Um Defeito de Cor

Ana Maria Gonçalves · Capítulo 6 de 12 · parte 3/4

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Um Defeito de Cor

Capítulo quatro

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Era fácil escalar à parede do solar até me agarrar à grade de ferro da pequena varanda e passar para dentro, abrir a janela com cuidado e esperar um pouco os olhos se acostumarem à escuridão. Foi num desses momentos que pensei ter visto a minha avó debruçada sobre o berço do Banjokô, como se estivesse beijando a testa dele. Não tive certeza, por causa da escuridão, mas, levando em conta o possível engano dos olhos, eu quase poderia ter jurado que era mesmo ela, por causa do cheiro. A minha avó e a minha mãe tinham cheiros

que nunca mais senti em alguém ou em algum lugar onde elas não estivessem.

Não que elas sempre exalassem esse cheiro, mas onde pude senti-lo, foi por causa da presença delas. Não sei se o Kokumo e a Taiwo também sentiam, nunca chegamos a conversar sobre isso, mas acho que sim, porque a nossa reação era parecida. Tínhamos vontade de nos deitar no colo delas e nos entregarmos a uma espécie de moleza, de um formigamento que provocava sono. De fato, apesar de ter um sono bastante agitado, o Banjokô estava quieto, com a respiração tranqüila e profunda, mais lenta que o normal. E eu também acabei adormecendo, depois de me sentar no chão e apoiar a cabeça na grade do berço do meu filho.

Acordei sem saber direito onde estava, com a primeira claridade do dia entrando pela fresta da janela, que eu tinha deixado um pouco aberta. Depois de alguns segundos para despertar direito, dei um beijo de despedida no Banjokô e tomei o caminho da rua, levando um grande susto ao encontrar o Sebastião e dois homens do lado de fora do muro, ao terminar de pulá-lo. Ele também se assustou antes de me reconhecer, e eu disse que tinha ido apenas ver o meu filho, perguntando depois o que ele estava fazendo na rua àquela hora. Ele respondeu que não era hora nem lugar para falar sobre aquilo, prometendo que qualquer dia conversaríamos com calma.

Os escravos dos ingleses

Quando cheguei à casa do Mister Clegg, alguns dos escravos já tinham se levantado e então fingi que não tinha conseguido dormir direito e saíra da cama ainda antes de o dia nascer para caminhar pelo jardim. Não sei se acreditaram, mas ninguém comentou nada, o que era comum. As pessoas não falavam muito sobre si, cada uma tinha a sua vida e cuidava apenas dos seus

interesses. Só os dois muçurumins, o bilal Sali e o Ajahi, pareciam ser mais íntimos um do outro e além de trabalharem juntos o dia inteiro, ainda passavam juntos todos os momentos de folga.

Eles tinham dois dias de folga, não somente os domingos alternados, como nós, os outros, porque o Mister Clegg não trabalhava durante os fins de semana, e eles geralmente sumiam no fim da tarde de sexta-feira e só retornavam na noite de domingo. Quando estavam trabalhando vestiam-se com fardas iguais às dos outros escravos, mas mal se recolhiam, ou quando estavam de folga, usavam roupas típicas dos muçurumins, os abadás. Às sextas-feiras, quando saíam de casa, levavam em trouxas, abadás feitos de bonitos tecidos brancos, com desenhos de flores ou outras figuras em branco mais brilhante, e nos outros dias eram de tecidos coloridos, lisos ou combinando duas ou três cores.

Usavam barba apenas na ponta do queixo e a deixavam ficar bem comprida e, no caso do bilal Sali, já estava bem branca, mais do que o cabelo.

Ele devia ter cinqüenta anos ou mais, e podia-se ver que o Ajahi, por volta dos trinta, tinha grande respeito por ele. Mais tarde vim a saber que ocupava um cargo importante na religião deles, ajudando a comandar as rezas. Eles eram muito religiosos e faziam as cinco orações do dia, além de passarem muitas horas lendo e cantando trechos do livro sagrado. Apesar de não entender nada, eu gostava muito de ouvi-los cantar de olhos fechados, como se estivessem mesmo, com grande respeito e admiração, ajoelhados em frente a Alá, de quem repetiam o nome inúmeras vezes. Percebi que sempre se levantavam antes de nós, antes mesmo do sol, e um dia resolvi segui-los, curiosa para saber o que faziam.

Um de cada vez, sendo que o primeiro foi o bilal Sali ainda de roupa eles entraram no poço onde tomávamos banho, lavaram o rosto, as mãos e as plantas dos pés.

Então se sentaram dentro da água e colocaram na cabeça um estranho gorro de borla caída, feito de algodão branco, o mesmo tecido das roupas que estavam vestindo. Depois de um tempo, saíram da água e ficaram de pé sobre dois tapetes de pele de carneiro, onde começaram as orações usando o teçubá. É um rosário parecido com o dos brancos, que tem noventa e nove contas de madeira, terminando com uma bola no início da cruz. Ao rezar pelas contas pequenas, ficaram sentados, e quando pegaram as contas maiores, que poderiam equivaler ao Pai-Nosso do rosário, ficaram De pé, com os braços erguidos acima da cabeça e as mãos abertas, inclinaram o corpo para a frente, fazendo reverência, dizendo o que depois aprendi ser Alkáh-u-acubdru, ou "louvores a Deus". Em seguida, ergueram e baixaram os olhos na direção do céu e da terra, fazendo uma saudação, colocaram as mãos sobre os joelhos e fizeram mais uma reverência. Finalmente se sentaram de lado sempre em voz baixa, rezaram novamente pelas contas pequenas, e quando voltaram às contas grandes repetiram todo aquele ritual. Acho que perceberam a minha presença, escondida atrás de uma moita, o mais perto que eu podia ter chegado sem atrapalhar, pois no dia seguinte foram saber do João Benguela quem eu era, onde tinha nascido, essas coisas.

O João Benguela, ou Benguê, como preferia ser chamado, não soube responder, mas ficou curioso.

Quando foi me perguntar, acabamos conversando durante um bom tempo, enquanto as meninas tinham aulas com a Miss Margareth e eu o ajudava a bater o pó dos tapetes no quintal da casa.

O Benguê era um homem inteligente, muito mais do que demonstrava, e já estava no Brasil havia muitos anos, mais de trinta, tempo suficiente para viver uma história interessante. Tinha chegado rapazola, quando foi

comprado por um negociante de escravos de São Sebastião do Rio de Janeiro, com quem permaneceu por vários meses, por ter quebrado a perna quando ainda estava para ser vendido.

Por falta de tratamento e de cuidados, o osso da perna não cicatrizou direito, e durante muito tempo ele não pôde fazer esforço, sendo descartado por muitos compradores. Até que apareceu o dono de uma estalagem na freguesia de Valongo, com quem ficou por muitos anos trabalhando na limpeza dos aposentos, quando conheceu várias pessoas. A estalagem, por ficar perto do porto e dos armazéns que negociavam pretos, recebia muitos hóspedes que iam até a cidade comprar escravos, próprios ou de encomenda, ou ainda para revender em lugares distantes. Foi trabalhando na estalagem que o Benguê conheceu um negociante que ia ao Rio de Janeiro se abastecer de escravos para vender na província de Minas Gerais, na região de Vila Rica, a das minas de ouro.

Em uma dessas viagens do comerciante, já com a perna sem nenhum sinal de voltar a dar problemas, o Benguê foi comprado e seguiu em tropa, até o interior de Minas Gerais junto com mais de cem peças. O trabalho nas minas era bastante vigiado, mas mesmo assim os pretos conseguiam uma ou outra pepita ou então esconder pequenas pedrinhas ou pó de ouro sob a cabeleira, como eu já sabia, e aqueles que eram mais disciplinados e poupadores logo compravam a liberdade. Por isso a necessidade que os donos das minas tinham de sempre repor o estoque, com pretos que mandavam buscar diretamente na corte, evitando os que desembarcavam em São Salvador, que tinham fama de rebeldes, desordeiros e preguiçosos. Foi então que o Benguê ouviu falar da província da Bahia, para onde queriam ir muitos pretos fujões ou libertos, pois diziam que se parecia com a África.

O Benguê ganhou a simpatia de um negociante baiano, foi comprado e seguiu com ele para São Salvador. Na verdade, já tinha conseguido ouro suficiente para comprar a própria liberdade, mas queria viajar em tropa, pois era perigoso para um preto, mesmo liberto, andar sozinho pelos interiores do Brasil. O plano era chegar à Bahia e comprar sua carta do próprio mercador, mas o que o Benguê não sabia era que aquele tipo de armação já era bastante conhecido. A primeira coisa que os vigias da tropa fizeram quando pegaram a estrada foi revistar os escravos e confiscar todo o ouro que levavam, procurando inclusive nos lugares mais comuns onde os pretos costumavam escondê-lo, no meio do cabelo, em um saquinho de tecido costurado à trouxa ou enfiado nas partes íntimas, tanto das mulheres quanto dos homens. E foi sem nada que o Benguê chegou a São Salvador, sem as economias de anos de trabalho, sendo vendido para um mulato que estava fazendo fortuna com os pretos que comprava, todos homens, postos para trabalhar no transporte de cadeirinhas de arruar ou de cargas entre a cidade baixa e a cidade alta.

Os pretos se revezavam no trabalho, um dia fazendo o serviço mais leve com as cadeirinhas, outro dia levando nas costas, sozinhos ou não, cargas muito mais pesadas do que seria possível imaginar. Foi em um desses dias de trabalho pesado que a perna do Benguê perdeu a firmeza e ele rodou ladeira abaixo junto com uma pipa de vinho que transportava nas costas, o que acabou por aleijá-lo de vez.

O Benguê foi então abandonado pelo antigo dono em uma cama para desvalidos na Misericórdia, e quando conseguiu ficar de pé, foi arrematado a preço vil por um português que o levou para trabalhar em uma tipografia, onde aprendeu a ler e a escrever. Quando a tipografia foi à falência, depois de o dono ser enganado ao receber pagamento de uma vultosa quantia em dinheiro falso,

ele foi a leilão junto com as máquinas, sendo arrematado pelo representante do governo inglês que morava na Bahia antes do Mister Clegg.

Eu deveria ter prestado mais atenção àquela história do dinheiro falso, mas na época não dei importância. Para financiar as guerras da independência, o governo mandou fundir, às pressas, moedas em cobre vagabundo, fáceis de serem falsificadas. Aproveitando-se disso, certos gatunos também cunharam moedas que passavam pelas verdadeiras, as de emergência, e faziam grandes negócios com elas, Para logo em seguida desaparecerem sem deixar vestígios. Muitos foram os comerciantes que enfrentaram dificuldades para se reerguerem depois dos golpes, principalmente os pequenos comerciantes, que se empolgavam com a perspectiva de grandes negócios com pagamento à vista, em espécie.

A prisão

Fiquei na casa dos ingleses pouco mais de um ano, e durante esse tempo não tinha muito o que fazer, a não ser observar as meninas. Mas elas acabaram gostando da minha companhia, mais do que da companhia da Miss Margareth, o que não era vantagem alguma. Aliás, acho que a Miss Margareth também acabou gostando de mim, porque eu a livrava de estar sempre com as meninas, e então podia passar as tardes trancada no quarto, lendo, ou então acompanhando a Missis Clegg em visitas às amigas.

As mulheres estrangeiras quase não saíam de casa com acompanhantes pretas, preferiam as empregadas brancas, que muitas vezes tinham se mudado com elas dos países de origem, coisa que logo algumas sinhás brasileiras começaram a imitar. Faziam-se acompanhar de imponentes senhoras ou senhoritas, quase sempre inglesas ou francesas, que cuidavam principalmente da educação das crianças e eram chamadas de aupairs.

Muitas vezes era difícil distingui-las das sinhás para as quais trabalhavam ou mesmo acreditar que eram elas as empregadas, tão melhor sabiam se vestir e se comportar.

Acredito que foram as meninas que mais sentiram a minha falta no dia em que fui embora, quando a Missis Clegg ficou sabendo do acontecido e achou que seria uma péssima influência para elas. O fato é que as três, a Miss Rose, a Miss Ruth e a Miss Rachel já estavam começando a se comportar como crianças, sorrindo e mesmo brincando, embora sem fazer muito barulho para não atraPalhar o trabalho do pai e não chamar a atenção da mãe. Certa noite em que fui Ver o Banjokô e estava saindo da casa da sinhá Ana Felipa, fui presa porque pulei o portão. Dois policiais estavam escondidos na escuridão da rua em frente à casa ao lado, e assim que me viram deram voz de prisão. Tentei escapar correndo para o lado oposto ao da casa do Mister Clegg, mas outros dois, já prevendo que isso poderia acontecer, estavam escondidos atrás de uma árvore e me agarraram assim que passei por eles. Disseram que não era a mim que esperavam, e sim por três pretos que tinham sido denunciados, por estarem metidos em rebeliões e desordens, e que sempre saíam daquela casa. Mas para não voltarem ao quartel de mãos abanando, eles me levariam, pois boa coisa eu também não devia estar fazendo por pular o muro daquele jeito, em plena madrugada. Na manhã seguinte, a sinhá Ana Felipa foi consultada para confirmar que era mesmo minha dona e que eu estava alugada para um representante inglês, mas que tinha um filho ainda na casa, que aleguei ir visitar às escondidas. O Sebastião foi me buscar na cadeia, levando o dinheiro que eles cobravam por uma noite de alojamento. Foi por causa disso que os ingleses não me quiseram mais, depois que a sinhá explicou ao José da Costa o motivo pelo qual eu tinha desaparecido da casa quando ele foi procurá-la para comunicar o meu sumiço, acreditando em uma fuga. Ele foi até a casa dos Clegg e minutos depois

voltou com a decisão de que o negócio, o meu aluguel, estava desfeito.

A volta

Algumas mudanças tinham ocorrido na minha ausência, e não apenas com o Banjokô, que já andava sozinho, falava algumas palavras e estava ficando cada dia mais parecido comigo, menos pelo nariz, que mesmo não sendo mais tão delicado, continuava sem se esparramar.

De certa forma, isso diminuía um pouco as suas chances de vencer na vida. Apesar de que, na São Salvador daquela época, muitos mulatos estavam conquistando posições respeitáveis, a maioria vencendo pelos estudos, sendo que a profissão preferida por eles era a de bacharel em leis, como fiquei sabendo logo que comecei a circular com mais liberdade. O Tico, embora não tivesse se preocupado em aprender a ler e escrever, dizia que ainda chegaria a doutor, ele que, ao crescer, tinha se tornado muito mais responsável e mais sério que o Hilário, mesmo continuando com a boa vida que levavam, quase sem fazer nada.

A Rita, a Firmina e a Josefa tinham sido vendidas e havia outros dois escravos na casa, o Francisco e o Raimundo, rapazes por volta de vinte anos, fortes e bonitos, sendo que o Francisco era muito mais. Eles foram comprados para fazer os serviços mais pesados, já que o Sebastião era o único homem da casa, único com quem se podia contar, porque o Tico e o Hilário estavam sempre sumidos quando se precisava deles. Mas o Sebastião já estava ficando velho demais para carregar peso ou mesmo para defender a casa, se necessário. Eu já havia me encontrado com os dois, o Francisco e o Raimundo, junto com o Sebastião, na madrugada em que me pegaram deixando a casa da sinhá, mas estava escuro e nem pude reparar direito.

A Esméria também já tinha comentado sobre eles em um

dos meus domingos de visita ao Banjokô, mas eu não tinha dado muita importância. O que me levou a ter uma agradável surpresa. Na primeira vez que vi o Francisco, ainda na tarde do dia em que voltei, ele estava chegando da rua com o Raimundo, os dois carregando uma enorme tina de água sobre uma prancha de madeira adaptada com varais que eram apoiados sobre os ombros.

Estavam voltando da Fonte Nova, onde, duas ou três vezes por semana, buscavam a água de beber e de fazer comida. A água de gasto, como a de banho, por exemplo, era entregue diariamente em lombo de burro por um dos muitos aguadeiros que circulavam pela cidade, pelo menos até a construção do poço, alguns meses depois.

O Francisco estava com o tronco nu; tinha tirado a camisa que usava nas dependências do solar e feito com ela uma espécie de almofada para proteger o ombro do contato com a madeira. Antes de olhar para o rosto dele, parecia que eu estava vendo o Lourenço, com os músculos dançando embaixo da pele suada.

Eu estava sentada na porta da cozinha debulhando milho quando eles pararam na minha frente, e a Esméria pediu que eu desse licença para que passassem com a tina de água para dentro da despensa. Ela teve que repetir o pedido, enquanto os dois fizeram respeitosamente um cumprimento com a cabeça na minha direção. A Esméria me apresentou como a mãe do Banjokô, que estava voltando para trabalhar na casa. Ao ouvir o nome do meu filho, o Francisco Perdeu a timidez e abriu um sorriso largo, como se ser a mãe do Banjokô já nos fizesse amigos.

Depois eu percebi o porquê, a grande amizade que existia entre os dois. Mal via o Francisco ou ouvia a sua voz, o Banjokô se assanhava dizendo em uma língua que só os dois entendiam qual a brincadeira que iam fazer. A preferida era de cavalo, e o Francisco ficava engatinhando pelo chão, com o meu filho montado nas

costas, batendo com os pezinhos na cintura dele, quando queria que ele andasse mais rápido, e usando como arreio um pedaço de pano, que o moço prendia entre os dentes. Aliás, os dentes eram das coisas que o Francisco tinha de mais bonitas. Lábios carnudos mas exagerados, e uma fileira de dentes muito brancos e muito certinhos, como se tivessem sido talhados um a um por um grande artista. Eu gostava de ver o Francisco sorrindo, principalmente quando sorria junto com o Banjokô.

Além do serviço da água e de manutenção e conservação do solar, eram o Francisco e o Raimundo que carregavam a liteira que a sinhá tinha acabado de comprar. Ela a usava sempre que saía, levando a Antônia como mucama caminhando logo atrás. A liteira era uma peça muito bonita e tinha sido feita sob encomenda para a sinhá, que, quando estava em casa, a guardava no vestíbulo, içada por cordas e roldanas, pendurada no teto quase sobre o console.

Na maioria das casas, as liteiras ou as cadeirinhas de arruar eram guardadas assim, mas a da sinhá merecia o lugar de destaque, pois era quase um enfeite. Na casa dos Clegg não era desse jeito, pois eles tinham um cômodo que o José da Costa chamava de quarto da cavalariça, pelo qual era o responsável, onde ficavam duas liteiras e uma carruagem que eram puxadas por cavalos, estes sim conduzidos por um escravo. Durante todo o tempo em que estive lá, a carruagem não saiu do lugar, e iguais àquela deveria haver muitas outras escondidas nas casas, fabricadas no estrangeiro e impossibilitadas de andarem pelas ruas de São Salvador.

As ruas eram muito esburacadas, o que causava grande desconforto aos ocupantes das carruagens, jogados de um lado para outro. Algumas ruas ainda eram tão estreitas e cheias de curvas e esquinas que muitas vezes não davam espaço suficiente para as carruagens, causando tantas preocupações que nem compensava

tirá-las de casa. Usavam-se mais as cadeirinhas de arruar ou as liteiras pequenas, como a da sinhá, carregadas por pretos, e raramente puxadas por animais. Para as viagens ficavam reservadas as seges e as liteiras maiores, com espaço para duas ou até quatro pessoas, que podiam ser movidas tanto por pretos quanto por animais, dependendo da distância, do peso e da quantidade de viajantes. As maiores eram carregadas por mais de oito pretos, e não era raro se ver pelas estradas, ou até mesmo em algumas ruas, um cortejo formado pelas mucamas e por uma parelha de pretos sobressalente para dar folga a que se cansava.

Eu estranhei bastante ter que voltar a dormir no porão úmido e malcheiroso depois de ter me acostumado às baias individuais e frescas do solar dos Clegg, sempre cheirando a mar e limpeza. E só não foi pior por causa do Francisco que passei o resto do primeiro dia sem ver novamente. Mas à noite, quando nos recolhemos, minha esteira ficou quase de frente para a dele, e mesmo de longe, eu podia sentir a sua presença. Não era o cheiro de suor, do qual eu já tinha até me desacostumado, mas alguma coisa que eu nunca tinha sentido nem pelo Lourenço.

Eu fechava os olhos e tentava me lembrar do rosto e do corpo do Francisco, e era como se em um instante ele chegasse para perto de mim, a ponto de ouvi-lo respirar.

Dormi pedindo para sonhar com a minha avó, com a minha mãe ou com a Taiwo, porque sempre que alguma coisa boa estava para acontecer comigo, eu sonhava com o sorriso de alguma delas. Mas, quando acordei na manhã seguinte, não me lembrei de sonho algum, apenas de que precisava dar um jeito de ir novamente até o sítio do Babalaô Gumfiditimi para buscar meus orixás.

O Francisco

O Francisco e o Raimundo eram peuls (Peul: etnia africana) e quase não falavam português. Tinham sido escolhidos pela própria sinhá Ana Felipa, havia menos de dois meses, no mesmo mercado onde eu tinha sido comprada. Estranhei terem se conformado tão depressa com a situação de escravos, mas logo o Sebastião disse que eram dois dissimulados, que tinham entendido que não adiantava tentarem nada sozinhos, pois acabariam sendo pegos e castigados. Na cidade, os escravos eram castigados pela polícia ou por pessoas que tinham por profissão dar corretivos em pretos, geralmente em praça pública, nos pelourinhos.

Quando o crime cometido era mais grave, eles eram mandados para as galés, (Galés: assim eram chamados os navios-prisão). cumprindo longas penas dentro de navios parados ao longo da costa, ou mesmo nos fortes, já que a cadeia pública era bastante precária e pequena.

Nela ficavam apenas os que estavam esperando a definição do castigo ou o cumprimento das penas de açoite, ou então aqueles cujos donos apelavam das sentenças, achando que estavam sendo prejudicados por não poderem usufruir dos seus bens, no caso, os escravos. Os condenados por crimes muito graves eram deportados, a não ser que recebessem perdão vindo da Corte. Percebi que o Sebastião estava muito bem informado sobre isso, e ele me disse que em uma próxima oportunidade me contaria tudo, que tinha relação com aquela noite em que eu o tinha visto, do lado de fora da casa, junto com o Francisco e o Raimundo.

E até mesmo com a minha prisão, pois se sentia um pouco responsável por ela. Perguntei se o Tico e o Hilário, ou alguém mais da casa, compartilhavam aqueles segredos, e ele respondeu que não, que eu seria a primeira.

Foi bom imaginar que eu ficaria sabendo de um segredo

que o Francisco também sabia; isso nos tornaria cúmplices em alguma coisa muito importante, que, pela expressão grave no rosto do Sebastião, eu já imaginava o que poderia ser. Nós nunca tínhamos conversado sozinhos, mas sempre nos olhávamos pela casa, até o dia em que resolvi abordá-lo; falando em iorubá, mais provável de ele entender do que o português. Foi uns dois dias depois daquela conversa com o Sebastião, logo que nos recolhemos para dormir.

Cheguei perto do Francisco e disse que ele tinha ficado bonito vestindo a farda de sair com a sinhá. Chamava-se libré aquele tipo de roupa, que fazia com que ele ficasse parecendo um fidalgo, com o casacão azul-marinho enfeitado com galões dourados, enchimento nos ombros, comprimento até abaixo dos joelhos e, atrás, um rabo parecido com o de um passarinho chamado tesourinha, que tinha esse nome exatamente por ter o rabo terminando em duas pontas, como uma tesoura. A libré era fechada na frente por dois botões dourados, na altura da barriga, e era usada sobre uma camisa branca com um laço no pescoço. As calças eram justas e do mesmo tecido da libré, um pouco abaixo dos joelhos, sendo que o resto das pernas era coberto por meias brancas, enfiadas dentro de sapatilhas pretas de bicos afunilados, enormes, presas com um elástico que atravessava o peito do pé. Eu disse ao Francisco que ele ficava bonito vestido daquele jeito e ele não respondeu, apenas sorriu, abaixando a cabeça, envergonhado.

Ele e o Raimundo, com suas librés, carregavam a nova liteira da sinhá, que era quase um móvel de tão bonita.

Era parecida com duas cadeirinhas colocadas uma de frente para a outra, com chão de madeira, assim como as armações laterais que subiam até o teto fazendo graciosas curvas, como se fossem troncos vivos e flexíveis, e não apenas madeira morta. Estas armações serviam de moldura para o teto de couro e para as partes da frente e de trás, completamente fechadas, que

no interior da liteira sustentavam dois banquinhos com assentos almofadados de carmesim.

O mesmo carmesim era usado nas cortinas das janelas, que, na verdade, não eram bem janelas, apenas envidraçados, que ocupavam boa parte das duas portinholas, uma de cada lado. O vidro era discreto, e nele estava desenhado, de um lado e do outro, o monograma da sinhá, A-F-D-A-A-C-G, em letras entrelaçadas no meio de um emaranhado de flores que formavam um desenho oval. Quando carregada, a liteira era erguida a pouco mais de dois palmos do chão, diferente da cadeirinha, que era elevada a uma altura perigosa, que ia do chão até o ombro dos pretos carregadores. Na liteira, os cambões que ficavam apoiados sobre os ombros eram presos quase na altura do teto, e não no assoalho.

Formava um bonito conjunto, a liteira transportada pelo Francisco e o Raimundo, acompanhada de perto pela Antônia, cada vez mais coberta de jóias e roupas de seda, que nada ficavam a dever a algumas sinhás. Era assim que eles saíam para a rua, quando eu sentia falta da presença do Francisco, mas podia brincar à vontade com o Banjokô, sem ser vigiada de perto pela sinhá Ana Felipa e sem ter que ficar ouvindo a todo momento que determinada brincadeira não era adequada para o menino.

A Esméria disse para tomarmos cuidado quando percebeu que eu e o Francisco andávamos conversando pelos cantos. Na maioria das vezes era coisa à toa, e eu aproveitava para ensinar a ele algumas palavras em português e contar o que já sabia sobre a cidade. Era bom estar com ele, embora na maior parte do tempo somente eu falasse e ele escutasse, sorrindo. Mas era o sorriso que eu gostava de ver, e então tentava me lembrar de coisas engraçadas, de histórias da época da fazenda e da casa dos Clegg, ou então de Savalu e Uidá,

e também dos alôs da Nega Florinda.

Uma noite, eu estava lendo um trecho do livro do padre Vieira, que a Esméria tinha guardado para mim, e ele ficou segurando a minha mão, soltando somente quando eu precisava virar as páginas. Percebendo que eu sempre molhava o dedo para folhear o livro, o Francisco começou a levar a minha mão até a boca dele. Foi como se um arrepio tivesse partido da boca dele, passado para o meu dedo e percorrido todo o meu corpo, rápido como um rio em época de cheia. Acho que foi ali que começamos a namorar, mas o primeiro beijo foi dado no domingo seguinte, à noite, depois que ele, o Raimundo e o Sebastião voltaram de mais uma daquelas saídas misteriosas.

Eu tinha ficado em casa e aproveitei para fazer alguns cookies para a sinhá experimentar com o chá que tomava à tarde, na varanda, junto com o padre notório.

Eles elogiaram bastante, achando que era receita da Esméria ou da das Graças, mas quando a sinhá soube que tinham sido preparados por mim, disse que estavam pesados, que não tinham a leveza dos que ela estava acostumada a comer. Eu disse que era por causa da farinha, que na casa dos ingleses usavam farinha de melhor qualidade, mais fina e clara, e foi o que bastou para ela me chamar de insolente e me pôr de castigo até o dia seguinte. Enquanto ela gritava comigo, o Banjokô, que estava no meu colo, começou a chorar se agarrando a mim como se o ofendido fosse ele, o que fez com que ela ficasse mais brava ainda.

Deixei-o chorando ao lado dela, brincando com a Esméria, e corri para o porão. Algum tempo depois chegaram o Sebastião, o Raimundo e o Francisco, que preferiu não se juntar aos outros em volta do balaio de laranjas e foi ter comigo no porão quando soube que eu estava de castigo. Assim que entrou, senti vontade de abraçá-lo, e ele parecia ter o mesmo pensamento, tanto

que se sentou ao meu lado e passou o braço pelo meu ombro, puxando o meu corpo para junto do dele. Não havia melhor lugar para ficar do que encostada ao peito do Francisco, mas aquela felicidade não durou muito tempo, porque logo a sinhá mandou chamá-lo para que, junto com o Raimundo, levasse o padre Notório até em casa.

Antes de partir ele me beijou. Um beijo rápido, quase que só encostando os lábios, mas que me deixou com muita vontade de repetir. Sem pensar duas vezes se deveria ou não fazer aquilo, peguei a esteira dele, do outro lado do porão, e a levei para junto da minha. Ele nada disse ao voltar, noite fechada, quando todos já tinham se recolhido e conversavam preguiçosamente, cada qual em sua esteira. Apenas se deitou ao meu lado e me abraçou, dando outro beijo que durou até que adormecêssemos.

A disputa

Nos dias seguintes, não perdíamos uma única oportunidade de trocar pelo menos um beijo rápido pela casa, sem nos importarmos com quem estivesse por perto, contanto que não fosse a sinhá. Os outros eram cúmplices e tratavam de fazer algum barulho caso pressentissem perigo. O Sebastião olhava para nós dois e sorria, a Antônia e a Maria das Graças diziam que formávamos um belo par, e só a Esméria, apesar de aprovar o namoro, nos repreendia para que não trocássemos beijos dentro da casa, somente no porão.

Até mesmo o Banjokô já tinha presenciado nossos beijos e, como já estava andando pela casa i, sempre que podia estava perto de um de nós dois, como quem não entendia nada do que estava acontecendo.

Soltava deliciosas gargalhadas sempre que nos beijávamos na frente dele. e em um daqueles momentos, para continuar fazendo-o sorrir, começamos a nos beijar

sem parar, com ele rindo cada vez mais alto, o que acabou chamando a atenção da sinhá. Tenho quase certeza que ela viu o beijo na cozinha, pois foi logo entrando e perguntando ao Banjokô, ou melhor, ao José, como o chamava, por que estava rindo tanto. Ela parou no meio da frase, enquanto eu e o Francisco tentávamos disfarçar. Depois de nos chicotear com os olhos, pegou o menino no colo e o levou da cozinha. Ainda se voltou e deu ordem ao Francisco para que subisse no telhado e desse uma olhada, porque estava ouvindo barulho de ratos andando sobre o forro do quarto durante a noite.

A partir daquele dia ela passou a nos vigiar, e ficava sempre mandando o Francisco fazer alguma coisa, e também começou a sair de casa com mais freqüência.

Perguntei ao Francisco aonde a levavam e ele disse que, na maioria das vezes, à igreja, mas em muitas ocasiões ela parecia inventar alguma coisa para fazer quando já estava na rua, dizendo a eles que só seguissem em frente, sem dizer para onde. Disse também que já tinha acontecido de ela mandar voltar para casa sem nem mesmo ter parado a liteira. Pelo menos para mim, estava claro que ela queria me afastar do Francisco, e comecei também a observar que olhava para ele com o mesmo olhar que colocava sobre o Lourenço, quando ele trabalhava nos jardins da fazenda. Não demorou para que mandasse o Francisco e o Raimundo fazerem canteiros de verduras e legumes, e ficava por perto dando palpites mesmo sem entender nada daquilo, só para ver os dois trabalhando, ou, sendo mais exata, para ver o Francisco trabalhando. O Raimundo também era um rapaz simpático, mas tinha um ligeiro peito de pombo e era menos corpulento, apesar de ter a mesma altura que o Francisco.

Com um olho ela o vigiava, sempre vestida com roupas muito melhores do que as que normalmente vestia para ficar em casa, toda caprichada nos decotes e perfumada.

Dava para perceber que o Francisco se sentia

intimidado, respondendo às perguntas e acatando as ordens sem tirar os olhos do chão, a não ser quando ela esbravejava que não entendia o que ele falava se não olhasse para ela. Perguntei se já tinha percebido o jeito dela e ele respondeu que sim, que não gostava de mulheres brancas. A sinhá percebia o desinteresse dele e descontava em mim a raiva, agravada pelo fato de o Banjokô estar cada dia mais aPegado a mim, tendo passado a me chamar de lyd mi, minha mãe. Assim mesmo, em iorubá, como tinha aprendido com o papagaio de África que ficava na sala de almoço. Ele gostava muito de ouvir o papagaio e repetir o que ele falava. A sinhá se enfurecia, mas com o Banjokô sempre acabava amolecendo, principalmente quando ele também a chamava de lyà mi dindii minha mãe madrinha.

Não sei se deveria contar tudo, mas já que até agora não omiti nada, devo dizer que me deitei com o Francisco em uma manhã de domingo, bem cedo, quando todos aproveitavam para dormir até mais tarde. No sábado à noite, ele tinha dito que naquele domingo queria ficar comigo, que não acompanharia a saída do Sebastião e do Raimundo. Quando acordamos, começamos a nos beijar e ficamos excitados, sendo que ele já tinha acordado assim, apertando o membro duro de encontro às minhas pernas.

Perguntou se eu o queria e respondi que sim, mas não ali, no meio dos outros. Então ele me pegou no colo e atravessamos a cerca de limoeiros, tomamos o rumo do vale que ficava nos fundos da casa e descemos até uma distância segura, onde não podíamos ser vistos ou ouvidos. Ele olhou ao redor procurando algum lugar com mata fofa para nos deitarmos, e disse para eu esperar que já voltava, pois ia até o porão pegar uma das nossas esteiras. O Francisco já devia ter se deitado com muitas mulheres, pois sabia exatamente o que fazer, enquanto eu ficava quieta, esperando o próximo movimento dele,

para logo em seguida retribuir.

Primeiro ele beijou todo o meu rosto como se fosse um passarinho beija-flor, com beijos curtos e carinhosos, que logo depois desceram pelo pescoço e me arrepiaram inteira, aumentando a minha vontade de senti-lo entre as pernas. Tirou a minha bata e fez o mesmo com meus peitos, beijando um enquanto prendia o bico do outro entre os dedos, dando pequenos beliscões. Beijou a minha barriga e então puxou a saia pelos pés, dizendo que eu era toda linda, que tinha um corpo muito bem-feito.

Foi ele quem me fez voltar a reparar no meu corpo, que de fato, e sem me fazer favor, era bastante bonito, com os peitos médios e ainda de pé, apesar de terem alimentado o Banjokô. A barriga tinha voltado a ser o que era antes e a cintura continuava fina, em contraste com as ancas largas e as pernas grossas. O Francisco beijava as minhas pernas e, com uma das mãos, brincava com minha racha, enquanto a outra desamarrava o cordão da própria calça. Ele tinha um membro enorme, o maior de todos que conheci, e disse não estar agüentando mais. Ajoelhou-se entre as minhas pernas, dobrando meus joelhos, arrumou o membro na entrada da racha e se inclinou para a frente, procurando minha boca. Devagar, o membro dele foi deslizando para dentro de mim. Eu não sentia dor, mas era como se ele estivesse abrindo um caminho que tinha se fechado, com movimentos de avanço e recuo, até que os nossos corpos ficaram completamente colados um no outro. Foi muito bom, mas não tive tempo de sentir prazer, pois o Francisco rapidamente se acabou dentro de mim, erguendo o tronco apoiado sobre os dois braços e gemendo feito um animalzinho abatido.

Ele então largou o corpo sobre o meu e se deixou ficar enquanto fazia carinho na minha cabeça, até que eu não agüentei mais e comecei a chorar. Um choro contido

havia meses, talvez anos, eu já nem me lembrava mais.

Acho que meu último choro tinha sido no nascimento do Banjokô. O Francisco se assustou e me pediu desculpas, dizendo que gostava muito de mim, que me desejava muito e não queria ter me machucado.

Eu disse que o choro não era por causa disso, pois eu tinha gostado, mas que também tinha passado o tempo todo tentando afastar certas lembranças que preferia já ter apagado da memória. Foi então que contei como o Banjokô tinha sido gerado, e ele me abraçava mais e mais forte enquanto eu falava, como se o abraço daquela hora fosse capaz de me proteger dos males do passado.

Quando terminei, ele disse que aquele seria um dia especial e não deixaria que minhas lembranças tristes estragassem tudo, que íamos dar um passeio e esquecer o que tinha sido ruim. Passamos pelo solar e pedimos à Esméria que de vez em quando desse uma olhada no Banjokô, que já devia estar acordado no quarto dele, e avisamos que estávamos saindo para dar uma volta. Ela disse que seria melhor mesmo, que o nosso namoro era menos arriscado fora do solar. Na verdade, eu preferia ter levado o meu filho, pois tínhamos saído juntos uma única vez, no dia da cerimônia do nome.

Com ele mais crescido seria diferente, eu poderia mostrar as pessoas, os lugares, e conversar sobre tudo o que víamos, já que ele estava ficando cada dia mais tagarela. Mas não havia a mínima possibilidade de tirá-lo de casa sem o consentimento da sinhá, sua dona e madrinha, e fomos somente eu e o Francisco. No fim da tarde, voltamos famintos e cansados, e fui brincar um pouco com o meu filho e dar a ele um queimado (Queimado: bala), que o Francisco tinha roubado do tabuleiro de uma preta, perto do Terreiro de Jesus, enquanto eu a distraía perguntando onde era a fonte mais próxima. Rimos e conversamos muito andando pela cidade, às vezes de mãos dadas, e passamos um bom tempo sentados no alto da escarpa que descia por trás

do Palácio do Governo.

De vez em quando um guarda aparecia, ficava vigiando durante alguns minutos, e, como via que estávamos apenas conversando e observando o mar, as ilhas, a baía tranqüila tomando sol, desaparecia, dando a volta no muro dos fundos da construção.

Foi lá que o Francisco me revelou os segredos que tinha com o Sebastião. Contou que logo que ele e o Raimundo foram comprados pela sinhá, estavam tramando matá-la, pegar tudo que ela tinha de valor e vender para comprar dois lugares em algum navio que os levasse de volta à África. Já tinham tudo planejado quando o Sebastião ouviu a conversa e disse que nada daquilo valeria a pena, que não daria certo, que naquele país quem fizesse qualquer coisa contra os brancos logo sofria outra pior, e que eles seriam descobertos e pegos antes de arrumarem um navio que aceitasse levá-los, mesmo pagando.

O Sebastião tinha dito também que de nada adiantavam atitudes isoladas como as que os dois estavam pensando em tomar, e que se quisessem mesmo voltar a ser donos de suas vidas, desistissem de tudo aquilo e fossem com ele a um lugar que costumava freqüentar. Eles concordaram e saíram com o Sebastião na noite seguinte, quando foram até a Ladeira do Taboão, a uma casa onde moravam apenas pretos, forros ou escravos que tinham obtido de seus donos a licença para trabalhar no que bem quisessem. Eu quis saber mais sobre aquilo, sobre os pretos que trabalhavam no que bem quisessem, mas o Francisco me aconselhou a perguntar ao Sebastião. Eles, mais os outros que saíam escondidos das casas de seus donos, como era o caso do Francisco, do Raimundo e do Sebastião, se reuniam para conversar sobre vários assuntos.

Todas as pessoas que participavam da reunião levavam a

sério o problema dos escravos em geral, e pensavam não apenas em conseguir a própria liberdade, mas a de todos, sabendo que mais valia a inteligência do que a força. Mesmo porque inteligência era algo que os senhores de escravos não imaginavam que fôssemos capazes de possuir. Uma vez por semana também participava um mulato claro, bacharel em Direito, que ajudava nos assuntos mais complicados e dava andamento a processos de obtenção das cartas de alforria, nos casos em que os donos não queriam colaborar.

Ou ainda nos casos em que escravos que tinham suas alforrias apalavradas, tendo pago por elas ou recebido em merecimento, não eram de fato libertados por seus donos ou pelos herdeiros deles, em caso de morte. Todos contribuíam para um fundo de reserva; os que tinham atividade remunerada davam dinheiro, e os que não tinham prestavam trabalho nos dias de folga e de guarda. O Sebastião estava ensinando ao Francisco e ao Raimundo o ofício de carpinteiro, e fabricavam bancos e cadeiras que os pretos forros vendiam no comércio da cidade baixa. O dinheiro arrecadado beneficiava todo mundo; um a um, eles tinham suas cartas de alforria compradas pela cooperativa, que os libertava em troca de continuarem contribuindo depois de livres.Fiquei maravilhada com aquela idéia e querendo saber como eu também podia participar, para um dia obter a minha liberdade e a do Banjokô.

Eu quis participar de imediato, mas teria que esperar uma vaga. Esperar até que algum dos participantes comprasse a carta, ou morresse, ou desistisse, ou conseguisse a liberdade por outros meios, pois eles só podiam dar assistência a um certo número de escravos.

Mas o Sebastião disse que existiam muitas cooperativas e algumas não tinham número limitado de inscritos; que procuraria saber sobre elas e depois me diria. Os dias seguintes foram de expectativa, de espera e de muita

alegria, aproveitando todas as oportunidades para me deitar com o Francisco, o que estava ficando cada vez melhor.

Todas as manhãs, menos nos dias em que eu estava com as regras, a Esméria me dava uma beberagem para evitar filhos, tendo dito que, se falhasse, se eu sentisse que estava pejada porque as regras não vinham ou por qualquer outro motivo ou pressentimento, era para falar imediatamente com ela. Das muitas vezes em que nos entregamos pela casa, a sinhá Ana Felipa nos flagrou em duas, sempre quando acabávamos de nos vestir, sendo que uma delas foi no fundo do quintal e a outra na despensa. Ela nunca ia a esses lugares, o que comprovava a minha suspeita de que nos seguia quase o tempo todo, ficava olhando enquanto nos deitávamos e só então aparecia, para justificar a raiva. Raiva que nunca atingia o Francisco, só a mim, a quem ela chamava de negrinha sem vergonha e imunda, várias vezes na frente do Banjokô.

Eu sabia que estava errada, que deveria tentar resistir ao Francisco durante o trabalho e nas situações em que pudéssemos ser vistos, mas esquecia tudo isso quando chegávamos perto um do outro. Mas para falar a verdade, eu até me lembrava sim, mas ficava com muito mais vontade de ter o Francisco quando também me lembrava de que ela o queria, de que ela poderia estar nos observando de algum lugar. E não foi só uma vez que pedi ao Francisco que me chamasse de "minha sinhá" e, combinada com ele e me fingindo de sinhá, perguntava se ele gostava de mim e ele dizia que não, que o coração dele era todo da Kehinde, assim mesmo, com nome africano e tudo o mais, que adorava a cor da Kehinde. Aquilo me dava imenso prazer.

A trégua

A situação começou a ficar insustentável dentro de casa,

com a sinhá criticando tudo que eu fazia, me obrigando a cozinhar pratos de que não gostava para depois me chamar à mesa onde era servida e jogar a comida toda em cima de mim, dizendo que aquilo era lavagem e que lavagem se dava aos porcos. Ela também passou a castigar o Banjokô cada vez que ele se aproximava de mim dizendo que se ele quisesse ficar comigo, não o levaria mais para passear, não deixaria que conversasse com o papagaio e nem que ficasse na sala enquanto ela tocava piano.

Para que ele não se sentisse dividido, eu mesma comecei a evitá-lo e, para me vingar dela, cuspia em todos os pratos que a Esméria ou a Maria das Graças preparavam, e não perdia uma única oportunidade de provocar o Francisco na frente dela. Ela fazia de tudo para ser notada, mas ele só olhava para ela quando era mandado, enquanto que, para mim, bastava eu passar na frente dele rebolando do jeito que ele dizia gostar. Ou então deixar que a bata escorregasse de um dos ombros, quase mostrando o peito, que ele se assanhava todo. Ele e o membro dele, que logo se manifestava por baixo da calça folgada de algodão usada para os trabalhos em casa, o que fazia os olhos da sinhá ficarem ainda mais gulosos.

Foi a Esméria quem primeiro percebeu que não nos suportaríamos por muito tempo, e achou que tinha que tomar providências. Eu nunca entendi por que a sinhá não me vendia, talvez no fundo gostasse de mim, ou apenas gostasse de me provocar, como eu gostava de enfrentá-la. Mas a solução encontrada pela Esméria acalmou um pouco os ânimos, porque eu já via o momento de agarrá-la pelos cabelos, esquecendo que poderia ser a mais castigada se encostasse as mãos nela.

A Esméria sugeriu que eu fosse colocada na rua como escrava de ganho e ela concordou de imediato, imaginando que, comigo longe, seria mais fácil

conseguir a atenção do Francisco. Para mim foi uma boa solução, pois sabia que na rua teria possibilidade de ganhar dinheiro para comprar a minha liberdade e a do meu filho.

A sinhá Ana Felipa me colocou na rua, como escrava de ganho, a quase setecentos réis por semana, dinheiro que eu tinha que pagar a ela aos domingos. Como escrava de ganho, eu poderia sobreviver do que quisesse, poderia escolher meu trabalho, e ficaria com o dinheiro que ganhasse acima da quantia pedida por ela. Muitos escravos viviam nessas condições, exercendo as mais diferentes atividades, e muitos senhores viviam do dinheiro que eles levavam para casa. Principalmente senhoras viúvas, que não sabiam tocar a propriedade deixada pelo falecido e se desfaziam dos negócios mas conservavam os escravos, que colocavam na rua, a ganho.

Algumas, mais pobres, tinham apenas um escravo, que compravam com o fruto do trabalho de toda uma vida, para que ele a sustentasse na velhice. Outras, mesmo muito ricas, colocavam mucamas para vender doces ou salgados, disputando entre si quem tinha a mucama mais bonita ou mais bem-vestida, ou que sabia fazer o doce ou o quitute mais gostoso. Isso no caso das senhoras mais pudicas, porque outras obrigavam as escravas a fazerem a vida no meretrício. Tinham sorte quando elas não pegavam doença e morriam logo.

Muitas sinhás ganhavam um bom dinheiro com isso, com o serviço de pretas novas e bonitas, que eram logo trocadas por outras quando deixavam de render o esperado.

Recebi uma carta, que também chamavam de bilhete ou passe, em que a sinhá afirmava a quem pudesse interessar que eu tinha permissão para exercer atividade na rua a qualquer hora do dia, sendo que à noite deveria retornar para dormir em casa. Ela me deu

uma semana de crédito para eu arrumar o que fazer.

Não tinha a mínima idéia de como conseguir os duzentos e quarenta réis que teria que ganhar por dia, mas não estava assustada. Pelo contrário, já me imaginava ganhando muito mais do que isso e logo conseguindo a minha liberdade e a do Banjokô.

No primeiro dia, eu não sabia nem por onde começar, mas o Tico e o Hilário saíram comigo e me apresentaram a cidade, que eu também mal conhecia. A vida durante a semana era muito diferente da que acontecia aos domingos, quando tudo era bem mais calmo.

Continuar: parte 4 de 4