regular a mistura de produtos que clareiam o açúcar e regular o

ponto da mistura quando ela já estava pronta para ser purgada.

As fôrmas tinham mais ou menos cinco palmos de altura por três de largura no topo, pois iam se afunilando para terminarem em uma base de mais ou menos duas polegadas, vazada, que tampávamos com rolinhos feitos de folha de bananeira. Eram assim, tampadas e cheias do melaço, que as fôrmas iam para a casa de purga, onde ficavam encaixadas, de pé, em tábuas que tinham vários buracos com tamanho suficiente para prender as fôrmas mais ou menos na metade da sua altura. Quando a fôrma esfriava, a rolha era retirada e esperava-se alguns dias até que todo o mel escorresse de dentro dela, até que sobrasse apenas algo que já tinha quase a consistência de açúcar.

A purgadeira então tinha o trabalho de revolver e depois socar muito bem esse açúcar dentro da fôrma, para depois cobrir tudo com uma camada de barro úmido, que servia de filtro para a água limpa que era jogada sobre ele, por mais ou menos quarenta dias. A água atravessava o barro e a massa de açúcar, descendo aos poucos, lavando, filtrando e levando embora todas as sujeiras que encontrava pelo caminho. No fim dos quarenta dias, quando o que saía pelo fundo do pote já era uma água bem limpa, rala e clara, a massa de açúcar era considerada bem lavada. A fôrma então era deixada ao ar livre até que estivesse novamente seca, quando retiravam a tampa de barro e esmigalhavam o açúcar para espalhá-lo sobre esteiras ao sol, onde ficava até que estivesse bem seco. No final, era socado até virar pó, depois pesado, embalado e levado para a capital para ser vendido.

Em dois turnos, o engenho trabalhava dia e noite para que a cana não passasse do ponto. Não que a cana mais madura não desse bom açúcar, dava até um de melhor qualidade, mas a quantidade era menor por ela estar

menos suculenta. Depois de moer toda a cana do nosso engenho, moíamos a cana de outras fazendas que tinham apenas o canavial, sem as instalações.

Quase não tínhamos folga aos domingos, pois muitas vezes a cana já colhida não podia esperar, correndo o risco de fermentar se o tempo estivesse úmido, não servindo nem para fazer açúcar nem para fabricar cachaça. Nosso engenho também produzia cachaça, fermentando e destilando o caldo que sobrava durante a produção do açúcar. O sinhô José Carlos aparecia no engenho todos os dias, principalmente para acompanhar o trabalho do banqueiro, um preto forro contratado na capital. A função do banqueiro era controlar a quantidade de cana que entrava para a moenda, e depois, na casa de purgar, a quantidade De açúcar que estava sendo embrulhado, pesado e encaixotado. O banqueiro sabia a quantidade de açúcar que deveria ser produzida de acordo com a quantidade de cana, e tinha que prestar conta disso ao caixeiro, que era quem lançava os números nos livros e fazia as contas de quanto dinheiro ia dar aquilo ide como esse dinheiro seria dividido quando o engenho estava trabalhando com cana de outras fazendas. O Fatumbi, como homem de confiança do sinhô José Carlos, já que fazia o serviço de guarda-livros no escritório da capital, aparecia dois ou três dias por semana para confirmar a honestidade do caixeiro, que era um mulato forro contratado.

Em uma das visitas, o sinhô José Carlos me olhou de modo estranho, pedindo que o Cipriano me levasse até ele, quando me fez abrir a boca e olhou meus dentes.

Depois, com a ponta da vara que usava para cutucar o cavalo, levantou a barra da minha saia e olhou minhas pernas. Olhou também para a minha bata na altura dos peitos, que já estavam quase tão grandes quanto os da Felicidade. À noite, a Ignácia passou a mão sobre a minha cabeça e disse que eu não era mais uma menina,

que já tinha corpo de mulher, e perguntou se meus sangues já tinham aparecido.

Eu disse que sim, que eu tinha perguntado à Felicidade o que fazer, e que também já sabia como agir para não ficar pejada, caso fosse me deitar com homem, mas que disso eu ainda não sentia vontade. Naquele dia eu não entendi o motivo da pressa, mas ela comentou que, se fosse eu, começaria a pensar nisso, para que desse tempo de pelo menos escolher o primeiro. Na mesma noite sonhei com a Taiwo, e ela estava tão triste quanto no dia em que o guerreiro tinha se deitado em cima da minha mãe, em Savalu. O sonho era como se fosse naquele dia, pois ela apontava o guerreiro e dizia para eu olhar o rosto dele, mas eu não tinha coragem. Até que ela ficou brava comigo e saiu correndo, sem olhar para trás e sem ouvir os meus gritos pedindo para que voltasse.

A volta

Alguns dias depois, quando saíamos para o engenho, o Cipriano segurou meu braço e disse que eu ia voltar para a casa-grande. Perguntou o que eu sabia fazer e eu respondi que já tinha ajudado a Esméria e a Maria das Graças na cozinha antes de a sinhá Ana Felipa ter me mandado para a senzala grande e dito que nunca mais queria me ver na frente dela. O Cipriano disse que não tinha me perguntado nada daquilo, problema do sinhô José Carlos, pois eu estava voltando por ordem dele, que trataria de se entender com a sinhá. Ele passou a mão pelo meu rosto e disse que o sinhô estava certo, que ele não era nada bobo de misturar uma preta tão bonitinha com o resto dos escravos, correndo o risco de ela ser inaugurada por qualquer um.

Falou também que, se a sinhá Ana Felipa dissesse qualquer coisa, era para eu contar para ele, Cipriano, que informaria o sinhô. Eu preferia não ter ido, mas,

infelizmente, não podia escolher, e me conformei ao ser muito bem recebida pela Esméria, a Maria das Graças, a Rita, a Antônia, a Firmina, a Josefa e pelo Sebastião, pois todos me queriam bem. O Tico e o Hilário ficaram encarregados de buscar minhas coisas na senzala grande e levar para a senzala pequena, tomando cuidado para não serem vistos com os santos, os livros e os cadernos, que, para mim, tinham quase a mesma importância.

Eu

sentiria

saudade

das

minhas

companheiras de baia e de engenho, de quem nem pude me despedir, e, principalmente, da liberdade de estar entre os meus.

Quando o sinhô José Carlos estava em casa, eu evitava sair da cozinha, ou pelo menos de perto da Esméria, desde o dia em que ele tinha me encontrado tirando o pó dos móveis na sala de jantar e pediu para ver os meus peitos. Eu não sabia o que fazer e fiquei quieta, fingindo não ter entendido direito. Ele então repetiu, mandando que eu levantasse a bata porque queria ver os meus peitos, e como eu não me mexi, ele mesmo a ergueu, usando a ponta da bengala. Elogiou, dizendo que eram muito bonitos, perfeitos. Isso eu também achava, e acredito que naquela hora, mesmo com o improvável da situação, eu me senti muito orgulhosa deles, que cresciam firmes e redondos como os da minha mãe.

Eu tentava pensar nela e em como eu andaria com os peitos descobertos se ainda morasse em Savalu, enquanto ele passava a ponta da bengala pela parte descoberta do meu corpo, no meio dos peitos ou em apenas um deles, em volta do bico. Era uma sensação da qual eu gostava, mas não a ponto de deixar que ele percebesse, e senti raiva e nojo quando ele pediu que eu levantasse a cabeça e abrisse os olhos. Por sorte, o Lourenço apareceu na sala com um pesado tapete que tinha levado para bater o pó do lado de fora da casa. O

sinhô José Carlos não se abalou, me repreendeu por alguma coisa qualquer e saiu em direção à porta da sala,

reclamando que os pretos nunca faziam nada direito e chamando pelo capataz Cipriano.

O Lourenço tinha sido comprado do engenho vizinho, um dos escravos capturados depois da fuga e postos à venda. Era comum isso acontecer, os senhores separarem os escravos rebeldes, vendendo, alugando ou mandando para propriedades, para que não tramassem nova fuga. Além de prevenir, era também uma punição, pois separavam pessoas que tinham criado laços de amizade de cumplicidade e até mesmo de família. Para a nossa fazenda tinham sido vendidos mais de quinze, todos para a senzala grande, menos o Lourenço, que estava acostumado com serviço de casa.

Ele tinha sido criado do filho do nhô Alberico, o dono da Fazenda Nossa Senhora das Dores, assim como eu tinha sido da sinhazinha Maria Clara, e quando o sinhozinho dele foi estudar na Europa, passou para o serviço de copeiro. Mesmo estando entre os que foram vendidos, o Lourenço achava que o antigo dono tinha muita consideração por ele, inclusive havia comentários de que eram pai e filho, porque o Lourenço não tinha sido mandado ferrar, como os outros pretos capturados.

Estes, inclusive os que estavam na senzala grande da nossa fazenda, tinham a letra F ferrada no rosto, a marca dos fujões.

Essa marca, além de deixar o preto sob constante suspeita e vigilância, ainda representava a grande vergonha de ter falhado na conquista da liberdade. O

Lourenço era um homem bonito, com pouco mais de vinte anos, e também me achou bonita, pois estava sempre me olhando de canto de olho. No dia em que me pegou com os peitos de fora, enquanto o sinhô José Carlos deixava a sala, não conseguiu disfarçar. Nem piscou, enquanto eu estava gostando de ser olhada. À

noite, mesmo na escuridão da senzala pequena, mesmo depois que acabava o pouco de azeite da lamparina, eu

podia sentir os olhos dele me procurando, sentir o seu olhar espantado e desejoso percorrendo o meu corpo e parando nos peitos.

O sinhô José Carlos às vezes esbarrava em mim pela casa, embora eu evitasse tais situações, procurando estar ocupada ou a serviço da sinhá Ana Felipa, que percebeu o que estava acontecendo. Ela não tinha tocado no assunto da feitiçaria, da boneca, e nem em nada que nos fizesse lembrar daquele dia, e, para meu maior espanto, passou a me querer sempre por perto, como uma criada pessoal. Com certeza notou o interesse do marido e, daquela maneira, nem estava pensando em me proteger, mas sim ao seu casamento, que, aliás, não tinha sido nem um pouco abalado pelo acontecido com a Verenciana, visto que era bastante normal que os senhores se deitassem com as escravas e as senhoras aceitassem sem reclamar. Mas nem a proteção da sinhá impedia que de vez em quando o sinhô José Carlos se aproximasse de mim e, fingindo ser por acidente, encostasse o braço ou a mão nos meus peitos ou o membro na minha bunda, dependendo da posição em que eu estivesse, fazendo o meu trabalho. Ele nunca falava nada, apenas se achegava e me tratava como dono, que era de direito, e eu muito menos dava algum sinal de ter percebido a intenção dele.

Uma tarde, eu estava ajudando a Esméria a debulhar milho no quintal quando a sinhá Ana Felipa a chamou para fazer algo dentro da casa, e então o Lourenço se aproximou. Disse que percebia o que estava acontecendo, que com a mãe dele provavelmente tinha acontecido o mesmo, visto que ele nasceu quando ela tinha menos de quatorze anos de idade, e que se eu tivesse para onde ir, ele poderia me ajudar em uma fuga, ou poderia mesmo fugir comigo. Naquele dia eu nada respondi, mas comecei a fantasiar a idéia de fugir com o Lourenço e morar em algum quilombo, talvez até como marido e mulher, pois acho que já era assim que me via

e como passei a me sentir quando ele estava por perto.

Era um homem bonito, a pele não muito escura e que brilhava quando os músculos faziam qualquer esforço por baixo dela. E não era só eu que o admirava, a sinhá também, porque muitas vezes, quando estávamos na varanda, ela mandava chamar o Lourenço e pedia que ele fizesse algum trabalho no jardim. Ela tentava disfarçar, mas ficava olhando para ele, sendo que certa vez até espetou o dedo com a agulha de bordar e em outras vezes até suspirou. Ele sabia que estava sendo observado e fazia movimentos lindos, mostrando os músculos, exibido, e eu comecei a sentir ciúmes. Dava para perceber que ele sabia muito bem o que estava fazendo, e eu tinha dúvida se era para mim ou para a sinhá. Acho que foi então que comecei a gostar dele de um jeito diferente, como uma mulher gosta de um homem.

Eu e o Lourenço continuamos a nos olhar pela casa, e na senzala ele deu um jeito de aproximar a esteira da minha até ficarmos lado a lado, quando passamos a dormir de mãos dadas. Descobri que ele também sabia ler quando se interessou pelo livro que o Fatumbi tinha me dado, e aproveitávamos todo o tempo de óleo no lampião para ler e escrever. O Lourenço era bom em inventar histórias, e muitas vezes ditava algumas para que eu escrevesse. O que eu sentia por ele mudava muito durante o dia, às vezes um carinho de uma irmã mais nova, de quem ele cuidava e para quem dava conselhos, às vezes desejos de mulher, principalmente quando eu percebia que os olhos dele tinham fugido do papel, quando estávamos deitados de bruços nas esteiras, e ficavam procurando o que dava para ver dos meus peitos pelo decote da bata.

Alguns dias eu queria que ele me desejasse mais, e deixava que os peitos quase saltassem para fora da roupa escondendo só os bicos endurecidos, que pediam

para ser tocados pelas mãos ou pelos lábios do Lourenço, coisa que ele quase fazia com os olhos. A Esméria percebeu o que estava acontecendo e me disse que ele era um moço, que eu tinha sorte por ele estar interessado em mim, mas que não era para sonhar muito com coisas que não podiam ser mudadas, que nós não estávamos em condições de mudar e que talvez nunca estivéssemos, pois o nosso destino não nos pertencia.

Acho que foram aquelas palavras da Esméria, muito mais que o meu sentimento, que fizeram aumentar o meu interesse pelo Lourenço.

Eu gostava de provocá-lo, gostava que ele me olhasse de um jeito que fazia com que eu me sentisse mais velha, embora achasse que ele era um pouco sério demais.

Aconteceu que o meu gostar dele, e não apenas a possibilidade de fuga para um quilombo onde viveríamos juntos, nasceu da vontade de desafiar o destino para ver o que aconteceria. Eu gostaria muito que tivéssemos conseguido, mas hoje entendo por que não aconteceu.

Talvez eu tivesse me acomodado, e a vida não teria seguido o seu curso.

As conversas

Certo sábado, o sinhô José Carlos recebeu visitas, sete ou oito homens da capital. Eram pessoas importantes, pois nós, da cozinha, trabalhamos muito preparando quitutes sob a supervisão da sinhá Ana Felipa, que acompanhava tudo de caderno em punho e língua afiada.

Depois de cada prato pronto, ela experimentava e jogava fora o que não ficava bom, no lixo mesmo, não sem antes jogar água ou fazer qualquer outra coisa para que nós não pudéssemos aproveitar.

Fazia isso dizendo que preto não tinha paladar para apreciar aquele tipo de comida e nem ela queria ser acusada de ter alimentado escravos com comida digna de reis, mesmo que estragada pela nossa incompetência,

pelo nosso dom de fazer somente a ração a que estávamos acostumados todos os dias.O Sebastião e a Antônia, que serviriam os pratos, ganharam fardas novas. Ficaram horas com a sinhá Ana Felipa, que mostrou de que lado de cada pessoa deveriam servir à mesa, a ordem em que os pratos sairiam da cozinha e depois seriam retirados, como encher os copos, e outras coisas.

O Hilário e o Tico também ganharam roupas novas, e ficaram na porta para receber os convidados e cuidar de seus pertences, como capas, bengalas e guarda-chuvas.

Deveriam também estar sempre por perto, para o caso de eles precisarem de algo que não estivesse ao alcance das mãos, ou então para levar recados até os engenhos vizinhos, se fosse necessário.

Fiquei curiosa para saber o que aqueles homens iam conversar, e assim que todos se sentaram na sala, tomando os aperitivos de antes do almoço, vi que a Esméria e a Maria das Graças não precisavam mais de mim e saí escondida para o quintal. Fiquei abaixada do lado de fora da casa, sob a janela, de onde dava para ouvir tudo o que diziam sem ser vista, protegida por uma sebe.

Falavam de política, um assunto que eu já tinha ouvido comentarem na senzala grande, sobre o Brasil se tornar independente de Portugal e os escravos se tornarem independentes dos seus donos. Claro que não falavam dessa segunda parte, isso era de interesse nosso, assunto de senzala, pois achávamos que se o Brasil se libertasse de Portugal, do qual era quase escravo, nós também poderíamos pedir a nossa liberdade, ou pelo menos seria um passo nesse sentido.

A eles, os senhores que estavam naquela sala, interessava apenas a independência do Brasil, que diziam ser o assunto de todas as rodas de conversa dos

homens importantes da capital, e que até já era possível que em alguns lugares do país, que eu ia percebendo ser maior do que imaginara, em alguns lugares, como na corte, a independência já era dada como certa, era questão de dias.

Na época, o assunto era um pouco complicado para mim, que não consegui entender direito. Mas com o tempo, e conforme fui adquirindo conhecimentos, tudo o que estava sendo conversado ali foi se tornando mais claro e chegou mesmo a me servir em certas ocasiões.

Alguns daqueles senhores disseram que a independência ia ser boa para o Brasil, terra de homens capacitados para decidir o próprio destino. Outros, principalmente os que lidavam com comércio, disseram que todos pagariam um preço alto demais pela independência, visto que eram os portugueses que intermediavam a maioria dos negócios feitos com a Europa, e que depois que o Brasil ficasse nas mãos dos brasileiros, o destino seria bastante incerto. Independente, o Brasil teria que se virar sozinho, sem o apoio de Portugal e sem o empenho dos portugueses influentes. A discussão prosseguiu durante todo o almoço e por muito tempo depois dele, às vezes acalorada e às vezes mais calma, quando todos pareciam concordar em algum ponto, e o que estava em jogo era a participação deles, — a doação de dinheiro ou com o envio de escravos para a luta armada, que parecia inevitável.

Achei o assunto interessante mesmo não entendendo, pois era como se os argumentos que usavam contra a dominação portuguesa também valessem contra a dominação que eles tinham sobre nós, os escravos. A mesma liberdade que eles queriam para governar o próprio país, nós queríamos para as nossas vidas. A exploração era a mesma e até mais desumana, porque tratava de vidas e não apenas do pagamento de impostos e da ocupação de cargos políticos. Fiquei muito animada quando comentaram que talvez pudessem dar a

liberdade aos pretos que fossem lutar, caso decidissem mandá-los. Mas depois concordaram que não, que não poderiam se arriscar tanto, parar o trabalho e dispor da mão-de-obra para uma luta que roubaria tempo importante da moagem ou da colheita.

Acabaram se decidindo pela ajuda em dinheiro para a compra de armamentos e outras coisas de que um exército precisa durante uma guerra. Eu ouvia aquela conversa e sentia muita vontade de contar para todos da senzala grande o que estava acontecendo. A primeira pessoa para quem contei foi a Esméria, imaginando que ela fosse me dar os parabéns e achar todas as minhas conclusões maravilhosas, ajudando a conversar com os outros pretos. Mas o que ouvi foi conselho para me calar sobre o que não sabia direito e, mesmo se soubesse, não me dizia respeito.

As relações

Certo domingo, contei sobre as conversas das visitas do sinhô para o Lourenço, que me ouviu atento e calado, para depois dizer apenas que eu tinha me arriscado ao ficar ouvindo conversa dos outros às escondidas. Resolvi não contar para mais ninguém, achando que, a não ser os muçurumins, os outros talvez não entendessem o que eu estava pensando. Senti vontade de ir até a senzala grande procurar a Felicidade, mas imaginei que ela estaria com o Belchior na cachoeira.

Convidei o Lourenço e fomos até lá escondidos, pois, embora tivéssemos mais regalias como escravos da casa-grande, éramos muito mais vigiados Para que não nos misturássemos com os outros, para que a vida dos senhores não se tornasse conhecida de toda a escravaria, e para que não nos estragássemos com os hábitos dos escravos da senzala grande, tidos como mais selvagens e brutos, mais dados a traições e rebeldias, além de levarem uma vida promíscua. Vida da qual eu

gostava mais, na qual me sentia mais à vontade.

Na cachoeira, encontramos a Felicidade, o Belchior e os outros de sempre. Fumamos liamba, comemos banana assada e bebemos cachaça, fazendo plano para quando fôssemos livres. Nem precisei contar sobre os planos dos brasileiros de se verem livres dos portugueses, e talvez nós, dos senhores brasileiros ou estrangeiros, pois já era assunto tratado abertamente entre os escravos, embora nem todos entendessem o que estavam falando.

Fiquei sabendo que um dos engenhos da ilha tinha mandado alguns homens, todos crioulos (Crioulo: preto nascido no Brasil), para lutar junto com as tropas brasileiras, e que o prêmio, caso saíssem vencedores, seria mesmo a liberdade, estendida a todos os outros escravos, crioulos ou não. Estávamos felizes, era bom pelo menos sonhar, e o Lourenço disse que mesmo assim, mesmo livres, viveríamos em um quilombo. Ele achava que a vida era muito melhor nos quilombos, onde ninguém era dono de nada ou de alguém, tudo era de todos e cada um mandava em si, dividindo o que plantava e colhia e o que produzia com as artes das próprias mãos. Era esse o tipo de vida que ele queria dar aos filhos dele, em que cada um era responsável pelo próprio destino, mas ainda assim se importava em proporcionar boa vida a todos.

O Lourenço era crioulo, mas sabia a história da sua família em África. A mãe era uma suaíli chamada Dalji,

"a que caminha graciosamente", que recebeu o nome de branco de Bernarda ao chegar ao Brasil junto com um de seus nove irmãos. Seriam dois, mas o outro foi morto no caminho depois de se rebelar contra um dos guardas do navio e atacá-lo a dentadas, única arma disponível para quem tinha as mãos e os pés amarrados. O sobrevivente se separou dela no armazém, quando foram comprados por pessoas diferentes.

Eram filhos de um rico fazendeiro, que fez questão de dar a eles estudo e algum conhecimento, mesmo para as mulheres. O irmão mais velho, o que morreu na travessia, tinha inclusive morado dois anos em Lisboa, Portugal. Toda a família foi capturada pelos lançados e o pai tentou negociar, conseguindo cauris suficientes para comprar de volta apenas nove pessoas. Poderia ter conseguido muito mais se os lançados tivessem dado tempo, pois tinha a fazenda para vender.

Mas eles não quiseram esperar, recebendo apenas o que já estava disponível em dinheiro ou mercadoria. Como eram doze pessoas ao todo, os três irmãos mais velhos, todos homens, se ofereceram para continuar com os lançados, que aceitaram apenas dois e quiseram também uma mulher, que acabou sendo a mãe do Lourenço, a mais velha das filhas.

Eles sabiam do que se tratava, principalmente o irmão que já tinha ido a Lisboa, mas também sabiam que era possível voltar. Trabalhar, comprar a liberdade e voltar.

O irmão da mãe dele sabia de muitos que tinham conseguido fazer isso e estava certo de que também conseguiriam, havendo ainda a possibilidade de fugir, justo ele, que não tinha suportado nem chegar ao Brasil.

Ao contrário do Lourenço, que sempre falava em ir para a África mesmo sem nunca ter estado lá, eu não sabia se queria voltar. Ele tinha certeza de que haveria alguém esperando a sua volta, o que não era o meu caso. A não ser o meu pai, Oluwafemi, que nem cheguei a conhecer, eu não tinha mais ninguém em África. Talvez a Titillayo, que, se ainda estivesse viva, poderia me receber de braços abertos, como fez da primeira vez. Eu disse isso ao Lourenço e ele afirmou que, se eu quisesse, a família dele seria a minha família, e que eu estava me tornando uma mulher muito especial. Eu queria que o Lourenço tivesse me beijado naquela hora, na hora em que quis me dar uma família, mas não beijou, e nem pensou em

beijar mesmo quando eu tirei a roupa e fui nadar nua junto com os outros. Ele não entrou na água, e mesmo se tivesse entrado não a sentiria, pois parecia estar longe dali, vivendo em algum quilombo que teria uma passagem secreta para a África.

Ao voltarmos para casa no fim da tarde, fomos vistos pelo capataz Cipriano, que quis saber onde tínhamos estado. Eu disse que tínhamos ido, sem sucesso, procurar umas ervas para a Esméria preparar chás para os escravos doentes, e tenho certeza de que ele não acreditou, pois a partir daquele dia passou a nos vigiar mais de perto. Quando me encontrou sozinha, disse que era para eu me comportar, pois já estava reservada, que tinham me levado para a casa-grande exatamente para eu não me deitar com os pretos antes de servir ao meu dono, que eu deveria ser muito grata por isto. O

Lourenço percebeu e disse que poderíamos nos casar logo, perguntando se eu já era moça. Quando respondi que sim, ele disse que ia conversar com a Esméria e o Sebastião, para ver como poderíamos fazer. A Esméria, que já sabia do que estava para acontecer, comentou que o melhor que tínhamos a fazer era falar logo com a sinhá Ana Filipa e pedir autorização para nos casarmos na religião dos brancos, com o que ela iria concordar, ainda mais porque era um perigo que afastava de dentro de casa. Talvez isso não tivesse muita importância, mas, se eu não fosse mais pura, poderia acontecer de o sinhô José Carlos perder o interesse.

Os escravos que queriam ficar juntos geralmente falavam com a senhora, mesmo que já vivessem assim na senzala, aguardavam a visita de algum padre que aproveitava para fazer os casamentos de uma só vez.

Não eram muitos casais, talvez porque soubessem que de uma hora para outra poderiam ser separados.

A Rita mesmo já tinha se casado e tido filho como manda a religião dos brancos, com casamento e batismo feitos

por um padre, e ficou sozinha depois que o marido e o filho foram para outro dono por herança, quando o pai do sinhô José Carlos morreu. Em relação ao meu casamento, a sinhá Ana Felipa não se opôs e disse que seria realizado por ocasião da próxima visita do padre Notório, que ela ainda não sabia quando, mas que se daria até o fim do ano, com certeza. Era agosto de um mil oitocentos e vinte e dois, e eu já estava me acostumando com a idéia de me casar aos doze anos.

A educação

Logo depois do acerto do casamento, a sinhazinha Maria Clara foi passar alguns dias na ilha por causa da confusão que reinava na capital, com os tumultos provocados

pelas

manifestações

em

torno

da

independência do Brasil. Sempre havia confrontos entre os que eram a favor de um país livre e os que defendiam Portugal,

e

principalmente

entre

brasileiros

e

portugueses.

A sinhazinha Maria Clara estava diferente, não tinha mais nada daquela menina com quem eu passava horas brincando de boneca, e ela disse o mesmo de mim.

Quando contei que ia me casar, ela disse que também tinha um pretendente, um moço que conheceu em uma festa no convento, e que talvez ele aparecesse na fazenda em um dos fins de semana seguintes para conversar com o pai dela. Embora tivéssemos passado muito tempo sem nos ver, e de ela nem ter ficado sabendo que eu tinha sido mandada para a senzala grande, e de vivermos situações tão diferentes, ainda tínhamos muito o que conversar. A sinhazinha me contou sobre o convento, as aulas, as professoras, o que se aprendia e, principalmente, sobre as festas, que eram do que ela mais gostava.

Disse que festas eram uma desculpa para que os moços de boa família se encontrassem com as moças de boa

família, já que casar e ser boa mãe e boa esposa eram um dos principais motivos porquê muitas moças eram mandadas para um convento como aquele, mais do que para aprenderem alguma coisa, o convento era um lugar onde elas se preparavam para ser esposas respeitáveis, com aulas de boas maneiras, de etiqueta, de música e de prendas domésticas e artísticas, mais o básico de leitura e escrita.

Também havia a parte do convento mesmo, onde ficavam as noviciandas, moças que estudavam para freira, e outra parte onde ficavam as que não tinham ou não sabiam se tinham vocação, mas estavam lá para receber instrução, inclusive religiosa. Era o caso da sinhazinha, que me mostrou vários livros que estavam com ela, escritos principalmente por freiras de um modo que eu nunca tinha pensado que mulheres pudessem escrever.

Gostei muito de um livro em particular, que a sinhazinha disse ter retirado às escondidas da biblioteca, onde trabalhava uma novicianda amiga dela. A moça tinha mostrado o livro e deixado que ela lesse algumas partes, mas não podia permitir a saída dele, sob risco de ser castigada se a abadessa descobrisse. Curiosa, a sinhazinha levou o livro às escondidas para o quarto, leu, e ainda não tinha aparecido oportunidade de devolvê-lo. Achou arriscado deixá-lo no quarto enquanto estivesse na fazenda, pois não sabia quando e nem se voltaria para o convento, a depender do fim das confusões.

No livro, as palavras soavam como as do padre Antônio Viera aos peixes, ou melhor, como orikis, só que falavam de amor entre um homem e uma mulher. Ainda hoje me lembro de alguns versos, de trechos inteiros daquelas cartas que eu não cansava de pedir que a sinhazinha lesse para mim ou que me emprestasse para que eu lesse sozinha, tentando aprender a ordem das frases para mais tarde, quando fôssemos dormir, dizer para o Lourenço.

Eu falava e ele e ia anotando em papéis que tenho até hoje, e que foi bom ter guardado, porque agora consigo entender os sentimentos de perda e de sofrimento que tanto me fascinaram, mas que eu não tinha a capacidade de compreender muito bem na época. Eu apenas achava as palavras bonitas, e além de não saber o significado da maioria delas, também não alcançava o sentido, não sabia do que tratavam.

Como saber o que queriam dizer coisas como "se eu te amasse naquele extremo que milhares de vezes te disse, não teria eu já de longo tempo cessado de viver?...Enganei-te... Tens toda a razão de queixar-te de mim... " Por que não te queixas?... Vi-te partir; nenhumas esperanças posso ter de mais ver-te. E ainda respiro!... É uma traição... Peço-te dela perdão. Mas não mo concedas." (trecho da Terceira Carta de sóror Mariana do Alcoforado). Como saber o que significa pedir perdão sem querer que seja dado? Como saber que é traição dizer que se pode morrer de amor não correspondido e mesmo assim continuar viva? A sinhazinha tinha muitos livros iguais àquele, e outros que me disse serem livros de poesia, e não de oriki, embora eu não visse a diferença que justificava a distinção do nome.

Elas poesias, conversavam com alguma coisa que eu tinha dentro de mim e proporcionavam a mesma felicidade que eu sentia ao ouvir orikis, embora nem sempre fossem alegres, como não era a grande maioria.

Mas, mesmo sendo tristes, eu as sentia, e era isso que me deixava feliz.

A sinhazinha Maria Clara gostava de morar no convento, onde as moças da idade dela, as que não estavam se preparando para freira, ou mesmo algumas das que estavam contra a vontade, levavam uma vida muito menos reclusa do que seria esperado. Não podiam deixar as dependências do colégio ou do prédio-

dormitório sem seus pais ou pessoas autorizadas por eles, mas podiam receber visitas, que não eram raras, principalmente porque as freiras também gostavam de convívio social.

O convento era um lugar para moças ricas, mantido por seus pais ou tutores, grandes fazendeiros, comerciantes, políticos e militares, ou até mesmo religiosos, todos ricos e com boa condição social, sabendo que um bom casamento também dependia de um pouco de educação e cultura. Por isso, não eram raras as vezes em que o convento fazia festas para receber músicos, poetas, pintores, companhias de teatro e artistas de todos os tipos, homens do clero, cultos e letrados, e estrangeiros importantes, quando as freiras serviam bons vinhos e boa comida, em saraus que atravessavam a noite. Isso oficialmente, porque no silêncio da clausura muitas jovens se deitavam com seus pretendentes e, dependendo da importância deles, com o consentimento ou até mesmo com a ajuda das freiras, em quem os pais confiavam para afastar suas filhas do mundo pecaminoso.

Pelo menos era também para isso, para que não cedessem às tentações da carne, ou para que se arrependessem depois de terem cedido, que muitas moças iam para os conventos. Mas as freiras, não todas, é claro, mas boa parte delas, queriam dar uma educação completa às que estavam destinadas ao casamento, inclusive na escolha do pretendente. Quando alguém não passava pela aprovação delas e, portanto não era bem recebido nas dependências do convento, usava um recurso que todos conheciam, as cordas que as moças à espera dos amantes jogavam por cima do muro do convento na calada da noite.

Algumas tinham vida dupla, recebendo durante o dia os pretendentes fidalgos, principalmente os portugueses aprovados pelas freiras, fingindo-se de castas e

prendadas, aptas ao bom casamento, e à noite se entregavam aos amores escolhidos, pobres, mas donos dos seus corações.

Tudo isso me contou a sinhazinha Maria Clara, e também sobre o José Manoel, o estudante de Direito e filho de um rico português com negócios na capital da Bahia e na corte. Eles tinham se conhecido na festa da posse da nova abadessa do convento e se enamorado um do outro, chegando a tratar promessa de casamento.

Mas não sabiam se esse casamento seria do gosto dos pais, tanto que ela estava com medo de perguntar ao sinhô José Carlos se ele dava permissão para que o José Manoel e o pai fossem até a fazenda.

Sugeri que conversasse com a sinhá Ana Felipa, que era mulher e entenderia melhor daquelas coisas que os homens, e quem sabe até não poderia fazer parecer que o convite tinha partido dela. Contei para a sinhazinha a conversa entre o pai dela e os outros senhores da região falando mal dos portugueses, e ela disse que já sabia disso, e aí estava a razão do seu medo. O pai era um republicano nacionalista, a favor de que o Brasil ficasse somente nas mãos dos brasileiros, enquanto o pai do José Manoel era português, monarquista, inclusive com cargo político na corte.

Por causa das confusões que aconteciam na capital, estava cada vez mais difícil um entendimento entre brasileiros e portugueses e, inclusive, o escritório e a loja do pai do José Manoel já tinham sido invadidos e depredados algumas vezes, e o moço tinha comentado que talvez tivessem que ir embora para a corte ou para Portugal, onde o pai gostaria que ele terminasse os estudos. A sinhazinha achava que a separação de Brasil e Portugal se daria em breve, opinião que era compartilhada por seu pai e pelas visitas que voltaram mais duas vezes, quando ficamos escondidas do lado de fora da janela ouvindo a conversa, como eu já tinha feito.

Eles falaram sobre os conflitos que haviam se transformado em sangrentas batalhas por todo o país, inclusive no recôncavo e na capital, motivo que tinha feito a sinhazinha ir para a ilha e que estava muito preocupada com o José Manoel.

A independência

Em uma manhã de primavera, e de setembro, primeiro chegou o barulho de rojões e de tiros de canhão, e depois a notícia de que o Brasil estava livre de Portugal.

Isso foi comemorado em surdina na casa, pois era notícia que não queriam que chegasse à senzala grande, com medo da empolgação dos pretos. Mas o Tico e o Hilário ficaram sabendo e correram para contar, o que de fato provocou certa inquietação, sendo preciso que o capataz Cipriano fosse alertar o sinhô José Carlos sobre a euforia dos pretos que, não entendendo direito o acontecimento e atendo-se à palavra "liberdade", queriam saber como é que ia ficar a situação deles.

O sinhô José Carlos mandou que os homens do Cipriano redobrassem a vigilância e, precisando, mandassem avisar, que ele conseguiria reforços. Mandou também que o Cipriano explicasse que nada tinha mudado para os escravos, que os pretos não eram um país, que não pertenciam de fato a nenhum país e, quando muito, alguns poucos poderiam ser considerados gente, quanto mais falar em liberdade. Fiquei triste com as palavras dele, que o Cipriano provavelmente não deve ter repetido letra por letra para não provocar os ânimos exaltados. À noite, comentei isso com o Lourenço, que me abraçou e disse para confiar nele, que tudo aquilo ia mudar, prometendo que também teríamos liberdade um dia. Disse ainda que teríamos uma família, em África, se eu quisesse.

Dormi e sonhei com Savalu, com a minha mãe dançando no mercado, com a Taiwo sorrindo, com a minha avó

contando histórias e fazendo tapetes, com o Kokumo pescando no rio, e tive saudades de África, mesmo sabendo que eles não estavam lá. Eu tinha ficado comovida com a atitude do Lourenço, que queria me dar uma família livre, pessoas de quem eu pudesse gostar para sempre, sem medo de sermos separados de uma hora para outra. Naquele momento, e durante toda a vida, tive que lidar com duas sensações bastante ruins, a de não pertencer a lugar algum e o medo de me unir a alguém que depois partiria por um motivo qualquer.

Alguns dias depois da independência, quando o sinhô José Carlos teve certeza de que a situação já estava mais calma na capital, a sinhazinha voltou para o convento, embora ainda houvesse forte resistência e, ao contrário do resto do país, a Bahia ainda não fosse considerada território independente de Portugal. A Bahia só conquistou a liberdade quase um ano depois, tempo em que esteve em guerra com as tropas portuguesas e com o desejo dos portugueses em não abandonarem aquela terra bonita e festiva de que tanto gostavam.

A sinhazinha Maria Clara partiu e deixou na minha memória alguns versos e as lembranças revividas de um tempo em que eu ainda era um pouco criança, quando o meu trabalho era estar à disposição para as brincadeiras que ela quisesse. Era cada vez maior a minha vontade de também seguir para a capital, onde a vida, ou o que quer que eu pudesse decidir sobre ela, realmente acontecesse, ou

onde

pelo

menos

surgiriam

oportunidades para que eu a vivesse um pouco melhor.

Era bom fazer planos com o Lourenço, mas depois de ler as poesias falando de amor e de perceber que eu não sentia nada daquilo, comecei a achar que não tinha sentimentos bastante fortes para ser feliz com ele. Eu nunca seria capaz de sentir, caso o perdesse, o que aquela freira das cartas sentiu pelo seu amado. Imaginei que talvez o meu sentimento pelo Lourenço não fosse

mais do que um remédio para a dor de não ter ninguém e de não ter liberdade, e que quando uma dessas coisas acontecesse, ele não teria mais importância alguma. Eu me lembro de como queria ter tido alguém para conversar sobre isso, mas na fazenda ninguém me entenderia, nem mesmo a Esméria, que me chamaria de ingrata quando eu dissesse que gostaria de fugir com o Lourenço, mas não de viver com ele para sempre. Eu gostaria de fugir com ele, e depois fugir dele.

Outros planos

A sinhá Ana Felipa avisou que os casamentos seriam realizados no início de novembro, dia cinco, dia de Santa Isabel, de quem ela era afilhada e devota. Devoção herdada da mãe, que também se chamava Isabel. A Esméria contou que a sinhá gostava de Santa Isabel porque a santa também tinha o ventre seco e conseguiu ter filho já depois de velha, e talvez tivesse a esperança de acontecer o mesmo com ela. Mas eu sabia que não seria assim, porque, além do fato de ela não saber que atraía abikus, ainda havia as ervas da Liberata.

O Lourenço estava feliz e embora eu achasse que nada mudaria nas nossas vidas tentava me consolar pensando que o casamento ia ser bom para mim, tanto por afastar o sinhô quanto por eu poder compartilhar com alguém o caminho de ser livre. Estávamos preparando tudo em segredo para pegar o sinhô José Carlos de surpresa, até o dia em que a iaiá Belarmina pediu a ele permissão para tecer uma roupa nova para mim, com a qual eu pudesse me casar. Foi assim que ele ficou sabendo do casamento, e voltou a me perseguir pela casa além de mandar o Cipriano vigiar o Lourenço.

Principalmente durante a noite, na senzala pequena, onde, com a desculpa de manter a ordem e os bons costumes, não foi mais permitido que as mulheres dormissem ao lado dos homens com quem não fossem

casadas. Ou seja, amontoadas de um lado dormiam as mulheres que trabalhavam na casa, e do outro, muito folgados, apenas o Tico, o Hilário, o Lourenço e o Sebastião, e o Cipriano vigiando tudo.

A primeira vez das pretinhas pertencia aos seus donos, e era isso que o sinhô José Carlos estava tentando garantir, tomando cuidado para que eu não dormisse com o Lourenço antes de me deitar com ele, que estava apenas esperando uma boa oportunidade. Eu não podia falar nada para o Lourenço, mas ele percebia, e mais se afligia à medida que se aproximava a data marcada para as cerimônias. Seriam realizados quatro casamentos e dois batizados de crianças que tinham nascido na senzala grande.

O casamento da Felicidade não estava entre aqueles, mas ela e o Belchior andavam se deitando pelos matos, escondidos da Rosa Mina, perto da cachoeira, onde nem se importavam se havia ou não testemunhas, e se entregavam um ao outro durante a tarde inteira. Mesmo curiosa, eu tentava não olhar, porque me dava vontade de fazer o mesmo com o Lourenço.

O problema era que eu não tinha coragem de tomar a iniciativa e, mesmo com a ameaça representada pelo sinhô José Carlos, ele parecia disposto a esperar pelo casamento, para então me possuir como de direito. Para mim era tolice, mas certa vez ele comentou que o ex-sinhozinho dele, o que estava na Europa, tinha dito que era assim, que um homem solteiro podia se deitar com quantas mulheres quisesse, sem compromisso, mas nunca com aquela que tinha escolhido para esposa. Se ela assim o quisesse, era porque não o merecia. Sem olhar, apenas ouvindo os gritos, os gemidos e as risadas da Felicidade e do Belchior, e imaginando o que eles estavam fazendo, eu já ficava perturbada de vontade de me entregar ao Lourenço. Os bicos dos meus peitos ficavam duros e eu sentia quase escorrendo pelas pernas

o líquido brotado na racha, àquela altura já bastante peluda.

Eu então entrava na água e apertava uma perna contra a outra, e às vezes me tocava até sentir um estremecimento que era bom e que me deixava mais calma depois, mesmo com vergonha de que o Lourenço pudesse perceber. E por isso ficava um pouco mais dentro da água, entregando meu corpo ao seu refrescante carinho, e só então saía, vestindo a roupa sobre o corpo molhado. Certa manhã, o Cipriano apareceu na casa-grande e, como se já não fosse motivo de estranhamento ele entrar sem ser acompanhado pelo sinhô José que acreditávamos estar em São Salvador, disse que precisava da minha presença na fundição para ensinar o serviço a dois pretinhos que estavam começando naquele dia.

Estranhei porque nós, da senzala pequena, não tínhamos ficado sabendo de nenhum escravo novo, e nem havia na fazenda crianças em idade para tal trabalho que já não soubessem exatamente o que fazer. Eu estava na sala tirando o pó dos móveis para a Antônia enquanto ela limpava a prataria da copa, e vi o Lourenço espiando a conversa escondido atrás da porta que dava para a varanda. Imaginei que fosse nos seguir, e de fato o fez.

Não sei como o Cipriano não ouviu os passos dele, um pouco abafados pelas folhas caídas no chão da mata atrás da casa, por onde cortamos caminho. Se tivesse percebido ou mesmo desconfiado, o que na hora eu torci para que não acontecesse, já que de certa forma a presença do Lourenço me dava segurança, se o Cipriano tivesse percebido, talvez a tragédia toda tivesse sido evitada. Quando vi que estávamos indo na direção errada, mesmo com o Cipriano dizendo que era um atalho, tentei correr, mas ele me pegou pelo braço e disse que o sinhô José Carlos queria ter uma conversa comigo, e que era melhor eu ser bem boa-zinha, pois, sendo boazinha o suficiente, até poderia tirar muito

Continuar: parte 4 de 4