Um Defeito de Cor

Ana Maria Gonçalves · Capítulo 6 de 12 · parte 2/4

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Um Defeito de Cor

Capítulo quatro

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Sobre a mesa havia sete vasilhas, cada qual contendo uma oferenda a ser apresentada ao meu filho, para que, quando crescesse, ele pudesse extrair o que tinham de melhor. Quando o Babalaô Gumfiditimi começou a falar, eu me senti um pouco triste e sozinha, pois queria para o Banjokô um pai que o tivesse feito com amor, ou pelo menos com desejo verdadeiro, e que também houvesse outros parentes que se sentissem felizes por ele estar entre nós, e então tentei sentir a presença de todos os que já tinham me amado.

O Babalaô Gumfiditimi disse que estávamos reunidos naquele dia porque eu, Kehinde, tinha regalado todos eles com uma vida nova, preciosa, que merecia todos os presentes recebidos e todas as oferendas, para as quais pediu as bênçãos dos ancestrais convidados para a cerimônia. Pediu também que os nomes que seriam dados enriquecessem a vida do Banjokô, ao que todos os presentes confirmaram com um ase (Ase: Sentido, algo como "assim seja"). Na mesma vasilha com que tinha atirado água para cima, o Babalaô Gumfiditimi molhou o dedo e o passou na testa do Banjokô, dizendo que fazia aquilo para que ele soubesse o quanto era necessário para a felicidade da família que o acolheu, tão necessário quanto a água, já que nenhum ser pode viver sem ela. E também para que ele nunca passasse sede e que, assim como a água, soubesse contornar todos os obstáculos encontrados pelo caminho, não deixando que nada detivesse o curso que sua vida estava destinada a tomar. Naquele momento, o Babalaô Gumfiditimi mostrou o meu filho a todos os presentes dizendo o seu abiso em voz alta, e todos aplaudiram, sorriram e disseram ao Banjokô que ele era muito bem-vindo. O

babalaô então chegou mais perto da mesa e começou a fazer a oferenda dos conteúdos das sete vasilhas, e ao final de cada uma delas todos tinham que dizer ase.

Na primeira vasilha havia pimentas vermelhas, de onde o Babalaô Gumfiditimi pegou um pequeno pedaço e passou pelos lábios do Banjokô. Depois, como também aconteceu com as outras vasilhas, ela foi passada de mão em mão para que todos nós provássemos dela. A pimenta tem vários significados, como o Babalaô Gumfiditimi explicou ao meu filho, e um deles é propiciar uma vida fecunda, cheia de filhos, porque ela contém várias sementes. Outro significado é o poder de decisão sobre as forças da natureza, por ela conseguir sobrepor o seu sabor aos vários outros sabores. Depois da pimenta, havia uma vasilha com água, que foi passada sobre os lábios do Banjokô, para aumentar a pureza do espírito e proteger o corpo contra as doenças.

A terceira vasilha continha sal, que representa a inteligência e a sabedoria, e também a importância que a criança tem para os seus parentes e amigos, pois o sal é colocado em quase todas as refeições para realçar o gosto. Com o sal, o desejo é de que a vida da criança seja cheia de sabor e abundante de felicidade como abundante também é o sal. Depois foi a vez do óleo de palma, ou dendê, como ele é chamado na Bahia, que também é usado para evitar a ferrugem dos metais e para massagear e amaciar a pele do corpo. Com ele, o Babalaô Gumfiditimi desejou que a vida do meu filho fosse fácil e suave.

O Banjokô gostou principalmente do mel da quinta vasilha, sugando o dedo do babalaô, que desejava que ele fosse doce ao tratar com as pessoas ao seu redor, que tivesse felicidade e fosse trabalhador como as abelhas, que atraísse muitos amigos e nunca ficasse amargo ou rancoroso.

Quando foi oferecido o vinho de palma, da sexta vasilha, dedicado aos ancestrais para que eles estivessem sempre olhando pela criança, eu já estava muito emocionada. Foi como se naquele momento pudesse mesmo sentir a presença de todos eles, como se de repente o salão ficasse pequeno e aconchegante, tomado por todos os meus parentes que já tinham retornado ao Orum antes de mim, como se eles estivessem presentes e aceitando o filho, o sobrinho, o neto e o bisneto que eu tinha dado a eles. E foi completamente tomada por aquela sensação reconfortante que, depois do meu filho e do Babalaô Gumfiditimi, peguei da última vasilha o meu obi, a noz-de-cola, e o masquei por um bom tempo, até que, ao jogá-lo fora, imaginei ter extraído dele a longevidade, a boa sorte e o poder de afastar os maus espíritos.

Depois de utilizar o conteúdo das sete vasilhas, o Babalaô Gumfiditimi perguntou se alguém gostaria de

acrescentar uma oferenda, e a Nega Florinda apresentou uma faca com lâmina de ferro, símbolo de Ogum, o dono da cabeça do Banjokô. Ela disse que gostaria que Ogum aceitasse aquela oferenda e desse ao meu filho a capacidade de sair vencedor das batalhas, de abrir os caminhos e de não se perder, insistindo sempre na realização dos sonhos.

Ela também perguntou ao Babalaô Gumfiditimi se poderia dar ao meu filho o segundo nome» o nome de oração ou oriki, aquele que expressa os dons que a criança tinha ou que seria bom que tivesse, e depois ainda me ajudou a escolher o terceiro nome, o orile, o nome que indica a ancestralidade. E foi sob aplausos que o Babalaô Gumfiditimi pediu que todos repetissem com ele o nome completo do meu filho: " Banjokô Ajamu Danbiran, sendo que o segundo nome significava "aquele que brotou depois de uma luta", e o terceiro era uma homenagem a Dan, vodum cultuado pela minha avó, e que, no caso, era também uma homenagem a ela. O ewi Ifasen pediu a palavra, mas antes o Babalaô Gumfiditimi quis fazer uma brincadeira e tirou do bolso um colar de búzios, dinheiro africano. Assim que o viu balançar diante do rosto, o Banjokô rapidamente levantou as duas mãozinhas e o agarrou, para alegria de todos, que disseram que ele viveria com riqueza. Logo pensei na sinhá, que, com certeza, o tratava de um jeito diferente, com muito mais carinho do que tinha tratado a sinhazinha Maria Clara quando pequena, como me contou a Esméria.

Quando me lembrei dela, também fiquei preocupada em saber quanto tempo já estávamos fora de casa e se o meu plano tinha dado certo. Isso fez com que eu não conseguisse prestar muita atenção às palavras do Ifasen, que falava da bênção que um filho representa para a mãe e para toda a família, porque ele herda e perpetua a história e a memória. O Ifasen também pediu aos orixás que o Banjokô tivesse uma vida longa e deixasse muitos

filhos, para que eles levassem a honra dos nossos ancestrais para os tempos que ainda estavam por vir, e foi muito aplaudido quando terminou de recitar e cantar.

A Nega Florinda estava com os olhos molhados de lágrimas.

Eu também fiquei, mais ainda por estar agradecida a toda aquela gente que nunca tinha visto e que preparara uma cerimônia tão bonita, fazendo com que nos sentíssemos muito queridos. Até mesmo o Tico e o Hilário, sempre irrequietos, tinham prestado atenção em tudo e estavam visivelmente comovidos. Mas eles gostaram mais ainda quando a Monifa, a primeira esposa, disse que estávamos convidados a participar da festa preparada do lado de fora, no terreiro, com muita música, bebida e comidas próprias para a ocasião.

Quando estávamos saindo do barracão, o Babalaô Gumfiditimi pediu que eu e o Banjokô ficássemos, pois ele ainda queria que meu filho passasse por outro ritual, que simbolizaria os primeiros passos que ele daria no mundo. Com Banjokô no colo, eu me sentei de frente para o Babalaô Gumfiditimi à mesa reservada para o jogo do Ifá. Ele tirou a toalha que cobria a mesa, puxou a bandeja do jogo, coberta de areia, fez algumas orações e depois jogou os búzios que confirmaram que Ogum era mesmo o dono da cabeça do Banjokô. Então disse que eu deveria preparar uma bonita cesta com frutas e oferecer ao orixá dele, deixando-a em alguma mata, lugar onde ele rege e habita.

Depois, pegou-o do meu colo, tirou a camisola dele e o segurou por baixo dos braços, para que ele ficasse de pé sobre a bandeja até que sentisse o contato com a areia e movesse os pezinhos, como quem dava os primeiros passos. Olhando o rastro deixado na areia, o Babalaô Gumfiditimi disse que meu filho seria um lutador, um grande guerreiro, para quem a vida não seria fácil, mas que ele estaria sempre preparado e protegido para

enfrentá-la. Disse também que não seria fácil para mim lidar com ele, pois teria uma personalidade muito forte e seria bastante independente, querendo realizar todas as suas vontades. Mais não poderia dizer, pois o futuro ainda estava em definição, mas que nós poderíamos voltar quando o Banjokô completasse três meses, para fazer um segundo ritual pedindo ao Ifá que revelasse mais coisas.

Quando deixamos o salão, todos que estavam no terreiro aplaudiram e deram vivas ao Banjokô Ajamu Danbiran. A Nega Florinda me chamou para sentar perto dela em uma esteira onde conversava com a Monifa, a Fayola e mais algumas moças que deviam ser um pouco mais velhas que eu, uma delas com uma criança ao peito.

Enquanto elas riam e tomavam vinho de palma, fiquei pensando em tudo que tinha acontecido na minha vida até então. Às vezes eu queria que o tempo passasse logo e eu envelhecesse, mas as vezes queria voltar a ser criança e ter uma vida igual à daquelas que corriam por ali, rindo e brincando. Eu sentia vontade de brincar também, olhava para o Banjokô sugando o meu peito e achava que ele era um brinquedo sério demais, com o qual eu sempre teria mais responsabilidades que diversão. O Tico e o Hilário, quase da minha idade, pareciam muito mais novos, principalmente no meio das outras crianças, brincando. Algumas brincadeiras eram iguais às que eu fazia com o Kokumo e a Taiwo ainda em Savalu, e as lembranças daquele tempo também ficaram confusas, ora parecendo recentes demais, ora muito roídas pelo tempo.

Perguntei à Nega Florinda se toda aquela festa era por causa da cerimônia do nome e ela disse que sim, que normalmente aquele era um sítio muito alegre, abençoado com saúde e com crianças, mas que muitas coisas tinham sido preparadas por causa do Banjokô. Eu quis saber se teria que dar a eles algum dinheiro e ela respondeu que não, que já tinha acertado tudo, que a

festa era o presente que queria dar a mim e ao meu filho, em homenagem à grande mulher que tinha sido a minha avó, e que podia fazer isso porque já tinha conseguido mais dinheiro do que o necessário para a viagem até o Maranhão.

Aceitei um pouco de vinho de palma e uma cuia com pudim de inhame, sopa de quiabo carne, arroz branco e farinha, que comi apressada, não por querer, mas por precisar ir embora logo. Eu sabia que a festa era para nós, que eu deveria estar contente e me divertindo, dançando com os jovens, mas não conseguia, principalmente depois que a Nega Florinda falou na minha avó, o coração ficou apertado dentro do peito, como se ele estivesse se contorcendo para fazer rolar as lágrimas que havia tanto tempo eu segurava.

Tentava sentir a presença da minha avó, da minha mãe ou da Taiwo, como tinha sentido durante a cerimônia, mas também não consegui, e acho que em nenhum outro momento de minha vida me senti tão só, no meio de tanta gente. A Nega Florinda percebeu e perguntou se havia algo errado, e eu disse que não, que apenas estava preocupada porque precisava voltar ao solar antes que a sinhá descobrisse que tínhamos saído sem permissão.

Tive dificuldade em fazer com que os meninos parassem de brincar e me levassem para casa naquele momento, pois eles queriam ficar na festa.

Só quando eu me pus a caminho sozinha, depois de ter agradecido a todos, me desculpado por não poder ficar mais e prometido voltar em breve foi que eles correram atrás de mim. Era o que eu esperava que acontecesse, pois, com a pressa da ida não tinha reparado no caminho e não sabia nem mesmo que rumo tomar. Quando chegamos em casa, descobri a razão de todo aquele meu desconforto e meu desespero para voltar logo.

O castigo

O Hilário tinha ficado comigo do lado de fora enquanto o Tico pulou o muro para ver onde a sinhá estava e se eu poderia entrar naquela hora. Poucos minutos se passaram até que vimos o Tico caminhando na nossa direção junto com o Sebastião e a Esméria. Pela pressa e a expressão nos rostos deles, percebi que avia algo errado. Quando abriram o portão, nem tive tempo de perguntar o que tinha acontecido, pois a sinhá já estava logo atrás deles me furando com os olhos e não dando ouvidos ao padre Notório, que corria atrás dela, pedindo que se acalmasse.

Ela gritou para que a Esméria pegasse o menino e me arrastou pelos cabelos até a varanda, dizendo que além de insolente, eu era irresponsável, que não adiantava tratar os pretos com um pouco de confiança que aPunhalavam seus senhores pelas costas, e que eu nunca deveria sair de casa sem a permissão dela, e ainda levando um inocente. Quando chegamos à varanda, ela começou a me dar tapas no rosto, com uma força que nunca imaginei que tivesse e que ainda sobrava para se desvencilhar do padre Notório, que tentava segurá-la, dizendo que ela não podia se exaltar tanto, era até perigoso para a saúde. Mas a sinhá continuou me batendo, diante dos olhares desesperados da Esméria, dos meninos, do Sebastião e dos outros escravos, que ficaram de longe, escondidos da fúria dela.

Eu não tive reação por causa do susto e porque achei que seria pior se tentasse correr ou revidar, e deixei que ela batesse até ficar cansada, até perder as forças e cair em um choro histérico, tremendo dos pés à cabeça.

O padre Notório conseguiu fazer com que ela se sentasse e a Antônia serviu um copo de água com açúcar. Eu também mal me agüentava em pé, minha boca tinha um corte pelo lado de dentro e o nariz sangrava, manchando toda a frente da minha bata. Foi quando olhei a minha roupa que me lembrei de que o Banjokô ainda vestia a camisola dada pela esposa do

Babalaô Gumfiditimi, e em seu descontrole a sinhá nem tinha percebido. Mas a Esméria percebeu, e com a desculpa de dar água para o menino, deixou rapidamente a varanda e correu para vestir nele uma das roupas dadas pela sinhá, também branca, para que a mudança de cor não chamasse atenção.

A sinhá Ana Felipa se sentou em uma das cadeiras da varanda e o padre Notório ficou ao seu lado, rezando, enquanto ela lamentava o quanto era difícil a vida das mulheres que não tinham homens que cuidassem delas, que nem mesmo as pretinhas as respeitavam, que gostaria de ainda estar na fazenda para me colocar no tronco e dar quantas chibatadas eu agüentasse. Pediu que a Esméria lhe entregasse o menino e o pegou com cuidados de mãe, apalpando os bracinhos e as perninhas dele como se quisesse confirmar que estava inteiro.

Depois me mandou para o porão, dizendo que comunicaria mais tarde o meu castigo, mas que aquilo não ia ficar barato, e deu ordens para que ninguém fosse lá cuidar de mim, pois eu precisava ficar sozinha para pensar no que tinha feito. Passei a tarde quieta, largada sobre a esteira. A boca e o nariz tinham parado de sangrar, mas ainda doíam muito, embora nada que se pudesse comparar àquele aperto no coração, que tinha aumentado muito, sem que eu conseguisse chorar para ver se aliviava.

À noite, a Esméria tratou dos machucados colocando compressas com type quente e ervas, e contou o acontecido. Como de costume, o padre Notório tinha chegado por volta das dez horas, para conversar com a sinhá antes que o almoço fosse servido, às doze. E

aquela conversa foi a causadora de toda a confusão, pois a sinhá tinha acreditado na desculpa dada pela Esméria, sobre o Banjokô estar com febre e eu ter ficado com ele no porão.

Mas o padre Notório queria falar exatamente sobre o batizado dele, combinar uma data com a sinhá. De preferência um dia em que a igreja estivesse mais vazia para que ela não fosse vista batizando o filho de uma escrava. Poderia dar margem a falatórios, e era melhor deixar a alma do morto, o pai, descansar em paz. Tinham acertado uma tarde qualquer durante a semana, e então o padre pediu para ver o menino, que eles tinham decidido que se chamaria José.

A sinhá comentou que ele estava um pouco doente e que por isso não tinha subido, ao que o padre alertou que seria melhor que ficasse dentro da casa, onde o ar era mais saudável. A sinhá então pediu que buscassem o menino, não restando à Esméria outra alternativa a não ser contar a verdade, ou melhor, quase a verdade, dizendo apenas que eu tinha saído com o Tico e o Hilário para um passeio, levando o Banjokô. Quanto aos meninos, ela nem disse nada, pois estava acostumada às escapadas deles, mas mandou o Sebastião me procurar pelos arredores e na região da freguesia da Sé e do Terreiro de Jesus.

Na manhã seguinte, bem cedo, a Antônia foi me avisar que a sinhá tinha mandado dizer que eu estava de castigo, que não deveria deixar o porão até novas ordens. E foi assim que fiquei mais de dez dias quase sem sair da esteira, com o rosto doendo e bastante inchado, e com muitas saudades do meu filho, que passou a dormir no quarto da sinhá e novamente foi alimentado pela Joana. A saudade dele era a única coisa que incomodava, porque, na verdade, eu estava até gostando do castigo, de ter o dia inteiro para fazer o que bem entendesse.

O Tico e o Hilário ficavam mais tempo comigo no porão, contando coisas sobre a cidade, inclusive que já tinham descoberto um sítio onde alguns pretos fujões viviam como se fossem livres. Eram pretos do Recôncavo ou de

outras províncias, porque assim ficava mais difícil de serem encontrados por seus donos. Os pretos que fugiam de São Salvador também procuravam lugares mais distantes para se esconderem, sendo que alguns deles até conseguiam embarcar novamente para a África.

Quando os meninos saíam em busca de mais novidades, eu me distraía lendo os sermões do padre Antônio Vieira e praticando a escrita, copiando os trechos dos quais gostava com a ajuda da Esméria ou do Sebastião, que roubavam um pouco mais de azeite para manter a lamparina acesa também durante o dia. Quando a sinhá entrava no banho, a Esméria me chamava até a cozinha para ver o Banjokô, que parecia me reconhecer.

Não sei se era impressão, mas ao me ver ou ouvir a minha voz, ele sorria e balançava os braços na minha direção, o que a Antônia disse que ele também já fazia com a sinhá. Eu me lembrei do que o Babalaô Gumfiditimi tinha falado, sobre ele ter mais sorte que eu, mais riquezas, e apesar de estar sentindo muita falta, gostei de saber que o meu castigo estava contribuindo para aumentar o afeto entre ele e a sinhá.

O Sebastião me contou quando o batizado católico do Banjokô foi realizado, com a presença do padre Notório e de um ajudante, da sinhá, do próprio Sebastião e da Antônia, que sempre a acompanhavam à rua. A sinhá, na qualidade de madrinha, informou ao padre que ele era filho de Luísa Gama e pai desconhecido, batizado com o nome de José Gama em homenagem ao padrinho, São José.

A Antônia estava feliz, não só porque a sinhá tinha passado a sair mais de casa e sempre a levava como companhia, mas também porque tinha ganhado roupas novas muito bonitas, parecidas com as roupas das vendedoras do ancoradouro, mas de um tecido muito

mais elegante, seda, que a sinhá preferia chamar de silk.

Quando saíam, ela também usava algumas jóias emprestadas pela sinhá, colares e pulseiras de ouro, e um broche no bonito pano-da-costa jogado sobre o ombro direito. A sinhá ia principalmente às casas de algumas senhoras, novas amigas da sociedade, e a Antônia ficava esperando no quintal ou na cozinha, conversando com as pretas da casa e as acompanhantes das visitas, todas sempre muito bem arrumadas. Ela disse que as sinhás se sentiam vaidosas por estarem acompanhadas de pretas bem-vestidas e educadas, como eu de fato pude perceber quando fui trabalhar para os ingleses.

Os ingleses

Tudo aconteceu muito depressa. No dia em que saí do castigo, a sinhá mandou me chamar e disse que era para eu subir com a minha trouxa. A Esméria não soube explicar o motivo e fiquei com medo de ser mandada de volta para a fazenda, pois a Antônia disse que tinha acabado de chegar um homem com ar de capataz ou algo assim. A sinhá Ana Felipa me esperava na sala, com o Banjokô no colo, e informou que eu tinha sido alugada, que podia me despedir do meu filho, pois ele ficaria muito bem com ela, e que estava fazendo aquilo porque não podia se arriscar me mantendo por perto depois do que eu tinha feito.

Na verdade, ela tinha um grande medo de que eu fugisse levando o menino, o que, confesso, tinha passado muitas vezes pelos meus pensamentos, mas eu não tinha coragem de fazer. Não por mim, que poderia arrumar maneira de me cuidar, mas ele ainda era muito pequeno e precisava de cuidados, não podia dormir em qualquer lugar ou ficar sem ter o que comer, pois meu leite já tinha começado a diminuir e poderia acabar de vez se eu não me alimentasse

, Nos primeiros dias do castigo, o peito ficava tão cheio que chegava a doer, a Antônia tinha me instruído a tirar um pouco todas as manhãs e antes de dormir, e a cada dia eu precisava tirar menos que no dia anterior. Um chá que a Esméria preparava para que o leite não empedrasse também contribuiu para isso, visto que o Banjokô não estava sentindo a menor diferença entre o meu leite e o da Joana, que ia até o solar três a quatro vezes por dia.

E foi assim que saí da casa da sinhá Ana Felipa e entrei na casa da família Clegg, agarrada pelo braço por um escravo deles e equilibrando na cabeça uma trouxa com duas mudas de roupa, depois de ter dado um único beijo no rosto do meu filho e tê-lo deixado chorando nos braços da sua protetora. A sinhá disse que eu poderia vê-lo aos domingos, com ela por perto, e que aquilo não era uma venda, ela estava apenas me alugando e, dependendo de como eu me comportasse, poderia desfazer o negócio. Não tive tempo de me despedir dos outros, apenas um rápido olhar para a Esméria e a Antônia, e o choro do Banjokô me acompanhou até o portão.

A casa dos Clegg não ficava muito distante, o que me tranqüilizou um pouco. Estava a apenas dez ou doze casas seguindo em direção à freguesia da Graça, do outro lado da rua. O homem que tinha ido me buscar também se chamava José, como o Banjokô, que os ingleses pronunciam de uma maneira diferente, colocando um "efe" no final, do mesmo jeito que era pronunciado ph no fim do primeiro nome do meu novo dono, Mister Joseph Edward Clegg. Mas o José era da Costa, José da Costa, e não parecia ser nenhum capataz, como de fato não era. Os Clegg o chamavam de mestre de ordens, o que significava que ele cumpria ordens de levar recados, buscar ou fazer compras e algumas coisas importantes que só um escravo de confiança podia fazer.

José da Costa sabia falar inglês, para quando precisasse dar recados aos conterrâneos dos seus donos. Comecei a gostar dele ainda a caminho da casa, e ele também gostou de mim, apesar de não ter acreditado que o Banjokô, tão branco e e tão bem-vestido no colo da sinhá, fosse mesmo meu filho.

A casa do Mister Clegg ficava em um ponto onde a rua fazia uma curva bem pronunciada. Não do lado em que a curva se fechava, e sim do lado que se abria, dando ao terreno o formato de um leque. A princípio, achei a casa bastante parecida com a da sinhá Ana Felipa no tamanho dos corredores, mas, como vi depois, eram em maior número e mais tristes, por serem menos coloridos, o que fazia com que parecessem mais frios também. Haviam mais quadros nas paredes, todas pintadas de branco, e mais louças nos móveis, assim como mais tapetes no chão de madeira escura, mas tudo de uma seriedade que não dava vontade de conversar e muito menos de sorrir.

Nem as crianças da casa sorriam, pois não tinham com quem aprender.

E teriam motivos, porque era maravilhosa a paisagem que se via do quintal da casa, e mesmo de dentro de alguns cômodos que davam para os fundos. Mal cruzei o portão, levada pelo José da Costa, senti vontade de correr e pular, olhando o mar azul e verde que se estendia além da casa, plantada no meio do terreno. De onde estávamos, não dava para ver a encosta, parecia apenas que a terra se acabava e o mar aparecia de repente, como se fosse uma continuação do terreno, sem areia, sem pedras, sem coqueiros. Apenas o mar, um tapete de recortes irregulares jogado sobre a terra, com desenhos de várias ilhas em um ponto e outro, com destaque para a Ilha de Itaparica. O José da Costa me levou para os fundos da casa e me disse para esperar, pois ia avisar à governanta. Durante o tempo em que fiquei sozinha, admirei a ilha e me lembrei de todos os conhecidos que provavelmente ainda estariam por lá,

principalmente do Lourenço, que deveria ter sido o pai do Banjokô, e que não poderia mais ser pai de ninguém, nunca mais.

Miss Margareth, a governanta, era uma mulher de idade não muito definida. Pelo rosto quase sem rugas, eu diria que era nova, mas pelo jeito de se vestir e se comportar, parecia mais velha do que qualquer outra pessoa que eu já tinha conhecido, incluindo a minha avó e a Nega Florinda. Sob as roupas pesadas, dava para perceber um corpo magro, muito magro, o que era acentuado pelo modo como ela prendia o cabelo, puxado em um coque muito apertado no alto da cabeça, fazendo com que parecesse ainda mais alta. Só usava vestidos cinza ou azul-marinho de tecido grosso, lã, fechados até o pescoço e mangas compridas, roupas impensáveis para aquele calor. E talvez até fosse por isso mesmo, para não sentir calor, que ela se mexia o mínimo possível pois uma coisa que chamava a atenção nela era a economia de gestos, de palavras e de expressões.

Nunca movia as mãos quando conversava, nunca deixava transparecer um único sentimento que fosse, nem de raiva, nem de alegria, nem aprovação ou desaprovação, coisas que também não se percebia nem no tom da voz, sempre muito baixo, sem se alterar. Ela se manifestava somente por palavras que, nos primeiros tempos, para mim eram bastante difíceis de entender, porque ela não falava direito o português e não eram raras as vezes que, além do inglês, também usava palavras em francês. Entre eles, os da casa, só se conversava em inglês, língua que acabei aprendendo razoavelmente bem, o que facilitou muito a minha vida alguns anos mais tarde.

Naquele dia, Miss Margareth olhou para mim mantendo uma certa distância, como se tivesse nojo, e depois mandou chamar a Domingas, encarregada de me arrumar. A Domingas era uma das escravas de confiança, assim como o José da Costa, e no primeiro momento ela não gostou muito de mim, como aconteceu com as outras pretas da casa, que eram bastante esnobes. Fui aceita somente quando me tornei uma delas, e não apenas no jeito de me vestir, mas também tive que aprender inglês e a me comportar de maneira diferente, guardando uma certa distância, pois não gostavam de muita intimidade. Algumas tinham trabalhado somente para ingleses, mal falando o português, visto que muitas famílias pareciam se revezar na casa que pertencia ao governo deles, onde uma bandeira inglesa estava sempre içada no jardim da frente. Percebi que entendiam o português, mas não gostavam de falar, e aquele era também um jeito de se sentirem superiores.

A Domingas já tinha trabalhado em casa de brasileiros e disse que eu precisava parecer mais bem-educada. Quis saber a minha idade, e quando eu disse que tinha quase quinze anos, ela comentou que, se os da casa perguntassem, deveria dizer que tinha no máximo treze, pois a minha função era fazer companhia às três filhas dos senhores, e eles preferiam uma criança, gostei disso, apesar de achar que seria muito diferente, mas ainda me lembrava com alegria da época em que tinha por função fazer companhia à sinhazinha Maria Clara. A Domingas me levou para os fundos do terreno; deixamos o pomar onde estava a casa e descemos por uma escada bastante íngreme, toda de pedra, que ia quase até o pé do mar, pois não havia praia naquele trecho. Depois de descermos quase meia encosta, saímos em um lugar que parecia escavado e aplainado na rocha, que continuava sua descida desabalada, no ponto em que era constantemente batida pelas ondas. Era nessa parte que tinha sido construído um barracão onde os escravos dormiam.

O barracão era todo construído em madeira sobre o terreno rochoso, onde se sustentava preso por chapas de

ferro em formato de cotovelo, aparafusadas tanto na parede quanto no chão. Vendo que não teria como cavar a rocha para fazer um esconderijo, eu me lembrei dos orixás deixados na casa da sinhá Ana Felipa, o que de certa forma foi até melhor, pelo menos até saber como as coisas funcionavam naquela casa. A primeira providência da Domingas foi ver o que eu tinha na trouxa, e quando mostrei as duas mudas de roupa, ela fez uma cara de desdém e disse que não serviam.

Falou para eu me despir e tomar um banho, enquanto ia até a casa ver se conseguia roupas novas, e mostrou um poço cavado na pedra, do lado de fora do barracão, escondido atrás de alguns arbustos. Devia ser o lugar onde todos eles tomavam banho e a água não estava muito limpa, principalmente por causa do limo verde que se agarrava às laterais. Mas, por causa do sol, a temperatura estava bastante agradável, e foi com verdadeiro prazer que fiquei lá dentro até que ela voltasse, trazendo uma muda de roupa, um pedaço de bucha e sabão. Mandou que eu me esfregasse bem e me ajudou com as costas, e quando me virei de frente, percebeu o tamanho dos meus peitos e perguntou se eu já tinha tido filhos.

Eu disse que sim, que estava com três meses e tinha ficado na casa da antiga sinhá. Mais uma vez ela me instruiu a não comentar isso com ninguém da casa, Quando eu disse que o José da Costa já sabia, ela se encarregou de falar com ele, para que isso ficasse em segredo. A roupa que ela me deu era linda, um vestido de verdade, um pouco grande para mim, azul-escuro, com decote discreto e um corte logo abaixo dos peitos, de onde descia franzido até os pés. Depois, a Domingas olhou minha cabeça e disse que teríamos que cortar o cabelo, porque daquele jeito eu poderia pegar piolho e passar para as meninas. Ia desfazendo os rolinhos que eu amarrava com fitas coloridas, ainda do jeito que a minha mãe fazia comigo e com a Taiwo, em Savalu, e

cortava bem rente à cabeça usando uma navalha.

Quando terminou, disse que eu estava bem melhor e parecendo ainda mais nova, o que era bom. Mandou que eu ficasse por ali e que não me sujasse, pois voltaria para me buscar mais tarde e me apresentar à nova sinhá. Fiz uma almofada com as antigas roupas e me sentei sobre ela, a olhar o mar e as ilhas, tentando me lembrar por quantas transformações já tinha passado até então-Missis Clegg, Mary Ann Clegg, a minha nova sinhá, era uma mulher muito bonita. Fui conhecê-la sentada à mesa, onde, todas as tardes, fazia questão de tomar chá junto com as filhas. A Miss Margareth também estava à mesa, sentada ao lado da mais nova das meninas, e foi ela quem falou primeiro, perguntando meu nome em português. Respondi que era Kehinde, para logo em seguida me arrepender por não ter dito que era Luísa, mas elas nem se importaram.

A governanta então conversou em inglês com a Missis Clegg e com as três meninas, que levantaram os olhos das xícaras somente o necessário para olharem rapidamente e dizerem, uma a uma, da maior para a menor, os próprios nomes: Miss Rose, Miss Ruth e Miss Rachel. Só a mais velha, que tinha dez anos, se parecia com a mãe, magra e com o pescoço fino e comprido, como os dedos. Os cabelos eram de um castanho-escuro muito brilhante, que a mãe trazia presos em uma trança enrolada em coque, atrás da cabeça.

A Miss Rose, assim como as irmãs, usava os cabelos repartidos ao meio e presos em duas tranças, amarradas nas pontas com laços da cor do vestido. As três meninas tinham os olhos muito pretos, e as duas menores tinham sardas, enquanto que a pele da mais velha era clara e lisa, como a da Missis Clegg, dando ainda mais destaque ao nariz também muito fino e comprido, e às bocas

maiores e mais carnudas do que se espera em brancas como elas. As outras duas, como percebi depois, se pareciam com o pai, bem mais velho que a mãe, mas tão educado quanto. O Mister Clegg usava os cabelos presos em um rabo-de-cavalo e estava sempre de casaca comprida e camisa fechada até o pescoço, de onde pendia um laçarote que ia até o começo da enorme barriga. Era engraçado vê-lo andar, pois, baixinho, tentava compensar o tamanho das pernas com passos grandes, pausados, as pernas completamente rígidas, a barriga quase fazendo com que se desequilibrasse. A Miss Margareth disse que eu faria companhia às meninas e que deveria estar junto delas em todas as suas atividades, e que elas falariam comigo somente em inglês, que eu deveria aprender o mais depressa possível.

As descobertas

Naquele primeiro dia eu nada fiz, a não ser ir à cozinha duas vezes, buscar água para Miss Rachel, a mais nova, de cinco anos, e com o passar dos dias notei que não ia fazer nada, porque as meninas não sabiam mesmo fazer nada, nem brincar. Acordavam cedo, tomavam o desjejum e tinham aula com a Miss Margareth durante toda a manhã. Almoçavam por volta de onze horas e iam para seus quartos, de onde saíam apenas para as aulas de piano e de canto dadas pela mãe, seguidas do chá.

No que restava da tarde, faziam lição ou passavam o tempo no quarto de brinquedos, que, sem dúvida, era o local mais fascinante da casa. Ficava no andar de cima, ao lado do quarto da Miss Margareth, que por sua vez era ligado ao quarto das duas mais novas, a Miss Ruth e a Miss Rachel. A Miss Rose tinha um quarto só para ela, separado das dependências dos pais por uma sala de banho usada somente pelas meninas e por Miss Margareth, e por uma sala íntima, onde às vezes a Missis Clegg tomava a lição ou lia alguma coisa para as

filhas. Naquela casa lia-se muito; aliás havia uma imensa biblioteca que ficava no andar de baixo, no cômodo que o Mister Clegg também usava para trabalhar.

Tão grande quanto aquela, só mesmo a do padre Heinz, de quem vou falar mais tarde. Era na biblioteca que o Mister Clegg passava a maior parte do tempo, pois quando não estava trabalhando, estava lendo, sozinho ou em companhia da Missis Clegg. Até mesmo algumas refeições eram levadas para ele naquele local, onde pedia para não ser perturbado além do estritamente necessário. Por esse motivo também, para não incomodá-lo, as meninas não podiam fazer qualquer barulho dentro da casa que a Miss Margareth aparecia para chamar a atenção, mandando que fossem para o quarto de brinquedos, onde também não brincavam, já que quase tudo funcionava sozinho.

As meninas tinham vários brinquedos de corda, que ficavam em duas estantes muito bem arrumadas. Cada uma delas entrava no quarto, escolhia um desses brinquedos e brincava sozinha, sem emitir um único som, um sorriso que fosse. Eu me espantei quando as segui pela primeira vez e vi uma boneca rodopiar sozinha sobre os pés escondidos debaixo de uma saia comprida e muito rodada, e elas pareceram se divertir um pouco com isso. Não me atrevi a chegar perto e fiquei parada na porta, olhando e imaginando como aquilo podia acontecer.

Cheguei a pensar em bruxaria, o que não combinava nada com o comportamento delas, e me diverti imaginando o quanto a sinhá Ana Felipa poderia se assustar de verdade. No início, elas não falavam comigo, mas percebi que faziam questão de pegar todos os brinquedos e colocá-los para funcionar, acompanhando a minha reação com o canto dos olhos. Eu não conseguia esconder a alegria ao ouvir soldados batendo tambor e navios apitando, ver bonecos rodopiando, carrosséis com

cavalos que giravam e flutuavam no ar, todos muito coloridos e bonitos. Depois elas começaram a me ensinar os nomes daquelas coisas em inglês, principalmente a Miss Ruth, a do meio, que gostava de brincar de professora e me fazia repetir o nome de tudo que víamos pela frente. Outra coisa de que também gostei bastante naquela casa foi o jeito como éramos tratados, sem qualquer intimidade ou demonstração de sentimento, mas muito respeito.

Durante todo o tempo que fiquei lá, nenhum escravo foi castigado ou mesmo humilhado na frente dos outros.

Quando fazíamos alguma coisa que achavam errado, éramos chamados de lado e advertidos de que aquilo não seria mais admitido, senão simplesmente seríamos vendidos ou devolvidos aOs verdadeiros donos, o que ninguém queria. Éramos bem vestidos, bem tratados e bem alimentados e tínhamos grande liberdade, até mesmo para fugir se quiséssemos, mas sabíamos que a vida fora da casa era bem mais difícil e fazíamos de tudo para ficar. A senzala, que eles chamavam de casa dos serviçais, era limpa e arejada, além de estar situada em um lugar que tinha uma das vistas mais bonitas da baía.

Cada um de nós tinha uma baia individual, que tratava de manter limpa e muito bem arrumada, sendo que nunca senti lá dentro o mínimo cheiro de urina ou de merda, o que era bem comum nas outras senzalas. Isso porque não ficávamos trancados, e quando sentíamos vontade de fazer nossas necessidades durante a noite, podíamos sair e fazer do lado de fora. Não éramos muitos escravos na casa, e por isso trabalhávamos bastante, mas ninguém reclamava, e muitas vezes até ajudávamos um ao outro.

Durante a manhã, quando as meninas estavam em aula, eu ajudava na cozinha, embora preferisse estar com elas, mesmo não entendendo muitas coisas do que estava sendo dito em inglês. Mas acabei aprendendo a

fazer alguns pratos diferentes, como diversos tipos de puddings e cookies. Na cozinha, a Teodora e a Belarmina davam conta de tudo, e a arrumação da casa era feita pela Domingas, pela Anunciata e pelo João Benguela, que era coxo e tinha a alcunha de Benguê, como todos o chamavam. Durante alguns anos ele tinha trabalhado nas ruas como carregador, e de tanto suportar peso teve Um problema em uma das pernas, que não dobrava mais, e por isso andava Pela casa puxando-a como se fosse uma bengala. Fazendo trabalho de escritório, um pequeno cômodo anexo ao local onde o Mister Clegg trabalhava, ficavam o Antony e o Mike, que tinham saído direto da África para aquela casa, dois hauçás muçurumins que mais tarde descobri que se chamavam Ajahi e Sali, e entre o povo dele, era tratado como bilal (Bilal: título de sacerdote muçurumim) Sali.

À noite, antes de irem dormir, o Ajahi, o bilal Sali, o José da Costa e Benguê conversavam muito sobre política, e foi prestando atenção às conversas, que misturavam um pouco de inglês e de português, que fiquei sabendo que os ingleses eram contra a escravatura. Não porque fossem bonzinhos e achassem que também éramos gente, como de fato faziam pensar nos tratando melhor que os senhores portugueses ou brasileiros, mas porque tinham interesse em que fôssemos todos libertos.

O bilal Sali e o Ajahi deixavam um pouco aberta a porta de comunicação do lugar onde trabalhavam, passando a limpo livros de importação e exportação e fazendo contas de impostos e taxas, e ouviam as conversas do Mister Clegg com as pessoas que ele recebia. Quase todos os homens que o procuravam eram comerciantes, também ingleses, com negócios ou representação de negócios na Inglaterra, e queriam favores do governo inglês, que em São Salvador era representado por ele.

Foi naquela casa que fiquei sabendo que não havia mais escravos nem em Inglaterra nem nos seus domínios, que todas as pessoas eram livres para morar e trabalhar

onde quisessem, recebendo dinheiro.

Era isso que os ingleses mais queriam, que todos tivessem dinheiro para comprar as mercadorias produzidas nas grandes fábricas construídas em Inglaterra. Eu já tinha ouvido falar em fábricas quando o Sebastião contou da época em que acompanhou o sinhô José Carlos em visita aos irmãos no Recôncavo, onde um deles era dono de uma fábrica de charutos. O Sebastião disse que tinha gostado muito, pois nem todos os trabalhadores eram escravos, alguns recebiam dinheiro para trabalhar e havia até brancos, talvez estrangeiros.

As visitas

Em uma das visitas que fiz à casa da sinhá Ana Felipa em um domingo à tarde, contei ao Sebastião que os ingleses estavam do nosso lado, não importando com que intenção, e ele disse que já sabia disso e de muitas outras coisas que talvez um dia me contasse. A Esméria chamou a atenção dele, dizendo que não era para me envolver naquelas coisas, e desviou o rumo da conversa, querendo saber como era a vida na casa dos ingleses.

No primeiro domingo em que apareci, todos estavam curiosos e me receberam com muita alegria. Pedi à Antônia que fosse perguntar à sinhá se eu podia ver meu filho, pois estava morrendo de saudades. Ela respondeu que o menino estava dormindo e que assim que acordasse chamaria alguém para buscá-lo, o que só aconteceu no fim da tarde, quando eu já precisava ir embora.

E foi assim em quase todas as vezes que apareci no solar, ela fazendo de tudo para que eu ficasse com ele o menor tempo possível. Enquanto esperava, eu ficava conversando com os outros no fundo do quintal, ao redor de uma bacia de laranjas-da-terra, daquelas muito grandes e doces, com umbigo. Todos me acharam diferente e disseram que não era apenas por causa do

corte do cabelo e do vestido, mas que eu estava com aparência de menina mais nova e jeito de mulher mais velha, mais séria e instruída, quase estrangeira. Eu também achava que estava mudando, e muito, na companhia dos ingleses. Tanto que, com o passar de alguns meses, eu já estava achando insuportáveis aquelas visitas que fazia à casa da sinhá, onde ninguém sabia conversar de outras coisas que não fossem lembranças de África ou da fazenda.

As conversas de que eu mais gostava eram com o Tico e o Hilário, que se transformavam em dois belos rapazes e, pelo jeito, também andavam metidos em assuntos sobre os quais não queriam falar. Mas continuei indo por causa do Banjokô, que crescia muito depressa, e assim que nos víamos quase não me reconhecia, mas depois fazia festa e brincava, sempre ficando a chorar quando eu tinha que ir embora.

O Banjokô era uma criança linda e a sinhá cuidava muito bem dele, como um filho, e até mesmo gostava de dar o banho e de vesti-lo. Ele andava com roupas bonitas, camisolas bordadas e fardas de marinheiro, como em um retrato que a sinhá tinha mandado pintar e que ficava pendurado no quarto que era só dele, ao lado do quarto dela. Sempre que saía à rua, às vezes até mesmo levando-o junto, a sinhá comprava um presente qualquer, fosse roupa ou brinquedo.

Meu filho estava recebendo criação de branco, o que talvez pudesse levá-lo a ser alguém na vida, e eu gostava daquilo, embora soubesse que era tão escravo quanto eu, pelo menos no papel. Ele era forte, saudável, uma criança muito esperta e risonha, mas estava perdendo as feições delicadas com que tinha nascido, sinal de que o meu sangue era mais forte que o sangue do pai. O

cabelo que estava nascendo era bem crespo e, para disfarçar, a sinhá fazia questão de mantê-lo quase calvo.

De três em três dias o Sebastião tinha que passar a navalha na cabeça dele, como quem fazia a barba.

Sempre que ele queria passear um pouco do lado de fora da casa, ver os pássaros que adorava, principalmente os bandos de papagaios verdes e escandalosos que apareciam de vez em quando, a Antônia ou até mesmo a sinhá iam atrás dele fazendo sombra, pois ele estava proibido de tomar sol. Era muito bem tratado, e isso me deixava tranqüila, embora às vezes me preocupasse o fato de não ter conseguido levá-lo à casa do Babalaô Gumfiditimi para o ritual de três meses. Mas, com a vigilância da sinhá, não dava para pensar em sair de casa com ele.

Em um domingo, em vez de ficar com o Banjokô, pedi ao Tico e ao Hilário que fossem comigo ao sítio do Babalaô Gumfiditimi, e aproveitei para levar os meus orixás, que ainda estavam na casa da sinhá Ana Felipa, para que fossem benzidos e ficassem por lá, recebendo uma reza sempre que o Babalaô Gumfiditimi pudesse fazê-la por mim. Levei também uma roupa do Banjokô achando que ela poderia representá-lo no ritual.

Mas não adiantou nada, pois ele teria que estar presente, teria que encostar a cabeça primeiro no chão e depois na bandeja do Ifá. Somente desse modo o Babalaô Gumfiditimi poderia me dizer muitas coisas sobre ele, pois seu destino já estava mais definido, e eu o ajudaria a encontrar o melhor jeito de tocar a vida sabendo como os orixás poderiam agir e quais as providências e oferendas pedidas em troca.

O Babalaô Gumfiditimi chamou a minha atenção porque eu não tinha feito nem a primeira oferenda, as frutas para Ogum, pedida no primeiro ritual, mas disse que não era para me preocupar porque alguém tinha feito por mim. Depois descobri que tinha sido a Esméria pedido dos meninos, com quem eu tinha falado sobre isso ainda naquele dia da cerimônia do nome, enquanto voltávamos

para casa. O Babalaô Gumfiditimi também não quis jogar os búzios para o Banjokô, talvez porque já soubesse o que ia acontecer e não quisesse me contar, por ser mesmo impossível mudar o destino.

Voltei para casa muito triste e decepcionada, achando que os segredos que não me foram revelados por causa da falta do ritual eram muito importantes para ajudar o meu filho, pois eu ia ficar conhecendo as características que ele trazia na cabeça, orí, e as características do espírito que habitava o seu corpo, sua emi, ou alma, e como ele poderia desenvolver e conciliar estas duas coisas, sempre buscando o bem. A boa notícia daquele dia foi que a Nega Florinda tinha conseguido partir para o Maranhão, a bordo de um paquete e acompanhada de duas mulheres que tinham sido chamadas para assentar os voduns na casa da Agontimé.

A partir daquela visita ao Babalaô Gumfiditimi, comecei a ficar com uma grande culpa em relação ao Banjokô, achando que poderia prejudicá-lo por causa da minha negligência como mãe, alguém que deveria se importar muito mais com o lado espiritual dele do que com qualquer outra coisa. Sabendo que ele tinha um quarto só dele, com a ajuda da Antônia, a quem pedi que deixasse a grade da janela aberta, comecei a fugir da casa dos Clegg algumas noites, nem que fosse apenas para observar o seu rostinho durante o sono.

Continuar: parte 3 de 4