Um Defeito de Cor
Capítulo quatro
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Durante a semana a cidade parecia uma grande feira, muito maior que as maiores que eu havia Visto, com pessoas correndo de um lado para outro, apressadas, gritando quem queria comprar isso ou aquilo, se oferecendo para carregar qualquer coisa, perguntando quem precisava de cadeirinhas ou de algum outro serviço. Andamos pela cidade baixa, pelos trapiches e armazéns, pelas áreas onde se encontravam pessoas que realizavam o mesmo tipo de trabalho, como na Baixa dos Sapateiros. Havia também as ruas dos tapeceiros, dos barbeiros A alfaiates, dos trançadores de palha, dos marceneiros, e, andando por elas percebi que havia muito mais alternativas para os homens do que para as mulheres.
O trabalho mais comum entre as mulheres era o de vendedora, que andavam por toda a cidade equilibrando imensos tabuleiros na cabeça e vendiam os diversos tipos de doces e salgados, frutas, verduras, refrescos, e até aguardente. Havia vendedores homens também, mas em menor número e os tabuleiros de pratos quentes, como os de acará, eram só das mulheres. Estas ficavam em lugares fixos porque fritavam o bolinho na hora, em fogareiros improvisados, espalhando por todo lado o cheiro do dendê, que prontamente me levava à África.
O Tico e o Hilário, acostumados ao movimento das ruas, queriam me mostrar tudo e contar dos hábitos das vendedoras de comida, as ambulantes. Elas tinham certos horários para passar pelas ruas, e de manhã bem cedinho vendiam acaçá, munguzá, bolos e pães. Um pouco mais tarde apareciam com o almoço, geralmente peixe frito ou carne-de-sol, angu, feijão e farofa, sendo que as mulheres de etnia hauçá também vendiam o arroz de hauçá, feito com iscas de carne-de-sol frita, que era uma delícia. À tarde, o que tinha mais saída eram os refrescos, a água, os pães, os bolos e os doces, e à noite ainda podiam voltar a vender o que sobrava do almoço.
As que não vendiam comida pronta também podiam comerciar peixe, negociado de madrugada com os pescadores que acabavam de voltar do mar, ou carne verde, que iam buscar nos matadouros e vendiam em barracas ou pelas ruas, em balaios sangrentos que equilibravam sobre as cabeças. Havia também as aguadeiras, que ficavam nas fontes públicas enchendo as vasilhas transportadas pelos homens ou por mulas conduzidas por homens. Eu nem pensei nos ofícios de lavadeira e engomadeira, que rendiam muito pouco, além de serem serviços que eu não sabia fazer, já que na fazenda esses trabalhos ficavam por conta das pretas da senzala grande, enquanto que no solar, para um número menor de pessoas, estavam nas mãos da Antônia e da Maria das Graças.
Pensei também que poderia arrumar emprego no comércio, já que sabia ler e escrever, o que era uma grande vantagem e relação aos outros pretos. Mas os comerciantes preferiam os mulatos aos pretos, achando que a mistura de sangue branco fazia deles pessoas mais capazes para os serviços que exigiam inteligência. E
sempre homens; acho que nunca vi mulheres atrás dos balcões ou cuidando dos livros de contas.
A cidade alta parecia um pouco mais organizada e com
melhores opções, e decidi que era por lá que queria ficar. Foi então que me lembrei da Adeola e fui procurá-la nas imediações da Santa Casa da Misericórdia, onde ela tinha um ponto de tabuleiro. Mesmo na cidade alta, lugar tido como mais seguro, policiado e organizado, a maior parte das pessoas pelas ruas era de pretos; os brancos quase não saíam de casa. Mulheres brancas, então, era como se não existissem, se não soubéssemos que iam todas dentro das cadeirinhas de arruar e das liteiras, protegidas por cortinas e janelas.
Do lado de fora reinávamos nós, as pretas e as mulatas, alegrando as vistas de homens de todas as cores, mesmo dos que não admitiam isso publicamente. A Adeola era uma linda crioula muito extrovertida, falante, na faixa dos trinta anos, com um sorriso largo que parecia não caber dentro da boca. Tinha peitos pequenos cobertos por uma blusa de tecido quase transparente, com pala de renda, e ancas enormes que não se escondiam sob a saia de chita estampada que vestia no dia em que a conheci. O pescoço e os braços estavam sempre enfeitados com voltas e mais voltas de contas coloridas, e o cabelo ficava escondido dentro de um turbante muito armado e engomado. Quando me aproximei, ela estava atendendo um freguês e não me reconheceu de pronto, mas não tive dúvida de que era ela. Eu me apresentei e contei a situação em que nos tínhamos conhecido e o motivo pelo qual estava procurando por ela, que foi muito simpática, dizendo que se lembrava de mim, mas que eu estava diferente.
Já tinha se passado mais de um ano, e acho que eu realmente estava muito mudada, e o que mais me incomodava eram os cabelos. Desde que tinham sido praticamente raspados na casa dos ingleses, e tive que conservá-los curtos durante o tempo que fiquei por lá, só naquele momento estavam crescendo novamente, sem jeito de arrumar. Mas acho que não era só disso que ela falava, pois antecipou em mim algumas mudanças que eu só viria a perceber mais tarde, quando me dei conta do que estava conseguindo fazer da minha vida.
Os ganhos
Estávamos no meio da tarde e a Adeola pediu que eu esperasse um pouco, pois ela logo deixaria o ponto e poderíamos conversar melhor. Depois de atender mais alguns fregueses, que, segundo ela, contavam encontrá-la por lá todos os dias, fregueses habituais, eu ajudei a apagar o fogareiro improvisado, a derramar o dendê já queimado em um buraco cavado no meio da rua, a desmontar a armação de tábuas que amparava o tabuleiro sobre o pé em xis e a colocar tudo isso sobre a cabeça dela, e seguimos em direção ao Pilar. Fomos conversando pelo caminho e eu soube que a Adeola morava em uma loja perto de Santo Antônio Além do Carmo, tinha nascido no Brasil, filha de pai africano e mãe crioula, e era liberta desde pequena.
Os pais tinham sido escravos de ganho de duas irmãs que moravam para os lados da freguesia da Barra, sendo que o pai era carregador de palanquim e a mãe, vendedora de acarás, cujo ponto foi herdado pela Adeola. Eu estava interessada na história dela, mas queria mesmo era saber para onde estávamos indo, andando por ruas de terra que desciam e subiam morros, passavam por áreas despovoadas e charcos imundos e fedorentos, para então pegarmos novamente ruas com casas de ambos os lados, passarmos por fortes, igrejas, conventos e imponentes edifícios ao lado de casinhas simples. Percebi o que tinha visto logo na primeira vez que estive em São Salvador, com a Nega Florinda, que em um determinado ponto a cidade parecia acabar, mas, se continuássemos andando, às vezes contornando um morro ou indo para a parte baixa ou a parte alta, dependendo de onde estivéssemos antes, a cidade ressurgia, com outros ares e outros jeitos, completamente diferentes dos anteriores.
Paramos em frente a uma construção grande mas simples, parecendo um caixote onde tinham sido feitos buracos em forma de janelas e porta, e a Adeola foi entrando sem bater. Achei que era a loja onde morava, principalmente porque, depois que atravessamos um imenso cômodo onde não havia nada além de um banco velho de palhinha desfiada, uma mesa pequena e duas cadeiras e um enorme crucifixo de madeira pendurado na parede ainda por pintar, entramos em uma cozinha onde trabalhavam várias pretas. Todas cumprimentaram a Adeola e ela me apresentou como uma amiga, colocando o tabuleiro sobre a mesa e me puxando pelo braço, dizendo que precisávamos conversar com a dona Maria Augusta.
Era uma senhora branca, magra e com um jeito muito triste, com os cabelos completamente brancos presos em um coque por uma rede preta, da mesma cor do vestido fechado e de comprimento até os pés, calçados com meias e sapatilhas pretas. A dona Maria Augusta estava e um cômodo minúsculo que dava a porta para a sala pela qual tínhamos entrado e, se comparado ao tamanho daquela sala e da cozinha, era de perder o ânimo.
A Adeola tinha batido de leve na porta, e uma voz tão pequena quanto a dona Augusta respondeu que podíamos entrar, para encontrá-la com o rosto enrugado virado na direção do terço que corria entre os dedos ossudos e tortos. Ela estava sentada em uma rede que, junto com um baú de madeira, eram as únicas mobílias do quartinho sem janelas, somente com um alçapão no alto da parede, sob o qual estava pendurada uma pintura da Santa Virgem Maria com o filho morto ao colo.
A Adeola esperou que ela interrompesse a reza e então perguntou se tinha lugar para mais uma, ao que a dona Maria Augusta, num falar cantado e para dentro da boca, respondeu que, por ela, já eram mais do que deveriam ser, mas que o padre Heinz não gostaria de
saber que tinha negado acolhida, que fosse o que Deus e o Sagrado Coração Misericordioso de Maria quisessem.
A Adeola agradeceu e fechou a porta, com uma felicidade que também me contagiou, embora até o momento eu não soubesse o motivo.
O padre Heinz era o dono daquela casa, e a dona Maria Augusta tinha saído com ele da Europa, havia muitos anos, quando tinha sido prometida a ele uma paróquia naquela região que estava começando a se desenvolver.
Mas as obras que estavam sendo feitas com dinheiro enviado do exterior foram interrompidas bem no início, pois logo muitas pessoas começaram a reclamar, inclusive os religiosos de São Salvador e os principais comerciantes e donos de escravos da região. O que aconteceu foi que o padre Heinz, antes mesmo de a igreja sair dos alicerces, já fazia pregações falando de igualdade e liberdade, avisando que os pretos também seriam bem recebidos naquela casa de Deus.
Foi o que bastou para que a fonte do dinheiro secasse, com a desculpa de que o ajudatório seria mais bem administrado pela cúria, e a igreja nunca deixou de ser apenas um sonho, como também o eram as pregações do padre. Tempos depois, uma igreja foi construída perto dali, mas dada a um padre que não via com bons olhos os pretos, a quem chamava de hereges, mesmo que fossem convertidos de coração e não apenas de batismo, e aceitava de bom grado as doações dos ricos senhores para que continuasse agindo assim.
Com economias Próprias e a ajuda de pretos escravos e libertos, o padre Heinz tinha construído a casa na qual morava, mas quase sempre a deixava aos cuidados da dona Augusta, e viajava para sítios vizinhos ou até mesmo distantes, levando as palavras de um Deus justo e bondoso. Todas as pretas que estavam na casa e muitas outras que apareciam em dias e horários alternados, usavam o espaço para fazer bolos, doces,
pães e refeições que vendiam nas ruas, pagando ao padre e à dona Maria Augusta o que pudessem, quando pudessem, e se pudessem.
As idéias Voltei ao solar já tarde da noite, depois de ter me perdido pelo caminho várias vezes e de ter sentido muito medo de ser pega pela polícia por estar na rua àquela hora sem que o meu bilhete permitisse. Preocupada, a Esméria já tinha mandado o Tico e o Hilário atrás de mim. Os dois voltaram horas mais tarde quando estávamos no porão bebendo um pouco de alua que o Sebastião tinha conseguido e comemorando a minha sorte, ou a minha estrela, como diziam.
A Antônia disse que estava muito feliz e que antes tinha até mesmo repreendido a Esméria, achando que não ia dar certo o que ela tinha tomado a iniciativa de propor à sinhá. Mas reconhecia que a Esméria sabia muito bem o que estava fazendo, por me conhecer melhor do que ninguém e não ter sugerido o meu afastamento dos trabalhos da casa só por causa do conflito com a sinhá, mas também por saber que na rua eu teria mais chances de conseguir a liberdade e de viver a vida que eu sempre quis viver.
Não só eu, mas todos eles, sem terem conseguido. O
medo da Antônia tinha fundamento por vários motivos, sendo que o primeiro deles era que, depois que um escravo ia para as ruas, quase ninguém o queria para trabalhos de casa, porque achava que os vícios e as malandragens adquiridos na rua não eram desejáveis em escravos que tinham contato direto com os senhores, vivendo debaixo do mesmo teto.
Como o que acontecia em relação aos escravos de senzala pequena e senzala grande, só que na cidade isso era em maiores proporções. E também porque a
sobrevivência nas ruas não era das mais fáceis, embora fosse para onde todos queriam ir, imaginando que ganhariam muito dinheiro e logo estariam libertos. Na verdade, como a Adeola contou, havia uma série de regras a seguir e a vida valia bem pouco, menos ainda quando ameaçava o bem-estar ou a sobrevivência outra vida, não importando a quem ela pertencesse. Mas acho que para certas coisas tenho mesmo uma grande estrela, e das mais brilhantes, porque pouquíssimas vezes tive problemas com outros pretos.
Com alguns crioulos, sim, pois eles se achavam superiores e mais donos da terra e de suas oportunidades do que nós, os africanos, o que de certa forma foi amenizado pela minha amizade com a Adeola.
Depois de me terem visto andando com ela nos primeiros dias, acredito que me aceitaram um pouco melhor, porque eu já tinha a aprovação de um deles.
Na manhã seguinte, fiquei com o Francisco no porão até que a sinhá desse falta dele e mandasse o Raimundo chamá-lo. Depois ela foi perguntar à Esméria onde eu estava, e recebeu a resposta de que eu tinha saído cedo, à procura de trabalho. Saí às escondidas enquanto ela almoçava e fui encontrar a Adeola, com quem passei a tarde. Eu pensava que poderia vender o que quisesse onde bem entendesse, mas ela disse que não era bem assim, que alguns pontos já tinham donos, como era o caso do ponto dela, e todos respeitavam isso em nome de uma boa convivência.
Disse ainda que, se eu quisesse ponto fixo, deveria procurar um lugar onde não atrapalhasse as vendas de alguém que já estivesse por lá, e que também deveria tentar ser amiga de todos que trabalhavam por perto, para a minha segurança e como um meio de fazer com que meu negócio desse certo, já que os amigos costumavam se ajudar. Fui dar outra volta pela cidade alta, pensando no lugar onde poderia me estabelecer e o
que vender, pois não estava muito convencida da sugestão da Esméria, que dizia que meu bolo de laranja era o melhor que já tinha comido, melhor mesmo que o dela, que tinha me ensinado a receita. Foi então que avistei o José da Costa saindo de um escritório no Terreiro de Jesus e me lembrei dos ingleses e dos cookies que eu tinha aprendido a fazer na casa deles, com a receita estrangeira que a Missis Clegg disse estar na família dela havia muitas gerações. Os cookies eram gostosos, fáceis de fazer, e eu não estaria tirando a freguesia de ninguém, já que ninguém vendia cookies pelas ruas, e nem eram muitas as pessoas que sabiam fazê-los, o que aumentava a possibilidade de ter mais fregueses.
Ainda tinha guardado o dinheiro dado ao Banjokô no dia da cerimônia do nome, que não era muito, mas que, juntando com mais algum que a Esméria emprestou, usei para comprar os primeiros ingredientes, o que fiz com a ajuda do Sebastião. Não deu para comprar muita coisa, apenas o suficiente para começar, e antes de terminar a semana que a sinhá tinha me dado de Crédito, conversei com a Adeola, e depois de desmontar o tabuleiro, ela voltou comigo a casa do padre Heinz, onde preparei a primeira fornada.
Foi decepcionante a reação das mulheres que estavam por lá cozinhando e às quais pedi que experimentassem.
Elas disseram que era gostoso, mas que os ingredientes eram caros e rendiam pouco, um tipo de comida que não matava a fome de ninguém e que ainda por cima era cara. Achei que tinham razão, mas estava animada com meus cookies e queria pelo menos tentar vendê-los, o que fiz no dia seguinte, ao lado do tabuleiro da Adeola.
Não vendi nada, e nem no outro dia, um domingo, quando a Adeola tinha dito que o movimento poderia ser um pouco melhor porque as pessoas saíam às ruas para se divertir e gastar o dinheiro que tinham ganhado durante a semana.
Um dos problemas era que ninguém conhecia cookies, as pessoas não sabiam o gosto que tinham e pediam para experimentar, levando nisto quase metade da minha produção. Gostavam, mas quando eu falava o preço, achavam caro e preferiam mesmo comprar outras coisas que realmente enchessem a barriga.
Na segunda-feira, por volta das seis horas da manhã, resolvi deixar a vergonha de lado e disputar fregueses no grito, como faziam os vendedores que não tinham ponto fixo. Achei que o Terreiro de Jesus seria um bom lugar, porque por lá passava um grande número de pessoas, não apenas os pretos, mas também os brancos e mulatos que trabalhavam nos escritórios e casas de comércio da região. Meu primeiro freguês foi um tipo estranho, um mulato claro de meia-idade, de modos muito empinados, usando chapéu alto, bengala encastoada e casaco preto muito bem passado. Eu já o tinha visto de longe um pouco mais cedo, vindo dos lados do Maciel, com as pessoas abrindo caminho para que passasse e os pretos parecendo fugir dele, que, de momento a momento, interpelava um preto para uma olhada nos documentos.
O homem ficou alguns segundos me olhando de longe, tirou e colocou o pincenez, mirou o relógio que tirou do bolso do paletó, rodou a bengala no ar e fez um aceno de cabeça na minha direção. Eu não tive certeza de que era comigo mesmo que ele queria falar e não atendi de imediato, continuando a pregação de "quem quer os legítimos cookies ingleses", emendando com um
"English cookies", para os que sabiam falar inglês. Ele então se aproximou e agarrou meu braço com a alça da bengala, quase derrubando o tabuleiro que eu levava na cabeça, falando que eu era uma negrinha que, além de estúpida, devia ser cega.
Enquanto falava comigo, o homem esticava o pescoço para enxergar melhor o que eu levava dentro do
tabuleiro, coberto com um pano limpo. Primeiro, pediu para ver meu bilhete, para saber se eu tinha permissão para estar ali àquela hora. Depois, perguntou de quem eu era escrava, e respondi ser da viúva do sinhô José Carlos de Almeida Carvalho Gama. Ele disse que já tinha ouvido falar naquele nome e perguntou se não era um dono de engenho em Itaparica, ao que eu respondi que sim. Ele pareceu feliz ao confirmar que, então, que pois sim, que já tinha ouvido falar no sinhô José Carlos quando estava na ilha, no engenho Armação de Bom Jesus, de propriedade do barão de Pirapuama, o homem mais importante da ilha e, se calhar, de toda a Bahia, um dos mais importantes do Brasil.
Era desse homem que ele, Amleto Ferreira, que estava ali na minha frente e que se dignava falar comigo, era desse homem, um barão, que ele era o único e fiel representante para cuidar de todos os negócios do escritório, enquanto o barão estava na ilha, se restabelecendo de uma moléstia. Achei interessante que ele passou vários minutos descrevendo a moléstia do tal barão, parecendo que aquilo lhe dava imenso gozo, acabei por achá-la bem parecida com a moléstia que tinha acometido o sinhô José Carlos. Eu nada dizia, pois ele dava a impressão de não estar se dirigindo a mim enquanto falava da sua importância em alto e bom som, mas a todos que passavam por perto, principalmente quando aparecia algum figurão ou alguém de pele mais clara que a dele.
Quando parou de falar, parecia cansado do esforço para impostar a voz, caprichar na pronúncia, fazer com que as palavras saíssem firmes e educadas, e só então levantou o pano que cobria o tabuleiro. Perguntou se eram mesmo legítimos cookies ingleses e eu disse que sim, que tinha aprendido a receita trabalhando para uns ingleses, os Clegg. Ele fez um muxoxo e disse que conhecia o importante inglês que também tinha negócios com o barão, negócios dos quais momentaneamente, e
talvez para sempre, era ele, Amleto Ferreira, quem estava cuidando.
Pegou um dos cookies, colocou novamente o pincenez para examiná-lo melhor e o enrolou em um lencinho que tirou do bolso interno do paletó. Quando ameacei abrir a boca para dizer o preço, ele mandou que eu me calasse, pois não tinha me perguntado nada; ia levar o cookie para experimentar e que eu estivesse ali no mesmo horário, na manhã seguinte, quando, se valesse a pena, falaria comigo. Completou dizendo que seria muito crítico, pois, para meu conhecimento, era filho de um inglês e estava bastante acostumado às receitas legítimas. Fiquei parada no meio da rua sem saber que atitude tomar, enquanto ele guardava novamente no bolso o lenço com o cookie e se dirigia a um dos sobrados do outro lado do Terreiro, ficando parado por segundos diante da porta. Quando o sino da Ordem Terceira de São Francisco dobrou seis e meia, tirou uma chave da algibeira e meteu-a na na primeira porta, que escancarou, e depois destravou e destrancou uma série de trancas e tramelas de uma segunda porta que dava para um corredor, entrou e fechou tudo atrás de si.
Fiquei com raiva dele e comecei a pensar se todos os brancos, o que não era o caso dele, fariam aquilo comigo, levar os cookies e não pagar. Como percebi que ele tinha entrado no mesmo prédio de onde tinha visto o José da Costa saindo no dia em que tive a idéia de vender cookies, fiquei com vontade de passar pelo solar dos Clegg e perguntar quem ele realmente era, se tinha mesmo aquela importância toda.
Mas ele ter parado para conversar comigo ajudou abrindo caminho para três brancos, que provavelmente tinham visto a minha primeira quase venda. Foi então que percebi que tinha acertado quanto ao local e ao horário, e que teria que arrumar um jeito de conseguir fregueses ricos, já que os pretos não tinham dinheiro
suficiente para comprar cookies. No fim da tarde vendi mais alguns, inclusive para um freguês da manhã, e antes de voltar para casa resolvi rondar o solar dos Clegg para falar com o José da Costa.
Fiquei esperando do lado de fora do solar, na rua, para ver se aparecia alguém, o que só aconteceu quando o Benguê saiu para acender os lampiões da varanda. Eu o chamei e ele ficou muito feliz ao me ver, dizendo que tinha sentido saudade das nossas conversas enquanto cuidávamos da louça, da prataria e dos tapetes. Eu também sentia, e ficamos conversando um pouco, depois do que ele foi chamar o José da Costa. Contei para os dois o que tinha me acontecido após deixar a casa, apenas os fatos, é claro, não os motivos, e eles me desejaram boa sorte, que eu conseguisse ganhar dinheiro para ser livre e até para voltar à África, se assim quisesse.
Quando perguntei ao José da Costa sobre o tal homem, o Amleto Ferreira, ele disse que não o conhecia muito bem, mas que o patrão dele, um barão, tinha alguns negócios de importação e exportação com a Inglaterra, e que já tinha inclusive aparecido no solar do Mister Clegg. O José da Costa conhecia um empregado dele, o preto liberto João Benigno, que morava no rés-do-chão, fundos, do sobrado onde funcionava o escritório; e que provavelmente tinha ido visitá-lo no dia em que foi visto por mim. Ele disse também que sabia pelo João Benigno que o tal barão estava muito doente e tinha ido para a Ilha de Itaparica para ver se os ares ajudavam na cura, deixando ordem para que, na falta dele, tudo fosse resolvido com o senhor Amleto. Quanto à procedência inglesa, ele nada sabia.
Os amigos
A idéia do Francisco foi logo apoiada por todos que estavam sentados à nossa volta, querendo ouvir os
relatos sobre os meus primeiros dias como escrava de ganho. Ele falou que quem poderia gostar dos meus biscoitos ingleses eram, na verdade, os ingleses e alguns brasileiros que se metiam a ingleses para ganhar importância. Logo todos estavam dando palpites, e o Tico, o Hilário e o Sebastião me falaram de muitas casas onde moravam ingleses, o que fiquei de perguntar também ao José da Costa no dia seguinte. A Esméria teve a idéia de vender os cookies embrulhados em saquinhos, o que daria a eles uma aparência mais fina, boa para os produtos caros.
O Raimundo se lembrou das portas dos teatros e dos salões de bailes muito freqüentados pelos ricos e estrangeiros, lugares onde eu também poderia vender os meus cookies. Fui dormir feliz com as várias idéias e com a empolgação dos meus amigos, com a vontade que eles tinham de me ajudar e incentivar, dizendo que logo eu estaria mais rica que a sinhá e poderia comprá-los dela. Eu não tinha certeza quanto a ficar tão rica, mas não tinha dúvida de que minha liberdade não tardaria a chegar. Minha e do meu filho. E fiquei mais certa ainda quando, no dia seguinte, consegui me lembrar do sonho que tive com a minha avó e a Taiwo, as duas muito alegres e brincando de rodopiar de braços abertos, gritando que estavam livres. Recordando o sonho e sentindo como era bom continuar aconchegada nos braços do Francisco, perdi a hora e cheguei no Terreiro de Jesus um pouco antes de o sino da Ordem Terceira dobrar oito e trinta.
Por ter chegado atrasada, perdi os fregueses da manhã, os que tinham comprado no dia anterior, como fiquei sabendo no dia seguinte. Situação que acabei conseguindo reverter a meu favor dizendo que os cookies tinham feito tanto sucesso que eu tinha vendido tudo, e levei mais tempo do que imaginava para produzir uma nova fornada. Eles acreditaram e disseram que realmente eram muito gostosos, que se eu estivesse ali
todos os dias, também comprariam todos os dias, e foi assim que ganhei meus três primeiros fregueses fixos.
Quanto ao senhor Amleto, ele novamente pegou um cookie e não pagou, dizendo que precisava ver se eu continuaria mantendo a qualidade, mas no fim da tarde mandou que um preto buscasse mais. Era o conhecido do José da Costa, o João Benigno, muito simpático, falante e sorridente, que disse que o patrão tinha mandado buscar cinco cookies e que gostaria de tê-los todos os dias, para pagamento semanal. Percebi que logo teria fregueses fixos em número suficiente para conseguir pagar a sinhá, e o que eu fizesse além daquilo seria meu. Somente do senhor Amleto eu já teria a receber toda semana quase duzentos réis, pois ele também se tornou freguês do rice pudding, assim como os ingleses que fui visitar, seguindo as orientações do Tico, do Hilário, do Sebastião e do João da Costa.
No fim da primeira semana eu já tinha garantidos dois mil réis mensais, o que ainda era pouco porque, para comprar os ingredientes para aquelas quantidades contratadas, eu gastava por volta de setecentos réis e, é claro, gostaria de dar a minha contribuição à dona Maria Augusta e ao padre Heinz, na casa de quem passei a ir duas vezes por semana. Nesses dois dias eu apenas cozinhava, pois não dava tempo de ir para as ruas ou de fazer entregas, já que o Pilar ficava um pouco distante de onde estava a minha freguesia. Quando pedidos para esses dias eram inevitáveis, eu tratava de entregá-los logo: de manhã ou pedia ao Tico e ao Hilário que o fizessem por mim, e depois dava alguns réis para eles.
No fim do primeiro mês, o dinheiro foi certo para pagar a sinhá, sendo que nada sobrou, nem para mim nem para o aluguel da cozinha, o que me deixou bastante desanimada, pois nunca tinha trabalhado tanto. O
Francisco me acalmou dizendo que logo as coisas melhorariam, e o Sebastião me ajudou a fazer as contas, de acordo com o dinheiro que precisava ganhar. O Tico e
o Hilário ficaram de conseguir mais moradas, não apenas de ingleses, mas de outros estrangeiros e também de brasileiros, e, em troca de uma parcela do lucro, se dispuseram a cercar as entradas e saídas dos acontecimentos e das festas importantes da cidade.
O Sebastião perguntou se a sinhá sabia que eu conseguia ler e escrever e eu disse que achava que não.
Ele comentou que era melhor que continuasse assim, para que a minha carta de alforria saísse mais barata.
Pela experiência que ele tinha na cooperativa, achava que eu seria avaliada em quinhentos mil réis e o Banjokô, em duzentos mil. Eu ainda me atrapalhava com as contas de muitos números, e foi bom aprender com o Sebastião, que ia fazendo e me explicando onde queria chegar e quais os caminhos.
Eu disse a ele que em um ano, no máximo, queria me ver livre da sinhá, mas ele afirmou que era impossível, e que nem mesmo em dois anos eu conseguiria, e que se conseguisse em cinco anos já seria espantoso. Achei que cinco anos era tempo demais, mas acabei concordando depois de saber que, para cumprir tal prazo, eu teria que ganhar treze mil e quinhentos réis por mês, o que significava, em cookies, dois mil e setecentos cookies por mês, ou seiscentos e trinta por semana, o que já era muito mais do que eu vendia por mês na época. Levamos em conta também que eu precisaria de dinheiro para outros gastos, como me alimentar quando estivesse na rua, comprar roupas e outras coisas de que precisasse, já que a sinhá não me daria mais nada, apenas o teto sob o qual dormir.
Era um bom desafio e eu gostei de ser desafiada, principalmente porque a sinhá Ana Felipa era quem mais duvidava do meu sucesso. Ela duvidava da parte que sabia, a que eu tinha que pagar a ela, e é claro que nem desconfiava do resto, principalmente em relação ao Banjokô. Ela disse para a Antônia que logo eu pediria
para voltar a trabalhar na casa, pois, preguiçosa e lesa do jeito que era, só servia mesmo para trabalhar sob o mando de alguém e para me deitar com homens, que provavelmente devia ser o que eu estava fazendo para conseguir dinheiro. Quando falava isso, sobre eu estar fazendo má vida, fazia questão que o Francisco estivesse por perto, e completava dizendo que não se espantaria se eu aparecesse novamente pejada, sem saber quem era o pai, pondo inocentes no mundo sem a menor responsabilidade. O que me segurava era que ela tratava muito bem o Banjokô, que estava levando uma vida que eu não poderia dar, sempre muito bem tratado, limpo e bem-vestido, aprendendo maneiras de gente importante.
O Banjokô tinha do bom e do melhor, tanto do de comer quanto do de brincar e de vestir, presentes dados por ela, e até um quarto que parecia de filho de pai branco e rico.
A partida
A briga aconteceu quando ela me viu chegar em casa vestindo roupa nova e calçando sapatos. Eu tinha percebido que as pessoas eram mais bem tratadas quando vestiam boas roupas, e que minhas vendas renderiam muito mais se eu aparentasse ser bem-sucedida. Com um pouco de dinheiro que tinha sobrado no fim do segundo mês, comprei bata, saia, pano-da-costa, alguns ornamentos fingindo jóias e até mesmo uma sandália de calcanhar de fora, tudo simples, mas muito bonito. Ela se enfureceu quando me viu passar feliz com o tabuleiro na cabeça, fazendo graça para a Esméria e o Sebastião, que disseram que eu parecia uma princesa africana. Não percebemos que ela estava por perto, só quando surgiu da varanda feito um raio, dizendo que na casa dela não entraria mais, que arrumasse algum lugar na rua para exibir minha vida de vergonha, que não queria escravas que levavam presentes de amantes para dentro de uma casa de respeito.
A Esméria tentou explicar que eu tinha comprado aquela roupa com o meu dinheiro e levou um tapa na cara, como o eu tinha acabado de levar, e foi ameaçada de ser posta na rua também. Eu disse à Esméria que não precisava me defender, que eu ia arrumar um lugar para morar e com muito gosto, e que apareceria uma vez por mês para pagar o jornal (Jornal: ou féria, o que era devido ao dono pelo escravo de ganho), e ver meu filho.
Filho que eu tinha gerado e dado à luz, fiz questão de lembrar, porque tenho certeza de que era essa uma das implicâncias dela comigo. Ela, que só gerava abikus e não acreditava nisso, que morresse de ventre seco, como tinha nascido. Essas últimas palavras eu não disse, mas tenho certeza de que, exceto pelos abikus, ela tinha entendido o principal, que eu tinha ficado pejada do marido dela mesmo sem querer, e ela não.
Apanhei minhas coisas no porão, fiz a trouxa e nem pude me despedir de ninguém, pois ela já me esperava do lado de fora para ter certeza de que eu não ficaria nem mais um minuto por ali. Aproveitou para dizer que, quando aparecesse, no último domingo de cada mês, era para estar vestida de maneira decente, pois só assim consentiria que eu visse o José, de quem era a dona. Já estava quase escurecendo, e sem saber direito para onde ir, peguei o rumo do Pilar, indo bater à porta da casa do padre Heinz quando quase já não dava para enxergar o caminho sem a iluminação pública dos lampiões, que nem faziam tanta diferença assim, mas serviam pelo menos para nos guiarmos por eles.
Foi o próprio padre quem abriu a porta, mas eu ainda não o conhecia, pois estivera viajando desde que eu tinha começado a freqüentar a casa. Eu não esperava que ele estivesse por lá e perguntei pela dona Maria Augusta, ao que ele respondeu que já tinha se recolhido e quis saber se podia me ajudar em alguma coisa, convidando-me para entrar.
O padre Heinz era um homem grande em todos os sentidos, que tomava quase todo o espaço disponível no vão da porta. Tinha os cabelos claros, por serem loiros e por já estarem ficando brancos, e estava vestido como um homem comum. Se não tivesse dito que era o padre Heinz, eu não poderia saber. A pele do rosto estava descascando por causa de muito sol que devia ter tomado na viagem, e a pele que aparecia sob a que estava
se
descolando
era
muito
vermelha,
principalmente na testa e nas bochechas salientes e duras.
Os dentes eram feios, maltratados e manchados, além de muito pequenos para um homem tão grande, com um corpo tão avantajado e uma barriga bastante saliente, quase caindo sobre as pernas, que marcavam dobras na calça que usava por baixo do casaco. Mas isso só reparei antes de saber quem ele era, antes de perceber que, quando o conhecíamos, tudo desaparecia diante do jeito bonachão, da maneira de falar enrolando a língua e colocando mais "erres" nas palavras, do jeito bondoso com que seus olhos minúsculos e muito azuis olhavam bem dentro da gente. Isso tudo eu compreendi depois de poucos minutos de conversa na cozinha, onde ele me serviu um copo de leite e também bebeu o seu, aceitando um, e apenas um, dos cookies que ofereci, dos que eu ainda tinha enrolados dentro da trouxa. Na pressa, eu tinha esquecido o tabuleiro na casa da sinhá e teria que dar um jeito de pegá-lo, pois era presente do Francisco e do Raimundo, feito nas aulas de carpintaria, aos domingos.
Quando o padre Heinz soube que eu era uma das mulheres que utilizavam a cozinha e que fora a Adeola quem tinha me levado para lá, pediu licença, saiu da cozinha e voltou na companhia dela. Foi então que entendi por que as outras mulheres e até mesmo a dona Maria Augusta a respeitavam tanto, visto que ela e o padre dormiam juntos. A Adeola deu uma gargalhada
quando me viu, dizendo que tinham levado um grande susto, pois as pessoas até sabiam ou desconfiavam que ela dormia lá de vez em quando, mas nunca tinham visto, e eles faziam questão que continuasse assim.
Mas como eu era amiga dela, achava que podia confiar em mim, o que me deixou muito feliz. Só me senti um pouco embaraçada por estar atrapalhando os dois, que deviam estar com saudades um do outro, e me lembrei de que naquela noite eu também sentiria muita falta do Francisco, tão acostumada que estava a dormir no abraço dele. Mas eles disseram que não havia problema algum, e só então, olhando a trouxa deixada a um canto, a Adeola perguntou o que tinha acontecido. Contei que a sinhá tinha me expulsado de casa e eu não sabia para onde ir, e, sem pensar direito, tinha caminhado até lá.
O padre Heinz disse que eu poderia dormir na casa somente aquela noite, mesmo porque não tinha espaço, e se ele abrisse uma exceção para mim teria que fazer o mesmo para as outras mulheres, e aquele era um trato com a dona Maria Augusta, de que ninguém ficasse para dormir. Vista grossa feita à Adeola, ele completou, e os dois riram novamente, um riso cúmplice e carinhoso que encheu a cozinha de muita alegria. Ficamos conversando por um bom tempo e o padre Heinz quis saber mais coisas a meu respeito, e no final disse que eu estava de parabéns, que era uma lutadora e que passaria a me incluir, junto com o Banjokô, em suas orações diárias.
O reencontro
Dormi na cozinha, sobre uma esteira emprestada pelo padre. Dormir não era bem a palavra, porque passei quase a noite toda acordada, pensando no problema que teria que resolver no dia seguinte, que era arrumar onde ficar. Mas a solução apareceu mais depressa do que eu esperava e de onde nem imaginei em um encontro fortuito na Praça da Sé, logo de manhã. Eu tinha ido com
a Adeola até o ponto dela, perto da Misericórdia, e estava voltando para o Terreiro de Jesus com os cookies, mesmo sem o tabuleiro, quando vi alguém que me pareceu bastante familiar, apesar de estar de costas.
Corri até passar à frente e tomei uma boa dianteira, para só então me virar. Primeiro ele deve ter achado que eu era uma das muitas loucas que andavam pela cidade e nem respondeu ao salamaleco que soltei em meio ao sorriso, ao ver que era o Fatumbi. Passou por mim e nem me dirigiu um olhar que fosse, e só parou de caminhar quando gritei o nome dele e disse que era eu, a Kehinde.
Ele se virou ainda sério, para depois aceitar meu abraço, mesmo sem retribuir. Às vezes eu pensava nele e tinha muita vontade de saber onde estava trabalhando, a quem pertencia, se estava bem. Ele disse que não tinha mesmo me reconhecido, que eu não era mais a menina de quem se lembrava, e seus olhos foram parar na minha barriga. Ele tinha me visto pela última vez havia mais de três anos, na senzala pequena da fazenda, antes de o sinhô José Carlos morrer.
Sem que ele perguntasse, eu disse que a criança estava bem, que era um menino e se chamava Banjokô, que estava sendo bem tratado no solar da sinhá Ana Felipa.
O Fatumbi parecia não estar se sentindo à vontade para conversar comigo na rua, o que era compreensível, levando-se em conta a religião dele, e perguntou para onde eu estava indo. Eu disse que era uma longa história e que estava muito feliz por encontrá-lo, e perguntei se não poderíamos conversar mais um pouco, porque eu também queria saber muitas coisas sobre a vida dele.
Disse que estava indo para a loja de uns amigos e perguntei se podia ir junto, pois estava procurando uma loja para ficar e poderia ver se os amigos dele não teriam espaço para mim.
Aquela idéia me veio na hora, eu não estava pensando
em nada daquilo, mesmo porque a Adeola tinha dito que conversaria com o padre Heinz e com a dona Maria Augusta para que eu ficasse por lá durante algum tempo, até aparecer uma vaga na loja onde ela morava.
Na verdade, o que eu queria mesmo era ganhar tempo para estar com o Fatumbi, de quem gostava bastante, além de ser muito grata a ele por ter me ensinado a ler e a escrever, e fiquei muito feliz quando ele não recusou a minha companhia.
Atravessei a Sé e o Terreiro torcendo para não encontrar nenhum dos fregueses e ter que parar, pois o Fatumbi tinha apertado o passo e parecia fazer questão de andar à minha frente, até que chegamos a um sobrado na Ladeira das Portas do Carmo. O sobrado era simples, de três andares, com as paredes descascadas que um dia já tinham sido pintadas de verde, a fachada, contínua com os sobrados vizinhos, diferenciada apenas por duas longas rachaduras de cima a baixo, seguindo a linha das paredes internas de meação. A construção era muito estreita e alta, com uma janela e uma porta que davam na rua no andar inferior, e uma janela em cada um dos andares superiores.
O Fatumbi bateu à porta e pediu que eu permanecesse um pouco afastada até conversar com os amigos.
Primeiro, um homem olhou por uma fresta, desconfiado, e só quando reconheceu o Fatumbi foi que abriu a porta, e os dois se cumprimentaram com um movimento de cabeça. Conversaram olhando para mim e depois pude acompanhar o Fatumbi. A porta dava em um corredor improvisado que logo chegava a uma escada para o andar superior, mas demos dois ou três passos e entramos à direita por uma abertura na divisória de madeira fina que separava os ambientes, sustentada por pés também de madeira no formato da letra T virada de cabeça para baixo. Era um ambiente escuro, iluminado por um único lampião, uma sala pequena e estreita onde havia apenas uma mesa de pés baixos com muitos livros
escritos à maneira dos muçurumins, algumas ervas, um pequeno quadro-negro, um pote de tinta preta e um cálamo de bambu.
Pelos cantos havia algumas esteiras enroladas e, ao fundo, um homem estava rezando ajoelhado sobre uma pele de carneiro. Quando ele levantou a cabeça, guardando o teçubá e o gorro vermelho no bolso do abadá, cumprimentou o Fatumbi com um salamaleco e me olhou de um jeito curioso, continuando a falar com o Fatumbi na língua deles. Depois do que imaginei ser o Fatumbi explicando quem eu era e o que estava fazendo ali, o homem me cumprimentou e disse se chamar alufá (Alufá: título religioso muçulmano), Ali. Só então o outro também me cumprimentou, o que abrira a porta, apresentando-se como Seliman.
Depois dos cumprimentos, o alufá Ali chamou a Khadija, sua esposa e pediu que ela me levasse para o quintal, porque os homens precisavam conversar a sós.
Entramos na cozinha, também pequena, porém mais bem equipada que a sala, e saímos em um quintal que parecia ainda mais comprido por causa da estreiteza.
Era de terra batida, com poucas plantas, e encostada na parede do sobrado havia uma construção de alvenaria na forma de mesa.
Muito com portadas, três crianças brincavam em uma esteira colocada sob uma árvore não muito alta. A Khadija, depois que deixamos a sala onde estavam os homens me cumprimentou e disse que aqueles eram seus filhos, um menino chamado Ossumani, de dez anos, outro chamado Ornar, de sete, e a menina, Fatue, de quase quatro anos, e que estava esperando mais um, ou uma, para dali a cinco meses. Contei a ela que também tinha um filho quase do tamanho da Fatue ela sorriu, dizendo que filhos são bênçãos de Alá, e que eu deveria ficar à vontade. Aquelas foram as únicas palavras que ela me dirigiu, e depois foi se sentar junto dos filhos,
abriu o livro sagrado deles e começou a ler algumas partes, que as crianças repetiam. Era uma cena bonita de se ver, mas eu não estava me sentindo bem ali, onde ninguém me dava atenção.
Eu queria saber muitas coisas, queria saber se eles eram todos libertos, como me pareceram, saber quem mais morava ali, se havia lugar para mim e se eu poderia falar com ela sobre isso ou somente com o marido. Tive a impressão de esperar uma eternidade até que os homens também saíram para o quintal, acompanhados por mais um, que se apresentou como Salum.
Os quatro formavam um grupo estranho, mas interessante de se ver. Com exceção do Fatumbi, vestiam abadás e tinham a barba aparada para marcar apenas a ponta do queixo. Falavam baixo mesmo quando pareciam tratar de assuntos banais ou engraçados, talvez por estarem acostumados a assuntos tão importantes que deveriam permanecer em segredo entre eles. Apesar de a grande maioria dos muçurumins não saber falar a língua dos árabes, o que conferia um importante diferencial aos que sabiam, eles não a falavam em público. mais tarde o Fatumbi me contou por quê. Eles sabiam que eram diferentes também no modo de agir e de pensar, e eram perseguidos por isso.
Em relação aos outros pretos, tinham a fama de esnobes e feiticeiros, de pessoas que se achavam superiores. Eu os admirava exatamente por isso, porque não se sentiam inferiores a ninguém, nem aos donos, e achavam que tinham que obedecer a um só senhor, que era Alá. Por causa disso, também não eram bem-vistos pelos senhores de direito, pois não se submetiam facilmente.
Muitas revoltas que queriam libertar os pretos da escravidão já tinham sido organizadas por eles, o que fazia com que fossem muito vigiados. Naquele mesmo dia, ao sairmos da loja, vi o Fatumbi tirar do dedo um
anel que todos eles usavam e escondê-lo, como também fazia com o teçubá logo depois de terminar a reza. Mas antes disso eu soube que poderia ficar, que eles tinham espaço para mais uma pessoa no primeiro andar. E
descobri também que conheciam o bilal Sali e o Ajahi, os muçurumins dos Clegg, e que às sextas-feiras todos se reuniam para um compromisso religioso.
Era uma quarta-feira, e assim que saí da loja fui até a Vitória ver se conseguia pegar o tabuleiro esquecido no solar. Fiquei longo tempo à espreita para ver se alguém aparecia no jardim, pois não queria me arriscar chamando do portão ou pulando por cima dele. Não queria me encontrar com a sinhá Ana Felipa, embora tenha torcido para que ela estivesse no jardim, acompanhando o Banjokô. Eu gostaria de vê-lo ou, melhor ainda, de poder me despedir e dizer a ele que não tinha sido abandonado, que eu voltaria para buscá-lo. Com certeza ele não entenderia o que isso significava, mas pelo menos eu ficaria mais tranqüila por ter dito, e confesso que sempre tive um pouco de medo da reação dele quando finalmente ficássemos juntos, sozinhos, pois ele gostava muito da sinhá, e com razão.
Quanto mais demorasse para comprar nossas cartas de alforria, mais ele se apegaria a ela e às coisas que ela podia oferecer e eu ainda não. Mas estava confiante, porque tudo o que acontecia na minha vida, mesmo parecendo ser ruim, sempre dava um jeito de me empurrar na procura de algo melhor. Tinha certeza de que em breve eu e meu filho estaríamos livres, mesmo ao me lembrar da quantidade de dinheiro que precisava conseguir.
Enquanto esperava e refletia, o Tico e o Hilário chegaram da rua e pegaram o tabuleiro para mim, querendo que eu entrasse e ficasse um pouco com eles.